antonia-noronha1588257786 Antónia Noronha

[Desafio Escrita Um Mundo Paralelo] Ano 2060... Um novo virus ameaça o futuro da humanidade. Mas será realmente algo novo? Ou será o regresso de um passado?


Ficção científica Todo o público.

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Bernardo, o Ídolo!

Júlia acordou às habituais sete horas da manhã. Esticou-se preguiçosamente na cama e suspirou. Lembrou-se que o avô daí a pouco também iria acordar. Então levantou-se pesadamente e dirigiu-se para a casa de banho para tomar um duche. Depois de se vestir, dirigiu-se à cozinha e iniciou a sua rotina matinal.

Assim que entrou na cozinha, as luzes acenderam automaticamente, bem como o holograma que apresentava as noticias matinais no canal do costume.

- Bom dia Júlia! Que deseja tomar para o pequeno-almoço? - Ouvia-se uma voz vinda das paredes de sua casa falando com ela.

- Para o avô podem ser as papas de aveia do costume, não muito quentes, e sumo de laranja. Para mim pode ser umas torradas com manteiga e um café bem quente, por favor.

Júlia pedia sempre com jeito, apesar de estar sempre a conversar com um computador. Também não pedia para a enfermeira privada do avô porque ela fazia sempre o seu pedido assim que chegava lá. Toda a sua casa estava equipada com a tecnologia de ponta. Apenas tinha de dar ordens e as coisas rapidamente eram feitas.

Uma máquina começou a fazer o pedido de Júlia. Esta levantou a cabeça e olhou para o rodapé do holograma e viu uma notícia que a preocupou.

- Ísis, aumenta o volume da televisão, por favor.

- Acabamos de receber novas informações! - Anunciou a mulher naquele holograma. - Estão a ser identificados cada vez mais casos de pessoas infetadas por todo o mundo com este novo virus. Os investigadores de vários países ainda não conseguiram apurar a sua origem e estão a reunir todos os esforços para encontrar uma cura. As informações que os especialistas possuem é que se trata de um virus altamente contagioso e apresenta alguns sintomas como febre alta, tosse e dificuldades respiratórias. Ainda não se conseguiu apurar o número de vítimas mortais. E agora deixo-vos com as notícias do desporto. - Terminou a jornalista, mudando de assunto.

- Não acredito! Está a voltar outra vez!

Júlia virou-se e viu o avô a entrar na cozinha na sua cadeira de rodas empurrada pela sua enfermeira pessoal. Bernardo já tinha 78 anos. Tinha sido um médico de clínica geral muito conceituado e respeitado enquanto mantinha a sua prática. Ele tinha criado e educado Júlia desde que ela tinha 2 anos de idade, quando ambos os pais haviam falecido. Bernardo tinha sido uma inspiração para Júlia, que acabou por se formar em biomedicina. Fascinava-a poder descobrir a forma como as doenças surgiam, se manifestavam e principalmente de encontrar a cura para as mesmas! E o avô era sábio e muito paciente, tendo-lhe ensinado tudo o que sabia e que poderia ajudá-la a ser uma boa profissional.

- Oh senhor doutor Bernardo, de que está a falar? - Brincou Júlia, chegando-se perto dele e beijando-lhe a testa como um gesto de afeição.

- O Covid! O Covid está a voltar! Mas não é possível! Ele foi dizimado! - Voltou o velho médico a murmurar com olhar louco.

Bernardo de há uns meses para cá tinha começado a apresentar sintomas de alzheimer com uma perda de memória marcadamente severa.

- Coitadinho... Deve ser algum delírio da doença... - Pensou Júlia, olhando com pena para o seu avô. - Ísis, desliga a televisão, por favor.

A televisão desligou-se em segundos. Júlia achou que aquelas noticias tinham perturbado o seu avô que nos últimos dias tinha estado bem e com longos períodos de lucidez.

- Oh avô, tem calma. Senta-se aqui à minha beira e vamos comer que as suas papas estão quase prontas.

Milena, a enfermeira, estacionou a cadeira de rodas do velho médico ao lado da sua neta e sentou-se ao lado dele. Enquanto comia o seu pequeno almoço, Milena ia dando as papas a Bernardo que todos os dias se maravilhava com elas. Júlia olhava com pena no coração e emoção no olhar para aquela pessoa que tinha sido mais que um avô, tinha sido um pai e um exemplo de vida.

- Eu sei que pensas que estou a ficar demente e que não digo coisa com coisa. - Começou o velho médico, alcançando e afagando a mão da sua neta. - Mas o que te estou a dizer é verdade. É o Covid! - E dito isto calou-se.

O resto do pequeno-almoço foi calmo. Júlia pensava que a demência do avô estava a piorar cada vez mais. Também pensou que deveria falar com a Milena acerca desta situação e de como poderiam fazer com que não avançasse tão rapidamente.

Júlia saiu para trabalhar. Mas antes passou pelo escritório do avô. À entrada viu ele sentado de forma imponente como sempre à sua secretária. Folheava uns cadernos e tinha o computador ligado. Ele nunca se tinha adaptado às novas tecnologias, por isso continuava a usar os computadores antigos. Milena estava sentada ao seu lado.

- Provavelmente está a fazer os seus exercícios de estimulação. - Pensou Júlia, aproximando-se do avô.

Chegando perto dele, baixou-se e beijou-lhe novamente a fronte. Rapidamente desviou o olhar para o ecrã do computador. Haviam diversas fórmulas matemáticas, bem como nas folhas que o velho médico tinha à sua frente. Pensou que ele apenas estaria a tentar recordar um passado.

- Bom senhor doutor Bernardo, a sua neta tem de ir para o trabalho, mas regresso de vez depois do almoço está bem?

O velho médico soltou um grunhido, não prestando atenção nenhuma à neta. Ele estava demasiado entretido naqueles papéis e documentos.

Júlia saiu de casa e foi para o laboratório onde trabalhava. Enquanto vestia a sua bata, foi abordada pelo seu chefe, que começou a falar com todos à sua roda.

- Mudança de planos! Como sabem o planeta está a deparar-se com uma espécie de virus novo. Todos os projetos e investigações aqui desenvolvidas foram analisadas e a maioria irá ficar suspensa! Temos indicações para dar prioridade ao estudo desse novo virus! Todos os envolvidos terão de pôr em prática medidas de prevenção. Para além das luvas terão de usar fatos especiais, máscaras cirúrgicas, óculos de proteção. Não sabemos praticamente nada acerca deste virus, muito menos como se propaga. Por isso todo o cuidado é pouco!

Todos os seus colegas foram apanhados de surpresa. A maioria ficou frustrada por ver os seus trabalhos suspensos. Júlia apesar de tudo, achou que seria interessante intervir ao nível deste virus que a cada dia ganhava cada vez mais importância.

- Júlia? - Chamou o seu chefe. - Fecha a porta por favor. - Pediu ele e ela assim o fez. - Eu sinto muito, mas tenho de te mandar para casa.

- O quê? - Júlia estava confusa. - Estás a despedir-me?

- Não! Nada disso! Ainda não há certezas, mas acredita-se que esse virus atua de forma mais letal em idosos e pessoas com alguns problemas de saúde. E como não sabemos a forma de contágio, não ficarei de consciência tranquila se acontecesse alguma coisa ao doutor Bernardo.

- Mas esta é uma investigação única na vida! Tu sabes perfeitamente que daqui a dias será decretada a evolução de epidemia para pandemia. Sabes que precisas de todos os esforços para combater isso!

- Sinto muito Júlia, mas já está decidido. Se quiseres podes continuar alguns estudos que tens vindo a desenvolver aqui. Mas não te quero perto deste virus. Nunca me iria perdoar se acontecesse alguma coisa. Não te preocupes com a tua renumeração que se mantém. Quando quiseres podes ir para casa.

Júlia saiu completamente possuída daquele gabinete. Ela sentia-se injustiçada pois sempre deu tudo de si para aquele laboratório e agora era assim que lhe retribuíam! Ela estava a reunir as suas coisas e alguns documentos de investigações para levar consigo, quando o seu telemóvel tocou.

- Atender! - Ordenou Júlia, sem sequer tocar no telemóvel.

- Júlia, por favor! Venha para casa! É o seu avô! - Júlia ouviu a voz de Milena no seu ouvido. Ela falava rapidamente atropelando cada palavra pronunciada.

- Mas que se passou? - Perguntou Júlia, completamente assustada.

- Já chamei o médico. Ele já o está a observar. Mas venha rapidamente!

Júlia enfiou uma manga do casaco num braço e pegou na sua pasta com a outra e saiu a correr do laboratório. Meteu-se no carro e mais rápido do que nunca dirigiu-se para casa.

- Que se passou contigo? - Questionava-se Júlia muito preocupada, mas ainda mais aterrorizada com a possibilidade de vir a perder o seu ídolo.

2 de Junho de 2020 às 23:32 3 Denunciar Insira Seguir história
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CC C Clark Carbonera
Acho muito legal a ideia da casa tecnológica...eu já vi uma matéria sobre uma geladeira (ou um fogão, podia ser um ou outro) que te apontava possíveis receitas pra cozinhar. Adeus livros de receitas da família (ok, nunca abandonaria estes hehe)
June 21, 2020, 18:27

  • Antónia Noronha Antónia Noronha
    Ainda bem que achaste uma boa ideia. Tendo em conta que a história se passa no ano 2060 tentei imaginar o que poderiamos ter em termos tecnológicos nessa altura... ahahah obrigada pela leitura :) June 21, 2020, 18:37
  • C C C Clark Carbonera
    A ideia dos hologramas para as famílias reconhecerem os corpos também é muito boa. Nunca pensei nisso! June 21, 2020, 19:01
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