yui-kawachima1575938847 Yui Garbe

É a história de uma mulher que herdou uma casa e sua maldição. Ela vai contar com a ajuda de vários amigos para desvendar e solucionar os evento sobrenaturais e lutar contra criaturas místicas.


Suspense/Mistério Para maiores de 18 apenas.

#ficção #sobrenatural #lgbtq+ #romance #mistério #suspense
0
665 VISUALIZAÇÕES
Completa
tempo de leitura
AA Compartilhar

A maldição do vale

Era uma sexta-feira, mas não quer sexta-feira, pois era aniversário de uma grande amiga, então estávamos nós, e outros quatro amigos, em uma lanchonete que gostávamos de ir. Um lugar calmo, com um ambiente alegre e festivo, garçons e garçonetes, sempre bastantes atenciosos e gentis, por todo o estabelecimento. Quem nos atendeu hoje, foi uma garçonete, que por sinal, era seu primeiro dia, então estava bastante nervosa e preocupada. Cada vez que vinha nos atender, ficava um pouco trêmula e sua voz não soava tão natural, mas aos poucos ela foi se soltando e até cantou parabéns conosco. Foi muito divertido vê-la mais envergonhada que nossa amiga.

Uns minutos após cantarmos parabéns, meu celular tocou. Confiro o número e vejo que é de alguém desconhecido, por esse motivo, atendo fria, porém formal, enquanto me afasto da mesa, indo em direção à rua:

- Alô.;

- Uhm, boa noite. – disse a pessoa do outro lado da linha. – Meu nome é Sebastian e estou ligando, pois me foi passado esse número de telefone.;

Por sua voz, pude deduzir que se tratava de um senhor de idade, por essa razão, mantive a cordialidade e respondi:

- Boa noite sr. Sebastian, o senhor deseja falar com quem?

- Ah, sim, me desculpe, gostaria de falar com a sra. ou srta. Yui, Yui Laeaubelle. – diz o senhor tranquilamente.;

- Sou eu, senhorita Yui. Uhn, er... O que o senhor deseja? – indago um tanto quanto desconfiada.;

- A senhorita é a última descendente da família Laeaubelle, e estou entrando em contato, pois seu tio, John François Laeaubelle, faleceu a algum tempo. – disse ele aflito.;

Pensei até em se tratar de algum golpe, pois nunca na minha vida, havia conhecido os parentes de minha mãe, além de meus avós, mas com toda a calma e delicadeza disse:

- Desculpe sr. Sebastian, mas acho que o senhor se esganou, não tenho nenhum tio chamado John François. – mas antes que pudesse desligar o telefone, o senhor disse:

- Ele é o irmão de sua falecida mãe, a sra. Nicole Laeaubelle, por favor srta. Laeaubelle, não desligue o telefone – suplicou o homem e em inicio de prantos, continua – A senhorita não faz ideia de quanto tempo estamos tentando localizar alguém da família Laeaubelle, e como a senhorita é a última descendente deles, peço-lhe que me escute.;

- Sr. Sebastian, não quero ser rude, mas o senhor poderia entrar em contato comigo novamente, amanhã após o meio-dia? Estou um pouco ocupada agora. – digo-lhe me segurando para não ser grosseira.;

- Sim, como quiser senhorita. – e desliga o telefone.

Quando volto para a mesa, todos meus amigos me olham fixamente, até que digo, enquanto sinto meu rosto ficando ruborizado:

- Tá bom gente, perguntem logo. Estão me encarando, com cara de que querem perguntar algo.

Minha amiga, a aniversariante, diz entusiasmada:

- Ai amiga, quem era o boy que estava no telefone? Era seu amor secreto? Aquele que não quer contar pra ninguém? Hein, hein?;

- Que história é essa de amor secreto? Acho que você bebeu demais, Alicia. – digo em tom de seriedade, mas ao mesmo tempo, deixando claro que era uma forma de deboche.

Então, explico para eles o ocorrido e eles me olharam maravilhados, como se tivesse dito algo incrível. Leonard, um homem alto, ruivo, de olhos azuis, cabelos curtos bem aparados, com algumas sardas em seu rosto, lábios ligeiramente finos, exclama deslumbrantemente:

- Yui, minha querida, se eu fosse você, iria saber mais sobre isso. Já pensou se você herda uma grande fortuna, não iria mais ter de aguentar o chefe falando todas as bobagens e te cantando todos os dias, ou até melhor, você poderia olhar pra ele e esnobá-lo. Olha, acho que é hora de uma reviravolta nessa sua vidinha cinza, ma cherie.

Alicia, minha melhor amiga, estatura mediana, dotada de uma pele bronzeada impecável, cabelos loiro-escuros, olhos castanhos claros, lábios grossos e bem desenhados, com um corpo escultural, olha em meus olhos, enquanto segura meu rosto. Ela vem aproximando seu rosto do meu, fechando seus olhos vagarosamente, a medida em que está mais perto, sinto meu rosto ficando quente, não sei por que, mas inconscientemente fecho meus olhos, esperando para saber até onde aquilo vai dar, quando de repente ela grita em meus ouvidos:

- YUUUUIIIIII! Aproveita essa chance mulher! Não é sempre que uma herança cai no nosso colo! Aproveita e abraça!;

Com o susto, vou para trás e acabo caindo da cadeira e bato minha cabeça no encosto da cadeira que estava atrás. Nessa hora, a comoção foi geral, todos meus amigos se levantaram para me socorrer, vários garçons e garçonetes também se prontificaram para me “resgatar” daquele precipício de vergonha em que cai, após ter caído para trás. Por sorte, só inchou o local da batida, mas minha autoestima foi destruída. Acho que não conseguirei mais voltar naquele lugar.

Às oito horas da manhã, do dia seguinte, meu celular toca. O pego, bastante sonolenta, e com dor de cabeça e com uma força descomunal, entreabro apenas meu olho esquerdo para conferir quem está me ligando. De imediato, reconheço o número e então atendo, um pouco mal-humorada, mas educada:

- Alô.;

- Alô, srta. Laeaubelle, conforme a senhorita pediu, estou ligando ao meio-dia. – diz o homem aparentemente satisfeito, porém, antes que possa terminar de falar, o interrompo dizendo, um pouco irritada:

- Acho que seu relógio está errado, pois são oito horas da manhã e não meio-dia. Não sei se seu nome é mesmo Sebastian, mas cara, esse golpe é o pior que eu já vi, mas tenho que admitir que forjar um número estrangeiro, foi bastante inteligente, mas como eu moro no Brasil, não caio nessas armadilhas.

E no instante que estava prestes a desligar o telefone, o senhor exclama surpreso:

- Brasil!? A senhorita mora no Brasil?;

- Claro que sim, assim como você, ou vai me dizer que mora na França. – falando debochadamente.;

- Sim, senhorita, eu moro na França, assim como seu tio François, e sua mãe, que morou aqui por dezesseis anos, antes de fugir, para uma terra distante, com um estrangeiro.

Nessa hora, meu coração gelou, fiquei me perguntando, como aquele golpista, sabia tanto assim da minha mãe. Achei que era hora de dar-lhe um voto de confiança e ouvi-lo.

- Tudo bem, sr. Sebastian, o senhor tem minha atenção, me explique a situação, porém, se eu suspeitar que tudo é uma mentira, vou desligar esse telefone, trocar o número e o senhor, não vai mais conseguir me contatar, tudo bem assim? – digo, com bastante frieza, mas ao mesmo tempo, curiosa.;

Ele então explica parcialmente a situação, e me pede que ficasse em casa no dia de hoje, pois me enviara algo, que deveria receber pessoalmente. Não acreditei em suas palavras, mas ao mesmo tempo, queria que fossem verdadeiras e algo dentro de mim, dizia que deveria esperar.

Passadas algumas horas, a campainha toca, olho pela janela, que fica a direita da porta de entrada e vejo que é um garoto de aproximadamente uns dezessete anos de idade, usando um boné dos correios, mas suas vestes não. Era um rapaz bastante alto, para sua idade, e estava usando uma camisa social vinho, com gravata borboleta e calças pretas. Tratei de prender a corrente de segurança na porta e a abri, e então disse desconfiada:

- Boa tarde, em que posso ajuda-lo?;

- Boa tarde srta. Laeaubelle, estou aqui para lhe entregar essa passagem. – disse-me sorridente e continua. – Meu tio, o sr. Sebastian, pediu-me que te entregasse, em mãos, esse envelope e pediu para dizer-lhe também, que a aguardará amanhã, no aeroporto de Marselha, por volta das sete da manhã, claro, tendo como parâmetro, esse fuso, mas como o fuso entre nossos países, possuem quatro horas, a senhorita deverá chegar lá, por volta das onze da manhã, que é o horário em que meu tio estará lhe esperando. Após terminar de falar, ele se vira e começa a se afastar, quando de repente:

- Ah! Quase esqueci de dizer, a passagem é para o dia de hoje, às vinte horas, então acho melhor se apreçar para sair. – disse ele, com um sorriso misterioso.

- O quê!? Como assim? – abrindo o envelope e conferindo os dados, que estavam todos corretos, inclusive o horário. Levei apenas alguns segundos, para checar tudo, porém, quando levantei a cabeça para olhar para o garoto, este já havia sumido, como por mágica. Ainda caminhei até o meio da rua, para poder olhar melhor, mas realmente ele já sumira. Tudo o que podia fazer agora, era me preparar para uma “viagem inesperada”.

Cheguei ao Aeroporto Internacional de Guarulhos e me dirigi ao guichê 9, onde fui atendida por um rapaz de baixa estatura, com óculos de lentes grossas e aparentemente um pouco pesadas, pois dava ver que seu nariz, estava marcado. Depois de umas horas, fazendo check-in, umas entrevistas, que achei um tanto quanto estranhas, pude embarcar e seguir viagem para França.

Conforme foi dito e “combinado”, cheguei às onze horas da manhã do dia seguinte, pelo fuso-horário francês e lá estavam eles, aquele rapaz que havia visto ontem na porta de minha casa simples e um senhor bastante alto, que aparenta ter mais de oitenta anos, cabelos bem grisalhos, vestes bastante formais, dava pra perceber, mesmo por sob seu terno, que a estrutura física dele é bastante debilitada, parecia um milagre ele estar de pé, mas de qualquer forma, caminhei em sua direção. Eles estavam me esperando, em um local com bastante sombra e fora da visão de multidões. Quando me aproximei, ele com um sorriso e uma reverência elegante, disse:

- Bom dia, srta. Laeaubelle, como foi sua viagem?;

- Bom dia sr. Sebastian, foi muito boa, pois foi a primeira vez que viajo na primeira classe. – Me viro para o garoto e digo:

- Bom dia, e obrigada por ter me entregue à passagem, mas você não se apresentou, poderia me dizer seu nome.;

- Bom dia senhorita e tem toda razão, no dia não me apresentei.

Ele então, se apruma todo, se posiciona formalmente à minha frente, se curva elegantemente e diz:

- Muito prazer, me chamo Pierre, Pierre Dubois, a seu dispor mademoiselle.;

- Muito prazer, sr. Dubois, me chamo Yui Laeaubelle, com bem sabe. – digo com um leve sorriso sarcástico.;

Então, Sebastian diz, com uma imperatividade em sua voz:

- Bom, é hora de irmos, por favor, senhorita, nos acompanhe até o carro. – se curvando levemente enquanto gesticula me convidando a acompanha-los.

Seguimos para o estacionamento, que fica à direita do aeroporto. Chegando lá, pude ver um carro preto grande, não sei a marca, tão pouco o modelo, pois nunca havia visto um carro daqueles, mas posso dizer com certeza, que era um grande, não tão grande quanto uma limusine, mas ainda assim grande, com vidros fumê quase impossível de enxergar o lado de dentro. Sebastian abriu a porta esquerda traseira para mim e enquanto eu adentrava ao veículo, seu sobrinho, o sr. Pierre, colocava minha pouca bagagem, no porta-malas.

Dentro desse esplendido automóvel, tinha um pequeno frigobar entre os bancos de couro legítimo, que por sua vez, eram muito macios e confortáveis, o ar-condicionado estava ligado, passando uma ótima sensação.

Sentei-me em um banco que, curiosamente, ficava posicionado ao longo do carro, enquanto que o senhor e seu sobrinho sentaram no banco que podia ser visto imediatamente, quando se abre a porta. No meio do percurso, me avisaram que a viagem seria longa, pois estávamos indo de Marselha, para Versalhes e que poderia descansar que me acordariam quando chegássemos.

Conforme o carro ia sacodindo levemente, o ar deixando o ambiente fresco e agradável, o banco macio e confortável, mesmo que estivesse tentando não dormir, acabei pegando no sono. Sr. Pierre me chama, enquanto me chacoalha, para me acordar e após uns minutos, finalmente acordo, com os olhos pesados de quem queria dormir mais. Então o velho senhor diz, todo eufórico:

- Aqui estamos, senhorita.;

Olho pela janela, mas além de estar escuro, os vidros negros me impediam de olhar o lugar, e então digo:

- Chegamos, até o local?;

- Chegamos à propriedade dos Laeaubelle, teremos mais uns quarenta minutos até chegarmos à residência, porém, gostaria que olhasse para suas terras. – diz o homem, todo orgulhoso.;

- Mas como posso ver, se os vidros são tão escuros e ainda mais que é noite? – indago.;

- Para isso, basta apertar esse botão e voilà. – dizendo enquanto aperta, no painel de controle do vidro elétrico da porta direita, um pequeno botão cinza claro, que faz com que os vidros fiquem translúcidos.

Então pude ver o terreno. Que lugar enorme, parecia uma floresta particular, com muitas árvores frondosas e vários postes de luz floresta à dentro. Era um lugar incrível, entre tanto, a medida em que nos aproximávamos da residência, a neblina, que não era aparente quando chegamos, ia ficando cada vez mais densa. Aos poucos, aquela floresta brilhante e bela, foi engolida por uma névoa tão densa, que mal dava para ver a estrada, a paisagem se transformou de uma maneira abrupta.

Depois de uma longa viagem, chegamos até a casa. O terreno estava coberto por folhas mortas, seus muros altos de pedra cobertos com limo, à nossa frente, um portão duplo, bastante grande e imponente, feito de grades de ferro com uma cabeça de lobo esculpido numa chapa grossa de metal, em cada lado do portão. Estava me sentindo num filme clichê de terror, onde as pessoas encontravam uma casa velha, no meio do nada e lá encontravam assassinos impiedosos e antes mesmo de adentrar ao recinto, já comecei a imaginar, cabeças humanas decorando o salão principal e alguém vindo até mim, babando, com uma faca lavada de sangue, apontando para um canto qualquer de uma parede dizendo: “Está vendo, é ali onde sua cabeça vai ficar”. Senti um calafrio que me arrepiou até as pontas do cabelo. Nesse momento, o sr. Sebastian, coloca sua mão esquerda, por sobre meu ombro direito e eu, tomada pelo terror que criei na minha mente, não hesitei, soltei um grito de pânico, com todo o ar de meus pulmões. Em segundos, várias luzes da casa se acenderam, pude ouvir, mesmo em estado de êxtase, a balburdia dentro da casa e passos desesperados vindo em direção à porta de entrada.

Quando várias pessoas saíram pela grande porta da frente, feita de madeira, com alguns detalhes geométricos esculpidos e pequenos vidros em forma de losango em seu contorno, não me aguentei e desmaiei.

Acordei no dia seguinte, estava em uma cama king size, com um colchão extremamente confortável, forrada com lençóis de seda chinesa, um edredom, que mais parecia o colchão da minha cama que ficou no Brasil, de tão grosso e aconchegante, quatro braços sustentavam um forro de tecido grosso, o mesmo tecido de que eram feitas as cortinas que envolviam a cama.

Nesse momento, a única coisa que passava pela minha cabeça era: “Ué, não morri?”, mas como não era hora de ser “covarde”, decidi que precisava sair dali. Quando atravessei a grossa cortina cor carmesim, me deparei com um quarto tão grande, que acredito que minha humilde casa, de cinco cômodos, coubesse ali dentro. As paredes eram muito altas, fácil dizer que tinham mais de seis metros de altura, as oito janelas, fincando cinco à esquerda e três à frente da cama, pareciam vitrines, de tão lindas e detalhadas e eram cobertas por cortinas de renda rosa bem clarinho, feitas a mão. Só tivera visto aquele tipo de luxo, em filmes clássicos de Hollywood.

Me dirigi para uma porta grande, que ficava entre dois armários bem largos de cor marrom claro. A abro e avisto um vasto corredor, com várias portas à esquerda e à direita e mesmo sendo dia, a iluminação neste, não é muito boa. Vou “forçando” meus olhos para tentar encontrar um interruptor para acender algum desses lustres que estão pendurados, mas sem sucesso, não consegui encontrar nenhum, pelo caminho, porém um pouco mais à frente, vejo uma parte iluminada e vou até lá, era uma escadaria que descia. Em sua frente, uma grande vidraça, com várias manchas nos vidros, como se ninguém os limpasse a anos.

Começo a descer as escadas com muito cuidado, pois não quero chamar a atenção de ninguém, pois quem sabe o que eles querem de mim. A medida em que ia descendo, ia me questionando: “Por que aceitei vir para um lugar desses?”, “O que será que querem de mim. Será que estão esperando o melhor momento para me assassinarem e quem sabe até vender meus órgãos”. Mais uma vez, esses pensamentos, me causaram calafrios intensos, mas diferente de antes, dessa vez, me mantive forte para continuar com minha “fuga infalível”, até que:

Bom dia senhorita. – disse alguém, tranquilamente, atrás de mim, e continuou. – A senhorita está melhor? E por que está andando pé ante pé, está com alguma dor?

Me viro, vagarosamente, tentando amenizar meu rosto de desespero, mas já imaginando alguém segurando uma faca escorrendo sangue e com o olhar psicótico, pronta para que dilacerar e quando me viro, fico totalmente envergonhada, pois vejo uma adorável jovem, com seu uniforme de empregada, bem aprumado. Ela tinha estatura baixa, os cabelos eram pretos, mas não dava para ver o comprimento, pois estava usando uma touca para impedir que seus cabelos caíssem no chão, seus olhos pretos eram bem vividos e brilhantes, suas unhas estavam bem aparadas e feitas, com uma ou duas camadas de uma base incolor. Ela então pergunta novamente:

- Srta. Laeaubelle, está se sentindo bem? – me olhando com preocupação.;

- Uhm... err... ah, sim, estou bem sim. – falando sem jeito e continuando. – Me desculpe por ontem, acho que me deixei levar pela atmosfera nebulosa de ontem à noite e comecei a imaginar coisas e... – enquanto falava, me indagava, por qual razão estava dizendo aquilo, mas por “sorte” fui interrompida por Sebastian, chamando a atenção da pobre moça:

- Srta. Baux, por que está incomodando lady Laeaubelle, você não tem os seus afazeres? – olhando para ela com frieza e uma dose de presunção.;

- Me desculpe sr. Debois... – e antes que ela terminasse de falar algo, a interrompi:

- Bom dia sr. Sebastian, mas essa mocinha não estava me incomodando não, ela estava justamente me ajudando, pois havia acabado de pedir-lhe que me mostrasse a casa, já que sou a proprietária dessa residência, preciso conhece-la não é mesmo? – falando com seriedade e postura de “chefe do lugar”.;

Sebastian olha para a empregada e indaga:

- É verdade isso, srta. Baux?;

A pobre jovem, ficando nervosa, começa a gaguejar, então de imediato me imponho:

- Sr. Sebastian, ousa duvidar de minhas palavras? Até ontem, o senhor só me disse coisas e em nenhum momento duvidei de suas palavras, mesmo sem tê-lo conhecido e o senhor, torna minhas palavras incrédulas? – dizendo, tentando passar um ar de raiva e aborrecimento e continuo, enquanto pego a moça pela mão, e a puxando, digo. – Vamos lá Daphine, continue me mostrando a casa.;

Ela, sem graça, diz:

- Senhorita, meu nome é Sabrina. – enquanto nos afastávamos de Sebastian.;

- Oops, desculpa a gafe, é que na hora do desespero, só pensei em Daphine. – após dizer isso, parei e me posicionei diante dela e disse:

- Muito prazer, me chamo Yui, Yui Laeaubelle. – fazendo aquela reverência formal.;

- Ah, ah... err... senhorita, não mereço essa educação toda não, sou apenas uma empregada de sua morada, então não precisa se reverenciar. – dizendo enquanto fica ruborizada e continua, fazendo uma reverência respeitosa. – Muito prazer srta. Laeaubelle, me chamo Sabrina, Sabrina Baux.

Ela então segue me guiando e mostrando a casa, cada ambiente e cada detalhe dos lugares, porém, havia lugares onde ela apenas me disse para não entrar, achei estranho, mas como não conhecia nada, deixe-a continuar, mas tinha certeza que quando pudesse, entraria nesses locais, pois aqueles cômodos faziam parte de minha herança. A casa era enorme, dava para se perder com muita facilidade. As portas eram praticamente iguais, exceto àquelas em que fui aconselhada a não entrar, mas minha curiosidade estava muito aguçada, e por isso consegui memorizar muito bem as direções em que seguir.

Levou mais ou menos, uma hora para ela me mostrar toda área construída, faltando apenas, me levar para ver o terreno e me mostrar os limites de minhas novas terras e cada passo que dávamos, a srta. Baux ficava mais alegre e entusiasmada, até que, sem perceber, acabei lhe perguntando:

-Srta. Baux, por que está tão alegre e festiva? Sinto que erradia felicidade, a medida em que caminhamos?;

- Ah! Me perdoe senhorita. – abaixando sua cabeça e tentando se conter.;

- Não precisa pedir perdão de nada, você não fez nada errado, perguntei pois é gostoso ver sua felicidade transbordando e gostaria que compartilhasse comigo a razão de tal alegria. – digo enquanto sorrio amigavelmente.;

- A senhorita não está brava comigo? – disse espantada. – Os antigos donos, não gostavam de sorrisos abertos, por esse motivo estava tentando me conter, mas por alguma razão, estando perto da senhorita, acabei me deixando levar por seu rosto belo, seus olhos cativantes e sua voz encantadora. – disse-me com um brilho intenso em seu olhar que em segundos, se apagaram e se prostrando diante de mim, suplicou em prantos:

- Srta. Laeaubelle, me perdoe, não sei de onde vieram essas palavras. Peço-te clemência e não me expulse de sua morada. Prometo que tomarei mais cuidado com minha língua.;

Me ajoelho, junto a ela e a abraço, para conforta-la e digo calmamente:

- Sabrina né? Sabe, não precisa se preocupar com isso, de forma alguma te mandaria embora, ainda mais por tão lindas palavras que foram dirigidas a mim. Portanto fique calma, comigo as coisas são diferentes, não gosto de ver as pessoas tristes e pude ver que todos aqui possuem olhares tristes e severos, mas isso tudo vai mudar, pode ter certeza, pois além de dona da casa, quero ser amiga de vocês e isso inclui você, por isso não se contenha e diga aquilo que estiver sentindo, só assim para nos conhecermos mais, né? – sorrindo amigavelmente, enquanto me levanto. – Bom, você ainda precisa me mostrar o restante do lugar né, Sabrina?

- Sim senhorita... – a interrompo de imediato.;

- Pode me chamar de Yui, afinal, somos amigas agora.;

Ela fica ruborizada e bastante sem graça, mas diz:

- Sim, srta. La... oops, quero dizer, Yui. – e sorri com espontaneidade.

Ela segue me mostrando o terreno, o que nos consumiu quase três horas caminhando. Estava exausta, sentia meus pés latejando, meus joelhos pareciam que iam se quebrar a qualquer segundo, porém ela estava bem, com uma disposição de ferro, parecia até que tinha andado apenas uns poucos metros, nem suando estava, já eu, estava quase implorando por uma garrafa de água, bem gelada. Quando a fadiga atingiu seu ápice, quase sem fôlego, disse:

- Sab... Sabri... naaa... por favor, preciso descansar, estou muito cansada.;

- Como desejar senhorita, oops, mais uma vez errei, como quiser Yui. Vamos descansar naquele chalé, que era usado pelo antigo caseiro, lá pode ter algum lugar para descansar seus pés e suas costas. – disse-me sorrindo e apontando para nossa frente.

Andamos, quero dizer, me arrastava a passos pesados, como os de um zumbi, enquanto ela me apoiava em seus ombros. Andamos poucos metros, mas parecia que estava andando de um continente ao outro, pois esse tal chalé, não chegava nunca, até que após, um longo e tenebroso inverno (coisa de quinze minutos de caminhada), chegamos ao lugar.

Era um chalé bem rústico, suas paredes feitas de troncos empilhados e cobertos de musgo, se misturavam com a paisagem. Tínhamos andado tanto, que nem me dei conta que já era tarde. Ela então disse carinhosamente:

- Srta. Yui... – tentando, mas não conseguindo perder o hábito da “senhorita”. – Antes de entrarmos, vamos até aquele local, gostaria de lhe mostrar algo que gosto muito.

Ela foi me escorando, até uma abertura entre duas árvores e apontou para o céu, me mostrando sol se pondo. Foi uma visão linda, aquele céu alaranjado, misturado com azul íris e pincelado de índigo, fazia daquela visão, algo inesquecível. Era muito diferente da visão que tinha no Brasil, foi bem mais intenso e quando o sol se pôs, ela disse:

- Está escurecendo, acho melhor entrarmos e esperar até amanhecer. – disse ela preocupada.;

- Mas estou melhor, acho que podemos voltar para casa. – respondi.;

Sabrina, com certo temor em sua voz, retrucou:

- Não! Por favor srta. Yui, vamos esperar até amanhecer, pois... – ela se cala subitamente e após uns instantes. – De qualquer forma, esperemos até amanhecer, tá? – sorrindo timidamente desesperada.

Achei melhor aceitar o que a srta. Baux disse, já que ela vive aqui a mais tempo que eu, porém, fiquei me questionando o motivo desse pavor.

Dentro do chalé, nos dirigimos rapidamente para o quarto, a cama estava arrumada, mas bastante empoeirada, dava pra ver que fazia um bom tempo que ninguém a utilizava. Sabrina troca os lençóis e as fronhas, mas infelizmente o cheiro de mofo nas “novas” roupas de cama, estava bem forte. Ela olha para mim e diz:

- Senhorita, sinto muito pelos fortes odores de mofo desses lençóis, mas espero que a senhorita fique confortável. Vou me deitar aqui. – dizendo enquanto estende o lençol empoeirado no chão.;

- Nada disso, Sabrina. Não vou deixar uma amiga deitar no chão frio, além do mais, essa cama é bastante grande para que nós duas possamos dormir confortavelmente. – disse fortemente enquanto a levantava do chão, que parecia ser apenas de terra batida.

A noite finalmente pairou sobre a região e o vento soprava arduamente, assoviando sobre as frestas das madeiras, as árvores balançavam tão fortes, que pareciam que iriam se partir ao meio, as janelas trepidavam e balançavam tão intensamente, que achei que fossem se quebrar a qualquer momento, as folhas mortas das árvores sendo lançadas aos ares girando e rodopiando.

Não conseguia pegar no sono, pois eram tantas perguntas gritando na minha cabeça e a principal era: “Por que ela insistiu tanto para esperarmos até amanhecer?”. Será que era por causa dos ventos fortes que estou ouvindo, ou existem animais selvagens que saem à noite? Olhei para Sabrina e vi que estava dormindo profundamente, então decidi dar uma olhada pela janela que ficava à esquerda da cama em que estávamos. Olhei para todas as direções que a janela me permitia, mas por causa da quantidade de folhas e a pouquíssima iluminação, não pude ver quase nada, porém, algo estranho chamou muito minha atenção. Em meio aquela tempestade de folhas e terra, vi uma estranha sombra que não conseguia identificar. Era algo ou alguém, muito alto, com braços alongados e sua postura era bastante arcada. Aquilo estava andando pela tempestade, mas algo me dizia que aquele ser estava me encarando, na mesma medida que eu o encarava, mas de repente, um pano longo cai sobre mim, algo me agarra, me lança ao chão e antes que pudesse gritar, ouço a voz dizendo:

- Srta. Laeaubelle, a senhorita não deveria olhar para fora, “ele” pode te ver. – Diz Sabrina, me liberando daquele lençol.

- O que é isso, Sabrina? – indago surpresa e irritada.;

- Me desculpe srta. Yui, deveria ter lhe explicado tudo desde o começo, mas fiquei com medo que achasse que sou louca. – disse ela preocupada.;

- Então pode começar a se explicar. – ordenei.;

Ela então cerra os punhos, morde o canto direito de seu lábio inferior, fecha os olhos e após uma profunda respirada, explica:

- Senhorita, existem coisas nesse lugar, que a senhorita não entenderia, eu mesma, quando vim para cá, não entendi. Os antigos donos eram responsáveis por manter algumas criaturas, presas e seladas. Por essa razão, a casa fica tão afastada da cidade e muros altos cercam toda a propriedade.;

- Mas essas criaturas não podem pular o muro, ou sair da propriedade? – questiono pasma.;

- Não, elas não podem sair daqui, pois abaixo dos muros, foram entalhados símbolos cultistas de proteção, chamados Pantáculos. Eles impedem que essas criaturas, fujam dessas terras, mas as tornam mais agressivas. – explica quase que sussurrando.;

- E por que está falando tão baixo? É tão... – ela coloca a mão direita por sobre minha boca, enquanto sinaliza para fazer silêncio e após uns segundos, ela aponta para a janela, de onde havia avistado aquele estranho vulto. E lá estava algo que me chocou profundamente, uma estranha criatura com olhos negros como a morte, olhando fixamente para dentro de nosso chalé. Queria gritar, queria sair correndo dali, o mais rápido que podia, porém a srta. Baux me segurou tão forte, que mal conseguia me mexer. Passados alguns minutos, infernais, a criatura se afasta, raspando o que penso ser suas garras, nas paredes e nos troncos das árvores que ali estavam.

Quando tudo finalmente se acalmou, Sabrina me solta vagarosamente e diz:

- Sinto muitíssimo srta. Yui, escondi da senhorita essa verdade e por causa disso, quase pagamos um alto preço.

Não sabia como reagir, não sabia se chorava, se gritava, se lhe estapeava, se a abraçava em pânico, no fim não tive reação, fiquei atônita e o mais impressionante, foi que no fundo do meu coração, estava excitada com aquela situação. Queria ver novamente aquela criatura, olhar em seus olhos, poder decifrá-la, mas ao mesmo tempo pensava que havia perdido o juízo. E depois que me “acalmei”, disse olhando fixamente em seus olhos:

- Sabrina, Sabrina, Sabrina. – a segurando pelos ombros e continuo. – Vai parecer loucura e até pode ser, pode ser que tenha perdido minha sanidade mental, mas quero muito ver essa criatura novamente. Sinto que existe algo de intrigante nela e quero muito descobrir. – falei entusiasmada.;

- Srta. Yui, a senhorita é mesmo descendente dos Laeaubelle. – disse-me sorrindo e continua. – Quando amanhecer, voltaremos para a mansão e lá poderá saber mais sobre essas criaturas, pois há portas, que só quem possui o sangue dos Laeaubelle, pode abrir. Por hora, vamos deitar e tentar dormir um pouco. – se levantando e estendendo sua mão para mim.

Voltamos para a cama e acabo dormindo profundamente, mas quando acordo, levo um baita susto, pois Sabrina está me abraçando forte e suas pernas entrelaçadas às minhas. Pensei em acorda-la, mas achei melhor não, ela estava dormindo tão bem e o corpo dela estava quente e aconchegante, que voltei a dormir. Não sei quanto tempo se passou, mas acordei por causa do grito que ela soltou, achei que a criatura estava no chalé, então já saltei da cama e me “preparei” para lutar, porém ao olhar para srta. Baux, ela estava mais vermelha que pimentão e ajoelhada diante de mim implorando:

- Sinto muitíssimo senhorita, não acredito que pude fazer isso, a senhorita pode me mandar embora, dessa vez eu mereço, sabia que devia ter dormido no chão, onde já se viu uma reles empregada fazer esse tipo de coisa. Por favor, madame Laeaubelle, me perdoe.

- Sabrina, o que você fez, para estar assim, tão arrependida? – pergunto confusa.;

- Senhorita, eu a abracei, enquanto dormia, mas juro que foi inconsciente, jamais tocaria em seu corpo. – colocando sua testa no chão.;

- Jamais? Por quê? O que há de errado com meu corpo, além do mais, você apenas me abraçou e além disso, eu vi quando acordei. – disse sorrindo.;

- O QUÊ!? A se... se... se... senhorita viu, por que não me acordou? – perguntou desesperada.;

- Estava frio, você estava tão quentinha e dormindo tão bem, que não tive como te acordar e foi bom, pois dormi mais um pouco, até você ter-me acordado com esse grito, que achei sinceramente que a criatura estava aqui dentro. – fazendo cara de brava.;

- Mas a senhorita não ficou incomodada de tê-la abraçado? – pergunta, surpresa.;

- Nossa Sabrina, por que essa preocupação toda, por um simples abraço? Parece que é proibido abraçar. – disse um pouco incomodada.;

- Desculpe-me srta. Yui, é que os antigos donos, não permitiam esse tipo de coisa, além do que lhe falei antes. – disse-me um pouco abatida.;

- Olha Sabrina, não sei como eram os antigos donos e não quero saber como eles eram. Eu sou eu e é isso o que importa e se digo que abraçar, sorrir, falar e cantar são permitidos, você é livre para abraçar, sorrir, falar e cantar, claro que tudo isso se tiver vontade. – falando sorrindo e continuo. – Bom, já é dia, acho melhor voltarmos, pois quero saber mais sobre essas criaturas que disse.

E assim fizemos, assim que voltamos para a casa grande, comecei a olhar cada canto, com outros olhos. Procurava nos mínimos detalhes, informações, por menores que fossem, até que tive a ideia de procurar Sebastian. Ele estava cuidando de um pequeno canteiro de estranhas rosas cor ametista. Me aproximei e antes mesmo que pudesse perguntar, ele disse:

- E então, como foi seu passeio com a srta. Baux? Aprendeu algo “interessante”? – disse-me sem ao menos se virar para mim.;

- Olá sr. Sebastian, como sabia que era eu? – indaguei curiosa.;

- Pelos passos. – disse ele. – Ninguém aqui, além da senhorita, tem passos tão pesados.;

- Está me chamando de gorda? – perguntei irritada.;

- Independente de seu peso, seus passos são pesados, ou seja... – falando isso e ficando atrás de mim num piscar de olhos. – A senhorita não tem a desenvoltura e suavidade nos passos, isso não tem nada a ver com sua estrutura ou peso.

Fiquei impressionada e até um pouco incomodada. Como ele conseguira se mover tão rápido, a ponto de mal ver seus movimentos. Fiquei olhando para ele, estupefata, até que me disse sorrindo:

- Essa rosa, em seu cabelo, combina com sua pele.;

- Rosa? No meu cabelo? – indaguei.

Quando coloco minha mãe esquerda na parte posterior esquerda da minha cabeça, senti uma flor presa ali, quando a retirei, era uma das rosas ametistas que Sebastian estava cultivando. Olhei para ele e para a rosa, repetidas vezes, até que:

- Como fez isso? Quem ou o que é você, afinal? – perguntei surpresa e abismada.;

- Sou apenas o mordomo de sua morada, lady Laeaubelle. – respondeu ele calmamente.

Então, sem mais enrolações, fui direto ao ponto:

- Sebastian, preciso saber mais sobre uma criatura que vi ontem à noite, perto do chalé do caseiro.;

- Ah, a senhorita diz sobre as górgonas?;

- Essas criaturas tem nome? – indago.;

- Não é um nome e sim uma raça. – explica.;

- Tudo bem, que seja, mas como essa criatura ou outras, vieram parar aqui? Elas podem me transformar em pedra, pois até onde sei, górgona é o que era a Medusa, não é isso?

- A senhorita deve ter lido algo sobre mitologia grega, mas infelizmente, os registros estão errados. É verdade que Medusa era uma górgona, mas cada uma pode assumir uma forma diferente. Cada górgona pode criar seu próprio poder, se adaptar conforme seu ambiente, além de serem imortais. – explica Sebastian, aparentemente entendendo muito do assunto.;

- “Pera” aí, está me dizendo que essas criaturas escolhem seus poderes e que são imortais? Mas na história da Medusa, ela é morta virando pedra, pois viu seu reflexo no escudo de Perseu, não? – questiono o homem.;

- De fato, Medusa “morreu” decapitada, porém ela não estava morta, apenas não podia mais se mexer, pois sua cabeça estava separada de seu corpo. Creio que a cabeça dela, ainda esteja viva dentro daquele alforje, mas o ponto é que vejo que entende um pouco, pena que é somente o que lhe foi “ensinado” nas escolas e nesses livros de meias-verdades.

Então ele me levou até a biblioteca que havia naquela casa e lá pesquisei muito sobre essas tais górgonas, porém em nenhum dos livros que tivera lido, encontrei uma forma de mata-las. É provável que realmente elas sejam imortais e a única forma de para-las, seja decapitação, mas mesmo assim continuei pesquisando e lendo sobre o assunto.

Passei muitas horas na biblioteca. Sabrina me trouxe o almoço, o jantar e até um lanchinho da madrugada. Percebi que ela ficava do lado de fora da biblioteca o tempo todo, mas não falei nada, afinal, estava “perdida” em minhas pesquisas. Varei de um dia pro outro pesquisando, Sabrina, mais uma vez, me trouxe o café da manhã e mais uma vez não disse nada, apenas colocou a bandeja de prata sobre a mesa e quando estava saindo eu disse:

- Por que não fica aqui? Deve estar monótono ficar parada do lado de fora. – olhando para ela e sorrindo. – E obrigada por me trazer o que comer, se não fosse por isso, certamente teria esquecido de me alimentar. – E volto a ler um dos livros antigos de capa de couro marrom, que peguei em uma das prateleiras.

Ela então fica ali e me ajuda com as pesquisas e me esclarece as dúvidas que vão surgindo durante minhas leituras. Praticamente fico acordada por 72 horas, pesquisando e lendo livros e mais livros, mas o cansaço me venceu e acabei dormindo sentada e com a cabeça apoiada em cima da mesa. Acordei com muita dor no corpo, mas estava coberta por um cobertor gostoso e agradável, nesse momento Sebastian entrou na biblioteca e me perguntou:

- Como estão seus estudos? Descobriu algo do seu interesse srta. Laeaubelle?

- Não descobri muita coisa, mas preciso esclarecer algo, Sebastian. – disse-lhe seriamente.;

- Pois diga-me milady. – respondeu formalmente.;

- Não precisa de toda essa formalidade de senhorita isso, senhorita aquilo, meu nome é Yui e é assim que sempre fui tratada pelos meus amigos e parentes e é assim que quero ser tratada aqui. Somos todos iguais, não tem motivos para me tratar com superioridade, só porque tenho o sobrenome de uma família que nem conheço, além do que Sebastian. – me virando para ele, sorrindo e continuando. – Somos amigos e meus amigos me tratam pelo nome.;

- Como desejar senhorita.;

- Como é? Não entendi direito. – falei com tom sarcástico.;

- Como desejar, Yui. – disse sem graça.;

- Agora eu gostei Sebastian. – falando empolgada.

Voltando a seriedade, pergunto para ele:

- Sebastian, por acaso foi você que trouxe esse cobertor?;

- Não lady Laeaub... quero dizer, Yui. Quem trouxe foi a senhorita Baux. – respondeu ele seriamente.;

- E onde ela está agora? – pergunto.;

- Deve estar preparando algo para a senhorita comer, pois ela esta bastante preocupada com a senhorita, já que não tem dormido nada esses últimos três dias.;

Nisso, entra correndo um homem de baixa estatura bem moreno, com os cabelos negros com dread, roupas rasgadas na linha do tórax e vários cortes e arranhões pelo rosto, braços e um corte mais profundo, em seu peito. Ele desesperado e sem fôlego exclama:

- Sr. Sebastian, temos um problema no “quarto”. Sabrina foi atacada por aquela coisa, senhor. Tentei ajudar, mas não pude fazer nada, o senhor precisa ajuda-la!;

- Como ela foi atacada? Como ela conseguiu entrar lá? – se virando para mim e questionando irado. – A senhorita abriu alguma porta dessa casa?;

- Além das portas da biblioteca, nenhuma. Mas não é hora de ficarmos aqui parados, vamos até lá, ou melhor, você fica aqui e cuida dele, eu vou ajudar a moça que está lá. – falando enquanto saio correndo, porém sou interrompida por Sebastian que pergunta severamente:

- O que pode fazer para ajuda-la?;

- Não sei, mas nem que seja necessário um braço ou uma perna, vou ajuda-la. – olhando para ele confiante.

Ele acena com a cabeça me dando aval para prosseguir, então saio correndo mais rápido que posso e chego até o local em dois minutos. Sabrina estava desacordada no canto de um quarto de coloração bege. Tudo era bege, as paredes, o piso, as cortinas, a mobília, tudo exceto um pequeno urso de pelúcia que estava caído ao lado da srta. Baux. Aquele urso era cor verde claro. Achei muito estranho, mas não dei muita importância, mas esse foi meu erro. Quando cheguei perto de Sabrina, aquele inofensivo ursinho de brinquedo, se transformou em uma criatura horrenda. Seu rosto desfigurado, seu olho direito estava pendurado, enquanto que o esquerdo se mexia de um lado para o outro, como se estivesse procurando algo incansavelmente, seus dentes pareciam afiados e finos como os de uma barracuda, seu corpo era alongado e muito magro, dava para ver o formato de seus ossos. Suas mãos possuíam três dedos com garras poderosas e afiadas o suficiente para desmembrar alguém de corpo parrudo. Entrei em pânico, mas não era hora pra isso, tinha dado minha palavra que ajudaria Sabrina e de sua frente não sairia.

A criatura avança em minha direção com suas garras preparadas para me atingir. Naquele momento, como por instinto, usei meu braço esquerdo, para defender o golpe e com a perna direita, chutei-lhe o que parecia ser o joelho, fazendo com que a criatura cambaleasse um pouco e me dando a chance de circula-la pelo outro lado. Então outra desferida de garras vindo em minha direção e mais uma defesa e um chute em seu joelho, fazendo-a cambalear novamente. Já estava começando a ficar cansada, meus braços e pernas estavam doendo muito, fora vários cortes que sofri, por causa da dura pele verde, cheia de espinhos da criatura, então Sabrina finalmente acordou e soltou um grito de pânico, ao ver a criatura a uns dois metros de distância. Instantaneamente aquela górgona, se virou para ela e quando foi ataca-la, eu gritei:

- Ei coisa feia, você está brincando comigo, por que não continuamos e a deixa ir?

A criatura para seu ataque, que seria fatal, se vira novamente mim para e grunhe:

- Grrrinngrraarrr!;

Creio que ela tenha entendido a palavra ‘brincar’, por essa razão disse:

- Sim, brincar. É comigo que está brincando, então deixe-a em paz, ok? – falo enquanto me preparo para seu próximo ataque.;

Então novamente a criatura grunhe:

- Grrriiinngrraaaaarrr!;

Tive mais certeza que ela estava reagindo ao ‘brincar’, tentando inclusive repetir o que eu disse, então falei mais alto:

- Vamos brincar!, Brincar! BRINCAAAAAR! – gritei sorrindo;

- GRRRIIIIINNGRRAAAAARRR! – berrou a criatura.;

Nessa hora, a górgona, que antes estava tentando nos matar, não estava mais agressiva, ela veio caminhando até mim, nisso Sebastian, o homem moreno que estava ferido, e outros seis empregados da casa, chegaram até o local e quando olharam a criatura vindo em minha direção, Sebastian começou a correr até mim também, porém falei:

- Fique aí Sebastian, a criatura não vai me fazer mal algum. – disse calmamente.;

- Como sabe disso senhorita? Essas criaturas são astutas e imprevisíveis. – disse ele preocupado.;

- Apenas veja. – falando enquanto abro meus braços perante a criatura.

Ela abre seus braços e me abraça, seus espinhos não machucam mais. Ela agora se abaixa, como se estivesse pedindo um carinho, então acaricio sua cabeça e ela diz em baixo tom:

- Grrrinngaarrr.;

- Isso mesmo, brincar. – respondo para ela.

Então a estranha criatura, começa a chorar e a cada lágrima, seu corpo ia se desfazendo, virando pequenas partículas de pó brilhantes que iam subindo e desaparecendo conforme tocavam o teto. Aquele aposento antes todo bege, foi recuperando suas cores, as paredes voltaram ser brancas, a estante, voltou a ser azul, o chão voltou a ser da cor de madeira, as cortinas voltaram a ser rosa, a poltrona voltou a ser vermelha, a cama, voltou a ser amarela e aquele ursinho, que antes era verde, agora é branco.

O pego e coloco sobre a cama, com sua cabeça apoiada em um travesseiro fofinho e acolhedor e bem baixinho digo:

- Agora, você pode brincar para sempre.

Após isso, Sebastian se aproxima de mim e diz impressionado:

- O que a senhorita acabou de fazer?;

- Não sei Sebastian, apenas fiz o que tinha de ser feito. – respondi perplexa.;

- A senhorita libertou a górgona de sua maldição. Mas como fez isso?;

- Não sei, apenas tentei fazer com que ela não perdesse o foco em mim, para que não ferisse Sabrina.;

Nisso, Sabrina, se levantando, corre até mim e diz tímida:

- Stra. Yui, posso fazer algo que estou com vontade?;

Sem entender nada, disse despreocupada:

- Claro que pode, não disse que deve fazer o que tem vontade de fazer?

Ela então se lança sobre mim e me surpreendendo, me dá um beijo que me deixou até sem ar. Todos olharam aquilo como um desrespeito da parte dela, então todos se curvaram diante de mim e Sebastian de imediato falou com veemência:

- Lady Laeaubelle, nos poupe de seu castigo, se preciso for, nós puniremos essa mundana, por ter-lhe tocado e agido dessa forma vil e baixa, mas imploro que nos poupe, apenas castigue-a.;

- Nossa gente, vocês são muito “tiltados” com beijos, e abraços. E outra coisa, como falei para você Sebastian, vou repetir, pois acho que agora estão todos aqui, ou quase todos não é, afinal, não conheço vocês todos ainda, mas conhecerei, é só terem um pouco de paciência. – sorrindo e continuando. – Então, como disse ao Sebastian aqui e também para Sabrina... – olhando para ela um pouco encabulada. – Meu nome é Yui, não sei como eram meus “parentes”, os antigos donos daqui, mas eu não sou como eles, não tenho o porquê punir ninguém, ninguém deve ter medo de falar, cantar, sorrir e de agora em diante, não quero nada de muito formalismo, como por exemplo, milady, lady Laeaubelle, srta. Laeaubelle e por aí vai, me chamem e me tratem da mesma forma que meus amigos me tratam, pois vocês também são meus amigos, então me tratem por Yui, certo, gente? – disse sorrindo.

E após esse “discurso heroico”, ouço em coro, um sonoro:

- Sim senhorita Laeaubelle.

- Ai, ai, acho que terei de me acostumar com esse tipo de tratamento. – ficando sem graça.

Me viro para Sabrina e pergunto:

- Você está bem? Como fui pega de surpresa, nem tive tempo para perguntar. – ficando ruborizada, mas mantendo a postura.;

- Estou sim, graças à senhorita. – sorrindo e continuando. – Nunca havia visto alguém derrotar uma górgona, da forma que a senhorita fez, foi algo incrível. – se curvando e agradecendo. – Muito obrigada por me proteger dessa maneira, mas eu não merecia que arriscasse sua vida, sou apenas uma serva dessa mansão.;

Colocando minhas mãos em seus ombros e encostando minha testa em sua cabeça, digo:

- Por meus amigos, arrisco minha vida, quantas vezes forem necessárias. E vamos parar de falar que você é só uma serva, ou empregada daqui, porque nem você e nem ninguém deste local é descartável, todos são peças importantes desse mecanismo. Então coloquem isso na mente de vocês, de uma vez por todas, cada pessoa que está aqui, cada pessoa que trabalha aqui, é importante para que continuemos a defender as pessoas dessas górgonas e isso é uma ordem.;

E mais uma vez, todos juntos:

- Sim senhorita Leaubelle.

Passaram-se uns dias, desde o primeiro ataque daquela górgona que chamei de “Brincar”, desde então os dias foram calmos, aproveitei para conhecer os outros membros da equipe. No total somos treze integrantes: Sebastian Dubois, Sabrina Baux, Pierre Dubois (sobrinho de Sebastian), René Moreau (aquele homem de estatura baixa, pele bem morena, com cabelos de dread, corpo bem definido e forte e agora com uma barba rala), Isabel Montblanc (uma mulher de estatura alta, corpo esbelto, loira, olhos azul-piscina, lábios medianos e bem desenhados e pele bem clara, quase albina), Armand Burnier (um homem de estatura alta, acima do peso, careca, olhos castanho escuro, e pele bronzeada em partes, pois ele trabalha a maior parte do tempo, sob o sol), Lis Goyon (uma mulher de estatura mediana, com olhos cor de mel, pele clara, um corpo não tão bem definido e cabelos curtos e estilizados em cor platina), Jacques Baillet (um homem de estatura médio-baixa, olhos verde-acinzentados bastante belos, pele levemente bronzeada, mas com várias tatuagens e bem magro para seu tamanho), tem também a bela Anne Vasselot e seu irmão gêmeo Adrien Vasselot (ambos de estatura alta, pele bem clara, ela com cabelos muito longos com uma coloração que mistura loiro escuro com ruivo médio, ele com cabelos raspados bem baixo, ambos possuem heterocromia, ela no olho direito e ele no olho esquerdo, possuindo um olho azul quase celeste e outro verde esmeralda, ela é mais tímida, já ele é o oposto), Sophie Bresson (a pessoa mais alta da equipe, literalmente um mulherão, com seu corpo super bem trabalhado, quase uma fisiculturista, olhos verde-azulados, cabelo chanel tingido de rosa e um piercing no nariz e outro na orelha direita) e por fim temos o sr. Leroy Órleans (ele é o mais baixo da equipe, pois sofre de nanismo, com cabelos castanhos bem escuros, mas com alguns fios brancos e uma barba longa, sempre alegre e brincalhão) e eu. Fiquei bastante contente em poder conhecê-los, pois sei que posso contar com todos, para quaisquer situações.

Mais uns dias se passaram e logo de manhã, ouço gritos próximos à cozinha. Corro até o local e encontro Isabel gravemente ferida e devido à hemorragia, estava desacordada. Ao seu lado, em amparo, estava a sra. Bresson, a srta. Goyon e a srta. Baux. Uma tentava estancar o sangue, a outra colocava panos embebidos em água gelada, sobre sua cabeça, para baixar a alta temperatura enquanto a outra, ficava num rodizio de baldes com água e gelo. Ao ver essa cena, de imediato percorri o local com meus olhos, para tentar encontrar uma pista de onde estava quem a atacou, porém sem sucesso. Sophie então carrega a sra. Montblanc, para seu quarto, Lis e Sabrina as acompanhavam de perto, nesse interim, chegaram os senhores Vasselot e Órleans. Expliquei-lhes a situação e nos dividimos para cobrir mais terreno em busca de pistas, porém foi tudo em vão.

Três dias se passaram desde o ataque à senhorita Isabel e fui informada que ela estava acordada e lúcida, então achei melhor passar em seu quarto, para fazer-lhe uma visita. Ao bater na porta e receber permissão para entrar, olhei para ela e disse sorrindo:

- Que bom que está melhor Isabel, fiquei preocupada, pois você estava bastante machucada.;

Ela olha em meus olhos e diz tristonha:

- Srta. Laeaubelle, sinto muitíssimo pelo transtorno que lhe causei.;

Assustada, eu pergunto:

- O quê? Transtorno? Que transtorno? Pare com isso, não há a menor necessidade de se desculpar, a culpa não foi sua. – afirmei veemente.;

- Mas não pude fazer nada contra aquela criatura. Fui pega desprevenida, nunca imaginei que aquela coisa estaria lá. – então ela cai em prantos.;

- Isabel, sei que pode não ser a melhor hora, mas poderia me explicar o que houve? – pergunto seriamente.;

- Estava indo para a cozinha, quando fui atacada por uma criatura que acredito ter a pele cinza e os olhos negros como a morte. – respondeu chorando copiosamente.;

Então me lembrei daquela noite em que vi uma criatura assim, pela janela daquele velho chalé. Por uns instantes, me perdi em pensamentos e indagações e quando dei por mim já tinha soltado:

- Não se preocupe Isabel, eu mesma vou cuidar dessa criatura, para que ela não ataque mais ninguém. – me virando e saindo do quarto e me dirigindo para a cozinha novamente. Enquanto ia até lá, por coincidência, me deparei com Sabrina que estava toda aflita, parada na porta de entrada da cozinha. Olhei para ela e perguntei:

- O que houve Sabrina? Por que está tão aflita?

Ela se vira para mim, com lágrimas no olhar e diz desesperada:

- Posso ouvir, a criatura está por aqui. Ela está em algum lugar por aqui.;

- Calma, não se preocupe, vou verificar a cozinha, por favor fique aqui, tá bom? – afagando sua cabeça para que se acalmasse.

Ela sinaliza com a cabeça, que entendeu e aceitou o que eu disse e falou:

- Cuidado, sinto que essa criatura é diferente da anterior.

Sorrio para ela e me lancei recinto à dentro. Lá, tudo estava bege, o chão, as paredes, os armários, as geladeiras, os freezers e até mesmo o fogão à lenha estavam beges, menos uma frigideira que estava em cima do fogão industrial de seis bocas que ficava no canto direito, entre o balcão que usavam pra preparar a comida e a pia de mármore branco. A medida em que fui me aproximando, pude ouvir o seu grunhido. A frigideira então se lança ao ar e em décimos de segundo, se revela uma górgona, porém, diferente da anterior, essa era cor de chumbo, sua pele parecia uma carapaça de ferro envolta em lâminas muito afiadas, seu corpo era grande e em forma de bola.

A criatura investe contra mim, que por razões que até eu desconheço, consegui esquivar-me de seu ataque que atingiu a mesa de madeira, que ficava ao centro da cozinha, fazendo-a em pedaços. Confesso que engoli seco quando vi aquilo, mas como havia prometido, eu resolveria essa situação. Então a criatura desfere mais um ataque fatal contra mim, que esquivo no último segundo e dessa vez, a vítima foi uma das geladeiras que ficava encostada na parede oposta a da porta e como da vez anterior, a geladeira foi despedaçada. Então falei, devido ao pânico:

- Se algum desses golpes me atingir, estarei frita.

A criatura então grunhiu:

- Grriigrrrraa.;

Como a de antes, ela reagiu ao que falei, então falei mais uma vez, mas dessa vez, com “alegria”:

- Frita.;

A criatura então:

- Grriigrraa. – com a mesma intensidade que falei.;

Aí então eu gritei:

- FRIIIIIITTTAAAAAA!;

A górgona por sua vez:

- GRRRIIIIIIIIIGGRRRRRAAAAAAA!

Olhei para ela e sorrindo disse:

- Sim, vamos fritar. – gesticulando com empolgação.;

E aos poucos, suas lâminas foram se cegando, sua dura carapaça, já não parecia mais tão dura e de pouco em pouco, ela foi se abaixando até se ajoelhar no chão e na medida em que fora se abaixando, fui me aproximando e a toquei em seu ombro esquerdo. Era quente, mas não era para queimar e sim para afagar. Sorri e disse baixinho o suficiente para que só a górgona ouvisse:

- Vamos fritar geral.;

- Grriggarrr... – grunhiu a criatura enquanto seu corpo ia se desfazendo em lindas bolinhas coloridas que iam evaporando no ar e devolvendo as cores para o ambiente. Após todas as cores de volta aos seus respectivos locais, ouviu-se ecoar o som de uma frigideira de ferro caindo no chão e batendo contra o piso de porcelanato mesclado de preto e branco. Nesse momento, Sebastian entra na cozinha, esbaforido e logo atrás está seu sobrinho. Ele então diz espantado:

- Lady Laeaubelle, que maravilha, a senhorita libertou a segunda criatura. Está se saindo muito melhor que seus antepassados.;

- Nossa Sebastian, falando assim até da à impressão que vive a uns duzentos anos. – disse sorridente.;

Ele, sorridente da mesma forma, responde:

- Tem toda razão srta. Laeaubelle, o quis dizer é que está se saindo muito melhor que os últimos donos dessa residência. – e após essa resposta, ele se recompõe, voltando a manter a seriedade de sempre.

Sabrina vem passando, se esgueirando entre o batente da porta e Pierre, e andando rápido vem até minha direção e diz aliviada:

- Srta. Yui, estou vendo que está bem e não sofreu nenhum arranhão.;

- Não sei como consegui esquivar dos ataques dela. Parece que meu corpo se mexeu sozinho e pude sair dessa situação, sem danos. Pena que a mesa e a geladeira não tiveram a mesma destreza. – rindo um pouco sem graça.

Passou-se um mês, desde o último ataque daquela estranha criatura metálica, mas esses foram dias “infernais”. Treinei com o sr. Sebastian, os trinta dias, mal conseguia comer, e dormir, só quando caia em plena exaustão, mas minha sorte, é que Sabrina estava dedicando seu tempo a “cuidar” de mim, me trazia o que comer, tinha que comer enquanto treinava, me trazia o que beber e cuidava dos ferimentos. Não tinha certeza se era um treino, ou se ele queria me exterminar, por essa razão, durante esse mês, não baixei a guarda, nem no banho. No último dia do treinamento, Sebastian diz:

- Creio que agora a senhorita está preparada para matar essas criaturas, de uma vez por todas. – disse seriamente.;

- Tem razão, porém não compartilho desse sentimento, acho que elas não merecem esse destino, já que percebi que suas almas podem ser salvas. – respondi.;

- Mas o que fará se caso uma dessas górgonas não puder ser salva? – questionou ele.;

- Não cheguei a pensar nisso sr. Sebastian, mas não quero mata-las, quero liberta-las de suas tristezas.

Nesse momento, o homem olhou para mim com olhar de deboche, como quem queria dizer que não tinha habilidades para isso, mas ele falou:

- Como a senhorita pode ter tanta clemência por seres tão malignos? – questionou com fúria e continuou. – Esses monstros não merecem perdão, devem ser mortos, sendo torturados e lançados em agonia profunda!;

Pude ver em seu olhar, uma sede de sangue, que nunca havia visto antes. O ódio e repudia que ele tinha por essas criaturas, eram-me de uma grande estranheza, então sem demoras ou rodeios, indaguei ferozmente:

- De onde vem essa raiva toda dessas criaturas? Qual a razão de fazê-las sofrer, se é possível que as salvemos? Me responda, Sebastian! Sinto que esconde algo de mim, esse mês que passou, pude perceber que há algo que não quer me contar.;

Ele baixa a cabeça, respira profundamente e diz:

- Sinto muito senhorita, deixei-me levar pelo calor do momento. – e continuou enquanto olhava para céu. – Uma dessas criaturas, assassinou minha esposa a bons anos atrás, me senti impotente e frustrado, pois não tive forças para protegê-la. A única coisa que pude fazer foi correr e fugir, enquanto aquela monstruosidade devorava minha amada Heloísa. – contando com lágrimas nos olhos.;

Abaixei a cabeça, em sinal de respeito e após uns segundos disse-lhe:

- Sinto muito sr. Sebastian, não fazia ideia que isso lhe tinha acontecido, mas... – cerrando meus punhos e olhando para o homem, disse. – Não podemos nos permitir sermos tomados pelo desejo de vingança, tenho certeza que sua esposa não desejaria isso para o senhor. Se salvarmos essas criaturas, com certeza salvaremos a alma de sua amada Heloísa, não precisamos manchar nossos corações, com sangue de inocentes.;

- Inocentes? – disse sorrindo maldosamente. – A senhorita tem a audácia de chamar essas criaturas de inocentes? – me olha com fúria, seus olhos estavam esbugalhados, sua esclera ficara vermelha e a medida em que falava, chegava a lhe escorrer saliva pelos cantos de sua boca. – Essas criaturas são monstros, elas não merecem piedade, merecem morrer, quero beber o sangue delas, comer-lhes a carne, pois assim e somente assim, estarei livre dessa situação. – colocando sua mão esquerda em seu peito e fechando, pegando poucos centímetros para baixo da gola de sua camisa.

Foi a primeira vez que vi esse homem, tão sério, perder o controle. Senti um ódio e uma sede de sangue tão grande vinda dele, que achei que me mataria a qualquer segundo, porém, antes que continuássemos esse estranho diálogo, Sabrina aparece dizendo:

- O que está havendo aqui? Por que essa gritaria sr. Sebastian e por que essa fúria? – ela o olha nos olhos e diz com um tom bastante intimidador. – Acho que o senhor se esquece do motivo de ainda estar aqui, não é mesmo sr. Sebastian?;

O velho homem, que antes estava possuído por uma fúria descomunal, agora amansou-se como um pequeno filhote de cão e encolhendo-se disse gaguejando:

- Te... tem to... to... to... toda razão srta. Baux. – reverenciando-a com certo temor e em seguida olhando para mim e dizendo suavemente:

- Lady Laeaubelle, sinto muito por ter-me exaltado dessa maneira, peço-lhe que aceite minhas mais sinceras desculpas. – e mais uma vez, fazendo uma reverência e em seguida disse, aparentemente recomposto:

- Com licença milady, srta. Baux, mas tenho meus afazeres, portanto devo me retirar. – dando meia volta e seguindo para outra direção.

Olhei para Sabrina, com surpresa e perguntei:

- Sabrina, o que foi isso? O que disse para o sr. Sebastian, me soou como uma ameaça, ou algum tipo de intimidação. E o que quis dizer com “esquecer o motivo”?;

Ela sorriu tranquilamente e disse:

- É uma longa história srta. Yui, mas se tiver paciência para ouvir, ficarei feliz em lhe contar.;

- Leve o tempo que levar, mas quero saber sim, quem sabe possamos fazer algo por ele. – respondi.;

- Pois muito bem, amanhã, antes do entardecer, me encontre naquele local, aonde vimos o por sol. Lá será um bom lugar para conversarmos, sem “ouvidos curiosos”, mas por hora, vamos voltar para a casa grande, a senhorita deve estar cansada e com fome, não é mesmo? – disse-me sorrindo e me puxando pela mão.

Fui tomar um bom e relaxante banho. Chegando lá, avisto uma grande banheira, que parecia uma pequena piscina, pois era revestida com pequenos azulejos hexagonais, verdes bem clarinhos. Sabrina me dissera que já havia preparado meu banho, portanto, imaginei que tivesse sido ela, a espalhar algumas pétalas de rosas ametista sobre a água. Uma toalha felpuda e chinelos limpos, já foram deixados em um local ao lado da pia feita de mármore branco. A água estava em uma temperatura ótima, entrei e em segundos comecei a relaxar. Ao lado direito da banheira, havia uma espécie de boia, que usei como um apoio de cabeça, pois não queria molhar nenhuma toalha de rosto e nem queria que esse banho, fosse interrompido previamente.

Estava tão relaxante, que peguei no sono, não sei quanto tempo fiquei desacordada, só sei que quando abri meus olhos, Sabrina estava sorrindo e sentada às bordas da banheira. Com o susto e por impulso, cobri meus seios e cruzei minhas pernas e disse, sentindo meu rosto ficando vermelho:

- Sa... sa... sa... sa... Sabrina, o que está fazendo aqui?;

- Vim me oferecer para lavar suas costas senhorita, mas fiquei preocupada com a senhorita, pois não respondeu quando bati à porta ou lhe chamei, por isso entrei, mas como vi a senhorita dormindo tão profundamente, não quis acorda-la. – disse ela gentilmente.;

Volto a relaxar, deixando meus braços e pernas relaxados novamente e encostando a cabeça de volta ao meu apoio de cabeça cinza claro, digo:

- Relaxei tanto que acabei dormindo, acho que meu corpo estava mais cansado do que pude imaginar.;

- Com certeza senhorita, mas acho que as rosas também ajudaram a senhorita a dormir, pois elas têm propriedades únicas, que além de uma cicatrização rápida, elas ajudam a relaxar e diminuir a ansiedade. – explica ela sorridente e continua. – Mas como a senhorita está bem, vou me retirar e deixa-la que aproveite mais o seu banho, depois preparo algo para a senhorita comer. – fazendo uma leve reverência e indo em direção a porta.;

Mas antes que ela possa sair, disse envergonhada, pois ninguém nunca tinha se oferecido para isso antes:

- Sabrina, por favor, espere. Você poderia lavar minhas costas?;

Ela se virou para mim, com um grande e simpático sorriso e disse:

- Com todo prazer, srta. Yui.

Então ela pegou uma esponja lilás bem macia, mas estranhamente firme e começou a esfregar minhas costas. Era uma sensação maravilhosa, podia sentir a esponja esfoliando suavemente, graças ao cuidado e atenção que a srta. Baux estava tendo.

Após esse delicioso banho, me sequei e vesti uma roupa leve de algodão que havia sido separa, por Sabrina, das minhas gavetas. Já tinha usado aquelas roupas antes, inúmeras vezes, mas dessa vez, elas estavam muito mais aconchegantes e confortáveis. Me dirigi para a cozinha, onde ela tinha deixado algo preparado para comer. Ao chegar lá, fiquei boquiaberta com a beleza e organização, os pratos de louça branca, com detalhes de flores desenhados à mão eram um complemento fabuloso, para a comida que me fora ofertada. Cada detalhe, cada “enfeite” na comida, estava em perfeita harmonia com os detalhes das flores e a toalha estendida sobre a mesa. O aroma daqueles deliciosos pratos estava incrível, posso dizer que minha fome aumentou muito, após sentir aquela fragrância agradabilíssima da comida quentinha, me esperando. Sabrina não deixou escapar nenhum detalhe, colocando ao centro da mesa, dois lindos castiçais dourados com uma grande e bem esculpida vela, em forma de lírio, com diversas cores. Realmente fiquei bastante impressionada, que não me contendo perguntei bastante intrigada:

- Você teve todo esse trabalho em preparar esse jantar e essa mesa, mas qual o significado de tudo isso?;

Ela então respondeu carinhosamente e sem titubear:

- Preparei como agrado e forma de agradecer enormemente, por ter me salvo duas vezes, portanto, fique à vontade e coma o quanto desejar, pois tem mais no fogão, caso a senhorita assim deseje. – e sorriu levemente, porém bem espontâneo.

Comi tanto que achei que ia explodir, a sensação dos sabores era algo que não consigo descrever, foi algo inimaginável de tão saborosa que estava. Estava tudo tão perfeito que repeti o prato umas quatro vezes. A agradeci pelo cuidado especial em preparar aquele verdadeiro banquete e disse ao final:

- Como havia te dito Sabrina, pelos meus amigos, eu arrisco meu pescoço e por você não é diferente, então não precisava fazer esse banquete para me agradecer por te ajudar, pois o faria cem vezes se necessário, mas a comida estava incrivelmente saborosa e não posso deixar de te agradecer novamente pelo tal. – e a abraço forte e amigavelmente.

Ela me abraça de volta e começa a balbuciar algo, mas foi interrompida pela entrada repentina do sr. Leroy Órleans, que diz:

- Opa, opa, opa, desculpem-me atrapalhar o momento das senhoritas, não imaginava que estava rolando um clima aqui. – e rindo debochadamente continua. – Mas por favor não parem, continuem, continuem, vocês não me viram e eu em contra partida, também não as vi.;

Nessa hora, Sabrina, me soltando diz:

- Não interprete errado sr. Órleans, a srta. Laeaubelle aqui, estava me agradecendo pelo jantar que fiz em retribuição a ela ter me salvo duas vezes. – disse ela ruborizada.;

- Srta. Baux, não precisa me dar explicações, as duas senhoritas são maiores de idade, sabem o que querem e o que fazer da vida. – disse o homem se dirigindo à saída, com seu copo de água em mãos, e se virando após alguns passos, disse. – Até porque, isso não mudaria nossa amizade e tão pouco mudaria o fato da lady Laeaubelle, ser nossa chefe. – fez uma pausa de alguns segundos e soltou ao ar, o seguinte comentário. – Mas acho que vocês deveriam investir nisso, achei que ficaram bem, juntas. – e rindo sai do ambiente.

Fiquei bastante envergonhada, mas nada que me deixasse preocupada, já a senhorita ao meu lado, estava com o rosto muito vermelho, mas muito mesmo, tão vermelho que achei que ela iria desmaiar, mas subitamente, levantou seu rosto e olhando para mim, bastante sorridente disse:

- Esse sr. Órleans, sempre fazendo brincadeiras inoportunas, nas horas mais impróprias, mas agora está tarde e é hora da senhorita se recolher para poder descansar e se recuperar por completo.

Fui para meu quarto me deitar, pois estava bem cansada, mas por alguma razão, não conseguia dormir, fiquei rolando na cama, por um bom tempo, pois as palavras do sr. Leroy não saiam da minha cabeça. Fiquei pensando se de fato o que ele havia dito, tinha algo de verdadeiro, pois era estranha, a forma com que Sabrina me tratava, mas achei melhor não tocar no assunto, pois tudo pode gerar um grande desconforto e precisamos estar bem, para uma possível próxima criatura. Então acabo deixando o sono me levar.

No dia seguinte, tudo parecia tranquilo, até que, enquanto caminhava tranquilamente por um dos corredores da casa, escutei um grunhido. Procurei a origem do som e pude perceber que estava vindo de uma das portas à minha esquerda. Fui pé ante pé, pelo corredor de piso de madeira, para evitar ao máximo fazê-lo ranger e após um breve momento, pude de fato encontrar de onde vinha aquele grunhido.

Abri a porta de madeira ferozmente e mais uma vez encontrei o local todo bege. As paredes, o carpete, o sofá que havia nessa sala, uma estante onde havia livros, uns pequenos vasos de flores, um aparelho de som muito antigo, além de vários discos de vinil empilhados ao lado esquerdo do aparelho. O grunhido ficava cada vez mais forte, enquanto procurava pelo “item suspeito” que acabei encontrando encostado na parede ao fundo do local. Era uma guitarra antiga de cor azul ciano. Quando a vi, pensei: “Nossa! Que cor discreta, nunca a encontraria nesse lugar.” E então me aproximei e esperei que se revelasse a criatura oculta naquele instrumento. E assim se fez, com som de acordes ao vento, a guitarra se tornou uma górgona, sua aparência, apesar de esquelética e bastante alta, se assemelhava a um vocalista de bandas de rock dos anos 70 e 80. As cordas se tornaram seus cabelos, longos e esvoaçantes, suas garras lembravam palhetas, porém seu contorno era bem afiado, mas antes que a criatura pudesse iniciar seu ataque, falei intensamente, enquanto fingia estar com um microfone nas mãos:

- É hora do show! Vamos detonar esses acordes! É hora do Rock’n Roll! Uhuuuu!;

A criatura grunhiu com a mesma intensidade:

- Grrooooogrrrrolll.;

E então comecei a cantar uma musica de uma banda que gostava muito. Cantei sem vergonha, sem medo de ser feliz, até dancei e sacudi o cabelo, como vira fazer as bandas. A criatura fez o mesmo, sacudiu a cabeça, pulou de um lado para o outro, da mesma forma que fiz. Ouso a dizer que foi minha melhor apresentação, mesmo sendo a única que havia feito na vida, meu público, composto por apenas uma górgona, adorou, curtiu comigo, pulamos juntas, até na hora do solo de guitarra da minha “air guittar”, ela me acompanhou e ao término de meu “show”, a criatura foi se acalmando, seus olhos negros, transmitiam paz e pouco a pouco, ela foi se aproximando de mim. Nisso, Sebastian e Sabrina, apareceram na porta, mas antes que pudessem dizer qualquer coisa, eu disse:

- Obrigada a todos por comparecerem a esse show. Gostaria de fazer um agradecimento especial a nossa convidada de honra, a senhora “Grogrol” que curtiu e encantou esse show mais do que eu poderia. – dizendo isso e caminhando até a criatura, que colocou suas “mãos” por sobre seus olhos parecendo que estava a chorar. Então eu disse:

- Senhorita Grogrol, me dê à honra de dar-lhe um abraço, pois uma fã igual a você, não se encontra por aí. – abrindo meus braços e esperando que a criatura fizesse o mesmo.

E assim fez. Ela abriu seus braços, me abraçou, pulou comigo, me sacudiu e gritou:

- GRRRROOOOOOOGGGGGRRRRROOOOOOOOOOOLLLLL!;

Eu, inspirada pela criatura, gritei em alto e bom tom:

- OOOOOOOOOOOOOOHHHHH YYEEEEAAAA!;

E aos poucos ela foi se desfazendo, seu corpo foi se tornando pequenos pontos brilhantes, que emitiam brilhos intensos, iguais aos holofotes de um verdadeiro show de rock. Então a sala foi se colorindo novamente, o ambiente se tornou claro e bastante iluminado, cada móvel ganhou um brilho novo e o aparelho de som, ligou sozinho e sintonizou uma rádio em que estava tocando a música que acabara de cantar. Não consegui conter uma lágrima que escorreu, pois puder perceber, que essas criaturas, assim como nós, também merecem atenção e se divertir.

Após isso, Sebastian abriu um sorriso, um tanto quanto sádico e sua grossa risada, soou-me bastante maléfica. Ele sem se conter disse:

- Que maravilha! Que maravilha, milady Laeaubelle, com essa são três. Agora falta pouco, falta muito pouco. – e riu bastante alto e malignamente. Sua postura, era de longe, daquele homem que tinha conhecido no aeroporto.

Sabrina veio até mim, aplaudindo e dizendo, toda eufórica:

- Srta. Yui, como senhorita canta bem. Queria tanto ter participado do seu show. Certeza que aquela criatura deve ter amado te ouvir cantar, pois a senhorita tem uma voz muito linda e melodiosa.;

Pude sentir meu rosto muito mais quente que o normal, pois sempre tive muita vergonha de cantar e ouvi-la falando dessa maneira, me trouxe à mente, aquelas palavras do sr. Leroy Órleans. Então sacudi a cabeça rápida e brevemente e me abaixando pego a guitarra que, após olhar para ela, a coloco sobre o sofá que ali estava. E na hora em que estávamos saindo do local Sabrina disse, enquanto andava à minha frente uns três passos:

- Não vá se esquecer de que hoje temos nosso encontro, viu. – disse sorridente e dando uma piscadela.;

- Pode deixar que não esqueci. – respondi um pouco encabulada.

Antes do sol se por, fui até o local combinado e a srta. Baux já estava lá, encostada em uma das árvores, com uma roupa bem diferente de seu uniforme padrão. Confesso que a achei bem bonita, estava bem produzida e aprumada, cabelos longos com uma linda permanente e quando os raios de sol tocavam neles, eles ficavam ainda mais brilhantes. Ela, sem se virar para mim disse:

- Hoje está bem diferente daquela vez, não está? – disse-me pensativa.;

- Sim, está sim, hoje está mais calmo e não está tão calor, está um dia perfeito para ver o pôr-do-sol. – respondi com um leve sorriso.

Vou me aproximando de Sabrina e percebo que ela está com uma cesta em seus braços, olho porém não digo nada. Ficamos ali olhando o sol se por, a brisa suave soprando, trazendo seu frescor. Estava tudo calmo até que ela, subitamente falou:

- Agora que o sol está se pondo, acho melhor entrarmos no chalé, hoje, trouxe roupas limpas e cheirosas para arrumar a cama e também trouxe algo para comermos, enquanto conversamos.;

Fui pega de surpresa, por sua empolgação então disse sem pensar:

- Mas dormiremos aqui novamente? Achei que íamos apenas conversar sem que o pessoal nos ouvisse.;

- Você não gostou de dormir aqui aquele dia? – perguntou ela, com um olhar triste.;

- Não é isso, foi uma ótima aventura e bastante divertido também, mas se eu soubesse que iriamos ficar aqui, teria trazido uma roupa mais confortável. – falando e apontando para minhas roupas.;

Ela então sorriu e disse:

- Não precisamos de roupas, afinal, somos duas mulheres maduras. – dando uma piscadela e inclinando a cabeça levemente para direita.;

Fiquei muito sem graça com aquilo, fui tentar responder, mas antes que tivesse a chance, ela disse, chorando de rir:

- Calma srta. Yui, trouxe-lhe roupas mais largas e confortáveis. Claro que não iriamos dormir sem vestes alguma. Não queria ter te contado, pois foi muito divertido ver a senhorita ficando envergonhada. – e riu tanto, que não pude ficar brava com ela e por fim entramos.

Ela coloca a cesta de vime sobre a mesa e de dentro, retira dois grandes retalhos de tecido preto e os coloca cobrindo as duas janelas e enquanto faz isso, me explica:

- Esses tecidos vão nos proteger, caso aquela criatura apareça novamente, pois não poderá nos ver e nem nos sentir, com certeza ficaremos bem essa noite. Diz ela centrada.

Me sento na cama e ela, estendendo uma toalha, xadrez vermelho e branco, no chão, diz:

- Sente-se aqui comigo srta. Yui, vamos fazer de conta que estamos em um piquenique e vamos comendo enquanto vou lhe contando o que havia prometido.

Pois assim o fiz, me sentei de frente para Sabrina, e enquanto servia-nos a comida, começou a contar:

- O sr. Sebastian sempre foi um homem muito bom e generoso, desde que veio para trabalhar com seu falecido tio, ele pessoalmente se responsabilizava em cuidar da propriedade, mais ainda depois que o sr. John François ficou muito doente. Ninguém sabe ao certo o motivo de sua doença, os médicos que o examinavam, nunca nos dizia nada diretamente, nós nunca nos preparamos de fato para sua “passagem”, porém, depois de sua morte, o sr. Sebastian ficou mais rígido e frio e diante do leito de morte do sr. Laeaubelle, ele jurou que acabaria com a maldição da família Laeaubelle.;

A interrompo questionando preocupada:

- Maldição? Que maldição é essa? Não vi nada sobre isso, nas anotações de meu tio, ou de outros parentes e ancestrais.;

- Acalme-se senhorita, já vou-lhe explicar sobre isso também. – e bebendo um pouco de seu suco de uva, continua. – O que ele chamou de maldição, são essas criaturas, que vez ou outra, surgem ou ressurgem nessa propriedade. Até hoje, ninguém conseguira evitar que elas voltassem, porém aparentemente, a senhorita está conseguindo.;

Enquanto ela falava, comecei a sentir certa sonolência e quanto mais Sabrina explicava, maior era meu sono. Cheguei a um ponto de “piscar” e quando dei por mim, Sabrina estava a me chamar, ajoelhada ao meu lado. Percebi que estava caída, deitada no chão, então sem graça disse-lhe:

- Desculpe-me Sabrina, não sei o que aconteceu, mas fiquei com sono, muito repentinamente, sinto muito por isso.;

- Imagine senhorita, não precisa pedir desculpas, aliás, eu quem precisa fazê-lo, pois acho que a história estava chata em demasia. – e sorriu envergonhada.;

- Não estava não, mas pude entender um pouco a situação de Sebastian. – disse-lhe, mesmo não entendo quase nada sobre o acontecido. – Bom, acho que vou me deitar, estou bastante cansada.;

Ela pega de sua cesta, um pequeno saco de tecido azul e me entrega dizendo:

- Aqui estão suas roupas, que trouxe para a senhorita poder dormir confortavelmente.;

- Obrigada Sabrina. – pegando e desamarrando o laço que o fechava.;

- Já vou me deitar também, assim que recolher essas coisas do chão, mas não se preocupe srta. Yui, que dessa vez, não vou dormir em sua cama, pois dessa vez, trouxe um saco de dormir, o estenderei ao lado da cama, por tanto, deite e descanse à vontade. – disse-me sorrindo.;

- Srta. Sabrina, já falei da vez passada, essa cama é grande o suficiente para que nós duas durmamos confortavelmente, de modo algum, permitira que você dormisse nesse chão frio, não importa se tenha trazido um saco de dormir, apenas não me preocuparia, se de dentro dessa cesta, você tirasse uma cama, caso contrário, deitará nessa mesma cama. – dando um tapa no colchão.;

- Como desejar srta. Yui, então já vou me deitar, vou apenas lavar meu corpo e me trocar, pode ir se acomodando que tentarei não fazer barulho quando deitar. – pegando suas roupas e se dirigindo ao pequeno banheiro que fica mais ao fundo do chalé.

Acordei na manhã seguinte e mais uma vez, estava sendo abraçada como se fosse um ursinho de pelúcia. Olhei para seu rosto e mais uma vez, ela dormira tão bem, que não tive coragem de acorda-la e por fim, acabei dormindo novamente. Porém diferente da primeira vez, Sabrina não implorou por desculpas nem nada, nem ao menos gritou ou se exaltou quando acordou.

Voltamos para a casa principal e nos deparamos com um corre-corre e uma gritaria de desespero. Vou correndo até a srta. Lis Goyon, ela está com sangue em suas mãos e roupas. Ela está desesperada e em prantos, era visível como estrava trêmula, então, perguntei preocupada:

- Srta. Lis, o que houve? A senhorita está bem?;

Ela mal conseguia falar, porém apontou para a direção da porta principal e pude ver que havia um corpo ali. Fui rapidamente para o local e quando chego, vejo o sr. René Moreau estendido no chão. Está morto dividido ao meio, porém o que me chamou a atenção, foi que quase não havia sangue no local. Olhei para todos os lados para ver se poderia encontrar algum detalhe que faltava, mas nada a primeira vista, então me aproximei do sr. Jacques Baillet e perguntei bastante séria:

- O que houve aqui?;

- Não sabemos senhorita, essa manhã, acordamos com os gritos da srta. Goyon e quando chegamos aqui, ela estava em pânico, tentando juntar-lhe os pedaços. – disse ele pesaroso.;

- E onde estão Sebastian e Pierre? – questionei.;

- Os srs. Dubois saíram bem cedo essa manhã. Os vi, pela janela do meu quarto, pegando o carro e saindo.;

Nisso, Sabrina vem até mim, chocada e aterrorizada e com lágrimas nos olhos ela diz chorosa:

- Não acredito que isso aconteceu com o sr. Moreau. Ele era uma ótima pessoa, sempre prestativo e dedicado. Sinto muito, é culpa minha ele ter morrido. – desabafa ela, cabisbaixa.;

Então, todos se viram para ela e antes que algum deles fale algo, eu questiono:

- Como a culpa é sua, Sabrina? Não estávamos aqui, não poderia ter sido culpa sua.;

- Por essa razão mesmo senhorita, não devia ter nos permitido que ficassemos naquele chalé, se eu soubesse que isso poderia acontecer, jamais teria ido para lá. Sou muito estúpida e egoísta, pois por meu egoísmo em querer ficar perto da senhorita, o sr. René está morto. – e desaba em prantos.;

Não sabia o que dizer, diante da situação, por isso apenas ponderei o que responder primeiro, que no caso, foi sobre a morte de nosso companheiro, então disse, focada no assunto:

- Não se culpe srta. Baux, não podíamos prever esse ocorrido, mas o que mais me intriga agora, é por qual motivo Sebastian e seu sobrinho, saíram tão cedo.;

Fiquei esperando por eles na frente da casa, por um bom tempo, mas algo me “chamava” para a garagem, então decidi ir até lá. Caminhando pensativa, fui “arrastando” os pés, foi quando acidentalmente, chutei um punhal coberto de sangue que aparentava estar escondido por entre as folhas. Não era muito grande, por isso não poderia ser este, a causa da morte do sr. Moreau, mas achei melhor mantê-lo comigo enquanto ia para a garagem. Ao me aproximar, ouvi um grunhido, porém dessa vez, era alto e pude perceber logo, que vinda de dentro do meu local de destino. Rapidamente levantei o portão de ferro cor laranja de um dos lados e para minha surpresa, tudo ali estava bege menos uma marreta de cor prata, que apresentava manchas de sangue em sua cabeça. Me preparei, pois já tinha em mente que era só questão de encontrar a palavra relacionada ao seu formato que a libertaria, então sem medo e sem dúvidas, me aproximei esperando que se revelasse.

E assim foi, a criatura se revelou, dessa vez, era uma criatura de corpo bastante forte, suas mãos eram como cabeças de martelo, porém diferente das anteriores, esta possuía uma calda que tinha uma cabeça de marreta na ponta, mas sem hesitar, disse:

- Vou acabar com essa luta rápido, se não vou ficar pregada.;

A criatura então grunhiu da mesma forma:

- Greeggraaa. – aos poucos foi se abaixando e colocou suas mãos no chão.;

Fui me aproximando e mais uma vez disse bem baixinho:

- Pregar.;

Então a criatura grunhiu muito alto:

- GRRREEEEEEGRRRRAAAA!;

E num golpe rápido e certeiro de sua calda, me arremessou para fora da garagem. Fui lançada a uns doze metros de distância, minha costela estava doendo tanto, que mal conseguia respirar. Não entendi o que fiz de errado, ele aparentemente estava calmo, mas me aproximei e fui atingida severamente. A medida em que esquivava de seus ataques, pude perceber que onde estávamos, estava ficando bege, uma grande área estava da mesma cor de todas as outras aparições, mas não podia me prender a esses detalhes, pois ainda não descobrira como liberta-lo dessa maldição.

Tentei me aproximar novamente e a criatura, dando uma pirueta de costas, me atingiu com um golpe de baixo pra cima com sua calda. Fiquei zonza pelo impacto, senti uma dor intensa em meu queixo e pude sentir meu sangue escorrer. Estava cansada, pela falta de ar e quase sem visão, devido à marretada que levei. Quando estava levantando, vi o punhal que tinha encontrado e prendido em meu cinto, caído ao chão, então rapidamente passei a mão e o saquei contra a criatura, não queria usa-lo, mesmo porque, essa arma era bem pequena, sua lâmina não teria mais que uns dezesseis centímetros, mas teria que me ajudar de alguma maneira.

A criatura então avança contra mim, que estou cambaleante, mas saltando para direita, desvio do golpe de suas mãos, mas mal aterrisso e o monstro me lança um golpe com sua calda que inconscientemente cortei com aquele punhal.

Parte da sua calda cai no chão e a criatura enfurecida, me ataca ferozmente, sem ligar para a quantia de sangue que está perdendo. A górgona lançava grunhidos de ódio, enquanto olhava para mim. A essas alturas, me perguntava como eu ainda estava de pé, com uma dor latejante em minha costela direita, uma dor excruciante no maxilar, fora que meu corpo, mal respondia mais. A criatura então se atirou em fúria contra mim e em sua investida avassaladora, me arremessou de volta para dentro da garagem, Meu corpo bateu tão forte contra a parede, que até abriram-se rachaduras. Era isso, era meu fim com certeza, aquele monstro estava se preparando para dar seu golpe final. Então dispara contra mim, que estou encurralada, entre paredes atrás de mim, ao meu lado esquerdo, estantes, do outro lado, prateleiras, porém à minha frente, tinha algo que me dera uma ideia. Era tudo ou nada, ou a criatura caia, ou era meu fim. Então velozmente peguei a parte da calda que havia decepado e a balançando com o resto das minhas forças, acertei em cheio o monstro. Foi um golpe certeiro da diagonal inferior direita, para a superior esquerda. Pude ouvir o barulho de aço, batendo em aço. Eu cai para um lado e a criatura caiu pra outro. Com o que me sobrou de força, rastejei até ele e colocando minha mão sobre a sua, disse:

- Entre todos, você foi o mais forte. Foi uma honra ter lutado contra você. – e sorri, da maneira que consegui.;

A criatura então, sem emitir qualquer tipo de grunhido, fechou seus olhos e pouco a pouco, foi desaparecendo. Seu corpo virara faíscas que iam se lançando aos ares e se apagando segundos depois. Todas as cores começaram a voltar ao normal e antes que eu perdesse a consciência, vi uma marreta com o cabo quebrado à minha frente e ao longe ouvi as vozes de Sabrina, Sebastian e Pierre.

Acordei um tempo depois, para mim, parecia que tinha sido apenas de um dia para o outro, mas ao sair de meus aposentos, com faixas e curativos por todos os cantos do meu corpo, Sabrina vem até mim, com lágrimas nos olhos e diz eufórica:

- Srta. Laeaubelle, srta. Laeaubelle, a senhorita está viva. Não imagina o quanto temi que não sobrevivesse. – e colocando as mãos sobre o próprio rosto, chora copiosamente.;

- Sabrina, apenas descansei de ontem para hoje, não precisa desse alarde. – respondi.;

- De ontem para hoje? Srta. Yui, a senhorita ficou desacordada quase um mês. Todos achávamos que a senhorita não resistiria, mas fico grata aos céus, por a senhorita estar viva.;

Extremamente surpresa e perplexa, indaguei:

- Um mês!? Estive desacordada por um mês? Isso é algum tipo de piada? Está ganhando o que para fazer essa piada comigo?;

- Senhorita, perdão se não acredita em mim, mas é a mais pura verdade, não poderia mentir para a pessoa que a... – e foi abruptamente interrompida pela chegada de Sebastian que, ao me ver em pé, disse tomado em euforia:

- Ah, srta. Laeaubelle, é um enorme prazer tê-la de volta, ao mundo dos vivos. Como está se sentindo, minha querida? Alguma dor? – lambendo seus lábios e continua. – Sente alguma sequela de seus inúmeros ossos quebrados? – passando as costas dos dedos em meu rosto e me olhando com um ar bastante sádico.;

Bato em sua mão, para afastar de minha face, e olhando para ele, com fúria, digo:

- Sebastian, onde você e seu sobrinho foram, no dia em que o sr. René Moreau, foi brutalmente assassinado?;

Ele me olha nos olhos e diz sadicamente:

- Infelizmente tive de resolver alguns problemas pessoas aquele dia, milady. Não vivo apenas para lhe servir. – falando com arrogância.;

- Sebastian, você está muito estranho, nem te reconheço mais. Você, de um homem respeitável, está se tornando um sádico. Sinto muito, mas não consigo confiar mais em você. – disse com pesar.;

Mas antes que ele fale qualquer coisa, rapidamente ele olha para Sabrina, que está atrás de mim e arregalando seus olhos, por uns poucos instantes, se ajoelha perante mim e arrependido diz:

- Me perdoe lady Laeaubelle, fui tomado por uma insanidade temporária, pois estou deveras contente, pois mais uma criatura foi eliminada e isso me deixa mais perto de finalmente encontrar minha tão amada Heloísa. Por essa razão, peço-lhe que me perdoe, do mais profundo de meu coração, milady Laeaubelle.;

Não sei o que Sabrina disse ou lhe mostrou, mas pude perceber que havia algo de errado entre os dois, então disse:

- Tudo bem Sebastian, tudo bem. – disse relevando a situação. – Está perdoado, agora levante-se do chão e vá resolver seus afazeres, preciso conversar com a srta. Baux.;

- O que a senhorita deseja conversar comigo? – perguntou ela, confusa.;

- Vamos até meu quarto, lá podemos conversar melhor e assim também, pode me ajudar a lavar minhas costas, afinal, faz um mês que não me lavo apropriadamente, não é. – olhando para ela e sorrindo.;

- Como quiser, srta. Yui. – respondeu-me radiante.

Então, nos dirigimos a minha suíte. Entrei no banheiro, liguei a água para encher aquela banheira e olhando para Sabrina pedi gentilmente:

- Sabrina, você poderia me trazer mais umas daquelas pétalas de rosas ametista, por favor?;

Ela prontamente confirmou e saiu em disparada para colher algumas daquelas rosas. Fiquei tentando imaginar o que poderia haver entre eles, quais os segredos que compartilham e o que escondem entre suas palavras ocultas. Decidi que era o momento de perguntar para Sabrina, mas dessa vez, aceitaria apenas a verdade como resposta, mas como saber se está sendo honesta ou não? Como posso saber se tem veracidade naquilo que me contar. Acho que apenas terei de acreditar e de alguma forma, tentar confirmar o que me foi dito.

Sabrina volta alguns minutos depois, com um punhado de pétalas de rosas, que peço para que as espalhe na banheira, que estava pronta para meu banho. Pedi que ela me deixasse a sós por um instante, para me despir e entrar na banheira. Assim que entrei, a avisei e ela assim entrou novamente, mas dizendo:

- Não precisa ter vergonha de mim senhorita, somos mulheres e não há nada de errado em nos vermos sem nossas vestes. – disse ela sorrindo.;

- É que sou bastante tímida, por isso prefiro me despir ou me vestir, sozinha. – respondi envergonhada.

Decidi que a hora de sanar minhas dúvidas, era agora, então sem hesitar perguntei:

- Sabrina, o que você e Sebastian escondem de mim? – perguntei enquanto estava sentada na banheira de costas para ela. – Não consigo entender o porquê de seu medo, quando você o olha com seriedade.;

Ela então, se senta às bordas da banheira e diz séria:

- Srta. Yui, sinto muito por ter lhe passado uma visão errada, mas estou aqui para fazê-lo se lembrar de sua promessa e que ele a cumpra. Ele mesmo me pediu para que o lembrasse, tanto que nunca precisei falar, sempre bastava um olhar, por essa razão, sempre que o olho seriamente, ele se lembra do que prometeu ao seu falecido tio, como tinha te falado, mas não contei que ele me pediu essa ajuda, por essa razão, te peço perdão.

Pela visão periférica, vejo que ela levantou e por causa disso, acabei olhando para Sabrina, que coloca seus dois joelhos ao chão e com sua cabeça também ao chão, diz humildemente:

- Me perdoe lady Laeaubelle, por não ter lhe revelado esse segredo, porém, caso não acredite em mim, posso pegar minhas coisas e ir embora de sua propriedade e não voltarei mais a por meus pés neste solo.;

Não tinha ideia de uma simples pergunta, pudesse gerar todo esse estresse emocional nela, então a única coisa que pude fazer, foi colocar minhas mãos sobre seus ombros e dizer:

- Não precisa de tudo isso Sabrina, eu acredito em você e te peço desculpas, pois acho que isso deva ser algo muito doloroso, tanto para você quanto para Sebastian, por tanto, não tocarei mais nesse assunto está bem? – dizendo e me sentindo culpada.;

Ela ergue a cabeça, olha para mim e sorri diz:

- Só vou desculpa-la, se me permitir lavar-lhe as costas. – e sorriu.

Deixei que o fizesse, afinal, era uma boa sensação, mas em algum momento ela parou de esfrega-me as costas e encostou sua cabeça em mim e disse:

- Srta. Yui, a senhorita já se apaixonou por alguém? – disse ela pensativa e um pouco deprimida.;

Como estava de costas para ela, pude responder, mas senti meu rosto quente e meu coração palpitando forte:

- Acho que me apaixonei uma vez, mas faz tempo, porém ele me abandonou no dia de nosso casamento, fugindo com minha melhor amiga da época, desde então, não tenho mais pensado nisso. E você Sabrina, já se apaixonou por alguém? – pergunto, pois acredito que ela queira desabafar ou conversar como se me considerasse sua amiga.;

- Já sim senhorita, faz um tempo. Foi quando vim trabalhar aqui, mas infelizmente não deu muito certo. – respondeu tristonha.;

- O que aconteceu? Quer conversar sobre isso?;

- Se não for incômodo, gostaria sim. – respondeu abatida.;

- Que isso, não será incômodo algum, é bom desabafar para se livrar de angústias antigas. – disse-lhe me virando para ela e sorrindo.;

- Bom, quando vim trabalhar aqui a uns anos atrás, conheci uma pessoa, tão bonita quanto a senhorita, ela era alta, esbelta, cabelos longos iguais aos seus, porém castanho mais claro, olhos azulados, pele clara e sempre bem hidratada, ela tinha uma linda voz. – antes que ela terminasse, indaguei surpresa.;

- A pessoa por quem você tinha se apaixonado, era outra mulher?;

Ela respondeu de imediato:

- Sim, era uma belíssima mulher. – disse com o olhar triste e continuou. – Isso incomoda a senhorita? Se incomodar, eu paro de falar.;

- Não me incomoda em nada em ouvi-la. Quero saber como você se sentia? E ela, sabia? Conte-me tudo. – olhando para ela empolgada, afinal, era hora de mostrar-lhe que sou uma boa amiga.;

Ela então sorriu e continuou a contar:

- Ela era muito especial para mim, adorava estar ao seu lado, cuidar dela, aquilo me deixava feliz. Aquele local em que mostrei para senhorita o pôr-do-sol, foi ela quem me mostrou, por isso gosto tanto de lá. – ela faz uma breve pausa. Seus olhos estavam marejados, era nítido que queria segurar suas lágrimas, mas mesmo assim continuou. – Gostávamos de caminhar pela floresta e várias vezes íamos até um pequeno lago que havia lá, antes de ser soterrado. Era bastante divertido estar com ela, mas ela tinha algo que era diferente da senhorita.;

- Diferente de mim? – perguntei espantada. Não entendi o motivo, mas sentia ciúmes dela me comparar com sua amada.;

- Sim senhorita, ao contrário da senhorita, ela era triste, seu sorriso era apenas uma mentira e diferentemente da senhorita, ela jamais me permitiu deitar na mesma cama, dizia que era errado e que as tradições da família não permitiam tais atos. – ela solta a esponja e como se estivesse sem forças, desaba ao chão e explode em prantos. Um choro tão doído, que até meu coração ficou deprimido.

Então, tive uma ideia, para tentar anima-la. Ergui seu rosto e disse:

- Acho que agora é minha vez de lavar suas costas, venha, entre na banheira, a água está ótima. Com certeza se sentirá melhor. – olhando nos olhos e sorrindo carismaticamente.;

Seu rosto ficou levemente ruborizado e sorrindo timidamente falou:

- Senhorita, não precisa fazer isso, eu sou sua serviçal, é minha obrigação lavar-lhe as costas.;

- Nada disso, não me importa esses graus e patentes, sou sua amiga e amigas se ajudam quando estão tristes e você está parecendo bastante triste para mim, então estou aqui para ajudar e se para te ver sorrir eu tiver de lavar suas costas, então isso eu farei. – dizendo enquanto seguro suas mãos. - Então, nada de desculpas mocinha, já para o banho. – falando como uma mãe fala para a filha.

Ela sorri carinhosamente e após tirar suas roupas, entra na banheira e como prometido, lavei-lhe as costas e ficamos conversando mais. Ela me contou mais sobre sua amada. Ela chorou várias vezes, ao se emocionar com suas lembranças e foi assim que a conheci mais.

Nos secamos, nos trocamos e naquela noite, pedi que dormisse em meu quarto. Na manhã seguinte, acordei com os gritos desesperados do sr. Armand Burnier, que ecoaram pela casa. Saltei da cama e como um raio, corri para a direção de onde vinham os gritos, mas ao chegar lá, compreendi o motivo de tanto alvoroço. Pude ver a sra. Isabel Montblanc, srta. Anne Vasselot e a srta. Sophie Bresson, aos pedaços no chão da cozinha. As três foram mortas esquartejadas e pude notar que seus braços e pernas estavam amarrados e que lhe tinham posto mordaças e mais uma vez havia pouquíssimo sangue derramado. Nessa hora me lembrei daquele punhal, que tivera achado a dias passados. Ia perguntar sobre ele, mas achei melhor deixar de lado por enquanto.

Comecei a procurar vestígios de algo suspeito, porém estava tudo “limpo”. O sr. Burnier estava arrasado, poucos momento após, os srs. Jacques Baillet e Adrien Vasselot, irmão da srta. Vasselot, chegaram ao lugar. Imediatamente após reconhecer o rosto de sua irmã mutilada, Adrien cai em prantos e a fortes pulmões grita enfurecido:

- NÃÃÃÃÃOOOOO! Irmã! Irmã! Fale comigo! Não, não, não, não, não, NÃO! Ela não pode ter morrido assim. Quem foi que cometeu essa atrocidade, com minha irmãzinha!?;

Apesar de serem gêmeos, ele nascera uns segundos à frente da irmã. Nisso, Sabrina chegou assustada e ao ver o que havia acontecido com suas companheiras de trabalho, desmaia, batendo a cabeça fortemente no armário branco com portas pretas, que fica próximo a porta da cozinha. O estrondo é tanto, que todos ali no local, se voltam para ela. Corri para ajuda-la e quando ergui seu tronco, pude ver uma mancha de sangue no chão. Olhei em sua nuca e vi o ferimento que era bem grave, por causa disso falei:

- Sr. Baillet, cuide do sr. Vasselot e do sr. Burnier, vou leva-la para o quarto e volto em alguns minutos. – fazendo um grande esforço para erguer Sabrina em meus braços e leva-la para seu quarto.

Ao chegar em seu dormitório, abro a porta e me deparo com algo nada convencional, seu quarto não possui nenhum tipo de janela, imaginei que o motivo disso, era que o quarto poderia se localizar no “centro” da casa, mas o mais importante agora, era cuidar de seu ferimento. Limpei seu machucado, fiz um curativo, a coloquei em sua cama, a cobri com seu cobertor grosso e pesado de pele de carneiro e voltei para a cozinha e ao chegar lá, encontro o sr. Leroy Órleans e o sr. Jacques conversando. Vi que nem Armand e nem Adrien estavam no local, então perguntei:

- Onde estão eles, Jacques?;

- Eles saíram senhorita. Disse-lhes que deviam ficar, mas saíram daqui como dois cães raivosos. Disseram que era hora de por um fim nisso e decidiram que iriam encontrar o monstro que as assassinou. – disse ele incrédulo.;

Leroy então disse, fazendo uma brincadeira:

- Seja quem for que fez isso, devia estar interessado no sr, Burnier ou no sr. Vasselot. – suspirando e rindo baixinho.;

- Como assim Leroy? – questionei-o.;

- Agora não preciso mais esconder de ninguém. – disse ele cabisbaixo. – A sra. Montblanc, estava de afair com Armand. – respondeu ele.;

- Uhm, entendi, mas e o Adrien, onde entra o sr. Vasselot nisso? – indaguei confusa.;

- Ele na verdade, era apaixonado pela irmã e a srta. Bresson, por sua vez, era apaixonada por Adrien, mas a srta. Vasselot gostava da sra. Isabel Montblanc. Era o que eu chamava de “rolo do amor”, com exceção da sra. Montblanc e do sr. Burnier os outros estavam apenas entregues em suas ilusões amorosas. – disse ele suspirando e mexendo em sua barba.;

Olhei ao redor e pude notar que Sebastian e seu sobrinho, não estavam por perto novamente, então perguntei aos dois, se os viram. Nenhum deles soube dizer, por essa razão, fui atrás de nossos dois “perdigueiros” para perguntar-lhes sobre, porém ao sair da casa grande, avisto o carro chegando e se dirigindo para a garagem. E vou em direção a eles e quando saem do carro, pergunto ferozmente:

- Para onde vocês foram? Mais uma vez, assassinatos ocorreram aqui e coincidentemente, vocês não estavam presentes. Me digam, para onde foram e o que foram fazer.;

Pierre, se sentindo ameaçado disse arrogantemente:

- Tivemos coisas para resolver fora da propriedade, como é fim de mês, estávamos renovando os contratos mensais que SUA família tem com a prefeitura e só temos o período da manhã para resolvê-los, então não nos acuse sem provas e se não acredita em nós, vá até a prefeitura e confira a senhorita pessoalmente ou até melhor, comece a resolver esses assuntos familiares você mesma. – vindo em minha direção com o peito estufado e me apontando o dedo.;

Aquilo me irritou de tal maneira que explodi e falei, nada cordial:

- Escuta aqui moleque, quem você pensa que é para falar assim com sua chefe?! Se não está satisfeito, saia daqui. Não é porque esse senhor é seu tio... – apontando para Sebastian. – Que vou tolerar esse tipo de atitude dentro da MINHA casa e outra coisa, se vocês tivessem me explicado que minha família tinha esse tipo de assuntos com a prefeitura, É CLARO que teria ido pessoalmente resolver, PORÉM os “bonitos” aqui, não me disseram uma única palavra e como não tenho bola de cristal, não poderia eu saber sobre isso. Entendeu, fedelho!?.;

- Fedelho?! Escuta aqui o criatura infer... – Sebastian o atinge com um violento golpe de costas de mão, fazendo com que Pierre se cale e se curvando perante mim suplica:

- Perdoe-o lady Laeaubelle, ele está cansado, a três dias que não dorme, ajeitando as informações que temos de levar à prefeitura todo fim de mês, por isso, perdoe-o, Permita-me lhe dar uma boa sova, como castigo, para que não volte a lhe levantar a voz.;

- Dessa vez vou deixar passar, mas da próxima vez que ele falar assim comigo, eu mesma vou-lhe quebrar os dentes.;

- Claro milady, como a senhorita assim desejar. Agora com licença, precisamos continuar a acertar mais uns dados, pois em breve precisaremos renovar mais uns contratos. – e começa a se afastar.;

Então digo:

- Me mostre esses contratos e esses dados, pois são informações ligadas à minha família, portanto preciso conhecê-los.;

- Não canse sua linda cabecinha com essas coisas burocráticas e chatas, nós já cuidamos disso a anos, então pode deixar conosco. – virando as costas para mim e acenando aparentemente irônico.

Fiquei encucada com essas tais informações e contratos e dados da família, então achei que era hora de dar uma vasculhada na biblioteca. Lá encontrei diversos livros escritos à mão, acredito que eles foram escritos pelos meus ancestrais ou parentes que viveram ali antes de mim, mas como a quantia era bem grande, achei que deveria separar por seções. Passei dias e noites pesquisando e lendo livros atrás de livros, folheando uns aqui, outros acolá, um dia em uma seção, no outro em outra e por aí fui me “aventurar” na caça a descoberta desses contratos que Sebastian havia falado.

Passaram-se duas semanas desde o assassinato brutal de meus três companheiros, Adrien ainda não conseguira superar a perda de sua amada e ao mesmo tempo sua irmã. Andava pelos cantos com uma boneca que teria presenteado Anne, quando ele ganhou seu primeiro salário. Andava e dizia: “Olhe Anne, veja que lindo esse vaso.” ou “Anne, você está tão calada hoje, converse comigo, minha querida irmã.”. Confesso que me partia o coração vê-lo assim, mas não tinha nada que pudesse fazer para ajuda-lo, porém, algo drástico estava para acontecer.

Resolvi me deitar, pois era tarde da madrugada, Sabrina dormira sobre um dos livros que estava lendo, para me ajudar. A chamei para acorda-la e dizer-lhe que era hora de ir para seus aposentos, mas como uma criança birrenta, ela fazendo manhã disse:

- Não quero ir pro meu quarto, lá fico sozinha e “tiste”, quero ir pro seu quarto e dormir com você.

Como estava cansada e não tinha muita energia para argumentar, permiti que fosse, até porque seria uma indelicadeza da minha parte, negar algo tão simples para alguém que está me ajudando tão dedicadamente. Naquela manhã, acordo com muita sede, então vou em direção à copa, mas ao chegar à sala de estar, me deparei com uma cena horrenda. Estavam mortos e pendurados no teto o sr. Leroy Órleans e a srta. Lis Goyon. Aquela cena foi tão impactante que só pude gritar:

- LIIIIS! LEROOOYYY! QUE HORROR!

O choque foi tamanho, que cai sentada no chão. Minhas pernas estavam moles e meu coração acelerado, pois não acredito que algo tenha feito àquela monstruosidade, de abri-los ao meio de baixo até em cima e ainda prega-los no teto da sala, mas algo chamava a atenção, pois das outras vezes, somente o sangue era roubado, porém dessa vez, até suas vísceras desapareceram. Ao escutar meus gritos, Sabrina, Armand e Jacques, vieram rapidamente e puderam presenciar aquela pintura de horror. Sabrina me abraçou forte, como quem quisera me consolar, mas estava inconsolável. Pude entender, como que eles se sentiram ao encontrar seus amigos e entes queridos, mortos e esquartejados. Após minha “recuperação e aceitação” forçadas, me levantei e vi que Sebastian e seu sobrinho, não estavam por lá novamente. Para mim, já estava deixando de ser uma mera coincidência e duas coisas passavam pela minha cabeça. A primeira: era que eles estavam matando seus próprios companheiros e querendo jogar a culpa em alguma possível criatura, retirando o sangue e vísceras das vítimas, ou a segunda: que era que alguém esperava com eles saíssem, para que parecessem culpados. Achei que não devia tocar nesse assunto, por razões óbvias, então guardei essas “informações” na minha mente.

Retiramos os corpos do teto, o sr. Armand e eu estávamos carregando para fora os sacos pretos onde estavam nossos queridos amigos e quando estávamos indo para nosso “cemitério fraternal”, Sebastian e Pierre aparecem assustados e perguntando surpreso:

- O que aconteceu aqui lady Laeaubelle. – pergunta Sebastian aflito.;

O meço de baixo a cima com um olhar dilacerador, mas mantendo aquilo que havia pensado, falei:

- Mais dois mortos essa manhã. Dessa vez foram Lis e Leroy. – respondi cabisbaixa.;

- Mas como é possível? Eles estavam conversando tranquilamente quando meu sobrinho e eu saímos, até disse para Leroy te avisar que iriamos conversar com responsável entre o acordo conosco e eles. Sinto muitíssimo lady Laeaubelle. Creio que não devemos mais manter esses contratos, pois sempre algo ruim acontece quando saímos dessa residência.

Senti minha expressão mudando com suas palavras, foi como se ele tivesse lido minha mente, ou ele poderia ter pensado que eu pensaria isso pela estranha “coincidência”, mas não comentei nada além de:

- Pode ser, mas por hora não tenho cabeça para pensar sobre isso, temos que enterrar mais dois companheiros no cemitério que fizemos no quintal dos fundos. – disse com pesar.

E assim, mais dois amigos se foram, mais duas almas em direção ao paraíso, ao menos era isso que gostaria que acontecesse. Naquele dia, não tive condições de continuar minhas pesquisas, por essa razão, pedi para Sabrina que fosse comigo até o chalé do caseiro, queria respirar, queria olhar o pôr-do-sol e daquele local, a visão era a melhor que tinha. Ela aceitou de imediato e perguntou:

- Iremos e ficaremos lá, ou voltaremos antes do anoitecer?;

É claro que ela preferiria ficar e hoje eu também preferiria, então disse, suspirando tomada em tristeza:

- Hoje gostaria de ficar lá, passar a noite e deitar minha cabeça naquele antigo travesseiro.;

- Vou preparar as coisas imediatamente, srta. Laeaubelle. – disse ela mantendo sua postura de serviçal.

Ela entrou e foi fazer os preparativos para irmos até o lugar em questão. Após ter terminado de sepulta-los, olhei para Sebastian, que por alguma razão, estava estranhamente feliz com aquela situação, queria ter perguntado, mas tinha certeza que teríamos mais um desentendimento, o que não seria muito bom para a ocasião. Sabrina voltou com sua cesta de vime, dois pequenos sacos de pano branco e um saco bem miúdo cor ameixa. Ela então disse:

- Pronto srta. Laeaubelle, aqui estão às coisas que levarei para a senhorita. Acredito que tenha tudo o que a senhorita precisará. Podemos ir quando estiver pronta. – olhando para mim com seriedade.;

- Então vamos, não estou conseguindo manter minha mente concentrada aqui, tem muita coisa que preciso colocar em ordem. – e então começo a caminhar e vejo que a srta. Baux está me acompanhando.

Passo após passo, fico revendo aquela cena da manhã e tento ao máximo, conseguir encontrar alguma pista em minhas memórias, mas todo esse esforço parece ser em vão. Nada me vem à mente, tudo se resume somente em suas mortes. Então lágrimas começam a escorrer e em silencio chegamos à pequena casa. Entramos e Sabrina, como sempre prestativa, foi logo estendendo lençóis limpos e macios, colocando fronhas com cheiro de lavanda nos velhos travesseiros. Tentei me segurar até o meu limite, mas quando Sabrina me perguntou se estava bem, não consegui mais me conter e disparei a chorar. A muito não chorava como daquela forma, acho que foram lágrimas acumuladas de todos meus amigos que sepultei esses últimos dias. Sabrina veio até mim, me colocou em seus braços e sussurrou:

- Está tudo bem, pode chorar à vontade, aqui ninguém irá vê-la em seu pranto e não se preocupe srta. Yui, esconderei seu rosto em meu colo, assim poderá desabafar o quanto sentir necessidade. – disse enquanto afagava meus cabelos.

Não pude soltar uma única palavra, apenas chorei. Chorei tanto que adormeci pelo pleno cansaço mental em que me encontrara. Na manhã seguinte, por mais incrível que possa parecer, acordei melhor, não sentia mais aquela pressão no peito, a cabeça ainda doía um pouco, o que fez com que eu começasse a raciocinar melhor. Me levantei da cama, Sabrina estava dormindo profundamente, então a deixei descansar, pois creio que ela também estava abalada com a situação. Fui até o banheiro lavar meu rosto e não sei bem o motivo, mas quando joguei aquela mãozada e água fria em minha face, lembrei-me de um livro que tinha visto a primeira vez que fui à biblioteca e que dessa última vez em que fui, este não estava lá. Me lembro bem dele, pois sua capa verde-limão, se destoava dos demais livros. Acho que poderia ter algo nele que poderia me ajudar, mas quem saberia sobre ele, além de mim e Sabrina? Sim, ele mesmo, Sebastian.

Sabrina acordou aparentemente feliz e cantarolante disse:

- Bom dia srta. Yui, como está nesse se sentindo nesse dia maravilhoso?;

- Bom dia Sabrina, estou melhor, isso graças a você que suportou e aceitou meu pranto de ontem. – e mudando de assunto rapidamente falei. – Parece que está bem contente. Algo em especial a deixou assim?;

- Na verdade, fico feliz de estar em sua companhia, mas essa noite, me senti especialmente importante, pois a senhorita confiou à mim, suas lágrimas, portanto, mesmo que seja um dia triste, pude acordar feliz, já que consegui ser verdadeiramente útil para a senhorita. – olhando-me nos olhos e sorrindo plenamente.

Não tinha como não se contagiar com aquele sorriso e sua alegria, de certa maneira, essa atitude dela, me fez ficar um pouco mais animada e alegre. Ela então recolheu as roupa de cama que havíamos utilizado, colou-as dentro da cesta que agora estava vazia, vestiu seu uniforme padrão e disse envolta em uma atmosfera de seriedade:

- Senhorita, acho melhor voltarmos, não é bom ficarmos longe da casa grande por muito tempo, não sabemos o que pode acontecer.;

- Tem toda razão Sabrina, devemos voltar o mais rápido possível, pois lembrei-me de algo, que pode me dar a resposta que busco.

Então voltamos para a casa principal e por sorte o sr. Baillet estava em pé, parado de frente com a porta. Parei para conversar com ele e Sabrina foi porta à dentro para completar suas tarefas diárias.

-Bom dia Sr. Baillet, tem um minuto? – indaguei ao homem.;

- Bom dia srta. Laeaubelle, em que posso lhe ser útil? – respondeu ele prontamente.;

- O senhor saberia me dizer se, o senhor, ou alguém, retirou um livro em particular, da nossa biblioteca?;

- Sinto muito senhorita, eu mesmo não entro muito lá, mas o sr. Burnier ou sr. Dubois devem saber.;

- Entendo. – respirando fundo e dizendo. – Não posso perguntar para Sebastian, pois parece-me esconder algo, mas vou perguntar para Adrien, se é que ele conseguira responder. – indaguei comigo.

Porém, antes que em afastasse muito, o sr. Jacques me chamou e falou:

- Senhorita, desculpe, estava tão distraído que esqueci de dizer que essa manhã, levamos algumas coisas para o sótão, pode ser que o que procura, esteja lá, mas também pode ser perda de tempo.;

- Pode ser que seja perda de tempo como o senhor disse, mas pode ser que esteja lá, porém se não averiguar, não poderei saber. É melhor perder uns minutos, do que manter uma dúvida para sempre. – disse-lhe sorrindo e indo até o sótão.

Depois de me perder um pouco entre tantos corredores da casa, cheguei ao sótão e quando abro a escotilha para adentrar, para minha surpresa, o local está todo bege, exceto o livro que justamente estava procurando. Se fosse antes, iria a passos confiantes para pegá-lo, pois bastaria dizer alguma coisa relacionada a livros ou leitura, que tudo se resolveria, mas como a última criatura, foi algo fora dessa “norma”, então estou preocupada que possa acontecer aquilo novamente, por essa razão, decidi voltar ao meu quarto e pegar aquele punhal que havia me salvado anteriormente. Volto preparada para o embate, mas quando entro confiante de minha vitória, eis que o sótão está normal e o livro havia sumido. Fiquei bem irritada com aquilo, pois como que em tão pouco tempo, o livro sumiu? Quem o tirou de lá? Quem sabia que estava vindo até aqui? Nessa hora, só me passou a mente que o sr. Baillet sabia, então resmunguei comigo:

- Será que o sr. Jacques pegou o livro? Acho que ele não faria isso, mas todos estão agindo de maneira bastante estranha esses últimos dias. Já sei, vou perguntar se ele entrou aqui e pegou o objeto.

Sai e fui em direção ao local onde tinha encontrado o homem, mas chegando lá, não havia mais ninguém e com razão, passou-se um bom tempo desde que o avistara aqui na entrada. Procurei em alguns locais da residência, mas não encontrei nem o sr. Baillet e muito menos o livro, porém a essas alturas, estava ficando com dor de estômago de fome, então decidi ir até a cozinha e lá estava Jacques e Armand discutindo algo, parecia até que estavam brigando, então entrei de supetão e disse:

- O que está havendo aqui? Por que essa gritaria? Jacques? Armand? Expliquem o que está havendo.;

Armand irritado fala com ar de ódio, mas sem erguer sua voz:

- Estamos discutindo como nos defender, éramos em doze, porém agora somos só nós dois, pois Sebastian está bem estranho e nada confiável, Sabrina agora é praticamente a sombra da senhorita, Adrien perdeu o juízo, Pierre é sobrinho de Sebastian, portanto é bem capaz de nos trair, caso seu tio o faça, a senhorita mesmo nunca está tão presente e mesmo que estivesse, não confia em suas capacidades, o que a torna não tão confiável para nos ajudar. Sinto muito em dizer isso, mas é assim que Armand e eu nos sentimos.

Armand o olha tão irritado, que se pudesse, teria o fulminado ali mesmo. Então, me virando para Armand pergunto:

- O senhor realmente se sente assim, sr. Burnier?;

Ele ficando sem jeito e com desespero no olhar afirmou:

- Sim senhorita, não sinto que a senhorita possa nos ajudar, é bastante inexperiente, mas não a culpo totalmente, pois a senhorita não faz parte de nossa realidade.;

Aquilo me atravessou mais profundamente que qualquer espada atravessaria e infelizmente ele tinha razão, não havia crescido naquele meio, enquanto eles lutavam contra esse tipo de criatura, eu lutava contra minhas notas na escola, enquanto eles erguiam e brandiam suas armas, eu erguia minha caneta e meu lápis. Abaixei minha cabeça e disse:

- Tem toda razão, sou fraca e inexperiente, pois nossos amigos morreram e não pude fazer nada para ajuda-los. – as lágrimas começam a escorrer pelo meu rosto e algumas chegam a atingir o piso.;

Os dois homens ficam envergonhados e preocupados disseram:

- Não precisa ficar assim senhorita, não falei isso por mal. – disse o sr. Baillet.;

- Sim, até porque a senhorita não poderia saber que isso poderia acontecer ou quando aconteceria. – disse o sr. Burnier.;

- Sei que fomos rudes no que dissemos e não há desculpas para isso, mas estamos temendo por nossas vidas e por causa disso, estamos tomados pelo medo e receio, porém srta. Laeaubelle, pedimos desculpas. – disse Armand tentando apaziguar a conversa.;

Ainda de cabeça baixa e com a voz chorosa disse:

- Vocês não precisam pedir desculpas por dizerem a verdade, eu quem preciso pedir perdão para vocês, por ser fraca e não conseguir salva-los. – me ajoelhando diante deles e continuo. – Infelizmente não vai mudar o que aconteceu com Lis, Isabel, Sophie, René, Anne e Leroy, não importa o quanto me desculpe com vocês nem com eles, jamais mudará fato de estarem mortos, mas uma coisa eu prometo, nem que tenha dar minha vida, vou livrar todos dessa maldita vida que levaram até hoje, portanto... – colocando minha testa contra o chão. – Aceitem minhas habilidades para acabar com isso, prometo que farei o meu melhor para que não se sintam mais abandonados.

Nessa hora Sabrina entra na cozinha e vê aquela cena. Imediatamente, tomada em fúria, ela questiona:

- O que fizeram com ela, seus animais!? Como se atrevem a deixa-la ajoelhar ao seu pés enquanto chora dessa forma!? Minha vontade é matar vocês dois agora. Só não faço isso porque não tenho forças o bastante, por isso agradeçam aos céus por suas vidas terem sido poupadas por mais um dia, seus imundos mortais, classe inferior. Voc... – a interrompi pegando-a pela mão enquanto me levanto e digo:

- Sabrina, não devia dizer essas coisas, sua linda voz não deveria proferir tais agressões verbais. – ficando de pé e olhando-a em seus olhos que estavam tomados pelo ódio. – Até porque, eles não fizeram nada, eu estava me desculpando com eles, por vontade própria.

Pouco a pouco ela foi se acalmando e seu ódio, foi se transformando em lágrimas que escorriam pelo seu rosto, que lentamente aproximava de meu colo. A abracei, para acalenta-la e apaziguar seu coração, nesse momento os dois me olharam nos olhos e sem dizer uma palavra, acenaram positivamente com a cabeça e saíram. Após uns minutos, ela para de chorar e pergunta baixinho, ainda com o rosto no meu peito:

- Srta. Yui, a senhorita vai ficar muito brava comigo, pelas coisas que disse a pouco?;

Já estava em meus braços, então apenas a segurei um pouco mais forte e disse carinhosamente:

- Por que ficaria brava, com você? Não tenho motivos para isso, afinal, você estava tentando me defender e isso me deixa feliz, mas não use mais essas palavras, foram muito rudes para serem direcionadas para amigos.;

Senti que ela queria dizer algo, mas ela apenas suspirou, soluçou e chorou mais um pouco. Então falei bem baixinho, próximo ao sua orelha direita:

- Pode chorar o quanto precisar, não vou te soltar até que tenha terminado. – ela merecia isso, afinal, Sabrina também havia aceitado minhas lágrimas, aceitando minha dor de braços abertos.

Aquela noite, eu acabei cozinhando para todos, não foi nada sofisticado, nem muito elaborado, achei até que estava um pouco salgado, mas todos comeram e me agradeceram por ter feito aquele prato simples. Após todos terem jantado, comecei a retirar a mesa e Sabrina estava me ajudando. Ela toda envergonhada olhando para mim, sentia que queria dizer algo, algo que a estava sufocando, então falei, como se estivesse jogando palavras ao vento:

- Às vezes é bom falarmos o que sentimos, pois nossas emoções podem nos sufocar.;

Ela, pega de surpresa, indaga:

- O quê? Como assim senhorita? Uhm, err... ahm... ah! A senhorita tem algo que queria falar? Algo que a esteja incomodando? Sou toda ouvidos para a senhorita.;

- Obrigada Sabrina, mas disse o que disse, por vontade de dizer. Às vezes acabo lançando palavras ao vento, mas claro que, da mesma maneira que você está se prontificando para me ouvir, também estarei aqui, sempre que quiser conversar. – olhando para ela e sorrindo.

No dia seguinte, volto a me preocupar com o sumiço do “monstro-livro” ou seria um “livro-monstro”, não sei ao certo, mas estou encucada com seu desaparecimento, mas nisso, escuto os gritos de Sebastian, que vinha do quintal, então vou para lá o mais rápido que posso e quando chego, me deparo com mais uma cena chocante, seu sobrinho, o sr. Pierre Dubois está morto, pendurado pelos pés, em um dos galhos de uma árvore que faz sombra para nossos falecidos amigos. Quando vi aquilo, todas minhas dúvidas sobre o sr. Sebastian, se foram. Então cheguei até e disse solenemente:

- Sr. Sebastain, sinto muito pelo seu sobrinho.;

Envolto em um riso macabro ele diz:

- A senhorita sente muito? Sente mesmo, lady Laeaubelle?;

- Sim, sinto muito mesmo, pois ele não merecia uma morte dessas. – retruquei.;

- Então senhorita, ainda acha que sou culpado das atrocidades que ocorreram nessa residência? – questiona irônico.;

- Sebastian, mesmo que eu esteja triste pela morte de seu sobrinho e o veja aqui, parado em frente ao seu corpo pendurado e decapitado, não posso dizer que absolvo o senhor de todas as outras mortes, porém desta, sei que não é culpado. – falando cabisbaixa.;

- E o que pretende fazer, nossa maravilhosa defensora da justiça? – questiona ele sarcástico e enfurecido.;

- Farei o que tiver que fazer, nem que isso custe minha vida. – respondi seriamente.;

- Mas até que dê sua vida, quantas outras serão tiradas? – argumentou Sebastian, saindo dali.

Mais uma vez, fui atingida pela espada da realidade, me mostrando que não importa minhas convicções, mais cedo ou mais tarde, alguém vai acabar perdendo sua vida. Tudo o que podia fazer agora, era desamarrar o sr. Pierre e enterrá-lo com os demais. Abri uma cova da melhor maneira que pude, minhas mãos ficaram totalmente esfoladas por causa da enxada que usei. E agora havia um companheiro a menos. Nosso time agora se resumia a Sebastian, Sabrina, Armand, Adrien, Jacques e eu, mas como os srs. Burnier, Baillet e estavam preocupados, tementes pela própria vida, o sr. Vasselot perdido em sua insanidade e Sebastian enfurecido comigo, só me restava agora procurar aquele livro, usando minhas habilidades ou então contando com a sorte, sorte essa que não tenho muito, pois algo inesperado estava por vir.

Revirei a casa de cima a baixo, da esquerda para direita, consumindo-me quinze dias, pois procurei até mesmo por grande parte da propriedade, mas sem sucesso. A essas alturas, já estava esperando por um sinal, por uma pista que fosse, para encontrar esse maldito artefato, Culpo-me por não ter dado um passo à frente aquele dia, mas como isso não mudaria em nada, continuei minhas buscas. Até que três dias depois dali, estava me dirigindo para meu quarto e para minha surpresa ouvi um grunhido, então de imediato adentro e vejo-o totalmente bege e em cima da minha cama, estava o livro. As cortinas que rodeavam minha cama, estavam rasgadas como se tivessem sido partidas por grandes garras afiadas. Meu coração palpitava pela ansiedade, então num piscar de olhos, me atirei ao livro que por sua vez, revelou a criatura. Seu corpo quadrado, era revertido de couro muito resistente, seus braços, pareciam dois chicotes, eram finos e bem alongados, em suas pontas, dava para ver uma pequena lâmina pontiaguda que até parecia uma agulha de injeção, suas pernas curtas, me dariam alguma vantagem, pois acreditava que não teria mobilidade suficiente para escapar de alguma investida minha.

A criatura começa a sacudir e balançar seus chicotes e seu corpo começa a expelir um pó esverdeado, parecia mofo e em pouco segundo o lugar ficou tomado por esse pó, A princípio, minha garganta secou, mas aos poucos, comecei a sufocar, sentia que meus pulmões estavam cheio dessas partículas, mas não tinha tempo para desmaiar, minha missão ali, era acabar com a criatura, então, mesmo cambaleando, parti na direção dela, sacando meu punhal, mas fui desarmada pelo brandir de um de seus braços e logo em seguida, veio seu segundo ataque, que me jogou para dentro do banheiro, que por sorte, não estava tomado pelo “mofo”. Então fechei a porta, coloquei algumas toalhas para impedir que aquele pó invadisse o lugar e me dando um soco certeiro no diafragma, comecei a tossir até expelir tudo. Então respirei fundo, peguei um lenço de tecido que tinha ali, o molhei bem com a água da torneira e amarrando-o em volta do meu rosto, protegendo meu nariz e minha boca, abri a porta e me lancei novamente contra a criatura.

Tentei usar a “técnica” de falar algo sobre livros ou leitura, mas foi em vão, a criatura parecia não ouvir e seu grunhido, era bastante abafado. Estava ficando sem ideias, olhava de um lado para o outro e nada me vinha à cabeça, enquanto isso, apenas me esquivava de seus golpes e evitava ao máximo respirar muito. Vários minutos tinha se passado, já estava muito cansada de tanto esquivar e pular seus ataques, sentia que me faltava oxigênio no sangue, minha cabeça estava doendo tanto, que poderia desmaiar a qualquer momento, mas então algo me ocorreu: “O que aconteceria, se eu quebrasse os vidros das janelas?”. E assim fiz, peguei um dos braços de sustentação que o monstro havia quebrado da cama e comecei a arrebentar os vidros e pouco tempo depois, tive um pequeno espaço para poder respirar. Nessa hora a criatura grunhiu com fúria:

- GRRRRRRAAAAAAAAAAAA!

Cheguei a pensar que ela tinha medo de ar puro, então, com a ajuda de um pedaço de porta que tinha sido arrancado pela criatura, comecei a abanar e abanar. Acreditei que estava dando certo, pois a criatura se mostrou enfraquecendo, por um instante, mas esse foi meu erro. Quando ela cambaleou por um segundo, avancei em sua direção, ela então me segurou, enrolando seu chicote esquerdo em minha cintura e com o direito, perfurou minha mão esquerda. Sentia seu “braço” avançando por meu braço a dentro, a dor era indescritível, ele só parou quando chegou ao osso de meu ombro. Pude ouvir meus ossos estralando. Achei que fosse morrer e no momento de desespero arranquei o lenço que estava em meu rosto e com a única mão que tinha, bati em seu braço, que estava mais parecendo um tentáculo, e este enrolou, me dando a condição de puxar com toda a força e talvez assim, lhe causar algum dano. Como o tecido ainda estava um pouco úmido, no momento em que puxei o lenço, ele se desenrolou do braço da criatura, mas arrancou um pequeno pedaço de couro consigo. Nisso a criatura grunhiu e me lançou contra a parede que acabei atravessando-a e caindo no quarto ao lado.

Não podia mais usar meu braço esquerdo a dor era tanta que piscar me era um martírio, então gritei para mim, buscando uma última força para que eu pudesse me levantar:

- Posso ser fraca, posso não ter crescido com essa vida, posso não ter conseguido proteger ninguém, mas disse que daria minha vida para acabar com isso e é isso que farei, vou acabar com essa maldição libertar todos dessa vida impregnada por lutas e derramamentos de sangue sem fim. – me levantando com extrema dificuldade e continuo. – Não sei porque eu nasci com sangue Laeaubelle e muito menos o motivo dessa família ser responsável por manter criaturas assim, presas nesse lugar, mas eu sei, que quem cairá aqui e agora, não serei eu, será você, sua vil criatura. – colocando a mão sobre meu peito e sentindo minha blusa molhada pelo suor.

Arranco a blusa, rasgando-a e me lanço num último e desesperado movimento, a criatura então me ataca com seu braço direito, pois ou seu esquerdo estava aparentemente derretendo pela umidade que absorveu. Não consegui esquivar, a criatura me atingiu na parte inferior direita do meu abdômen, mas como jurei que não ia cair ali, me mantive em pé e mesmo com aquele tentáculo atravessado em meu corpo, continuei correndo até ele. Cheguei perto o suficiente para atingir sua cabeça com a arma mais letal que tinha no momento, uma blusa suada. Em pouco tempo, a górgona começou a se desfazer e dela saiu à alma de uma mulher, que proferiu palavras que não conseguia entender. Sentia que era ali que meu fim chegara, porém, antes que eu perdesse minha consciência, meus sangramentos pararam, minhas dores diminuíram e aos poucos comecei a melhorar, foi como mágica, eu simplesmente estava bem, não totalmente, mas estava recuperada. Então aquela mulher disse:

- Olá Laeaubelle, você é alguém da família não é? – disse com uma voz ecoante.;

- Sim, meu nome é Yui, Yui Laeaubelle. E quem é você? – perguntei ao espírito.;

- Meu nome não é importante, porém me libertou de minha maldição, por essa razão, lhe dei a pouca energia astral que me restara. Sei que não será suficiente, pois algo maior está por vir e você deve decidir unicamente por você. Lembre-se, a história dessa família, está sob seus ombros. – dizendo isso enquanto esvai.

Olho para minha mão esquerda, vejo que posso movê-la novamente e passando a mão pelo meu corpo, sinto que não há mais nenhum ferimento profundo, mas todas as dores, mesmo estando mais brandas, ainda se faz presente.

Saio do quarto e encontro Sabrina, pálida ao lado de fora, ela espantada pergunta:

- Minha am... quero dizer, srta. Yui, está bem? Ouvi a senhorita gritar, mas quando cheguei, não estava mais lá, fiquei preocupada e entrei em pânico.;

- Estou bem Sabrina, acabei com mais uma dessas górgonas, mas diferente das outras, com essa quase encontrei a morte, mas por muita sorte, a alma que foi liberta, me salvou, me dando suas últimas energias.;

- Que bom que está a salvo. – correndo e me abraçando com todas as forças.;

- Ai! Meu corpo ainda está doendo muito Sabrina, mas fico feliz de receber seu abraço.;

Ela então me olha preocupada e diz intensamente:

- A senhorita precisa se preparar, acredito que seja necessário um banho para recupera-la totalmente.;

- O que mais queria nesse momento, era saborear um de seus incríveis pratos, pois quando achei que morreria, pensei que nunca mais conseguiria apreciar sua comida. – e sorrio com um pouco de dificuldade, devido à dor.;

Ela sorri bem feliz, e diz festivamente:

- Farei aquilo que minha mais linda e graciosa mestre pedir, mas antes, gostaria de lhe preparar um banho todo especial.;

- Com esse sorriso tão intenso e carinhoso, tem como recusar? – balançando os braços e ombros em conformidade.

Sabrina sorri e se dirige para outra suíte que, por razões óbvias, a minha não está mais em funcionamento. A acompanho, ela caminha toda feliz e serelepe, é a primeira vez que a vejo assim, tão livre e solta e por alguma razão, fiquei muito feliz em vê-la assim. Depois um tempo, meu banho está pronto, ela diz:

- Enquanto fica relaxando na banheira, vou lhe preparar algo delicioso, com certeza irá lamber os beiços. – e me mandando um beijinho soprado e uma piscadela, sai do banheiro.

Durante meu banho, ela volta e consigo ouvir o som das rodas rapando no chão de madeira de um carrinho que trouxe. Acredito que tenha alguns de seus deliciosos pratos. Ela diz alegremente:

- Pronto minha senhora, sua humilde serviçal está de volta com sua comida. Assim que acabar seu banho, poderá aprecia-los.;

- Obrigada Sabrina, mas como disse, não se trate como serviçal, você uma amiga valorosa para mim. – respondi sorrindo.;

- Sou somente uma amiga para a senhorita? – questiona ela, mudando seu semblante.;

- Sabrina, você muito importante para mim, lembre-se disso, daria minha vida por você. – respondi seriamente.;

Ela olhou para mim, sorridente novamente e disse:

- Então deixe-me lavar suas costas, pois adoro faze-lo, sinto que a senhorita relaxa e sente prazer. Ou me engano? – perguntou ela, de modo mais atrevido.;

- Não se engana não, adoro seu toque e a maneira que esfrega a esponja em minhas costas, sempre que faz isso, me sinto renovada. – disse virando minhas costas para ela.

Ela esfrega e diferente de outras vezes, ela ajuda a me secar e me trocar e ao sair do banheiro, me deparo com um carrinho com diversos tipos de comida. Carnes com sabor agridoce, uma enorme bandeja de saladas, arroz com um tempero muito suave e também muito saboroso, além de tortas feitas de mel e banana. Era uma explosão para meu paladar. E não perdi tempo, comecei a comer logo, como se tivesse ficado a meses sem comer, ela ali parada, só me olhando com a satisfação estampada em seu rosto. Fiz com que ela comesse também, mas só aceitou, porque me convenceu a dar-lhe comida na boca. Conversamos bastante depois disso e pelo cansaço e pela segurança que ela estava me passando estando ali, acabei dormindo.

Infelizmente essa paz durou pouco, pois acordei na manhã seguinte com os gritos de Sebastian, que diferente de antes, eram gritos de fúria e prazer intenso. Percebi que seus gritos vinham da mesma direção da janela que havia naquele quarto, então mais do que depressa, fui ver o que estava acontecendo e o que vi, me deixou com náuseas. Corri até lá fora e Sebastian, coberto de sangue, estava com Adrien suspenso em suas mãos, enquanto Jacques e Armand estavam dilacerados ao chão. Ao ver aquilo, fiquei enojada, perplexa e completamente enfurecida. Então questionei em alto e bom tom:

- O que significa isso Sebastian?!Explique-se de uma vez!.;

- Ora, ora, ora, se não temos aqui lady Laeaubelle – falando com ironia e continua. – Que prazer enorme, milady, ter se juntado a nós.

Ele solta Adrien que cai morto ao chão. Seu corpo ainda quente, se mexe por causa de espasmos musculares. Aquilo enche meu coração de ódio, mas antes que pudesse falar algo, Sebastian sadicamente e em êxtase, falou com excitação:

- E então senhorita, está com raiva de mim? A senhorita quer me matar, não quer? Por que a senhorita não tenta? Use essa raiva e venha para cima de mim com tudo, quero ver em seus olhos a dor e agonia que está guardada pela morte de seus... – e com muita soberba e tomado por um prazer altíssimo, continua. – Amigos preciosos! A senhorita precisava ver, como eles se debatiam, quando os cortava ainda vivos. A sensação era... – foi abruptamente interrompido, com o soco mais forte que conseguia desferir, em sua face.

Ele foi arrastado a uns quatro metros de distância, pude sentir que seu maxilar havia quebrado, porém ele ao se virar para mim, já estava renovado e lambendo seus lábios e colocando sua mão esquerda sobre seu rosto, deixando os dedos levemente abertos indagou esboçando uma alegria psicótica:

- Isso é tudo o que a senhorita tem para me oferecer? – rindo sadicamente muito alto e continua. – Se isso for tudo o que tem, então não terá graça em te matar, mas isso não quer dizer que a deixarei viva, pois não posso deixar vivo um ser inferior igual à senhorita. – disse com deboche e desdém e se atirou em minha direção.

Seu golpe de joelho foi rápido e tão forte, que senti minhas costelas do lado direito se quebrarem. Fui lançada aos ares a uma distância muito grande e ao cair, senti deslocar meu quadril. Ele então veio andando calmamente em minha direção, sua expressão era de prazer, ele estava se deleitando dessa situação. Me levanto com muito esforço, as dores na costela e no quadril, estavam muito grandes, mas não podia me entregar sem lutar, e quando ele chegou perto de mim, rapidamente saquei o punhal e o apunhalei no peito. Ele foi andando para trás, com o punhal fincado em seu peito. Achei que tivera conseguido ganhar dele, porém alguns segundos depois, ele ri insanamente, retira o punhal de seu peito e o lambendo diz:

- Então esse é o sabor do meu sangue, é muito melhor que o sangue dessa raça inferior, mas ainda não sei qual o sabor do sangue dos Laeabelle, mas acho que vou prova-lo agora. – disse arremessando a pequena faca em minha coxa direita, que cravou no osso, porém me segurei ao máximo, para não gritar.

Sebastian vem vagarosamente, saboreando o momento, babando e com o olhar mais sedento de sangue que havia visto. Ele se aproximou de mim e com sua mão direita, me ergueu pelo pescoço, como se eu fosse feita de papel. A dor que sentia em meu corpo era extrema, não estava mais aguentando, então as lágrimas começam a rolar pelo meu rosto. Sebastain olhando essa cena, disse, enquanto apertava meu pescoço e retirando o punhal da minha, soltando no chão e começa a enfiava seus dedos no ferimento:

- Isso, isso senhorita, chore, implore por sua vida, humilhe-se perante mim. – e rindo sadicamente, começou a rasgar mais e mais a carne de minha perna.

Consegui dar-lhe um chute forte o suficiente para me soltar e o afasta-lo. Cai no chão com certa força e mesmo estando naquele estado, me levantei, não poderia desistir e deixar que a luta de todos eles fossem em vão. Sebastian então disse, presunçoso e imponente:

- A senhorita está parecendo minha Heloísa, ela sempre se levantava, não importa o quanto eu a perfurasse. – falando e babando pela euforia e continua. – Como era mesmo que disse, ah sim: “nem que me custasse à vida”, não é. – e gargalha como se fosse explodir em êxtase. – A senhorita, de todos os Laeaubelle, é a mais fraca e repugnante que já vi. Não consegue fazer nada sozinha, sempre precisou de amigos e por isso dizia que éramos, mas não se preocupe, seu amigo aqui... – apontando para ele mesmo com seu polegar direito. – Irá ajuda-la. Vou te livrar dessa vida amaldiçoada e tudo o que deve fazer, é dar-me seu sangue de forma lenta e dolorosa. – me suspendendo pelo braço e socando minha costela quebrada.

Não aguentava mais, as lágrimas já escorriam aos montes, a dor que estava sentindo era tanta que estava quase implorando para morrer, mas nessa hora, Sabrina chegou com uma faca em mãos e gritou:

- Ei seu imundo, tire as mãos dela!;

Sebastian olhou para ela e sorrindo maleficamente indagou:

- O que você poder agora?! Não há mais nada que possa fazer contra mim.

Nisso agarrei em seu paletó, pois não queria que ele matasse Sabrina na minha frente, mas ele tomado pelo sadismo, me sacudiu de um lado para o outro, tanto que ouvi meu ombro se deslocar, mas mesmo assim não o soltei. Ele me lançou longe e com a força de seu lançamento, rasguei-lhe o paletó e a camisa, sendo assim revelado um pentagrama, aparentemente feito de ossos, em seu peito.

Ele põem sua mão sobre aquilo e rindo diz:

- Isso foi um selo a muito esquecido, esse selo foi criado com as costelas das cinco górgonas que aqui abitavam, mas que agora não pode mais me segurar, pois elas se foram e com isso seu efeito também se foi. – arrancado com toda sua força, aqueles ossos de seu peito.

E então Sebastian começa a se transformar, ficando maior e com a pele cinza pálido, seus olhos se tornam negros como a morte, de seus dedos vão surgindo grandes garras que pareciam dentes de tubarão, pois eram serrilhadas e muito afiadas. Dava pra sentir o cheio de morte exalando dessa criatura. Ele rugiu como dragão e seu rugido ecoou por toda a propriedade. Ele então olhou para mim e sedento por sangue disse:

- Agora vou arrancar-lhe a cabeça vagarosamente, mas não se preocupe, pois não irei mata-la ainda, antes irei-lhe rasgar o abdômen e desmembrar-te, mas tudo será com muita calma e sem a mínima pressa.

Estava tremendo muito, estava com muito medo daquela criatura, me sentia uma preza perante seu predador, era uma sensação abominável, mas nessa hora Sabrina gritou:

- Ei Sebastian, é sangue que quer não é? Então tome, fique com o meu! – e finca a faca em seu peito, que faz com que jorre sangue para todos os lados.

Sabrina antes de cair, disse olhando para mim com um sorriso pleno e dessa vez, amoroso:

- Srta. Yui, quer dizer, Yui, eu te amo, não podia deixar que esse monstro te assassinasse na minha frente, então minha amada, me sacrifico por ti, entregando a esse ser imundo o sangue que ele tão quer. – e caindo ao chão após essas palavras.

Fiquei sem fala na hora, não sabia como responder ou que dizer, porém mesmo que dissesse qualquer coisa, já seria tarde demais, pois já havia se sacrificado pelo meu próprio bem. Me voltei para esse “novo” Sebastian e pude ver que seu corpo estava se transformando em sangue. Então a medida em que ele sacudia e gesticulava, ele gritava:

- Como é possível?! Nunca conheci ninguém que se sacrificaria por outros! Por que fez isso, maldita mulher! Vou voltar, voltarei quantas vezes forem necessárias para fazer desse mundo meu parque particular!

O corpo de Sebastian, que havia se tornado sangue, explodira, espalhando sangue e seus restos por toda a área. Me levanto com uma dificuldade absurda e vagarosamente vou até o corpo de Sabrina. Fico parada em frente a ela, as lágrimas que agora escorrem, não são de dor, mas sim de tristeza. Me pergunto, por que ela não me disse o que sentia, mas de certa maneira ela o fez, eu que nunca tinha percebido. Então eu olho para o céu e digo:

- Não acredito que você foi Sabrina, queria que estivesse aqui comigo agora, você me salvou, dando sua preciosa vida para alguém como eu. – fechando meus com o rosto ainda para cima, continuo. – Queria que tivesse dito o que sentia por mim, pois sinto meu coração vazio sem você. Creio que mesmo que tenha me fechado para o amor, você conseguiu quebrar essa barreira e acho que posso dizer que também te amo.;

No mesmo instante em que termino de lançar essas palavras ao vento, escuto sua voz que diz:

- Se quiser, posso estar sempre ao seu lado, meu amor. – disse ela levantando-se.;

- Ahm!? Sabrina, mas como? Como você tá viva? – falei surpresa. – Como está de pé com esse ferimento fatal no peito.;

Ela sorri e tirando de dentro de sua blusa uma grossa bolsa que parecia ser feita de pele, diz:

- Não se preocupe meu amor, esse sangue não é meu, foi tudo uma encenação para que pudéssemos acabar com Sebastian. – respondeu ela ardilosamente.;

- Como assim, não era seu sangue, então é sangue de que? De algum animal? E como sabia o que fazer para detê-lo – indaguei curiosa.;

- Pode-se dizer que sim. Esse sangue foi de Pierre Dubois, assim como essa bolsa foi feita com sua pele e faz tempo que sabia como acabar com Sebastian, afinal, fui eu quem o invocou para cá. – disse ela sorrindo.;

- Sabrina, quem é você de verdade e como assim, você o “invocou para cá”? – questionei apreensiva.;

Ela então me olha severamente, o ambiente ao nosso redor, começa a se tornar bege, porém diferentemente das criaturas, dessa vez, não consigo me mexer, meu corpo está muito pesado, além das fortes dores que estou sentindo. Sabrina se afasta e diz, tomada em fúria:

- Você não poderá se mover, pois está na minha Zona Zero. Somente quem permitir, consegue se mexer, mas não se preocupe, terá minha permissão para falar e somente falar. – e após um breve silêncio, continua. – Todas as mulheres da família Laeaubelle são mesmo cruéis e egoístas. Todas negaram meu amor e todas elas pagaram o preço, com você não será diferente, Yui. – abrindo à sua frente o que parecia um buraco negro.

Ela coloca sua mão e de dentro do buraco, retira uma grande espada dourada. Sua lâmina em forma de ‘v’ de dois gumes era muito afiada, seu cabo parecia ser envolto em couro de cobra e em sua ponta, uma cabeça de serpente. A cada balançar dessa espada, era possível ver o ar sendo cortado, definitivamente era algo impressionante e com certeza mortal.

Sabrina aponta a espada para mim e diz furiosa:

- Essa espada aqui Yui, é a espada perfeita pra quem tem o coração de pedra, pois ela foi banhada com o sangue de Medusa, porém, quem morre por essa espada, receberá o destino que será escolhido por quem a empunhar. Foi isso o que aconteceu com a verdadeira Sabrina, a muitos anos atrás.;

- Com a verdadeira Sabrina? Mas seu nome não é Sabrina? – perguntei assustada.;

- Minha linda Yui, eu tenho mais de quinhentos anos, meu nome se perdeu em minha história e hoje sou apenas Sabrina. O sobrenome Baux, escolhi ao acaso em um livro que li, mas chega de conversar, é hora de eliminar a última Laeaubelle e com isso os Pantáculos que existem abaixo dos muros serão destruídos e finalmente poderei sair desse lugar e quem sabe poder encontrar alguém que aceite meu amor. – disse ela com pesar.;

Fazendo uma força sobre-humanda, coloco minhas mãos sobre meu peito e digo:

- Sabrina, não sei do seu passado e não me importa quem você foi naquela época ou mesmo quantos anos tenha, tudo que sei, é que gostei de você de verdade.;

Ela irritada, brande a espada que chega a assoviar ao cortar o ar e questiona:

- Gostou de mim? Quando? A senhorita em nenhum momento disse isso. Como posso acreditar que gosta de mim, se em nenhum momento deixou-me claro isso?

- Pode parecer mentira, mas é a mais pura verdade. Você bem sabe que me fechei para o amor, fiquei com medo de me machucar novamente e além de tudo, nunca imaginei que a pessoa que seria a certa para mim, seria uma mulher, mas acredite em mim Sabrina, eu também te amo.;

Ela baixa a espada e com lágrimas nos olhos intima:

- Se é verdade isso que diz, quero que me prove seus sentimentos.;

- Não sei como posso te provar meus sentimentos além de... – mais uma vez, fazendo um esforço descomunal, ponho meus braços à disposição para abraça-la. – fazer me esforçar ao máximo para poder te abraçar, mesmo estando sob os efeitos da sua Zona Zero e meu corpo estando quase todo quebrado. – digo com um sorriso franco e verdadeiro.;

Ela então começa a derramar suas lágrimas e pergunta confusa:

- Eu matei a verdadeira Sabrina, a transformei em uma górgona que foi aprisionada em um dos objetos que a senhorita encontrou. Uma daquelas almas, foi a da pessoa que tanto amei e ainda consegue me amar, mesmo sabendo que matei várias mulheres da sua família?;

- Como você bem sabe, eu não conheci meus antepassados e nem meus parentes que moravam nessa casa, mas eu conheci a Sabrina que está à minha frente, essa linda mulher que me cativou, com seus lindos cabelos, seu belíssimo olhar, sua voz reconfortante e doce, seu corpo quente e perfeito, então não me importa o seu passado em nada, o que espero é nosso futuro juntas.

Ela vem até mim, encostando seu corpo ao meu, mas dessa vez não foi tão difícil de mexer meus braços, pois agora a tinha perto do meu coração. Ela começa a chorar e soltando a espada, me abraça forte e da mesma maneira a abraço forte, para mostrar-lhe que estou ali por ela. Ficamos abraças por uns instantes, mas no momento em que ela fraquejou, rapidamente peguei a espada e antes que ela pudesse reagir, a atravessei em nossos corpos. Pude sentir a lâmina fria percorrendo por minhas entranhas e pude também, sentir o sangue de Sabrina entrando em meu corpo.

Ela, se debatendo, tentando se livrar de mim disse:

- Você disse que me amava, você mentiu para mim, usou meus sentimentos para me enganar. Voc... – a interrompo colocando seu rosto em meu peito e digo próxima a sua orelha direita:

- Não menti, eu te amo demais e é de verdade, com você pude aprender o verdadeiro sinônimo de amar e é justamente por te amar tanto, que não quero te dividir com mais ninguém. – a beijando com todo meu coração.

Ela então para de se debater e me abraçando com o restante suas forças sussurra:

- Eu te amo, espero poder te encontrar do outro lado.;

Então digo para ela, com as últimas forças que me restam:

- Você me disse que essa espada realiza o desejo de quem a empunha, então meu amor, nós vamos nos encontrar do outro lado daqui a pouquinho.

Então, pouco a pouco, nossos corpos vão desaparecendo, vou sentindo seu corpo ficando leve e frio, já não ouvia mais a sua doce voz, mas sabia que ela ainda estava em meus braços e da mesma forma, sabia que estava nos seus, pois ainda os sentia me envolver. Conforme íamos sumindo, a propriedade também estava desaparecendo, o lugar que antes era cercado por muros altos, começou a desaparecer junto com nossas vidas. Ninguém se lembrará de nós ou de nossas batalhas secretas, porém, jamais me esquecerei daquela que me deu a vida eterna.

História criada por:

Yui Garbe Pires

14 de novembro de 2019

27 de Junho de 2020 às 23:31 0 Denunciar Insira Seguir história
0
Fim

Conheça o autor

Comentar algo

Publique!
Nenhum comentário ainda. Seja o primeiro a dizer alguma coisa!
~