u15514544731551454473 Luiz Fabrício Mendes

1177 d.C., Cruzadas. No meio da Terra Santa, um estranho castelo convida um cavaleiro maculado e seu guia muçulmano... para o maior terror de suas vidas.


Horror Horror gótico Para maiores de 18 apenas.

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Esta crônica, de autoria desconhecida, circulou pelo porto de Constantinopla, numa rústica tradução para o grego, nos últimos anos do outrora belo e poderoso Império Bizantino – então já território decadente, à mercê dos turco-otomanos. Quando estes tomaram a cidade, ao menos numa coisa concordaram com seus históricos adversários cristãos: o vil relato, por seu demoníaco conteúdo, deveria ser destruído. Uma cópia, porém, foi salva e posteriormente adaptada para o português por mãos anônimas. A transcrição segue.


Leia por sua conta e risco.


X - X - X


Contavam-se mil cento e setenta e sete anos desde o nascimento de Nosso Senhor Jesus Cristo; e era o terceiro ano de Balduíno IV como Rei de Jerusalém, o Rei Leproso.

Aproximava-se a Páscoa do Nosso Senhor. Da mesma forma como antes, os judeus daquela terra evitavam que os corpos de crucificados ficassem ao relento durante o sábado; àquela época, recomendava-se que os homens não viajassem perto da ocasião. Não por respeito ou sacralidade, mas devido aos riscos: as tropas do sultão maometano Saladino rondavam aquelas terras, unindo os sarracenos no que poderia se tornar um posterior ataque à cristandade. Se transpor aquele solo sagrado já se mostrava perigoso a quem fosse despreparado, àqueles dias o risco de se tombar para a espada de um salteador era bem maior que o de ser vencido pelo sol escaldante. E, na Paixão, verteria pela areia o sangue de quem ignorasse os avisos, assim como o do Cordeiro de Deus na cruz.

Mas, ignorando tais avisos, dois viajantes cruzavam o ermo da Terra Santa, ambos a cavalo. O primeiro, num belo puro-sangue árabe e branco como a neve das montanhas, usava turbante e tinha o resto do corpo coberto por um manto marrom – os trajes revelando sua origem sarracena; o outro, de cota de malha e capacete metálico, tinha a insígnia feita de cruzes do Reino de Jerusalém estampada no peito, ostentada com orgulho como só um cavaleiro cristão o faria. Galopava um equino europeu marrom visivelmente inadaptado àquela região, mas escolhera com ele viajar por ter estima pelo animal desde quando vivia no Sacro Império – ignorando os conselhos do guia maometano sobre escolher uma montaria mais adequada. Enquanto este tinha a pele bronzeada como tâmaras, face coberta por uma barba escura, o estrangeiro era claro como o dia, e, por baixo do capacete, possuía curtos cabelos loiros. Aqueles dois homens compunham um contraste característico da Terra Santa desde a chegada dos cruzados, simbolizando o choque de dois mundos – o admirável, no entanto, era o fato de não desembainharem suas espadas ali mesmo para se digladiarem até a morte por Jesus Cristo ou pelo Profeta. Se no reino não havia paz duradoura, ao menos entre os dois existia trégua. Tinham interesses em comum, e não há melhor laço que esse para unir duas almas.

O germânico, chamado Adalwin, logo viu que seu cavalo arqueava, enquanto o do árabe, Yussuf, parecia capaz de ainda percorrer boa distância pelas dunas. Um vento árido chocava-se contra os viajantes e encheria seus olhos de poeira, se não fossem prevenidos. O céu azul aos poucos mudava de tom para o cobre, anunciando o fim do dia e a necessidade de um lugar para pernoitarem. Porém, o estado da montaria do cristão exigia que parassem antes mesmo de o sol se esconder, sem contar a penosa sede que sentiam. Não encontravam um veio d'água já havia considerável distância.

- Este baio não vai mais aguentar – afirmou Adalwin. – Mais um pouco e suas pernas desabarão!

- Ainda não aprendeu sobre o deserto, meu amigo? – sorriu o guia, voltando-se de leve para o estrangeiro. – Pior que o dia sobre a areia, quando o sol lança seus raios impiedosamente sobre os homens, é a noite escura e gélida, em que os mesmos homens nada têm para se orientar a não ser o brilho das estrelas.

- Eu não sei ler estrelas – rosnou o cavaleiro, arfando. – Não saberia nem mesmo ler as Escrituras...

- Se nem mesmo sabe, por que veio a estas terras combater aqueles que julga as desrespeitarem?

Yussuf mostrava-se sábio demais para um sarraceno, julgava Adalwin. Um templário de Jerusalém por certo consideraria aquela frase uma afronta sem igual, ceifando a vida do maometano ali mesmo. Mas ele precisava do outro. Mais que defender a cristandade ou qualquer outro motivo religioso, o germânico viera para a Terra Santa buscando o que não tinha em seu lar no Sacro Império: riquezas, terras e a companhia de mulheres. Razões profanas, por certo, mas que moviam o impetuoso cavaleiro, levando-o até mesmo a se tornar amigo de um inimigo.

- Tem certeza de que o senhor de Ascalão não sabe que divide a cama com sua esposa? – questionou o árabe.

- Se soubesse, não continuaria viajando tanto pelo reino e deixando a mulher sozinha. Além disso, sempre tenho tomado precauções. Me afastado das estradas principais, das rotas de peregrinos. E você tem me ajudado nisso. Conhece a terra.

- Não tão bem quanto eu gostaria... E seria mais proveitoso para suas viagens se trocasse esse seu cavalo.

- Talvez eu seja forçado... Não me parece que aguentará mais muito tempo...

De fato, a montaria de Adalwin já quase se dobrava sobre as patelas, cavalgando cada vez mais lenta – a morte logo dela se apoderaria. Aquilo não seria problema, no entanto, pois o loiro acreditava que em breve seria capaz de adquirir quantos cavalos desejasse. Mais que os encantos da esposa do senhor de Ascalão – mulher bela e vivida – o germânico cobiçava sua riqueza, uma das maiores do reino. Circulavam em Jerusalém boatos de que o ouro daquela casa ultrapassava o do lendário tesouro do Templo de Salomão, uma quantia capaz de comprar reis e sultões.

Quando conseguisse dela se apoderar, Adalwin se tornaria o novo lorde de Ascalão e poderia recompensar ainda mais Yussuf por sua ajuda, além dos corriqueiros pagamentos que lhe fornecia pela orientação nas viagens através do deserto. Diferente do cristão, o sarraceno não recebia o dinheiro por cobiça, e sim para sustentar sua família em Nazaré. O seguidor do Profeta mostrava-se mais nobre que o soldado de Cristo – que o Senhor me perdoe por essa alegação.

Mas, para continuar sonhando com abundância, primeiro Adalwin teria de encontrar pouso para aquela noite. E, para onde quer que olhassem, só vislumbravam as infinitas dunas do deserto. Até mesmo Yussuf, experimentado às armadilhas daquele cenário, demonstrava preocupação em seu rosto áspero.

Galoparam por mais algum tempo, o cavalo do cristão ameaçando deitar uma ou duas vezes, completamente esgotado, até que o guia avistou algo no horizonte e deu graças a Alá em sua língua. Apontou para adiante, com o intuito de que o cavaleiro também pudesse ver: incrustada num paredão rochoso mais à frente, como uma joia cravada na lâmina de uma espada, havia uma fortaleza erguida em pedra escura, de arquitetura similar aos castelos que os cruzados vinham levantando na região há muitos anos. Bandeira alguma ou qualquer estandarte tremulavam na construção, ao menos que pudessem ver àquela distância, mas teriam de arriscar – seria aquele local ou uma noite no meio do deserto.

- Vamos – falou o árabe. – Acredito que seu cavalo suporte ao menos até lá.

Como se pudesse compreender o que os dois homens haviam encontrado, a montaria de Adalwin de fato obteve novas forças, conseguindo mover-se pelo trajeto que separava os viajantes da fortificação, ainda que com dificuldade. Principiava a noite, as primeiras estrelas cintilando no firmamento, quando se detiveram diante do grande portão de madeira. A edificação parecia um tanto aterradora quando vista de perto, talvez devido às pedras quase negras usadas em sua estrutura, cujo material os viajantes não conseguiram precisar a origem. Seria mármore? Algum tipo de rocha extraída da elevação atrás da fortificação? O aspecto lembrou a Yussuf da Pedra Negra em Meca, que ainda sonhava conhecer. Mas, ao contrário da relíquia maometana, aquelas paredes não lhe passavam algo bom... apenas a incômoda sensação de não pertencerem àquele mundo.

Adalwin perguntou-se como fariam para anunciar sua chegada, já que o lugar, apesar de possuir torres de guarda, não mantinha vigias nas mesmas, além do estranho fato de o castelo não ter janelas. Porém, antes que pudesse lançar a questão ao amigo sarraceno, a pesada porta se abriu lentamente, movida por correntes de ferro do lado de dentro. As duas divisórias da entrada chocaram-se com as paredes internas num estrondo, o ar dos corredores da fortaleza – fresco e adocicado – encontrando a seca brisa do deserto. Os viajantes buscaram com os olhos alguém que pudesse recebê-los, mas nada encontraram. Desmontaram os cavalos e os conduziram para dentro do castelo, imaginando quem havia liberado a passagem.

De súbito, o mesmo portão fechou-se sozinho atrás deles, bem mais rápido do que se abrira. Seus corações palpitaram, as montarias relinchando aterrorizadas. Foi quando o ambiente interno da fortaleza, após momentânea escuridão, foi tomado por uma bruxuleante claridade amarelada, típica de lâmpadas a óleo. Várias delas encontravam-se, agora, acesas pelas paredes do local, os dois recém-chegados podendo jurar por Deus estarem há pouco todas apagadas. Ouviram, em seguida, um bater de palmas... Um homem baixinho, usando turbante e com o corpo coberto por uma túnica surrada, surgiu de um corredor próximo, sorriu para os viajantes com satisfação e exclamou:

- Ora, vejo que mais homens resolveram enfrentar as adversidades do deserto às vésperas da Páscoa! Desejam teto para passar a noite?

- Seria de nosso agrado – respondeu Adalwin, embora sua voz denotasse compreensível apreensão.

- Que lugar é este? – inquiriu Yussuf, também desconfiado.

- Um pouso destinado aos exaustos peregrinos que vagam pela Terra Santa. O castelo do Barão de Deofol, sempre aberto àqueles que necessitam.

Adalwin se deu conta de que nunca ouvira falar de algum Barão de Deofol, mas não achou isso tão estranho. Quase todo dia chegavam pelo mar, vindos dos portos da Sicília, ou a cavalo, pelo Império Bizantino, mais homens tentando recomeçar suas vidas na Palestina. Não era de se espantar um novo nobre naquela região, ainda que aquele castelo aparentasse estar ali já há algum tempo. Yussuf franziu o cenho, aparentemente não aceitando bem aquela réplica, mas precisava tanto de um local para repousar quanto aquele que pagava por seus serviços. Caso surgissem atribulações, ele sempre trazia consigo sua cimitarra para se defender.

- Não se preocupem, garanto que meu senhor é muito hospitaleiro – afirmou o homenzinho, cujo estranho sotaque transitava entre o árabe e os dialetos dos estrangeiros. – Sigam-me. Irei providenciar o seu repasto. Cuidarei para que alguém leve seus cavalos ao estábulo.

Entreolhando-se, cristão e maometano acompanharam o servo pelo mesmo corredor do qual surgira.

O caminho, igualmente iluminado por lâmpadas a óleo douradas, terminava num amplo salão, repleto de tochas e braseiros que o tornavam quase tão iluminado quanto o dia. O que despertou primeiramente os sentidos dos recém-chegados foi o aroma do recinto: uma mistura de almíscar, bálsamo e aloés – a qual, após a aridez do deserto, se assemelhou à água fresca regando seus corpos por dentro.

Em seguida, foi a vez da audição, estimulada por uma agradável música que se propagava pelo ambiente, ao som de instrumentos tipicamente árabes que não podiam ser vistos, assim como quem os tocava.

A visão, por sinal, foi de longe o sentido mais explorado pelo lugar: uma profusão de cores o decorava, em tons de verde, amarelo, púrpura e até o mais raro vermelho, distribuídas em cortinas, lençóis e toalhas. O chão era forrado por tapetes persa riquíssimos, com detalhes em ouro, e almofadas demonstrando igual riqueza, mais suntuosas que as de qualquer sultão.

Depois, veio o tato: sentando-se sobre algumas dessas mesmas almofadas, os convidados puderam sentir sua textura macia e agradável, verdadeiro prazer após infindáveis momentos sentados no lombo dos cavalos. O local também era tomado por uma brisa refrescante, cheirosa, que agraciou os poros de suas peles, até então fustigados pela areia cortante.

Por último, o paladar: com a feliz permissão do criado atarracado de turbante, Adalwin e Yussuf puderam se servir de tâmaras, uvas, damascos, peras e pêssegos, todos grandes como poucas árvores podiam gerar e servidos em travessas douradas.

Mas a sessão de prazeres ainda não havia terminado. O que veio depois exaltou todos os seus cinco sentidos ao mesmo tempo, numa profusão de luxúria...

Odaliscas adentraram de repente o salão, dançando ao som da contagiante música. Tinham seus lindos corpos cobertos por mínimas peças de ouro e prata, que tilintavam conforme suas voluptuosas formas se agitavam ao ritmo da melodia – e que Deus me perdoe por descrever tais cenas. As jovens, perfumadas como flores raras, possuíam bustos fartos e coxas curvas, cabelos negros e castanhos, longos e soltos, balançando junto com seus troncos

As peles oscilavam em tons morenos claros e escuros, cobertas de suor pecaminoso, mais de excitação do que de labuta. As mãos e os pés nus tocavam o solo e as paredes de modo provocante, os dedos estendendo-se e retesando-se de modo a indicar que prazeres poderiam proporcionar aos corpos dos dois homens. Já as faces, cobertas por véus coloridos em parte transparentes, semiocultavam lábios carnudos, olhos delineados e maçãs do rosto maquiadas numa suprema fonte de tentação.

Inebriados pela mera presença dessas mulheres, Adalwin e Yussuf entregaram-se ao pecado – até mesmo o segundo, que possuía esposa em Nazaré. Quanto ao primeiro, esqueceu-se de sua senhora em Ascalão como se jamais houvesse sequer existido. As mãos ansiosas tatearam os corpos das odaliscas, retiraram seus trajes, tocaram suas partes mais íntimas. Os lábios se encontraram em ósculos molhados, quase selvagens. O suor dos convidados misturou-se ao das jovens, o desfrute proibido das relações carnais maculando suas almas...

Foi então que o que era doce tornou-se amargo – tanto o cristão quanto o maometano sentiram suas entranhas queimarem, ao mesmo tempo em que seus membros se enfraqueceram ao ponto de mal conseguirem se mover. As mulheres seguiam em sua luxúria, mas eles não mais conseguiam corresponder, uma confusão maior que a causada por qualquer vinho turvando-lhes os sentidos e o pensamento. Sem darem conta do que exatamente acontecia, fecharam os olhos, mergulhando num sono venenoso.


X - X - X


Adalwin recuperou a consciência, sentindo uma incrível dor de cabeça e com as narinas invadidas por um odor que misturava mofo e algo mais que não conseguiu identificar – nada agradável como os de outrora. Sentado, tentou se mexer, mas constatou que seus pés e mãos estavam presos por firmes correias ao assento. Respirou fundo, criando coragem, em seguida, para abrir os olhos.

Ao fazê-lo, deparou-se com um ambiente escuro, esculpido em pedra, iluminado por esparsas lâmpadas e com colunas aqui e ali sustentando o teto baixo. Julgou encontrar-se num calabouço sob o castelo, e nunca se reprovou tanto por sua inocência, já que poderia ter escapad dos algozes se houvesse suspeitado um pouco mais de suas intenções. Quem seriam eles? Salteadores, aliados de Saladino? Teria sido Yussuf quem o atraíra até aquela armadilha? As perguntas só não o incomodavam mais que a tontura. Não conseguia ver ninguém no recinto, mas ouviu passos atrás de si. Amarrado à cadeira de ferro por fortes cordas, não conseguia voltar a cabeça para constatar quem era; porém não precisou: o indivíduo logo se colocou diante dele.

Era um homem, de longa capa negra sobre o que parecia ser uma armadura, também escura como a noite. A cabeça estava oculta num capuz, a pouca luz do ambiente impossibilitando que fosse vista qualquer parte de seu semblante. Mas sua voz logo se fez ouvir. Era fina, quase sibilante, e o tom bastante provocativo:

- Boa noite, nobre Adalwin. Descansou de sua viagem?

O germânico tentou se libertar das amarras, mas estava fraco e elas não se romperiam facilmente. Teria de jogar o jogo de seu soturno anfitrião se quisesse manter a vaga esperança de escapar dali com vida. Ergueu a cabeça, expressão fechada. Não demonstraria estar intimidado.

- Sabe quem eu sou? – tentou impor respeito. – Tire-me já daqui!

- Sei sim. É cúmplice do adultério da senhora esposa do lorde de Ascalão, e almejava poder se apropriar de suas riquezas, além do leito de sua dama...

Como ele poderia saber? Seria algum vassalo do senhor de Ascalão, enviado para puni-lo? De qualquer forma, sua situação não era boa: fora descoberto e o marido com certeza desejaria lutar por sua honra. Mas quem seria aquele homem de armadura negra? Por que o estava mantendo ali?

- O que quer de mim? – questionou, ainda tentando soar superior.

- Muitos acreditam que Jerusalém é um pedaço do próprio Reino dos Céus neste mundo. Peregrinos e cavaleiros migram para cá procurando desfrutar da vida imaculada e abundante que os filhos de Deus viviam antes do pecado original. Mas o que poucos sabem é que, além do Paraíso... O Inferno também aqui se manifesta.

- O quê? O que quer dizer?

Rindo zombeteiro, o anfitrião finalmente removeu o capuz, revelando um rosto de pele vermelha como sangue, uma pequena barbicha pendendo-lhe do queixo, cabeça careca... e dois pequenos chifres projetando-se de sua grande testa, um em cada têmpora.

Adalwin estremeceu, sua pele gelando e um fio de suor escorrendo solitário por sua fronte. O coração quase parou de bater ao constatar estar de frente para Satanás.

- L-louvado s-seja o N-Nosso Senhor Jesus Cristo! – balbuciou, recorrendo às orações que até então ignorara. – Salve-me neste momento de aflição, Cordeiro de Deus...

- Ah, mas ninguém vai poder te salvar, meu amigo... – riu o Diabo, exibindo uma série de dentes amarelos. – Caíste em tentação no pior lugar possível. O único solo em toda a Criação em que um homem não pode ceder ao pecado. As pessoas vêm para cá de longe para pisar nos lugares em que Cristo pisou... Mas se esquecem de que eu também pisei aqui. Este castelo foi erguido no mesmo local em que eu encontrei Jesus em seu exílio no deserto, Adalwin. Onde o tentei por quarenta dias e quarenta noites. Aqui o poder é meu.

- Virgem Maria, Mãe de Deus, me ampare neste momento, recorro à sua proteção...

Gargalhando, o demônio deu as costas para sua vítima, caminhando até uma pilastra do calabouço, onde, com um mero sopro de sua boca, acendeu uma vela presa à estrutura, até então apagada. O novo foco de luz iluminou algo no chão... algo que Adalwin preferiria jamais ter visto. Aos pés da coluna, seu cavalo e também o de Yusuff jaziam mortos... com a barriga aberta e os intestinos à mostra, desenrolando-se para fora de suas carcaças como grandes e sanguinolentas cordas avermelhadas, os animais mantendo as bocas semiabertas com as línguas mutiladas entre os dentes e os olhos quase saltando para fora das órbitas – revelando terem vivido incríveis dores antes de finalmente serem abatidos.

Aquilo explicava o outro cheiro junto ao mofo – carniça. Tripas abertas. Carne dilacerada.

O cavaleiro parou de rezar. Sentiu as frutas que comera no salão, anteriormente, revoltando-se em seu estômago, mas vomitar ali só pioraria sua situação. Conteve-se, lágrimas brotando em seus olhos.

- O que fará comigo? – questionou, já quase choramingando.

- Ora, ora, não tema, nobre cavaleiro! – Satanás falou num tom cordial. – Vou apenas prepará-lo para sua visita à senhora de Ascalão. Desde que nasceu até este dia, passou por maus bocados, não é mesmo? Doenças, batalhas... a vida neste mundo não é fácil! Irei curá-lo de seus males, para que melhor possa desfrutar da companhia de sua amada.

O Diabo estalou os dedos. Com isso uma porta aos fundos do lugar, bem diante do apavorado Adalwin, abriu-se num estrondo, mais passos e vultos invadindo o ambiente. O cristão estreitou os olhos molhados para conseguir ver quem eram e, mais uma vez, constatou que ali o melhor seria aguentar tudo de pálpebras cerradas...

Tratava-se de cavaleiros de cota de malha e elmos, trazendo consigo uma série de objetos metálicos e ostentando ao peito a cruz símbolo da Ordem dos Hospitalários – honrados homens que cuidavam de doentes e feridos. Mas aqueles, no caso... eram cadáveres que andavam. Por algum sortilégio demoníaco, seus corpos, rotos e cobertos de vermes – muitos com membros e largas seções de pele ausentes – locomoviam-se como se ainda vivessem, ainda que alguns não passassem de esqueletos brancos descarnados. Agora um odor de podridão unia-se ao terrível cheiro daquela sala. E os cavaleiros morto-vivos, cerca de cinco ou seis, detiveram-se diante de seu mestre e do prisioneiro, aguardando ordens.

- Deixe-me ver se o conheço bem, Adalwin... – riu o Diabo, coçando sua barbicha. – No Sacro Império, durante uma emboscada numa estrada, certa vez foi atingido por uma flecha, correto?

- S-sim... – o pobre cavaleiro admitiu, sabendo que não poderia mentir para o demônio.

- Quando tentaram tirá-la de sua barriga, a flecha quebrou, apenas a ponta ficando dentro de sua carne, confere? Mesmo assim sobreviveu...

- Sim, apesar de eu ainda sentir dores às vezes.

- Que tal se acabássemos para sempre com esse tormento?

O Diabo fez um gesto para um dos Hospitalários mortos. Este, com sua mão esquelética, ergueu um pequeno instrumento de ferro com dois dentes de metal, algo como uma pinça. Ainda brandindo-o, caminhou lentamente na direção de Adalwin. Antes que o trêmulo cavaleiro pudesse protestar, outro morto-vivo aproximou-se e removeu-lhe a cota de malha, segurando-o pelo abdômen – por trás da cadeira – enquanto o outro monstro portador do instrumento abaixava-se e levava-o até a região do estômago do rapaz.

- Por favor, não! – berrou, agora tomado pelo pânico. – Jesus Cristo, me ajude! Ajude-me, Nosso Senhor!

As pontas metálicas da ferramenta, geladas, tatearam a pele do cristão por alguns instantes, até finalmente a penetrarem de uma vez, perfurando sua carne como lâminas. Sangue quente verteu e pingou pelo chão, uma dor lancinante invadindo o cavaleiro e fazendo-o contorcer-se dolorosamente na cadeira. As mãos pútridas do outro morto-vivo, porém, mantinham quase imóvel seu tronco – de modo a não atrapalhar o trabalho do satânico cirurgião.

As extremidades da pinça exploravam o interior do estômago de Adalwin como um verme, girando, torcendo... O germânico debatia-se insanamente, mordendo a própria língua e agitando a cabeça conforme sentia o interior de seu corpo ser completamente revirado. Por fim, as pontas de metal fisgaram algo, numa explosão de dor ainda maior que teria feito qualquer homem perder os sentidos. Mas não o cavaleiro – ele não mais possuía tal luxo.

A pinça foi removida rapidamente, trazendo algo preso entre seus dentes. A ponta metálica de uma seta, agora coberta de sangue e tripas, foi atirada dentro de uma pequena bacia. Adalwin arquejou, líquido e mais líquido escorrendo pelo buraco aberto em sua barriga. Em outras circunstâncias diria que logo morreria pelo sangramento; porém, sabia que Satanás não tornaria as coisas tão fáceis.

- Um problema a menos para ti, cavaleiro enamorado! – sorriu o Diabo, que a tudo assistia com satisfação. – Agora só precisamos fechar essa ferida. Há algo melhor para isso que o fogo, capaz até de fundir metais?

O cristão mal teve tempo de implorar misericórdia, já que uma das caveiras se adiantara e, com uma tocha acesa, encostou a extremidade flamejante no abdômen aberto do prisioneiro. Um novo berro ecoou pelo calabouço, a ardente dor da queimadura fazendo as mãos amarradas do cavaleiro arranharem o ferro dos braços da cadeira – a sensação das unhas se descolando dos dedos nem sendo percebida em comparação à barriga tocada pelas brasas. Um novo matiz olfativo, de carne queimada, tomou o local, o morto-vivo afastando a tocha pouco depois e deixando um ofegante Adalwin, que gemeu de dor ainda por muitos instantes seguidos – mesmo sem ser acometido de novos castigos. O demônio queria desfrutar de cada suspiro e cada lágrima de sua vítima.

- Está quase novo em folha! – caçoou, rindo para seus servos esqueléticos. – Mas ainda falta algo... Como sou capaz de conhecer todo o fio do tempo, o princípio e o fim, o nascimento e a morte, sei que no futuro será acometido de um mal que ainda não se manifestou, Adalwin... Uma névoa tomará sua visão, obstruindo a menina de um de seus olhos e impossibilitando que com ele enxergue. Não mais poderá admirar os encantos de sua amada como antes. Mas... e se eu evitasse esse mal, curando-o já agora?

- E-eu... Eu n-não quero...

Satanás bateu palmas, e a porta do calabouço tornou a se abrir. Um novo morto-vivo adentrou-o, mancando de uma perna. Apesar da pele em frangalhos e de não mais possuir nariz – no lugar apenas um buraco escuro repleto de pus – Adalwin pôde reconhecê-lo pelos trajes e pelo semblante... Era Yussuf, convertido em mais um servo do Senhor das Trevas.

- Procedamos à cirurgia – o Diabo deu a ordem.

O sarraceno morto-vivo trazia consigo apenas uma comprida agulha metálica, em sua mão direita. O cristão debateu-se mais uma vez na cadeira, tentando se libertar e com a ferida fumegante no abdômen latejando ainda mais, mas não conseguiu ir a lugar algum. E não pôde escapar quando Yussuf fincou a ponta da agulha em seu olho esquerdo, empurrando-a para dentro.

O grito de Adalwin foi tão intenso que aparentou até sacudir a estrutura do castelo. Além da dor, a sensação de ter uma das partes mais frágeis de seu corpo mutilada fez os músculos do cavaleiro se contraírem por completo. O árabe fora preciso em sua incisão: cravara a agulha na parte branca do olho, ao invés de atingir a pupila. E agora, com a mesma enterrada no centro do órgão gelatinoso – que vazava e pingava sobre o peito de seu dono – comprimia-o para dentro de sua cavidade, como se quisesse afundá-lo dentro da cabeça do rapaz.

Por fim a pressão parou, após instantes que pareceram intermináveis, e um dos esqueletos cedeu outro instrumento à mão livre do cadáver reanimado de Yussuf. Um comprido objeto de vidro que logo foi identificado pelo cavaleiro como uma seringa. A mesma foi encaixada pelo árabe à agulha mantida fincada em seu olho e, quando deu conta, o globo começou a murchar... a substância que o compunha sugada para dentro do cilindro.

- Se um olho fica doente, melhor removê-lo logo por inteiro! – o demônio gargalhou.

- P-por favor... pare...

- O que você me daria para aliviar seu sofrimento, Adalwin? – Satanás inquiriu, sorridente. – Está arrependido de ter se envolvido com uma senhora casada?

- Estou...

- Ah, é? Pois faça sua confissão a Deus, não a mim! Eu exijo outra coisa! Ou continuarei preparando-o para encontrá-la!

Com o olho que lhe restara, o cavaleiro cristão fitou a carcaça sem vida de seu guia pelo deserto, de pé diante de si com a seringa ainda em mãos... E compreendeu o tipo de pacto que ele fizera com o anfitrião para mergulhar naquele estado. Parecia a única solução. Arfando, Adalwin respondeu ao algoz:

- Dou a ti minha alma...

- Como é? – bradou o Diabo, brincalhão. – Não ouvi bem!

- Minha alma! – falou o mais alto que a dor lhe permitia. – Minha alma é sua!

Satanás tornou a sorrir, aparentemente satisfeito. Batendo palmas, dispensou os mortos-vivos, que se ausentaram pela porta, com suas armaduras tilintando e os ossos rangendo. Sentado na cadeira, Adalwin se assemelhava agora mais a uma sombra de homem do que qualquer outra coisa, coberto de sangue e humilhado como nunca. O Diabo então retirou de seu traje um pequeno frasco contendo um líquido branco, abrindo-o e oferecendo-o ao moribundo cavaleiro:

- Beba.

Com uma das trêmulas mãos, o germânico apanhou o vidro com dificuldade e despejou-o dentro da boca, grande parte escorrendo por seus lábios e bochechas – mas não se importou. Com a língua em frangalhos, sentiu um gosto que unia alho a vinho, áspero, ardido. A bebida desceu queimando por sua garganta, fazendo logo em seguida seus sentidos oscilarem, apagando-se um a um. O olho remanescente fechou-se de forma lenta, os ouvidos foram obstruídos, o nariz deixou de sentir o cheiro de morte do local, o paladar entorpeceu-se e extinguiu-se, o tato sentiu o ferro opressor da cadeira uma última vez e também se esvaiu.

O veneno espalhou-se pelas veias de Adalwin como um convidado muito bem-vindo, privando-o de todo aquele sofrimento enquanto ele ouvia os passos do Diabo, sem pressa, em direção à porta – por certo para receber novos hóspedes. Cristãos ou maometanos, naquela terra todos estavam sujeitos à tentação... Abrindo um leve sorriso, o cavaleiro conformou-se.

O Inferno, afinal, não poderia ser pior que aquela tortura.

16 de Junho de 2020 às 01:32 2 Denunciar Insira Seguir história
3
Fim

Conheça o autor

Luiz Fabrício Mendes Goldfield, alcunha daquele em cuja lápide figura o nome "Luiz Fabrício de Oliveira Mendes", vaga desde 1988. Nasceu e reside em Casa Branca - SP, local que se diz ter sido alvo da maldição de um padre. Por esse motivo, talvez, goste tanto do que é sobrenatural. Atualmente é professor de História, mas nas horas vagas, além de zumbi, se transforma em agente de contra-espionagem, caçador de vampiros, guerreiro medieval, viajante do espaço ou o que quer que sua mente lhe permita escrever.

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Wesley Deniel Wesley Deniel
Que satisfação foi lê-lo, amigo ! É sempre muito bom encontrar histórias tão interessantes, adultas e bem escritas assim em meio ao mar de obras rasas, fracamente escritas e de temas adolescentes que inundam as plataformas de leitura, ocultando temas e trabalhos verdadeiramente merecedores de reconhecimento. Certamente lerei suas demais obras ! Grande abraço !
June 17, 2020, 16:26

  • Luiz Fabrício Mendes Luiz Fabrício Mendes
    Olá, muito obrigado pelos elogios e o gentil comentário. Fico feliz de a leitura tê-lo satisfeito. Vi que curte horror cósmico, acredito que a escrita deste conto combine bem com o gênero, hehe. Espero que goste de minhas outras histórias. Obrigado, abraços! June 17, 2020, 16:50
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