guilhermerubido Guilherme Rubido

Após a morte de sua esposa ele começa a perceber que algo está convivendo com ele, sugando-lhe a vida como uma sanguessuga e que talvez essa coisa tenha sido responsável pelo falecimento de sua amada. Assim, determinado a resolver o problema, ele tenta capturar essa estranha criatura que vive ao seu lado. Nessa luta contra um outro ser, acaba por descobrir uma luta consigo mesmo.


Horror Para maiores de 18 apenas.

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A Praga Negra

A Praga Negra

Faz agora um mês e oito dias desde que minha esposa, acometida por complicações no coração – complicações essas que, diferente daquilo que os médicos dizem, atribuo seus efeitos mais às questões de pesar e tristeza que tanto pesavam no espírito de Natalia, especialmente em seus últimos dias, do que à questões fisiológicas –, se foi para sempre. Minha solidão, antes compartilhada e atenuada por sua companhia e presença revigorante, ataca-me de todos os lados com extrema rapidez. Um gume áspero e envenenado que me dilacera todos os dias, sem que eu a tenha para que possamos nos acalentar, como antes fazíamos. Desde então, há cerca de apenas uma semana, venho sendo submetido a frequentes pesadelos que, com impetuosidade, atormentaram minha mente. Estes pesadelos, se é que posso chama-los assim, não me transportavam para mundos indizíveis ou paisagens oníricas impressionantes. Eram, na verdade, como que a manifestação tempestuosa de meus sentimentos obscuros. Não via coisas, apenas experimentava estados desagradáveis.

Se hesito diante dessas páginas escrita com garranchos tortos e borrados – a mão que segura o lápis suspensa no ar, tremendo sem parar ante o desafio – não é porque duvido de minhas palavras ou sanidade; ou porque carrego a culpa de algum ato hediondo, muito menos por não acreditar naquilo que vi e senti. E, se possuo alguma parcela de culpa nos acontecimentos, é somente por não ter percebido antes o horror que nos cercava. Flutuando a nossa volta enquanto, como um demônio obscuro, nos envolvia em suas garras pútridas e intoxicadas que – e agora sei com certeza –, sugando-nos a vida e o vigor feito um maldito carrapato, pouco a pouco, foi responsável pela morte e sofrimento de quem eu mais amava; tal como por me lançar, por consequência, nesse negrume pestilento do qual não consigo mais me livrar. A única fagulha responsável por estender minha estadia no plano terrestre é a consumação de minha vingança. Por Natalia, por mim e, além disso, por aqueles que sofreram e poderão vir a sofrer enquanto tal criatura persistir por caminhar com suas patas imundas por nosso mundo. Temo que meu esforço de nada valerá, pois abre-se diante de mim uma tarefa hercúlea e impossível. Creio que existam mais deles. Milhões e milhões, vivendo por aí como carrapatos em cachorros. Sendo assim, também creio que esta batalha desoladora é individual, devendo ser travada por cada pessoa a seu próprio modo.

O tempo urge, e cada minuto que gasto diante dessa folha é mais tempo para que ele possa se distanciar de minhas mãos, rastejando como um verme por aí. Ainda assim, não conseguirei continuar enquanto não terminar este relato. Logo, contarei o que houve.

Com o coração pesado, pois – mesmo transcorrido um mês desde o incidente com Natalia – o luto persistia doloroso, enegrecendo-me por dentro com rapidez, vaguei apático, deixando os dias passarem por mim. Na verdade, agora com a situação revelada, sei que a mágoa trazida pelo falecimento de minha esposa irá perdurar pelo resto de meus dias. Continua e continuará a doer, agora até mais do que nunca. Com esse temperamento, deitava-me todos os dias com o corpo cansado e a mente consternada pela pressão de uma terrível tempestade de afazeres. Súbitos florescimentos de uma tristeza profunda me assediavam em estocadas, fazendo meu ânimo se alterar de uma hora para outra. Alimentava-me mal e cuidava pouco de mim mesmo. A casa, vazia com a partida de Natalia, era para mim uma cúpula sufocante e cinza, um frigorífico mórbido e nauseabundo. Uma cúpula frívola de vidro opaco. Aqui, neste quarto onde escrevo estes documentos como testemunho, os dias passavam lentamente, arrastando-se sobre mim como imponentes montanhas. Dia após dia. Distingui-los era uma tarefa impossível, já que, para mim, eles eram todos iguais. Caminhando – não! Me arrastando com dificuldade — no centro desse furacão monótono e constante, com desânimo e indiferença, aguardava a chegada de uma nova manhã que, esperava eu, pudesse me aliviar ou alterar o rumo das coisas. Ou, para ser mais realista, a chegada de minha morte. Embora soubesse desde o princípio que este futuro era mutável, não me esforcei para alterá-lo. Não sentia vontade de alterá-lo. Experimentava, como jamais sentira antes, uma melancolia extrema. Uma tristeza sufocante. Era com esses tipos de pensamentos anuviando e bombardeando minha mente que eu encostava a cabeça em meu travesseiro, já pensando no raiar do dia, quando teria de me levantar para mais um dia de rotina detestável. Mais um dia indiscernível para juntar-se ao bolo amorfo e homogêneo que minha vida havia se tornado.

Assim, quando já ia adormecendo e os temores, para o meu alívio – era sempre um alívio! – começavam a deslizar para as cavernas do inconsciente, ouvi, de repente, um som intenso em meus ouvidos. Descrevê-lo é inútil, pois me recordo muito pouco dele. Como verdadeiros pesadelos, sua lembrança tornava-se vaga logo após o despertar. Além disso, os sons eram disformes e variavam com velocidade. De maneira estranha, o pânico que me causava era tão intenso que o esforço frenético que eu empregava para me livrar dele não me permitiria, ainda que eu quisesse, absorver e guardar na memória o que me acontecia para que aqui pudesse descrever com mais detalhes. Basta dizer que o ruído persistente ecoava em minha cabeça, sussurrando persuasivamente em uma sinfonia grandiosa e ameaçadora. Com ele, uma certa eletricidade parecia percorrer meu corpo, pois eu sentia um formigamento cobrir-me da cabeça aos pés. Junto do formigamento elétrico, quando tentava me mover para desvencilhar-me daquele fenômeno horrendo, percebia que meu corpo era quase que puxado para a cama. Permanecia imóvel feito uma pedra, como se uma pressão terrível se exercesse sobre meu corpo. Eu era um coelho mortificado pela visão de uma cascavel sibilante à sua frente. Percebendo que não podia me mover, a angústia emergia das profundezas e a vontade de escapar daqueles sussurros lamuriosos e altos faziam-me debater como um louco, até que, aos poucos, como se eu fosse rasgando e penetrando um véu denso e amarrotado, minha mente emergia aliviada novamente à realidade. Parecia-me que cada momento passado naquele estado letárgico contribuía para que algo pudesse me alcançar. Era uma sensação desoladora e desesperadora de vulnerabilidade. Nem mesmo olhar para os lados eu podia. Tudo o que eu mais queria era saciar meus temores olhando para trás e provando para mim mesmo que nada havia ali escondido na escuridão que cercava minha cama.

Nesse estado, pensava que se eu cedesse e parasse de lutar, minha consciência se esvairia completamente, dissolvendo-se nas águas densas daquele rio sonoro, e eu jamais acordaria. Era como se minha vida oscilasse sobre a beirada de um precipício e, a mim, fosse incumbida a responsabilidade de puxá-la para que não sucumbisse. Dessa forma, digo sem exageros que eu lutava todas as noites pela minha vida. Com esse medo em mente e os nervos tensionados, eu galgava com ímpeto para fora daquilo que me tragava com avidez, antes que qualquer forma nascida dos cantos dos pesadelos pudesse me tocar.

Libertando-me, o cenário não mudava, pois meus olhos já estavam abertos; mas, no mesmo instante, todos os efeitos que antes me causavam tanto temor cessavam de uma só vez. Não havia mais aquele tenebroso barulho me incitando e fomentando a ansiedade devastadora. O formigamento sumia, parecendo jamais ter existido. E, para o meu alívio, também a pressão parava, permitindo-me mover livremente.

Neste primeiro dia, sentei-me assustado na cama. Meu coração batia rápido e meus olhos percorriam o quarto na tentativa de encontrar conforto em uma imagem familiar. A sensação ruim passava aos poucos. Embora o sentimento de segurança começasse a voltar, o alerta em meu coração não se aquietava: a lembrança do terror mantinha-se impressa em meu âmago. Colocando a cabeça entre as mãos e massageando as têmporas, suspirei em aliviado e preocupado. Eu estava suando. Um suor frio e pegajoso. Nesse momento algo macio me tocou e, quando levantei o rosto assustado, quase que pulando de minha cama com um gemido acuado, percebi que era apenas Nelson, o gato que eu e Natalia tanto amávamos. O único companheiro que me sobrara. Só Deus sabe como a presença do animal ajudou-me a adormecer naquela noite. Aqueles que já estiveram solitários, vagando perdidos nas sombras e puderam encontrar em algum animalzinho o refúgio de conforto e amor de que tanto precisavam, entenderão o que digo sem muitas explicações. Assim, após este primeiro evento – o primeiro de muitos –, consegui dormir.

Quando o sol se derramou sobre a cabeceira de minha cama, abri os olhos temendo ver-me preso outra vez. Acordei assustado, como se algo perscrutasse o aposento à minha volta. Aproximando-se cada vez mais e observando-me com prazer. Para minha felicidade, Nelson mantivera-se aninhado ao meu lado por toda a noite, e ainda estava ali quando despertei. Sem me demorar e ansioso para ocupar minha mente, levantei-me e preparei o café, enchendo minha barriga faminta. Troquei de roupa e, saindo de casa, respirei o ar frio da manhã, deixando-o preencher meus pulmões. Segui então o caminho costumeiro pelas ruas de paralelepípedo que conhecia tão bem. Nestes momentos, o prazer da vida volta-me aos olhos. Lembro-me de ver flutuar pela cidade uma névoa matinal. Por alguns segundos, o mundo ao meu redor parecia me envolver a vontade renascia dentro de mim. Chegando ao local, pus-me a trabalhar e o encanto anterior se despedaçou em pouco tempo. Foi um dia intenso e excruciante. Um dos piores em meses. Não sei se piorado por conta do recente pesadelo, mas, com certeza, um dia horrível. Daqueles que me faziam titubear à beira do precipício. Meu trabalho não era ruim, apenas não fazia parte de mim. Era um intruso com que me acostumei a viver e, depois de tanto tempo convivendo com ele, perdi a coragem de enxotá-lo para fora.

Neste dia, já em casa e deitado ainda com a roupa do trabalho, o mesmo pesadelo retornou. O padrão era o mesmo: primeiro, sobrevinha-me o assobio aos ouvidos. Intenso e oscilante. Uma turba de murmúrios e sons irreconhecíveis. Por vezes apenas um apito. Era incrível o poder daquilo em me deixar atordoado. Sentia-me confuso e perdido, como quando algumas vítimas de concussões na cabeça relatam o que sentiram no momento. Queria gritar, esbravejar ou desaparecer. Não de dor, mas de angústia! Pura angústia! Apesar disso, diferente das vítimas de fortes concussões que muitas vezes desmaiam, eu me mantinha inteiramente consciente; esse fato apenas contribuía para que o som se tornasse ainda mais atordoante. Ainda mais mortífero! Eu queria fugir daquilo! Fugir do som miserável que desequilibrava minha mente! Livrar-me da audição para que jamais precisasse contemplar aquela maldita ária demoníaca causadora de tanto pavor outra vez! Ah, deus todo poderoso, e eu conseguia. Sempre conseguia. Ao menos por um tempo, eu escapava daquilo.

Porém, após a primeira noite, as crises jamais voltaram a ser um evento único da madrugada. A primeira noite foi apenas um prelúdio lúgubre, é claro. As primeiras notas de uma longa e obscura sinfonia!

As noites subsequentes eram intensas demais e me surpreendo de tê-las enfrentado. Eu me livrava de um dos aprisionamentos – pois era essa a sensação: uma camisa de força me envolvia de repente e, no alto, um som intenso retumbava, tentando me impedir de me livrar do tecido que me cercava – e era logo fisgado por outro. Quando fugia e respirava por alguns momentos a realidade, ficava desperto por um tempo. O coração batendo e o corpo em um estado extasiado de alerta. A pergunta de “Deus! O que foi isso?!” sempre pendendo de meus lábios pálidos e tremulantes. Após o pânico momentâneo, quando o sono começava a retornar, eu me deitava outra vez e me preparava para dormir. Qual não era minha surpresa pois, quando a consciência já começava a minguar, preparando-se para outra sessão de sono, o apito recomeçava e, outra vez, via-me preso. Preso como um rato que se contorce numa ratoeira! Cheguei mesmo a cogitar que aquilo eram princípios de um AVC ou algo do tipo. Como eu desejava Natalia ao meu lado nestes momentos para que pudesse acalentar meu sono e proporcionar-me segurança! Natalia, ainda sinto sua falta, e para sempre sentirei. Tive o pobre Nelson ao meu lado, e Deus sabe que ele me protegeu e que era meu último elo com a vida. Amava aquele gato, e ele, junto de Natalia, é o que me fará descer até as profundezas. Ainda hei de me vingar pelos dois! Tenho que fazer isso...

Assim passava as noites, escapando de um abismo profundo e escuro e tropeçando em outro ainda pior. Quando galgava com esforço para fora de um, outro me esperava logo à frente. Meu sono era entrecortado e curto, de forma que, pela manhã, quando acordava, sentia que nada havia dormido. E as olheiras negras que se formavam sob meus olhos estavam ali para atestar o que digo. Cada dia no trabalho tornava-se ainda pior devido a minha exaustão. Percebi, em uma das manhãs em que me arrumava, que as roupas começavam a cair-me frouxamente. O que era justo se tornou largo. Eu estava emagrecendo rapidamente. Muito rapidamente. Parecia que eu carregava um pesado fardo; quase sentia-o em minhas costas, arqueando meus ombros com seu peso e dilacerando meu espírito. Qual não foi minha surpresa ao descobrir que o que sentia não era mera metáfora ou simples ilustração...

Às 23h47 da noite de uma sexta-feira, enquanto assinava alguns documentos da casa e papeladas sobre questões jurídicas da morte de Natalia, percebi algo de estranho. Com os olhos pesados e cansados diante daquelas montanhas de documentos compostos por muralhas de palavras, pude ver, rapidamente, com o canto dos olhos, algo refletido na janela ao meu lado. Cambaleando de sono, senti meu coração gelar e o frio percorres meu corpo. Estanquei paralisado. A realidade ao meu redor pareceu silenciar-se. Eu mal ousava respirar. Meu coração martelava o peito. Ao meu lado, Nelson sibilou ameaçador. Tomando coragem, virei a cabeça com uma lentidão tremenda. Meus músculos estavam tão tensionados que meu pescoço parecia não querer virar. Olhei finalmente: de soslaio, vi, refletida no vidro de forma espectral, obviamente, a minha imagem própria imagem. Minha aparência cadavérica já era horrível o bastante, e seria suficiente para me surpreender. Na fração de segundos, vi que meus olhos afundavam e as pálpebras se descortinavam exaustas na face côncava e descarnada que era meu rosto. Uma máscara repuxada. Meu semblante era de infelicidade e cansaço. Os ombros estavam caídos e curvados.

Porém, isso não era o pior. Ouvindo apenas o martelar de meu coração percebi algo mais. Para meu horror, sobre meus ombros, empoleirado feito uma besta sanguessuga, encontrava-se uma miúda e feia criatura magricela. Estava arqueada sobre o meu pescoço. Seus dedos, longos e curvos, prendiam-se em apoio em minhas costas e peito. Sua cabeça era grande e, exceto por alguns fios longos e finos que caiam até os ombros, ela era careca. Ela olhava para mim com o canto dos olhos – que eram grandes e vidrados como duas gordas luas –, pois sua bocarra se abria sobre uma parte de minha cabeça. O nariz era apenas duas fendas escuras e os braços, como uma horrenda aranha, eram muitos e se mexiam sem parar. A cena era pavorosa! E, pasmem, embora monstruosa, alguns aspectos da criatura lembravam minha própria fisionomia! Quando percebeu que eu a tinha visto, vi o medo surgir em seus olhos doentios. Medo não: pavor! Monstro covarde! Dez vezes maldito! Como uma pulga que se vale do pelo dos animais para, escondida, cometer seus atos e, quando se vê exposta, fugir desesperada, aqui a situação parecia a mesma. De alguma forma, aquilo tinha permanecido invisível até então, mas, agora, revelara-se sem querer para mim. Contudo, fui mais fraco que ela. Fui pego de surpresa. Sua imagem impensável fez-me pular da cadeira com um grito esganiçado. Nelson miava sem parar ao meu lado. Minhas mãos estabanadas tentaram afastar aquilo de meu pescoço, mas nada atingiram além do ar. Mexi-me como um louco balançando os braços ao redor de meu pescoço. Minha mão resvalou apenas uma vez sobre ele, o que deixou sobre ela uma gosma preta e corrosiva. Suspirando e tremendo, abaixei-me diante da janela e, para mais uma surpresa, percebi que nada havia em meus ombros ou em lugar algum. A criatura desapareceu, mas o resquício de gosma negra que deixara em minha mão não. Era pouco, quase imperceptível. Mas estava ali.

Com um suspiro meio aliviado e meio temeroso, levei minha mão à têmpora e comecei a massageá-la. Respirei profundamente e acabei ficando tonto. Lembro-me de pensar que a janta farta que eu fizera alguns minutos antes do incidente podia não ter me feito muito bem. Além disso, o trabalho deixava-me cansado. Precisava urgente de repouso. Mas... algo me dizia que não era imaginação aquilo que vira. Era real. Quase podia sentir seu peso em meus ombros, embora não pudesse vê-la.

Com medo de que aquilo pudesse ser algum animal estranho e temendo que ele fosse o responsável por minhas noites ruins do sono, peguei um pouco de farinha branca na dispensa e lancei sobre o caminho da porta do interior de meu quarto. Preenchi em volta da minha cama e também sobre ela. Se houvesse algo em minha casa que quisesse vir até mim, teria de deixar marcas pelo chão.

Deitado em uma posição fixa para não dispersar o pó sobre a cama, eu adormeci. Quando acordei, ainda sonolento, verifiquei se havia algo de incomum. Não me mexendo muito, olhei ao redor de meu corpo. Como ilhas vazias no pó branco, várias marcas de mão dançavam sobre o lençol azul. As pegadas, ao que tudo indicava, vinham desde a porta. Os dedos eram longos e curvados como garras. Aquilo, deus sabe o que era, andava de quatro. Andara normalmente sobre alguns trechos, mas, no meio do caminho, parecendo tropeçar e bambolear, as pegadas ficavam disformes. Havia um local onde o espaço aberto era maior, como se ele houvesse rolado ou girado por ali. E, dali em diante, as pegadas tornavam-se um caminho único e espaçoso. Sabe-se lá por que, a criatura se arrastara pelo chão como um verme a partir daquele ponto. Aparentemente, ele também tivera dificuldades para subir em minha cama, já que havia marcas por todos os lados, parecendo que ele tentara escalar sem sucesso várias vezes, até que finalmente conseguiu. A realidade daquilo era abrupta demais.

Isso não foi tudo. Quando ia me levantando, percebi que havia algo espalhado sobre mim. Tentei levantar o corpo e vi-me grudado a cama como se uma forte cola me prendesse. Olhando melhor, percebi que era uma gosma pegajosa; tão preta quanto o piche. A mesma que se prendera em meu dedo quando tentei afastar a criatura pela primeira vez. O estranho piche prendia-me e me envolvia à cama como um casulo. Com esforço, desgrudei-me daquilo e saltei da cama sentindo-me uma borboleta que tenta se desvencilhar de sua crisálida. Meus pés descalços tocaram o chão e encontraram ali uma substância fria e grudenta, a mesma que havia em mim e em minha cama. Na realidade, quando olhei melhor, pude ver que o quarto inteiro estava tomado por aquele piche negro. Não havia cheiro algum, mas tudo estava tomado por uma camada escura: paredes, cantos, teto, móveis, objetos pessoais, minha cama e até minha própria pele.

Confuso, corri para fora do quarto aos pulos, sentindo um tremendo revés ao imaginar minha pele em contato com aquilo, ainda que de nada adiantasse tentar escapar: a casa inteira submergira em podridão. Ao sair para o corredor e ver que a mesma cena de meu quarto se repetia ali, senti vontade de vomitar e, ali mesmo, o fiz. Queria me livrar daquela cena; abandonar minha casa e atear fogo em sua estrutura. A ideia daquela criatura me visitando à noite, tocando-me, deslizando sobre mim e me observando era, para dizer o mínimo, assustadora e repulsiva.

Para além do corredor, a casa inteira estava tomada por aquilo. O piche negro dançava por todos os os espaços, cobrindo tudo que eu via. Em alguns lugares a concentração era mais intensa, em outros menos. Algumas camadas mais grossas e outras quase inexistentes. Em alguns pontos, como em meu canto de leitura – meu ponto favorito da casa –, o piche quase não existia. Minha poltrona jazia intocada e todo o espaço também, como uma ilha impenetrável. Isso foi um alívio. Para minha felicidade, o corpo de Nelson – e o próprio Nelson – parecia alheio aquilo tudo. Seu pelo estava branco como sempre fora e a única escuridão eram as manchas de sua pelagem. O amei ainda mais por isso e agradeci porque que ainda me restava algumas coisas.

No mesmo instante eu soube o que faria. Tremendo e andando com dificuldade sobre aquele mar, peguei Nelson no colo e corri para a cozinha. A imagem do cômodo era o esperado: o negror absoluto. Ali a concentração era tão grande que alguns dos móveis fundiram-se entre si no meio daquilo tudo. Minha mesa tornara-se uma silhueta disforme que se misturava com o cenário ao redor. Com dificuldade identifiquei um dos armários e, forçando sua porta, abri-o.

Arquitetei, então, o mesmo cenário da última vez: polvilhei farinha branca sobre o chão do quarto e minha cama. Contudo, desta vez deitei-me ocultando uma faca de carne sob o cobertor. Aguardaria acordado e, quando visse as marcas sobre a farinha se aproximando de mim, eu a acertaria. Se Deus quisesse, isso traria fim a uma parte de meu sofrimento. Assim, esperei…

Foram momentos de muita angústia. Por algum motivo eu havia fechado a porta do quarto. Nenhuma luz do corredor entrava no cômodo. Eu estava só na escuridão silenciosa. Com a respiração pesada e o cobertor até a cabeça, deixando apenas uma pequena fresta para meu olho esquerdo, eu encarava a porta fechada. A faca que segurava em uma das mãos tremia e seu cabo escorregava em contato com meu suor frio. Perguntava-me se teria fibra para fazer o que tinha de ser feito. Questionava-me a todo momento se era isso que eu deveria fazer. Imaginava a lâmina rasgando a pele e adentrando a carne daquilo, o peso e a pressão dela vibrando em minhas mãos. A criatura se contorcendo e, talvez, guinchando de dor. Tudo isso era para mim horrível. Em alguns momentos até pensei em desistir. Tomar tudo aquilo como um sonho. Mas aí a imagem de Natalia vinha até mim, e tudo perdia seu peso. As coisas ficavam claras. Nesse momento também lembrei que deveria ter colocado Nelson para dentro do quarto, mas ele deveria estar em seus passeios pela rua, e isso era ótimo.

Quando o cansaço começava a se manifestar, ouvi um barulho. Não havia passos. Apenas um som metálico. Cerrando meus olhos vi um leve – quase imperceptível – movimento na maçaneta. Após isso houve um pequeno intervalo e, logo, outro movimento, agora mais forte. Segurei a faca com muita força. Estava preparado. Com um movimento forte e desajeitado da maçaneta, a porta se abriu lentamente formando um leque de luz no chão que se estendia até a abertura do cobertor onde estava – agora fechado – meu olho. Ainda que a curiosidade e o medo fossem mortais, não ousei abrir o olho. Esse deslize poderia ter arruinado tudo. Assim permaneci, imaginando toda a cena em minha cabeça. Ouvi a porta ranger um pouco mais, como se a criatura necessitasse de mais espaço para atravessar o vão. Os passos, por sua vez, eram quase inaudíveis, mas, agora que chegavam mais perto, cada vez mais próximos, começavam a ser captados por meus ouvidos. Um tamborilar leve. Muito leve. O arrastar de seu corpo contra o tecido da cama quando ele a escalava. Até que o momento chegou: ele estava ali.

Senti-o me escalando. Suas passadas eram leves, mas firmes. Aquelas garras odiosas pousavam sobre meu corpo enquanto, cada vez mais, aquela odiosa cabeça que vi noites antes no reflexo do vidro se aproximava cada vez mais. Na escuridão a que estava confinada com meu único olho exposto fechado, imaginei-o me fitando com seus grandes olhos. Se não fosse minha respiração que, a esse ponto, já estava totalmente descompassada, eu poderia – e acho que foi isso que aconteceu – jurar que ouvia a respiração da criatura. Quando ele estava próximo o bastante, irrompi de minhas cobertas com um urro raivoso. Não sei a que fato devo atribuir este detalhe, porém, quando sai do cobertor, em um ínfimo fragmento de segundo, não havia nada sobre mim. No entanto, logo depois, a criatura se materializou e, neste momento, vi outra vez medo em seus olhos. Penso que o acontecimento foi tão inesperado que aquela coisa cometeu um deslize e acabou aparecendo. De qualquer modo, ali estava ela, bem onde eu havia planejado. Assim, saltando das cobertas, enfiei-lhe a faca bem no peito. Que cena odiosa! A lâmina afundou em sua pele, mas a sensação não foi nada como a esperada. Senti que perfurava uma superfície gelatinosa ou molhada e, por isso, a faca deslizou de minhas mãos e ficou ali pendurada, como se fundida com o corpo da criatura. Estoquei-o com tanta força que minhas mãos suadas deslizaram cabo à frente e tocaram abruptamente o final da lâmina. Embora houvesse muito sangue – meu e daquilo – sofri apenas um corte leve na curvatura da mão direita. Com a faca presa em seu peito a criatura guinchou terrivelmente. Primeiro vi medo em seus olhos; depois, surpresa e incredulidade; e, por fim, a feição de medo se perdeu para sempre, dando lugar a um semblante de puro ódio. Cambaleando de pé, ela recuou na minha cama, afastando-se de mim. O sangue escorria negro de seu ferimento e a criatura gritava horrorosamente, como uma gárgula que ganha vida. Em um impulso do momento tentei agarrá-la pelo ombro, mas ela se desvencilhou com um gemido rápido e, se debatendo de dor, caiu da cama para o chão. Fiquei paralisado com tudo que ocorria. Aquilo se debatia feito um porco em seus últimos momentos e ela era agora bem maior do que a primeira vez que a vi. Devia medir agora cerca de 1 metro e 35 centímetros. A dor deveria estar insuportável, porque a criatura estava totalmente desorientada. Girando e balançando os braços – que naquele momento consegui contar como sete no total – ela cambaleou pelo quarto em uma dança macabra. Os braços – naquela terrível simetria que era a composição de uma figura com sete braços – balançavam para todos os lados como galhos secos sob uma forte tempestade, formando sombras bizarras nas paredes. Com um dos braços ele começou a puxar a faca do ferimento e, com os outros apoiava-se no chão e nas paredes. Quando vi isso, saltei para cima dele. Mas, com velocidade, a criatura se esquivou para o lado, batendo as costas em um dos móveis e quase derrubando-o. Com outro guincho de dor a criatura rastejou para fora do quarto.

Segui-o determinado a capturá-lo. Quando sai para fora do quarto, consegui vê-lo correndo pelo estreito corredor enquanto, desnorteado, ele trombava e se arrastava pelas paredes. Chegou até a derrubar um pequeno móvel que havia ali. Que criatura maldita! O ódio e a repulsa que sinto ao descrever essa cena são ainda intoleráveis para mim. Quase virando o corredor, aquilo se virou e olhou para o fundo do corredor de onde viera. Olhou para mim. E, com uma feição zombeteira de puro ódio e malícia, ela sorriu e saiu correndo. Tremi no mesmo momento. Estava paralisado por aquilo e, ao mesmo tempo, sabia que devia me mexer para impedir algo de horrível que poderia acontecer. Então, após alguns segundos de atordoamento, percorri o corredor.

Amaldiçoando minha própria demora para agir, contemplei o rastro de sangue que se estendia pelas paredes e pelo chão, cortando o negror do piche negro. Sabia o que tinha acontecido. Aquilo que percorria a sala não era o sangue da criatura. Era de outra coisa. Algo dotado da mais pura inocência.

Segui o rastro até seu fim, o que me levou até a porta da frente que estava aberta. O ar frio da madrugada entrava por ali feito um presságio. Com esforço, movi-me para fora e senti a noite cair sobre mim. Ali, o rastro se perdia totalmente. Mas já não importava mais. Distante da entrada da minha casa, parado do outro lado da larga rua vi a criatura a me observar com uma feição sardônica, zombando de mim. Os poucos fios da careca balançavam e brilhavam sob a luz dos postes. E, em sua boca, aquilo que me destruiu por completo. Inerte feito um peixe, o corpo de Nelson balançava em meio aquele mar de dentes poderes e agudos. Sem deixar de olhar para mim seu corpo virou-se com a ajuda dos sete braços e as duas pernas. Em um movimento bizarro, o corpo da criatura começou a deslizar para dentro de um bueiro no meio-fio da rua. Primeiro as pernas e depois, um por um, os braços, sem que, no entanto, a cabeça parasse de olhar para mim ou se movesse. Quando o corpo inteiro já havia entrado e apenas a cabeça que segurava Nelson e as mãos que se agarravam a boca do bueiro ficaram amostras ele ficou ali, me olhando. Uma aranha em sua teia. Correr era inútil. Mas eu tentei. E, quando o fiz, ele desapareceu por inteiro em meio àquela escuridão do esgoto. Tentei olhar lá para dentro, mas a escuridão era absoluta.

Com lágrimas nos olhos imagino Nelson vagando pelo escuro com aquilo a segurar-lhe. Não posso afirmar de que Nelson estava ou está morto. Mas espero que sim. Enquanto escrevo isso, vejo aquilo se afastando, escondendo-se por sabe-se lá onde. Peregrinando por recônditos escuros e ocultos do esgoto da cidade. A cada linha que escrevo ele se afasta mais e mais… sei onde há uma entrada para os esgotos, e é lá meu destino. Preciso, nem que seja a última coisa que faça, ao menos recuperar o corpo de Nelson. Não suporto a visão de seu corpo apodrecendo na escuridão do esgoto com aquilo à espreita. Irei agora, equipado apenas de uma lanterna e uma faca. Quando chegar a hora, matarei aquele câncer antes que se espalhe e cause ainda mais destruição. Quem sabe o que está fazendo? Pode estar agora mesmo saindo em outro bueiro para atacar outros. Ou ficará um tempo no esgoto para juntar forças. Eu não sei…

Mas agora vou.

Que Deus tenha piedade de mim.


P.S.: O caminho estava todo livre. E, nos primeiros 23 metros, deparei-me, iluminado pelo círculo branco de minha lanterna, com o corpo dilacerado de Nelson inerte sobre o chão frio e sujo. Sua barriga estava aberta e os órgãos haviam sido retirados e jogados no chão. Sangue por todo lado. Todo lado. Sangue. Tudo estava ali; a criatura não fizera isso porque precisava se alimentar. Apenas sadismo. Sadismo e troça. A única coisa que faltava eram os olhos de Nelson. Ali, no frio tumular que era aquele labirinto escuro, chorei por Nelson. Trouxe-o para casa e o enterrei aqui no quintal. Foi o mínimo que pude fazer por ele.

Agora que não me resta nada, continuarei de onde parei. Se como ceifador ou não, de qualquer modo eu irei.

Para a escuridão.

9 de Julho de 2020 às 20:02 0 Denunciar Insira Seguir história
7
Fim

Conheça o autor

Guilherme Rubido Olá, que bom que conseguiu chegar até aqui. Seja muito bem-vindo. Por favor, tire o tênis e sinta-se em casa. Parece que começou a chover. Consegue escutar? É uma chuva daquelas... Teremos muito tempo até que pare. Sendo assim, escolha um assento e fique confortável. Aqui veremos muitas coisas horríveis, então, prepare-se. Tem café quente na mesa e bolachas no armário de cima (não mexa no de baixo, não vai gostar do que tem lá dentro). Caso goste do que viu, não se esqueça de deixar uma gorjeta (like) ou comentário para o escritor, ele agradece pela sua cooperação. Para o caso contrário, deixe um comentário com sua reclamação, estamos sempre tentando melhorar. Espero que se divirta. :)

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