eduardo-cezar1586895645 Eduardo Cezar

A quarentena mexeu como todos nós. Nossa loucura irá nos aprisionar ou nos libertar dessa pandemia?


Ficção científica Todo o público.

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Quarentena

Está para fazer três meses que estou de isolamento. Com exceção do meu gato, não tenho outra companhia. Há dias que me pego sem vocalizar uma palavra sequer, apenas pensamentos. Em outros dias, a única comunicação possível é com bichano. Estou trabalhando em regime de home office, mas a ociosidade tem se mostrado uma inimiga maior do que o imaginado. Ainda lembro de quando recebi a notícia. Eu estava acompanhando as notícias do mundo, mas não tinha como imaginar que essa pandemia fosse se estender por tanto tempo. Logo os estados foram fechando suas fronteiras e as cidades aderindo ao distanciamento social. A rua aqui do condomínio passava suas tardes como passava as madrugadas, vazia.

Os dias começaram a ser repetitivos e já não havia sentido diferenciar um domingo de uma quinta-feira. Meu apartamento começou a ficar pequeno demais. Mas isso aconteceu depois de eu memorizar cada infiltração na parede, cada lajota da cozinha. Foi aí que eu decidi que mudaria alguma coisa, pelo menos. Quando me mudei para este apartamento, algumas coisas já estavam aqui e eu as mantive, como os balcões da cozinha, o banheiro e um painel para televisão na parede. Decidi que iria trocar o painel, encomendei outro pela internet e está para chegar hoje.

Estou sentado ao lado da janela observando a rua sem movimento e fumando um cigarro. Moro no único apartamento do térreo. Pelo o que eu entendi, era para ser o apartamento do síndico, mas aqui quem desempenha a função de síndico é a própria imobiliária. Além de antigo, antiquado talvez, é úmido e tem carpete. Itens que baixaram o valor do aluguel significantemente. Não perguntei se alguém havia falecido aqui por medo da resposta. O interfone também não funciona, então toda vez que consigo programar uma entrega fico esperando na janela.

A calçada é o meu pátio. Entre minha janela e passagem dos agora raros pedestres existe uma porção de uns três metros de terra cercado por uns arbustos muito malcuidados. Se aqui não fosse um bairro relativamente tranquilo e não fosse a rua da Brigada Militar, eu teria mais medo. Mesmo assim as grades das janelas sempre são trancadas à noite.

Caminhão à vista. Para chegar na porta de entrada do prédio me basta virar à esquerda quando saio do apartamento. Os entregadores usam máscaras assim como eu. Deixo-os colocar a entrega na sala, assino alguns papeis e me ocupo higienizando tudo. Meu gato vem conferir o que há de novo, cheirando cada detalhe. Apolo usa um cone de proteção, coitado, acabou de perder as clicas. Completou um ano na semana passada e felizmente a veterinária ainda atende em tempos de pandemia. Ele está muito magro. Até semana passada ele tinha uma liberdade de sair pelas janelas para passear no pátio da casa vizinha ao prédio, mas como esse cone ele não irá a lugar algum até completar dez dias de seu isolamento pós-cirurgia.

É quase meia-noite e estou removendo o painel antigo. Apolo dorme no sofá e eu termino a terceira lata de cerveja. Realidades novas para uma terça-feira. Ao retirar o painel fico de cara com uma quantidade absurda de poeira, teias de aranha e, para minha surpresa, um interruptor. Aperto-o para ver o que acontece e nada. Mas para que serve isso? Olho para a porta e vejo o interruptor de luz da sala. Vou até lá e aperto, as luzes se apagam como o normal. Volto ao novo botão na parede e ele revela sua utilidade: acende as luzes da sala. Praticidades ultrapassadas. Geralmente encontro interruptores conectados assim em escadarias. Olho para a sujeira que saiu do painel. Já tenho ocupação para o tempo livre de amanhã. Com sorte, para o resto da semana. Desligo a luz da sala no novo interruptor e sigo para meu quarto. Uma noite sem escovar os dentes não fará mal.

8 de Junho de 2020 às 23:57 0 Denunciar Insira Seguir história
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