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lara-one Lara One

Até onde você iria para salvar o seu filho? E se a sobrevivência dele dependesse da morte do filho de seu maior inimigo?


Fanfiction Seriados/Doramas/Novelas Para maiores de 18 apenas.

#johnny-depp #x-files #mulder #scully #sobrenatural #suspense
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S07#05 - IN HANC DIEM (ATÉ ESTE DIA)


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INTRODUÇÃO AO EPISÓDIO:

Fade in.

A sala da mansão com móveis de madeira nobre e escura. Decoração de luxo e bom gosto. Tapeçaria oriental. O médico desce as escadas segurando a maleta. Atrás dele, desce a alta, magérrima e velha empregada sisuda, num uniforme negro, ajeitando o coque nos cabelos quebrados e secos.

MÉDICO: - (SORRI) Está tudo normal, ainda não há dilatação para o parto. Foi apenas uma crise de nervos. Nada a temer, papai. Está tudo em perfeita ordem. Faremos o parto aqui, como pediu. Traremos toda a assistência médica necessária... Bem... O senhor tem o meu telefone. Quando ela começar a sentir as contrações, é só me ligar. Estarei pronto com minha equipe.

Num ar sério, Coin, sentado na poltrona, coçando o cavanhaque e assistindo televisão, indiferente ao médico.

MÉDICO: - Tenha um bom dia, senhor Alberthi. Não precisa me acompanhar, eu conheço a saída.

O médico sai.

EMPREGADA: - Esse médico é maçom. O escolheu por isso?

THE GOLD COIN: - (INDIFERENTE ASSISTINDO A TV)

EMPREGADA: - Ela está dormindo agora.

Coin retira a cigarreira do bolso. Acende um cigarro com charme, sopra a fumaça lentamente e fecha o isqueiro num estalo.

THE GOLD COIN: - Adoro essa série. Esses caras sabem o que é o inferno!

EMPREGADA: - ... Lúcifer, precisamos conversar. Estou preocupada.

THE GOLD COIN: - Você se preocupa demais,mon chéri.

EMPREGADA: - Ela está bem, mas até quando vai esconder a verdade?

THE GOLD COIN: - Até o fim. Sou um sujeito que cumpre promessas.

EMPREGADA: - Acredita que ninguém vai suspeitar? E se ela abrir a boca?

THE GOLD COIN: - Ela não vai, tem muito a perder.

EMPREGADA: - Imagine se ela abre a boca justamente para o Mulder?

THE GOLD COIN: - Eu a mato antes que revele o que há dentro dela.

Coin se levanta. Sopra a fumaça na cara da empregada debochadamente. A velha sorri.

THE GOLD COIN: - Essa carne flácida e magra não combina com você, criança. A faz parecer uma personagem saída de um clássico de terror como "O Bebê de Rosemary". Seja mais vaidosa. Como diria Al Pacino em Advogado do Diabo: "A vaidade é o meu pecado predileto".

Coin sai. Ela sorri olhando pra ele.

VINHETA DE ABERTURA: ELES SEMPRE ESTIVERAM AQUI...



BLOCO 1:

Meses antes...

Apartamento de Coin - Edifício West End – Georgetown – Washington D.C. - 8:21 A.M.

Coin, de camisa branca e calças sociais pretas, com a gravata ao redor do pescoço, sentado à bancada da cozinha, tomando café e lendo o jornal. Há um envelope grosso sobre a bancada ao lado dele.

O elevador do apartamento faz barulho. Coin leva a xícara de porcelana à boca, prestando atenção nas notícias. O motorista, com quepe e terno, para na porta da cozinha. Tira o quepe.

RICHARD: - Bom dia, senhor Alberthi!

THE GOLD COIN: - Bom dia, Richard.

RICHARD: - (DESLOCADO) Eu vou aguardá-lo lá embaixo...

THE GOLD COIN: - (SEM TIRAR OS OLHOS DO JORNAL)Sirva um café.

Richard serve um café da cafeteira. Coin solta o jornal.

THE GOLD COIN: -Sente-se.

RICHARD: -Fiz alguma coisa errada, senhor?

THE GOLD COIN: -Não homem, vamos conversar. Você está há um ano comigo... Isso?

Richard senta-se.

RICHARD: -Sim, senhor. Um ano.

THE GOLD COIN: -Biscoitos? Não tem mais nada nessa casa, não fiz compras.

RICHARD: -Não, obrigado.

THE GOLD COIN: -Você vai me levar para o aeroporto e voltarei para Los Angeles, aonde pretendo ficar por muito tempo. Richard, sabe que sou um homem de negócios. Eu moro em Los Angeles, minha vida está lá e eventualmente moro aqui quando tenho negócios longos a serem resolvidos. E eles acabaram.

RICHARD: -(TRISTE) Entendo, senhor Alberthi. Não vai precisar mais dos meus serviços.

Coin se ergue, tirando a carteira do bolso de trás das calças.

THE GOLD COIN: -Não estou demitindo você, Richard, muito pelo contrário. Você é um bom funcionário e provou seu valor e conquistou minha confiança. Funcionários bons estão em extinção. Não quero perder você.

RICHARD: -Agradeço, senhor Alberthi. É difícil um velho como eu conseguir emprego nessa idade. E preciso muito desse emprego.

THE GOLD COIN: -Sua esposa está melhor? Ouvi você ao telefone outro dia.

RICHARD: -Sim, graças à Deus ela está. Por isso preciso do emprego. Esposa doente, crio dois netos pequenos, uma filha desempregada e sem juízo...

THE GOLD COIN: -Lamento, Richard.

Coin abre a carteira e tira algum dinheiro e coloca na mesa. Tira também um dos cartões de crédito. Coloca na frente dele. Richard observa.

THE GOLD COIN: -A senha está no verso. Fique com isso. Pague as despesas que aparecerem, a diarista pra manter esse lugar habitável e compre alguma coisa pra colocar nesses armários e na geladeira. Você será o meu secretário e tomará conta das minhas coisas enquanto eu estiver ausente daqui. Quero que ligue os motores dos meus carros, para mantê-los em bom estado. Em hipótese alguma esqueça da minha Ferrari, trate-a como se fosse minha filha. E duas vezes por semana venha aqui para regar o jardim na cobertura e principalmente as minhas rosas. Tenho rosas raras. E aqueles dois porteiros lá embaixo são muito desligados, não posso confiar essas tarefas a eles. Mal cuidam do prédio!

RICHARD: -Senhor, mas ficar com o seu cartão e senha é muita responsabilidade...

THE GOLD COIN: -Não vai me roubar, Richard. Confio em você. E se tiver alguma despesa pessoal, use. Depois conversamos.

Coin pega o envelope grosso e empurra na frente dele.

THE GOLD COIN: -Aqui está seu pagamento por um ano e um bônus pelos seus serviços. Se eu voltar antes disso, você vai receber igual, porque já foi pago. Entendeu?

RICHARD: -(SORRI) Senhor Alberthi, e-eu nem sei como agradecer, esse dinheiro vai me ajudar muito e... Muito obrigado pela confiança.

Coin se levanta. Acende um cigarro.

THE GOLD COIN: -Chegarão contas que você pode pagar com o meu cartão e alguns filmes pelo correio, os estúdios asiáticos sempre me mandam cópias das produções em que investi. Pode pegar tudo pra você. Cuidado que tem alguns que são adultos, acho que me entende. Se não lhe interessar, pode deixar para os porteiros, eles esperam ansiosos todo o mês por esses filmes.

RICHARD: - (SORRI) Esses não me interessam, senhor. Acho que passei dessa fase.

THE GOLD COIN: -E Richard, tem algumas camisas, ternos e roupas que enjoei sobre a cama. Se não servirem em você, dê para alguém que conheça. Vou pegar o paletó e a mala e já saímos. E qualquer problema me ligue.

RICHARD: -Sim, senhor Alberthi. Obrigado. O senhor é um bom homem.

THE GOLD COIN: -Não, Richard. Não realmente.

Coin sai da cozinha. Richard comemora num gesto com as mãos e olha pra cima.

RICHARD: -Obrigado, meu Deus! O Senhor sabe o quanto eu precisava desse emprego! Abençoe o senhor Alberthi, ele é generoso e bom de coração.


Dias atuais...

Residência dos Mulder - 2:17 A.M.

[Som: Erik Satie - Gnossienne 3 (por Bojan Gorišek)]

Chuva e trovoadas. Tempestade.

Foco sobe pelas escadas escuras, algumas vezes iluminada pelos clarões dos relâmpagos.

O quarto do casal com a porta aberta. Ambos dormem. Foco na porta do sótão. Percebemos por baixo da porta um luz forte.

Trovoadas.

No quarto, Victoria se acorda, sentado-se na cama. Olha para a porta do seu quarto entreaberta. Olha para suas bonecas sobre o criado mudo. Um relâmpago ilumina o quarto.

Victoria se levanta. Sai do quarto e vai para o corredor. Olha fixamente para a porta do sótão e a luz que sai por baixo dela.

A luz se apaga.

Victoria caminha lentamente em direção a escada para o sótão.

A porta do sótão se abre sozinha, lentamente.

Victoria sobe um degrau de cada vez, olhando fixamente para o sótão que se ilumina a cada relâmpago. Entra no sótão.

A porta da varanda aberta, as cortinas voam com o vento. A chuva cai forte. Victoria se aproxima da porta e para, olhando pra alguma coisa.

VICTORIA: - Sim. Eu sei quem você é.

Trovoadas.

VICTORIA: - Tá... Humhum... Entendi... Tem que acontecer.

Trovoadas.

VICTORIA: - Tá bom... Mas cuida deles porque eu os amo.

Um vento passa, levando os cabelos dela para trás. Victoria fecha os olhos e sorri, aspirando o cheiro no ar.

VICTORIA: - Confio sim, amo você também!

As luzes se acendem. O vento cessa. Mulder pega a filha no colo.

MULDER: - Pinguinho, o que faz acordada a essa hora? Se assustou com a tempestade?

VICTORIA: - Nah.

Mulder puxa a porta. Olha pra ela.

MULDER: - Com quem estava falando?

VICTORIA: - ... Me leva pra cama?

MULDER: - (SORRI) Claro. Que lugar melhor para uma garotinha estar numa hora dessas?

Mulder sai com Victoria em seus braços, ela fica olhando curiosa pra porta agora fechada. Acena dando adeus.


Delegacia de Polícia - 2:49 A.M.

Krycek observa a chuva pela janela. Bishop toma café, lendo um livro. Krycek assopra a janela, embaçando o vidro. Leva o dedo na janela, revelando a aliança e desenhando uma clave de sol.

KRYCEK: - A madrugada hoje vai ser calma. Nem assassino sai na rua com um tempo desses. O que está lendo?

BISHOP: - A Montanha Mágica, de Thomas Mann.

Bishop fecha o livro.

BISHOP: - Krycek posso perguntar uma coisa pessoal?

KRYCEK: - Pergunte.

BISHOP: - Hoje mais cedo, quando saímos pra investigar, você comprou flores e passou no cemitério. Desculpe a intromissão, mas quem está naquele túmulo bonito com um anjo erguendo as mãos aos céus? Quem é Rose que não tem sobrenome?

KRYCEK: - (SORRI) Achou bonito? Ela merecia mais que ser enterrada como uma indigente, com um Jane Doe seguido de números numa cruz branca. Aquele anjo é ela pedindo a justiça que não pude dar.

BISHOP: - Ela é a garota daquele caso aberto que o Norris já mandou encerrar?

KRYCEK: - Já esgotei todas as possibilidades pra saber quem ela é. Mas vou continuar procurando. Nunca vou desistir dela. Meu antigo parceiro e eu tentamos, mas...

Bishop olha pra mesa de Sanders.

BISHOP: - Por que vocês ainda mantém a mesa dele, com a plaquinha?

KRYCEK: - Quando nos mudamos pra esse prédio, trouxemos tudo. Essa mesa era dele e continuará sendo dele. É uma forma de conforto. Respeito. Irmandade. Somos uma família nesse departamento. Um time unido.

BISHOP: - Eu já percebi isso. Espero merecer fazer parte dessa família... Krycek, nenhuma pista dos assassinos? Quero ajudar você nesse caso. Eu gosto de desafios. Ritual satânico... Cara, é sério, nunca topei com um crime desses em toda a minha carreira.

KRYCEK: - Quer saber mesmo? Vou falar extraoficialmente. Eu sei quem fez, só não tenho provas. E mesmo que as tivesse... Nunca os pegaremos.

BISHOP: - Como pode saber?

KRYCEK: - Existem monstros lá fora, Bishop. Alguns nós pegamos. Outros estão acima da lei.

BISHOP: - Acha que tem "importante" nessa história?

KRYCEK: - A lei é até para o presidente desse pais, mas não para esses caras.

BISHOP: - ... Acho que entendi. Mesmo assim, Rose merece uma identidade. Se não podemos pegá-los, podemos descobrir que ela era.

Krycek senta-se em sua cadeira.

BISHOP: - Sei que você tem um amigo que trabalha com investigações paranormais. Eu já digo que na delegacia em que trabalhava, o delegado costumava usar videntes em alguns casos. Não servem como provas, mas conseguiam chegar até um corpo ou um assassino. Não posso explicar, mas elas conseguem resolver casos emperrados que a gente não consegue.

KRYCEK: - Acha que não usei uma vidente? A melhor delas, a Baba, ela trabalha pro meu amigo da agência paranormal, o Mulder. E nem ela conseguiu descobrir nada. Rose é meu único caso nunca resolvido. Tudo que eu quero é descobrir quem ela é e poder dar alento pra família que certamente ela tem.

BISHOP: - ... Concordo.

KRYCEK: - Revirei lugares aonde jovens frequentam, universidades, pensões para turistas... Ninguém conhecia a Rose. Nenhuma denúncia, nenhuma pista, nada. O país inteiro viu a foto dela em programas policiais. Esse telefone jamais tocou.

BISHOP: - Turista?

KRYCEK: - É a minha teoria. Contatei a Interpol na época, mas é um planeta vasto. Rose veio pra cá e foi morta num ritual satânico. Se não veio, alguém a trouxe. E se não deu queixa do desaparecimento, é porque está envolvido. Falei com meus contatos nas ruas, prostitutas, michês, ladrões, traficantes, gangues, mafiosos... Pensei que talvez ela tivesse sido aliciada ou vendida pra prostituição. Nada. Ninguém a conhecia.

BISHOP: - E o FBI? Entrou no caso?

KRYCEK: -Sim, e Rose seria mais um caso a parar no porão deles, agora empoeirado e sem alma. Só não é porque o agente Mallet da Crimes Violentos é amigo do Mulder e estamos os três envolvidos na investigação.

BISHOP: - Sei como é. Já levei dez anos numa investigação. Fechava, aparecia novas pistas. Guardava na gaveta. Levava dois ou três anos, outra pista, reabria o caso... Tem casos que parecem ter a hora certa para serem resolvidos.

KRYCEK: - Você parece meio místico, parceiro.

BISHOP: - (SORRI) Eu não me acho místico. Apenas acredito que existam coisas que a gente ainda não tem como explicar. Confesso que sua atitude em dar um enterro digno e uma sepultura bonita como aquela pra uma desconhecida... Isso me surpreendeu. E me surpreende o fato de levar flores pra ela.

KRYCEK: - Ela não é uma desconhecida. Ela é a Rose. Uma jovem com uma vida pela frente, com sonhos pra realizar, ela podia ser minha filha. Certamente é a filha de alguém. Ela é o último caso que Sanders e eu não resolvemos. Devo isso a ela e ao Sanders.

O celular de Krycek toca. Krycek pega o celular.

KRYCEK: - (SORRI) Rádio patroa chamando.

BISHOP: - (SORRI) Esse chamado tem que responder.

Os dois riem. Bishop se levanta, coloca a mão no bolso das calças sociais e vai beber seu café olhando a chuva pela janela. Krycek atende.

KRYCEK: - (AO CELULAR) Fala, Malyshka... Imaginei que perdeu o sono com a tempestade, mas esperei que me ligasse. Vai que eu estivesse errado e perturbasse o seu sono? ... Calma, amor, é só uma tempestade... (SORRI) Eu sei que tá com medo, mas não tem porque ter medo de tempestade. Como tá o nosso bebê? ... É, imagino, porque a mãe dele não fica calma, aí ele se irrita causando azia em você! Ou porque comeu besteira demais e pensa que eu não sei... Malyshka, eu reconheço um culpado de longe!

Bishop abaixa a cabeça rindo.

KRYCEK: - (AO CELULAR) É, eu deveria prender você sim... Claro que cometeu infrações sérias! Assalto a geladeira na madrugada, roubo de bombons da gaveta, perturbação da ordem em casa e desacato a autoridade do seu marido.

Krycek começa a rir.

KRYCEK: - (AO CELULAR) Fala sério, garota! Nenhum advogado vai livrar a sua cara, você anda muito rebelde e chorona... É, mas tá mais que de costume... Não, eu não aceito suborno... Não, nem com bolinho de chuva... (INCRÉDULO) Você tá fazendo bolinho de chuva às três da manhã? Esqueceu que temos médico de manhã e ultrassom? ... Ô Malyshka, essa criança vai ficar coruja feito a gente! ... Não, eu não vou ir até aí buscar bolinhos, você vai tratar de ir dormir, eu disse que nada de vida noturna pra você até o bebê nascer.

Bishop larga a caneca e esfrega as mãos.

BISHOP: - Oba, uma ocorrência urgente! Prender bolinhos no estômago!

KRYCEK: - (AO CELULAR/ RINDO) Tá, eu vou... Sim, eu levo o Bishop pra tomar café e comer bolinhos às três da manhã, mas ele não gosta de interrogatório, pelo menos não de ser o interrogado. Tô indo... Também te amo.

Krycek desliga e se levanta.

KRYCEK: - E aí? A fim de bolinhos de chuva quentinhos?

BISHOP: - Ah, meu irmão, falou a minha língua agora! Vamos nessa!

KRYCEK: - Aviso: Ela é jornalista, curiosa e quer saber a história de todo mundo que conhece.

BISHOP: - Tá ótimo! Nunca fui entrevistado mesmo! Deve ser os meus 15 minutos de fama que o Andy Warhol falava.

KRYCEK: - Você não tem cara de quem curteAndy Warhol. Não um mauricinho como você.

BISHOP: - Ah, você não me conhece parceiro. Vamos antes que os bolinhos esfriem!


Residência dos Mulder - 3:28 P.M.

Mulder na escada pendura o móbile no quarto do bebê.

MULDER: - (RESMUNGANDO) E não cai de novo, porque se cair na cabeça do meu filho...

Scully grávida entra, segurando uma agenda pequena. Cruza os braços, séria, encarando Mulder. Ele desce da escada.

MULDER: - Pronto, agora não cai mais... O que foi? Que cara é essa?

Scully balança a agenda.

MULDER: - (PÂNICO) Não é minha! Eu posso explicar!

SCULLY: - Tente.

MULDER: - Essa agenda era do Rato. Quando ele resolveu ficar com a Barbara, me pediu pra me livrar disso.

SCULLY: - E você se livrou disso guardando numa caixa de sapatos vazia.

MULDER: - Eu ia queimar, mas você ia achar suspeito!

SCULLY: - Ou ele pediu pra você guardar, caso vocês queiram uma diversão? Hum? Tem mais de cem nomes femininos aqui. Tem números que nem faço ideia de que país sejam!

MULDER: - E eu tenho culpa se ele era pegador? Ele aprontou e eu levo a fama!

SCULLY: - Entrego pra Barbara?

MULDER: - Scully, por favor! Não vai estragar o relacionamento deles com coisas do passado!

SCULLY: - E quem me garante que são do passado?

MULDER: - Eu garanto, ok? Não confia em mim? Queima essa porcaria.

SCULLY: - Por que Krycek mesmo não queimou?

MULDER: - Porque ele tava no esconderijo dele, a gente tava conversando, ele pegou essa agenda e a Barbara tava na cozinha. Na época, eles estavam namorando há pouco tempo. Ele me pediu: queima essa agenda pra mim antes que ela descubra isso no meu guarda-roupa e pense que eu ainda ligo pra essas garotas.

SCULLY: - E não ligava?

MULDER: - Claro que não!

SCULLY: - Mulder, eu vou queimar essa porcaria, mas se eu desconfiar que Krycek está aprontando com a Barbara, eu juro que conto pra ela! Porque eu não gostaria de ser enganada! Ainda mais num momento delicado e importante da vida de uma mulher, pois ela está esperando um bebê. Eu sou capaz de bater nele! E depois em você por estar ajudando!

MULDER: - Quê? Barbara é minha amiga, também! Eu nunca faria isso! Scully é sério. Krycek não tem mais nada com essas garotas. Não faz confusão, queima essa porcaria. Se eu bater o meu carro agora, vou ter que esperar meses pelo seguro!

SCULLY: - E o que isso tem a ver com seguro de carro?

MULDER: - Esquece.

Scully sai levando a agenda. Mulder suspira.


Residência de Barbara Wallace - 4:36 P.M.

Barbara sentada no sofá do estar íntimo, tricotando um casaquinho. Camisa amarrada e aberta abaixo dos peitos, mostrando a barriga pequena e bem redonda. Krycek entra esbaforido, cheio de pacotes, fechando a porta com o pé.

KRYCEK: - Acho que é o fim do mundo. Nunca vi tanta gente no mercado!

BARBARA: - Compravam papel higiênico?

KRYCEK: - Não reparei se estava em promoção.

BARBARA: - (RINDO) Ratoncito, se fosse o fim do mundo, a primeira coisa que as pessoas compram é papel higiênico.

Krycek coloca os pacotes sobre a bancada.

KRYCEK: - Por quê? Eu compraria água e enlatados.

BARBARA: - Dizem que é um instrumento para evitar coisas nojentas, um símbolo de segurança. Compras compulsivas impulsionadas pelo medo. Eu já compraria chocolate! Alimenta, acalma e me deixa bem segura!

Krycek se aproxima e troca um beijo com ela. Tira uma caneta azul do bolso e abre. Agacha-se na frente dela. Barbara começa a rir.

KRYCEK: - Vamos, pega o celular e filma. Custei a achar uma com tinta atóxica.

Barbara pega o celular e filma os dois. Krycek abre mais a camisa dela. Desenha um coração na barriga de Barbara.

BARBARA: - Hoje você faz quatro meses na barriga da mamãe. E hoje descobrimos que você é um menino. Papai não tira o sorriso bobo do rosto.

KRYCEK: - (SORRI) Não é só o papai não. Sua mãe deu um grito que quase matou a médica de susto, ela chegou a espirrar gel até em mim!

BARBARA: - (SORRI) Você tava escondendo o jogo de novo, viradinho, bem quietinho. Aí eu disse: não adianta, ele tá com vergonha da mamãe e do papai, deve ser uma menina. Então você se virou e mostrou o pintinho pra dizer: aqui pra vocês, menina nada, eu sou macho!

Os dois riem. Krycek escreve dentro do coração: Dimitri. Beija a barriga de Barbara. Ela ergue o tricô.

BARBARA: - Mamãe tá fazendo um casaquinho pra você, Dimi.

Barbara atira um beijo pro celular. Os dois acenam. Barbara desliga. Krycek se levanta.

KRYCEK: - Vai mesmo dar meu segundo nome pro garoto?

BARBARA: - Daria seu nome inteiro, mas você não quer. Quem sabe Alexey Dimitri?

KRYCEK: - Chega de Alex nessa casa. Você almoçou?

BARBARA: - Peguei o restinho de arroz, coloquei cenouras e ervilhas cozidas, parmesão e fiz arroz ao forno. Comi com uma saladinha russa.

KRYCEK: - Isso é almoço pra grávida? Que tal um bife com batatas?

BARBARA: - Aquelas que você faz cozidas e tostadas no bacon? Sim! Mas só se jantar comigo.

KRYCEK: - A sugestão do chef não era bem essas com bacon, mas... É proteína, você precisa.

Krycek vai pra cozinha, começa a guardar as compras.

BARBARA: - Ei, já viu o relógio? Não se anime não, você tem que trabalhar.

KRYCEK: - Posso chegar atrasado. Eles me devem horas!

BARBARA: - E Mikhail Dimitri? Hum? Homenagem ao avô e ao pai.

KRYCEK: - Seu pai vai ficar enciumado.

BARBARA: - Vai nada, porque Antônio Dimitri não combina!

KRYCEK: - Por que não batiza logo o garoto de Che Guevara?

BARBARA: - Sem graça, Alex!

KRYCEK: - Quero ver aonde vai esconder o Ramirez no meio disso.

BARBARA: - Eu não vou dar meu sobrenome pra ele! Eu sei de onde ele saiu e não vou estragar o nome do meu Ratinho russo com sobrenome espanhol não!

KRYCEK: - Vou morrer de rir se ele nascer bronzeado com cara de latino e nome russo.

BARBARA: - Não roga praga pro seu filho!

KRYCEK: - (RINDO) Malyshka, você odeia Cuba mesmo! Qual o seu complexo com latinos? Você é uma! Acho os latinos um povo tão bonito e festivo...

BARBARA: - Sou uma latina e sei que nesse país basta você cheirar a latino que o preconceito começa e não quero isso pro meu filhinho. E o máximo de Cuba que americanos aturam são os charutos. Se eu não colocasse um sobrenome americano, nunca conseguiria sucesso na televisão. Imagina que teria fãs se dissesse que sou cubana? Ouviria um "Fora Fidel"!!! Prefiro que pensem que tenho algum sangue chicano. Eles odeiam cubanos! Nunca se recuperaram da Baía dos Porcos e da cara de idiota do Kennedy na TV, se vingando do monte de soldados americanos mortos anunciando o bloqueio econômico. Achavam que invadir Cuba ia ser fácil, era só uma ilha. Se ferraram feio! Che Guevara e Fidel nunca iam deixar eles passarem. No pasarás!

Krycek abre a geladeira e pega os ingredientes.

KRYCEK: - Ah! E até parece que americanos amam russos!

BARBARA: - Eles têm medo dos russos, mas se for um latino já olham desconfiados. E vocês adotaram Cuba, nos sustentaram e nos armaram. E depois o Gorbachev pediu divórcio quando derrubaram o regime, deixando meu país numa merda enorme! Americanos nem sabem a diferença entre um mexicano, um cubano ou venezuelano. Tudo é mexicano pra eles, é ladrão, traficante, comedor de guacamole, nenhum vale nada e se pudessem construiriam um muro ao redor do país pra se isolarem dos latinos como se a gente fosse uma doença contagiosa! Eles dizem: somos a América. E esquecem que a América tem muito mais além deles! Tem o pobre do Canadá relegado a piadinhas e quase que a totalidade da América fala espanhol. E eles se acham a América inteira!

Krycek fecha a geladeira e sorri.

KRYCEK: - Nossa, estamos revoltadas hoje. Deve ser fome.

BARBARA: - Será que sai um suquinho de abacaxi?

KRYCEK: - No capricho.

BARBARA: - Tá feliz né? Eu disse que um filho ia ser uma motivação na sua vida.

KRYCEK: - A ficha só caiu quando vi o primeiro ultrassom. Como pode uma coisinha desse tamanho respirar e se mexer aí dentro? Eu fico pasmo!

BARBARA: - Viu? Então trate de falar com ele, cantar pra ele e fazer agrados porque ele escuta tudinho. É aqui dentro que começa a vida e o lado emocional de um ser humano.

KRYCEK: - Eu já disse, não queria, não tava preparado, mas agora que veio não vejo a hora de sermos três! (PENSATIVO) Três... Isso ainda é estranho... (SORRI) Mas é legal. Olha, se a gente conseguir dar conta, Malyshka... Podemos ser quatro ou cinco? Eu fui filho único, não é legal não ter um irmão. Um irmão evita você de fazer burradas na vida, tem companhia pra brincar, pra curtir festas na adolescência e reuniões de família quando adultos.

BARBARA: - (RINDO) Uau! Agora quer uma ninhada de ratinhos nessa casa? Eu topo! Mas vai ter que ser um atrás do outro, uma escadinha, porque daqui à pouco meu útero se aposenta.

KRYCEK: - Sem problemas. Criamos tudo numa vez só. Eu embalo um e você faz a mamadeira do outro.

Barbara sorri. Ergue o casaquinho, olhando.

BARBARA: - Esqueci como faz o ponto arroz. Ia ficar lindo fazer três carreiras aqui. Vou ter que procurar na internet.

Krycek olha pra cesta de frutas e coloca as mãos na cintura, indignado.

KRYCEK: - Você não tá comendo as frutas. Tomou as vitaminas?

BARBARA: - Ai Ratoncito! É muita fruta pra uma mulher comer e sim, tomei as vitaminas! Eu não sou criança!

KRYCEK: - Não é criança, mas é avoada e sempre esquece as coisas. O Dimi é prova disso!

Barbara ri. Krycek pega o abacaxi.

KRYCEK: - Eu quero o melhor pro meu filho. Ele não vai passar pelas merdas que eu passei. Ele vai ser o que quiser ser. E sempre o apoiarei nas coisas certas que fizer. Nas erradas, eu vou puxar a orelha.

BARBARA: - Vai nada, já tá aí babando feito um bobão. Você vai é mimar o Dimi, isso sim!

KRYCEK: - Acho que eu vou ter que puxar as rédeas, porque a babona que vai mimá-lo é a mãe dele, que fica aí o dia todo com a barriga de fora pra mostrar a gravidez. Não sente frio não?

BARBARA: - Eu quero mais é olhar o dia todo pra essa barriga, né, bebê da mamãe?

KRYCEK: - Tá vendo? Da mamãe. O pai não é nada. Só coadjuvante. Só serve pra trazer comida pra casa e pagar as contas.

BARBARA: - Ai, quanto drama, Ratoncito! Vai, faz esse jantar que só de pensar na sua comida abriu meu apetite e o do seu filho também. Andale, andale!!!

Batidas na porta dos fundos. Krycek vai atender. Mulder parado ali.

MULDER: - Ô vizinho, empresta uma xícara de açúcar?

KRYCEK: - Claro. Entra. Não quer um pacote fechado?

MULDER: - É piada, Rato.

Mulder entra, fechando a porta. Krycek volta pra cozinha e continua descascando o abacaxi.

MULDER: - Pensei que só eu tinha abacaxi pra descascar nessa vida!

Barbara ri. Mulder senta ao lado dela. Cruza as pernas, coloca o braço em Barbara, a puxando pra perto dele. Num ar debochado, olha pra ela.

MULDER: - Como você tá? Hum? O Rato está tratando você bem? Já que sou culpado dessa gravidez, eu quero saber como tá o meu filho.

Krycek o ignora, ligando o liquidificador. Barbara ri. Mulder olha debochado pra Krycek, que devolve um sorriso debochado, sinalizando que não escuta nada.

MULDER: - Pelo coração na sua barriga e essa caligrafia que reconheço, acho que temos um pai bobalhão por aqui.

BARBARA: - (SORRI) Aquele que não queria ter filhos porque é um mundo cruel?

MULDER: - (SORRI) Aquele mesmo.

BARBARA: - As coisas mudam. Tá mais feliz que pinto no lixo. Os colegas na delegacia pegaram na cabeça dele. Colocaram um enorme rato de pelúcia com fraldas e uma chupeta em cima da mesa dele.

Mulder ri. Krycek desliga o liquidificador. Barbara pega a mão de Mulder e coloca sobre a barriga.

BARBARA: - Tá sentindo? É bem sutil, mas dá pra sentir. Seu afilhado tá feliz com a sua visita.

MULDER: -(RINDO) Olha só! Ô Rato, seu filho tá feliz em me ver!

KRYCEK: - Tá nada. É que ele não viu sua cara ainda. Quando vir vai chorar! E tira a mão da minha mulher que eu não fico agarrando a sua.

MULDER: - Não foi isso o que eu vi outro dia lá em casa, você tava com a mão na barriga da Scully. Se colocar a mão em outros lugares, eu atiro em você, entendeu?

BARBARA: -Ai, crianças, já vão começar? Barriga de mulher grávida é pra colocar a mão mesmo. Mulder, fiz ultrassom hoje e deu pra saber o sexo. Vai ser um menino. Bem que Scully falou!

MULDER: - Sério? Mas que Rato invejoso! Só porque vou ter um garoto, ele fez um também. Mas ainda estou ganhando. Tenho dois filhos, você só tem um.

KRYCEK: - Vai ser fácil empatar. Me aguarda.

BARBARA: - Ei, ei, ei! Não vão começar a apostar filhos porque Scully e eu não seremos chocadeiras de vocês não! Arrumem outra coisa pra apostar suas cervejas... Mulder, ele vai se chamar Dimitri.

MULDER: - Vai dar o nome dele pra essa pobre criança?

BARBARA: - Ah, fala sério, Mulder. Dimitri é lindo!

MULDER: - Eu quero saber o que está faltando pra vocês. Ordens da Scully. Afinal somos os padrinhos...

BARBARA: - A gente já comprou um monte de coisa, tem gente aí que se empolgou. A única coisa que eu não achei ainda é aquela coisinha de colocar o bebê... Aquilo tipo uma cadeirinha, que você leva o bebê pra todo lado dentro de casa e faz o serviço enquanto ele dorme.

MULDER: - Sei. Deixa que os padrinhos vão dar isso pro Dimi.

Krycek vem com dois copos de suco, entregando pra eles. Volta pra cozinha. Começa a preparar as batatas.

MULDER: - Empregada dedicada a sua. Quando eu tava sozinho com Victoria, ele ia lá em casa, lavava a roupa, a louça, passava aspirador e me ensinava truques de como tirar mancha das roupas...

KRYCEK: - Eu tô ouvindo! Já desliguei o liquidificador!

BARBARA: - (RINDO) Ele é um ótimo marido. Obrigada pelo presentão, Mulder.

MULDER: -(DEBOCHADO) Barbara, existe presente de grego, eu te dei presente de russo e o dia em que se arrepender, eu não aceito devolução, pode jogar no lixo... Fico feliz que tenham casado na Rússia, numa linda capela ortodoxa, mas um pouco triste porque não tiveram padrinhos.

BARBARA: - Não se preocupe, entre na fila da chateação. Meus pais estão fulos comigo porque estavam preparando um casamento surpresa em Cuba.

MULDER: - Ótimo! Não conheço Cuba. Vai ser bom tirar umas férias.

BARBARA: - Lógico que eu primeiro falei que casei pra uma semana depois dizer que estava grávida. Sei que as contas não vão bater, mas não quero dizer que casei grávida porque vão dizer que ele se casou comigo só por causa disso. Eu tenho uma irmã com língua de cobra.

MULDER: - Entendo. Mas aceite o casamento em Cuba. Vai ser interessante testemunhar o Rato conhecendo os sogros, a cunhada linguaruda... Quero assistir de camarote!

KRYCEK: - Você adora me ferrar, fala sério! Eu tô apavorado!

MULDER: - Relaxa, Rato. O máximo que pode acontecer é o seu sogro ser um ex-guerrilheiro amigo dos Castro, pegar um antigo míssil terra-ar russo e fazer você sair nadando de Havana até os Estados Unidos por "fazer mal" à filhinha dele.

KRYCEK: - Mulder, você não tem nada pra fazer não? A não ser folgar comigo?

MULDER: - Até tenho, mas isso é bem mais divertido!

Mulder solta Barbara e vai pra cozinha.

MULDER: -Bom ver você cuidando da mãe do "nosso" filho.

KRYCEK: - E por falar nisso, como vai a ruiva, mãe do "nosso" filho?

Mulder senta-se na banqueta. Suspira. Krycek olha preocupado.

KRYCEK: - Mulder... O que houve?

MULDER: - Ela insiste no parto em casa. Tudo bem nas condições em que estavam, mas a coisa mudou. O médico foi enfático, ela precisa repousar porque as coisas estão complicadas pela idade dela. Se ela segurar o bebê até o fim, será sorte, como disse o médico. Mas ela está segurando, resta uma semana pra ele nascer.

BARBARA: - Tadinha da Scully! Eu não sabia disso! Mulder, há quanto tempo vocês estão passando por isso sem nos contarem?

MULDER: -Três meses... Não contamos porque vocês estão esperando o primeiro filho, estão num momento de empolgação e vai que ficassem impressionados... Nem digam que eu falei.

KRYCEK: - Lamento por isso, Mulder. Podia ter contado.

MULDER: - Estou nervoso porque vou ter que fazer esse parto que o médico já aconselhou que deve ser feito num hospital. Mas ela tem medo, eu entendo, eu também tenho medo de levarem nosso filho... E tô preocupado se alguma coisa der errada.

BARBARA: - Mulder, eu ajudo você. E Alex faz a segurança.

KRYCEK: - E o que você entende de partos?

BARBARA: - Não entendo nada, estou apavorada só de pensar no meu, mas eu vou ajudar no que preciso for, nem que seja cuidar da Victoria.

MULDER: - Valeu o apoio de vocês. É bom saber com quem contar.

Mulder se levanta.

BARBARA: - Fica pra jantar, Mulder. Você tá nervoso. Precisa conversar.

MULDER: - Scully e Victoria estão me esperando. Fica pra próxima.

Mulder sai cabisbaixo, fechando a porta. Krycek olha pra Barbara.

KRYCEK: - Eles não merecem isso. Não merecem mesmo!

BARBARA: - Entendeu quando eu dizia que nós temos prazo de validade? Vou fazer uma visita pra Scully e ver se ela desabafa alguma coisa, porque deve estar em pânico e não quer contar nada pra ele pra não deixá-lo pior.


Residência dos Mulder - 7:11 P.M.

Na sala, Barbara abre os braços e abraça Scully que chora.

BARBARA: - Ô amiga... Vai dar certo, vai dar tudo certo. Deus prometeu um milagre e vai cumprir. Ele sempre cumpre.

SCULLY: - (EM LÁGRIMAS) Eu tô com medo, Barbara. Não por mim, mas pelo bebê. Só mais um filho, é tudo o que eu queria.

BARBARA: - Você vai ser mãe de novo, ok? Não fica nervosa, por favor. Eu vou rezar bastante pra Virgem Maria dar um parto tranquilo pra você e pro Bryan nascer com muita saúde. Vamos rezar juntas se quiser.

SCULLY: - Tava tudo tão bem...

Scully senta-se.

BARBARA: - Olha, faz o que o médico mandou, você é médica, sabe bem disso. Descansa, não se envolve com nada, chama uma diarista, bota Mulder no serviço e se precisar de qualquer coisa, até pra cuidar da Victoria, conta comigo.

SCULLY: - Obrigada, Barbara. Você é como uma irmã com quem posso contar e tenho por perto. E você? Como está?

BARBARA: - Já vomitei até as tripas, agora ando com uma azia danada...

SCULLY: - (SORRI) Vai ser cabeludo!

BARBARA: - Como assim?

SCULLY: - As pessoas mais velhas, como a minha mãe, sempre diziam que quando se tem azia na gravidez é porque o neném vai ser cabeludo.

BARBARA: - Ish! Vou ter que estocar xampu! Se puxar a mãe dele, é cabelo que não termina mais!

SCULLY: - Nunca tive azia e Victoria nasceu quase sem cabelo. E acho que vou ter outro sem muito topete de novo.

BARBARA: - Eu só espero que o Dimi tenha os olhos e o nariz perfeito do pai.

SCULLY: - Eu vivia dizendo isso da Victoria. Queria tanto uma filha parecida com o Mulder, uma morena de olhos verdes.

BARBARA: - Bom sei que Victoria tem sete anos a mais que o Dimi, mas... Nunca se sabe. Vai que ela resolva ser minha nora?

SCULLY: - Imagina a reação do Mulder e do Krycek?

As duas riem.

BARBARA: - E nós duas ainda vamos contribuir com dois homens a mais nesse mundo.

SCULLY: - Tão em escassez mesmo, temos que fazer nossa parte!

Elas riem mais ainda.

SCULLY: - E ele? Já caiu a ficha?

BARBARA: - Já e parece um carcereiro na volta! Tranca as portas, liga os alarmes, se alimente, tome as vitaminas, descanse, não faz força... Assumiu a casa toda, até o mercado. Se quiser empresto pra fazer faxina, porque ele deixa tudo cheiroso e brilhoso.

Elas riem.

BARBARA: - Hoje é sexta. Empresta a Victoria pra fazer companhia pra mim? Juro que a gente dorme cedo! Umas pipocas e um filme infantil.

SCULLY: - Victoria já estava perguntando desde cedo se ia dormir na tia Barbara hoje. Arrumou até a mochila! Mas e o Alex quando chega?

BARBARA: - Ele dorme no quarto de visitas. Não tem estresse, Scully. Alex fica mais tranquilo quando Victoria passa a noite comigo. E eu me sinto menos sozinha. Como é ruim marido que trabalha a madrugada toda. Ele até queria trocar de turno, mas eu não deixei. São só alguns meses, depois que o bebê nascer a gente vê como vai ficar a nossa rotina.

SCULLY: - Nunca mais será a mesma, acredite... Então, me conta mais sobre as coisas que viu na Russia. Me distrai. A gente conversou tanto, vi as fotos e os vídeos, mas é tanta coisa que a gente tem pra fazer no dia a dia, que os assuntos sempre ficam pela metade.

BARBARA: - Adorei a Sibéria! Conheci a Katia, uma criadora de Husky Siberiano! Conhece essa raça de cães?

SCULLY: - Ai, são lindos! Eles tem olhos azuis.

BARBARA: - Sim, e precisa sentir o pelo fofo e macio! Nas províncias mais isoladas, onde o progresso não chega, eles usam cães em trenós. Como no Alasca. Katia me contou que a raça surgiu há mais de dois mil anos na Sibéria, que eles aguentam frio extremo e tem muita força. Ela disse que no passado, a cidade de Nome, no Alasca, foi assolada pela difteria, e foram cães, principalmente os Huskies, que não era conhecidos aqui e reconhecidos como raça, que salvaram as pessoas, levando soro e medicamentos, enfrentando fácil a neve e o frio rigoroso. Depois disso passaram a reconhecer a raça internacionalmente. Eu fiquei apaixonada, tinha tanto filhotinho lindo, fazendo festa pra mim, me olhando com aqueles olhinhos azuis, pedindo me leva com você! (BEIÇO) Queria tanto trazer um, mas o Ratoncito não deixou! O único problema do Husky é que são teimosos. Como todo o russo, pelo jeito!


1:54 A.M.

[Som: Erik Satie - Gnossienne 3 (por Bojan Gorišek)]

No quarto, Victoria deitada na cama, com uma lanterna, lendo um livro. Olha para a janela do quarto. Olha para as bonecas.

VICTORIA: - Ainda bem que vocês não podem me dedurar.

Victoria desliga a lanterna. Coloca junto com o livro, debaixo do travesseiro. Vai até a janela do quarto. Sobe numa cadeirinha e abre a janela. Leva a perna pra cima. Com dificuldades senta-se no parapeito da janela. Abre os braços, sorrindo, de olhos fechados. Depois olha pra baixo. Olha pra cima, para o céu estrelado. Analisa a escadinha da trepadeira que vai até o telhado.

VICTORIA: - Minhas pernas ainda são curtas. Mas eu tô doida pra subir lá em cima!

Victoria escorrega. Assustada, se agarra na beirada da janela, tenta subir, mas não consegue. Um vento passa por ela. Victoria solta as mãos. Flutua, como se algo a segurasse no ar. Ela começa a rir. O algo invisível a leva flutuando até a cama. Ela ri mais ainda.

VICTORIA: - (RINDO)Tá bom! Eu não faço mais isso!

Victoria se deita. O edredom sozinho se ergue e a cobre. Victoria fecha os olhos.

VICTORIA: - Tá, eu vou dormir. Boa noite! Também amo você!

A janela se fecha. Percebemos a cadeira de balanço se embalar sozinha. Victoria fecha os olhos, num sorriso, se abraçando no urso de pelúcia.


Igreja São João - 2:02 A.M.

Mulder estaciona o carro na frente da igreja. Desce, desconfiado. Sobe a escadaria, cuidando para todos os lados. Empurra a grossa porta de madeira. A igreja iluminada e vazia. Velas acesas. O Canceroso sentado no último banco, fumando um cigarro. Mulder senta-se ao lado dele.

MULDER: - Dizem que quando envelhecemos nos tornamos mais religiosos. É o medo da morte.

CANCEROSO: - A morte é tão inevitável quanto à vida.

MULDER: - Pensei que havia parado de fumar.

CANCEROSO: - Cachorro velho não aprende truque novo.

MULDER: - Não me tirou de casa no meio da madrugada pra ensinar ditos populares.

CANCEROSO: - Este país sempre foi regido pela Maçonaria.

MULDER: - (DEBOCHADO) E Nicholas Cage estava espetacular em A Lenda do Tesouro Perdido.

CANCEROSO: - Cresça, Mulder. Sua mulher tem razão quando diz que você é a criança mais teimosa que ela conhece. Sabe que governos ocultos regem o mundo e sabe que todos esses homens, sem exceção, pertencem a ordens secretas envolvidas com filosofias religiosas. Maçonaria, Rosa-Cruzes, Opus Dei, Iluminatti, Confraria da Serpente, Grupo Bildenberg, Sociedade da Caveira e Ossos... Eu poderia citar todos, mas perderíamos tempo que não temos.

MULDER: - O que está tentando me dizer?

CANCEROSO: - Sabe que os judeus sempre se ocuparam da ciência da Cabala. Sabe que eles estão certos, o universo é matemático. O alfabeto tem sua correspondência numérica. Você tem data e horário de nascimento que lhe concedem características únicas e um destino particular. Tem seu nome de batismo. E tem o seu nome impronunciável, que é o seu nome genético, cunhado em 22 pares de cromossomos. O 23º apenas confere o sexo, o gênero não conta.

MULDER: - Por isso o nome de Deus é impronunciável porque não sabemos sua origem cromossômica, do que é feito, se é aquela coisa do Alfa ao Omega. É a história da serpente cósmica chamada DNA, da relação das 22 duas letras do alfabeto hebreu com os 22 pares de cromossomos humanos. O tal alfabeto cromossômico.

CANCEROSO: - Desde que abandonei a organização tenho me escondido e dado proteção a você.

MULDER: - Não preciso da sua proteção. Não quero nada de você. É minha impressão ou você agora virou o meu informante? A pedido de quem?

CANCEROSO: - No fim das contas sempre fui seu informante. Apenas mandava recados pelos outros.

MULDER: - Então me conta o que Coin está tramando colocando aquelas coisas no Sindicato. Sei que você e o Rato viram ele invocar espíritos que entraram nos corpos mortos, incluindo em Strughold.

CANCEROSO: - Eu os chamo de Doppelgänger.

MULDER: - Acho que a definição de doppelgänger, não se encaixaria. Nem tenho definição para isso. Não sei se são almas humanas ou demônios, mas em ambos os casos, desconheço algum relato de possessão pós-mortem.

CANCEROSO: -Eles morreram, Mulder. Krycek matou todos eles. Coin apenas deu um espetáculo de mágica. Não foram demônios ou espíritos que entraram neles. Os próprios demônios assumiram a forma física deles.

MULDER: - Espera! O Rato me disse que...

CANCEROSO: - Eu sei o que ele disse pra você. Eu vi a mesma coisa, demônios entrando em seus corpos e eles andando como se nada tivesse acontecido. Coin apenas usou mais uma vez seu efeito de sugestão. Acho que conhece bem sobre isso. A mente superior sugere e a inferior enxerga. Como ele faz com sua aparência, por isso muda de rosto e corpo quando precisa.

MULDER: - Modell. Patrick Modell. Lembro desse Arquivo X.

CANCEROSO: - Exatamente, como Modell fazia. Mas Modell era humano e limitado.

MULDER: - Como descobriu isso?

CANCEROSO: - Ao contrário de Krycek, que fugiu apavorado, eu voltei. E quando voltei, a equipe de limpeza estava levando os corpos.

Mulder põe as mãos no rosto.

CANCEROSO: - Ninguém sabe disso. Nem a família de Strughold. Ainda pensam que aquela cópia é ele. Todos pensam que é ele. Sumiram com os corpos.

MULDER: -Doppelgänger, agora o conceito cai como luva e começa a me revelar uma perspectiva que eu não tinha sobre o tema... E a cópia sabe que você sabe disso?

CANCEROSO: - Talvez saiba. Talvez não. Ninguém me viu voltando. Mas isso não importa. O que importa é que seu amigo russo é um imbecil, ele pensou que poderia eliminar todo um esquema mais antigo que o próprio avô dele, e a única coisa que conseguiu foi fazer os planos de Coin.

MULDER: - Não vou admitir que chame Krycek de imbecil! Ele foi usado por Coin. E se ele não tivesse tido a coragem, eu teria. Queremos viver sem medo de vocês!

CANCEROSO: - Saí do Sindicato, Mulder, mas acha que saí do esquema? Vocês são dois garotos idiotas e sonhadores. Uma vez dentro, nunca mais terá como escapar. O Sindicato ainda vive, com caras novas e com Doppelgängers. E ninguém tocará em sua família enquanto eu estiver vivo, eu sempre tenho olhos por tudo. E como tenho olhos, fiquei sabendo que Diana Fowley está grávida.

MULDER: - (SURPRESO) ... E o que Diana tem a ver com isso?

CANCEROSO: - O pai da criança é a cópia pirata não caribenha.

MULDER: - (INCRÉDULO) ... Não é possível... Então se Coin é Lúcifer, e ele vai ter um filho... (MEDO) Está me dizendo que o anticristo está chegando? Mas as profecias não mentem...

CANCEROSO: - As profecias não, mas a interpretação que os homens tiveram delas. Não será filho de uma prostituta com um padre. Isso poderia ser pecado e blasfêmia no século 16. Hoje não causa espanto. E quando o filho dessa inteligência alienígena, a que as pessoas chamam de Satanás nascer, estaremos definitivamente a um passo do Armagedom. Compare os poderes que sua filha tem com os que ele terá. Sua filha os usa para o bem, ele os usará para o mal... Agora que falei, não é mais problema meu. É seu.

MULDER: - (NERVOSO) Você não está pedindo para que eu mate um bebê! Está?

CANCEROSO: - Estou sugerindo que mate o anticristo. Você é quem sabe se deve ou não fazer.

MULDER: - Como pode ter tanta certeza disso?

CANCEROSO: - Ela está grávida dele. O que acha que vai nascer disso? Lembra-se das passagens bíblicas que falavam sobre os filhos de Deus e as filhas dos homens?

MULDER: - Geraram nefilins... Gigantes que dominavam a terra... Meu Deus! Ele está se preparando mesmo pra dominar o mundo.

O Canceroso retira um envelope do bolso interno do paletó.

CANCEROSO: - Aqui dentro há uma identidade falsa com um nome que sei ser importante pra você, o número e a chave de um cofre no Banco Interamericano. Dentro dele há itens essenciais para a sobrevivência da sua família no futuro. E lembre-se: Não use o que estiver lá como deve ser usado. Use apenas com fita adesiva.

MULDER: - Fita adesiva? O que você... Por que está me entregando isso?

CANCEROSO: - Porque goste ou não, sou seu pai. Não fui um exemplo, mas fiz o que pude para protegê-lo, mesmo que me condene por isso. Algum dia eu vou morrer. E quando isso acontecer, apanhe sua família, vá ao banco, pegue o que deixei e desapareça do país. Eles vão liquidar vocês e tomar Victoria à força. A melhor herança que posso deixar é o que está no cofre. Vai saber quando e como usar, se quiser continuar a existir.

MULDER: - ...

CANCEROSO: - Em alguns anos o mundo deixará de ser o que é, agitado pelas promessas de paz e igualdade. Será o maior embuste da história. Governos se aliarão mesmo que aparentemente se odeiem. E os inimigos dessa Nova Ordem Mundial serão encontrados e executados. O catálogo já começou a ser feito, o avanço da tecnologia digital vai catalogar todos vocês. Serão marcados e vigiados como gado, sob o pretexto de diminuir e controlar a violência global. Haverá um único governo, uma única moeda e um único caos.

MULDER: - ... (RESPIRA FUNDO)

CANCEROSO: - Antes que me pergunte, não há o que fazer para evitar. Você deve apenas resistir. Existem mais homens como você criando uma força de resistência unificada. Estão disfarçados e espalhados pelo mundo. Professores, filósofos, religiosos... Eles sabem o que está se armando e estão preparados para darem seu conhecimento, seu trabalho e suas vidas para atrapalhar os passos do governo mundial da Ordem dos Treze. Acho que o nome Serling lhe diz alguma coisa.

MULDER: - (INCRÉDULO) O Professor John Serling?

CANCEROSO: - Serling é o inimigo número dois da Ordem, caso ainda não saiba disso. O número um é a sua filha.

Mulder passa as mãos no rosto.

MULDER: - Mas o que Serling fez? Onde ele se encaixa nessa história?

CANCEROSO: -Amplie seus contatos sociais, Mulder. Precisa conversar com as pessoas. Eu sempre dei a você o meu conselho de pai, mesmo ainda quando você não sabia que era meu filho. Você nunca me deu ouvidos, feito um garotinho rebelde, cego pela sua fome de verdade. Porém vou reiterar o meu conselho novamente, acho que você já amadureceu com tantas cabeçadas. Se tiver juízo, agora vai me dar ouvidos: Não atraia mais atenções para você. Desista de continuar tentando provar a verdade. Você já a conhece. Feche aquela agência. Você tem futuro como escritor, eu não tinha. Torne-se apenas mais um maluco a falar da verdade, é mais saudável para um pai de família.

MULDER: - ...

CANCEROSO: - Acho que agora você entende os tipos de sacrifícios que um pai precisa fazer para proteger seus filhos. Esqueça de si mesmo. Você tem duas crianças e uma esposa que precisam de você vivo. Nisso somos diferentes, Mulder. Pra você será menos difícil do que foi para mim. Você tem uma mulher confiável que o apoia incondicionalmente e não o deixa fazer besteiras.

O Canceroso sai. Mulder abaixa a cabeça olhando para o envelope.



Residência dos Mulder – 1:07 P.M.

Mulder observa a rua pela janela da sala, perdido em lembranças.


FLASH BACK:

1991

Mulder mais jovem, terno, gravata e sobretudo, entra em seu apartamento, com sacos de compras, uma rosa e uma garrafa de vinho. Fecha a porta com o pé. Vai até a cozinha. Coloca as compras na mesa. Tira o sobretudo indo para o quarto.

Corte.


[Som: Why - Annie Lennox]

No quarto, Mulder cabelos molhados, vestido com jeans e camiseta, coloca a rosa sobre o travesseiro na cama. Pega velas na gaveta e as coloca pelo quarto. Sai do quarto. Volta com uma garrafa de vinho e duas taças e coloca sobre o criado mudo. Coloca as mãos na cintura, observando se tudo está em ordem. Olha para o relógio no pulso, frustrado. Fecha os olhos, se embalando com a música.

Ouvimos a porta do apartamento abrir e fechar. Mulder sorri. Se escora na porta do quarto, de braços cruzados. Diana Fowley, bem mais jovem, joga as chaves na mesa de centro e o casaco no sofá. Troca um beijo com ele.

DIANA: - Desculpe, Fox. Sabe como são as reuniões no Bureau.

MULDER: - Com fome? Vou pedir pizza pra nós.

Ela se atira deitada no sofá, levando a mão à cabeça.

DIANA: - Vai ser ótimo! Como foi o dia na Crimes Violentos?

MULDER: - (SORRI) Tão estressante quanto na Divisão Anti-Terrorismo.

DIANA: - E bem menos empolgante que aqueles arquivos no porão, concorda?

Mulder sorri. Senta-se no braço do sofá, tira os sapatos dela e massageia os pés de Diana.

DIANA: - Isso já é bom, e com Annie Lennox ao fundo, melhor ainda. Relaxamento total.

MULDER: - Consegui a fita do lançamento que a gente queria assistir: Perfume de Mulher.

DIANA: - Pizza, filme e você, não preciso de mais nada.

MULDER: - E tem surpresa pra depois.

Diana senta-se no sofá. Mulder senta-se ao lado dela.

DIANA: - Adoro suas surpresas criativas, Fox.

Os dois trocam um beijo.

MULDER: - Você conhece o diretor-assistente Walter Skinner?

DIANA: - Só de vista, nunca falei com ele. Por quê?

MULDER: - Também nunca falei com ele, mas acho o sujeito meio antipático, metido e nariz empinado.

DIANA: - Requisitos pra ser diretor-assistente, meu caro.

MULDER: - (DEBOCHADO) E deixa um rastro de perfume importado, daqueles que fazem as mulheres seguirem o cheiro.

Diana começa a rir.

MULDER: - O diretor me chamou pra falar sobre aqueles arquivos no porão que andamos bisbilhotando.

DIANA: - Sério? Podemos ou não continuar a investigar?

MULDER: -Diana, o que eu falei pra você? É muita coisa, levaríamos uma vida inteira nesse ritmo e acabaríamos exauridos com acúmulo de trabalho! Não tem como continuar trabalhando num departamento e nas horas de folga investigar casos do porão. O diretor concordou comigo que pra reabrir e investigar tudo aquilo, somado aos novos casos que aparecem, precisariam criar um departamento específico só pra isso, desde que eu estivesse disposto a assumir. Claro que eu já disse sim. Sugeri chamar o departamento de Divisão de Arquivos-X. Ele achou engraçado e condizente com a situação, disse que estavam decidindo e que, caso o departamento seja criado, estaríamos subordinados ao Walter Skinner. Eu pedi pra você trabalhar comigo.

DIANA: - ....

MULDER: - Ele disse que todas essas questões seriam avaliadas na reunião com a Casa Branca, que o Senado precisa ainda aprovar verbas... Eu falei de novo com o senador Matheson, ele vai me dar uma força lá dentro, por causa do meu pai. Mas sabe quando você tem a sensação de que as coisas vão dar certo? Eu senti isso quando saí da sala do diretor. Acho que eles já têm o amém, só estão enrolando na burocracia. Vai ser ótimo a gente trabalhar juntos. E ninguém vai nos incomodar naquele porão, hum?

Mulder cheira o pescoço de Diana.

DIANA: - Fox, eu não sei se quero ser transferida para o porão. Pensei que fosse apenas investigar esses arquivos como já estamos fazendo. Um trabalho paralelo.

MULDER: - Eu falei pra você que levaria o assunto ao diretor e iria sugerir a criação de um departamento...

DIANA: - Achei que estivesse brincando, você sempre faz piada de tudo, nunca sei quando fala sério ou quando está fazendo piadas! Jamais imaginei que o FBI levaria isso em consideração e tão a sério! Fox, eu tenho medo de uma coisa.

Mulder olha apaixonado e bobo pra ela.

MULDER: - Eu protejo você dos monstros malvados do porão, menos desse aqui. Hum?

DIANA: - É sério. Temo que a convivência diária vai fazer a gente enjoar um do outro.

MULDER: - Por que a gente se enjoaria, hum? Eu amo você. Você me ama.

DIANA: - Já tivemos altos e baixos desde que nos conhecemos e começamos a sair. Tem coisas em você que uma mulher não aguenta, e eu preciso de um homem ao meu lado e não um garoto bobo, que fica correndo atrás dos alienígenas, embora eu também goste da ideia de correr atrás deles. Temos muito em comum, por isso nos apaixonamos. Mas admita, conviver com você não é fácil.

MULDER: - (DEBOCHADO) Eu sei disso. Vou tentar ser mais fácil pra você.

DIANA: - Está percebendo? Estou tentando ter uma conversa séria com você e já começou as piadinhas. Fox, eu te amo, mas você suga tudo ao seu redor, feito um buraco negro. Sua carência afetiva exige alguém correndo atrás de você o tempo todo, você gruda feito chiclete e gosta de mandar. E eu não sou mulher de receber ordens e menos ainda de aguentar homem pegajoso. Algumas vezes você parece imaturo demais, um garotinho correndo atrás da sua irmã e me envolvendo nesse jogo que é apenas seu, não meu. Gostamos do paranormal, acreditamos nele, mas existem outras coisas lá fora, não apenas a verdade.

MULDER: - Tô trabalhando pra mudar isso em mim, Diana.

DIANA: - Estou disposta a ajudar você a procurar sua irmã e temos feito isso e faremos mais ainda. Mas não me sufoque na sua busca, na sua paranoia e na sua obsessão. Preciso de espaço. Eu nem deveria ter vindo pra cá hoje. Estou praticamente morando com você!

MULDER: - Quer casar comigo? Hum?

DIANA: - Não fala sério... Fox, é cedo demais, ok? Estamos num momento de ascensão em nossas carreiras!

MULDER: - Acho melhor dizer em descendência. Vamos para o porão e seremos chamados de loucos. Sua carreira vai acabar.

DIANA: - Isso é o que me preocupa. Entendeu porque eu preferia manter essas investigações em paralelo, longe de departamento específico pra elas? Eu sou alguém no FBI. Você é alguém lá. Ambos estamos em ascensão, provamos nossa competência. E agora você quer afundar sua carreira e me levar junto?

Diana se levanta.

DIANA: - Peça a pizza, depois vamos assistir o filme. Vou tomar um banho, enquanto isso pense no que eu falei.

MULDER: - (DESANIMADO) Entendi que vai me deixar sozinho nessa.

DIANA: - Não, eu apoiarei você, continuarei investigando, mas não quero acabar meus dias naquele porão. Nenhuma mulher em sã consciência afundaria sua carreira no FBI, depois de tanto lutar pra chegar ao sol, só pra seguir a busca pessoal do Fox Mulder, entendeu? Mas nem um novato faria isso, quanto mais uma agente como eu! Também tenho sonhos, Fox! Ralei pra chegar aonde estou, quero roupas bonitas, um belo carro e frequentar restaurantes chiques. Coisas que você não curte, como festas e reuniões sociais. Você é egoísta, só está pensando em você, na sua irmã, nos seus problemas! Eu não quero chegar ao ponto de fazer esse sacrifício, porque é insanidade deixar tudo o que conquistamos pra trás.

MULDER: - (IRRITADO) Eu deixo! Não ligo! Tudo tem um tempo, a vida tem fases, a Crime Violentos já foi pra mim!

DIANA: - (IRRITADA)Que bom, porque a Anti-terrorismo ainda me serve! Que droga! Passamos dias sem nos vermos, um viaja pra cá, outro pra lá, cada um envolvido em casos diferentes e quando estamos juntos, começam as brigas!

MULDER: - Não estou brigando! Estou dizendo que precisamos seguir adiante, sem medo das mudanças! Eu sempre disse pra você que meu objetivo em ser agente do FBI era pra encontrar a minha irmã! Nunca menti pra você, embora a recíproca não seja verdadeira!

DIANA: - Não começa! Eu traí você, mas isso não lhe dá o direito de ficar jogando a traição na minha cara a vida inteira! Quem nunca errou na vida?

MULDER: - As traições. Plural. Mas não vou começar, já estou terminando! E agora que achamos aquele monte de casos envolvendo extraterrestres e conspirações para acobertá-los, eu não vou desistir mesmo! É a única maneira que posso encontrar Samantha e descobrir a verdade sobre tudo isso!

DIANA: - Você. Só você importa. Só os seus assuntos. Entendeu o que eu disse ou ainda quer que eu explique? Não vai me levar pro buraco com você!

MULDER: - A única coisa que estou pedindo é pra ficar perto de você, porque eu gosto de estar perto de você, eu te amo Diana! Isso é tão medonho assim? Podemos trabalhar juntos e viver juntos? Pensei que você adoraria trabalhar nisso, porque gosta disso tanto quanto eu! Quem não sonha em trabalhar com aquilo que gosta?

DIANA: - Fox, uma coisa é trabalhar no que gosta. Outra é trabalhar no que vai acabar com toda a carreira que você almeja construir. Ajudo você nas investigações, nas horas de folga. Mas ir para o porão, ser esquecida e ser motivo de desmoralização dentro do Bureau, não mesmo!

Diana vai pro banheiro. Mulder leva as mãos ao rosto, angustiado.


TEMPO ATUAL:

Scully se aproxima por trás de Mulder.

SCULLY: - Por que está tão pensativo?

MULDER: - ... Nada. Lembranças.

Mulder vira-se e a abraça com força.

MULDER: - Eu já disse hoje o quanto amo você?

SCULLY: - (SORRI) E precisa dizer? Eu sei.

MULDER: - Preciso sim. Preciso dizer que te amo todos os dias, porque você merece ser mimada, adorada, beijada e abraçada por ser uma pessoa tão linda, especial, que doa sua paciência e doou sua vida pra aturar O Estranho.

SCULLY: - Hum... Será que faço isso porque eu também amo você, Mulder?

MULDER: - (SORRI/ OLHANDO NOS OLHOS DELA) Você sempre tem as respostas que eu preciso na vida. Amor. Amor verdadeiro. Esse faz a diferença.

SCULLY: - (RINDO) Se me chamar de meu amor, faço mousse.

MULDER: - (SORRI) Como pode caber tanta chantagem num corpinho pequeno desses? Meu amor é de maracujá, amor da minha vida seria chocolate?

SCULLY: - Os dois servem. Qual sabor você prefere?

MULDER: - Ok, meu amor, amor da minha vida. Tanto faz. O único sabor que me interessa mesmo é esse.

Mulder toma o rosto dela e a beija apaixonado. Scully arregala os olhos, na ponta dos pés, retribuindo o beijo. Mulder afasta os lábios, levando a mão sobre a barriga de Scully, fazendo carinhos.

MULDER: - Como está o nosso moleque?

SCULLY: - (SORRI) Está ótimo.

MULDER: - Estou com medo. Quem sabe optamos pelo hospital? Eu fico o tempo inteiro com você, ninguém vai toma-lo de nós.

SCULLY: - Como pode saber disso?

MULDER: - (SUSPIRA) Não posso.

Scully se afasta dele.

SCULLY: - Mulder, sabe o quanto confio em você. E tenho medo de perder nosso filho e você sabe bem o porquê. Prefiro que você faça o parto. Você já fez um e se saiu muito bem.

MULDER: - Eu sei, mas agora é diferente. Você não teve complicação com a gravidez de Victoria. Sabemos que o Bryan está abaixo do peso, que você está tendo uma gravidez complicada, que o médico disse que se você conseguisse segurar o bebê até o fim seria sorte...

SCULLY: - Há mais contras do que prós. E olhe pra mim, aqui está ele, quase pronto pra nascer... Você desistiu do nosso garotinho, Mulder?

MULDER: - (SORRI) Você sabe que não. Eu nunca desistiria do meu filho.

SCULLY: - Então? Eu quero um filho, Mulder. Nem que seja o último, mas eu quero mais um. Nada vai acontecer com o Bryan. Eu sei dos riscos, mas eu sei dos outros riscos que incluem ir a um hospital. Nada vai acontecer, porque este bebê é um milagre. E milagres não são tirados de nós. Você o colocou aqui dentro, você que o tire, oras!

Mulder sorri. Agacha-se e beija a barriga de Scully.

MULDER: - O meu jogador de basquete, filho da mulher que eu amo.

SCULLY: - O seu jogador de basquete está bem, papai. Tá doido pra jogar basquete com o pai dele.

MULDER: - E o pai dele já comprou até uma bola de basquete só pra ele.

Mulder se levanta. Victoria desce as escadas. Usando um lenço de pirata na cabeça, calças folgadas e uma camisa branca com colete.

VICTORIA: - Mamãe, eu já tô pronta!

SCULLY: - Você vai assim feito moleque?

VICTORIA: - Você não vai me encher de roupas bestas, vai? Eu detesto aqueles vestidos infantis, mamãe! Eu sou uma pirata! Sou rebelde! Até a Megan que é toda vaidosa vai assim!

MULDER: - Aonde vocês duas vão? Scully, qual a parte de repousar você não entendeu?

SCULLY: - Mulder, eu vou sair com a Angela, ela vai dirigindo, não vou fazer esforço algum. Vamos levar as crianças ao cinema. Estão doidos pra assistir Piratas do Caribe 3.

MULDER: - (PÂNICO) De novo?

SCULLY: - (RINDO) Sabe como são as crianças. E eu preciso me distrair.

MULDER: - Com tanto filme pra assistir, logo esse? Tem um monte de filmes de piratas lá em cima! Charlton Heston fez A Ilha da Garganta Cortada. É ótimo!

SCULLY: - (INCRÉDULA) Charlton Heston? Mulder, por favor! As crianças gostam de coisas modernas! Você parece um velho resmungão!

MULDER: - (RESMUNGANDO)Modernas e sem graça. Só efeito especial e barulheira! E eu não sou velho, nem resmungão!

Victoria senta-se no sofá e liga a TV.

TV (OFF): - Willy Wonka, Willy Wonka, ele é mestre no que faz...

MULDER: - (PÂNICO) Eu não acredito!

Mulder desliga a TV. Victoria fica louca.

VICTORIA: - Papai! Eu quero ver o Willy Wonka!

MULDER: - Aquele Michael Jackson hermafrodita?

SCULLY: - Mulder! Para com essa implicância com o Johnny Depp!

MULDER: - Não tenho nada contra o cara, mas ele me lembra alguém que me dá calafrios. Não quero esse ator aqui dentro de casa! Os filmes dele estão completamente proibidos por aqui. Entenderam?

VICTORIA: - Mas papai...

SCULLY: - Os filmes dele e os CDs do Bryan Adams... Agora, Vin Diesel, Stallone, Steven Seagal, Schwarzenegger e um bando de machos anabolizados dando tiros pra todos os lados pode, não é? Vocês homens são os machões, mas pagam pra ver um bando de machos suados e musculosos na tela!

MULDER: - Shrek pode. A Era do Gelo, Os Incríveis, Harry Potter... Johnny Depp não! Se quiser assistir A Fantástica Fábrica de Chocolates assista a versão antiga com o Gene Wilder. O DVD deve estar na minha estante.

SCULLY: - (IRRITADA) Quer saber? Eu me recuso a deixar minha filha assistir a primeira versão desse filme. Essa versão não é infantil. É adulta!

MULDER: - (INCRÉDULO) Ahn? De onde tirou isso? O que tem contra Gene Wilder? Ele é muito mais engraçado que esse babaca afeminado dizendo (IMITANDO) "Bom dia, Estrelinhas! A Terra diz olá!"

Victoria começa a rir. Observa a discussão, curiosa.

SCULLY: - (SUSPIRA) Eu sabia! Há tempos não discutíamos confrontando teorias.

MULDER: - Tempos modernos... O Willy Wonka do meu tempo era macho!

SCULLY: - Willy Wonka não é homem, nem mulher, Mulder. Ele é um personagem infantil, portanto, assexuado. E eu diria que isso é uma maneira de ensinar as crianças a não discriminar as pessoas por causa do sexo. É educativo.

MULDER: - Assexuado? Aquilo ali é uma bicha louca enrustida! Fazendo uma análise, aquele Willy Wonka tem sérios distúrbios sexuais por ter sido reprimido pelo pai, desconhecemos o que houve com a mãe... O cara é isolado do mundo, mora com um monte de anões besuntados no chocolate e...

SCULLY: - Mulder!!!!!! Olha a sua filha, controle sua imaginação fértil! Como pode ver maldade nisso? Ele é apenas excêntrico.

MULDER: - Michael Jackson também é excêntrico. E pelo menos o Gene Wilder não parecia ser tão obcecado com anões besuntados...

SCULLY: - Você é que está obcecado por anões besuntados, Mulder! Eu tenho trauma desse filme com o Gene Wilder. Não posso nem ver uma cena que eu fico mal. Eu odeio esse filme! E fim de papo!

MULDER: -(INCRÉDULO) Trauma de uma comédia infantil, Scully? Já vi trauma por causa de palhaços, mas por causa de uma comédia?

SCULLY: - Eu me apavorei, tá bom? Fiquei assustada. E-eu tinha medo do Willy Wonka, ele matava criancinhas...

MULDER: - Ele não matava as criancinhas!

SCULLY: - Pra mim ele matava! Não me lembro delas saindo da fábrica!

MULDER: - Claro que elas saíram!

SCULLY: - Pra mim elas nunca saíram, só o Charlie. Foi o que ficou na minha cabeça. Foi uma experiência traumática, eu passava as noites com medo de encontrar Willy Wonka dentro do meu guarda-roupa ou um daqueles Oompa Loompas debaixo da minha cama, prontos pra me matarem. Se papai me trazia chocolate, eu morria de medo de abrir e encontrar aquele bilhete dourado. E além do mais, aqueles anões eram sinistros, cantavam umas músicas sinistras...

MULDER: - (DEBOCHADO) Você tinha medo porque você era uma menina má, Scully.

SCULLY: - Eu prefiro o Johnny Depp. O Willy Wonka dele é inofensivo e engraçado. Vamos, minha filha. Seu pai não tem bom gosto pra filmes.

VICTORIA: - Você me compra um boneco do capitão Jack, do Will e da Elizabeth?

SCULLY: - Compro sim, meu amor. E quando formos para a Disney nas férias, vou levar seu pai para entrar num brinquedo de terror. Amarrado no barco.

VICTORIA: - E tem brinquedo de terror na Disney?

SCULLY: - Tem. Chama-se Piratas do Caribe.

MULDER: - (PÂNICO) Pois eu prefiro o Mickey Mouse! Eu tinha um chapéu com as orelhas dele. (CANTANDO/ DANÇANDO) Seja sócio desse clube como todos nós, ele é meu, ele é seu, é do Mickey Mouse!

SCULLY: - (RINDO) Mulder! O Clube do Mickey já acabou! Hello??? Os anos 70 já se foram!!!

MULDER: - (EMBURRADO) ... Vou com vocês. Vamos assistir a outro filme.

VICTORIA: - Mamãe, por favor! Faz alguma coisa, papai vai estragar tudo!

SCULLY: - Mulder... Você ficou sabendo daquela mulher que matou o marido com estricnina no café?

MULDER: - (PÂNICO) ...

SCULLY: - (DEBOCHADA) Homens mortos não contam histórias, Mulder. Ho-ho-ho pra você, marujo. Vamos filha. Tô doidinha pra colocar meus olhos naquele Will Turner gostosão... Aquele filezinho do Orlando Bloom... Até o nome dele é explosivo. Ele é quente.

Scully sobe as escadas. Victoria sobe atrás dela, rindo. Mulder atira-se no sofá. Liga a TV. Cruza os braços, faz um beiço.

MULDER: - (RESMUNGANDO) Imagina... Mickey Mouse é imortal! Pelo menos não corrompia as crianças...

TV (OFF): - Confira o nosso especial Tim Burton, hoje à noite com os filmes: Edward Mãos de Tesoura e A Noiva Cadáver...

Mulder desliga.

MULDER: - (IRRITADO) Isso é uma conspiração!


X Files Investigations - 4:19 P.M.

Baba na recepção, digitando alguma coisa no computador. A porta do escritório aberta. Mulder na mesa dele. Os dois discutindo.

BABA: - (GRITA) E tem certeza disso se você não estava lá, ó divino ser sabe tudo?

MULDER: - (GRITA) Não. Mas a única coisa boa que os franceses inventaram além de "liberdade, fraternidade e igualdade" foi a maionese e a Brigitte Bardot!

BABA: - (GRITA) Santa Maria dos Estressados! Dá um jeito nesse homem! Eu vou me demitir e aí quero ver você se arranjar sem mim, Fox Mulder! Nem vai adiantar vir de joelhos implorando pra que eu volte! Vou mandar você catar coquinho!

Frohike entra no escritório com duas pastas de papel, olhando apaixonado para Baba.

FROHIKE: - (GALANTEADOR) Que tipo de chefe mesquinho faz uma mulher especial como você trabalhar até essa hora em plena sexta-feira?

BABA: - O nome Fox Mulder lhe diz alguma coisa? Me diga que veio interná-lo. (SORRI PISCANDO OS OLHOS) Pleeeaaaaseee???

FROHIKE: - Quem sabe eu sequestro você pra tomarmos uma cerveja?

BABA: - É amor ou amizade? Não responda!

FROHIKE: - Cadê o chefão, o "big boss"?

BABA: - O "big bosta" tá lá dentro. Pode entrar, mas cuidado que hoje ele está mordendo. Parece que ofenderam o Mickey Mouse na frente dele.

Frohike bate. Mulder lê alguns papéis seriamente.

MULDER: - (TENSO) Entra.

FROHIKE: - Você está bem?

MULDER: - (ESTRESSADO) Que tipo de pergunta é essa?

FROHIKE: - (SUSPIRA) Byers conseguiu o que você pediu. Mas eu não sei o que está havendo com você ultimamente. Talvez seja o fato de ser pai pela segunda vez que está mexendo com a sua imaginação fértil. Quando quiser bisbilhotar a ficha de celebridades de Hollywood, poderia pelo menos escolher a Angelina Jolie, Charlize Theron... Mulder, você tem certeza de que está bem? Por que de repente me pede pra chafurdar os arquivos do governo sobre o Richard Gere e o Johnny Depp? Em que caso eles estão envolvidos? Um Arquivo X?

Mulder suspira. Larga os papéis. Põe as mãos no rosto.

MULDER: - Acho que estou ficando louco mesmo! Paranoia é pouco!

FROHIKE: - Fecha essa espelunca por hoje. Vamos sair pra beber. Você está precisando. Ou daqui a pouco vai querer revirar a ficha do Bruce Willis! E aposto que se ele descobrir, vai ser duro de matar!


Residência dos Mulder - 6:36 P.M.

Mulder angustiado observa o número de Diana Fowley escrito na agenda. Olha para o telefone. Olha para a agenda. Scully entra na sala com uma bandeja de biscoitos e leite. Mulder fecha a agenda rapidamente.

SCULLY: - Que tal uma boquinha? Hoje não vai ter jantar, vou pedir pizza.

MULDER: - Senta aqui. Scully, por favor, quer descansar? Parar um pouco?

Scully senta-se.

SCULLY: -Mulder, desde que se encontrou com o Fumacinha, você está estranho. Aconteceu alguma coisa?

MULDER: - Não. Claro que não.

SCULLY: - Se não me disser, eu vou descobrir, você sabe. Só porque estou grávida não quero que me poupe de nada, entendeu? O que está havendo? O que falaram que deixou você perturbado?

MULDER: - (SORRI) Nada demais... Eu só tô cansado. Só isso.

SCULLY: - (DESCONFIADA) ... Fox Mulder...

MULDER: - Peguei um caso em Los Angeles.

SCULLY: - Tão longe? Vão pagar tão bem por isso?

MULDER: - ... É, vão...

SCULLY: - Mulder... Você precisa ir realmente?

MULDER: - Vai ser coisa rápida, volto antes do nosso filho nascer... Não quer mesmo ir para o hospital?

SCULLY: - Já conversamos sobre isso.

Scully sai da sala. Mulder reclina-se no sofá e fecha os olhos.

MULDER: - (PERTURBADO) Como é que eu posso matar um bebê? Por que eu? Por que tudo é sempre eu? Por quê?

Scully entra na sala.

SCULLY: - Falou alguma coisa?

MULDER: - (SORRI) Não.

SCULLY: - Quem sabe vamos dormir mais cedo hoje, hum? Eu acordo pela manhã, faço um bom café pra nós dois... Que tal?

MULDER:- (SORRI) Gostei da ideia.


Quarto de Victoria – 9:45 P.M.

O abajur aceso. Scully cobre Victoria que dorme abraçada no boneco do Capitão Jack. Scully tira o boneco. Victoria acorda.

VICTORIA: - Deixa ele, mamãe. É o capitão.

SCULLY: - Tá bom, Docinho... Sonhe com os sete mares e seus tesouros. Neta e sobrinha de marinheiro, só podia gostar de filmes com navios...

Scully beija a filha e sai do quarto. Entra no quarto do bebê. Sorri. Passa a mão no berço, ajeita os ursinhos. Abre as gavetas checando as roupinhas. Afaga a barriga com carinho.

SCULLY: - É... Falta uma semana... Só mais uma semana e teremos cheirinho de bebê nessa casa novamente.


10:21 P.M.

Scully entra em seu quarto. Vai para o banheiro. Abre o armário. Inclina-se, segurando a barriga, numa fisionomia de dor. Então olha pra água que escorre pelas pernas fazendo uma poça no chão. Scully segura-se no marco da porta.

SCULLY: - (DESESPERADA/ GRITA) Mulder!!!!!!!

Mulder entra correndo no quarto, indo pro banheiro.

SCULLY: -A bolsa rompeu. Acho que ele está com pressa!

Mulder leva as mãos à cabeça.Victoria vem assustada.

VICTORIA: - Mamãe, o que aconteceu? (OLHA PRO CHÃO) Mamãe, você fez xixi no chão?

Scully segura o riso, em meio a dor.

SCULLY: - Não, Docinho... Ai! Depois explico.

MULDER: - O que eu faço? Tá já sei. Consegue andar?

SCULLY: - Sim.

MULDER: - Vem, eu te ajudo. Beicinho de peixe, beicinho de peixe.

Scully respira cerrando os olhos com dor. Mulder ajuda Scully a ir até a cama. Victoria olhando sem entender nada.

MULDER: - Pinguinho, tira a colcha da cama. Scully fica em pé um pouquinho.

Victoria puxa a colcha da cama. Mulder estende um acolchoado. Ajuda Scully a se deitar. Ajeita os travesseiros atrás dela. Scully com as mãos na barriga, se revirando de dor. Victoria apavorada. Mulder entra no closet. Volta com a maleta médica de Scully e a arma. Victoria fica mais assustada.

MULDER: - Tá tudo esterilizado?

SCULLY: - Sim... Ai... Ai... Dói demais!!!

Mulder solta a maleta na cama, coloca a arma no criado mudo e vai pro banheiro.

SCULLY: - Victoria, vai pro seu quarto.

VICTORIA: - Mamãe, você tá bem?

SCULLY: - É seu maninho que vai nascer.

Scully dá um grito, cerrando os olhos, agarrando-se nas grades da cama. Mulder sai correndo do banheiro com as mãos molhadas.

MULDER: - Victoria, você não precisa ver isso, ok? Fica atenta pro papai, se alguma coisa tentar pegar seu irmão. Lembra o que falamos sobre emergência? Pois aconteceu.

VICTORIA: - Tá, eu fico de guarda. Não tô pressentindo nada. Quer que chame o tio Tchek?

MULDER: - Não vai dar tempo e ele nem tá em casa. Seu irmão furou o combinado entre nós.

Victoria sai do quarto, mas fica espiando, assustada. Scully toma posição de parto.

MULDER: - (SORRI) Scully, ele tá com pressa mesmo. Respira e força.

Scully faz força, agarrando as grades da cama e soltando um grito incontido.


11:07 P.M.

Mulder perto da janela do quarto, ao telefone, com mãos e camiseta ensanguentadas. Sangue e lágrimas pelo rosto. Desespero visível.

MULDER: - (AOS GRITOS) Eu preciso de uma ambulância agora!!!!!!

Scully grita. Mulder vira-se pra ela e entra mais em desespero.

SCULLY: - (CHORANDO/ AOS GRITOS) Ele não respira!!!!!!!!

Mulder joga o telefone no chão. Corre até a cama. Scully deitada, lençóis sujos de sangue, tenta fazer boca-a-boca e massagem cardíaca no pequeno bebê que acaba de nascer. Victoria apavorada e perdida, segura um pano sujo de sangue. Fica olhando para o sangue no pano. O recém-nascido está completamente roxo e imóvel. Mulder leva as mãos à cabeça. Scully chorando, tenta reavivar o filho. Mulder cai de joelhos ao lado da cama, chorando calado e inconformado. Victoria olha pro bebê. Joga o pano no chão e sobe na cama. Scully, nervos aflorados, insiste em reavivar o pequeno, enquanto Victoria observa de perto.

SCULLY: - (DESESPERADA) Sai daqui, filha! Você está me atrapalhando!

Victoria afaga Bryan. Mulder ergue a cabeça olhando pra ela. Victoria leva os lábios até o ouvido do irmão, falando algo que não se ouve. Bryan solta seu primeiro choro. Scully começa a rir e chorar. Mulder observa a filha, entre lágrimas, incrédulo e com um certo temor.


6:13 P.M.

Baba recebe as flores do entregador. Fecha a porta. Há muitas outras flores pela sala. Baba vai com as flores para a cozinha e procura por um vaso. Victoria, com chuquinhas nos cabelos, observa o prato de comida à sua frente.

BABA: - Não vai comer seu jantar?

VICTORIA: - ... Não tô com fome.

BABA: - Quer me ajudar a arrumar essas flores?

VICTORIA: - Não tô com vontade.

BABA: - E você 'está' com alguma coisa hoje?

VICTORIA: - Tô com saudades da mamãe.

BABA: - Me dá um abraço.

Victoria a abraça.

BABA: - Mamãe vai voltar logo. Não quer mesmo ajeitar as flores? Precisamos fazer bandeirinhas, encher balões, fazer uma recepção bem bonita pra ela e para o maninho.

Victoria acena que sim com a cabeça. Baba ajeita as chuquinhas dela. Mulder chega com o carro. Victoria abre um sorriso e pula da cadeira.

VICTORIA: - O papai chegou!!!!!! O papai chegou!!!!!!

Mulder entra com uma fisionomia nervosa e abatida.

VICTORIA: - Papai!

MULDER: - Oi, meu Pinguinho.

VICTORIA: - A mamãe veio?

MULDER: - Ainda não. Mas ela tá bem. Papai precisa tomar um banho e voltar pro hospital. Baba, me ajuda a pegar algumas coisas pra Scully.

VICTORIA: - Posso ir junto?

MULDER: - Você precisa ficar aqui com a Baba tomando conta da casa. Quem é que vai tomar conta de mim? Ahn? Você é minha secretária.

Victoria sorri. Mulder pega Victoria no colo.

MULDER: - Como foi a escola hoje?

VICTORIA: - Foi legal. A senhorita O'Neill mandou a gente sentar em grupo e a gente fez muitos desenhos hoje. A Megan fez uma casinha, o Darius fez o carro e eu fiz o Papai Noel e a chaminé! Até foi divertido, teve muita bagunça!

MULDER: - Nossa! Mas você não deixou a lareira acesa, né? Já pensou se o bom velhinho queima o traseiro?

Victoria coloca as mãos na boca, rindo. Mulder dá um beijo nela.

BABA: - Victoria, quem sabe você me ajuda a arrumar umas roupas pra mamãe enquanto o papai toma banho?

VICTORIA: - Legal!

BABA: - Então vá lá pra cima que eu já vou indo.

Mulder larga Victoria, que sai correndo da cozinha.

BABA: - Como eles estão?

MULDER: - (NERVOSO) Scully está bem. Mas o bebê está na incubadora, respirando por aparelhos.

Mulder senta-se. Baba massageia os ombros dele, tentando anima-lo.

BABA: - Bryan, não é?

MULDER: - (SORRI) Ele tem cara de Bryan... (TRISTE) Matei o meu filho, Baba.

BABA: - Deixa de ser maluco. Você sabe que fez tudo certo. Mulder, as coisas acontecem. Deus coloca certos desafios na vida da gente.

MULDER: - (PÕE AS MÃOS NO ROSTO) Eu disse que achava mais seguro pra ela ter o bebê no hospital, mas Scully tinha medo. A gente tinha medo. Talvez, se eu tivesse insistido...

BABA: - Não tem "se". Vocês fizeram o que era mais seguro. E tudo deu certo. O parto deu certo. Se Bryan teve problemas depois, não foi culpa de vocês.

MULDER: - (OLHOS EM LÁGRIMAS) Ele é tão pequeno... Tão frágil... Eu não posso vê-lo naquele hospital, respirando por aparelhos, monitorado por fios e levando agulhas pelos braços... Aquelas agulhas são maiores do que os braços dele, Baba.

BABA: - Precisa ser forte agora, Mulder. Suba, tome seu banho, coma alguma coisa e volte pra lá. Scully precisa de você e Bryan também.

MULDER: - Obrigado por estar aqui.

BABA: - Não tinha lugar melhor pra ir mesmo. Anda! Banho, você está cheirando a raposa que saiu de um galinheiro!

Os dois sorriem. Mulder sai da cozinha. Baba coloca as mãos em prece e abaixa a cabeça.

BABA: - Senhor, não sei os seus motivos, mas creio que são infinitamente justos. Ajuda esses pais amorosos a terem seu bebê. Eles merecem, o Senhor sabe disso, conhece melhor o coração deles do que eu.



BLOCO 2:

Hospital Mercy – UTI Pediátrica - 8:34 P.M.

Mulder sentado, segurando as lágrimas, com a mão pela abertura da incubadora, observando o filho. Bryan dormindo, apertando o dedo mindinho de Mulder em sua mão. Bryan, pequenino, a roupinha maior que ele, pele branquinha, cabelos louros e arrepiados. O fio do soro fixado no bracinho e o respirador fixado no rosto.

MULDER: - Oi, meu Campeão. Papai tá aqui. (SORRI ENTRE LÁGRIMAS) Meu Scullyzinho. Sua mãe agora pode rir bastante, você veio pra desempatar o jogo. E pra completar a felicidade na nossa casa.

Mulder cerra o cenho pra chorar.

MULDER: -Papai lamenta que você tenha chegado nesse mundo já enfrentando tanta coisa ruim. Mas você é o meu Campeão, não é? Você é um vencedor no jogo da vida. Fica bom logo, Bryan... Meu Bryan. (SORRI) Você tem cara de Scully mesmo. Não tem nada de Mulder aí. Se duvidar vai ficar ruivo e vai ter olhos azuis. Vou ter uma cópia da sua mãe por perto.

A enfermeira se aproxima e injeta algo no soro.

MULDER: - Não tem um jeito menos sofrível de fazer isso?

ENFERMEIRA: - Infelizmente não, papai. É para o bem dele.

MULDER: - Acha que ele sobrevive?

ENFERMEIRA: - Papai, tenha fé. É um garotinho bonito.

Mulder percebe pela janela de vidro, Krycek e Skinner, parados e preocupados. Mulder sai da sala. Há dois agentes do FBI no corredor.

SKINNER: - Como ele está?

MULDER: - Estável... Desde quando anda com guarda-costas?

SKINNER: - Não são pra mim. São para o seu filho.

KRYCEK: - E tem mais dois policiais na porta do quarto de Scully.

SKINNER: - Ellen está com ela agora.

MULDER: - Scully não me quer com ela. Quer que eu fique com Bryan. Se eu entrar naquele quarto, acho que ela tem um ataque de nervos.

SKINNER: - Acho melhor ficar de olhos colados no seu filho, por questões de segurança. São agentes confiáveis, mas todo cuidado é pouco.

MULDER: - Obrigado aos dois. Me sinto mais tranquilo.

KRYCEK: -Amigos são pra isso, Mulder... (SORRI) É um garoto bonito.

MULDER: - ... (SORRI) É.

SKINNER: - E tem cabelos. Ele tem sorte...

MULDER: - (SORRI/ SEGURANDO A EMOÇÃO) ...

SKINNER: - Ele... Ele também é... Especial como Victoria?

MULDER: - Não sei. Fico matutando se isso tudo que está acontecendo com o Bryan não tem relação com herança genética. Eu penso se não é por causa dos meus genes que ele está lá, entende? Victoria pode ter escapado, mas ele... Não sabemos nada sobre isso, Scully só levantou teorias em seus estudos, não há casos assim na literatura médica.

KRYCEK: - Mulder, vá ver a Scully. Nós ficamos aqui tomando conta dele.

Corte.


Ellen sentada na cadeira. Scully sentada na cama, olhos vermelhos, abatida. Segura um rosário nas mãos.

SCULLY: - Por favor, não conte o diagnóstico ao Mulder.

ELLEN: - Síndrome de Kartagener? Mas que droga é essa, Dana?

SCULLY: - É uma discinesia ciliar primária no pulmão. A força mecânica no movimento ciliar, é deficiente. É causada por uma doença autossômica recessiva rara. Acontece com uma pessoa em 25 mil...

ELLEN: - E a gente nunca pensa que vai fazer parte de alguma estimativa. Mas é sério? Tem cura?

SCULLY: - Se ele resistir agora, vai sofrer pra sempre de infecções respiratórias, pneumonia e otite crônica, tosse... (SEGURA AS LÁGRIMAS) Corre o risco de uma eventual falência respiratória e cardíaca.

ELLEN: - ... Ô amiga... Mas você não acha que Mulder deve saber disso?

SCULLY: - Ele está se culpando demais pelo que aconteceu... E ele não está errado, porque há indícios de que pode haver dois cromossomos com alterações genéticas que induzem a síndrome... Entende? Se eu contar, Mulder vai ficar mais culpado ainda.

ELLEN: - Olha, no que precisar, conte comigo, tá? Sua mãe vem hoje?

SCULLY: - Amanhã. Ela vai ficar lá em casa pra que a Baba possa tomar conta da agência e Barbara vai ficar comigo hoje.

ELLEN: - A dona Rata? Passar a noite sentada aqui? Com aquela pança enorme? Nem ferrando! Ela tá lá embuchada de ratinho que mal se aguenta! É um só ou uma ninhada inteira?

SCULLY: -(RINDO) Um, né, Ellen? Vai ser menino.

ELLEN: - Nossa! Se puxar ao pai, a Barbara vai ter que correr as garotas com a vassoura! Ainda bem que vocês duas estão contribuindo com a preservação da espécie. Dana, eu fico com você hoje.

SCULLY: - Ellen, não precisa...

ELLEN: - Precisa sim, aceite a companhia da dona Girafa. Uma pariu agora, a outra tá lá barriguda e eu sou a única aqui que pode fazer isso. Vocês adoram brincar de médico e não sabem o que é pílula não?

Scully sorri. Ellen levanta-se e beija Scully na testa.

ELLEN: - Tô curiosa, Dana. Vou lá na janela da pediatria pra ver o que você e o Mulder aprontaram.

Ellen sai do quarto. Mulder entra.

SCULLY: - (PREOCUPADA) O que está fazendo aqui?

MULDER: - Skinner está com ele.

Mulder senta-se ao lado dela. Toma sua mão.

SCULLY: - Como ele está?

MULDER: - Lutando.

SCULLY: - (SORRI ENTRE LÁGRIMAS) Ele é nosso filho, Mulder. O que esperava?

MULDER: - (DERRUBA LÁGRIMAS) A culpa disso é minha. Se ele nasceu assim, é culpa minha.

SCULLY: - Mulder...

MULDER: - Eu devia ter tomado precaução. Eu pareço um maldito tarado! Por que eu fui transar com você naquele dia?

SCULLY: - Você nem sabia que eu podia engravidar! E eu também quis, não quis? Até parece que eu não gosto de fazer amor com você.

MULDER: - É, mas mesmo assim... Eu devia ter tomado cuidado, Victoria nasceu bem, mas isso não era garantia de que um segundo filho nasceria normal. Está nos meus genes, não nos seus... Olha o que eu fiz pra você, Scully!

SCULLY: - (COMEÇA A RIR) Mulder! O que você fez pra mim? Hum? Um bebê? ... Mulder, seu malvado, você me engravidou!

Mulder começa a rir, nervoso. Scully afaga os cabelos dele.

SCULLY: - Mulder... Ô meu Mulder... Você não muda mesmo.

MULDER: - Será que então não foi alguma coisa no parto? Quem sabe eu fiz algo errado?

SCULLY: - Pare de se culpar, Mulder. Ou eu vou me culpar também. Quem sabe eu fiz algo errado na gravidez? Quem sabe não tomei as vitaminas que deveria, me estressei demais, comi pouco... Eu sou a médica aqui, então a culpa é minha por não ter percebido isso antes.

Mulder suspira angustiado.

SCULLY: - Tem dois policiais na minha porta. Ellen vai ficar aqui hoje. Quero que você vá pra casa descansar. Está pensando muita besteira.

MULDER: - Não vou deixar nosso garotinho sozinho.

SCULLY: - Mulder, Krycek vai ficar de olho no Bryan. Seu filho e eu precisamos de você com a cabeça fria. Estou nervosa com a situação e mais nervosa porque você não dormiu ainda, desde que Bryan nasceu.

MULDER: - Estou bem. Você sabe que já estamos acostumados...

SCULLY: - Por favor. Victoria precisa do pai dela. Acha que ela não está sentindo nossa falta? Mulder, por favor, vá pra casa. Durma a noite toda e volte amanhã. Cuide da nossa garotinha. Faz isso por mim?

MULDER: - Eu não vou conseguir dormir sabendo que o nosso filho não está bem, que você está aqui e...

SCULLY: - Por favor? Eu preciso ficar tranquila e vendo você nesse estado, eu só estou ficando mais nervosa. Hum?


Residência dos Mulder – 11:45 P.M.

Mulder deitado na cama, com a TV ligada e o pensamento longe. Victoria dormindo com o boneco do capitão. Mulder pega o boneco. O observa. Então atira no chão. Victoria se acorda e senta-se na cama.

VICTORIA: - Eu sei do que tem medo. Mas não devia. O capitão não tem culpa de nada. Ele é só um pirata atrapalhado e espertalhão.

MULDER: - Do que está falando?

VICTORIA: - Você me disse que nada nos filmes é de verdade. São apenas atores fazendo personagens e que o cinema é um faz de conta. Os atores brincam de faz de conta como as crianças brincam. Sendo assim, o capitão Jack não existe. Existe um ator que brinca de ser ele.

MULDER: - É.

VICTORIA: - Então? Seja racional. O Iço usa a forma do ator para se disfarçar. Ele não é o ator, nem os personagens dele. Agora me dá o meu boneco e me deixa ter uma infância normal, Mulder.

Mulder começa a rir. Victoria cruza os braços num beiço.

MULDER: - (RINDO) Você acaba de falar igualzinho a sua mãe! Deus, você tá ficando igualzinha a ela, minha Scully morena!

Mulder dá um beijo estalado na filha.

VICTORIA: - (BEIÇO) Por favor?

MULDER: - (DEBOCHADO) Só se me chamar de Mulder novamente.

VICTORIA: - (RINDO) Mulder!!!!!

Mulder se levanta rindo, pega o boneco e se deita de novo.

MULDER: - Ok, Pinguinho. Aqui está o seu capitão tresloucado, afetado e bebum.

VICTORIA: - ... Eu também tô preocupada, papai.

MULDER: - Você nem sabe o que é preocupação. Agora durma.

VICTORIA: - Só porque eu sou criança não quer dizer que eu não sei o que é preocupação. Mas eu sei que tudo vai ficar bem, tá? Existem coisas que precisam acontecer para que outras aconteçam.

MULDER: - ... Tá. Eu acredito em você. Baba me disse a mesma coisa.

VICTORIA: - ... Me leva no show do U2 quando eles vierem aqui?

MULDER: - Mas o que uma criança quer com show do U2?

VICTORIA: - (BEIÇO) ... Eu gosto do U2... Queria ver o Bono de perto.

MULDER: - (RINDO) Tá bom, se a faz feliz ver o Bono, eu levo você.

VICTORIA: - Tô com fome. Me prepara um leite com chocolate?

MULDER: - Agora?

VICTORIA: - ... Por favor, papaizinho.

MULDER: - Com esse "por favor papaizinho", tem quem consiga dizer não?

Victoria sorri. Mulder se levanta. Victoria vai atrás dele.

Corte.


Mulder coloca o copo e um sanduíche na frente de Victoria.

MULDER: - Eu não sou um Oompa Loompa, mas dou garantias que esse leite com chocolate está delicioso.

VICTORIA: - Não quero mais.

MULDER: - Pinguinho, não me faça de bobo. Você me fez levantar da cama pra preparar leite pra você, depois quis sanduíche e agora não quer mais?

VICTORIA: - Eu só como tudo isso se você me acompanhar.

MULDER: - Não estou com fome.

VICTORIA: - (BEIÇO) ... Por favor. Seja meu amigo. Come um pãozinho, hum? Bebe leitinho, vai? Ah, papaizinho, por favor! Assim você não vai crescer forte, bonito e saudável.

Mulder começa a rir.

MULDER: - Eu já entendi tudo. Bem que desconfiei, você pedindo leite com chocolate ao invés de café... Você pensa que é mais malandra do que eu. Você não está com fome. Pediu esse leite só pra me fazer descer e comer alguma coisa.

VICTORIA: -(RINDO) Eu?

MULDER: - É. Você. A cópia da sua mãe. Não tem como dizer não pra vocês duas.

VICTORIA: - (SORRI) Então não diga. Coma. Hum?


Hospital Mercy – UTI Pediátrica – 7:16 P.M.

Mulder sentado, mantém Bryan contra o seu corpo. Bryan ligado ao oxigênio ainda dorme. A mão de Mulder cobre todas as costas de Bryan, de tão pequenino. Mulder observa o filho. Enche os olhos de lágrimas. Leva a mão até a cabeça de Bryan.

MULDER: - (SUSSURRA) Eu estou aqui, Bryan. Lute... Resista. Você pode, eu sei que você pode, meu garotinho... Vamos lá, você é o campeão do papai... Sabe por que você é o meu Campeão? Porque sua mãe recebeu um milagre, mas eu não. E contra todas as minhas possibilidades, você veio mesmo assim. E agora vai ser campeão de novo porque vai vencer essa.

Bryan abre os olhos azulados e vivos olhando para o pai. Mulder ao vê-lo de olhos abertos, se emociona. Bryan dá um bocejo, se contorcendo. Mexe as mãozinhas e fica encarando Mulder com curiosidade. Mulder sorri entre lágrimas.

MULDER: - Você tem olhos lindos, iguais aos olhos da sua mãe... O que você tá olhando, ahn? É, esse cara feio aqui é o seu pai.

Bryan esboça um sorriso, se contorcendo. Scully se aproxima com um copo de café. Ao ver que o filho está de olhos abertos, ela começa a chorar de alegria. Aproxima-se de Mulder. Os dois ficam olhando pro filho.

SCULLY: - (SORRI CHORANDO) Ele abriu os olhos! São azuis! Meu lourinho de olhos azuis!

MULDER: - (SORRI BOBO) Ele puxou aos Scully. E se parece com você... Tem o mesmo brilho no olhar... O meu Scullyzinho... O cabelo arrepiado... Ele herdou seus genes irlandeses, Scully... Ele é a sua cópia.

Mulder coloca o dedo na mão de Bryan. Bryan agarra o dedo de Mulder.

MULDER: - (SORRI) Ele tem mãos fortes. Vai ser jogador.

SCULLY: - (SORRI) Mamãe vai ficar doida quando vê-lo!

MULDER: - (SORRI) Meg vai ficar doida porque é mais uma cueca pra pendurar no varal dos Scully.

Scully acaricia o filho.

SCULLY: - (SORRI) Vamos, meu amor... Eu quero pegar você nos meus braços, amamentar você, sentir o seu cheirinho... Fica melhor pra gente ir embora. Eu não quero deixar você nesse hospital.

Scully beija Mulder no rosto. Apoia o queixo no ombro dele, olhando pra Mulder.

SCULLY: - Obrigado. Obrigado por me proporcionar essa emoção pela segunda vez.

MULDER: - Não sou eu quem deveria agradecer você por ter me dado as duas coisas mais importantes da minha vida?

Os dois trocam um beijo longo.


Residência dos Mulder – 1:37 P.M.

Na cozinha, Meg tricota um casaquinho, sorriso bobo nos lábios. Mulder pensativo.

MARGARET: - Ele é lindo! É pequenino, parece um bonequinho com aquele beicinho rosado e aqueles olhos azuis. Eu tenho netos lindos, mas o Bryan... Ele vai dar trabalho com as meninas. Aposto que de louro vai ficar ruivo. Bom, agora vocês tem duas cópias de vocês. Só espero que os irmãos não vivam discutindo como os pais discutem.

MULDER: - (DISTANTE) ... É.

MARGARET: -Bill está num ciúme danado, quer ter mais um filho pra não perder pra vocês... Vai tentar uma menina...

MULDER: - A minha filha eu joguei a fôrma fora e queimei a receita... Meg, esse casaco não é pequeno demais para o Bryan?

MARGARET: - Mas esse não é pro Bryan. Esse é pra Neide.

MULDER: - Quem é Neide?

MARGARET: - (PISCA O OLHO) A sua neta, Fox!

Meg aponta pra boneca sobre o balcão. Mulder sorri.

MULDER: - Não sei como pode ter paciência pra fazer as vontades de Victoria.

MARGARET: - (RINDO) Mas só tenho uma neta. Como vou recusar o apelo da minha netinha, se a pobre Neide está passando frio?

MULDER: - Hoje é a Neide com frio, depois a Lao, a Ilíada e a lista se estende... Pelo menos minha filha é criativa pra dar nomes às bonecas. Fico feliz que ela esteja sendo criança.

MARGARET: - (RINDO) E depois tenho que costurar um vestido de noiva, porque a Elizabeth e o Will vão se casar de novo. Ah, e tem o batizado do Cookie, a Megan vai ser a madrinha, o Darius o padrinho, a Barbara vai tirar as fotos. E adivinha quem fará o bolo?

Mulder começa a rir.

MARGARET: - (SUSPIRA) Ah! Essa é a magia de se ter filhos pequenos. A gente se ocupa tanto que até se esquece dos problemas... Me lembro quando fazia roupinhas pras bonecas das meninas. Dana e Melissa sempre inventavam coisas. Batizado, noivado, casamento. Uma confusão de meninas dentro de casa, era bolo, doce, salgadinho... Elas disputavam quem fazia a melhor festa. (OLHA PRO RELÓGIO NA PAREDE) Vai chegar atrasado no trabalho, Fox.

MULDER: - É o trabalho que me preocupa, Meg.

MARGARET: - Quem sabe você tira uns dias? Afinal, você é o seu chefe agora.

MULDER: - Meg... Me diga uma coisa. Se você tivesse que fazer uma coisa completamente abominável e o futuro do mundo dependesse disso. Você faria?

MARGARET: - Se o futuro dependesse disso, então não seria abominável.

Mulder se levanta. Pega as chaves do carro. Beija Meg na testa e sai.


Hospital Mercy – 2:34 P.M.

Krycek sentado à porta aberta do quarto de Scully, fazendo palavras cruzadas. Mulder se aproxima com um pacote de lanche, um café e flores.

MULDER: - Rato, pra você. Vai esticar as pernas e tomar um ar. Obrigado pelo sacrifício.

KRYCEK: - (DEBOCHADO) Café e lanche com direito a flores, amorzinho? Assim eu me apaixono!

MULDER: - (DEBOCHADO) As flores não são pra você.

KRYCEK: - (SORRI) Ah! Magoei agora!

Krycek se levanta, enrola a revista e coloca com a caneta no bolso de trás das calças. Pega o lanche e o café.

KRYCEK: - Não é sacrifício, Mulder. Devo mais que isso pra você. Mas não estou fazendo por débito. Estou fazendo por um irmão. De um pai pra outro. Agora entendo mais ainda você.

MULDER: - Deveria estar com sua mulher e o seu filho.

KRYCEK: - Não, deveria estar na delegacia, mas esse caso é prioritário. Barbara tá bem. Está empolgada em passar a tarde na sua casa com a Meg e a Victoria pra fazer roupas de bonecas.

Mulder dá um tapinha no ombro de Krycek e entra no quarto. Se aproxima da cama. Entrega as flores e beija Scully.

SCULLY: - Como está a Victoria?

MULDER: -Feliz. Sua mãe está tricotando roupas para bonecas. Parece que as bonecas vão viajar de férias pela Europa. Barbara tá metida na bagunça. É crochê e tricô o dia todo. Agora sua mãe trouxe a máquina de costura e foi comprar retalhos de tecidos com a neta.Fui intimado a assistir um desfile de modas. Aquela minha calça jeans que não serve mais já virou jeans pra bonecas. Até uma camisa do Krycek entrou na roda. Acho que a tia Barbie leva jeito pra costurar para as Barbies.

SCULLY: - (SORRI) Eu nunca imaginei que a Barbara costurasse! Uma vez a mamãe fez uns vestidos de crochê com apliques pra Lao, pra Ilíada e pra Neide que me deu inveja. Pedi um em tamanho natural porque ficou chiquérrimo! Ai, queria estar lá com elas na bagunça...

MULDER: - Sabe aquele caso que eu te falei? Preciso ir pra Los Angeles.

SCULLY: -(ABORRECIDA) Logo agora, Mulder? Não pode esperar?

MULDER: -Não dá Scully, é urgente. Skinner deixou dois agentes e Krycek está aí. E Frohike e os rapazes vão se revezar aqui também. Temos amigos, Scully.

SCULLY: - Mulder, está acontecendo alguma coisa?

MULDER: - Nada pra você se preocupar.

SCULLY: -Feche a agência e leve Baba com você.

MULDER: - Não preciso dela nisso.

SCULLY: - Leve Baba com você. Vou me sentir mais tranquila com ela do seu lado.

Mulder sai do quarto. Scully fica intrigada.


Aeroporto de Washington - 3:30 P.M.

No avião, Marceau, o francês de uns 30 anos, coloca a mala no compartimento de bagagem.

MARCEAU: - Pardon, monsieur.

Mulder olha pra ele. Marceau senta-se. Coloca o cinto e abre uma revista de curiosidades históricas. Mulder observa a revista. Desvia a atenção para a pista.

MARCEAU: - Le secret de la vie está em las antigas civilizações.

MULDER: - Certamente.

MARCEAU: - (ESTENDE A MÃO) Je suis Jean Jacques Marceau.

MULDER: - (CUMPRIMENTA) Fox Mulder.

MARCEAU: - Enchanté, Fox Muldér.

Silêncio. A aeromoça passa verificando os cintos.

MARCEAU: - (OBSERVA-O ATENTO) Excusez-moi, monsieur Muldér, mas... Crreio que temos um ami em comum. Conhece le professeur John Serling?

MULDER: - Serling? Claro que conheço.

MARCEAU: - (SORRI) Oui. Serling sempre fala sobrre você e le mademoiselle Victorria. Estou feliz por conhecer le pai de Victorria.

MULDER: - De onde conhece Serling? Você também é professor?

MARCEAU: - Oui... Digo que somos de La Résistance. Nos conhecemos em Parris. Temos idéias em comum. Estou de férrias até começar um doutorrado em Arqueologia. Tirrei alguns dias com Serling.

MULDER: - As idéias em comum de que fala...

MARCEAU: - São las mesmas idéias suas, monsieur Muldér. Non estamos sós e la résistence está se criando parra enfrentrarmos La Nouvel Ordre Mondial. Há muitos professeurs, artistas e escritorres conosco, espalhados por le monde.

MULDER: - Marceau, é isso? Acho que vamos ter bastante assunto até esse avião aterrissar.

MARCEAU: - Cerrtamente, monsieur Muldér.


Hospital Mercy - 6:48 P.M.

Scully deitada na cama, olhar perdido no nada. Barbara bate na porta segurando um vaso de orquídeas e um monte de balões coloridos.

BARBARA: - É aqui que está a mais nova mãe do pedaço?

Scully sorri. Krycek entra, carregando uma raposa de pelúcia tão grande que ele mal enxerga o caminho. Scully começa a rir.

SCULLY: - Ah meu Deus! Só vocês dois pra me fazerem rir!

Krycek coloca a raposa na poltrona.

KRYCEK: - Já me basta um de carne e osso pra carregar quando se esfola todo, agora arrumei outro de pelúcia!

BARBARA: - Não liga, Scully! Ele comprou outro desses só pra ele, vai dormir agarradinho.

Scully solta uma gargalhada. Barbara coloca a orquídea sobre a mesinha. Pendura os balões na cama.

BARBARA: - Agora vai ter diversão, balãozinho pra soltar no quarto.

SCULLY: - Vocês já viram o Bryan?

BARBARA: - Claro que já! Alex subornou a enfermeira com bombons. Por isso não trouxe a caixa pra você. Ele é lindo, Scully! Dá vontade de agarrar o meu afilhado e encher de beijo!

KRYCEK: - É, esse foi sortudo, se parece com a mãe. Ruim vai ser aguentar a madrinha beijoqueira.

BARBARA: - Adorei os fiapos louros! Pena que ele tava dormindo, queria ver os olhos azuis.

SCULLY: - Tem alguém com ele?

KRYCEK: - Frohike e Langly. Disputando o vidro pra olhar para o menino. Acho melhor pendurar uma figa no pescoço dele.

BARBARA: - (NERVOSA)Você tá bem? Dói muito?

SCULLY: - Dói na hora. Agora tá tranquilo, só umas fisgadinhas.

BARBARA: - Eu tô apavorada! Eu só penso no parto, dia e noite! Já foi difícil pra entrar, imagina pra sair!

Scully começa a rir. Krycek acena negativamente com a cabeça, corado de vergonha.

SCULLY: - Barbara, o primeiro sempre é mais difícil porque é um mistério, você nunca passou por aquilo, tudo é novo. Depois da primeira experiência fica mais tranquilo. Sei lá, Bryan nasceu mais rápido que Victoria, não fiquei tantas horas em trabalho de parto.

BARBARA: - Espero que eu também não fique. Mas quando olho pro tamanho do pai da criança, começo a me apavorar com o tamanho do bebê! A gente é baixinha, pequenina... Você só quer me deixar calma, mas eu acho que vou gritar tanto que vou acordar o hospital inteiro! E você prometeu, vai comigo, vai ser minha médica auxiliar. Eu já escolhi sua amiga obstetra pra ela permitir você junto.

KRYCEK: - E eu? Eu posso assistir o parto do filho que eu ajudei a fazer ou não tenho esse direito?

BARBARA: - Vou pensar no seu caso, porque acho que você vai gritar mais do que eu e ainda é capaz de desmaiar! Aí vão ter que socorrer você também! Vai atrapalhar mais que ajudar!

Scully começa a rir, observando os dois.

KRYCEK: - E por que acha isso? Eu vejo sangue todo o dia! Acha que vou fazer papelão é?

BARBARA: - Acho, Ratoncito.

SCULLY: - Mulder também viu muito sangue na vida e só não desmaiou porque tinha que fazer o parto. Das duas vezes ele entrou em pânico.

BARBARA: - Tá vendo? Você vai desmaiar. E depois não quero você olhando pra mim enquanto estou parindo.

KRYCEK: - (INCRÉDULO)Por quê? Qual o problema?

BARBARA: - Ah sei lá. Depois que você sabe da onde vem a salsicha não come salsicha nunca mais!

Scully solta um gargalhada, segurando a barriga. Krycek abaixa a cabeça.

KRYCEK: - Vou começar a carregar uma pá. Você fala tanta coisa pra me deixar vermelho de vergonha, que eu tenho vontade de enterrar a minha cabeça feito avestruz no chão!

BARBARA: - Isso mesmo, seja avestruz. O papai avestruz é um dos melhores pais na natureza. E fique vermelho, você é comunista. Ninguém vai reparar não.

KRYCEK: - Você me faz pagar todos os meus pecados com juros e dividendos, garota!


Mansão de Coin – Beverly Hills – Los Angeles – 5:47 P.M. Hora Local

Mulder estaciona o carro do outro lado da mansão. Mordisca o polegar enquanto observa a entrada do portão iluminada. Abre o porta-luvas e retira um pacote de sementes de girassol. Começa a comer, enquanto observa a casa. Sua atenção se desvia para o retrovisor. Um carro para atrás dele. Mulder estende a mão e pega a arma, mantendo escondida ao lado do corpo.

Dalida, a morena elegante de cabelos lisos e longos, desce do carro. Blazer e minissaia cor de creme, saltos altos. Ela olha para o pneu, frustrada, levando o cabelo atrás da orelha. Coloca as mãos na cintura e chuta o pneu com raiva.

MULDER: - (OLHANDO PELO RETROVISOR) Ui, tá bravinha?

Dalida dá alguns passos, olhando pra todos os lados. Percebe o carro de Mulder e vem em sua direção. Mulder guarda a arma no bolso e abaixa o vidro, todo sorridente e bobo. Ela, com charme de propaganda de xampu, dá um balanço nos cabelos sedosos e ajeita o cabelo atrás da orelha. Abre um sorriso simpático.

DALIDA: - Oi! Será que você podia me ajudar? Meu pneu furou.

MULDER: - É claro.

Mulder sai do carro. Vai em direção ao carro dela, todo solícito.

DALIDA: - Desculpe incomodar você, mas eu não sou boa com pneus.

MULDER: - Desconheço mulheres que são boas com pneus... Pode abrir o capô?

Dalida entra no carro. Mulder abre o capô. Leva as mãos até o estepe. Dalida se aproxima. Fecha o capô com força na cabeça de Mulder, que cai por cima do motor.

DALIDA: - Desculpe, Fox Mulder. E se não for você, me desculpe mais ainda.


Hospital Mercy – Virgínia - 9:41 P.M.

Scully deitada na cama. Está tensa. Pega o celular e disca.

SCULLY: - (AO CELULAR)... Mãe? Mãe, o Mulder deu notícias? ... Não, o celular dele está chamando, mas não atende... Sim, já liguei pra Baba... Não, ele nem falou com ela hoje, e eu pedi pra que ele a levasse junto. Estou nervosa, mãe! Não sei no que Mulder está metido e ninguém sabe dele... Por favor, se tiver notícias. E Victoria? (SORRI) Não, eu falo amanhã, deixe-a dormir... Boa noite, eu ligo se o encontrar.

Scully desliga.

SCULLY: - Alex? Você está aí?

Krycek entra no quarto segurando as palavras cruzadas.

KRYCEK: - Fala, Scully. Ouvi que está preocupada com o Mulder.

SCULLY: - Ele disse pra você que caso ia resolver em Los Angeles?

KRYCEK: - (INCRÉDULO) Mulder me disse que tinha um caso pra resolver urgente, mas não falou que era em Los Angeles!


Local desconhecido – Los Angeles – 7:54 P.M.Hora Local

Uma sala de escritório. Mulder acorda no chão.

YITZCHAK: - Ele acordou.

Mulder senta-se no chão, meio atordoado. Percebe os dois tipos estranhos e barbudos que o observam e Dalida sentada tomando café.

YASSER: - Shalom!

MULDER: - (IRRITADO) Shalom o cacete! Quem são vocês?

YITZCHAK: - Primeiro eu faço as perguntas.

Yitzchak ergue a carteira de Mulder.

YITZCHAK: - É quem os documentos dizem?

MULDER: - ...

YITZCHAK: - Fox William Mulder? Filho de William Mulder, descendente de Yossef Mulder?

MULDER: - ... Por que eu diria?

YITZCHAK: - (OLHA PARA OS OUTROS) É ele.

Yitzchak levanta-se. O outro, Yasser, levanta-se também. Yitzchak estende a mão para Mulder e o ajuda a levantar-se. Abre o casaco e retira uma credencial.

YITZCHAK: - Sou Yitzchak Baroukh. Mossad. Serviço secreto israelense.

Mulder fica surpreso. Dalida entrega a arma de Mulder.

DALIDA: - Eu sou a agente Dalida. Me desculpe pela pancada na cabeça, mas você não viria por livre e espontânea vontade.

YASSER: - Sou o agente Yasser Bezulel.

MULDER: - Mas que diabos o Mossad quer comigo?

YITZCHAK: - Estamos aqui pelo mesmo motivo que você está.

MULDER: - Como podem saber o motivo de eu estar aqui?

YITZCHAK: - Você é pai de Victoria Mulder.

MULDER: - (INCRÉDULO) O que tem a minha filha?

DALIDA: - (SORRI) O mundo inteiro um dia saberá da sua filha.

YITZCHAK: - (SORRI) De onde mais viria a salvação senão do povo judeu?

MULDER: - (IRRITADO) Vocês estão equivocados! Eu não sou judeu, eu nasci nesse país! Não respeito o sábado, não vou em sinagoga, como carne de porco e acredito em Jesus Cristo! Portanto, não tenho nada de judeu.

YITZCHAK: - Tem. (OLHA PRAS CALÇAS DE MULDER) E já verificamos isso.

MULDER: - (PÂNICO) Vocês são todos malucos!

YITZCHAK: - Embora a circuncisão não seja mais um atributo exclusivo dos judeus...

MULDER: - (IRRITADO)Onde é a saída? Estou indo embora!

DALIDA: - Mulder, os nossos profetas também nasceram em lugares diferentes. Ser judeu não é nascer em Israel. Ser judeu é sangue. Gênese. Descendência.

MULDER: - O que querem comigo?

YITZCHAK: - Não vai conseguir fazer isso sozinho.

YASSER: - Ouvimos que o filho do mal nascerá aqui, na Babilônia.

DALIDA: - Não podemos tirar a vida de uma criança sem saber se é a criança que procuramos. Você confirma que é?

MULDER: - Eu não sei! Eu nem sei o que estou fazendo aqui, eu não devia nem ter saído de casa. Meu filho está num hospital e eu estou aqui às cegas acreditando em algo que me disseram. O governo americano sabe que estão aqui?

YITZCHAK: - Apenas o Mossad sabe aonde estamos.

MULDER: - Por que será que eu não acredito em vocês? Ahn? Será que é porque a Casa Branca dorme com Israel? A ONU?

YASSER: - Sente-se, Mulder. Escute o que temos a dizer. O que sabe sobre a Ordem dos Treze?

Mulder senta-se, interessado. Dalida sorri e serve café pra eles.

MULDER: - (DESCONFIADO)Quase nada. Sei que existem, não sei quem são e nem faço ideia aonde se escondem.

YITZCHAK: - Então sabe nada. Os treze homens mais poderosos ou promissores de atingir o poder mundial. Não são políticos. São empresários. Países ricos e pobres devem dinheiro a eles. Conseguem favores nos bastidores políticos seja por débito ou propinas. Eles governam verdadeiramente o mundo, porque o mundo é governado pela economia. Eles ditam a economia. A bolsa de valores. Compram dívidas e exploram países miseráveis. Investem em campanhas políticas e colocam quem quiserem nos governos.

YASSER: -Eles decidem quem morre e quem vive. Eles criam pandemias e doenças, guerras e revoltas, fome e fartura. Manipulam o clima. Investem em armamento. A tecnologia de guerra que os governos possuem é criada por eles. E alimentam as conspirações governamentais em todo o mundo. Eles são a besta apocalíptica que servirá ao anticristo.

MULDER: - Ok, eu sei que os caras não são santos. Mas quem são eles?

DALIDA: - Ninguém sabe quem são eles. Nosso governo investe pesadamente nessa investigação, mas não conseguimos descobrir nada. Temos alguns nomes e nenhuma prova. Com exceção de Emir Bakir.

MULDER: - Quem?

YITZCHAK: - Emir Bakir. Um sheik árabe, de família tradicional, vive em Dubai. Sua fortuna reside em empreiteiras internacionais de obras públicas como ferrovias, hidrovias, hidroelétricas...

DALIDA: - Praticamente construiu Dubai. Entendeu?

MULDER: -(DEBOCHADO) Ok, vejo que vocês rapidinho descobriram o árabe da conspiração, nem imagino o porquê. Eu vou ter que fazer a pergunta mesmo sabendo a resposta. O que a Ordem dos Treze tem a ver com isso?

YITZCHAK: - Bakir tem um amigo aqui chamado B.A. Alberthi. Não sabemos se ele tem algo a ver com a Ordem dos Treze, mas sabemos que é da Opus Dei.

MULDER: - Legal, chegamos na igreja católica. E qual seria o interesse da Opus Dei nisso?

YITZCHAK: - O Vaticano protege a besta. Há um bispo entre eles. Monsenhor Rosso, chefe da Biblioteca do Vaticano. Desconfiamos que Alberthi fará o favor de tomar conta do anticristo.

MULDER: - E por que esse tal Alberthi faria isso?

YITZCHAK: - Por que a namorada dele é a mãe do anticristo?

MULDER: - Espera aí! Acham que Alberthi entregou a namorada para...

DALIDA: - Ele é da Opus Dei, um membro antigo e importante deles. Rosso é da Opus Dei, essa é a ligação. Mulder, sabemos que você foi namorado, amigo e trabalhou com ela. Ela ajudou você a descobrir os Arquivos X. Sabemos tudo a respeito de vocês. Por isso precisamos de você para chegar até a criança.

YITZCHAK: - Essa criança não pode nascer. Precisamos impedir. Pra isso estamos aqui. E se não nos ajudar, vamos fazer você mudar de ideia. Entendeu?

Mulder abaixa a cabeça, angustiado.

Hospital Mercy – Virgínia - 10:15 P.M.

Os dois agentes do FBI parados no corredor. Scully sai da UTI pediátrica. Um deles a segue à distância. Frohike vem até Scully com um cesto enorme de flores.

FROHIKE: - É, pelo jeito está bem protegida... Como está o Mulder Júnior?

SCULLY: - Ainda respira por aparelhos... São pra mim?

FROHIKE: - São. Vou colocá-las no seu quarto.

SCULLY: - Frohike, mais flores? Você não precisava se incomodar novamente...

FROHIKE: - Essas não são minhas, deixaram na recepção pra você. E tem um cartão nelas.

Scully pega o cartão. Faz uma fisionomia de estranheza.

SCULLY: - Aqui só diz... Mazel Tov. Não tem assinatura.

FROHIKE: - Algum parente perdido do Mulder?

SCULLY: - Queria saber aonde ele está. Da preocupação vem o aborrecimento. E eu estou começando a me aborrecer. E estou começando a pensar se não tem relação com Bryan. Podem estar chantageando Mulder, ameaçando tomar nosso filho...

FROHIKE: - Posso ir a Los Angeles se quiser.

SCULLY: - Ele vai ter que ligar. Se não ligar, está com problemas... Mas não se preocupe, Frohike, eu tenho a pessoa certa pra ir atrás dele. Alguém que precisa da razão para agir, tanto quanto eu, e que vai manter o Mulder longe de encrencas. Como diz a Barbara, o "Scully de calças".

FROHIKE: - Não está pensando de novo que Mulder está envolvido com alguma mulher.

SCULLY: - Não. Agora eu conheço bem o meu marido. Assovia, atira pra cima e depois corre. Mas ele está escondendo alguma coisa que vai metê-lo em encrenca... Mulder não ficaria sem ligar pra saber do filho. Alguma coisa aconteceu e eu estou ficando nervosa.



BLOCO 3:

Aeroporto de Los Angeles – 12:23 A.M.Hora Local

Krycek sai da área de desembarque, falando ao celular.

KRYCEK: - (AO CELULAR) Já estou em Los Angeles. Pra variar, o Mulder se mete em encrenca e eu tenho que vir bancar a babá do marmanjo... Ok, Scully, assim que souber dele eu ligo.

Krycek desliga. Aproxima-se do balcão da locadora de veículos. Puxa a foto de Mulder do bolso e a credencial da polícia.

KRYCEK: - Detetive Alex Krycek, polícia de Washington. Viu esse sujeito por aqui?

ATENDENTE: - (SORRI) Infelizmente não. Se tivesse visto, eu mesma teria sequestrado.

KRYCEK: - (SACANA) Ele é um maníaco estuprador.

A atendente fica séria. Krycek sai.

KRYCEK: - (IRRITADO) Não, ele não vai ganhar mais nenhuma de mim!

Krycek segue pelo saguão. O celular toca. Krycek atende.

KRYCEK: -(AO CELULAR) Fala, Scully... Ele ligou? Mas é um infeliz mesmo! ... Você não devia ter dito nada sobre eu estar aqui, porque eu não queria estar aqui... Tá, eu ligo pra ele.

Krycek desliga. Aperta uma tecla. Aguarda.

KRYCEK: -(AO CELULAR) No que se meteu dessa vez, amorzinho? ... Onde? ... Ok, estou indo.

Krycek sai do saguão e acena para o táxi.


Piano Bar - Hotel Colinas – Los Angeles - 12:55 A.M.Hora Local

Sentados à mesa, Krycek analisa Dalida discretamente, com desconfiança. Ela joga charme pra cima de Mulder, que não percebe.

MULDER: - Alberthi deve saber que o filho de Diana corre perigo. Ele sabe que existem pessoas que não querem essa criança viva e que farão de tudo pra mata-la, mesmo que ele tenha o governo paralelo e as sociedades secretas os protegendo. Se é que eles sabem quem estão protegendo.

DALIDA: - Claro que sabem.

Krycek mantém os olhos em Dalida, que percebe. Ela então ajeita os cabelos, sensualmente, olhando pra ele, jogando charme. Krycek a encara com olhar frio e intimidador.

KRYCEK: - Eu não sei não. E eu não sei o que vocês sabem sobre isso. Mas não vão conseguir entrar na casa dele.

DALIDA: - Por isso precisamos de Mulder. Ele pode entrar pela porta da frente. Por isso viemos até ele, somente Mulder pode entrar lá.

KRYCEK: - O Mulder? O Mulder é o mais suspeito de todos aqui! Quando Alberthi vir o Mulder, eu quero estar bem longe!

MULDER: - ... Mas Diana. Ela não vai fechar a porta na minha cara.

KRYCEK: - Eu não confiaria. Aquela mulher nunca foi confiável e você sabe bem!

YITZCHAK: - Você entendeu tudo, Krycek. Somente Mulder pode entrar lá e matar a criança antes que nasça.

YASSER: - Mais fácil será matar o bebê logo depois que nascer. E isso acontecerá em breve.

MULDER: - ... (APÁTICO)

KRYCEK: - Como vocês obtiveram tanta informação sobre o Mulder assim?

DALILA: - Isto é confidencial. E temos agentes espalhados por todos os hospitais da redondeza. Caso Mulder falhe, faremos o serviço.

MULDER: - Se querem matar a criança, por que não fazem o serviço sozinhos?

DALIDA: - Podemos fazer. Mas você faria melhor. Pouparia a mãe.

MULDER: - Vocês não estão pensando em matar Diana...

DALIDA: - Se preciso for, o faremos. Você tem menos de 24 horas pra fazer o serviço.

MULDER: - Eu não tenho que ficar aqui recebendo ordens de vocês!

DALIDA: - Ok. Você é quem sabe. O destino da humanidade está nas suas mãos.

MULDER: - É peso demais pra carregar. Não tem negociação?

DALIDA: - Se não tiver coragem para matar esse bebê e quiser poupar a vida da mãe dele, então o traga pra nós. Roube o menino. Você não verá nada. Faremos o serviço longe dos seus olhos. É a única negociação que podemos fazer.

KRYCEK: -Nos deem licença por um minuto.

Krycek se levanta e puxa Mulder.

KRYCEK: -(COCHICHA) Mulder, peça tempo pra decidir. Não faz as coisas na pressa. Não joga o jogo deles. Vamos pegar um quarto e vamos conversar sobre o assunto bem longe deles.

MULDER: - (NERVOSO) Tá.

Mulder se vira pra eles.

MULDER: - Preciso de um tempo pra pensar.

DALIDA: - Tem uma hora pra fazer isso. Aguardamos você aqui.

Mulder e Krycek se afastam. Dalida olha para Yasser.

DALIDA: - Vocês vão seguir Mulder.

YASSER: - E se ele não fizer o que deve fazer?

DALIDA: - Ele fará. Estou indo pra Virgínia agora, pra garantir que ele faça.


Quarto do hotel - 1:21 A.M. -Hora Local

Mulder se atira na poltrona. Krycek abre o frigobar e pega uma garrafinha de vodca e uma de uísque. Entrega o uísque pra Mulder.

KRYCEK: - E de novo você me traz pra um quarto de hotel. Isso tá virando uma constante, amorzinho. Quando vai assumir que é completamente apaixonado por mim?

MULDER: - He, he, he... (ANGUSTIADO) Rato, não tenta me animar com piadinhas. Eu tô sem rumo. Os caras me deram uma hora pra decidir e não gostaram que você apareceu.

KRYCEK: - O problema é só deles. Estou aqui pra ajudar você a não se meter em encrencas. Deveria ter me contado a merda que estava acontecendo!

MULDER: - Eu não queria envolver você nisso. Eu sei que quando a gente vai ser pai é tão bom poder curtir as coisas sem preocupações na cabeça.

KRYCEK: - Mulder, se não notou, nunca teremos uma vida "normal". Eu já sei que vou embalar meu filho com uma das mãos enquanto seguro a arma na outra. Estamos na lista negra do Coin e do Sindicato maldito. E logo, pelo jeito que a coisa anda, estaremos na lista negra da Ordem dos Treze. Não sei se percebeu, mas eles sabem muita coisa sobre você. O que o Mossad se interessaria em um americano com descendência judia?

MULDER: - Eles sabem até da Victoria. Do quanto ela é especial.

KRYCEK: - Tá bom, até faz sentido. Mas igual eles estão jogando pra cima do seu emocional e isso me diz que sabem o quanto você é emotivo. Comigo a coisa é diferente, eu sou frio e analítico e tenho escola de malandragem pra dizer que esses caras estão escondendo alguma coisa. E se quer meu palpite, o chefe ali não é nenhum dos dois. É ela. Não confie naquela mulher. Carinha bonita, peitos e bunda não me enganam. Ela aprendeu a seduzir em apostilas e treinamento, entendeu? Certamente é uma agente disposta a tudo, mas se é do Mossad eu não posso garantir, porque pouco contato tive com o Mossad. Atiraria na KGB, que agora finge não existir mais. Na CIA ou no M16.

Krycek senta-se na cama e abre a vodca.

KRYCEK: - Você fez bem em se fazer de idiota sobre a Ordem e sobre a real identidade do Coin. Pelo menos agora ganhamos mais dois nomes novos: Rosso e Bakir. E vou passar isso pra Barbara investigar. Mas não acredite nesses caras, vamos primeiro obter informações e provas. Entendeu? É a vida de uma criança em jogo!

MULDER: -(NERVOSO) Eu não sei mais no que acreditar! E eu não posso matar um bebê!

KRYCEK: - Eu não confio nesses caras e eles não estão brincando. Querem a criança morta. E pelo jeito matarão até mesmo Diana Fowley. Não que isso me incomode, porque ela foi a única do Sindicato que não estava no dia em que fiz a faxina. E sei porque não estava lá, Coin sabia o que eu ia fazer e a poupou por algum motivo. E agora com essa história, começo a pensar se o motivo não seria esse!

MULDER: - Acha que assim como esses idiotas, a Diana não sabe que ele é o diabo?

KRYCEK: - E faz alguma diferença pra ela?

MULDER: - (IRRITADO) Claro que faz!

KRYCEK: - Será mesmo? Agora ela tá com um bilionário, não com um agente do FBI! O que espera daquela vaca? Ahn?

MULDER: - Rato, se Diana é uma vaca, você foi touro por muito tempo porque também dormia com uma vaca, só que loura de farmácia!

KRYCEK: - Não mesmo! Não coloque Marita no mesmo saco de piranhas!

MULDER: - E por que não? Qual a diferença delas no Sindicato? Ahn? A sua dormiu com o Homem das Unhas Bem Feitas e a minha com meu próprio pai!

KRYCEK: -Admita, Mulder, isso foi pior! Que merda! Até em chifres você me inveja!

MULDER: - Eu? Eu namorei a Diana bem antes de você namorar a Marita! Se alguém invejou o chifre de alguém aqui foi você!

KRYCEK: - Ah, me larga Mulder! Você sabe bem do que o serviço secreto israelense é capaz. Se mandam fogo, eles mandam fogo também. Os caras entraram às escondidas na Argentina pra capturar o nazista do Eichmann! Talvez estejam aqui sem o governo americano saber. Eles preferem criar uma crise diplomática a perder o alvo! Isso me cheira a conspiração das grandes, porque o Fumacinha deve saber, e como está fora do Sindicato, nada disse pra eles só pra não alertar o Coin. E se o Fumacinha sabe, a CIA sabe. E se a CIA sabe e nada disse ao governo sobre o Mossad estar aqui... A coisa realmente tá ficando mais esquisita. Acho que seu pai tá criando uma nova conspiração pra derrubar a conspiração!

MULDER: - Rato, dane-se a CIA, a Casa Branca, o Mossad e o Fumacinha! Eu não sei se ele é realmente filho do Coin!

KRYCEK: - E de quem mais seria?

Krycek olha atravessado pra Mulder.

MULDER: -Ei! Não me olha desse jeito! Não fiz nada! Eu sou inocente! Você é que pode ser culpado!

KRYCEK: - Eu? Eu não comi daquela panela! Não achei meu pau no lixo, eu sou seletivo! Mulder, vamos ser racionais. Se não fosse filho do Coin, ele não zelaria tanto por essa criança... Scully sabe no que você está envolvido?

MULDER: - Isso deve ser mais um segredo entre irmãos, Rato. Nossas esposas não precisam saber disso. Pelo menos por enquanto. Scully já tem preocupações demais e eu estou preocupado com o meu filho, entende? Dane-se o mundo, eu queria estar com o meu filho!

KRYCEK: - OFumacinha é um imbecil. Olha quem ele manda fazer o serviço!

MULDER: - Ele não mandou e eu não acataria ordens dele. Ele simplesmente falou e...

KRYCEK: - Sugeriu. Ele sempre sugere.

MULDER: - O que eu faço?

KRYCEK: -Mulder, sinceramente eu não queria estar na sua pele agora. Sabe o que penso sobre matar crianças... Merda! Estamos falando do anticristo! M-Mulder e-eu não sei. Não sei nem o que dizer. Se essa criança é o anticristo ou não... Pra isso você vai ter que entrar lá e conversar com Diana pra saber quem é o pai da criança!

MULDER: - Eles têm certeza de que é filho do diabo.

KRYCEK: - E eles estavam no quarto pra saber? Como associaram Diana com isso?

MULDER: - Eu já disse, por causa do Rosso e do Coin que são da Opus Dei. Por causa dos objetivos da Ordem de servir ao diabo.

KRYCEK: - Ainda não me faz sentido como o Mossad chegou a essa conclusão. Por que o anticristo nasceria agora? E outra coisa: quem disse que o anticristo é uma criança?

MULDER: - Várias profecias.

KRYCEK: - E elas são científicas? Tem provas disso? Baseado em quê você chegou a essa conclusão?

MULDER: - Pelo amor de Deus, já me basta uma Scully! Rato, se é filho do Coin, ele tem alguma intenção em ter um filho, não acha? Amor paterno é que não é! Pouco importa como o Mossad descobriu que o diabo vai ter um filho, o fato é que nem desconfiam quem é o diabo! Acham que Coin é apenas o protetor da criança!

KRYCEK: - Mulder, sabemos que Diana e Coin estavam trocando fluidos e realmente a criança pode ser dele. Mas e se não for?

MULDER: - E se realmente for? Rato, nunca se discute o sexo dos anjos, mas sabemos pela literatura bíblica em Gênesis 6 que alguns deles se procriaram com mulheres. Quer dizer, é uma das interpretações de que o termo "os filhos de Deus" eram anjos. Outra interpretação diz que eram os filhos de Set. "Ora, naquele tempo havia gigantes na terra e também depois, quando os filhos de Deus possuíram as filhas dos homens, as quais lhes deram filhos, estes foram valentes, varões de renome, na antiguidade."

KRYCEK: - Mas Mulder, se Coin andava com Diana... Então há a possibilidade de que eles nunca transaram? Sinceramente eu tô perdido! Se soubéssemos o sexo dos anjos seria mais fácil. Acha mesmo que eles podem se reproduzir? Eu sempre soube que anjos são assexuados!

MULDER: - (DEBOCHADO) E de onde tirou isso? É científico? Tem provas disso? Baseado em quê você chegou a essa conclusão, Scully de calças?

KRYCEK: - Vamos supor que seja mesmo o anticristo. O meu medo é de que você afrouxe. Você sabe o que vai acontecer se afrouxar.

MULDER: - O que você faria, Rato?

KRYCEK: - ... Mulder, nem nos meus tempos de bandido eu pegaria uma missão dessas. Não mato mulher, nem criança.

MULDER: - Mas se não tivesse alternativa. Se coloque no meu lugar! Rato, eu sei que não entende, mas se coloque no meu lugar. Se fosse Marita que estivesse naquela casa prestes a dar a luz ao anticristo?

KRYCEK: -Mulder, entendo mais do que pensa, tá? Eu sei que teve toda uma história com aquela mulher. Altos e baixos, você me contou isso. Sei que não guarda rancor, que a perdoou. Conheço bem a sua misericórdia, meu amigo irmão. Entendo que se preocupe com ela, com o filho dela. Mas entendo também que agora você tem uma mulher que acaba de dar à luz a um filho seu, que ambos estão num hospital agora, seu garoto sob cuidados intensivos e você aqui perdendo o tempo que poderia estar lá, com quem você ama e realmente sempre amou você.

Mulder empina a garrafinha de uísque.

KRYCEK: - Mulder, se fosse comigo... Tô pensando... Se eu desistir, eles fazem o serviço. Se fizerem o serviço, são duas mortes, Diana e a criança. Se eu pegar o serviço... Eu sequestraria a criança, pouparia a ex e entregaria a criança pra eles. Então voltava correndo pra minha esposa e filho. E pouco me importaria se a minha ex me odiasse por isso. Ela jogou fora uma vida que poderia ter tido comigo, não precisava estar nessa.

Mulder suspira.

MULDER: - Rato, não temos o mesmo sangue, mas você parece meu irmão. É o que estou pensando, e com vergonha de mim mesmo por estar pensando isso.

KRYCEK: -Não precisa ter vergonha de falar o que pensa, Mulder. Não comigo. Mas eu tenho outra alternativa pra você.

MULDER: - Qual?

KRYCEK: - ... Eu faço o serviço por você.

MULDER: - Não, Krycek. Eu nunca pediria pra você ir contra os seus princípios. Eu já coloquei você numa situação limite uma vez e prometi que jamais faria isso novamente...

KRYCEK: - Mulder, a coisa aqui é outra. Você...

MULDER: - Não, Rato. É a mesma coisa. Não tenho o direito de ferrar sua vida pra poupar a minha. Se fosse anos atrás nem estaríamos tendo essa conversa. Mas agora você também é pai e tem uma mulher que ama você. Chega de sangue nas suas mãos. Sempre o serviço sujo sobrou pra você, até que você teve uma escolha e agora tem uma vida digna. Não serei eu a tirar a sua opção e causar mais danos emocionais do que já causaram em você.

KRYCEK: - Amigo é pra essas horas.

MULDER: - Não, amigo. Se for pra afundar juntos, melhor que um fique ileso pra puxar o outro pra fora da lama, entendeu? Isso me foi dado, compete a mim encarar essa lama.

KRYCEK: - Só vou reiterar um aviso: Toma cuidado com a tal Dalida. Ela está dando em cima de você. Todo serviço secreto recruta gostosonas pra ferrar os idiotas. James Bond que o diga! E toma cuidado com o Coin. Sabe que armas não o matam.

Krycek tira o rosário de Barbara do bolso. Estende pra Mulder.

KRYCEK: - Sei que não crê nisso. Eu também não acreditava. Mas isso já me salvou várias vezes. Leva com você. E me traz de volta, porque eu tenho que devolver pra Barbara todos os dias.

Mulder sorri. Pega o rosário e coloca no bolso. Krycek se levanta.

KRYCEK: -Vamos dar a resposta pros caras. E eu vou com você até a casa do Coin, pode precisar de apoio. Vou ser seu motorista.


Hospital Mercy – UTI Pediátrica – Virgínia – 2:24 A.M.

Scully sentada ao lado da incubadora. Faz carinhos em Bryan.

ENFERMEIRA: - Precisa tomar ar, mamãe. Está aqui há muitas horas.

SCULLY: - Estou aqui pra que ele saiba que pode contar com a mãe dele.

ENFERMEIRA: - (SORRI) Senhora Mulder, ele sabe que tem uma mãe que o ama muito. Mas precisa se alimentar, pois quando ele sair daí vai estar com uma fome danada.

Scully sorri. Sai da sala. Um dos agentes a segue. Scully caminha até a máquina de café.

BARBARA: - Você está aí!

Scully vira-se. Barbara segura uma cesta de presente.

SCULLY: - Barbara? O que faz aqui numa hora dessas?

BARBARA: - Já viu mulher grávida conseguir dormir longe do marido?

SCULLY: - (SORRI) Admito, é muito difícil.

Barbara sorri, entregando a cesta. Afaga a barriga.

BARBARA: -Trouxe pra você. Achei que devia ter recebido flores demais, tentei ser mais criativa. Pensei no que eu gostaria de receber.

SCULLY: - (OLHANDO PRA CESTA) Tem comida aqui?

BARBARA: - Frutas, biscoitos, cappuccino e umas trufas que eu fiz.

SCULLY: - (FELIZ) Você salvou o meu dia! Ou melhor, a minha madrugada!

As duas sentam-se num banco. Scully abre a cesta e tira duas trufas. Oferece uma pra Barbara.

BARBARA: - Vou recusar. Fiz umas trinta e já devo ter comido umas dez. Ratoncito me mata se descobre que troquei frutas por trufas! Credo! Eu sou a rainha de criar trava línguas!

SCULLY: -(RINDO) Tem comido muita guloseima?

BARBARA: - Eu tenho comido muito e de tudo! Até coisas das quais eu não gostava, hoje são apetitosas. Eu passo o dia e a noite comendo até me entupir e depois devolvo tudo e escuto um sermão enorme do Alex me chamando de glutona. Como o organismo pode mudar tanto?

SCULLY: -Hormônios. Mas uma coisa eu admito: quando estava esperando Victoria, eu comia mais doce que qualquer coisa. Já com o Bryan eu comia também, escondido, mas nem um terço do que comia na gravidez anterior. Na gravidez de Victoria, tinha dias que eu comia açúcar puro, de colher, acredita? Como se estivesse comendo cereais! Dava uma ânsia, uma tontura e eu tinha que ingerir doce, minha glicose caía em picos incríveis, cheguei a fazer teste de diabetes pra ver se eu não estava doente ou deixando Victoria doente, mas nada. O açúcar simplesmente desaparecia do meu organismo. Até hoje não acho explicação na literatura médica sobre isso. Leite condensado? Eu comia latas na semana! E tinha que fazer escondido, porque nem a mamãe e o Mulder entendiam isso.

BARBARA: - Credo! Não chego a tanto não. Sinto vontade de chocolate principalmente. Acho que estou gerando um chocólatra feito o pai. Bryan está bem?

SCULLY: - Está reagindo, graças à Deus!

BARBARA: - Eu não disse? Deus é grande! Logo vocês dois estarão em casa.

SCULLY: - Você é que parece estar cansada.

BARBARA: - Cansada de fazer nada. Estou me sentindo inútil! Queria trabalhar, mas isso deu a maior confusão lá em casa. Alex foi claro: o máximo é ser correspondente, sentadinha na frente do computador e nada de correr Washington atrás de matérias. Mas... Estou entediada. É a minha profissão, eu amo fazer isso!

SCULLY: - Os homens pensam que gravidez é doença. Repouso, repouso... Eu sei bem, Mulder se tornava um chato, não me deixava nem lavar a louça!

BARBARA: -O que me salva é a sua filha que quer roupinhas de bonecas. Pelo menos arrumei entretenimento com agulhas e máquina de costura. Sua mãe me ensinou uns pontos lindos e Victoria tá aprendendo tricô e crochê, sabia? E ficou interessada em costura. Ela aprende tudo muito rápido. Fizemos algumas roupinhas bem moderninhas pras bonecas...

SCULLY: -Sério? (TRISTE) Ai queria ver isso... Saudades da minha filhinha!

BARBARA: - (COMEÇA A CHORAR) Desculpe. (PEGA UM LENÇO DA BOLSA) Eu não sei por que estou chorando... Eu só ia vir de manhã, mas perdi o sono, fiquei andando naquela casa vazia e comecei a ficar mais triste... Eu nem sei porque estou triste!

SCULLY: - Barbara...

BARBARA: - Eu ando com vontade de chorar! Eu me magoo facilmente, sabe? Ontem, Alex chegou e nem me disse bom dia. Eu me levantei e fui chorar no banheiro!

SCULLY: - (SORRI) Bem vinda ao mundo das grávidas!

BARBARA: - (TENTANDO SECAR AS LÁGRIMAS E DERRUBANDO MAIS) Estou tão sentimental e sensível... Chorei horas depois de um filme de ação só porque a mulher do policial morreu num tiroteio!

SCULLY: - Isso passa, Barbara. O fato de ter um filho mexe completamente com o sentimento de uma mulher. Eu sei, já passei por isso duas vezes. Confie, nunca é fácil com o primeiro, depois você já sabe como lidar com isso...

BARBARA: - ... Tenho pensado tanto no passado. Do medo que eu tinha do Alex ir embora... Do quanto ele era estúpido comigo quando a gente se conheceu. Do quanto foi difícil conquistar o seu amor e confiança... E agora, nem acredito que chegamos a isso. Olha pra mim... Pareço um boto! Um enorme boto faminto!

Barbara começa a chorar. Scully sorri e a abraça.

SCULLY: - Calma, amiga, são os malditos hormônios... E quando uma mulher resolve viver com um homem... Isso é bem possível de acontecer.

BARBARA: - Você com tantos problemas e está aqui me animando...

SCULLY: - Eu sei o que você está passando. Mas é muito bom.

BARBARA: - É sim... A gente pensa que um comprimido esquecido não vai dar em nada e tá feito o estrago. Alex ficava apavorado só com a ideia de ter um filho. Agora o Ratoncito tá todo bobalhão, rindo sozinho e sou eu quem está apavorada!

SCULLY: - (SORRI) Não precisa ficar apavorada, Barbara. O fato de ter acontecido problemas comigo não tem nada a ver com a sua gestação. Ok? Olha a diferença de idade entre você e eu. Então, já decidiu o nome inteiro do meu afilhado?

BARBARA: -Mikhail Dimitri Yavanov Krycek. Mikhail para lembrar o pai do Alex, Dimitri porque é o segundo nome do Alex e Yavanov em homenagem a mãe do Alex.

SCULLY: - E o Ramirez, seu sobrenome?

BARBARA: - Vai estragar o nome russo do bebê, Scully!

Scully começa a rir.

BARBARA: - Puxa, como mulher apaixonada é dose! Nega a si mesma! Pior que mamãe ligou. Eu nem sei como falar pro Alex, mas... Eles vão vir me visitar, se eu não for pra Cuba. E não tô em condições de ir pra Cuba agora, entende?

SCULLY: - Barbara, me convida pra essa reunião de família, por favor, porque eu não quero perder a cara do Krycek!!!

As duas riem.

BARBARA: - Vou convidar você pro casamento em Cuba. Mas só vou pra lá depois que Dimi nascer. Não vou entrar em igreja com uma barriga enorme, minha família é antiquada iam morrer de vergonha dos vizinhos e amigos.

SCULLY: - Mas vocês não casaram na Russia?

BARBARA: - Eu sei, mas você não conhece o meu pai, católico fervoroso, ele ficou uma fera que casei numa igreja ortodoxa longe da família e não pode levar a filha caçula pro altar. Me deu uma bronca por telefone: (IMITA A VOZ DO PAI) Pegue os padrinhos e venha pra Cuba porque eu juntei dinheiro, paguei a festa e o casamento, não aceito desaforo depois de todo o sacrifício que fiz pra criar você e tirá-la desse país pra viver na América! Agora vai casar na sua terra, na frente da sua família, eu tenho direito de levá-la ao altar, embuchada ou não! E quero olhar a cara desse sujeito que você chama de marido e eu nem sei quem é! Logo um russo, minha filha? Eles já foderam Cuba, agora... A minha filha também?

Scully abaixa a cabeça num acesso de riso. Barbara suspira.

BARBARA: - Pobre do meu Ratoncito... Nem sabe o que o espera! Se ele acha que eu falo muita baixaria... Quando ouvir meu pai, vai definitivamente virar um avestruz!!! Ele é o cubano mais desbocado que eu conheço!


Mansão de Coin -Beverly Hills – Los Angeles -2:53 A.M. -Hora Local

Mulder dentro do carro com o celular na orelha. Krycek ao lado dele. Os israelenses no carro da frente. Dalida não está com eles.

KRYCEK: -(OBSERVANDO) Não confio mesmo nesses caras. Onde está aquela vadia?

MULDER: -(AO CELULAR) Alô?

Krycek olha pra Mulder.

MULDER: - (AO CELULAR) Diana, sou eu, Mulder, estou em Los Angeles... É, sei que está surpresa, que não são horas pra ligar, mas aconteceu uma coisa. Podemos conversar? ... Ah, você não está sozinha agora... Por favor, me ligue assim que puder. Eu preciso muito falar com você.

Mulder desliga.

KRYCEK: - Ela vai ligar?

MULDER: - Espero que sim.

KRYCEK: - E o que vai dizer pra ela? "Diana, seu filho é o anticristo e eu vim até aqui para mata-lo"?

Mulder abaixa a cabeça sobre o volante.

KRYCEK: - Melhor voltar pro hotel e tirar umas horas de sono. Não vai conseguir nada agora.

MULDER: - Quero que vá pra casa. Sua mulher é quem precisa de você.

KRYCEK: - Enquanto a geladeira e os armários estiverem cheios, ela não se lembrará de mim. Mulder, tenha cuidado. Não é mais como nos velhos tempos. Não vamos nos ferrar sozinhos e dane-se tudo. Temos filhos. Temos família. Agora temos o que perder. Qualquer coisa errada e deixaremos pessoas que nos amam sofrerem.

MULDER: - ... Nunca imaginei receber um conselho desses de você, Rato.

KRYCEK: - Temos um pacto, Mulder. Você protege os meus como se fossem os seus. E eu faço o mesmo pelos seus. Se algo acontecer com você, saiba que ninguém vai tocar na sua família.

MULDER: - Digo o mesmo.

KRYCEK: - Eu vou voltar pra Virgínia. Me deixe no aeroporto. Não é seguro que fiquemos os dois aqui. Alguém precisa estar lá com nossas famílias. Vai que isso seja uma armação pra pegarem um dos nossos? Saiba que você não é o único a viver paranoico com isso.

MULDER: - Mas não diga nada pra Scully. Não quero que ela fique nervosa.

KRYCEK: - Não direi. Isso é problema entre vocês dois. Tem certeza que dá conta sozinho?

MULDER: - Prefiro que volte, Rato. Vou me sentir mais calmo com você cuidando da minha família.

Mulder liga o carro.


Hotel Colinas - 3:56 A.M.- Hora Local

Mulder no quarto, sentado na cama, bocejando. Recosta-se no travesseiro. Cruza os braços e assiste TV. Mulder pende a cabeça de sono e cochila.

FLASH BACK:

1991

FBI -Divisão de Crimes Violentos - 7:18 P.M.

Donald Mallet, bem mais jovem, serve uma caneca de café. Senta-se sobre a escrivaninha. Observa Mulder sentado na cadeira, pés sobre a mesa, lendo um arquivo x e comendo sementes de girassol.

DONALD: - Mulder.

MULDER: - Fala, Don.

DONALD: - Parceiro, precisamos conversar. Assunto pessoal.

Mulder fecha a pasta, cruza o braços e encara Donald.

DONALD: -Sei que tem motivos pessoais pra revirar esses casos e já mediu os prós e contras de trocar a Crimes Violentos pelos Arquivos X. Fico feliz porque você está empolgado e achou seu caminho. Mas lamento por perder meu amigo de Academia e meu parceiro. E sei que nada do que disser vai dissuadir você. Vai me deixar sozinho com a velharada aqui dentro ouvindo histórias do tempo em que os dinossauros vagavam sobre a Terra.

MULDER: - Você não precisa de mim, Donald. Você vai ser grande nesse departamento quando essa velharada se aposentar. Você tem talento, sabe disso. É que existem coisas nesses casos arquivados que ninguém levou a sério, mas que fazem completo sentido! Por que o FBI gastou tempo e dinheiro público enviando agentes para investigar casos paranormais?

DONALD: - Porque não sabiam que eram paranormais?

MULDER: - Então me responde por que estou lendo um caso aberto de 1971 aonde um homem deu queixa por estar sendo perturbado por alienígenas em sua fazenda? Esses dois agentes, hoje já aposentados, foram até a Carolina do Norte, recolheram o depoimento e encerraram o caso.

DONALD: -(INCRÉDULO) Não buscaram provas, testemunhos, nada? Gastaram tempo e combustível para irem até lá bater papo? Estranho isso. Poderia ser alguém aprontando alguma brincadeira, isso já seria um crime. Deveriam ter investigado!

MULDER: - Estranho né? Nem pra dizer que sim ou não. Apenas encerraram e jogaram no porão.

DONALD: - Vai ver em 1971 ainda não existiam tantos crimes e eles foram pra não ficarem sentados atrás das mesas criando calos na bunda? Ou cansaram de ver Hoover usando batom no último andar?

MULDER: - Ou foram até lá só para mostrar que o Bureau se importa e deixarem o cidadão de boca fechada aguardando que eles fizessem alguma coisa? Apenas relações públicas? Eles não iriam apenas por isso. Alguém deve ter dito pra fazerem o que fizeram. Ordens, entende?

Donald leva a caneca à boca, pensativo.

MULDER: - Pensa comigo. Deve ter alguma coisa a mais, alguma verdade que o governo oculta e o FBI lava as mãos. Tem um amontoado de casos não solucionados com eventos paranormais, atividades alienígenas ou atrocidades cometidas pelo governo, todas engavetadas e abandonadas no arquivo morto! Não tem nem espaço, por isso colocam na letra X!

DONALD: - Mulder, minha mãe guarda coisas no porão, coisas que não quer jogar fora, mas também não quer mais à vista. Entende? Deve ser o depósito do popular "faz de conta que a gente se importa com você". Tipo aquela gaveta da cozinha onde você joga tudo o que não tem lugar. Mulder, se deixarem você passar seu tempo revirando esses casos tidos como insolúveis, sob a supervisão do careca perfumado, acredita mesmo que vão pedir desculpas a essa gente ou você vai ser a desculpa deles pra essa gente?

MULDER: - Se eles não permitirem, eu vou investigar de qualquer jeito, mesmo que paralelamente. Vivemos numa democracia, o FBI não pode me impedir de revirar isso, mesmo sendo agente deles. Foi o que o senador Matheson me alertou. Eu poderia abrir minha boca, chamar atenção pública e a lei ficaria do meu lado. Fora os democratas que só precisam de uma bola fora pra chutar os republicanos do poder, porque o Bush filho vai concorrer e pode tomar a Casa Branca do pai dele. Eles sabem disso, por isso não tem como não autorizarem os Arquivos X. Diana está me ajudando. Você pode me ajudar.

DONALD: - Mulder, eu gosto da ideia, mas não quero mesmo me envolver com essas coisas. Eu já vi coisas que preferia nunca ter visto. Já lido com os piores monstros, os humanos maníacos e psicóticos. Se quisesse me envolver com o paranormal tinha ficado no seminário e hoje usaria batina. E nem quero saber o que vocês dois faziam no porão pra descobrirem esses arquivos.

MULDER: - (DEBOCHADO) Nada que você está pensando, "padre"... Então, hoje é sexta-feira, podia estar com a minha namorada assistindo um filminho no sofá, mas estou trancado a noite toda aqui com você, esperando o Chuck mandar os resultados e pegar finalmente o Matador da Rua 9. Eu tenho certeza que é ele, Don.

DONALD: - Confio na sua intuição e competência pra traçar perfis... Mulder... Tem outra coisa. Um burburinho nos corredores.

MULDER: -Se eles aprovarem meu pedido, vou definitivamente para o porão e não faço você passar mais vergonha ao lado do Estranho.

DONALD: - Para com isso, Mulder! É sério. Estão falando que a agente Fowley vai trabalhar contra terroristas em outro continente. E se você não me disse nada, é sinal de que ela nem contou isso pra você! Está contando com ela para trabalhar com você? Acho melhor não contar!

Mulder se levanta. Sorri sem graça.

MULDER: - São fofocas. Ela não me disse nada. Don, temos um relacionamento, em pé de guerra, num vai e volta, mas ainda assim...

DONALD: - Ela nunca mentiria pra você, não é? Quando vai dizer chega, Mulder? Ela mente na cama, mente no trabalho, mente em tudo e você fica mentindo mais ainda pra si mesmo!

MULDER: - Don somos parceiros e amigos. Mas minha vida pessoal só me diz respeito.

DONALD: - Certo. Não tá mais aqui quem falou. Seja feliz!

Mulder serve um café. Pensativo. Donald abaixa a cabeça.

MULDER: - Dianavai dormir lá em casa hoje. Ela sabe que vou ficar a noite toda aqui.

DONALD: - (ASSOVIA/ BRAÇOS CRUZADOS/ OLHANDO PRA CIMA) ...

MULDER: -Acha que Diana tá me traindo de novo? (SORRI) Não! O bonitão do Saab vazou depois do flagra que eu dei e quebrei os retrovisores do carro dele. Você falou sobre ela ir trabalhar em outro continente... Não, Diana não está andando com aquele colega dela novamente e pensando em me deixar. A gente descobriu aqueles arquivos juntos...

DONALD: - Você disse que sua vida pessoal só diz respeito a você. Não vou falar mais nada, exceto que é ele quem vai ser parceiro dela nessa missão. Por hora, o seu apelido no FBI desde a Academia é O Estranho. Não demora e será O Alce.

Mulder solta a caneca. Pega o paletó.

DONALD: - Não vai dar uma incerta, vai?

MULDER: - (IRRITADO) Vou. Ela não devia ter mentido pra mim e criado esperanças! Se planeja ir embora... Quando eu ia saber disso?

DONALD: - Eu vou com você, cabeça cheia e vai fazer merda! Me sinto um delator, mas não admito que façam você de idiota, você não merece isso. Mulder, aquela mulher é uma espertalhona, ela quer mais, quer ascender, quer coisas materiais e você não liga pra isso, só quer fazer o seu trabalho e descobrir a verdade das coisas. Não percebe que tudo o que vocês possuem em comum é o gosto pelo paranormal? Isso não segura relacionamento!

MULDER: - Don, você sabe que eu sou tímido pra chegar nas mulheres. Posso até ter uma certa presença, mas não me acho um cara bonito e nem tenho nada pra oferecer pra mulher alguma. Nem carro eu tenho, moro num cubículo em Alexandria pagando aluguel! Sabe que se Diana não chegasse puxando assunto e pedindo uma bebida, eu nunca estaria com ela, mesmo babando quando ela passava pelo corredor e eu fazia um piadinha pra ver se ela caía na minha. Caiu. Começou com sexo casual e virou amor. Então eu vou lutar por ela.

DONALD: - Mulder, somos psicólogos. Acho que Harvard e Oxford não diferem nos conceitos da Psicologia. Sabemos que isso se chama complexo de inferioridade. Não precisa se matar pra segurar uma mulher, porque quando é amor de verdade, elas não ligam se você anda a pé ou de carro, se tem casa própria ou não. Ela pode até estar apaixonada, mas ela não ama você como você a ama. Lamento ter que dizer isso, mas sabe que você é meu irmão, meu parceiro e meu amigo e não quero ver você quebrando a cara. Existem coisas melhores no mercado que um par de peitos grandes, acredite!

MULDER: - Eu sei que não sou a pessoa mais fácil de conviver, mas também não mereço ser traído.

DONALD: - Mulder, você é um bom sujeito, mas infelizmente se mete com as perigosas! Tem tanta mulher bonita por aí, querendo um cara como você...

MULDER: - Se ela estiver fazendo o que acho que está fazendo de novo... Don, por que ela me trai com outros caras e continua comigo? Ela deve me amar, só está passando por alguma crise...

DONALD: - Quer mesmo que eu responda sinceramente? Sabe que eu sou sincero.

Mulder o encara.

DONALD: -Diana está com você porque se não der certo com outro que tenha mais a oferecer, pelo menos tem uma reserva miserável pra apagar o fogo, enquanto procura outro cara. Entendeu ou quer que eu seja mais sincero? Seria pelo seu pau?

MULDER: - Ok! Não precisava ser tão sincero! Olha, eu não acredito que ela levaria um cara pra minha cama no meu apartamento! Isso seria muita humilhação... Merda!

Mulder abre a porta e sai furioso pelo corredor. Donald sai atrás dele. Mulder aperta o botão do elevador. Está nervoso e descontrolado.

MULDER: - Se Diana está me traindo de novo, e agora no meu apartamento... Don, me segura, porque eu vou fazer merda das grandes! Eu nunca bati em mulher, mas dessa vez eu vou perder a cabeça! E não vai ter mais volta. Acabou. Foi a gota que transbordou o copo! E pra mim chega de mulher! Sinceramente, começo a achar que sou louco demais mesmo, que elas vão fugir e escapar de mim feito o diabo da cruz. Meu destino é ser sozinho! Sou louco, não sou normal, nunca me encaixei!

O elevador se abre. Os dois entram. Mulder aperta o botão.

DONALD: - Agora você entende de destino? Deixa o destino quieto!

MULDER: - Nunca mais! Nunca mais vou confiar em outra mulher na vida! Acabou! Eu tentei ser uma pessoa comum, mas isso não é pra mim. Melhor viver sozinho mesmo. Vou me enfurnar naquele porão, dedicar minha vida aos Arquivos X e com sorte daqui um século me acham mumificado lá embaixo!

A porta se fecha. A porta do outro elevador se abre. Um agente sai conduzindo vários novatos, entre eles, Scully, de óculos, segurando uma pasta contra o peito.

AGENTE: - Agora vamos conhecer os departamentos desse andar, em especial a seção de crimes violentos... Com sorte, conhecerão o agente Fox Mulder, o Estranho... Dizem que ele habita escondido no porão do FBI e sai apenas nas noites de lua cheia para atacar mocinhas indefesas... E ele morde!

Scully acha graça.


Apartamento de Mulder - Alexandria - 3:48 P.M.

A porta do apartamento aberta. Mulder, com um olho roxo, sai do quarto, irritado, carregando o colchão e sai pra fora do apartamento. Volta com uma caixa enorme e atira dentro do quarto. Sai de novo levando pedaços da cama quebrada. Volta pra dentro com a bicicleta e atira dentro do quarto. Volta pra fora novamente. Vem com outra caixa e atira no quarto.

Donald entra, mãos nos bolsos das calças, olhando pra bagunça.

DONALD: - A cama não tem culpa.

MULDER: - Me recuso a dormir nessa cama! Descontei minha raiva nela. Agora não tenho mais quarto. Não quero! Pra que preciso de quarto? Hum? Pra vadias que dizem me amar usarem minha cama e treparem com os outros e não comigo? Agora vai virar depósito... (IMITANDO DIANA) Ai, hoje tô cansada, hoje não vou aí, a reunião no Bureau demorou, você sabe como são essas reuniões... Reunião uma ova! Sempre cansada porque tinha trepado com outro! E o otário aqui colocando velas, comprando vinho e flores, querendo ser romântico, alugando filme e fazendo pipoca, dormindo sentado naquele sofá esperando ela chegar! Eu sou trouxa, Donald! O maior trouxa que você já conheceu na vida. Elas não querem românticos, querem é os sacanas que só estão com elas por sexo! Querem caras com carros da moda e a carteira cheia!

Mulder sai pra fora e volta com outra caixa.

DONALD: - O que tem nessas caixas?

MULDER: - O cara da locadora queria um Nintendo. Troquei por fitas pornôs. Agora estou cheio de diversão! E tem minha coleção de Playboy. Esvaziei meu depósito lá embaixo. Agora sim sou O Estranho! Porque todo estranho tem que ser tarado! Vou virar tarado, é o que elas gostam! Elas não dão valor para os caras românticos que fazem tudo por elas!

DONALD: -E vai dormir aonde, se o seu quarto vai virar depósito, Spooky?

MULDER: - No meu sofá. Ele é confortável. E não tem fluídos dos outros nele! Não posso nem olhar pra esse quarto, porque vem a cena de ontem todinha na minha cabeça!

Donald olha pra ele com piedade.

DONALD: - Mulder... Dê tempo pra cabeça. Vai aparecer outra garota. A vida é assim. Relacionamentos começam e terminam. Eu também vivo sozinho, nunca achei alguém pra mim. E continuo aqui, levando a vida, se tiver que ser, será. A pessoa certa vai aparecer, mas eu vou esperar porque não quero me divertir com as erradas, entende?

MULDER: - Nunca mais! Tomei minha lição, basta! Mulher agora só de papel! Você as admira, conversa com elas, nada te respondem, mas pelo menos não traem você e contam seus segredos aos outros! Nem riem da sua cara. Nem reclamam do tamanho do seu pau! Ouviu as coisas que ela falou na minha cara, na frente do parceiro e amante dela! Falou coisas da nossa intimidade! O cara me conhece, é colega nosso no FBI, vai me fazer virar piada no Bureau, mais do que eu já sou! Ainda começaram a rir da minha cara, dentro do meu apartamento! Eu virei piada dentro da minha própria casa que virou motel pra eles? Quem ela acha que é? Don, meu sangue ferveu!

DONALD: - Mulder, senta um pouco. Vamos conversar, você tá muito estressado, revoltado, magoado e com razão. Tem cerveja nessa casa?

Donald vai até a geladeira.Mulder senta-se no sofá. Abaixa a cabeça.Donald volta com as cervejas e entrega uma pra ele. Senta-se na mesa de centro. Afrouxa a gravata.

DONALD: -Eu tirei satisfação deles, Mulder. Por isso deixei você sofrendo sozinho, era o tempo que você precisava pra se acalmar e colocar a raiva toda pra fora. E o tempo que eu tinha pra pegar os dois de jeito e ameaçar. Eles vão ter que inventar uma mentira pra justificar a surra que tomaram, mas não vão dar queixa de você no Bureau, até porque eu disse que se fizessem, eu iria até o diretor explicar a situação e também ia sobrar pra eles. Você realmente pirou e acho que teria matado os dois se eu não estivesse aqui. Eu tirei a sua arma antes de entrarmos porque sabia que se ela estivesse aqui dentro com outro, você ia perder a razão e fazer merda. Eu faria também. Não estou criticando sua atitude, ela bem mereceu tomar umas porradas e o cara também. Isso é demais pra uma pessoa suportar. Mas podia ter sido pior. Você acabaria preso e perderia seu distintivo. Tudo por causa de uma mulher, entende? Uma que não merece nada de você. E você jogaria fora tudo o que conquistou com esforço por causa dela.

MULDER: - Obrigado, Don. Você me impediu de destruir toda a minha carreira e a chance de encontrar a minha irmã. Obrigado, meu amigo. Eu perdi o juízo, fiquei cego de ódio quando abri a porta do meu quarto e vi os dois pelados e transando na minha cama.

DONALD: - Eu sei, Mulder, sou testemunha, eu também vi! Parceiro, você estava num relacionamento tóxico. Havia amor da sua parte, mas não da parte da Diana. Ela nunca foi sincera com você. Quando eu disse que ela jogou uma indireta pra cima de mim, você achou que eu estava vendo coisas. Agora acabou, Mulder. Foca no trabalho, tenta tirar essa bruxa da sua vida e esquecer essa humilhação toda. Cabeça erguida. Vá sozinho para o porão, antes só que mal acompanhado. Ninguém vai encher seu saco lá embaixo e tomar todo o seu café. Dedique-se a resolver aqueles casos, até veio em boa hora sabia? Assim você vai envolver sua mente com outras coisas e quando se der conta, já vai ter esquecido a ingrata.

Mulder cerra o cenho e desaba num choro magoado e doído.

MULDER: - Dói, sabia? Como dói você fazer planos com uma pessoa e ela pisar em você desse jeito. Tanta mentira, eu nunca menti pra ela. Descobri da pior maneira que meu pai tem razão quando diz que depois de uma traição, a confiança morre pra sempre. E nada sobrevive sem confiança.

DONALD: - Mulder, me escuta.

MULDER: - Não, me escuta você, Don, que ficou anos num seminário, estudou pra ser padre. Alguma vez sentiu falta de mulher ou de sexo? Falta de companhia? Seja sincero comigo. Como funciona essa coisa de castidade? Eu já tive dois relacionamentos e em ambos terminei porque estava sendo traído. Eu não quero mais. É sério. Eu estou decidido a ser sozinho. Como estava decidido antes de conhecer Diana. Porque a Phoebe acabou comigo. Agora tudo de novo. Não, eu estou farto, sabe? Não quero perder meu tempo tentando ser o homem que não sou. Eu não nasci pra ter alguém e você sabe que isso acontece.

DONALD: - Mulder, sinceramente... Quando os seminaristas sentem vontade, a gente reza, toma chá daqueles que acalmam ou quando não dá mesmo, apela pra justiça com as próprias mãos, afinal somos todos animais e instinto existe em nós, padres ou não. Mas isso não é sempre, na maior parte das vezes, digo por mim, eu tinha outras coisas na cabeça. Eu queria descobrir a verdade sobre Deus, ter uma ligação mais profunda com Ele. Trabalhar pra Ele aqui na Terra. Deus e eu já era tudo. A companhia Dele me servia. Eu me dedicava a estudar mais e mais, a rezar, a ter mais comunhão com Ele. Era como um workaholic, que só pensava no trabalho.

MULDER: - Não mudou muito, não é?

DONALD: - Não mesmo, Mulder. Só estou livre dos meus votos e mesmo assim ainda cumpro eles, mas não por escolha. Muita gente vive sozinha, não apenas religiosos, mas gente que optou por isso, pois infelizmente é difícil encontrar alguém sincero, que queira realmente ter compromisso e consciência da responsabilidade que é viver a dois. Hoje as pessoas não têm paciência, tudo é motivo de traição, de sair fora e arrumar outra pessoa. Desistir é fácil, investir é difícil. Mas sexo... Sexo se faz sozinho quando não tem alguém. E tô sendo bem sincero.

MULDER: - Eu também estou sendo sincero e honesto comigo, coisa que eu não era há muitos anos. Agora o trabalho será a minha religião, como sempre devia ter sido. Não sou um padre, mas a partir de agora eu vou me dedicar apenas a minha crença. E vou tentar ser feliz da maneira que eu puder. Vou comprar um peixe pra ter companhia.

DONALD: -Boa ideia! E quem sabe um dia aparece aquela princesa batendo na sua porta?

MULDER: - Não existem princesas, Donald. Todas viram bruxas. Nem procurando você acha. Acredita mesmo que uma princesa bateria na minha porta?Você acredita em milagres. Eu não.


TEMPO REAL:

O celular toca. Mulder se acorda e atende apressado.

MULDER: - (AO CELULAR) Mulder... (SURPRESO) Diana? ... Estou no hotel Colinas... Ok, encontro você no bar.

Mulder desliga. Entra no banheiro e lava o rosto. Olha-se no espelho.

MULDER: - ... Deus, me dê coragem pra fazer isso. Se é que me compete fazer isso. O que me intriga é que uma coisa de tamanha proporção como essa não veio com aviso. Por que quando minha filha nasceu fui avisado para protegê-la e agora, do nascimento do anticristo, nada foi me dito? Esse sangue deve correr pelas minhas mãos?


Piano Bar - Hotel Colinas - 4:38 A.M.- Hora Local

Mulder bebe um uísque. Diana entra no bar. A barriga bem pronunciada. Parece nervosa, olhando pra todos os lados. Mulder sinaliza. Ela vai de encontro a ele. Mulder puxa a cadeira pra ela.

MULDER: - Quer um refrigerante?

DIANA FOWLEY: - Não. Quero que saiba que eu não devia estar aqui. Se souberem que estou falando com você, eles acabam comigo.

MULDER: - Eles quem? O pessoal do Coin?

DIANA FOWLEY: - Todos... Consegui fugir da velha magrela que ele colocou pra me vigiar... Fox, eu sei por que está aqui.

MULDER: - (CULPADO) ...

DIANA FOWLEY: - Você não pode fazer isso comigo. Você é pai. Você sabe o quanto um filho significa! Sei que fiz coisas pra você que lhe dão muitos motivos para se vingar, mas...

MULDER: - Não é questão de vingança. Eu não me vingaria de você, mesmo depois de tudo. Acho que a vida já se vingou.

DIANA FOWLEY: - ...

MULDER: - Eu não posso mentir pra você. Estou aqui por esse motivo.

DIANA FOWLEY: - Quem te mandou? Spender?

MULDER: - ... Estou aqui pelo futuro.

DIANA FOWLEY: - Acredite em mim, o futuro ainda está longe! Fox, eu te imploro, por favor. É uma mãe que implora pela vida do seu filho. Único filho. Ele é a minha última chance, entende?

MULDER: - Diana, então me ajude a ajudar você.

DIANA FOWLEY: - Não posso confiar em você, Fox.

MULDER: - Se não confiasse em mim, não teria vindo aqui hoje. E se eu tivesse chamado você pra uma cilada? Eu podia matar você e o seu filho.

DIANA FOWLEY: - Você nunca foi um homem baixo, Fox. Nem mesmo quando tentou.

MULDER: - Você sabe o que está gerando? Tem noção do que vai colocar no mundo? Você sabe que Coin é Lúcifer? Um maldito alienígena exilado aqui e que quer nos ferrar a qualquer preço?

DIANA FOWLEY: - Sim, eu sei quem ele é. E você sabe o que colocou no mundo? Você pode prever o que seus filhos farão no futuro?

Mulder fica em choque.

MULDER: - Diana, meus filhos são meus filhos. Não são filhos do demônio.

DIANA FOWLEY: - Fox... Eu quero que saiba que farei de tudo para proteger meu filho e proteger Alberthi.

MULDER: - Como pode amar esse sujeito? Como pôde ter um filho dele?

DIANA FOWLEY: - Há coisas que você jamais entenderia. Eu protejo seus negócios porque ele me protege. Sem Alberthi do meu lado, estou vulnerável. Aqueles homens que perseguiam você me juraram de morte, como juraram seu pai, você, Alex Krycek e todos que saíram vivos daquele pesadelo. E só escapei de Krycek porque Alberthi me avisou do perigo. Fox... Ele é bom pra mim, me dá tudo o que preciso, é meu amigo e temos muito em comum.

MULDER: - ... Dinheiro, mansão e luxo. Entendo.

DIANA FOWLEY: - É muito além disso! Estou com ele porque ele me protege. Não o amo. Nunca o amei.

MULDER: - E em troca disso ele pediu um filho a você.

DIANA FOWLEY: - Fizemos um acordo. Eu lhe daria um filho e ele me daria proteção. Fox, eu tenho tudo com Alberthi. Nada me falta. Eu tenho uma vida de rainha e meu filho será um rei.

MULDER: - A que preço? Por egoísmo? Você preferiu parir o anticristo a morrer nas mãos do Sindicato ou de Krycek? Essa criança só está na sua barriga por egoísmo?

DIANA FOWLEY: - (SE CONTORCE) Você não sabe toda a verdade, Fox. Fale com o diretor Carter. Ele sabe.

MULDER: - Então me conte. Eu não vou falar com o Carter. Não tenho mais nada com ele ou o FBI.

DIANA FOWLEY: - Ele está dentro de mim por amor. Ele é meu filho, Fox, um pedaço de mim, a única família que eu tenho... Como eu disse, eu não deveria falar com você. O que me pede pra contar, eu não posso. Tudo o que peço é que poupe o meu filho. Ele não é quem vocês pensam.

Diana põe as mãos na barriga. Solta um gemido.

MULDER: - O que foi?

DIANA FOWLEY: - Eu não sei... Tem alguma coisa errada... Dói!!!! Fox, me ajuda!

Mulder se levanta às pressas.

DIANA FOWLEY: - (OFEGANTE) Fox!!! Ele vai nascer!!! (CHORANDO) Pelo amor de Deus, não mate o meu filho!

Mulder tenta acalma-la.

DIANA FOWLEY: - (HISTÉRICA) Sai de perto de mim! Você quer matar o meu bebê!

MULDER: - Eu não vou matar o seu filho. Fique calma, respire fundo. Agora respire pela boca, em pausas pequenas e rápidas, tente se concentrar nas contrações.

DIANA FOWLEY: - (TENTANDO SE ACALMAR) Me dá sua mão!

Mulder segura a mão dela tentando acalma-la.

MULDER: - Isso... Assim... Peixinho... Beicinho de peixe.

DIANA FOWLEY: - (SORRI) ...

MULDER: - ... Isso...

DIANA FOWLEY: - Você poderia ser o pai dele se eu não tivesse jogado você fora... Pode me perdoar por todo o sofrimento que eu causei a você durante nosso relacionamento?

MULDER: - Eu não sou mais aquele homem que guardava rancores. Agora eu tenho sentimentos melhores para guardar... Continue fazendo isso. Eu vou buscar ajuda.

DIANA FOWLEY: - (DESESPERADA) Eu não posso ir pra um hospital! Você sabe que meu filho corre riscos, algumas pessoas querem matá-lo, outras querem roubá-lo...

MULDER: - (ANGUSTIADO) Eu sei. Nada de hospitais. Já me acostumei com isso.

Mulder pega o celular.


Hospital Mercy - UTI Pediátrica – Virgínia – 6:18 A.M.

[Som: Erik Satie - Gnossienne 3 (por Bojan Gorišek)]

Scully quase cochila sentada ao lado da incubadora. Uma enfermeira entra cabisbaixa e vai para o balcão preparar algum medicamento. Scully se acorda. Olha pela janela de vidro. Não vê nenhum agente. Scully fica desconfiada. Vai até a porta e olha para ambos os lados do corredor. Ninguém.

Scully fica tensa. Vira-se para a sala, olhando para a incubadora aonde está Bryan. A enfermeira acerta uma injeção no pescoço dela. Scully franze o cenho, incrédula, caindo entorpecida ao chão. A enfermeira vira-se. Vemos que é Dalida. Ela desliga o oxigênio do bebê, pega o soro e sai empurrando a incubadora pelo corredor, atenta a todo movimento. Passa por uma sala.

Vemos a luz forte por baixo da porta que surge e se apaga. A porta se abre lentamente, rangendo. Gabriel sai da sala, usando um sobretudo negro, visivelmente mal humorado. Passa por Dalida e enfia o pé na frente da incubadora. Ela empurra, mas não anda. Gabriel se inclina olhando para Bryan. Estende a mão sobre a incubadora.

GABRIEL: - Curatus!

Bryan começa a chorar. Gabriel tira o pé da frente e se afasta. Dalida segue empurrando a incubadora pelo corredor, nervosa.

DALIDA: - Cala a boca, seu pivetinho! Resolveu chorar logo agora?


Mansão de Coin – Beverly Hills – Los Angeles - 5:14 A.M.- Hora Local

Ouvimos os gritos de Diana. Coin sentado na sala brinca com a moeda entre os dedos. A velha empregada entra na sala, sisuda. Fica em pé atrás de Mulder, observando os movimentos dele, que sentado no sofá, está cabisbaixo. Coin para a moeda entre os dedos. Lança um olhar pra Mulder.

THE GOLD COIN: - Não entendo você, Mulder. Poderia ter ligado para qualquer um, mas ligou pra mim? De todos os macacos, você me é o mais misterioso. Você me fascina. Confesso.

MULDER: - Deixe suas declarações de amor para quem as quer.

THE GOLD COIN: - Não ouvirá da minha boca nenhum agradecimento.

MULDER: - Não quero sua gratidão. Não fiz por você ou por seu filho. Fiz por Diana e o filho dela.

Coin se levanta.

THE GOLD COIN: - Mas você é muito burro! Vem até aqui para matar o meu filho e simplesmente o ajuda a nascer? Está do meu lado agora, Fox Mulder?

Coin num ar de arrogância e com a sua pose de lorde acende um cigarro.

MULDER: - Não venha com suas charadas e desafios.

THE GOLD COIN: - Como está a nossa Victoria?

MULDER: - A minha Victoria está muito bem.

THE GOLD COIN: - Fico tentando entender como você pode ser tão idiota em vir até aqui com a intenção de matar o meu filho, mesmo sabendo que eu previ isso e que você só sairá daqui morto.

MULDER: - ...

THE GOLD COIN: - (DEBOCHADO) Mas a paternidade transforma um homem. Meu filho vai nascer e me sinto muito paternal e amoroso. Então vamos fazer um acordo.

MULDER: - Eu não negocio com você. Você já sabe disso.

THE GOLD COIN: - Eu deixo sua filha em paz e você deixa o meu filho em paz. Como pode pensar em matar um bebê indefeso, Mulder?

MULDER: - Você tentou matar minha filha com uma bomba na escola!

THE GOLD COIN: - (DEBOCHADO) Tem certeza?Provas? Ou está aborrecido porque Diana fez uma escolha... Digamos um tanto melhor? Trocou uma raposa pulguenta por um gato charmoso? Hum? Eu sou Lúcifer, você é Mulder. Percebe a diferença?

MULDER: - (DEBOCHADO) Claro que percebo. A diferença é visível. Você é feio e eu sou lindo! A única coisa que já tivemos em comum foi a Winona Ryder!

THE GOLD COIN: - (SORRI CÍNICO) Acha que pode mudar as profecias?

MULDER: - Acredito que se eu tivesse que fazer isso teria recebido ordens lá de cima.

THE GOLD COIN: - Está errado. Ele não mais se importa com vocês. Nunca mandaria matar meu filho porque Ele sabe que não pode.

MULDER: - Talvez Ele tenha um bom motivo pra não fazer isso. E se eu fizer, é interferência.

Coin analisa Mulder.

THE GOLD COIN: - Eu sei que não está aqui de livre e espontânea vontade. E realmente está preocupado com Diana.

MULDER: - E eu conseguiria mentir para o mentiroso?

THE GOLD COIN: - Sabe que não. Sabe que eu sentiria o cheiro da sua mentira... E o seu filho? Deus vai tomar ele de você? Viu quando eu disse que Ele dá, mas Ele tira? Prometeu que lhe daria e agora vai tirar. Menino doente, pobrezinho!

MULDER: - ... Não vai. Ele não faria.

THE GOLD COIN: - Então por que Ele faz esse tipo de provação? Faz você sofrer tanto...

MULDER: - Eu não sei o porquê dessas coisas. Eu não sei! Estou cansado disso tudo!

THE GOLD COIN: - Posso salvar o seu filho. Só preciso estalar os dedos.

MULDER: - Não vou negociar com você nem pela vida do meu filho.

THE GOLD COIN: - Prefere deixa-lo morrer?

MULDER: - Prefiro. Se for assim que tem que ser, assim será.

THE GOLD COIN: -(CÍNICO) Eu sou pai, não posso sequer pensar na dor de perder um filho. Você fala como se não o amasse... "É a vontade de Deus"... Que coisa mais absurda! Que Deus? Onde está Ele quando você precisa?

Coin senta-se. Cruza as pernas.

MULDER: - Você não sabe o queeu sinto. Eu o amo sim. Vai doer se ele morrer. Não quero que ele morra. Mas não o quero em suas mãos! Se eu tiver que passar por esse sacrifício de ver o meu único filho homem morrer, eu vou passar por isso porque assim Deus quis. E não falo isso religiosamente, sabe disso. Você criou o conceito de religião!

THE GOLD COIN: - Já vi esse filme com um sujeito chamado Abraão. Mas me parece que você não terá tanta sorte. Enquanto está aqui fazendo gracinhas e preocupado com o filho do seu inimigo, talvez seu filho esteja em perigo.

MULDER: - (LEVANTA-SE) O que você fez?

Coin revira os olhos, num suspiro.

THE GOLD COIN: - Eu? De novo? Entra aqui e me acusa de tentar matar a sua filha, agora me acusa de agir contra o seu filho? Por que todas as desgraças do mundo são sempre culpa do diabo? Eu não fiz nada! Os homens são piores do que eu!

Mulder puxa a arma. A empregada se põe na frente de Coin. Mulder avança sobre ela e a empurra, metendo a arma na cabeça de Coin.

MULDER: -(IRRITADO) Ok, Willy Wonka. O que fez com o meu filho?

THE GOLD COIN: - (SORRI) Eu não fiz nada. Mas talvez os seus amiguinhos judeus vão tirar o chocolate das suas mãos... Você não acredita realmente que pode me matar com isso.

MULDER: - Não posso matar você, mas eu tenho paciência de ficar fazendo furos no seu belo rosto até o fim dos meus dias!

THE GOLD COIN: - Uau! Acha mesmo que se eu tivesse planejado alguma coisa contra o seu filho eu estaria lhe contando? Como se não bastasse o péssimo juízo que faz da minha pessoa, ainda sugere que eu seja um idiota?

MULDER: - Pare com essas charadinhas! (ENGATILHA A ARMA) Vou fazer um buraco na sua cara cínica se não me contar o que vai fazer com o meu filho, "savvy"? Vai contar ou não? O que tem a dizer em sua defesa?

THE GOLD COIN: - (DEBOCHADO) ... "Parlay"?

MULDER: - (FURIOSO) Não me irrite, Moedinha!!!

O celular de Mulder toca.

MULDER: - (AO CELULAR) Mulder.

DALIDA (OFF): - Tem seis horas para fazer o serviço ou o seu filho morre.

Dalida desliga. Mulder olha pra Coin. Coin ergue os ombros.

THE GOLD COIN: - Eu disse que não tinha nada a ver com isso. Um de nós dois vai perder o filho hoje. E eu garanto que não será o meu que vai morrer.

Mulder desatinado aperta uma tecla do celular. O numero chama, mas ninguém atende.

MULDER: - (ENCHE OS OLHOS DE LÁGRIMAS) ... Atende, Scully...

Nenhuma resposta. Mulder solta o celular no chão. Coin se aproxima por trás e cochicha na orelha de Mulder.

THE GOLD COIN: - Me entregue a sua filha e eu salvo o seu filho. Tente matar o meu filho e mato você. Escolha.

Coin sobe as escadas. Mulder põe as mãos no rosto e desaba num choro calado. A empregada vai atrás de Coin.

THE GOLD COIN: - Chame o médico novamente. Aquele idiota já devia estar aqui como prometeu. Ela já está em trabalho de parto.

Hospital Mercy – Virginia – 7:51 A.M.

Krycek observa Scully dormindo. Skinner aproxima-se dele.

SKINNER: - Ela acordou em surto, queria sair daqui e ir atrás do filho. Tentou fugir e os médicos precisaram sedá-la. Não tinham outra opção.

KRYCEK: - ... Eu disse que não confiava naqueles caras.

SKINNER: - Não sei o que está havendo, mas espero que me conte.

KRYCEK: - E eu espero que tenha colocado agentes atrás deles.

SKINNER: - Quem procuramos?

KRYCEK: - Dalida, uma mulher judia, agente do serviço secreto israelense. Pelo menos é o que ela disse ser. E isso é tudo o que eu posso dizer.

Krycek vai saindo.

SKINNER: - Aonde vai? Precisa me dizer aonde está Mulder!

KRYCEK: - De nada vai adiantar fazer Mulder vir até aqui.

SKINNER: - E o que pode adiantar?

KRYCEK: - Revirar o hospital e as cercanias. Ela não poderia sair com um bebê que tem problemas respiratórios pra muito longe. Vou trazer policiais pra cá. Traga mais agentes.

SKINNER: - O que vai fazer?

KRYCEK: - Pedir ajuda ao Fumacinha.

Krycek sai. Skinner olha pra Scully. Pega o celular.

SKINNER: - (AO CELULAR)Aqui é o diretor-assistente Skinner. Quero que entrem em contato com a embaixada americana em Tel Aviv e o serviço secreto de Israel. Quero informações de uma agente chamada Dalida e se negarem, diga que o sequestro de uma criança é crime internacional e vai abalar nossas relações diplomáticas. O presidente dos Estados Unidos vai ficar a par do caso.


Mansão de Coin – Beverly Hills – Los Angeles - 6:14 A.M.- Hora Local

O médico sobe as escadas apressado, com uma maleta. A empregada o segue. Coin, indiferente, serve uma bebida.

THE GOLD COIN: - Aceita uma bebida?

Mulder angustiado olha para as escadas. Diana grita.

MULDER: - (REVOLTADO)Como pode ser indiferente ao sofrimento dela? Devia levá-la ao hospital agora!!!!

THE GOLD COIN: - Nada de hospitais, ela concordou em ter o bebê aqui. Faz parte do nosso acordo.

MULDER: - Você é pior que o Fumacinha, sabia disso?

THE GOLD COIN: - (DEBOCHADO) Obrigado pelo elogio, me sinto lisonjeado.

Mulder se atira na poltrona. Morde o polegar, nervosamente. Diana continua gritando.

THE GOLD COIN: - Eva me deu ouvidos e Ele jurou castigos. Um deles é que as mulheres teriam dores no parto. Acho que a culpa é Dele por ela estar sofrendo. Não é minha.

MULDER: - Você é desprezível e me dá nojo! Você não se importa conosco e até entendo isso! Mas não se importar com o que é seu? Você não ama nada?

Coin sorri cínico, erguendo o copo de uísque num brinde.

THE GOLD COIN: - O amor não é mais comigo, Mulder. Não tenho mais coração, eles tiraram o meu coração quando eu caí. Só existe ódio e vingança aqui dentro desse peito. Amor é para os fracos. Eu não sou um fraco.

MULDER: - Acho que Deus se arrepende todos os dias de ter criado você!

THE GOLD COIN: - O que sei é que eu me arrependo todos os dias de ter acreditado Nele.

MULDER: - É uma maldita guerra política intergaláctica por poder! Acha mesmo que vai vencê-lo? Já está escrito que não vai, por que continua causando sofrimento na humanidade?

THE GOLD COIN: - Você pensa que sabe toda a verdade, Mulder. Mas só sabe o que eles querem que saiba. O que conhece como verdade é apenas a ponta do iceberg. Eu sei a verdade. E não contaria para um macaco como você nem que me oferecesse sua filha em troca. Satisfeito?

Mulder respira fundo e abaixa a cabeça.



BLOCO 4:

Residência dos Mulder – Virgínia - 8:54 A.M.

Victoria está ajoelhada em seu quarto, apoiando os cotovelos no colchão, com as mãos em prece. As bonecas ajoelhadas ao lado dela. Cookie a observa, com a cabeça sobre as patinhas, deitado no tapete.

VICTORIA: - ... E ajude o meu papai a perceber por que Bryan teve esse problema. Não era pra punir o Bryan, a mamãe ou ele, não era um castigo, mas uma maneira pra segurá-lo aqui, pra ele não dar ouvidos às coisas que os homens acham que sabem. O que os homens sabem é apenas o que Lúcifer quer que eles pensem. Só que o papai não entendeu, mas faz ele entender. Faça com que ele se lembre das palavras de Gabriel: "Pense com o coração". Me ajuda a não deixar Lúcifer convencê-lo. Que papai veja a verdade. E me leve pra lá e me traga de volta.

Victoria fecha os olhos e cai ao chão.


Mansão de Coin – Beverly Hills – Los Angeles - 7:08 A.M.- Hora Local

O médico desce as escadas. Mulder e Coin olham apreensivos.

MÉDICO: - Senhor Alberthi, é um menino. Bonito e saudável. Preciso chamar uma ambulância. Sua senhora está com hemorragia pós-parto, administrei uma dose de ocitocina sintética, mas não está surtindo efeito.Ela apresenta hipotensão, taquicardia e grave perda de sangue. Precisamos levá-la agora para uma transfusão e cuidados apropriados. Não tenho como fazer isso aqui.

Mulder morde os lábios, olhando aflito pra Coin. O médico puxa o celular e liga. Mulder sobe as escadas correndo. A empregada olha assustada pra Coin, que preocupado, sinaliza pra ela ir atrás dele.

Corte.


Mulder entra no quarto. Diana em meio a muito sangue sobre o colchão, num sorriso cansado, olhando ternamente para o bebê de poucos cabelos e pele clara, enroladinho ao lado dela. Mulder olha pra ela, cerrando o cenho pra chorar. A empregada entra, atenta em Mulder.

MULDER: - Aguenta firme. A ambulância vai chegar.

DIANA: - O médico me aconselhou a abortar. Eu sabia dos riscos, Fox... Sou velha demais pra ter um filho. Perdi tempo... Ele podia ser seu, se eu tivesse feito a escolha certa.

Mulder enche os olhos de lágrimas. Se aproxima do bebê. Diana envolve o braço no filho, com medo. Mulder olha em lágrimas para o menino.

MULDER: - ... Levaram meu filho, Diana.

DIANA: - Fox... Eu... Eu lamento muito...

MULDER: - E eu tenho menos de seis horas pra matar o seu filho se quiser salvar o meu.

Mulder se vira e empurra a empregada pra fora do quarto, num supetão, trancando a porta. Diana se desespera. Mulder toma o bebê nos braços.

DIANA: - (GRITA/ DESESPERADA) Alberthi!!!!!!!!!!!!!!!!!!!

MULDER: - (DERRUBANDO LÁGRIMAS/ ANGUSTIADO)É o seu filho ou o meu, Diana. E eu não sei o que fazer, porque... Ele me parece um bebê comum!

Mulder puxa a arma. Coin sai do canto escuro do quarto. A empregada ao lado dele. Ela vai em direção a Mulder, mas Coin a segura pelo braço, observando Mulder.

DIANA: - (DESESPERADA) Lúcifer!!! Você prometeu!!! Você me garantiu proteção! Você quer essa criança tanto quanto eu!!!!!! Não o deixe matar o meu filho, por favor!!!

Coin pressente alguma coisa, cheirando o ar.

THE GOLD COIN: - Ora, ora... Eu conheço esse perfume de rosas.

Mulder está perturbado. Uma brisa sopra sobre ele. Mulder então sorri.

MULDER: - (OLHANDO PRO BEBÊ) ... Pense com o coração...

Mulder sente o calor do bebê que dorme tranquilo em seus braços. Olha para o menino num sorriso.

THE GOLD COIN: - (TENTANDO) Você não tem coragem.

DIANA: - (CHORANDO/ IMPLORA) Fox, por favor! Devolva o meu bebê! Devolva... Alberthi, faça alguma coisa!

Mulder olha pra Diana. Por alguns momentos ele vê Scully no lugar de Diana, lhe implorando pela vida do filho que tiraram deles. Mulder olha para o menino.

THE GOLD COIN: - Ok, Mulder. Vamos negociar. Você está com o anticristo em suas mãos.

DIANA FOWLEY: - (DESESPERADA) Não!!!!!!!!!!!!!

THE GOLD COIN: - (TENTANDO) Ok, vá em frente. Torça o pescoço dele.

Coin abre a janela.

THE GOLD COIN: - Estamos no segundo andar. Atire-o pela janela.

DIANA FOWLEY: - (GRITA/ AOS PRANTOS/ DESESPERADA) Não!!!!!!!!!!!!! Fox, não dê ouvidos a ele!!!!! Fox pelo amor de Deus, não mata o meu filho!!!

THE GOLD COIN: - Sejamos sensatos. Você o mata, eu faço outro.

MULDER: - (OLHANDO PRA COIN) ... Me deixaria matar seu filho?

THE GOLD COIN: - Poupe o meu filho e salvarei o seu. Essa criança é importante demais pra mim.

MULDER: - (PERTURBADO) Não é certo negociar com você.

THE GOLD COIN: - Vamos, Mulder. O relógio está correndo.

DIANA: - (CHORANDO) Fox, por favor!!! Eu imploro pra você!!!

THE GOLD COIN: - Vamos fazer um acordo. Me entregue Victoria. Eu salvarei seu filho. Eu sei o que está pensando. Sim, eu sou um oportunista. Esta é minha chance de tomar Victoria de você. Você não precisa de uma menina. Precisa de Bryan. Bryan vai continuar o seu nome. Victoria não.

MULDER: - Essa criança será o anticristo... Eu não posso deixa-lo viver, mas não consigo mata-lo.

THE GOLD COIN: - Você falou tudo. Você não pode matar o anticristo. Vamos fazer um acordo, hum? Aceite, Mulder.

MULDER: - ... (OLHANDO TERNAMENTE PRA CRIANÇA)

THE GOLD COIN: - Vamos, Mulder? Hum? O que me diz?

MULDER: - (DERRUBANDO LÁGRIMAS) ... Abraão.

THE GOLD COIN: - O que tem Abraão? Vai sacrificar seu filho achando que Deus vai poupa-lo e está apenas testando sua fé? Mulder, isso é tolice! Vão matar o seu filho!

Mulder está confuso.

THE GOLD COIN: - Mas você é burro mesmo! Você me dá nos nervos! Quer ir em frente, faça!

MULDER: - (PERTURBADO) ...

DIANA: - (JÁ SEM FORÇAS/ DERRUBANDO LÁGRIMAS) Fox... Salva... O meu... Filho.

THE GOLD COIN: - Você é fraco, não consegue.

MULDER: - Se eu entregar Victoria, você me deixa matar o seu filho e assim eu recupero o meu?

THE GOLD COIN: - Você me entregaria Victoria?

MULDER: - Com muita dor, mas pelo menos eu ainda teria um filho.

THE GOLD COIN: - Assim é que se pensa, Mulder. Isso é ser prático. Me entregue Victoria e pode matar esse bastardo.

MULDER: - (OLHANDO TERNAMENTE PARA O BEBÊ) ... E como posso saber se você me deixará matar o menino? E se eu não mata-lo, os anjos poderiam fazê-lo.

THE GOLD COIN: - Nem os anjos se atreveriam.

MULDER: - (SORRI/ OLHANDO PRO BEBÊ) Você disse bem. Nem os anjos se atreveriam. Que pai poderia dar seu filho em troca de qualquer coisa? Diana... Entendi.

THE GOLD COIN: - (INCRÉDULO) O que está fazendo, seu imbecil?

MULDER: - Evitando que mais um erro seja cometido.

Mulder sai correndo com o bebê. Coin arregala os olhos, incrédulo. A empregada corre atrás de Mulder. Diana fecha os olhos e respira pela última vez. Coin ergue as mãos e esmurra a parede.

THE GOLD COIN: -Ele me venceu de novo! Esse macaco estúpido me venceu de novo!!!

Coin está furioso. Começa a derrubar tudo.

THE GOLD COIN: - (GRITA) Eu sei que está aqui, Serafim! Aprendeu bilocação? Os cretinos ensinaram isso pra você? Eu sinto o seu maldito cheiro de rosas! Sua maldita desgraçada, sua praga enviada pra perturbar o meu exílio! Maldita seja você, Victoria Mulder, o Tirano e todo o exército de Sião! Eu vou destroçar você aos poucos, eu juro que vou!!!

Os olhos de Coin ficam vermelhos. A ira dele é enorme.

THE GOLD COIN: - (GRITA) Saiba você, sua maldita, que não poderá evitar o que virá! Você pode ter salvo esse macaquinho, mas Lilith vai alcançar o seu pai e tomar o bebê! E os idiotas que pensam que ele é o anticristo passarão a vida toda o protegendo ou perseguindo em ignorância, pensando que o anticristo é um homem, o filho do demônio, enquanto eu coloco o verdadeiro anticristo no poder: A Nova Ordem Mundial!

Coin olha para Diana.

THE GOLD COIN: - Você me desapontou, Diana Fowley. Descumpriu nosso acordo na última hora. Eu prometi segurança em troca da paternidade do menino. Você, como toda mulher, tem a boca grande demais! Já foi tarde. Vejo você no inferno!

As cortinas voam pra fora da janela, como se algo saísse pra fora do quarto. Coin acompanha com os olhos.

THE GOLD COIN: - Ainda nos encontraremos, Victoria Mulder. Não há outra alternativa, você vai crescer. E você sabe disso, Serafim. Sabe que eu tenho a eternidade do meu lado. Vai descobrir da pior maneira o quanto a minha paciência é grande, mas a minha ira é maior ainda!

A velha empregada entra no quarto.

EMPREGADA: - Mulder conseguiu escapar. O médico tentou me ajudar, mas ele foi rápido. Entrou no carro e partiu. Manda Leviathan atrás dele agora!

THE GOLD COIN: - Esqueça. Perdemos uma batalha, mas não a guerra, criança. A casa está alugada em nome de Diana. Encontrarão essa idiota morta, mas não ligarão Alberthi e a Ordem a isso. Nem o médico vai querer ser ligado a isso. Ele serve ao Sindicato.

EMPREGADA: - Lúcifer, podemos dizer que Mulder sequestrou a criança! A polícia irá atrás dele e a tomamos de volta.

THE GOLD COIN: - Esqueça.

A empregada suspira.Relaxa. Aos poucos as pernas enrugadas vão se tornando viçosas e lindas. O corpo de mulher idosa vai perdendo as rugas e tomando belas formas. Os peitos aumentam. Os cabelos quebrados caem em lindas mechas negras. O rosto se estica tornando-se jovem e lindo. Ela olha com seus olhos azuis para Coin.

EMPREGADA: - Lamento, General.

THE GOLD COIN: - Precisa aprender a perder, Lilith. Faz parte da guerra, criança. Um dia você perde, no outro você ganha. Entenda a lição aqui hoje: mesmo na derrota, você aprende a conhecer o seu inimigo. Victoria esteve aqui. E se esteve aqui, alguém enviou. E se alguém enviou aquela coisinha sem natureza definida, isso me diz que algo de anjo tem nela. E se cumpre ordens para proteger o trono do Tirano...

EMPREGADA: - Um Serafim? Não, não pode ser. Ela é humana.

THE GOLD COIN: - Pra você ver o que eles devem estar aprontando lá em cima. Perderam a vergonha totalmente. Mas mesmo que Mulder tenha levado a criança,o mundo ainda vai saber, Lilith. Espero que o mundo saiba que essa criança nasceu. O plano era esse, desvia-los da verdade. Vamos embora.

Os dois desaparecem no canto escuro do quarto.


Hospital Saint Peters - 9:17 A.M.- Hora Local

Mulder entra correndo no hospital, com o bebê nos braços, enrolado na manta. Resquícios de sangue na manta do bebê e nas roupas de Mulder.

MULDER: -(DESESPERADO) Alguém me ajuda! Ele acaba de nascer e não sei como está a saúde dele!

As enfermeiras correm, uma delas pega o bebê e entra correndo na enfermaria.

ENFERMEIRA #1: - Onde está a mãe? Você é o pai?

MULDER: - Ela morreu no parto. E não, eu não sou o pai.

ENFERMEIRA #1: - Senhor, vai ter que explicar essa história. Vou chamar a polícia.

MULDER: - Chame a polícia mesmo. E ligue para o FBI em Washington, diga que o ex-agente Mulder precisa falar com o diretor.


Esconderijo de C.G.B. Spender - Canadá - 10:36 A.M.

[Som: Madeleine Peyroux - Dance Me To The End Of Love]

Uma fazenda com pomar. Um chalé de madeira com varanda. O rádio ligado sobre a mesa. O cinzeiro cheio de bitucas. Uma xícara de café vazia. O Canceroso sopra a fumaça do cigarro. Está sentado numa cadeira de balanço, olhos fechados, ouvindo a música. O celular sobre a mesa toca. Ele abaixa o rádio. Observa o celular tocando. Espera por alguns momentos, então atende.

CANCEROSO: - (AO CELULAR) Fizemos um acordo. Eu não exporia mundialmente as provas das coisas que fizemos em troca da vida dos meus. Você não cumpriu. Agora Barbara Wallace vai ganhar o Pulitzer de melhor reportagem jornalística.

O Canceroso traga o cigarro.

CANCEROSO: - (AO CELULAR) Não minta pra mim. O serviço secreto israelense não está envolvido nisso. O mais próximo que aqueles judeus da CIA estiveram de Israel foi numa agência de viagens. Nunca quiseram matar o filho de Alberthi, mas atrair a atenção de Mulder para tomar Bryan. Vocês jamais matariam o anticristo, vocês o esperam.

O Canceroso apaga o cigarro.

CANCEROSO: - (AO CELULAR) Temos um impasse. Vocês não podem me matar. As provas que eu tenho não estão nas mãos de Mulder, nem mesmo nas pastas dos Arquivos X que entreguei a ele. Eu nunca seria tolo de colocar provas cabais nas mãos da minha família. O que tenho está espalhado por toda a América nas mãos de pessoas que nem sabem o que guardam... Sei que já verificaram os cromossomos e viram que Bryan não é como Victoria e não será útil pra vocês, nem vivo, quanto mais morto... O que eu quero é o meu neto de volta... Me entreguem o garoto e eu entrego o meu silêncio, senhor Presidente.

O Canceroso desliga. Acende outro cigarro. O celular toca novamente. O Canceroso atende.

CANCEROSO: - (AO CELULAR) Onde está o meu neto? ... Estou ouvindo. Sim, sei onde fica.

O Canceroso desliga e liga outro número.

CANCEROSO: - (AO CELULAR) Alex Krycek, quantas balas você tem em sua arma?


Local indefinido - Virgínia - 11:32 A.M.

Krycek entra pela porta dos fundos da casa, com a arma em punho. Aproxima-se em silêncio da sala. Percebe Bryan deitado no sofá, desacordado.

Som da descarga do banheiro. Dalida sai do banheiro e ao ver Krycek fica surpresa. Leva a mão para pegar a arma da cintura, mas Krycek mete três tiros nela. Dalida cai morta.

KRYCEK: - Não mato mulheres, nem crianças. Mas você ia matar uma criança. Então foi um impasse.

Krycek guarda a arma. Aproxima-se do sofá, nervoso. Bryan não se move. Krycek morde os lábios, tenso.

KRYCEK: - Cheguei tarde demais. Como ela pôde deixar você morrer sem oxigênio?

Krycek pega o menino nos braços, todo desajeitado. Sacode Bryan. Bryan começa a berrar. Krycek começa a rir.

KRYCEK: - Filhote de Mulder sacana, você me assustou! É isso aí, rapaz, chora bastante!!! Chora! Enquanto você estiver chorando, eu estou feliz!!! Chora, garoto!!! É pra chorar mesmo!!! Mostra que esses pulmões aguentam!!!

Krycek o ergue no ar, rindo, e depois o coloca contra o seu corpo. Bryan continua chorando.


Los Angeles - 10:32 A.M.- Hora Local

Os dois israelenses parados dentro do carro, observando o hospital, do outro lado da rua. A van da lavanderia passa por eles. Um atirador no carona acerta diversos disparos contra o carro deles, matando os dois. A van acelera até sumir de vista.


Hospital Saint Peters - 10:34 A.M.- Hora Local

Mulder sentado na sala de espera, cabisbaixo e algemado. Agentes do FBI o vigiam. O celular de um dos agentes toca. Ele sai para atender, diante do olhar cansado e perdido de Mulder. A enfermeira #2 se aproxima.

ENFERMEIRA #2: - Senhor, o menino está ótimo. Saúde perfeita.

A enfermeira se afasta. Mulder sorri, cansado. O agente volta, guardando o celular. Tira as algemas de Mulder.

AGENTE DO FBI: - Está livre. Pode ir embora.

Mulder se levanta. Sai da sala de espera. Passa pela recepção. O celular dele toca. Mulder puxa o celular e senta-se. Abatido e desanimado.

MULDER: - (AO CELULAR) Mulder...

Mulder faz pausa. Olhos marejando. Dor e mágoa misturadas a confusão de sentimentos dentro dele.

MULDER: - (AO CELULAR) Lamento, mas Diana morreu... Complicações no parto, ela teve uma hemorragia... A necropsia vai revelar a verdade e atestar que não estou mentindo... É um menino bonito e forte... Sim, ele está bem... Não. Não diga nada, eu guardarei seu segredo, não por você ou Diana, mas pela proteção da criança, ele é um inocente que não tem culpa de nada... Como eu descobri que você era o pai? Dedução por uma frase que Diana me disse, mas eu sempre fui um agente dispensável pra você... Suas últimas palavras foram "salve o meu filho"...

Mulder faz pausa. Magoado.

MULDER: - (AO CELULAR) Não, não me agradeça por ter salvo o SEU filho. Quero apenas que se lembre de que um dia, Scully e eu tivemos um filho também. Ele foi nos dado e tirado, sem piedade alguma. E você não fez nada... Por muitas vezes também nos tiraram um do outro e tudo o que nos era mais sagrado. Só quero agradecer por não se importar. Por nunca ter feito nada a nosso favor e só ter tornado tudo mais insuportável... Agora estou voltando para a minha família e a minha casa, para a vida que Scully e eu merecemos. Então venha conhecer e buscar o seu filho, diretor Carter. Adeus.

Mulder desliga. Fecha os olhos, soltando a respiração, como quem se liberta.


Dois dias depois...

Banco Interamericano – Washington D.C. – 1:35 P.M.

O segurança observa Mulder que segura a caixa de metal em suas mãos.

SEGURANÇA: - Tudo em ordem, Sr. Watkins?

MULDER: - Acho que sim.

O segurança dá as costas. Sai, fechando a porta de grades. Mulder coloca a caixa de metal sobre a mesa. Retira a chave do bolso. Coloca na fechadura da caixa, em expectativa.

MULDER: - Ok, vamos ver qual é a herança que deixou pra sua família, Spender...

Mulder abre a caixa. Dentro dela há um envelope, um rolo de fita adesiva e uma caixinha de metal. Mulder pega a caixinha de metal. Abre-a com cuidado. Percebe 4 pequenos frascos de vidro com algodão. Um com o nome dele, outro de Scully, Victoria e Bryan. Mulder ergue o frasco com o nome de Bryan. Olha o frasco contra a luz e percebe sobre o algodão um chip metálico menor que um grão de arroz. Mulder guarda o frasco na caixinha e a coloca no bolso. Pega o envelope. Abre-o, retirando um papel.

MULDER: - (LENDO) Considerações gerais sobre o Projeto Echelon... O dispositivo de rastreamento pessoal por satélites Echelon, denominado como Identidade Universal, será implantado nos cidadãos de todas as nações, sob alegação da necessidade de reforma da segurança pública, devido ao aumento proposital da violência urbana, ocasionado pelos planos socioeconômicos adotados anteriormente. Os governos apresentarão as vantagens do dispositivo e não será cobrado dos cidadãos nenhuma taxa para sua aquisição. Não possuir o chip será considerado crime inafiançável e passível da pena de morte, de acordo com a constituição do governo único. TODAS as pessoas serão convocadas por seus respectivos governos, para a apresentação imediata ao postos de saúde mais próximos, munidos de seus cartões de crédito, cheques bancários e demais documentos de identidade, que serão recolhidos e destruídos pelo governo único por não serem mais necessários. Cada ID – Identidade Universal – permitirá ao seu usuário comprovar sua identidade, nacionalidade, ficha criminal e seu crédito por meio de leitura eletrônica. Terá um único número, não sendo este re-aproveitável no caso da morte do portador.

Mulder olha para o segurança do banco. Ele está distraído lendo um jornal.

MULDER: - (LENDO EM VOZ BAIXA) Deve ser injetado por via subcutânea no polegar direito. No caso de deficientes físicos, poderá ser implantado na testa, para facilitar a verificação da identidade. O dispositivo não apresenta nenhuma forma de rejeição pelo organismo humano, sendo que em 24 horas o organismo do portador já assimila o nano dispositivo como sendo parte do corpo. Uma vez introduzido, o dispositivo não poderá ser removido, acidental ou intencionalmente. Em caso de tentativa de remoção o dispositivo expele uma toxina que age diretamente no sistema nervoso central causando falência respiratória e cardíaca, culminando com a morte.

Mulder respira fundo.

MULDER: - (LENDO) Considerações finais: Por questões de segurança, a emissão e baixas de IUs serão controladas por órgão competente, ligado diretamente ao exército da ONU, controlador dos satélites Echelon, sendo assim impossível a reprodução, falsificação e emissão indevida, bem como nenhum portador poderá ter duas identidades diferentes. A cada membro deste conselho e suas respectivas famílias não será necessário e nem aconselhável apresentar-se quando da convocação mundial. Estaremos disponibilizando diretamente em suas residências as IUs correspondentes que DEVEM ser aplicadas em casa, sem a necessidade de introdução subcutânea, pois foi comprovado o funcionamento deste dispositivo se apenas anexado com fita colante de camada fina sobre a pele, sendo assim, completamente inofensivo e podendo ser retirado quando da necessidade de privacidade.

Mulder guarda o papel e o envelope no bolso. Olha para a caixa vazia. Percebe um pedaço de envelope pardo que sai do fundo da caixa pelo lado de dentro. Mulder retira o fundo da caixa, curioso. Pega nas mãos o grande envelope. Há algo escrito à mão no envelope. Mulder lê.

CANCEROSO (OFF): - Sêneca disse: É preciso dizer a verdade apenas para quem está disposto a ouvi-la. Dei a você um conselho e uma verdade, acho que agora, você está disposto a ouvi-la: Aposente-se. Vá escrever e brincar com os seus filhos. E quando acontecer, use a fita adesiva.

Mulder sorri debochado.

MULDER: - Me aposentar... Você não tem duas bocas pra sustentar, hipoteca da casa e bens penhorados para cobrir empréstimos para uma agência de detetives que está no vermelho.

Mulder abre o envelope e puxa quatro títulos ao portador, cada um no valor de 1 milhão de dólares, todos em nome dele. Mulder fica boquiaberto. Começa a tremer as mãos olhando para os papéis.

MULDER: - ... (RINDO SOZINHO/ GRITA) Que desgraçado!

O segurança olha pra ele. Mulder disfarça. Guarda dentro do paletó e aproxima-se da porta de grades.

SEGURANÇA: - Já terminou, Sr. Watkins?

MULDER: - (NERVOSO) Já.

SEGURANÇA: - Algum problema? Faltou algo que deveria estar aí?

MULDER: - (RINDO DE NERVOSO) ... Acho que... Tinha coisa até demais.

O segurança sorri. Abre a porta de grades.


Residência dos Mulder – 5:45 P.M.

Baba ajeita as chuquinhas de Victoria. A sala cheia de bandeirinhas e balões. Um cartaz na parede com letras infantis dizendo: "Bem vindos ao lar Bryan e Mamãe!" Victoria está ansiosa. Vai pra perto da janela e observa a rua.

BABA: - Eles já devem estar chegando.

VICTORIA: - Ai, não aguento mais!

BABA: - Ei, se comporte. Quando sua mãe chegar vai estar muito cansada.

VICTORIA: - Eu sei. E o papai também... (GRITA) São eles!!!!!!

O carro de Mulder entra no pátio. Victoria corre pra abrir a porta. Observa apreensiva. Mulder ajuda Scully a descer. Scully segura Bryan nos braços. Meg vem com as sacolas.

SCULLY: -(SORRI) Docinho!

VICTORIA: - (AOS GRITOS) Mamãe!!!!!!!!

Victoria se agarra na cintura de Scully.

VICTORIA: - Que saudades! Que saudades!!!!

Eles entram. Scully abre um sorriso ao ver a sala toda decorada esperando por ela.

SCULLY: - Nossa, mas que recepção mais bonita! Quem fez aquele cartaz?

VICTORIA: - Fui eu! A Baba, a vovó e a tia Barbie ajudaram com os balões e as bandeirinhas...

MARGARET: - Vou colocar essas coisas lá em cima e fazer uma canja pra você.

SCULLY: - Ai, eu quero canjinha da mamãe. Tô morta de fome!

VICTORIA: - E também quero canjinha da vovó!

MULDER: - Acho que até eu preciso de uma canjinha.

BABA: - Aproveite, Meg. É a chance de envenenar o seu genro!

Mulder faz uma careta pra Baba. Meg sobe as escadas rindo. Victoria pulando em volta de Scully.

VICTORIA: -(EMPOLGADA) Deixa eu ver o maninho! Deixa eu ver!!!!!!!

Scully se inclina. Afasta a manta do rosto de Bryan, que está dormindo. Victoria abre um sorriso.

VICTORIA: - Agora sim o maninho tá bonito. Não tá mais roxo!

SCULLY: - (RINDO) Docinho, você também era roxa quando nasceu.

BABA: - Mas que coisinha mais linda!

SCULLY: -(SORRINDO BOBA/ FELIZ) Ele é lindo né?

BABA: - Ainda bem que puxou a você. Se fosse ao pai, estava ferrado!

MULDER: - (DEBOCHADO) Admita, Oda Mae, ele tem a minha beleza. Vai fazer sucesso com a mulherada.

BABA: - Você não tem espelho não, judeu sovina? (OLHANDO PRO BEBÊ) Ainda bem que não tem o seu nariz de fumar charuto na chuva!

Scully começa a rir. Mulder olha pra Baba com deboche.

MULDER: - Pode falar o que quiser. Mas esse aí eu acertei o tiro.

SCULLY: - (ERGUE A SOBRANCELHA) ... Homens...

BABA: - É, pelo menos acertou um. O outro teve que ser direcionado pela Scully.

Scully ri. Mulder fica sério.

SCULLY: - (RINDO) Ai, parem, não posso rir... Dói os pontos!

BABA: - ... Venha, Scully. Você precisa se deitar.

SCULLY: - Estou cansada de ficar deitada... Preciso de um banho, estou com cheiro de hospital...

BABA: - Ele é tão pequenino!

VICTORIA: - E eu nasci muito grande?

SCULLY: - Você? Quando eu estava com você na minha barriga pensei até que o médico tinha errado. Achei que fossem duas!

VICTORIA: - (RINDO) ... Nah!

Scully entrega Bryan pra Mulder. Abraça Victoria com força, dando um cheirinho nela.

SCULLY: - Estava com saudades da minha filhinha. Muitas saudades!!!

VICTORIA: -(SORRI) E eu com saudades de você. Ai, mamãe, você tá me apertando!

SCULLY: - Vem, ajuda a mamãe a subir. Depois você vai me contar tudo o que fez enquanto mamãe estava ausente. E quero desfile de modas de bonecas, já estou sabendo das peripécias que aconteceram por aqui.

Elas sobem as escadas. Baba segue atrás. Mulder senta-se no sofá, cansado, olhando pro filho num sorriso.

MULDER: - Bem vindo a essa família e a essa loucura toda, Campeão.

Mulder beija o filho na testa, num sorriso.


7:03 P.M.

No quarto do casal, Scully sentada na poltrona amamentado Bryan. Mulder admirando. Victoria observando curiosa.

VICTORIA: - Como é que entra leite aí dentro?

Mulder ri, Victoria o encara séria.

SCULLY: - (RINDO) Quando as mulheres engravidam, automaticamente produzem leite. Somos mamíferos, precisamos de leite quando pequenos.

VICTORIA: - Como os cachorrinhos, gatinhos, bezerrinhos...

SCULLY: - É.

VICTORIA: - (OLHANDO PRO SEU PEITO) Será que eu tenho também?

SCULLY: - (RINDO) Quando você tiver um bebê, também vai ter.

MULDER: - Criança tem cada pergunta... A inocência é uma coisa espetacular.

VICTORIA: - Ele é tão bonitinho! Eu posso ajudar a cuidar dele?

SCULLY: - Pode sim.

VICTORIA: - Eu também mamava?

SCULLY: - Claro. Aliás, você era muito comilona.

VICTORIA: - (SORRI) Por isso eu sou forte assim. Vamos, Bryan, você precisa mamar muito pra ficar forte.

Mulder puxa Victoria pra perto. Ela se abraça nele.

MULDER: - ... Não quero ser o cara que faz aquele papelão, mas... (CONTÉM A EMOÇÃO) ... Eu tenho uma família. Vocês não podem imaginar o quanto isso mexe com um homem. Especialmente comigo que nunca tive uma família de verdade.

SCULLY: - (SORRI) Agora tem, Mulder. Lamba as suas crias, você tem direito.

Mulder dá um cheirinho em Victoria. Levanta-se e beija Bryan na cabeça. Troca um selinho com Scully.

MULDER: - Vou tomar um banho. Preciso dormir um pouco.

Mulder vai pro banheiro. Victoria se aproxima e fica observando Bryan.

VICTORIA: - Ele dormiu?

SCULLY: - Tá quase dormindo...

VICTORIA: - Você tá bem? Não tá... Doendo?

SCULLY: - Estou bem... Docinho, lamento que tenha presenciado algo que você não possa compreender ainda... Quer conversar sobre isso?

VICTORIA: - Eu não sabia que os bebês nasciam assim... Eu me assustei sim. Mas deixei o susto de lado pra ajudar vocês... Doeu muito?

SCULLY: - Mas passa na mesma hora em que você vê essa coisinha linda nos seus braços. É mais importante dar a vida. A dor passa.

VICTORIA: - Eu nasci assim também?

SCULLY: - Sim. Quase todas as crianças nascem dessa maneira. Mas tem vezes que por algum problema, o médico precisa cortar a barriga da mamãe para tirar o bebê.

VICTORIA: - ... Ainda tá doendo?

SCULLY: - Não. Já passou... Estou orgulhosa do que fez. Muito orgulhosa. Se você não tivesse entrado no quarto pra ajudar, seu irmão teria morrido.

VICTORIA: - Agora que eu já sei das coisas, vou ser sua enfermeira, tá bom? Vou cuidar de você muito, muito, muito. Posso entender tudo o que você passou só pra me dar a vida. Quer alguma coisa, mamãe? Eu busco pra você.

SCULLY: - (SORRI) Não. Mas depois você pode trazer a canjinha da vovó.

VICTORIA: - Combinado. E você trate de repousar... Mamãe... Se um dia eu tiver um bebê, você cuida de mim?

SCULLY: - Claro que sim, minha filha. Isso será a minha alegria!

VICTORIA: - ... É, mas eu espero nunca ter.

SCULLY: - Docinho, não quero que fique traumatizada pelo que viu.

Scully a observa preocupada. Victoria respira fundo. Sorri.

VICTORIA: - Deixa pra lá. Como a gente que é mulher sofre, né mamãe? Esses homens não sabem nada do que é sofrimento.

SCULLY: - (RINDO) Com certeza.

VICTORIA: - E o papai ainda fica fazendo novela quando tá resfriado, que dói aqui e ali... Imagina se ele tivesse um filho!

SCULLY: - (RINDO) Ele não aguentaria.

VICTORIA: - Eu vou lá embaixo ajudar a Baba e a vovó. Se precisar de mim toque a sineta.

Scully percebe a sineta sobre o criado-mudo. Sorri.

SCULLY: - Onde conseguiu isso?

VICTORIA: - Pedi emprestado pra mãe do Darius.

Victoria sai. Scully sorri.

SCULLY: - Eu amo essa minha garotinha...

Victoria volta.

VICTORIA: - Mamãe, só tem uma coisa que eu quero perguntar.

SCULLY: - Pergunte.

VICTORIA: -(PENSATIVA) Se os bebês saem por baixo... Por onde é que eles entram? Tenho que saber né? Preciso me cuidar pra não ficar grávida, eu não quero bebês agora não! Isso aí é bonito, mas dói demais!

Scully respira fundo, tentando segurar uma gargalhada.

SCULLY: -Filha, quem sabe você me traz um chá? Algum dia a gente conversa sobre isso. Mas não agora.

Victoria sai. Scully sorri.

SCULLY: - Mas como é que vou explicar isso pra uma criança? Ai, essa minha filha tem cada uma! Ela tem sete anos e quer se cuidar pra não engravidar! (RINDO) Ai, Victoria, você sai com cada uma, filhinha! Eu não sei de onde tira tanta ideia!


10:12 P.M.

Mulder de costas pra porta, sentado ao lado do berço, observando emocionado o filho que está dormindo.

MULDER: -(SORRI) Não dá pra acreditar que você está aqui, Campeão.

Mulder passa o dedo na bochecha rosada de Bryan, que suspira dormindo, num beicinho.

MULDER: - (SORRI) Beicinho de Scully... (PEGA A MÃO DO FILHO) Mão de Mulder...

Victoria entra no quarto.

MULDER: - Scully, acho melhor colocarmos o berço dele no nosso quarto. Se Bryan tiver falta de ar, a gente vai perceber rápido.

Victoria afaga os cabelos de Mulder.

MULDER: - Ah, filha, desculpe. Pensei que fosse sua mãe.

VICTORIA: - Bryan não vai mais ter falta de ar, papai. Ele é saudável! Acredite no que tô falando.

MULDER: - (OLHANDO PRA ELA) ... Senta aqui, Pinguinho.

Mulder a põe no colo. Olha nos olhos da filha seriamente.

MULDER: - Estou ficando burro pra algumas coisas. Tenha paciência comigo. Quando me diz estas coisas, o que elas significam?

VICTORIA: - Que Bryan está bem. Só está fraquinho e precisa se alimentar pra ganhar peso. Mas aquilo passou, não vai voltar mais.Meu anjinho disse que Bryan foi curado, tá bom?

MULDER: - ... Que anjinho?

VICTORIA: - O Gabriel. Ele vem me visitar algumas vezes. Ele cuida de mim, papai. E cuida de quem eu amo.

Mulder sorri. A beija na testa.

MULDER: - Eu te amo, Pinguinho.

VICTORIA: -(SORRI) Também te amo, papai.

MULDER: - Queria que pudesse me responder certas coisas que guardo ocultas no meu coração.

VICTORIA: - ... Eu não posso dizer tudo, porque eu não sei tudo. E eu esqueço muitas coisas. E outras Gabriel pede segredo. E segredo é segredo, né papai? Mamãe diz que não se deve contar segredos confiados, isso é coisa de gente fofoqueira como a Nancy. É muito feio fazer isso.

MULDER: - (SORRI) É, você tá certa. E esses segredos são do céu, pertencem aos anjos e não aos homens.Mas você sabe que o fato de Bryan ter se recuperado foi um milagre.

VICTORIA: - Não foi milagre, papai. A doença dele é que foi aviso. Mas você não ouviu e foi pra lá matar aquela criancinha.

MULDER: - (EMUDECE/ PASMO) ... Como você...

VICTORIA: -Eu estava lá pra ajudar você. Tudo bem, eu não vou contar nada pra mamãe. Você conta pra ela. Mas fico feliz que não tenha matado o bebezinho.

MULDER: - (INCRÉDULO) Como assim, Victoria? O que está falando?

VICTORIA: - Eu saio do meu corpo, sabe? Posso voar pra bem longe e bem rápido. E depois volto. Acho que tô aprendendo melhor a fazer isso.

MULDER: - Em sonhos? Como funciona?

VICTORIA: - Não em sonhos. Eu apenas procuro aonde tenho que ir, fechos os olhos e vou. É fácil!

MULDER: - Ah, sim, muito fácil... Chamamos isso de visão remota e bilocação.

VICTORIA: - As pessoas fazem isso ou é outra mágica que só eu faço?

MULDER: - Existem alguns paranormais que enxergam lugares com a mente, isso é visão remota. E outros viajam até esse lugar com a mente, o que chamamos de bilocação. Você faz as duas coisas ao mesmo tempo. Nunca vi isso em qualquer Arquivo X. É como se você se teleportasse? Tipo o capitão Kirk quando sai da Enterprise?

VICTORIA: - Não, porque ele vai com o corpo. Eu deixo o meu corpo e vou voando. Papai, o que o seu coraçãozinho lhe disse quando Lúcifer quis negociar com você?

MULDER: - Bem, quando pensei com o coração, comecei a ver a verdade e assim joguei com ele pra ver se eu tava certo ou não. A forma como ele tentou me persuadir a matar o bebê ou trocá-lo por você, me disse que ele não poderia ser o pai. Um pai ama e ele não tinha nenhum amor por aquela criança. Não se importava com ela. E pais se importam com os filhos.

VICTORIA: - Papai, sempre pense com o coração. Sua razão não é das mais boas não. Mamãe é melhor nisso!

Mulder acha graça.

VICTORIA: -Papai, ele queria que pensassem que o bebê é filho do diabo, as pessoas pensam que o diabo vai ter um filho, essas coisas malucas que ficam vendo na tevê, essas interpretações erradas de profecias. Ele queria afastar as atenções do verdadeiro significado do anticristo.

MULDER: - Ele queria usar a criança como bode-expiatório? Lógico, Lúcifer não é idiota, ele é esperto demais! Então quem será o anticristo?

Victoria dá um beijo em Mulder e desce do colo dele. Mulder fica pensativo.

VICTORIA: - Acho que devia dormir. Você tá cansado. Se Bryan chorar, eu chamo vocês.

MULDER: - Não pensa que vai ficar acordada, você tem escola amanhã. Se não descansar, vai passar o dia se arrastando. O corpo e a mente precisam de descanso, certo?

VICTORIA: - Certo. O corpo e a mente precisamdescansar. Bons sonhos, papai!

Victoria sai do quarto.


2:12 A.M.

[Som: Erik Satie - Gnossienne 3 (por Bojan Gorišek)]

Bryan dorme tranquilo. O abajur aceso. A porta aberta.

Vemos no chão encerado, o rastro de pezinhos pequenos, que se formam pelo calor e depois somem. Vão até a poltrona.

Corta para o quarto de Victoria. O corpo dela sobre a cama, de olhos fechados, respirando, num sorriso.



X

07/07/2006

9 de Junho de 2020 às 06:01 0 Denunciar Insira Seguir história
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Fim

Conheça o autor

Lara One As fanfics da L. One são escritas em forma de roteiro adaptado, em episódios e dispostas por temporadas, como uma série de verdade. Uma alternativa shipper à mitologia da série de televisão Arquivo X. Siga-me para mais em https://www.facebook.com/laraone1

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