sandranaua Sandra Braz

Benta era uma criança que viva sob os cuidados da avó costureira. A convivência com a avó lhe proporcionava momentos de muita cumplicidade e afeto.


Conto Todo o público.

#neta #vovó #boneca
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Benta tinha 5 anos e durante tardes inteiras ficava brincando no humilde ateliê de costura da avó. Era uma menina solitária, pois era proibida de brincar na rua para não pegar micose, sarna, pulga, machucar os pés, ser mordida por cachorro brabo, se estrepar em arame farpado ou ser raptada por alienígenas. Benta acatou resignadamente a clausura e consequentemente a privação da diversão coletiva, mesmo crendo exagerada a preocupação e, portanto, acostumou-se a brincar aos pés da barulhenta e decrépita máquina com suas bonecas de pano fabricadas pela própria avó. Ela e a avó pouco conversavam, a velha tinha paciência curta para as perguntas da neta, às vezes consideradas sem pé nem cabeça. “Ô vovó, pra onde o sol vai quando fica tudo escuro?” Dona Das Dores, entretanto, gostava de narrar histórias de quando ela trabalhou na roça colhendo arroz, milho e mandioca, das vezes em que o pai e os irmãos chegavam da pesca com a canoa cheinha de peixe e eram tratados por até uma noite inteira. Falava também sobre as festas ao som da sanfona do Seu Zé Mondrongo à luz de poronga e foi numa dessas onde conheceu seu Venceslau, vovô Lalau, mas omitia da neta as travessuras compartilhadas com os irmãos e primos como a confecção às escondidas de cachimbos feitos de bambu, o furto dos ovos de galinha e pata dos vizinhos e da vez em que sapecou os cabelos da irmã no fogão a lenha e levou uma surra de passar salmoura nas costas, tamanha traquinagem. A neta ouvia atentamente os causos, embora seus pensamentos muitas vezes estivessem em outro mundo, só dela. Preferia ouvir a avó entoando repetidas canções inocentes que ela sabia de cor e engrossava o coro da cantoria e sempre pedia para a avó cantar suas prediletas. “Ô vovó, agora canta aquela da Jardineira”. Um dia a neta perguntou pra avó: “Ô vovó, quando a senhora vai comprar aquela boneca que tem cabelo de verdade, abre e fecha os olhos, tem sapatinhos e chora?” A avó prometera, após ver os olhos da neta brilharem ao se deparar com o brinquedo na vitrine de uma loja no centro da cidade. Mas foi uma promessa leviana a fim de conformar a neta naquele momento, sem imaginar que ela lembraria ou levaria a promessa á serio. A avó retirou os óculos, remendada uma das hastes com esparadrapo já encardido, olhou para a neta, tão linda, suspirou e respondeu que quando as encomendas de vestido melhorassem porque agora "as coisa tava ruim". Benta pensou em sair na vizinhança, na cidade e avisar que a avó cosia lindos vestidos estampados, rodados, com renda, com manga fofa, com laço e flor, roxos, vermelhos, rosadinhos, amarelos e azuis como anil. Talvez assim fossem encomendados muitos vestidos e sua avó teria dinheiro para comprar a Brigite, a boneca já estava batizada com um nome que ela ouvira na televisão e achou muito galante. Questionou, dessa vez silenciosamente, por que algumas pessoas tinham mais dinheiro que as outras e podiam comprar o que bem queriam, quando bem quisessem. Benta pediria para avó fazer muitas roupinhas com retalhos para Brigite. Das Dores cogitou recorrer às economias que guardava há meses para adquirir uma máquina elétrica que tanto queria para comprar a boneca de Benta.

14 de Julho de 2020 às 21:11 0 Denunciar Insira Seguir história
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