ravenclawcutie cinnamon ⍣

O horizonte tenta, mas ele não é tão bom para as vistas quanto Arabella.


Romance Romance adulto jovem Para maiores de 18 apenas.

#336 #arabella #songfic
1
1.9mil VISUALIZAÇÕES
Completa
tempo de leitura
AA Compartilhar

Parte Um

Acordo às seis da manhã e vou direto para um banho quente. O mármore gelado faz meu corpo se arrepiar assim que toco a sola dos pés no chão. Fico um bom tempo no chuveiro, deixando a pressão da água relaxar meus músculos tensionados, antecipando o estresse do dia. Hoje terei reuniões seguidas de reuniões na empresa e pouquíssimo tempo livre. Talvez chegue em casa tarde da noite - o que não é necessariamente um problema, pois uma agenda cheia me mantém ocupado e não dá espaço para minha mente se desviar do trabalho.

Aperto o botão do controle e as cortinas pretas se abrem, revelando a silhueta de Manhattan, iluminada pelos raios fracos de sol que banham os prédios. Minha cobertura é alta o suficiente para que eu não consiga ouvir o trânsito lá embaixo, mas sei que a cidade já está a todo o vapor mesmo nessa hora da manhã de uma quinta-feira. Deixo a toalha molhada sobre a cama e vou até o closet, escolhendo um dos ternos sob medida e uma camisa branca simples. Termino de me vestir e calço os sapatos italianos lustrosos, sem um único risco. Dou um nó na gravata e ajeito-a na gola, perfeitamente escondida.

Penteio os cabelos, olhando atentamente para o meu reflexo no espelho. Apesar de ainda ter trinta e seis anos, algumas rugas já se formam no canto dos meus olhos e ontem mesmo encontrei um fio branco no meio dos outros negros. Na verdade, me pareço exatamente com meu pai quando tinha a minha idade - e eu era apenas um adolescente rebelde. Temos a mesma feição dura e inexpressiva, apesar dos seus olhos serem azuis e os meus castanhos como os de minha mãe.

A idade está me alcançando, mas isso se deve muito mais ao estresse do dia à dia. Desde que assumi a vice-presidência das empresas Thorne, há dez anos, não me lembro de ter tirado férias alguma vez… acho que seria uma boa ideia.

Pego os dois celulares que uso sobre a mesa e os óculos escuros antes de sair do apartamento vazio e gélido. Meus sapatos ecoam pelo lobby, onde o porteiro aguarda para abrir a porta de vidro. Do lado de fora, meu motorista já está à postos, encostado na BMW preta estacionada na vaga de retirada.

— Bom dia, Senhor Thorne — diz, abrindo a porta traseira.

— Bom dia, Miles.

Volto a atenção para os e-mails em meu celular de trabalho durante todo o percurso, que Miles e eu fazemos em silêncio. Ele estaciona na porta da empresa, onde o nome “Thorne” reluz em letras cinzas na entrada do prédio espelhado, que parece se estender até o céu de tão alto.

Meu avô construiu um império com seu nome, que passou para meu pai alguns anos antes de sua morte. Futuramente sou eu quem ocupará a cadeira de presidente no lugar de Charles, já que meu irmão não é tão interessado com os negócios da família, prefere se virar sozinho como advogado, apesar de fazer grande uso da fama do nome Thorne na cidade. Nossa área de atuação principal é na engenharia aeronáutica, mas a empresa cresceu ao longo das décadas e hoje em dia faz um pouco de tudo, com contratos multinacionais que lucram muito mais do que meu avô já imaginou.

Passo pelas portas automáticas de vidro e os olhares curiosos se voltam em minha direção, seguidos por cochichos que fazem meu sangue ferver. Desde que meu casamento com Marissa foi cancelado há dois meses - depois de eu encontrá-la com meu irmão caçula na cama do nosso futuro apartamento - todos me olham como se eu fosse um cachorro que caiu da mudança. Odeio ser a vítima da pena e compaixão das pessoas. O melhor que faço é ignorar toda a atenção voltada à mim e seguir o caminho até o elevador. Graças a Deus está vazio.

Minha sala fica no último andar, onde pouquíssimas pessoas são permitidas. Os únicos com acesso liberado são minha assistente e a de meu pai - que é o presidente e tem a própria sala no mesmo andar que eu. Mas Charles nunca está na empresa, já que decidiu estar velho demais para trabalhar tanto e basicamente deixou a Thorne em minhas mãos.

Meu sapato ecoa sobre o piso cinza enquanto caminho em linha reta pelo longo corredor, na direção do escritório. Todas as paredes são de vidro, cobertas por cortinas persianas também cinza no lado de dentro e tem escrito em letras grandes o meu nome, Andrew Thorne, seguido por um “Vice-Presidente” embaixo.

— Bom dia, Senhor Thorne — a assistente surge em minha frente, correndo para abrir a porta. Caminha em passos curtos devido à saia justa que está usando. Seus cabelos negros estão presos num coque feito com perfeição e ela exibe um sorriso caloroso.

— Janine… — digo, com um sorriso curto.

Retiro o paletó, colocando-o nas costas da cadeira de couro. Abro as cortinas, deixando a vista do centro encher meus olhos e a claridade iluminar a sala. Me sento atrás de mesa e passo os dedos pelos cabelos, me preparando para rever os tópicos da primeira reunião do dia - que acontecerá em alguns minutos, se ninguém se atrasar.

Janine reaparece trazendo nas mãos meu café expresso de sempre e uma cópia da minha agenda do dia. Agradeço com um aceno de cabeça e a mulher senta-se em minha frente, colocando os óculos de grau com a armação elegante que se encaixa perfeitamente em seu rosto fino. Ela dá um sorriso nervoso e abre o caderno com a capa marrom de couro.

— O Senhor terá reuniões até às onze e um almoço com um dos investidores marcado para o meio-dia no Four Seasons, onde ele está hospedado…

Dou um gole no café sem açúcar, assentindo.

— E depois?

— Hum… mais algumas reuniões até às três da tarde e… — estreita os olhos, como se estivesse com dificuldade para ler a própria letra. — Oh, sim. Sua mãe ligou. Ela pediu que o Senhor passe em sua casa assim que sair da empresa. Me pareceu urgente.

— Tudo bem. A sala de conferências já foi preparada?

— Sim, Senhor. Arrumei tudo pessoalmente.

Janine me olha, engolindo em seco. Morde os lábios, hesitante, mas não diz nada.

— Mais alguma coisa? — pergunto, arqueando as sobrancelhas.

— É só que… — ela limpa a garganta, voltando o olhar para as próprias unhas cuidadosamente pintadas de vermelho. — Recebi uma ligação do buffet do casamento e eles precisam de um cheque que cubra a multa de rescisão do contrato até amanhã.

Assinto, respirando profundamente e massageando os olhos cansados. Tenho lidado com as consequências do fim da festa de casamento há meses. Marissa fez um ótimo trabalho escolhendo todos os detalhes e gastando uma fortuna em tudo, mas quem precisou pagar as multas absurdas fui eu, já que ela desapareceu do mapa depois que revelei à imprensa o motivo do fim do noivado.

Não que eu esteja reclamando. A última coisa que desejo ver na minha frente é o rosto da vagabunda traidora.

— Tudo bem — digo, retirando um talão de cheques da minha gaveta e assinando. — Preencha com o valor da multa e envie para eles até amanhã.

— Sim, Senhor.

Janine se levanta e deixa minha sala, fechando a porta atrás de si. Ligo o computador e dou de cara com uma foto de mim e Marissa, que tiramos para anunciar o noivado nas revistas locais. Rolo os olhos, sentindo repulsa. Seus cabelos loiros artificiais e o sorriso exageradamente branco me fazem questionar porquê diabos eu passei três anos ao lado desta mulher. Qualquer um via que ela só estava comigo pelo dinheiro. Mal reconheço o homem sorridente ao seu lado. Aproveito o pouco de tempo que ainda tenho até a reunião e troco o maldito papel de parede, colocando um logo da empresa no lugar.

Repasso minhas anotações até Janine surgir na porta para me avisar que todos já estão a postos na sala de conferência, aguardando apenas minha presença. Tomo a metade da xícara de café que me restava e respiro fundo, me preparando para o longo dia que terei à frente - e agradecendo internamente por ser quinta-feira, mesmo que eu não tenha planos muito elaborados para o final de semana.

Deixo a empresa às seis da tarde, me sentindo exausto. Sento no banco traseiro da BMW com um gemido de alívio, afrouxando o nó da gravata. Miles dirige até a casa dos meus pais, que fica há quase vinte minutos da cidade. Por pouco não acabo cochilando durante o percurso, ao som da música clássica que ecoa pelo carro.

Os portões automáticos abrem assim que Miles toca o interfone e se identifica. Me livro do terno antes de sair, dobrando as mangas da camisa até os cotovelos. O motorista me espera no lado de fora da mansão, acendendo seu cigarro de costume e se sentando em um dos bancos de madeira próximo do jardim que minha mãe cuida com tanto esmero.

Logo na entrada, um quadro da família pintado à mão preenche a parede. Meu irmão, Logan, abraça minha mãe e sorri - seus cabelos loiros e o rosto alegre são exatamente como os dela - enquanto eu estou de pé ao lado do meu pai. Nós dois temos a mesma expressão séria e a semelhança é gritante. Desde o maxilar travado até os olhos frios, num semblante indiferente.

— Andrew — minha mãe vem correndo assim que me sento no sofá branco, me encostando folgadamente.

— Mãe — digo, abrindo os braços.

Suas roupas brancas lhe caem sobre o corpo de forma elegante, realçando a beleza de Elisa, apesar da idade já avançada. Os cabelos loiros estão curtos na altura do pescoço e ela se adorna com brincos, um colar de pérolas, anéis e inúmeras pulseiras.

Senta-se do meu lado e envolvo-a em um abraço longo, depositando um beijo em seu rosto. O perfume floral de Elisa enche minhas narinas e eu sorrio, sentindo a familiaridade dela.

— Então… — digo, arqueando as sobrancelhas. — O que era tão importante?

Elisa fica ereta em seu assento e respira fundo, sorrindo nervosamente.

— Seu pai e eu falamos com seu irmão… Marissa esteve com ele este tempo todo na casa de praia da família.

Bufo, me levantando e caminhando até o bar próximo da lareira. Me sirvo com um pouco do uísque puro importado do meu pai e dou um gole longo, voltando a encará-la.

— Filho, por favor… eles virão para o aniversário do seu pai neste final de semana. Eu só queria te avisar antes. Já fazem dois meses, você não precisa perder o controle toda vez que ouve o nome de Marissa e Logan.

Merda. Esqueci completamente do aniversário do meu pai no sábado. Charles fará cinquenta e oito anos e minha mãe planejava uma festa gigantesca, com toda a elite presente, além da imprensa que estará em peso também. É claro que Marissa e Logan viriam. Os dois amavam holofotes e não perderiam uma oportunidade como esta.

— Eu nunca perdi o controle, Elisa… — digo, pousando o copo vazio de volta no bar.

— Está me dizendo que trincar o maxilar do seu irmão com um soco não foi perder o controle?

— Por que você sempre o protege?

— Não estou protegendo Logan. Só estou dizendo que está na hora de vocês se acertarem… é o aniversário do seu pai, pelo amor de Deus!

Assinto, colocando as duas mãos dentro do bolso.

— Bom… não precisa se preocupar com isto. — Ela sorri, aliviada. — Porque eu não estarei presente.

— Andrew…

— Não tente me convencer, mãe. Vai ser melhor para os dois lados se eu não vier. Tenho certeza que meu pai não se importará.

Me viro, deixando-a sozinha e caminho até os fundos da casa, onde Charles provavelmente está. Ele sempre fica sentado no jardim, observando o sol se pôr neste horário. Como previsto, encontro-o sentado em uma espreguiçadeira colocada sobre a grama verde. Charles toma uma taça de vinho, cuja garrafa está apoiada em uma cadeira de madeira do seu lado.

Paro na lateral, olhando para o céu que já adquire um coloração alaranjada enquanto uma brisa fria acaricia meu rosto e bagunça meus cabelos. Ele olha para cima e sorri, esticando o braço e dando dois tapas fracos em minhas costas, na altura da coluna.

— Sabe — digo, me agachando do seu lado. — Não ia te matar aparecer na empresa de vez em quando.

Ele dá sua risada gostosa, apoiando a mão em meu ombro.

— A idade me fez perceber o quanto algumas coisas simplesmente não importam…

— Deus… quantas taças vocês já tomou?

— Seu avô estava certo, sabe… em sair desta vida corporativa enquanto ainda tinha um pouco de tempo restante.

Henry Thorne havia abandonado a empresa uns quatro anos antes de morrer - com um infarto no meio da noite, sozinho em sua casa de Manhattan - e deu o controle de tudo para o meu pai. Na época achávamos que ele estava louco, mas o velho apenas se justificou dizendo que aquela vida estava o matando. Ele passou a maioria do seu tempo na casa do lago, que deixou para mim em seu testamento, e quase nunca voltava para a cidade.

Me arrependo de não tê-lo visitado quando Henry me ligava, convidando-me para passar uns dias com ele no meio da floresta. Mas eu estava sempre muito ocupado com a empresa ou meu relacionamento exaustivo com Marissa. Ela se recusava a passar seus finais de semana no meio do nada, como tão gentilmente colocava, quando poderíamos fazer coisas muito mais produtivas na cidade.

— Você também está pensando em abandonar a civilização por um tempo? — digo, com um sorriso fraco.

— Não exatamente… mas pensei em vender a Thorne, sabe. Nós já temos dinheiro o suficiente para uma vida. Se investíssemos a quantia da venda, estaríamos feitos.

— Pai…

— Não se preocupe, não vou fazer isso. Sei que aquela empresa é sua vida, Andy. Só estou dizendo que é uma possibilidade em aberto…

— Dediquei os últimos dez anos à Thorne incansavelmente. Não vou simplesmente fragmentá-la e vendê-la para investidores famintos por dinheiro.

— Eu sei, eu sei…

Ele dá outro gole em sua taça e sorri, satisfeito, olhando para o horizonte.

— Pai… — digo, olhando para o seu rosto marcado pela idade, com rugas espalhadas na pele branca. Os cabelos castanhos e grisalhos me fazem sorrir, porque sinto estar contemplando minha própria imagem no futuro. — Não estarei aqui para a sua festa de sábado.

Ele ri, assentindo.

— Eu sabia disso no momento em que sua mãe me falou que Marissa e Logan virão. A cara de pau que aquele garoto tem… eu não sei onde nós erramos com ele. — Se vira para mim, apertando meu ombro gentilmente. — Pelo lado bom, você finalmente pôde enxergar a cobra que aquela mulher é.

— Oh, claro. Só me custou uma pequena fortuna e um coração quebrado.

— Você nem amava Marissa… só estava cego.

Ele tem razão. Vendo de longe, não sei como fui capaz de ficar com ela por três anos - e quase me casar. Eu estaria condenado. Apesar dos pesares, sou até grato à Logan, de certa forma.

— Não se preocupe, Andy. Nem eu quero participar da maldita festa… só vou estar lá porque sou o aniversariante e sua mãe me mataria caso eu tentasse escapar.

— Obrigado, pai.

Ele sorri, dando outro gole em seu vinho.

— Mas você deveria aproveitar para descansar um pouco… sua cara de cansado está me dando pena, rapaz.

— Vou ficar em casa.

— Não, você precisa de alguma coisa que relaxe sua mente. Talvez passar uns dias na velha casa do seu avô? Você adorava aquele lugar quando tinha dezoito anos.

— É… — me levanto, com um gemido dolorido depois de ficar tanto tempo agachado. — Talvez.

Eu realmente adorava a casa do lago. Henry me levava lá nos finais de semanas e passávamos horas pescando enquanto conversávamos sobre qualquer coisa. Mas o motivo principal que me fazia gostar do lugar era a paz de não ter nada nem ninguém ao redor. Meu avô até me deu uma máquina de escrever antiga, que deixei na casa, já que eu era apaixonado por escrita. Até os dezessete, meu sonho era criar uma saga de livros de ficção-científica. Todos os meus rascunhos foram feitos na máquina que Henry me deu e ainda devem estar lá guardados.

Aos dezoito tive que enterrar o sonho de infância e seguir os passos da família, ocupando meu lugar na empresa. Então me formei em administração e passei meus anos me dedicando para ser digno de um dia chegar à presidência da Thorne.

— Já vou indo — digo, me inclinando para abraçar meu pai. — Feliz aniversário, meu velho.

Ele ri, apertando-me contra si.

— Até mais, Andy.

Miles me deixa em casa, onde faço uma refeição leve e tomo um longo banho, me preparando para dormir. Tomo uma dose do meu calmante, que é essencial para que eu tenha uma noite de sono, já que meu estresse geralmente impede que minha cabeça descanse.

Me sento na cama e abro a gaveta do criado mudo, onde mantenho guardada a carta que meu avô me mandou enquanto ainda estava na casa do lago. Sempre releio quando sinto a falta do velho me apertando. Não é nada muito elaborado, mas ainda assim são suas palavras mais sinceras.

Querido Andy,

Sou eu. Henry. Estou lhe escrevendo esta carta às duas da tarde de uma segunda-feira. Você deve estar trabalhando agora… de qualquer forma, há algumas coisas que preciso dizer há um tempo.

Você é um homem incrível, filho. E vejo muito de mim ao te olhar. Além da aparência física, vejo muito de mim mesmo em suas ações e em como dirige sua vida. Exatamente por este motivo preciso lhe dar um conselho.

Não seja como eu. Não faça como o seu velho e desperdice sua vida buscando mais dinheiro e sucesso do que o necessário. Meu tempo está quase se esgotando, mas você ainda tem décadas e décadas pela frente, Andy.

Seja melhor do que eu fui, assim não se arrependerá quando chegar em minha idade. Saia da estrada. Dê meia-volta. Pegue uma saída diferente e se arrisque, filho. Porque a vida vai passar e, antes que perceba, estará com quase oitenta anos abraçando seus netos já adultos.

Não vou lhe dizer mais uma vez o que penso sobre Marissa. Mas uma coisa eu sei: conheço o brilho dos que amam de longe e, Andrew Thorne, você definitivamente não tem ele quando olha para aquela mulher.

Meu ponto é: não faça o que acha que deve fazer ou o que esperam de você.

Faça o que seu coração lhe pedir.

Ele nunca está errado.

Acredite em mim.

— Com amor, Henry J. Thorne.

Quando acordo com o despertador, até parece que fechei os olhos por três segundos. Gostaria de passar mais tempo na cama, mas tenho uma infinidade de coisas para fazer novamente. Ao me sentar no colchão, no entanto, o cansaço me toma e eu fico uns segundos encarando meus próprios pés no mármore gelado. Agora a sugestão do meu pai parece bem interessante. Não seria nada mal passar uns dias afastado de tudo, no meio da floresta isolada…

Esfrego os olhos com as mãos e passo os dedos pelos cabelos, me levantando. Pego o celular e envio uma mensagem de texto para Janine, avisando-a que não estarei presente hoje e pedindo-a para rearranjar minha agenda para a próxima semana.

Faço minha rotina diária, mas dessa vez visto uma calça jeans e uma camiseta polo ao invés das roupas sociais de sempre. Dobro algumas peças mais leves e guardo tudo numa mala, colocando só o necessário para um final de semana. Pego os óculos escuros e penduro na gola da camisa, jogando a alça de couro preta nos ombros e saindo pela porta.

— Bom dia, Senhor Thorne — o motorista diz com seu tom habitual.

— Bom dia Miles… perdão pelo aviso em cima da hora, mas hoje não precisarei dos seus serviços. Irei passar o final de semana fora, então nos vemos somente na segunda-feira.

— Tudo bem Senhor, sem problemas.

— Você pode pegar seu contracheque com a Janine na empresa, ela já está avisada.

O homem assente, com um sorriso.

— Tenha um bom final de semana, Senhor.

— Para você também, Miles.

Vou até o estacionamento do prédio e aperto o botão para destravar a BMW esportiva em uma das minhas vagas. Abaixo a capota do automóvel e ligo o rádio, que toca quase no último volume uma sequência da banda Imagine Dragons. Quando saio da cidade, piso no acelerador sem me importar com os limites de velocidade, sentindo o vento barulhento contra o meu rosto e despenteando todo o meu cabelo.

Logo o cheiro da natureza invade minhas narinas e eu diminuo a velocidade, tentando me recordar de como era a entrada que precedia a casa do lago. Não venho aqui há muitos anos, então minha memória é um pouco falha. Reconheço a pequena trilha aberta na beirada da pista, onde a grama está morta e o que resta é uma estradinha de terra bem estreita. Viro o carro e entro no lugar com dificuldade - talvez um esportivo não tenha sido a melhor opção para esta pequena viagem.

Sigo em linha reta até finalmente encontrar o lago enorme bem no meio das árvores altas. Em um lado dele, está a casa de dois andares imponente feita de pedras, madeira e janelas de vidro que permitem uma vista de tirar o fôlego. No lado oposto do lago, uma casinha também de madeira que estava abandonada desde que meu avô me trazia aqui.

Mesmo a distância, consigo ver que a cabana parece mais nova do que eu me lembro. Talvez seja possível que alguém more lá agora. Estaciono ao lado da casa e desço, me alongando depois de uma hora dentro do carro. Minha bexiga está estourando e meu estômago ronca de fome.

Pego a mala no banco traseiro e subo as escadas de pedra até a porta de entrada - as flores dentro dos vasos ao redor da casa estão todas vivas e saudáveis, o que é estranho, já que ninguém vem aqui desde a morte de Henry, há oito meses. Dou de ombros, girando a chave na maçaneta e empurrando a porta ruidosa. A sala de entrada recebe toda a luz da manhã, que entra pelas janelas de vidro do chão ao teto. Todos os móveis estão cobertos por lençóis brancos - e bem empoeirados, a julgar pela minha alergia que começa a atacar.

Subo as escadas e deixo as coisas no meu antigo quarto, que ainda está exatamente como o deixei. A escrivaninha tem sobre si a velha máquina de escrever, coberta por uma capa de plástico, e imagino que meus antigos projetos de ficção científica estejam dentro da gaveta. As prateleiras pregadas na parede são repletas de livros e mais livros que fizeram parte da minha vida.

Sinto um aperto no coração e o remorso de não ter dado a devida importância ao meu avô em seus últimos anos de vida. Dos inúmeros convites que ele me fez para passar um dia aqui, nunca aceitei nenhum. E isto me deixa com ódio de mim mesmo. Nós éramos tão próximos e eu deixei minha ambição ficar em nosso caminho. Me afastei dele porque estava ocupado demais. Em nossa última conversa, num jantar em sua casa, Henry disse que se orgulhava do homem que eu havia me tornado - e ainda sussurrou em meu ouvido, quando Marissa estava longe, que aquela mulher era terrível e que eu me arrependeria se continuasse com os planos de casamento.

Deus, sinto saudade do velho Thorne…

Passo boas horas colocando a casa em ordem e limpando o excesso de pó que parece ter tomado conta de tudo. Às duas da tarde preparo um almoço rápido com as coisas que trouxe de casa e vou até os fundos da casa para comer. A varanda de madeira é cercada por árvores e flores trepadeiras que caem feito cortinas do teto. O campo aberto e o lago do outro lado fazem o lugar ser frio e úmido em todas as épocas do ano - o inverno, apesar de congelante, é bem agradável aqui.

No final da noite, depois de ler metade de um livro e reler meus antigos rascunhos, vou até a sala e ligo o toca-discos com um vinil de Stevie Wonder - o preferido de Henry - e tomo uma taça de vinho tinto, andando lentamente pela sala. De repente me sinto com meus dezessete anos outra vez. Naquela época eu desejava ser uma pessoa completamente diferente da que sou hoje. Na verdade, Andy Thorne do passado odiaria o Andrew do futuro. Eu queria qualquer coisa, menos me tornar mais um escravo corporativo. Me aterrorizava a ideia de ser como meu pai, sempre ocupado ou estressado com algum problema da empresa. E, ironicamente, é exatamente o que eu me tornei.

Afasto as cortinas finas e brancas da janela da sala e olho para o outro lado do lago, que parece ouro líquido banhado pelas últimas luzes do sol da tarde. Foco no casebre que costumava ser abandonado. Vejo fumaça saindo da chaminé e uma luz acesa na frente. Na beira do lago, uma mulher anda com os pés mergulhados na água enquanto lança alguma coisa para o meio da floresta. Um cachorro gigante, que mais parece um lobo, corre para pegar e traz de volta à ela rapidamente. Ela continua jogando e o animal pula em cima da garota, fazendo os dois caírem dentro do lago.

Sorrio, assistindo-a correr atrás do cachorro, que foge como o Diabo fugindo da cruz. Como estou a uma distância considerável, não posso ver muito do seu semblante. Mas o cabelo dela se torna bem marcante, mesmo de longe. O sol ilumina sua cabeça, fazendo os fios cor de cobre reluzirem feito chamas de fogo.

Ela se deita no chão e o animal vem correndo em seu colo. Os dois rolam na grama por um bom tempo, até ela se levantar e limpar o macacão jeans que está usando. A garota fica parada bem de frente para mim e eu me engasgo com o vinho ao vê-la acenando freneticamente em minha direção. Solto a cortina de uma vez e vou para o interior da cozinha, assustado. Talvez eu devesse ter acenado de volta ao invés de ficar ali me escondendo feito um pervertido.

Deixo a taça dentro da pia e lavo as mãos quando escuto as batidas na porta. Arregalo os olhos, congelado no lugar. Com certeza é a ruiva do casebre do outro lado… tudo bem, vou só atender e ver no que dá.

— Estou indo! — grito, caminhando até a sala. Os passos abafados pelo meu tênis fazem a madeira ranger sob meus pés.

Giro a maçaneta dourada e puxo a porta com força, já que o material pesado se recusa a abrir. Encontro os olhos verdes e iluminados da garota, que parece ser bem jovem, com os cabelos longos e ruivos inconfundíveis presos num coque caótico no topo de sua cabeça. Seu sorriso largo é cercado por sardas que se espalham por todo o rosto, tornando difícil encontrar um lugar que não esteja pintado com as bolinhas cor de ferrugem. Veste uma camiseta larga amarela por baixo do macacão jeans, dobrado em suas canelas e molhado até os joelhos da garota. Seus pés pálidos e descalços têm terra negra e pedaços de folhas secas grudadas por toda a parte.

— Olá vizinho — diz, com a voz fina e animada, estendendo o braço em minha direção. Noto que as sardas do seu rosto se espalham também pelo resto do corpo, inclusive os braços. — Te vi me espionando pela janela e pensei em vir dar um “alô”...

Sorrio, apertando sua mão. Suas unhas são curtas e sem nenhum esmalte - pelo contrário, têm até um pouco de terra embaixo delas.

— Sou Andrew. Andrew Thorne.

— É um prazer, Andrew. Me chamo Arabella.

— Hã… — me afasto, abrindo espaço na porta. — Quer entrar?

— Claro.

Ela passa, limpando os pés no tapete antes de entrar - o que não adianta muito, já que continuam sujos. Fecho a porta e faço sinal para que a garota se sente no sofá da sala. Arabella olha ao redor, deslumbrada, mas é como se já conhecesse o lugar, porque vai direto no fundo do cômodo onde meu avô deixava as bebidas. Serve-se com um pouco de vinho no primeiro copo que encontra, que não é nem de longe o apropriado para este tipo de bebida.

— Então você é Andrew Thorne… — diz, sentando-se no sofá de forma esparramada. Os cabelos ondulados se desfazem do coque, mas ela parece não perceber - ou só não se importa.

— Perdão… você me conhece?

— Não, mas conhecia o Henry. Ele me falava muito sobre você.

— Conheceu o meu avô?

Ela toma um gole do vinho, enchendo a boca feito uma criança exagerada e engole com um barulho alto.

— Sim. Ele voltou pra cá logo que comprei aquela casa abandonada lá na margem… um dia acordei com uns gritos e quando fui ver o velho estava gritando com o Brutus, meu cachorro.

Arabella toma mais um pouco da bebida e fico realmente preocupado com a velocidade com que a garota fala. Parece que nem respira entre uma frase e outra. Continua, gesticulando com as duas mãos e quase derrubando vinho no sofá de couro:

— Então eu disse pra ele parar e ele ficou todo “faz esse bicho horrendo parar de mijar na minha porta”... eu fui correndo lá em casa e voltei com minha espingarda apontada bem pra cara dele — arregalo os olhos, temendo ter trazido uma louca para dentro da casa. — Aí eu falei “se você não parar de gritar com o Brutus eu vou colocar um buraco nessa sua cara velha, seu estúpido!”.

— E ele fez o quê?

A garota joga a cabeça para trás, numa risada alta.

— Me convidou para um chá.

— Obviamente — digo, arqueando as sobrancelhas em uma expressão irônica.

Ela dá de ombros, virando o resto do conteúdo em seu copo de uma vez.

— Henry era uma ótima pessoa. Eu fazia companhia à ele nos finais da tarde… é uma pena que tenha falecido. Sinto muito pela sua perda, por sinal.

Assinto, com um sorriso fraco. Uma pontada de culpa me atinge. Eu era seu neto e me ausentei dele nos seus anos finais, enquanto esta completa estranha esteve presente.

— O que exatamente ele te falou a meu respeito? — pergunto.

Me aproximo de Arabella, sentando ao seu lado no sofá. Mais perto, consigo sentir um aroma bem particular emanando da garota - algo que me lembra erva doce ou camomila. Não sei dizer. Talvez os dois. Seu nariz delicado e a boca carnuda dão a ela a aparência de uma pintura renascentista.

— Hum… não muito. Só que você era o neto preferido dele. Oh, e que estava prestes a cometer o pior erro da sua vida casando com uma megera usurpadora.

Dou uma risada sincera que escapa sem que eu possa evitar. Posso ouvir as palavras na voz de Henry, com sua cara rabugenta e inconformada enquanto traga um charuto.

— Bem… infelizmente ele não pôde presenciar, mas eu acabei não me casando com a megera.

— Ei, boas notícias então.

— É…

Arabella se levanta, passando os dedos pelos cabelos bagunçados e sorri.

— Já vou indo. Só queria falar um oi mesmo… se precisar de alguma coisa é só dar um grito.

— Claro — me levanto, acompanhando-a até a saída. — Boa noite, Arabella.

— Boa noite, Andy. Oh, tudo bem se eu te chamar assim? É como o Henry te chamava. Acho que me acostumei…

— Hum… claro. Tudo bem.

— Legal — ela sai pela porta, sem virar para trás.

22 de Junho de 2020 às 21:32 2 Denunciar Insira Seguir história
1
Leia o próximo capítulo Parte Dois

Comentar algo

Publique!
Gracielle Santana Gracielle Santana
Juro que me emocionei, que bela história e que delícia de leitura, parabéns pela forma que escreve, leve e apaixonante
June 25, 2020, 14:36

  • cinnamon ⍣ cinnamon ⍣
    Muito obrigada pela leitura e pelos elogios. Amei escrever Arabella e ela tem um lugarzinho especial no meu coração, fico feliz que tenha gostado também! ❤️ June 25, 2020, 17:29
~

Você está gostando da leitura?

Ei! Ainda faltam 2 capítulos restantes nesta história.
Para continuar lendo, por favor, faça login ou cadastre-se. É grátis!

Histórias relacionadas