ethan Ethan Madelaine

Há muito tempo, houve rumores de que uma estrela cadente caiu em uma montanha de pinheiros, e de sua cratera, a mais linda das árvores cresceu. Conta-se que a árvore continha toda a verdade sobre a natureza feliz dos humanos, aquela na qual, esquecemos conforme crescemos. Você conhece esta felicidade... Se chama infância.


Aventura Impróprio para crianças menores de 13 anos.

#floresta #criança #pã #felicidade #infância
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Em minha memória, encontrei diversos traços de mim que foram esquecidos. Ao olhar o vento cortante de inverno sobre as folhas secas do outono que passou, me questiono, o que trouxe essas memórias, o que trouxe o amargo sabor do frio, e o quanto eu o detestei durante muito tempo.

Vigiei novamente o vento, e entendi, que estas memórias foram apagadas por mim. Uma dor que eu queria esquecer, e que toda vez que a sinto, meu corpo apodrece.

Era uma manhã gélida, tão fria quanto a pele de alguém morto. Acordei devido a grande quantidade de chuva que trilhava em minha janela e meu peito batia como se eu estivesse em um ataque de pânico. Olhos encarando o teto, boca seca, dificuldade em respirar. Poderia traçar diferentes sensações naquele instante entre acordar e mexer meu braço, porém a única sensação que definiria tudo isto, era medo. Puxei meu cobertor, e num lampejo de agonia, tapei meu corpo pequeno com medo. Medo de escuro, medo de ficar sozinha. Era um medo tão bobo, que meus pais haviam deixado uma luz de emergência gigantesca dentro do meu quarto, no entanto, naquela noite, não havia luz, nem mesmo nas emergências.

Entre o susto de meu sonho e meu pequeno ataque de pânico, pude sentir minha respiração… Era tão triste, estar ali sozinha, que não pude segurar as lágrimas, dormindo, em algum momento que não sei dizer.


...π...


Na manhã do dia seguinte, a casa continuava escura. Talvez, as nuvens ainda não haviam se ido, e com isso, a claridade do dia estava mais amena. Coloquei meus pés no chão de madeira, sentando na cama e olhando fixamente para a janela a minha frente que jazia um pouco de luz. Retirei as madeixas da minha pele, esta que colava devido as lágrimas salinas da noite anterior. O silêncio era mortal, e eu sabia que seria mais longo a cada dia.

Levantei, e rapidamente estava no corredor de três quartos e um banheiro do segundo piso da minha casa. Fechei minha porta assim que sai, deixando-a no mesmo jeito que as outras a sua volta. A luz não voltará, como muitas coisas não voltarão. Descendo as escadas, pude ir até o hall de entrada, onde esquerda ficava a cozinha, e a direita a sala de estar com a lareira. Havia mais algumas lenhas ao seu lado, prestes a serem queimadas assim que eu comesse algo.

Fui a cozinha, ampla e cheia de armários, com uma bancada em seu centro, pegando uma de suas cadeiras, e subindo a um dos armários, agarrando uma das últimas caixa de cereais. Logo desci, e abri a geladeira que também não estava tão abastada quanto era antigamente.

Pude me deliciar com meu café da manhã, jogando todas minhas frustrações na comida fresca que acabava de comer. Era mais um dia comum.

Andei até a sala, e entre as cortinas pude visualizar a neve caindo lá fora, vagando meus pensamentos nos flocos sobre a grama verde. Se alguém passasse por ali, diria que eu era o fantasma do cereal, devido a tigela na mão, e vestido-pijama branco, que tinha renda em suas alças. Porém ninguém passaria, morávamos sozinhos em um morro cheio de árvores altas em nossa volta. Já não sentia mais meus pés, então tratei de correr para meu quarto, e encontrar as roupas mais grossas possíveis. Tirei dali uma galocha amarela, uma camiseta comprida branca, uma calça marrom que tinha pele por dentro, e uma japona de neve azul, com zíper que ia até o capuz. Corri no quarto de minha mãe, e peguei sua meia grossa, uma luva térmica preta, dirigindo-me para a rua. Há dias não saia para a rua com medo de que me pegassem, porém hoje mudaria tudo. Estava nevando, e a neve chamava meu nome.

Saltitei até a porta de saída, e o branco já estava acobertando toda a grama rua, como um passe de mágica, a neve caia mais rápido, mais forte. Vaguei pela grama, e observei os pinheiros nevados acima do horizonte. O morro onde nossa casa ficava estava branco, e o vento que balança a neve no ar era constante e cortante. Folhas secas eram preenchidas de neve, e o outono havia se ido do dia para a noite. Observei algo naquela neve num primeiro relance, porém ignorei completamente. Não poderia ir mais longe, eu já estava na estrada de barro, uns vinte passos da minha casa. Passos de adolescente, ou pré-adolescente... Ok, criança.

- Um, dois, três, vamos se ver outra vez! – Cantarolei – Quatro, cinco, seis, meus pais estarão de volta outra vez! – Rimei sorrindo – Sete, oito, nove, a neve...

- Droga! Não consigo rimar! – Gritei, emburrada ao olhar que já não estava mais tão perto de casa, e a neve atrás de mim cresceria consideravelmente, pois já estava batendo em meu joelho. Até onde eu havia ido?

Observei o céu, e segui a linha do horizonte, e diversos pinheiros brancos zuniam ao som do vento, todos enfileirados em um caminho até uma pequena ponte de pedra. Sorri, isto sim era uma coisa diferente. A ponte estava igualmente branca, como se a neve caísse durante dias sobre ela, e abaixo dela, um lago congelado, refletindo a cor azul do fundo. Vagarosamente devido a neve, cheguei a ponte de tijolos, e me segurei em um dos seus lados para me puxar do meio do mar de neve que cada vez mais crescia. Mais alguns passos, no meio da ponte, avistei uma arvore branca, com folhas de estranha coloração. Azul brilhante.

Corri, satisfeita perante minha descoberta mais incrível, resvalando sobre o gelo da ponte, e em direção a clareira que jazia na volta da árvore entorpecedora. Era azul, apenas isto me passava pela cabeça. O chão a sua volta era liso e continha uma pequena camada de neve, sobreposta por diversas folhas azuis, caídas da árvore, brilhando como luz no branco do dia. Esta árvore era mais baixa, talvez um adulto chegasse até o fim de seu tronco, porém seus galhos eram finos e cheios das folhas estranhas, completamente anormal para aquela neve, pois a mesma derretia sobre as folhas, sumindo.

Olhei para cima, atônita pela diferença entre os pinheiros brancos, e aquela exuberância, e consenti. Era uma descoberta e tanto.

- Você não deveria estar aqui - Uma voz um tanto grossa, mas leve e calma arregalou meus olhos. Um garoto aparecia por de trás da árvore, de cabelos igualmente azuis, e olhos tão belos quanto as folhas ao seu lado. Seu rosto era pálido morte, como se não houvesse sangue em suas entranhas, com lábios igualmente brancos. Era ligeiramente mais velho, e mais alto, e seus cílios eram como copas de árvores no começo do ruir da neve, pequenas pontas brancas. Ele vestia uma calça caqui, e uma camiseta simples de algodão preta, e segurava um pedaço de pau, que mais parecia um pequeno cajado.

- Quem é você? – Disse eu com toda coragem que havia me faltado durante anos. Uma anã levada de lá para cá.

- Você não deveria estar aqui, vá embora! – Respondeu firme, como uma rocha presa da espada de “Excalibur”.

- Eu não vou a lugar algum! Esta árvore fui eu a descobrir! – Um sorriso apareceu no seu rosto em desdém a minhas palavras tolas. Ora, eu deveria argumentar! – Não seja mal-educado! Acabei de chegar, e está frio!

- É por isso que não deveria estar aqui. Você deve partir. – Ele assentiu, fechando a boca, comprimindo os lábios em claro desgosto, enchendo as bochechas de ar. Ele tentava ser fofo?

- Não posso partir agora, a neve está muito alta. – Bufei, em resposta a sua cara antipática e automaticamente fofa. – Por favor, me ajude. – Pedi.

Ele observou o céu por um momento, e vi suspirar mais de uma vez, e mais vezes do que eu gostaria que uma pessoa que eu mal havia conhecido fizesse. Ele estava pensando se eu poderia ficar? Será que ele não via a grande quantidade de neve que caia? Quem deixaria uma garota do meu tamanho sair assim?

- Tudo bem, fique, mas não podemos acender fogo. – Consenti, e andei delicadamente para mais pra baixo da árvore.

- Qual seu nome? – Ressentido, ele se virou de costas, apoiando seus braços em seu cajado, e apenas ali, pude perceber seus pés de bode, com seus cascos brancos e limpos, e em suas coxas, seu pelo azul. – Você é um bode! – Ele virou, e seus olhos azuis eram densos e nervosos.

- Sua cria da infelicidade, como ousa me chamar de bode! – Ele gritou, e um soar estranho saiu de sua garganta, como um bufar selvagem, mais agressivo. – Eu sou o PÃ!

- Quem? – Perguntei, ignorando sua raiva e má-educação, e procurando seus chifres dentro de seu cabelo azul. – Cadê seus chifres, menino-bode?

- Você vai ver quem é menino-bode aqui! – E com seu cajado, Pã me acertou na cabeça, não tão forte, mas não fraco.

- AI! GROSSEIRO! – Gritei, coçando minha cabeça. – Não se bate em uma mulher, principalmente um homem que nem você.

- Não sou homem, sou um PÃ! – Cruzando os braços, ele ressentiu minhas palavras estalando seus lábios. – Peça desculpas, cria.

- Você me chamou de cria da infelicidade! Você que me deve desculpas! – Gritei, roubando o cajado de suas mãos, e acertando-o nas pernas, fazendo cambalear para o lado.

-AI! Droga, você me machucou! – Ele grunhiu, e ressoou, como um choro humano.

- DESCULPA! – Andei ao seu encalço, parada por um súbito empurrão, me fazendo deitar no chão.

- Não me toque, droga! Devolva meu cajado! – Ele puxou-o de minhas mãos, me fazendo rir.

Fazia alguns dias que não ria. Alguns tantos dias. E estar ali, naquele momento, pude sentir um pouco daquilo que perdi, e foi naquele instante, no final da risada feliz, que desandei a chorar, como uma criança, que eu era.

Tateei a árvore estranha entre minhas lágrimas que farpavam meu rosto como agulhas de dor. Meu dorso encostou sobre o tronco, e desatei a chorar como há muito tempo não chorava.

- Ei, não chora, desculpa, não quis fazer isso com você. – Senti uma mão afagar meus cabelos, e por um instante, achei que havia resolvido, porém o frio me fazia tremer, e acredito que Pã havia notado. – Tudo bem, vamos te aquecer.

Fiquei de olhos fechados por um longo tempo, apenas ouvindo os passos de Pã sobre a neve, e o barulho de folhas se amassando. Não ouvi o fósforo, nem mesmo o fogo queimar, porém eu já estava aquecida, como um pequeno torpor.

- Pode abrir os olhos, prometo não encarar você – E eu abri.

À minha frente, uma pequena fogueira azul estalava, seu combustível eram as folhas azuis da árvore, porém não pareciam queimar, eram mais como um cintilar, ou uma erupção. Pã estava sentado em um pedaço de madeira de pinheiro, do outro lado da fogueira. Seu corpo curvava-se, apoiando-se sobre seu cajado e como um pensador, me analisava com seu nariz redondo.

- Desculpe. – Ele disse novamente.

- T-tudo bem. – Tateei o chão, firmando meu corpo para ficar mais perto da fogueira. – Desculpe. Não deveria forçar amizades, minha mãe sempre disse isso. – Ele assentiu com a cabeça, e eu sorri. – Obrigada pela fogueira, é linda. Só não entendo como funciona.

- Essa árvore não queima, nunca. Por isso disse que não poderia ter fogueira. Mas juntando suas folhas, ela cresce, e gera quentura. – Olhei novamente para a fogueira, e não via o crescimento de que ele falava. – Onde está sua mãe? – Desviei meu olhar, e me sentei em posição fetal. Falar em voz alta, poderia me fazer chorar. – Tudo bem, pode falar, você não vai chorar.

- Como sabe disso? – Perguntei.

- A fogueira não vai deixar você chorar. – Eu deveria acreditar? Qual a possibilidade de uma fogueira fazer isso? Bom, aquela fogueira parecia poder fazer qualquer coisa.

- Minha mãe e meu pai saíram a alguns dias... – Eu não estava chorando. – E eles não voltaram ainda. Disseram que iam voltar, mas isto não aconteceu ainda. – Suspirei, era um alívio conversar.

- Qual o nome deles? – Eu não sabia. Pela primeira vez alguém me perguntava aquilo, e eu não sabia. Como alguém não saberia o nome dos pais?

- Eu não sei, é mãe e pai. – Eu disse, e Pã me olhou com uma cara de desdém. – Desculpe, é idiota, eu sei.

- Não, eu que peço desculpas. Eu não tenho pais, não posso julgar você. – E o silencio novamente nos deixou apáticos. Após o décimo crepitar da fogueira, algo me surgiu a mente.

- O que é um Pã? – Ele sorriu, e eu novamente desviei meus olhos, enchendo minhas bochechas de ar. Eu tinha vergonha de falar com as pessoas. Fora meus pais, eu não falava com outros.

Acho que ele demorou um tanto para responder, pois o barulho do vento frio era tão audível quando a crepitação das folhas. Por um momento achei que ele havia ido embora.

- É um guardião da floresta, mais precisamente, o Pã é um espírito de uma árvore. Neste caso, se esta árvore na qual você se encosta está aí, é porque eu estou aqui. – Ele grunhiu alguma coisa, e logo reiniciou. – Alguns nos confundem com Faunos, os grandes e chifrudos Faunos, mas nossos chifres não crescem. Temos apenas leves ondulações que se escondem em nossa cabelereira. - Por algum motivo, parecia que alguma coisa sobre ele era escondida. Como se ele não pudesse dizer. – Só nascemos em raras ocasiões... É isso.

- Mas qual é o motivo? – Virei-me para ele, agora curiosa. – Qual o motivo dessa mistura de aparências, humana, bode...? – Ele sorriu.

- Qual a resposta do mundo? – E eu entendi. Assim como eu, nossas respostas eram mínimas para a nossa existência.

- Obrigada.

- A neve esta se indo, olhe para além da ponte, há um caminho. – A neve havia se dispersado, e já não caía mais como antes. Talvez algo quente tivesse a levado embora. – Vou pedir para alguns amigos da floresta procurarem pelos seus pais. Desculpe, não perguntei seu nome ainda...

Enquanto eu caminhava em direção a ponte, me virei:

- Meu nome... – Por um momento, por um breve momento, achei que não sabia meu nome. – É Levana.

E me virei novamente para a ponte, indo para casa. Ele não sorriu quando disse meu nome.

Ao entrar em casa, a luz voltara, e eu não precisaria mais da lareira naquele momento. Cansada, meus pés frios pediam o calor de um cobertor, corri para meu quarto, em prol desta necessidade. Coloquei mais de um cobertor sobre mim, e ao olhar pela janela, pude notar que não havia mais luz no lado de fora. Pelo menos, por esta noite, todas as luzes da casa ficariam acesas.

5 de Junho de 2020 às 02:06 0 Denunciar Insira Seguir história
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