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leona-volpe1595987074 Leona Volpe

BEM-VINDO AO SUBTERRÂNEO Aqui os seus sonhos valem ouro Escolha o seu lugar O espetáculo já vai começar! *** Cordélia é uma bancária com um passatempo à primeira vista, inocente: estudar contos de fadas. Apaixonada por um mundo de cores exuberantes e encantamentos traiçoeiros, ela se vê surpreendida quando o cofre de um de seus principais clientes é roubado por um Príncipe Feérico. A sua única pista é uma carta e uma chave de rubi, deixada por um misterioso e sedutor fae que se autointitula Meia-Noite. O desaparecimento do verdadeiro proprietário do tesouro, envolve-a em uma teia de intrigas, em que Cordélia se vê obrigada a adentrar o mundo que sempre admirou através dos livros, orientada pelas pistas de seu guia enigmático, para provar sua própria inocência. Acompanhada de um mago que conhece as entradas para o mítico Subterrâneo, Cordélia deve enfrentar o perigoso Povo do Ar; criaturas imortais, incapazes de sentirem emoções humanas naturalmente, porém desesperados pelo gosto delas - e em 13 horas, ela deve vencer um intrincado jogo de ilusões e encontrar o ouro roubado, assim como seu cliente. Ou sucumbir às sombras escondidas atrás da tentadora beleza do Povo do Ar.


Suspense/Mistério Impróprio para crianças menores de 13 anos.
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ÁS de Ouros

Um relâmpago chicoteou no céu iluminando o manto sombrio da noite. A luz deslizou por um prédio antigo com luzes apagadas, refletindo nas altas janelas de vidro para então afogá-lo na escuridão novamente. Pesadas gotas de chuva tentavam engoli-lo e inundavam as ruas com uma água oleosa que era espirrava de volta para a calçada com a passagem rápida dos carros.

A névoa carregada pelas ondas da ilha de Porto de São Pedro, engolia a cidade com seus tentáculos pálidos, trazendo consigo o perfume misterioso e salgado das profundezas. Ao longe na encosta, contra a luz bruxuleante do luar, era possível ver a sombra dos navios ondulando na água, rangendo suas próprias canções do mar.

As lâmpadas da rua tremeram, piscando algumas vezes e pouco a pouco se tornando mais fortes. A luz se deitou sobre a placa dourada que decorava a frente do prédio escurecido pelo tempo: Oriana, diziam as letras esguias, antes de serem ofuscadas pela explosão repentina das luminárias, espalhando cacos de vidro esfumaçantes por todo o chão.

No lado oposto da rua, uma sombra se alongou feito uma aparição sobrenatural, seguida de sombras menores, com garras e dentes afiados, que reluziam para os relâmpagos que explodiam entre as nuvens. A chuva deslizou por suas formas físicas e o vento lufou sobre suas roupas e cabelos conforme eles atravessavam a rua, despreocupados.

Cinco goblins caminharam com pressa, cochichando entre si, em uma fofoca de sibilos animalescos, com seus narizes longos e olhos escuros demais. Eles correram engenhosos, vertendo seus dedos finos e estranhos e manipulando a fechadura intrincada da porta frontal, liberando a tranca com um estalo que desapareceu entre o estrondo dos relâmpagos.

Eles arrastaram as portas e liberaram passagem para o sexto ser que os acompanhava a passadas elegantes. Quando ele entrou no amplo salão dourado, as luzes se acenderam agraciadas por sua presença, iluminando a passagem, até que os passos suaves fossem interrompidos por um estalo solitário ao seu lado. O visitante se virou para encarar o guarda noturno, apontando um taser em sua direção.

O que é você? — questionou o guarda. Segurava trêmulo a sua única defesa contra aquela criatura, por mais que alguma coisa em seu interior gritasse a plenos pulmões que aquilo não teria qualquer efeito sobre aquilo.

O ser em questão apenas o encarou, inclinando o rosto como se admirasse algum tipo de animal que considerasse muito inferior. Estava trajado em um tipo de moda vitoriana, com uma longa casaca de brocado dourado com arabescos negros. Um lenço ocre se enlaçava com perfeição ao redor do pescoço, assim como calças e botas de couro negro que chegavam aos joelhos, em primoroso ajuste ao corpo esguio.

Cabelos dourados desciam em ondas largas sobre os ombros, brilhando em cascatas de ouro que pareciam atrair as luzes locais para si. Chifres de cervo se erguiam de sua cabeça, seguindo para o teto por quase meio metro e se estendendo feito galhos secos lapidados em alabastro.

— Você tem chifres...— o guarda sibilou. Seus lábios tremiam e os dedos esfriaram contra o dispositivo que empunhava. Nunca acreditou em coisas sobrenaturais; anjos, demônios, fantasmas, mas tinha muita certeza de que estava vendo algo do gênero, algo saído dos pesadelos humanos.

Ele usava uma máscara feita por uma grande folha de carvalho dourado-acobreada, que se adequava com perfeição às curvas brutais de seu rosto, revelando o seu olhar feral pelas aberturas oblíquas. Seus olhos, o guarda notou, eram suavemente mais inclinados que os de um humano, dotados de um brilho sobrenatural, como os de um imenso felino.

Cada uma das lâmpadas que iluminavam o salão explodiu, espalhando vidro quente pelo piso lustroso e alastrando o gosto do medo pela boca do guarda, conforme o lugar pendia para a completa escuridão, fazendo-o engasgar, ainda que numa tentativa de controlar seu próprio terror, dando um passo para trás.

A criatura tinha olhos leoninos, cor-de-âmbar, que cintilavam ferais em meio às sombras como os olhos do seu gato faziam. Não havia nada de humano no visitante, nem mesmo o jeito como as sobrancelhas douradas se curvavam sobre àqueles olhos.

— Eu sou o Ás de Ouros, do Povo do Ar, cujo nome a sua raça nem sequer ousava pronunciar. — o visitante sorriu, revelando grandes presas peroladas que reluziram para o estouro de um relâmpago. O guarda tremeu e suas pernas estremecerem no esforço de sustentar o seu corpo. — Mas parece que vocês ainda se lembram que devem nos temer...

O Ás apontou com uma mão enluvada de couro negro, para as criaturas histéricas e odiosas que o aguardavam perto da sala do cofre. Um movimento tão suave, que o guarda teve dificuldade de achar que era real. Piscou algumas vezes tentando pôr sua mente no lugar, enquanto erguia aquele taser que ele sabia que era inútil.

— Tragam-me o ouro — ordenou o Ás e as criaturas riram com um som que arrepiou os cabelos do humano, sentindo um calafrio descer as garras envenenadas por toda a sua coluna.

Os goblins eram todos parecidos com animais combinados, como se algum deus entediado resolvesse costurar pedaços de cães, ratos e gatos, sapos e macacos na mesma criatura e assim surgissem os goblins; com olhos animalescos e focinhos longos ou achatados. As únicas características que compartilhavam eram o aroma de madeira e folhas apodrecendo, e os dentes pontiagudos e escurecidos. Línguas compridas chicoteavam ansiosas dentro das bocas enquanto sibilavam entre si. O guarda desviou o olhar agoniado com a visão e assim que voltou os olhos para o visitante, gritou e saltou para trás, percebendo o quão próximo ele estava.

Acionou o taser e a corrente elétrica se cravou no peito do intruso, sobre o fraque de seda dourada. Um novo relâmpago iluminou as janelas de vidro, deitando sua luz pálida sobre o Ás, quando a corrente chiou contra o tecido e o loiro a tocou com displicência, sem que sequer sentisse algum incômodo, conforme arrancava os fios de sua casaca e os jogava no piso.

— Ah, isso foi muito indelicado de sua parte... — o Ás volveu, devagar. — Vejamos se eu consigo lhe ensinar um pouco de etiqueta.

Antes que o guarda pudesse tentar um novo golpe ou gritar, ele ouviu o som de um sabre sendo desembainhado e seus ouvidos foram preenchidos com o cantar suave da lâmina.

Até que, como um raio, a lâmina desceu sobre ele, cortando sua garganta. Levou as mãos ao corte, deixando o taser despencar no piso, à medida que se engasgava com o próprio sangue quente que molhava suas mãos.

O corpo pendeu para o chão, sem forças, e, com um último tremor, atingiu o piso com os olhos ainda fixos no Ás. Assistiu entre os últimos suspiros, o feérico limpar a arma e a guardá-la na bainha dourada presa ao cinto.

Os goblins se aproximaram em um enxame por sobre o corpo, tomando o silêncio do saguão com uma cacofonia de bater de dentes e rasgar de carne. Assim que um novo relâmpago iluminou a escuridão, as portas da frente se selaram com um pequeno estalo metálico e a luz leitosa deslizou pelo chão límpido, clareando o espaço vazio onde antes havia o sangue vermelho e o cadáver ainda quente do guarda morto.

29 de Julho de 2020 às 01:51 0 Denunciar Insira Seguir história
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