tsrsilva Thiago Silva

Tomas da Costa Albuquerque é um investigador particular que se especializa em crimes e desaparecimentos de natureza incerta. Ao receber um telefonema de um amigo, em uma madrugada chuvosa, o investigador se prepara para mergulhar novamente em um mundo de manipulações, assassinatos e criaturas esquecidas.


Suspense/Mistério Para maiores de 18 apenas.

#fantasia #folclore #investigação-criminal
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Capítulo 1 - Caso Strzyga

Já era tarde da noite quando recebi o telefonema. Estava deitado na cama, contemplando o teto do quarto enquanto esperava o sono chegar. A luz da tela do celular iluminou o cômodo com uma luz azul febril, machucando meus olhos acostumados com a escuridão. O vibrar insistente do aparelho me irritava tremendamente.

Olhei para a luz vermelha do relógio digital que descansava no criado-mudo ao lado da cama. 2:36 AM. Tive de me sentar e respirar fundo para me acalmar. Busquei o aparelho telefônico com a mão esquerda, ansioso por silenciá-lo.

- Alô?

Uma voz grave, rouca, respondeu do outro lado da linha.

- Oi Tomas. É o Paschoal Moreno, aqui do IML. Me desculpa ligar a essa hora, mas trouxe um corpo para cá que pode estar ligado à alguma das suas operações.

Não pude evitar o suspiro de desconforto e impaciência.

- O corpo pertencia à alguma pessoa desaparecida?

- O pessoal da 1ª SDP está checando o banco de dados deles e planejam instaurar um inquérito para levantar uma relação de pessoas desaparecidas na região em que encontraram o indivíduo. Sem identificação nos pertences da vítima, então não sabemos quem é. Não tenho mais informações além dessas.

- O corpo possui sinais de agressão?

Foi a vez de Paschoal suspirar.

- Olha, eu já tenho um laudo completo pra enviar pra delegacia. Eu realmente não precisava te ligar. Mas, em respeito à nossa amizade, achei que deveria. Que poderia ser do seu interesse. Vou preparar o despacho antes de fechar as coisas por aqui. Se você quiser ver o corpo e ouvir o que descobri, venha agora. Senão, você vai ter de lidar com o pessoal da polícia e com o diretor, ambos te enchendo o saco.

O silêncio veio abrupto logo em seguida. Desliguei o celular, ponderando se deveria visitar o médico. Eu não possuía investigações em andamento e não conseguia pensar como que um corpo qualquer, encontrado em algum lugar qualquer, poderia ser do meu interesse. O porém era que eu confiava em Moreno. Ele sabia dos meus interesses.

Joguei minha cabeça para trás e gemi alto, tentando expulsar a tensão. Frequentemente me perguntava por quê havia escolhido aquela profissão. Ou por quê ela me escolhera.

Levantei vagaroso da cama e caminhei até o banheiro. Precisava de um jato de água fria no corpo, reanimar a mente. Busquei um café e uma banana na cozinha, logo após me secar e vestir um conjunto de roupas surradas. Deixando meu pequeno apartamento para trás, desci as escadas estreitas do pequeno prédio que habitava, lutando para organizar, com uma única mão, carteira e celular nos bolsos de minha calça, enquanto equilibrava chaves e um copo térmico cheio de café na mão esquerda. Caminhei languidamente até meu carro, que descansava solitário na garagem majoritariamente desabitada. Dei partida, abri o portão e deixei o velho prédio para trás, em uma viagem de cerca de quarenta minutos que ligava Matinhos até o IML em Paranaguá.

A chuva caia intensa e encharcava a estrada, atrasando por alguns minutos a minha viagem. No caminho, enviei uma mensagem à Paschoal, indicando que iria demorar um pouco para encontrá-lo. O maldito recebeu e leu a mensagem, mas não me respondeu. Meu estômago revirava violento; o café parecia agitar o vazio em minha barriga. Ou a ansiedade crescente que me acometia se transformava em náusea.

Saindo da rodovia federal e entrando na estadual, pude ver a luz fraca da cidade portuária se erguendo contra o céu escuro. Não gostava daquela cidade. Ela parecia liberar um cheiro podre que crescia debaixo da terra, indicando a existência de coisas estranhas acontecendo sob a superfície. Um reduto útil para as maquinações de grupos escusos que residiam na capital.

A fonte de todos os meus problemas.

Deixei a 277 e segui pela Avenida Ayrton Senna, costurando meu caminho até chegar no aeroporto e seguindo em frente em direção ao centro histórico. Minutos depois, estacionei meu carro em frente ao prédio da Polícia Científica. Caminhei sob chuva até o prédio de pastilhas verde e azul que comportava o Instituto Médico Legal de Paranaguá. Enviei uma mensagem para o médico legista me receber no estreito portão gradeado. Me mantive fora do alcance da câmera de vigilância que repousava logo na frente do prédio, apesar de saber que ela estaria desativada.

Segundos depois de enviar a mensagem, um homem alto e robusto saiu do prédio carregando um amplo guarda-chuva escuro e abriu o portão para que eu pudesse passar. Completamente encharcado, entrei na sala principal do prédio, aparentemente abandonado aquelas horas. Atrás de mim, Paschoal fechava o guarda-chuva e alcançava uma toalha que repousava em um dos assentos da sala de espera. Ele havia se preparado para me receber.

- Está tudo muito quieto por aqui, não? Digo, eu achava que o lugar ficava aberto o dia todo.

Paschoal deu de ombros.

- Estamos com falta de pessoal. Especialmente de médicos-legistas. O diretor expediu um ofício denunciando a redução no quadro de servidores, mas até agora não tivemos nenhuma manifestação do Governo do Estado.

- Isso não deveria significar uma diminuição no expediente? Por quê você está emitindo laudos no meio da madrugada?

O médico meneou a cabeça e apontou o corredor que levava à sala de necrópsia.

- O diretor emitiu uma solicitação para realização urgente de procedimentos necroscópicos, a pedido da polícia civil. Hoje foi um dia infernal, Tomas. Infernal. Eu estava no meio do expediente quando chegou a solicitação pra retirada do cadáver. Felizmente, estamos com uma estagiária da federal que me ajudou como auxiliar.

- E o diretor? Ele também não é médico-legista?

- Ele mal consegue lidar com os laudos e atribuições administrativas de rotina. Teve de parar tudo só pra analisar o requerimento da PC, que pedia urgência na retirada e necropsia.

- Mas, se a polícia não sabe quem é o indivíduo, por quê a urgência no processo?

Paschoal me mirou com o canto dos olhos enquanto empurrava a porta da sala de necropsia. Era um cômodo pequeno, com duas mesas metálicas usadas nos exames. As paredes bicolores, metade brancas e metade ciano desbotado, esfriavam terrivelmente o ambiente. Meu corpo inteiro tremia e eu não sabia se era por causa do ambiente frio e roupas encharcadas, ou pela antecipação.

Em uma das mesas repousava um corpo nu, completamente descoberto. O cadáver era de um homem alto e esguio, pálido em sua totalidade, com exceção de seus finos cabelos escuros. Em um primeiro momento, achei que encontraria o corpo aberto, pronto para ser examinado. Mas Paschoal havia suturado todas as partes informativas. O médico me estendeu um formulário, preso à uma frágil prancheta de madeira, que continha informações que ele havia anotado durante a execução da necropsia e que não foram incorporadas no laudo oficial. Aquele documento servia apenas aos meus propósitos.

Enquanto esperava, Paschoal iniciou a narrativa de suas descobertas. Era algo desnecessário naquela altura, já que os resultados de sua análise estavam pormenorizadamente detalhados no formulário. Porém, falar sobre seu trabalho era algo que gostava de fazer quando eu estava por perto.

- O indivíduo é um homem de idade aproximada de 26 anos, altura 1,72 metros e peso de 66 quilos. Não possui sinais de agressão na pele; sem perfurações ou hematomas, apesar de sua caixa torácica estar completamente destruída. Os pulmões foram perfurados, mas não há sinal de hemorragia. Exames macroscópicos dos elementos do trato digestório não indicam envenenamento, mas é preciso um exame toxicológico para descartarmos essa possibilidade.

- Quando terão os resultados?

O médico soltou uma risada esnobe e meneou a cabeça negativamente. Ignorando minha pergunta, prosseguiu seu monólogo.

- O cadáver teve seu sangue completamente drenado antes do óbito, mas não é possível determinar qual pode ter sido o procedimento utilizado.

- Você retirou os caninos?

Paschoal retirou um frasco de vidro contendo dois pares de dentes pontiagudos do bolso de seu jaleco e me entregou. O desgraçado tinha razão; aquele cadáver era do meu interesse.

- Provavelmente você terá de retornar aqui quando a estagiária estiver. Ela estava aqui quando analisamos a arcada e notou o formato particular dos dentes. Você vai precisar explicar isso pra ela.

Dei de ombros.

- Ossos do ofício.

Dobrei o formulário e o guardei no bolso de trás da minha calça. Certamente teria de arranjar um jeito de secar aquilo quando chegasse em casa.

- Deixa ver se eu entendi. A polícia queria urgência pro IML dar um parecer do óbito bizarro de um ninguém. Ou alguém que, na teoria, eles não sabem quem é. Isso é um pouco cômico, pra falar a verdade. Onde encontraram o corpo?

- Em um terreno abandonado próximo ao porto. Provavelmente você deveria ir lá pra ver se encontra algo mais informativo. Mas não sei como está o acesso à área durante a investigação.

Balancei a cabeça, indiferente.

- Deve ter tudo ido pro saco com essa chuva. Tudo que importa, pelo menos. Mas vou ver o que faço.

Estendi a mão para Moreno, agradecendo-o pelo esforço em me ajudar mais uma vez. Um sorriso cresceu tímido por detrás de sua barba grisalha.

- Você vai correr atrás da pessoa que matou esse cara?

- Provavelmente. Só não sei como vou conseguir fazer dinheiro com isso.

- Você sabe que a polícia sabe mais do que diz, não é.

- Ah, sim. Certamente já estabeleceram uma ligação do corpo com os Zieliński. Só não querem que alguma merda exploda antes de terem certeza. Totalmente compreensível, dada a influência daqueles porcos.

Balancei o frasco contendo os dentes, como agradecimento, e deixei o prédio do IML para trás. Precisava voltar para casa, tomar um banho quente e procurar alguma padaria aberta para tomar um café da manhã decente. Afinal, era a melhor maneira de iniciar o dia: engolindo um pão na chapa e me preparando para extorquir dinheiro de magnatas centenários.

8 de Julho de 2020 às 23:11 4 Denunciar Insira Seguir história
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Mario Ranzani Mario Ranzani
adorei a historia, muito bem escrita, instigante. (mae)
Isís Marchetti Isís Marchetti
Olá, tudo bem? Faço parte do Sistema de Verificação e venho lhe parabenizar pela Verificação da sua história. Primeiro de tudo, devo dizer que o tema abordado na sua história já me fisgou desde o começo. Eu amo temas assim, sobrenaturais e é muito difícil encontrar hoje em dia histórias com esse conteúdo e com um bom desenvolvimento. Por isso, preciso dizer que até aqui sua história me deixou completamente fascinada. A coesão e a estrutura do seu texto estao magníficas, apesar de ter um único capítulo disponível até o momento, ele já me deixou com várias impressão fortes. A sinopse está bem construída e de forma indireta ela meio que mostra o que iremos encontrar no enredo e isso só aguça mais ainda a curiosidade. Quanto aos personagens, ainda não dá para dizer muito sobre Tomas, mas já deu para captar alguns sinais sobre sua personalidade, às vezes ele parece desgostoso com o serviço, mas apesar disso eu acredito que ele tem um motivo para ter entrado nesse ramo, e eu estou muito curiosa para saber sua verdadeira história e conhecer mais sobre ele. Outro também que me deixou curiosa é a nova estagiária, algo me diz que ela vai ter um papel muito importante pela frente. Quanto à gramática, você escreve muito bem, mas tem alguns apontamentos que eu aconselharia você a rever, como por exemplo: No começo você apresenta o médico legista como sendo "ele" um homem, mas então em um trecho você deixa a seguinte frase: "Ela sabia sabia dos meus interesses" então isso pode causar uma certa confusão no leitor. Outro apontamento é; "saindo da rodovia federa" em vez de "saindo da rodovia federal", eu acredito que esse errinho tenha sido apenas de digitação e isso não interfere tanto e nem deixa nada confuso, é só um apontamento que cabe a você saber se vai querer deixar assim ou não. Mas no geral, sua história me encantou em vários pontos e eu pretendo acompanhar até o final. Desejo a você sucesso e tudo de bom. Abraços.

  • Thiago Silva Thiago Silva
    Ola Isís. Muito obrigado novamente por sua leitura precisa e contribuições valiosas. Consertei as incoerências e erros no texto causados por algum equívoco de digitação. Ainda assim, vou retornar ao capítulo para tentar rastrear incompatibilidades na estrutura do texto. Muito grato pelo seu suporte e da equipe do Inkspired no processo editorial. Abraços 4 weeks ago
Mario Ranzani Mario Ranzani
Uauuu, história nova, totalmente excelente, adorei.
July 08, 2020, 23:32
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