sandranaua Sandra Braz

Numa tarde quente de verão, após presenciar um evento que o marcaria para o resto da vida, um homem, do seu posto de trabalho, conjetura sobre detalhes da vida da pessoa envolvida e tece reflexões compartilhadas por pessoas de todas as épocas.


Conto Todo o público.

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Cerca de doze horas atrás, ela dormia imperturbável numa cama aveludada entre lençóis cor verde-pistacho acetinados e, decorrido esse tempo, sua presença atraíra passos ansiosos combinados com murmúrios confusos vindos de todas as direções a fim de espreitá-la inconsciente estendida no asfalto morno do fim de uma impiedosa tarde de verão. Inexplicavelmente, o impacto do corpo no solo duro causado pela colisão com o veículo não removeu-lhe das orelhas os fones de ouvido acolchoados unidos por um arco largo que podiam, ainda, estar conduzindo uma canção para ouvidos indiferentes.

Eram cinco e meia da tarde quando o sol já se retirava devagarinho abrandando o intenso dia de calor daquele tórrido mês de agosto. Na tímida farmácia da esquina da rua Hortênsia e de frente para a avenida Ulisses Guimarães, paralela ao amurado rio Canarinho que corria magro e preguiçoso, estavam o segurança Edgar e a atendente farmacêutica Isadora que também acumulava a função de cobradora do pequeno empreendimento. O movimento havia enfraquecido nas duas últimas semanas após a inauguração da Droga Health Plus há duas quadras dali, situada na esquina da rua Acácia. Seu Floriano, proprietário da Santa Helena, revelando certo ressentimento, desprezou o concorrente dizendo que as pessoas não iam nem saber pronunciar nome tão pretensioso. Edgar gostava de trabalhar numa via chamada Hortênsia e até considerava um simpático nome para se batizar uma pessoa. Ser segurança não lhe era o emprego ideal, mas por estar cursando graduação em Farmácia, cogitou ser boa ideia aproveitar qualquer oportunidade que o levasse a trabalhar na área. Foi aceito para a função de vigilante por ter frequentado a academia da polícia militar estadual há dois anos, onde realizou parte do treinamento, tendo desistido por considerá-lo extenuante e até bárbaro. Ao comunicar sua renúncia à carreira policial, os então colegas de academia passaram a chamá-lo de recruta nutella, soldado floco de neve, projétil de caramelo, soldadinho pirulito, dentre outras denominações e, todas às vezes que Edgar cruzava com um ex-colega de academia, era saudado com uma dessas alcunhas que ao invés de aborrecê-lo, o divertia. Também foi importante para conseguir a vaga na Santa Helena o fato de seu pai ser um velho conhecido de seu Floriano. Ambos haviam servido o exército cerca de trinta anos atrás, não tendo se prolongado nenhum dos dois no serviço militar. Isadora não simpatizou com Edgar num primeiro momento, mas o jovem resistiu ao temperamento arisco daquela moça que, graças ao milagre da química, exibia uma vasta cabeleira cor de abóbora, e usando uma longa chave de paciência abriu o cadeado daquele coração que parecia ter uma porta de ferro. Tornaram-se bons colegas de lida e reuniam histórias engraçadas, afinal trabalhar numa farmácia tinha lá sua diversão. Já tinham escutado cliente perguntando se lá vendia cerveja orgânica, já tinham presenciado casal brigando porque o marido se recusou a comprar uma lata de leite Aptamil por julgá-la cara demais. Nesse episódio, a mulher enfurecida disse que se o filho perecesse, iria processá-lo e depois matá-lo. O cônjuge garantiu à companheira que seus pais tinham alimentado cinco filhos com leite de vaca e todos tinham sobrevivido fortes como touros, acrescentando que esses leites que custam o “olho-da-cara” eram modismo, quiçá objeto de um acordo diabólico entre pediatras e a indústria de laticínios para roubar dinheiro dos incautos. O casal exaltado deixou a farmácia combatendo-se em argumentos e sem levar o alimento. A última coisa que os funcionários do seu Floriano ouviram foi a mulher queixar-se que o esposo gastava muito mais que aquele valor em cerveja num único final de semana. Mas os casos mais pitorescos eram os de pessoas tentando discretamente comprar certos remédios (laxantes, pílulas do dia seguinte, pomadas para micoses...) e preservativos. Não era incomum um cliente comprar preservativos junto com outro item como uma esponja de banho ou uma máscara facial de pepino. Edgar pensava como era curioso que adultos sexualmente ativos se sentissem constrangidos em comprar um produto tão simples e necessário.

Voltando ao fim de tarde daquele dia escaldante, Edgar de sentinela na entrada da loja espiava o vai-e-vem das pessoas pela avenida Ulisses Guimarães e pela rua Hortênsia, preocupado se Santa Helena sobreviveria ao rival graúdo que, além do nome imponente, contava com instalações sofisticadas e uma impressionante variedade de medicamentos e mercadorias. Contava até com uma sessão exclusiva de perfumes finos nacionais e importados, enquanto na Santa Helena, dona Celígina, esposa do seu Floriano, dispensou uma prateleira para expor um conjunto de colônias Natura, Avon e Jequiti, cuja humilde e resiliente permanência ali já durava mais de um ano. Em meio a esses pensamentos inquietos, uma mulher entrou na farmácia vestida com roupa de academia, levemente suada e corada usando headphones wireless azuis, uma pochete salmão e calçando tênis preto, indicando que ela acabara de se exercitar. Os longos cabelos castanhos orvalhados estavam conciliados num rabo de cavalo. Exibindo um rosto gentil, mas com algum senso de urgência perguntou se havia óleo de rícino, ao que Isadora prontamente respondeu que sim e, informada do preço, a mulher disse que o levaria. Serpenteando entre as prateleiras pegou um hidratante corporal para bebês e no guichê de pagamento, requisitou uma cartela de Dorflex, pagando os itens com o cartão que tirou da pochete. A mulher, oferecendo um sorriso desses que não se mostram os dentes, se despediu de Edgar com um aceno encabulado e tão logo pisou na rua, um carro entrando na Hortênsia vindo da Ulisses Guimarães a atingiu derrubando-a no meio rua. Edgar foi o primeiro a testemunhar aquela mulher tombada na via. Os olhos estavam cerrados e um lento fio vermelho tinto escorria de trás da cabeça e os produtos que havia recém-comprado espalharam-se pela alameda. O frasco de óleo de rícino quebrou-se, os cacos rolaram pelo chão e alguns pedaços tomaram abrigo na calçada. O líquido se uniu ao fio carmim que continuava a fluir pesaroso e sem rumo. Num piscar de olhos, um enxame de indivíduos se aglomerou em torno do cenário composto pela vítima prostrada no solo, por um carro amarelo e pelo condutor de pé, trajando um elegante terno azul marinho, visivelmente nervoso manuseando o telefone celular, certamente ligando para o serviço de emergência. Teria ali aquela mulher encontrado seu fim? Não era possível saber. Ainda. Os curiosos conferenciavam entre si aparentemente afligidos, o que não se pode garantir da maioria, já que existe certo deleite em ver a tragédia alheia, como provam a ascensão e a audiência de programas de TV explorando fatalidades e desgraças cotidianas. À mente de Edgar, enternecido diante de uma visão tão infeliz, veio o trecho de uma música que diz que só se vive por um triz. Não que ele tivesse certeza que a mulher estivesse morta, esperava sinceramente que não, era só que o fresco episódio trouxera-lhe a reflexão do quanto estamos atrelados à vida apenas por uma respiração, indo e vindo, se exercitando para melhorar a saúde e modelar o corpo, comprando o que consideramos útil e até prevendo uma futura enxaqueca. Edgar pensava sobre os itens adquiridos pela mulher que aguardava, mesmo sem ter consciência, o socorro. Assim, alcançou com os olhos o óleo de rícino, agora compulsoriamente aliado ao plasma da mulher, o hidratante para bebês intacto repousando junto a borda da calçada e a cartela de analgésico pisoteada e com os comprimidos esfarelados pelos pés ansiosos dos curiosos ali reunidos. Edgar imergiu numa torrente de especulações sobre a razão da mulher comprar aqueles três itens. Provavelmente a loção do bebê acabara e ela como mãe zelosa precisava manter a pele da criança cuidada. Ela poderia ter deixado para comprar no supermercado quando fosse fazer as compras da semana, mas a devoção ao pequeno ou à pequena não tolerava demora. A imaginava fazendo aula de Body Pump e anotando mentalmente que não poderia esquecer de comprar o hidratante da cria. O óleo de rícino geralmente é usado como laxante, o que denota que a mulher sofria de prisão de ventre, incômodo que normalmente acompanha o indivíduo boa parte da vida. Edgar concordava com Gabriel García Márquez que, em alusão a um personagem em “O amor nos tempos do cólera”, asseverou que há dois tipos de pessoas: as que cagam e as que não cagam. A mulher, por óbvio pertencia à segunda categoria. O Dorflex garantiria alívio às persistentes cefaléias que afligiam aquela mulher, afinal cuidar de criancinha e talvez mais rebentos, malhar, trabalhar fora e quem sabe ainda dar conta de um mestrado não se revelavam tarefas suaves. Ah! E ela poderia ter, porque não, um marido pouco atencioso e até infiel, aí não há coco que aguente sem reclamar. Mas talvez aquelas pílulas se destinassem a um amigo ou vizinho que, sabendo que ela iria à farmácia naquele fatídico entardecer, pediu que ela as comprassem. Fato é que agora de nada serviriam mais aqueles artigos cujos destinos não seriam mais cumpridos.

Aquela mulher se chamava Daiana. A mãe dela, admiradora da doce e elegante princesa Diana, ponderou que a filha recém-parida bem que merecia o nome de uma realeza. Daiana não tinha descendentes e nem cogitava a maternidade, assim como não considerava se inscrever no mestrado que o namorado tanto insistia. Perto do fim da tarde daquele dia, Daiana, como de hábito, fizera sua corrida de seis quilômetros e resolveu parar na farmácia a caminho de casa. Na noite anterior quando tomava vinho com Maurício, seu namorado, ele confidenciou que precisava de um laxante para prisão de ventre, pois todas as tentativas naturais com abacaxi, mamão, ameixa, laranja e até os dois litros de água que o obrigavam a ir ao banheiro a cada cinco minutos não estavam funcionando mais e ele estava pensando em apelar para um “treco químico”. Daiana estando na farmácia para comprar seu analgésico favorito e um hidratante, lembrou não só do desconforto reclamado pelo parceiro, como leu em um site que óleo de rícino era uma alternativa eficaz para tripas teimosas. Assim, Daiana resolveu levar o tal óleo para que Maurício o experimentasse. Daiana era o primeiro tipo citado por Gabriel García Márquez; duas fatias de abacaxi eram o suficiente para a pretensa princesa correr para o trono nada majestoso. O hidratante para bebês era para a própria Daiana, pois desde que se entendia por gente usava cosméticos reservados à crianças, mas não sendo proibido o uso pelos adultos, ela lançava mão de cremes corporais, xampus, colônias, óleos de banho, lenços umedecidos, talcos e o que mais encontrasse. Dorflex era a única droga que abatia instantaneamente suas cólicas e dores de cabeça, normalmente frutos das ressacas de vinho, predominantemente, tinto consumido nos encontros na casa dela, ocasiões em que os amigos e o namorado se juntavam para degustar a bebida protagonista do primeiro milagre de Jesus e que embriagou Noé, deixando-o envergonhado diante de sua prole. A bebida que embalou as tremendas festas de Baco e Dionísio. A bebida que sobreviveu aos séculos assumindo uma face sofisticada e atraído apreciadores orgulhosos. Tais momentos regados a vinho, suscitava em Daiana e seus convidados questões existenciais debatidas desde tempos imemoriais para as quais ainda não se têm respostas terminantes, apenas variadas suposições sustentadas por filósofos e mestres de inúmeras tradições, mas que atravessam os milênios excitantes e carentes de convicções, como a clássica “Qual o sentido da vida?” Edgar teve seus devaneios interrompidos por uma senhora de cabelos de algodão trajando um vestido estampado por miúdas flores amarelas que lamentava com ar pungente o quão triste era o acidente da moça e, dirigindo-se à Isadora, que havia se juntado ao segurança na porta da farmácia, perguntou se havia insulina Glilusina. Edgar refletiu que alguns morrem a prestações, com tempo para se despedir e até se arrepender, outros partem à vista, sem tempo de degustar a sobremesa favorita ou destampar um segredo. Enquanto Isadora atendia a senhora de madeixas alvas, Edgar assistia aos agentes do SAMU movendo cuidadosamente a mulher, que não esboçava qualquer reação, para uma maca e a carregando para o interior da ambulância, cuja sirene emitia sua melodia urgente tão familiar. Edgar acreditava que vira uma pessoa da imprensa fazendo anotações e registrando a cena com uma pequena câmera e, por isso, no dia seguinte, angustiado sobre a o destino daquela mulher, vasculhou todos os sites de notícias locais com o propósito de encontrar uma matéria que revelasse a sorte dela. Nada encontrou. Seria um indício de que aquela mulher escapara do flerte da morte? Afinal, notícia de sobreviventes não atrai atenções. O jovem sentiu certo alívio de não saber do fechamento daquela ocorrência, pois sempre gostara de ficção com finais felizes, mesmo ciente de que na vida real, os finais são quase sempre dramáticos. Aquele evento, entretanto, marcou profundamente seus dias, o qual ele havia denominado de “A mulher de Schrödinger”.

Daiana percebeu que, inevitavelmente, seria apanhada por um automóvel tão apressado quanto ela naquele resquício de dia cálido que se extinguia numa rua com nome de flor. Mas, habitando o espírito dos segundos vagarosos que anteciparam a colisão, ela acalentou em seu coração, esse órgão místico, a esperança de que ela sobreviveria àquele infortúnio. Nem que fosse por um triz. Nem que fosse por um fio.


28 de Junho de 2020 às 23:11 1 Denunciar Insira Seguir história
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Pedro Wanderley Pedro Wanderley
Gostei muito, Sandra! A narrativa impecável e o ótimo detalhamento transformam uma cena trivial em um episódio de suspense. Mais cruel, porém, que a descrição do sangue, é a referência a Schrödinger, que dificilmente será decifrada por leitores Nutella, rsrsrs. Parabéns, querida! Já me inscrevi como seu seguidor e vou ler seus outros trabalhos.
June 30, 2020, 10:39
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