dissecando Edison Oliveira

Ao descobrir um estranho site que anuncia um leilão mais estranho ainda, uma jovem blogueira aceita o desafio de ir até o local.


Horror Impróprio para crianças menores de 13 anos.
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HORROR PARA FANS



O amplo salão era claro como se estivesse a luz natural do dia, ao contrário do que Daniele achava que seria. Para ela, o local deveria ser escuro, sombrio como as trevas. O site dizia muito pouco (apenas informações de como você poderia se tornar um membro, e uma aba na cor vermelha que alertava sobre o tipo de coisa que encontraria caso clicasse em ACEITO), e nada mais que de fato justificasse sua fama ruim.
Daniele considerou a ideia de ir até o infame leilão assim que encerrara a reunião com Marlon, o único membro do blogue além dela, e que por sinal era seu primo. Os dois criaram o HORROR PARA FÃS há cerca de um ano e meio, após uma longa festa de ano novo em que toda família estava se divertindo menos eles. Entediados e com uma certa dosagem de álcool na cabeça, os dois falaram sobre o medo, o bizarro e de como a maioria das pessoas adorava ver coisas assim mesmo que não admitissem em público. No início, o blogue contou apenas com reportagens inúteis sobre lendas locais e crimes chocantes. Depois, Marlon sugeriu que fotos macabras fossem adicionadas, e Daniele achou aquilo um avanço e tanto. Sentiu um certo ciúmes por não ter sido ela a ter tido aquela ideia, e pouco tempo depois, deu-se por satisfeita ao criar uma sessão no blogue. Esta consistia em não apenas escrever sobre um tema incomum, mas de ir até ele e presenciá-lo.
Marlon ficou um pouco temeroso no início (sabia de sites que serviam apenas de chamariz para curiosos), mas com o tempo passando e os visitantes aumentando no blogue após a nova empreitada da prima, convenceu-se e até passou a ajudar em matérias alternativas. Fora ele quem encontrara um site nas profundezas da internet, metros e metros abaixo na web proibida, uma página que o amigo de outro amigo já visitara e dizia que era esquisita. A prima torceu o nariz para a ideia e achou que seria uma perda de tempo, desperdício de material e de espaço. Os dois visitaram o site em uma madrugada de insônia e tédio, e Marlon foi o responsável por decifrar os códigos de acesso daquele lugar. A página não era visivelmente atrativa (apenas uma tela escura com letras em vermelho), e assim que se entrava na página em si, pouco se via. Algumas fotos de baixa resolução e com legendas em negrito estampava boa parte do site, e logo abaixo, onde tudo acabava, havia um endereço de onde aconteceria o próximo leilão. Ao contrário do que Marlon e até a própria Daniele pensavam, as vendas não eram feitas de modo online. Após uma longa discussão sobre quem deveria ir até aquele lugar, Daniele acabou vencendo a disputa após argumentar que Marlon, com sua cara de virgem e espinhas que infestavam seu rosto fino, não passaria confiança para os demais presentes durante o leilão.
Ele sorriu e aceitou o argumento, jogando uma almofada nela logo depois.

O endereço estava correto e o lugar era um pavilhão imenso, afastado e com dezenas de hectares a perder de vista. A noite aproximava-se, deixando o céu com aquele aspecto apocalíptico no horizonte. Marlon estacionou o veículo alguns metros antes da entrada, desejou-lhe sorte e que retornasse assim que obtivesse algumas fotos e uma boa entrevista. Disse também que não estava gostando da aparência daquele lugar, e ambos concordaram que aquela era exatamente a sensação que gostavam de sentir. Daniele ajeitou suas coisas (uma mochila contendo um notebook e uma câmera fotográfica de alta resolução) e saiu no fim de tarde, gostando cada vez mais da ansiedade que fazia seu corpo se agitar.

Sentada na primeira fileira, diante de um palco grande e bastante iluminado, Daniele não conseguia esconder a felicidade. Sorria quase que o tempo inteiro, conversando com algumas pessoas e achando tudo um grande barato. Divertiu-se demais quando o leiloeiro, um sujeito rechonchudo e com chapéu de cowboy, apresentou um dos itens do leilão como sendo terrivelmente eficaz; mostrou um recipiente de vidro para a plateia, contendo em seu interior uma dentadura.
— Com esta coisa horrorosa, minha sogra acabou morrendo, — anunciou o sujeito no microfone. — Ela a engoliu e ficou sem ar. Por tanto, é sim um objeto macabro. Começaremos em mil esqueletos!
Daniele cutucou o homem a seu lado com o cotovelo e cochichou:
— Esqueletos?
— Aqui nos referimos ao dinheiro desta forma. Nada de dólares ou reais.
Segurando o riso, Daniele fez que havia entendido com a cabeça. Logo, uma gritaria de ofertas surgiu no meio das pessoas, cada qual oferecendo valores maiores, aos gritos e ficando de pé.
Aquilo durou pouco mais de um minuto, até um velho de terno oferecer três mil esqueletos e sorrir orgulhoso por ter vencido a disputa. O leiloeiro agradeceu e anunciou o item seguinte, que foi trazido ao palco por uma menina nua que usava uma máscara que imitava um rosto tristonho. Daniele sentiu-se incomodada pela primeira vez e cogitou perguntar se aquilo era aceitável, então lembrou-se de onde estava e permaneceu calada.
A menina, de uns dez ou doze anos, empurrava uma mesa com rodinhas que servia de apoio para uma espécie de aquário. Dentro, uma faca com a lâmina manchada com algo que só poderia ser sangue, estava protegida.
— Isto, — começou a dizer o leiloeiro, olhando para o objeto. — É uma faca muito valiosa. Ela foi a responsável por penetrar nas costas e no pescoço de um homem, há mais ou menos três dias. O sangue já está coagulado, o que só deixa o objeto mais valorizado. Em sua lâmina, a vida de alguém foi tirada, senhoras e senhores. Começaremos com, no mínimo, cinco mil esqueletos!
Uma algazarra logo tomou conta do ambiente, e naquele momento, Daniele considerou oportuno pegar sua máquina e bater algumas fotos. Fez o possível para que a garotinha não aparecesse em nenhuma delas. Tinha algumas dúvidas quanto a veracidade dos fatos, se realmente aquela faca havia sido utilizada em algum assassinato, e até mesmo se a mancha avermelhada era sangue. Já havia comparecido a diversos lugares anteriormente, todos ocultos aos olhos da sociedade, e podia dizer que tinha uma certa experiência com ilusões e realidades. O leilão até ali estava sendo praticamente uma piada, uma reunião com pessoas excêntricas e que já estavam começando a parecer amalucadas, mas Daniele sentia que algo bom ainda iria acontecer e lhe render uma boa matéria. Foi assim em sua última reportagem, onde visitou uma velha que se dizia bruxa e arrepiou-se quando a mesma ressuscitou um pássaro preso em uma gaiola. Por experiência, sabia que o melhor sempre vinha no final, e que aguardar era a chave.
Abaixou a câmera assim que retirou algumas fotos, e acompanhou com um aperto no peito a menina nua se afastar e sumir depois de dobrar o corredor. A faca fora vendida para uma mulher alta e ruiva, que usava um vestido decotado e que mantinha um semblante sério e distante. Daniele pensou se seria uma boa ideia entrevistá-la, perguntar o porquê de ter comprado aquela faca, mas desistiu assim que o leiloeiro anunciou que o próximo item se tratava de uma corda que ele jurava ter sido utilizada no enforcamento de Sadam Hussein. Imediatamente uma voz masculina berrou que oferecia trinta mil esqueletos, e logo depois outro gritou que pagaria trinta e cinco. As ofertas seguiram por mais uns minutos, com o leiloeiro excitado e gritando sem parar, até que um jovem com aparência de executivo arrebatou o objeto pela bagatela de sessenta mil esqueletos.
Algumas pessoas aplaudiram enquanto outras se mantiveram em silêncio, e o leiloeiro, mais suado e agora sem seu chapéu de cowboy, falou por alguns minutos até anunciar que os próximos itens seriam mais simples, porém muito raros.
Anunciou uma gota de sangue que ninguém acabou reagindo, até revelar que se tratava de uma amostra da primeira menstruação de sua sobrinha. Em seguida, retirou um objeto pontiagudo do bolso e o segurou com a ponta dos dedos. Daniele demorou até perceber que se tratava de um espinho enorme. O leiloeiro disse que aquele era um dos espinhos da coroa que o Senhor utilizara quando fora preso na cruz, e os lances iniciais não foram menores que cem mil esqueletos.
Não demorou para que aquela venda acontecesse e o próximo item fosse anunciado, este com muita seriedade e exigindo uma voz mais grave por parte do leiloeiro.
— Na palma de minha mão, — dizia ele enquanto exibia um pequeno objeto na mão estendida. — Está um dente de leite. Ele pertencera a alguém muito especial. Ele custou cinquenta centavos para a fada do dente na época. E a pessoa, dona do dente, ficou tão feliz que guarda até hoje esta moeda.
O corpo de Daniele gelou. De repente, o calor que persistia dentro do pavilhão pareceu desparecer, dando lugar a um ar gelado e tenso. Tentou entender que aquilo era apenas uma coincidência, mas sentiu as pernas amolecerem assim que levou uma das mãos até o interior da mochila e não encontrou sua moeda da sorte lá dentro. Os olhos do leiloeiro estavam apontados para ela, e sua mão, gorda e suada, exibia o pequenino dente de leite.
— Seremos mais justos que a fada, e iniciaremos com cem esqueletos — revelou o leiloeiro, sorrindo depois.
Uma coisa que Daniele supôs ser a sua consciência, gritou que já estava na hora de se levantar e sair, caminhando devagar e depois correndo, tropeçando pelo caminho de grama até encontrar com Marlon na entrada a alguns metros dali. Aquilo renderia uma boa matéria (talvez a mais pessoal até então) e quem sabe depois daria um tempo, pediria ao primo para seguir mantendo o blogue sozinho enquanto ela descansasse, tentando deixar seu vício em coisas sinistras para lá. Fez uma rápida menção de se levantar quando foi interrompida por mais um anúncio do leiloeiro. Este falou sobre uma cabeça e da importância dela ser tão jovem. Daniele não quis olhar, mas olhou, e viu mesmo sem querer acreditar, que aquela cabeça repousando em uma bandeja de prata no centro do palco era sim a de seu primo Marlon.
— Está fresquinha, — disse o leiloeiro, e espremeu uma das espinhas da cabeça do rapaz.
Daniele deixou-se cair de joelhos, gritou até sua voz desaparecer e virou o corpo na intenção de levantar e sair em disparada. Moveu-se de um jeito rápido e atrapalhado, viu com pavor que todos ali olhavam para ela, sem expressão alguma em seus rostos que não eram mais humanos, apenas coisas com órbitas vazias e lábios azulados.
Escutou o leiloeiro anunciar o próximo item e desejou apenas que tudo acabasse muito rápido.

9 de Julho de 2020 às 19:05 1 Denunciar Insira Seguir história
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Fim

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Karimy Lubarino Karimy Lubarino
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