kztironi Karina Zulauf Tironi

"Mesmo que todas as células do meu sistema imune enlouquecessem e se espalhassem pelos linfonodos, elas seriam incapazes de tocar a parte mais importante de todas; o meu cerne, quem eu sou de verdade. O câncer estava em mim, mas definitivamente não fazia parte de mim. E, independente de quem ganhasse aquela guerra, eu sobreviveria."


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Eu Não Sou O Que Me Acontece

Acordo porque sinto algo pinicando as costas de minha mão esquerda e quando abro os olhos vejo que é porque tenho uma agulha enfiada ali, de onde recebo soro. Estou deitada em uma cama de hospital, coberta com um tipo de lençol até a barriga e há uma fraca luminosidade lunar vindo da janela do outro lado do cômodo que alcança minhas pernas em faixas azuis. É ela que torna possível a minha visão, mesmo que difícil, do que me rodeia, e meu pai dormindo na poltrona ao lado, um livro aberto esquecido no colo.

Olho em volta naquele quarto pequeno, tão parecido com a sala em que eu recebia o tratamento de quimioterapia, e de repente sinto uma enorme claustrofobia com todo aquele espaço que estava começando a parecer amedrontador demais para mim.

– Pai – chamo baixinho, mas ele nem se mexe – Pai?

Ele sempre teve sono pesado. Meu pai continua dormindo como uma pedra, mas felizmente a porta do quarto se abre e minha mãe entra em silêncio, carregando uma bandeja laranja com um prato do que parecia e cheirava como sopa e um suco de caixinha.

Ela para ao me ver de olhos abertos, uma expressão de alivio colorindo suas feições.

– Ah, graças a Deus você acordou.

Sorrio, mas até para isso eu preciso reunir forças, como se fosse algo tão difícil e exaustivo quanto carregar vinte quilos nas costas. Apoio as palmas das mãos na cama e me empurro para cima para me sentar com as costas na parede.

– Há quanto tempo estive desacordada?

Minha mãe se senta na outra poltrona, a que estava mais perto da cama, e cuidadosamente posiciona a bandeja em minhas coxas, em cima do lençol.

– Faz algumas horas, querida. – Com a proximidade, posso ver o quanto estava cansada, os bolsões abaixo dos olhos opacos, caídos – Carolina estava aqui, mas eu disse para ir para casa já que estava ficando tarde. São duas da manhã, nem mesmo seu pai aguentou.

Espiei sua figura na poltrona, a luz da lua iluminando a lateral de seu rosto, dando-lhe um ar quase que fantasioso, de um ser místico ou algo do tipo.

Volto a olhar para minha mãe.

– Nina estava aqui?

– Ela nos ligou assim que você desmaiou, Eugênia. Ela também não saiu de perto de você por quatro horas seguidas e tive que insistir bastante até que aceitasse seu pai leva-la para casa.

Assinto com a cabeça, me sentindo meio grogue com a situação.

– Coma a sopa enquanto está quente – minha mãe instruiu, indicado a colher ao lado do prato.

Faço isso, mas fico brincando com a colher na sopa sem comer por um momento, então levanto os olhos da comida.

– Nós brigamos feio, mãe.

– Eu sei – suspirou, mudando de posição na poltrona, aparentando desconforto – Carolina contou tudo. E sobre seu... novo corte de cabelo.

Sorrio, mas me sinto triste de verdade.

– Eu me recusei a raspar a sobrancelha dela, ao menos.

– Tenho certeza que Nina ficou chateada e confusa com a quebra da promessa, mas não estou validando o que ela fez. A briga foi sem sentido e completamente desnecessária.

É, conte-me mais sobre isso.

– Nós nunca brigamos, não assim.

O mais perto que Carolina e eu havíamos chego de uma discussão era quando discordávamos sobre o que assistir na Netflix ou nossas diversas teorias sobre a criação do universo e extraterrestres.

Nina teimava que eles tinham cabeças ovais e eram verdes, com três dedos em cada mão e língua de réptil. Já eu achava que eram minhocões gigantes, com um tipo de cérebro tão desenvolvido que eles estavam muito mais perto de colonizar a Terra do que a gente estava de descobrir se eles realmente existiam ou não.

– Deu para ver que ela estava muito arrependida com o modo que machucou você – a boca já fina de minha mãe vira uma linha completamente horizontal – Foi uma grande irresponsabilidade da parte dela. Você está doente e precisa descansar enquanto passa pelo tratamento. A última coisa pela qual deveria lidar num momento desses é uma briga. Espero que Nina tenha consciência disso.

Paro de mexer na sopa.

– Não gosto quando você fala que eu estou doente, como se eu fosse a causa do tumor, mãe. Eu não estou doente. Não tem nada de errado comigo. O câncer é o problema, não o meu corpo.

– Certo – ela diz em seguida, na pressa para se redimir – Me desculpe, é claro que você não tem culpa de nada disso estar acontecendo com você, querida.

Eu lidava com o tumor da melhor maneira que eu podia, e isso era ter um pensamento distante, vendo o câncer como algo aparte de mim, não como algo que se criou e cresceu dentro do meu corpo. Eu não podia e não ia me responsabilizar por ele.

Até podia parecer que o câncer controlava a minha vida agora, com tantas coisas que eu não conseguia fazer por causa dele, todas as idas para a quimio e tudo mais, mas ainda sou eu que escolho o que pensar, o que falar e o que sentir. Mesmo que todas as células do meu sistema imune enlouquecessem e se espalhassem pelos linfonodos, elas seriam incapazes de tocar a parte mais importante de todas; o meu cerne, quem eu sou de verdade.

O câncer estava em mim, mas definitivamente não fazia parte de mim.

E, independente de quem ganhasse aquela guerra, eu sobreviveria.

Eu sou instruída pelo médico a ficar mais algumas horas no hospital, em observação, já que bati minha cabeça no chão ao desmaiar e tinha um lindo e majestoso roxo no meio da testa.

Meus pais ficaram ali no quarto comigo, preocupados se o travesseiro estava macio o suficiente, se eu estava com fome ou se precisava ir no banheiro. Porém, às sete horas, meu pai teve que se arrumar para o trabalho e ficam somente minha mãe e a enfermeira que de tempos em tempos vinha checar o meu estado e me dar algumas balinhas escondido do médico.

Para aumentar o seu nível de açúcar” dizia, com uma piscadela.

– Eu liguei para Nina e avisei que você acordou – minha mãe se levantou para ajeitar o lençol, cobrindo-me melhor – Ela e a mãe estão vindo visitar você.

– Ana? – Ergo uma sobrancelha – Você vai ficar no quarto junto?

– Mas é claro. Vai que ela tenta te influenciar a entrar para o culto satânico dela. – Minha mãe brinca, mas percebo o medo dela que eu faça uma tatuagem de Lúcifer na coxa esquerda e venda minha alma para ele por um celular novo.

O que, pensando bem, não era uma má ideia. Eu estava mesmo precisando de um, depois que tinha derrubado o meu na pia do banheiro enquanto escovava os dentes e agora a bateria mal durava duas horas.

Minha mãe me deixa sozinha no quarto para comprar uma barrinha de cereal na máquina que ficava alguns corredores longe e quando ela volta, minutos depois, ela não está sozinha.

E, não, não era Nina.

O Senhor Dalabona não parece ter sido intimado a me visitar e nem estava algemado, o que me surpreendeu de verdade. Ele não usava aquela máscara de hostilidade, pelo menos não na situação presente, e parecia que havia vindo por pura e simples escolha.

Porém, não posso me impedir de ficar perplexa em vê-lo ali, no cenário mais improvável possível.

– Olá, Eugênia. – Ele diz, parado na porta com a minha mãe.

– Oi – eu respondo – Como você soube que eu estava aqui?

– Eu encontrei seu pai quando ele estava saindo para o trabalho e ele me contou sobre o... acidente.

É claro.

– Eu vou deixar vocês conversarem a sós. – Minha mãe se aproximou da cama para plantar um beijo em minha cabeça e ajeitar, pela centésima vez, o travesseiro – Me chame se precisar de alguma coisa.

– Tudo bem.

Ela saiu do quarto e fechou a porta atrás de si, nos deixando em um silêncio desconfortável por uns segundos.

– Você gostaria de sentar? – Indico a poltrona ao lado.

Ele finalmente se mexe de onde esteve parado o tempo todo.

– Sim, obrigado.

Assim que ele se senta na poltrona muito pequena para seu tamanho, eu me sento na cama e cruzo os braços em cima do lençol.

– Por que você viria me ver? Não foi nada muito grave, meu pai deve ter exagerado um pouco para fazer um draminha, típico dele. – Reviro os olhos, mas estou sorrindo.

O senhor Dalabona levantou o rosto me olhou sinceramente nos olhos pela primeira vez desde que nos conhecemos.

– Eles – ele pausa, como se não soubesse ao certo como prosseguir – Eles me disseram que você tem câncer.

– Ah, não – fecho os olhos e respiro fundo – Por que isso deveria ser uma coisa para se contar para o vizinho?

– Você está morrendo – disse o óbvio e imediatamente se desculpou pelo modo brusco que disse.

– Bom, Sherlock Holmes, morrendo todos nós estamos, não é? – Abro os olhos novamente – Quem te contou? Os médicos?

Eles adoravam cutucar a ferida, de acordo com minhas experiências.

Mas, para a minha surpresa, ele balança a cabeça.

– Não. Foram seus pais.

Resmungo.

Ótimo.

– Sabe o que? Estou pensando em fazer um cartaz bem grande e colar por aí. Um cartaz com a minha cara e escrito em neon “Maria Eugênia tem a porra de um câncer, tá bom??”

– Você não pode culpar seus pais, eles só estão preocupados com você.

– Eu não vejo como contar sobre o câncer para você vai melhorar alguma coisa minha condição. Jesus Cristo, agora é tudo eu e o câncer, o câncer e eu. Pelo amor de Deus, o câncer não é uma pessoa!

Ele ficou em silêncio.

– Eu sinto muito.

– Aí, está vendo só? Eu não quero sua pena, eu não quero que você se sinta mal por mim, tampouco que coloque meu nome em suas orações. Eu estou bem, só tenho um câncer.

Ele olhou para mim como se eu estivesse delirando.

Cruzo os braços, desafiadora.

– O que? Você quer que eu fique aqui chorando? Pois é, eu me recuso. Ouviu bem? Me recuso! Eu não vou me render ao câncer. Eu quero que o câncer se foda! Ele não tinha nenhum direito de estragar a minha vida. Nenhum!

A máquina que controlava meus batimentos cardíacos registra a mudança quando sinto meus olhos arderem com lágrimas amargas. Fecho os punhos com força e sinto-os tremer.

Eu estava cansada daquilo. Eu queria parar o ônibus câncer e descer no próximo ponto.

Senhor Dalabona é pego desprevenido com a minha explosão, principalmente depois que as lágrimas amargas que inundavam meus olhos começam a cair uma a uma.

– Que merda – esfrego o rosto grosseiramente, irritada comigo mesma por ser tão fraca – Eu prometi a mim mesma que não choraria por causa do câncer.

Parece que eu estava me tornando expert em quebrar promessas.

– Maria Eugênia – escuto-o dizer em uma voz suave, depois de se recuperar do susto com meu surto – Você pode chorar, você pode gritar. Não se esqueça que você é humana, está tudo bem desabar de vez em quando, principalmente quando está se lidando com algo tão horrível quanto um câncer.

– Você não entende – forço um riso, balançando a cabeça – Eu não quero ficar me lamentando. Eu quero continuar vivendo a minha vida como uma adolescente normal de dezoito anos. Eu quero ir para festas e acordar em um sofá na casa de alguém que não conheço, viajar para o outro lado do mundo e quero cortar meu cabelo quando eu quiser cortar, não porque uma doença decidiu que me deixaria careca.

Ele tenta alcançar minha mão, mas eu a retraio.

– Eugênia...

– Você não entende porque não tem câncer, tá bom? Você é velho e provavelmente vai morrer quando seu coração se cansar de bater e não porque algum tumor destruirá tudo que é seu por dentro. Sim, talvez você venha a morrer antes, mas você viveu muito mais anos do que eu provavelmente irei e isso não é justo.

O senhor Dalabona ficou quieto, tanto pelo peso do que eu havia lhe dito quanto porque muito provavelmente não tinha como rebater o óbvio.

– É tão injusto – sussurro, deixando os olhos recaírem.

Pela primeira vez desde que descobri o tumor, estava sendo sincera sobre como me sentia. Em frente a um câncer, minha primeira reação havia sido esconder de todos o quão assustada estava e o medo de morrer sem ter realmente vivido e feito as coisas que sempre quis fazer; pular de bungee jump, provar comidas exóticas, montar num camelo...

É tão fácil esquecer quão precioso é estar vivo.

Todos me dizem que estou lidando bem com o câncer e a quimio, mas a questão é que só sou boa em esconder a dor quando parece que estou me afogando.

Tão boa que nem eu mesma havia percebido até aquele momento.

– Aqui – o senhor Dalabona coloca uma fotografia em minhas pernas, sob o lençol – Achei que você gostaria de ver.

Esfrego as costas da mão na bochecha úmida, pegando a foto com a outra mão. Demoro um pouco a entender que o gatinho laranja na foto era Benjamin, do senhor Dalabona.

Benjamin mal deveria ter quatro meses quando a foto foi tirada, pequenininho e magricela, dentro de uma cesta de páscoa.

– Foi tirada no dia que meu amigo o adotou.

– Uau – fungo, passando um dedo por sua figura na foto – Por que ele estava tão esquelético desse jeito?

– Benjamin tinha um tumor perto da coluna. Meu amigo o adotou e pagou por todo o seu tratamento, é um milagre que ele não tenha ficado paraplégico.

Ergo os olhos para o senhor Dalabona, a boca seca.

– Foi por isso que você me trouxe a foto?

Ele fez eu sim e falou, numa voz baixa e macia:

– A veterinária disse que Benjamin era um caso perdido e que devíamos sacrifica-lo para poupá-lo da dor. Mas meu amigo se recusou. Hoje em dia, como você pôde ver, Benjamin está saudável, sem tumor algum.

– Que gentil de seu amigo lhe dar o Benjamin, depois de tudo que passaram juntos.

Dalabona abriu um sorriso triste e, de alguma forma, eu soube o que viria em seguida.

– Meu amigo morreu de leucemia ano passado, por isso que fiquei com o gato. Hugo sabia que não sobreviveria ao câncer e acredito que tenha sido por isso que lutara tão fervorosamente para salvar Benjamin.

– Sinto muito – soltei, o que era surpreendente, visto que odiava quando as pessoas me diziam isso. Mas Hugo havia morrido por causa do câncer – Sinto muito mesmo, Rafael.

Ele não tentou desviar os olhos dos meus, deixou que eu visse a dor por trás deles, nua e crua, e sorriu com certo abatimento.

– Obrigado, Eugênia. – Ele faz uma pausa necessária e respeitosa o suficiente em memória de Hugo antes de continuar – Você entendeu porque eu te trouxe a foto?

Levanto os ombros.

– Para me contar que Benjamin teve câncer?

– Ah, o de Benjamin não era um câncer, apesar de ter sua parcela de gravidade, por ter surgido perto da coluna. – Como eu não digo nada, ele continua – Hugo deu um propósito para sua vida quando decidiu salvar Benjamin a qualquer custo. Seu médico havia lhe dito que ele teria pouco tempo de vida, desabilitado do jeito que estava. Contudo, Hugo viveu por um ano inteiro após adotar Benjamin, contra qualquer diagnóstico do seu médico.

– Você acha que o gato lhe deu forças? – Encrespo o cenho.

– Eu acho que o propósito lhe deu forças. Meu amigo já havia desistido de viver. Ele só estava esperando a morte bater em sua porta. Benjamin lhe deu um sentido para continuar vivendo e lutando, ao menos por mais um ano.

– E com isso você está querendo me dizer que... devo adotar um gato?

– Se quiser. – Ele mantinha o sorriso – Se ainda estiver procurando por um propósito de vida, cuidar de um animal pode ser um bom começo. A questão é, Eugênia, você não desistir da vida, como Hugo havia feito. O câncer é uma doença, não uma premonição, e muito menos um ponto final.

Aquilo me desarmou completamente.

15 de Julho de 2020 às 20:41 0 Denunciar Insira Seguir história
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Fim

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Karina Zulauf Tironi Como escrever sobre mim, quando me torno tantas outras pessoas enquanto estou escrevendo? Só uma menina tentando transformar seus monstros em histórias que possam entreter.

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