nathymaki Nathy Maki

Um conto sobre assexualidade e arromanticidade e como ser diferente não significa ser anormal.


LGBT+ Todo o público.

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Conto
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Capítulo Único

Há uma fila a sua frente, imensa e interminável, serpenteando em voltas pelo vazio inacabado. Você aperta os dedos com mais firmeza em volta do delicado objeto e morde os lábios de forma ansiosa pela espera. A sua frente, as pessoas murmuram ruidosamente e você se pergunta como algo tão baixo pode ser tão aterrador. O barulho zumbe ao seu redor, trechos de diálogos ensaiados, dúvidas e preocupações que rugem como o mar agitado.

— Ganhei uma nova rachadura.

— O meu mudou de cor.

— Acho que aconteceu ambos comigo.

— O meu veio em uma casca errada.

— Não se preocupe, o Cupido pode dar um jeito nisso.

É o que você espera. Foi para isso que veio.

Involuntariamente, seus olhos espiam os demais aspirantes. Suas mãos bem abertas, os dedos envolvendo de qualquer jeito o frágil pedaço de vidro nelas seguro. Cores vibrantes te espiam de volta, pedaços rachados espelham-se em seus olhos. Há tantos amores e decepções que você nem mesmo sabe por onde começar. Tantas experiências, tanta normalidade. O amor, dizem eles, é uma caixinha de surpresas e pode ser encontrado onde menos se espera. No entanto, você apenas o observa de longe, o entende, mas não o conhece de verdade.

Eu não acreditei quando meu coração brilhou por aqueles dois.

— O meu rachou ao vê-lo partir, mas é apenas mais um em uma longa lista de perdas. Vou me curar. Sempre existe uma nova chance.

Você olha timidamente para o próprio coração cerrado em suas mãos, escondido da vista de todos. Ele te encara de volta, refletindo o branco mais puro que se pode encontrar, reluzindo intacto em fragmentos de arco-íris. Não há nada ali, nenhuma história para se contar ou evidências a se mostrar que algum dia ele tenha sido utilizado. O murmúrio cresce. Passos são dados. De onde está, você já pode ver o arco de tecidos erguido em seu destino final.

Você se pergunta quanto tempo irá demorar.

Em sua pressa, seu pé tropeça em uma pedra pelo caminho e suas mãos se abrem para se equilibrar, deixando seu pequeno coração à mostra para todos. Eles te olham espantados, bocas abertas e dedos acusadores, olhos descrentes e julgadores.

— Como alguém pode ter o coração branco?

— Onde estão as cores? Ela nunca amou?

— Onde estão as rachaduras? Ela nunca perdeu um amor?

— Onde? Onde? Onde?

É o que você sempre se perguntou. As vozes aumentam em suas críticas. Você cerra os olhos e finge não as ouvir. Finge que cada palavra não é como uma seta cravada em seu corpo. Foca apenas em seu destino final, esperando que ao chegar tudo vá ser diferente. Mas não consegue evitar de pensar.

Você se pergunta se há conserto.

Você se pergunta se é uma abominação.

Você se pergunta e se pergunta. Interrogações intermináveis flutuando em um mar de dúvidas e incertezas. Em suas mãos o vidro pulsa com o eco de um batimento. Talvez seja impressão, mas você pensa que ele está tentando te confortar com um segredo, uma verdade que você ainda não conhece. Ele pulsa novamente, talvez um mecanismo que preveja o fim próximo. Talvez ele sinta os cacos que deixou pelo caminho. Talvez ele saiba as cores que deixou de ter.

— Insensível.

— Abominação.

— Sem amor.

— Anormal.

As palavras ferem. Você está ferida. Tem que ser um defeito, pensa com esperança. Afinal, defeitos podem ser consertados, não é? O brilho fraco te atinge e por um instante, você odeia aquele pequeno pedaço de vidro.

Você se pergunta o que apagou aquilo de você.

Você se pergunta em que ponto errou.

Sua vez chega. Você avança com ansiedade, deixando os burburinhos para trás, longe, bem longe, certa de que após aquilo nunca mais os escutará novamente. Encara a criatura que virá a ser o seu salvador com uma quase avidez e deposita na mesa a peça imaculada.

— Preciso que conserte esse coração. Tem algo de errado com ele. É um coração que não ama.

O Cupido o examina e então ergue a cabeça com um suspiro. Ele diz:

— Ah, querida. Não há nada de errado.

Você recua um passo, olhos arregalados, esperanças entaladas e sofrendo um grave abalo.

— Mas...

Você começa, a angústia crescendo em sua garganta e afogando o restante das palavras.

— Mas...

Você tenta de novo.

— Mas não há cores e nem rachaduras como todos os outros. Deve ter algum defeito. Eu devo ter algum defeito. Como posso ter um coração que não ama?

Seus olhos lacrimejam, mas você empurra as lágrimas de volta. Já havia derramado muitas e aquele não era o momento para elas caírem novamente.

— Por favor, isso deve estar errado – você pede. — Ele precisa ser consertado, precisa se encaixar.

— Por quê? – ele pergunta suavemente.

Por quê? Por quê? Por quê?

— Porque todos se encaixam – você responde. — Tudo que existe se encaixa.

O cupido sorri, seu rosto pálido e bonito acendendo-se com compaixão. Isso te envergonha. Talvez você tenha respondido errado. Talvez não haja solução. Talvez aquele seja o fim para você.

— Não é para isso que os corações existem, querida. Eles existem para amar.

— Mas como se pode amar sem cores? Como pode se atrair por outros e quando partirem não deixar rachaduras? Por favor, eu preciso saber.

A resposta quando enfim a recebe te surpreende por não ser o esperava.

— Ah, mas o branco é uma cor, a junção de todas as cores e da qual todas as demais derivam. A cor mais pura que existe, o amor mais puro que existe. Você não precisa amar as outras cores para ter uma vida feliz, você não precisa se partir por eles para ficar triste. Você pode amar a si mesma. Você pode amar os outros sem ser atraído ou ter contato físico por estes. O amor existe de muitas formas, não é necessário romance, sexo ou paixão. Apenas o amor puro e altruísta, o tipo de amor que vem de dentro, simples em sua forma e completo em sua totalidade. Você vê agora? Não há defeito. Você já ama, um amor completo que não necessita de nenhuma outra cor para provar que existe.

O pequeno coração de vidro pulsa novamente. Seu tom refletindo a verdade apresentada. Não há cores, nem rachaduras, muito menos cacos deixados pelo caminho. É perfeito e completo como é. Seus olhos se arregalam.

Você entende e finalmente sorri.

Há um clique em seus pensamentos, uma porta que se abre para uma luz nunca vista antes. Aceitação. Entendimento. Esperança. Você não é um monstro insensível afinal. Você alimenta os gatos na rua porque não aguenta vê-los passar fome, você abraça os amigos quando estão sofrendo porque um pedaço seu se parte ao vê-los assim, você beija a bochecha de seus pais e garante que vai ficar tudo bem porque tudo o que deseja é o bem e a felicidade deles. Você os ama desse modo, puramente.

Você é alguém, uma pessoa pela qual vale a pena lutar. Você não precisa de romance, não precisa de sexo, não precisa de paixões tórridas e avassaladoras. Você é sua própria felicidade. Não é necessário mais nada. Naquele momento, você recolhe o coração e o ama de volta.

Entre seus dedos, o vidro delicado que compõe o seu coração se aquece e, pela primeira vez, você nota como sua cor é bela.

27 de Junho de 2020 às 22:37 3 Denunciar Insira Seguir história
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Fim

Conheça o autor

Nathy Maki Ficwritter / PT-BR/ ace 💜 / ♐ / Leitora voraz Amo um clichê bem escrito e um suspense que te prende, mas fantasias e ligações são especialidade. Sou fã daqueles finais inusitados. Até mesmo os tristes! Escritora de Fanfics que às vezes se arrisca em originais e sonha em publicar um livro um dia. Apenas um esboço do que pode vir a ser.

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Biólogo Emocionado Biólogo Emocionado
Sensacional!! Acabei de cair por acaso nesse site e já vim correndo ver as publicações da parte de romances LGBT+. Foi uma grande surpresa e alegria seu texto, parabéns! <3
Mag W Mag W
Parabéns!! Esse conto é maravilhoso.
July 12, 2020, 20:09
Saah AG Saah AG
AAAAAAA tô feliz por ter publicado esse texto. É tão lindo 💖💖💖
June 30, 2020, 12:45
~