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A Cobiça de Anna

Mais um final de tarde se encerra um dia de trabalho estressante na oficina mecânica de Heitor, o homem sujo de graxa estaciona seu ford azul na rampa da garagem e mesmo antes de colocar seus pés no chão já escuta uma voz fina e estridente a lhe chamar:
_Heitor! Já chegou?
Sua esposa Anna estava na janela da sala, assim como fazia diariamente nos últimos meses, ela passava o dia observando a nova vizinhança, principalmente o que eles consumiam, a mulher deixara de cuidar da casa e por vezes Heitor sentiu gratidão por não terem filhos, seria um desastre. No início dessa paranoia de cuidar das ações dos vizinhos e cobiçar o que eles tinham, Heitor convenceu Anna a ir ao médico onde foi constatado algum tipo de distúrbio, porém ela jamais aceitou o diagnóstico e nunca seguiu com o tratamento. O fato de a mulher ser fisicamente mais forte que o marido, maior em todos os sentidos, inibia qualquer imposição que ele pudesse fazer. O fato é que Heitor temia as reações explosivas da esposa, ele já estava com os nervos em frangalhos, sua calvície avançara consideravelmente, e tal situação já refletia em seu trabalho.
Naquele final de tarde Heitor mesmo ouvindo os gritos da mulher, respirou fundo e fingiu não escutar, foi andando lentamente até a porta da sala, quando abriu e entrou já recebeu os berros daquilo que um dia foi sua amada.
_Heitor! Seu idiota, ficou surdo? – A mulher gritava sem despregar os olhos da janela. – Você viu o que chegou na casa dos Flanders?
Com a voz desanimada e limpando o rosto cheio de graxa com um velho lenço desgastado, Heitor responde:
_Não amor, não vi.
_Idiota e cego! – Agora a mulher grita encarando a carcaça de seu marido que senta-se no sofá, a mulher tem os olhos estatelados enquanto berra insanamente. _Veja com seus próprios olhos, acabaram de receber uma geladeira de última geração, dessas com 3 portas que cabe um supermercado inteiro dentro.
_Como não temos condições de comprar um supermercado inteiro, uma geladeira dessas não nos fará falta. - Heitor falou despreocupadamente, sem pensar nas consequências.
_Cretino! – A mulher esbravejava com toda a força de seus pulmões. _Não importa se colocaremos ou não um supermercado dentro da geladeira, eu quero uma igual.
_Mas querida, é um eletrodoméstico caro, e a nossa geladeira está funcionando perfeitamente.
_Não me importa, eu quero uma geladeira igual, se aquele operariozinho de uma figa pode comprar uma dessas para a esposa dele, você também pode.
_Mas querida... – Antes que ele terminasse seu argumento recebeu outro berro, daqueles que estremece a casa inteira.
_Eu querooooo!
Heitor pegou a chave do carro e saiu se arrastando, desanimado, em sua cabeça crescia um conflito de sentimentos, hora queria sumir, hora sentia pena da mulher que estava visivelmente doente. Algum tempo depois Heitor retorna com a Nota Fiscal da compra de um refrigerador de última geração, que fora entregue no dia seguinte. Contudo, esta aquisição não foi o suficiente para acalmar a cobiça de sua perturbada esposa, que continuava a passar dias inteiros na janela observando seus vizinhos.
Três dias depois, Heitor está na cozinha almoçando e Anna o chama aos berros:
_Heitorrrr!
O grito estremeceu os nervos dele que deixou os talheres caírem no prato e respirou fundo.
_Você viu o que os Flanders compraram?
_Não querida, eu não vi.
_Um carrinho de cortar gramas de última geração.
_Ainda bem que não temos gramado para aparar a grama.
_Imbecilll! Não me importa se temos ou não um gramado, eu quero um carrinho de cortar gramas igual o dos Flanders.
Sabendo que não haveria outro remédio, levantou-se sem terminar de comer e antes de retornar ao trabalho passou em uma grande loja de equipamentos agrícolas e comprou um carrinho de cortar gramas.
Anna parecia estar piorando, por vezes Heitor tentou convence-la de retomar o tratamento, porém a mulher ficava enfurecida quando ele tocava no assunto e o agredia com tapas e chutes, o homem temia a violência dela por ela ser mais parruda.
Dois dias após receber o carrinho de cortar gramas, Heitor ainda estava dormindo em uma manhã de folga quando sua amada o acorda aos berros.
_Heitorrrr! Você viu o que os Flanders acabaram de comprar?
O homem acordou meio atordoado e demorou para responder a mulher.
_Acorda seu idiota, venha ver o que eles compraram.
Heitor aparece de pijamas na sala coçando a careca.
_O que foi querida?
_O imbecil do Jonatam comprou um equipamento de ar condicionado para colocar em sua suíte, como se a Suelen merecesse tudo isso.
_Querida, saia dessa janela, não temos nada a ver com a vida dos Flanders.
_Eu quero um ar condicionado em nosso quarto.
_Mas querida, estamos com as finanças no vermelho.
_Eu queroooo! Igualzinho o que ele deu para a Suelen.
Heitor sai de casa, seus pensamentos o enlouquecem, suas finanças no vermelho á beira de um colapso, porém, ainda assim ele realiza mais um desejo invejoso de sua esposa, enquanto retornava para casa, pensava no que isso tudo iria dar, o dinheiro acabando com compras sem sentido, e a mulher que já não cuidava mais da casa muito menos do relacionamento.
No dia seguinte, inicio da noite, Anna entrou no banho e Heitor ficou na sala assistindo a uma partida de futebol, de repente ele escutou gritos que vinham da casa dos vizinhos, correu na janela tão frequentada por sua esposa, puxou a cortina de lado a passou a observar do que se tratava. Ele viu por entre as janelas da casa dos Flanders que o casal discutia, em algum momento Heitor percebeu que seu vizinho Jonatam descobrira a infidelidade de Suelen, a briga acalorava a ponto de Heitor pensar em ligar para a policia, contudo, achou melhor não se intrometer na briga do casal. De repente em uma das janelas viu Jonatam sacar um rifle, uma winchester cano duplo e apontar para Suelen que Heitor observava na janela seguinte, ela estava com as mãos erguidas implorando clemencia. Antes que Heitor pensasse em fazer qualquer coisa, viu Jonatam disparar no peito de sua esposa. Heitor se afastou da janela assustado por presenciar um assassinato, deu dois passos para trás e chamou por Anna.
_Anna, corre aqui!
_Não vê que estou no banho seu cretino?
_Ah Meu Deus Anna! – Heitor gritava em desespero.
_O que está acontecendo seu babaca!
_É a Suelen Flanders!
_O que? – Finalmente Heitor conseguiu a atenção de sua perturbada esposa. _Não importa o que ela ganhou de presente do Jonatam, eu também quero!!!
_Mas querida ela... – Heitor estava em transe, sua mente pairava entre a razão e a loucura, estava em uma região dividida pela insanidade de sua esposa e a violência desmedida dos vizinhos quando foi interrompido por Anna.
_Cala a boca e me dê o mesmo que Jonatam deu a Suelen.
_Não diga uma coisa dessas Anna, você não sabe o que diz.
_Cretinoooo ! Eu querooo o mesmo que Suelen ganhou de Jonatam, se não me der vou mata-lo á socos e pontapés.
Naquele instante a ira possuiu Heitor, seu corpo já não obedecia mais sua consciência, com os olhos estatelados ele atravessou a sala e foi até uma loja de armas no centro da cidade onde comprou uma winchester cano duplo, carregou a arma e retornou para casa, chegando passou pelo banheiro que estava vazio e seguiu para o quarto, parou diante da porta, onde chamou por Anna com um sorriso sinistro no rosto.
_Querida eu lhe trouxe o mesmo que Jonatam Flanders deu a Suelen.
_Como? Está ai com você? - Anna fiou em desespero de curiosidade para saber do que se tratava, talvez fosse uma jóia ou algo parecido.
Anna abriu a porta e imediatamente arregalou os olhos soltando seu último e histérico berro, recebeu um tiro de rifle na cara espatifando seus miolos doentes por todo o quarto. Heitor, largou o rifle no chão, lentamente caminhou até a cozinha onde pegou uma cerveja, seguiu até a sala e sentou-se diante da tv, tomou um longo gole da bebida e ainda com a expressão de lunático, disse:
_Gostou do presente querida?

29 de Julho de 2020 às 01:42 0 Denunciar Insira Seguir história
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Fim

Conheça o autor

Eduardo Miranda Paulistano, 47 anos, casado e pai de 3 filhos, amante da música e de esportes em geral, adora o cinema em especial o gênero suspense e terror. Meu primeiro trabalho iniciou em 2008 quando escrevi a fantasia , Maddems, em 2017 finalizei meu segundo trabalho, Um Santo Amigo, escrevi também cerca de 21 contos de terror. e agora me aventuro a escrever online o suspense "A Estrada Escura".

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