claratucker Clara Tucker

Clara tem que lidar com seu vizinho insuportável Malcolm Tucker durante a quarentena.


Fanfiction Seriados/Doramas/Novelas Para maiores de 18 apenas. © Doctor Who e The Thick of It não me pertencem, fanfiction escrita sem fins lucrativos.

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Distanciamento

Clara se achava a pessoa mais azarada do mundo por ser vizinha de Malcolm Tucker. Não pensava muito nisso quando ainda trabalhava pois estava quase sempre fora de casa, mas agora que se encontrava em quarentena devido a pandemia do covid-19 ela percebia o quanto aquela situação era indesejável. Ela morava sozinha com seu gato, o esteriótipo da mulher solteira de trinta anos, e durante a quarentena ela dava aulas por meio de vídeos o que achava muito solitário. Gostava de estar com seus alunos e aulas a distância não eram a mesma coisa.

Seu pai às vezes ligava para perguntar se estava tudo bem pois ela morava sozinha e ele se preocupava, Linda aproveitava a chance para ressaltar o fato de que Clara não era casada. Além disso havia um ou outro amigo que se lembrava da existência de Clara e lhe mandava uma mensagem. Amy perguntou como estavam as coisas e depois que Clara respondeu que estava tudo bem ela nunca mais disse nada. Ela supôs que uma parte disso era sua culpa pois não era boa em manter contato com os amigos, não sabia o que as pessoas esperavam que ela dissesse em conversas. “Oi, como vai? Bem, e você? Bem.”, depois disso Clara não sabia continuar.

Mas o pior de tudo era Malcolm Tucker. Sabia de sua reputação pois lembrava de quando ele era diretor de comunicações do governo e vez ou outra aparecia nos jornais. Estava sempre tentando encobrir algum escândalo dos poderosos, até que foi finalmente preso. Não sabia bem o que tinha acontecido com ele depois disso, mas deve ter continuado a cair pois estava ali morando no mesmo prédio que ela.

Malcolm gritava e resmungava constantemente e não poupava as “palavras feias”, como ela dizia aos seus alunos. Falava ao telefone, ou talvez sozinho, mas estava sempre se dirigindo a alguém e reclamando de um outro alguém. Clara percebeu que nada parecia ser culpa do próprio Malcolm e sim de outras pessoas. “Aqueles fodidos baba-ovo do PM que me enfiaram nesse fim de mundo e colocaram todos nós nessa merda de situação”, ela o ouviu dizer certa vez. “Eu quando sair daqui vou degolar cada um deles, começando com aquele palhaço de merda do Ollie. É, ele mesmo, o aprendiz de satanás, cérebro comido por ameba. Eu ia chamá-lo de putinha do PM, mas eu tenho mais respeito pelas profissionais do sexo do que tenho por aquele excremento de besouro.”

Clara não se importava com os assuntos do Malcolm ou o que ele dizia, mas às vezes seus gritos atrapalhavam seu trabalho e quando isso acontecia ela ia bater na porta dele.

– Sr. Tucker, tenho aulas para gravar. Poderia falar mais baixo? – ela pediu, na primeira vez havia sido simpática.

– Tem aulas pra gravar? Bem, eu tenho uma porra de um país pra tirar da lama, doçura. – ele respondeu atrás da porta. – Acho que meu trabalho é um pouco mais importante do que ficar lendo verso merda de poeta morto que só falava em bebida e droga. Ou sei lá que porra é que você ensina.

– Eu não entendo como um homem velho, fracassado e esquecido pode influenciar em algo no andamento do país. – ela retrucou na hora. – Já bastam os loucos que temos governando, não precisamos de mais um.

– Sou eu quem mantém o hospício em ordem, meu bem. Sou a enfermeira Ratched dessa porra. Você ensina? Aposto que deve dar trabalho adestrar aqueles animais que chamam de alunos. Imagine como ficaria esse país sem o papai aqui tomando conta. Veja a merda em que estamos só porque eu fiquei preso por um tempo.

Malcolm não mudou de atitude e Clara ficava cada vez mais irritada com ele. Queria encontrá-lo fora de casa para lhe dizer umas coisas olhando diretamente em seu rosto. Porém Malcolm não saía de casa nem para fazer suas compras, o que ela achou até sensato já que ele fazia parte do grupo de risco. Ao invés disso era sua secretária quem cuidava desse serviço, ou pelo menos Clara pensou ser sua secretária embora achasse isso estranho já que ele não estava mesmo trabalhando. Ou estava?

– Com licença, você trabalha para o Malcolm? – Clara perguntou quando viu a mocinha no elevador certo dia.

– Sim, eu sou a secretária particular dele. – ela respondeu, Clara mal conseguiu ouvir a resposta por causa da máscara que ela usava.

– É “Sam”, não é? Eu o ouvi dizer seu nome algumas vezes. – a outra assentiu, confirmando. – Você parece conseguir falar com ele melhor, poderia pedi-lo que fale mais baixo? Eu sou professora e acho difícil gravar minhas aulas com ele gritando. As paredes daqui são finas, sabe?

Sam deu-lhe um olhar penoso.

– Posso tentar, senhorita, mas o Sr. Tucker tem o jeito dele de fazer as coisas.

“Mas o que isso quer dizer?”, Clara perguntou-se. Ela logo descobriu o que isso queria dizer quando Malcolm veio bater na porta do apartamento dela.

– Alô? Aqui é a casa da professora Srta. Honey?

– Malcolm, você não pode tocar a campainha? Ou pelo menos bater na porta com menos força?

– “Malcolm”, é? Eu espero um jantar antes de ter essa intimidade com uma mulher, mas se bem que você já me fodeu por trás, não foi?

– Do que é que você está falando, seu grosso?!

– Estou falando de quando você foi choramingar com a minha assistente. Pensou que eu não ia ficar sabendo? Mas que atitude infantil, reclamar de mim pelas costas, aprendeu isso com seus animaizinhos?

– Eu reclamaria de você na sua cara, mas você nunca abre a porta!

– Pois pode abrir a sua agora, princesa. Sou todo ouvidos.

– Não posso. Acabei de lavar minha máscara e ela ainda não secou.

– Como assim? Você só tem uma máscara? Mas que porra de prevenção é essa? E eles te deixam ensinar crianças? Agora já entendo como esse país chegou nesse ponto…

– Cale a boca! Cale a boca, Malcolm! – Clara explodiu. – Estou exausta dos seus gritos! Todos os dias eu vejo as notícias e só há morte e doença, e ainda tenho de aguentar você gritando! Estou cansada, Malcolm, cansada!

Clara ouviu sua voz soando diferente e percebeu que estava chorando. Não tinha chorado desde o começo da pandemia e aquele era o pior momento possível para começar. No entanto, pareceu ter surtido algum efeito no Malcolm pois já falava mais baixo.

– Merda, querida, estamos todos putos com a vida. Desculpe se meus gritos não estão ajudando, do meu ponto de vista eles sempre me acalmaram, sabe? É muito bom gritar com aqueles merdas que nos colocaram nessa situação, e também com os merdas que não ajudam em nada. Como você gritou comigo ainda agora.

– Sim, gostei de gritar com você.

– Sou bom em fazer uma mulher gritar. É pena essa questão de distanciamento social senão eu poderia mostrar. Seríamos um par bonito, você e eu.

– Seu abusado, você nem sabe meu nome!

– Clara Oswald, não é? Eu perguntei ao porteiro. É meu trabalho saber de tudo, querida.

– Você não sabe qual é minha aparência.

– Sei sim, doçura. Essas redes sociais já me deram muita dor de cabeça, mas também já me ajudaram. Eu pesquisei “professorinhas mandonas que gostam de se meter nos assuntos dos outros e não param de falar” e encontrei seu perfil no Facebook.

– E o que achou?

– Minha opinião profissional? Acho melhor você começar a usar vestidos mais longos se quiser ser levada a sério, professora. Mas não estou reclamando pois gostei do que vi, mesmo que mulheres baixinhas não façam meu tipo.

– Bem, você também não faz meu tipo. Mas também não tinha uma aparência tão má assim, pelo que eu lembro dos jornais.

– Porra, querida, está mesmo querendo me agradar. Os jornais sempre escolhem as piores fotos. Especialmente hoje em dia em que todo mundo quer ser jornalista, se eu sair do prédio agora você vai ver fotos novas minhas pela internet inteira.

– Agora fiquei curiosa para saber como a quarentena está lhe tratando. Você pode me mandar uma foto sua. Eu não venderia a ninguém, pode confiar em mim.

– Sei… posso mandar uma foto minha se receber uma sua de volta.

– Está bem.

– Nua.

Clara não lhe enviou uma foto sua nua, mas ela mandou uma foto mostrando como ficava em casa durante a quarentena, com as roupas largas demais e os cabelos despenteados, e uma foto do seu gato que fez o Malcolm passar a chamá-la de “doida dos gatos”. A foto que Malcolm lhe enviou de si mesmo também não era muito lisonjeira, mas a fez rir e ela não fazia isso há muito tempo.

Para sua surpresa, Clara descobriu que gostava de conversar com o Malcolm. Talvez a quarentena tenha mexido com sua mente. Também achava estranho ele dar tanta atenção a ela e imaginou que essa amizade esquisita ia acabar com o fim da pandemia. Não acabou.

Demorou um ano para Clara e Malcolm finalmente poderem se encontrar de verdade. Era um tanto estranho, como se estivessem num relacionamento a distância mesmo morando um ao lado do outro.

– Então você é mesmo de carne e osso, querida. Pensei que era uma alucinação da quarentena. – ele disse com um meio sorriso.

Clara o abraçou, segurando-o com força, e ele a abraçou de volta. Foi a primeira pessoa que ela abraçou quando a pandemia acabou. Malcolm beijou o topo da sua cabeça, suas bochechas, sua boca e seu pescoço.

– Devo estar mesmo desesperado por contato físico pra sair me arrastando atrás da doida dos gatos.

– Ou talvez seja porque nenhuma outra mulher quer você.

Malcolm apenas riu, era assim que conversavam e de alguma forma nenhuma das partes sentia-se ofendida. Pelo contrário. Viveram naquela bolha particular todos os dias depois que a pandemia acabou. Clara percebeu que a quarentena foi simultaneamente a pior e a melhor coisa que lhe aconteceu. Às vezes o destino era engraçado assim.

8 de Julho de 2020 às 02:30 0 Denunciar Insira Seguir história
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