hayafuru

Jorel, um senhor acostumado com a mísera vida que tinha, jamais imaginava que iria ter tempo para ver algo inacreditável: uma criatura conhecida por "sereia ametista", apelido dado pelos visitantes do Aquário Municipal onde trabalha há longos anos. Em meio a rotina monótona, o zelador se vê encantado pela beleza exótica do bicho, mas não imaginava ser tarde demais para criar algum tipo de relacionamento com ela.


Conto Impróprio para crianças menores de 13 anos.

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Semelhanças ditas em um sussurro

Varria de um lado para o outro; os papéis de bala deixados ali pelos visitantes que não tinham o menor senso de educação eram levados juntamente com as embalagens, pulseiras de entrada e sabe-se lá mais o quê. Depois de anos trabalhando como zelador no Aquário Municipal — exatamente longos quarenta e dois anos —, Jorel já não se importava mais com as coisas que iam para o lixo, no final seriam descartadas.

O plano inicial era aceitar o trabalho para pagar a faculdade de Arquitetura, mas o jovem, de vinte anos na época, não contou que sua área iria sofrer baixas e arranjar emprego seria impossível. Não contou também que ficaria acomodado no cargo e que hoje em dia ainda estaria exercendo a mesma função de anos atrás.

Jorel não se orgulhava, na verdade, tinha vergonha dessa parte da sua vida. Havia desistido de um sonho e hoje se contentava com o que a vida tinha lhe dado: o básico. Era grato, claro, mas fingia para si mesmo que nunca teve oportunidades para crescer na profissão.

Apesar de tudo, algo interessante aconteceu e “ele” observava o homem de boina varrer naquele exato momento por trás do vidro grosso que se estendia por todo o salão da “sereia ametista”, como foi dito pelos visitantes devido a coloração arroxeada e brilhante presente por toda a pele da criatura. Jorel não sabia o nome científico dela, mas estava lá quando o Urso Polar perdeu os holofotes para a sereia estranha anos atrás. Pensando bem, o zelador nunca achou realmente que o peixe colorido se assemelhava a criatura encantadora que enganava homens tolos, exceto pela cauda de peixe que lhe substitua as pernas, era apenas um modo de definir aquilo que flutuava na água. Nos primeiros dias, Jorel chamou de "mancha aquática", mas após alguns meses passou a usar o apelido mais comum a fim de facilitar ao se referir ao bicho. O peitoral desnudo e reto fazia os visitantes chamá-lo de “ele”, mas Jorel não tinha certeza disso, pelo menos, nunca teve uma confirmação dos biólogos marinhos que estudavam a criatura todo santo dia.

A princípio, Jorel teve medo da face reta, sem boca, nariz ou orelhas, apenas com dois círculos negros que o engolia caso olhasse por muito tempo. Teve medo dos ossos da costela complemente expostos e da vértebra que sustentava o busto e fazia ligação com a cintura; além dos corais no topo da cabeça que se espalhavam pelo restante do corpo, isso não poderia ser natural! Ficou indignado com os espinhos que lembravam pedras, verdadeiras joias, presentes por todos os ossos visíveis, ombros e calda; mas, principalmente, teve medo do som que fazia quando um visitante corajoso o olhava fixamente e ia embora, som este que repetia quando ele ficava sozinho.

Apesar de tudo isso, hoje em dia, Jorel já não se incomodava mais — como tudo em sua mísera vida. Varria perto do aquário e nem se importava com a criatura lhe olhando tão próximo, com as mãos de dois dedos grudadas no vidro temperado, como se aquilo fosse a coisa mais interessante que havia visto durante toda a sua vida. A aproximação era tanta, que Jorel conseguia ouvir sons estranhos e indecifráveis vindo dele, parecidos com murmúrios; gostava de imaginar que ele queria conversar, mas Jorel não iria falar com uma criatura dessas, não. Ou iria?

Varria de um lado para o outro. O cômodo estava vazio, apenas as luzes do aquário clareavam o salão, que sempre se manteve em uma temperatura gélida. O bicho encarava o homem de boina, nadava junto com os passos que o zelador dava e o olhava fixamente.

— Eu poderia te dar a vassoura, quer? — A criatura, como esperado, não disse nada. Jorel riu de si mesmo por estar falando com ela.

Voltou a varrer, agora olhando de relance para o bicho no aquário gigante. Era triste vê-lo preso ali, sem ninguém ao seu lado. De certa forma, ele e a criatura eram semelhantes, afinal, Jorel não tinha ninguém o esperando em casa além da cacatua, que, ironicamente, também estava presa em uma gaiola.

Riu abafado de sua própria hipocrisia.

Pela primeira vez em anos, Jorel parou de varrer e olhou com atenção nos olhos negros que já o observavam há tempos. Era uma criatura extremamente bonita, embora fosse uma beleza muito exótica e assustadora, chegando a gerar calafrios no senhor. Olhando assim, tão de perto, o zelador conseguia ver ali um vazio enorme refletindo na escuridão daquelas orbes escuras, uma sensação próxima a de solidão. O que Jorel não imaginava, era que esse sentimento não vinha apenas do peixe estranho mas dele também.

A criatura colocou a mão no vidro, parecia compreender a situação.

— Até que você não é tão assustador assim — murmurou, voltando a varrer e se divertindo com as acrobacias que a criatura fazia para chamar a atenção.

Se Jorel soubesse que em poucos dias não poderia ver mais a criatura devido a uma doença séria que estava desenvolvendo naquele momento, não iria fazer amizade com ela ou fazê-la se apegar. Se ele soubesse que morreria no hospital público da cidade e que a criatura ficaria lhe esperando para varrer o salão durante os próximos anos, Jorel jamais teria interagindo com ela a fim de evitar mais um sofrimento para ela, que já acreditava ter criado uma relação em meio àquele mundo totalmente diferente do seu.

1 de Junho de 2020 às 17:47 12 Denunciar Insira Seguir história
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Fim

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Inkspired Brasil Inkspired Brasil
Olá, Hayafuru! Somos do time de Comunidade da Embaixada Brasileira do Inkspired, responsáveis pelo desafio Monstros Ink., e ficamos muito felizes com a sua participação; é sempre bom ver essa disposição para a escrita. Bom, vamos lá! É de ressaltar o começo pacato e melancólico do Jorel. É muito interessante como a descrição do interior de Jorel, seus pensamentos e seu sentir, concedeu uma tênue visão do exterior: o Aquário onde trabalha, já vazio pelo horário, e o aquário da criatura, que despeja uma luz fraca sobre o chão e móveis. No entanto, a atenção é voltada mais para a criatura que o observa, e lá, na imaginação, parece vir a luz mais vibrante e de um azul marinho. As informações da vida de Jorel foram poucas, mas objetivas para a história. Ele está melancólico, tudo bem, e apenas os pontos mais fortes que justificam essa melancolia são explanados na história. Esse poder de síntese é essencial em histórias com um ritmo mais lento como a sua, parabéns por isso! Também há a descrição da criatura ametista: uma beleza exótica e assustadora que chama a atenção de Jorel. Seria muito bom ver a relação se desenrolar até, de fato, Jorel sucumbir à sua doença. A atmosfera da história combinou muito com a criatura. Achamos interessantíssimo ela não ter maldade em si; apesar de ser um monstro (pela definição característica a palavra), a criatura é a mais inocente da história. A parte em que ela começa a nadar de um lado para o outro para lhe chamar a atenção e mesmo o fim, quando descobrimos que ela sente uma conexão com o Jorel. Parabéns mesmo por essas descrições! E aqui é a deixa para levantar partes que mereciam sua maior atenção. Existem muitas frases longuíssimas. Achamos que seria importante, também, você rever o uso do ponto e vírgula. Por exemplo: não é adequado usá-lo antes da conjunção “mas”, porque ela serve para unir duas orações (normalmente de ideias contrárias), e o ponto e vírgula serve para separar orações; um pouco contraditório usá-los ao mesmo tempo, não? Esse tipo de problema de pontuação pode acabar impedindo a captação de todos os detalhes que a história pode transmitir. Parece-nos que a relação de Jorel com a criatura é o centro da narrativa, conquanto esse gosto foi rapidamente tirado na língua do leitor com o final ansioso. A relação dos dois era o ponto-chave para manter o leitor sempre atento para o que você tinha a contar sobre ambos. De um lado teríamos Jorel, um senhor agradecido mas envergonhado por ter desistido de seus sonhos, doutro uma criatura solitária buscando a compreensão dos outros. Sabemos que há um limite de palavras para o desafio, mas, como dito lá no início, você possui um poder de síntese muito bom. Por fim, sentimos que a história ficou um pouco incompleta. Você nos apresentou muito bem ambos os personagens e ficamos muitíssimo curiosos para saber o que você nos traria sobre eles, porém foi como se a história acabasse logo após as apresentações. Bom, aqui chegamos ao final. Nós, do time de Comunidade da Embaixada Brasileira do Inkspired, ficamos muito contentes com sua participação, pois assim nos concedeu a chance de ler A Criatura Ametista. Continue sempre escrevendo e se dedicando!
September 25, 2020, 16:46
Nathy Maki Nathy Maki
Mds, esse final... Fiquei morrendo de dó da criatura, tantos anos sozinha e quando um vislumbre de mínima amizade surgiu, ela perdeu tão rápido quanto tinha aparecido. Tadinha :c História muito boa, parabéns!
June 15, 2020, 02:40

  • Foi uma amizade que acabou tão rápido quanto começou hehe Fiquei com dó também, mas fico feliz que você gostou do conto, apesar de tudo! Muito obrigada por ler e comentar, isso me ajudou muito! June 24, 2020, 21:33
Rodrigo Borges Rodrigo Borges
a melancolia desse senhor me envolveu... bom, comentaria mais, mas tenho q me resguardar até a chegada dos resultados. boa participação!!
June 09, 2020, 16:11

  • Ótimo saber que consegui te passar esse sentimento, melhor coisa que poderia receber! Obrigada por ter lido e comentado, boa sorte no desafio! June 10, 2020, 23:12
Melissa Leal Melissa Leal
.... To triste (´°̥̥̥̥̥̥̥̥ω°̥̥̥̥̥̥̥̥`) poxa que trágico, agora vou ficar pensando na criatura esperando ele achando que foi abandonada. Moço isso não se faz. Bom gostei bastante foi leve e relista dê certo modo parabéns! Te desejo sorte no desafio ( ^ω^ )
June 06, 2020, 02:23

  • Melissa Leal Melissa Leal
    Realista** kkk June 06, 2020, 02:25
  • Lamento pelo final, juro que me doeu o coração enquanto eu escrevia! uehehe Eu fico muito feliz em saber que você gostou do conto, embora o final tenha sido diferente do que esperava. Obrigada pelas palavras e boa sorte também no desafio! ♡ June 10, 2020, 23:09
Eduardo Cezar Eduardo Cezar
Nossa, que lindo! Eu realmente gostei da ideia do seu "monstro" e sua história é muito calma, traz sentimentos e emoções ao ler. Boa sorte no desafio!
June 04, 2020, 11:28

  • Muito obrigada pelas palavras, fico muito feliz em saber que você leu e que ainda gostou do conto! Li sua estória para o desafio e é realmente muito gratificante saber que consegui te agradar. Obrigada e boa sorte para você também! June 05, 2020, 20:33
Antónia Noronha Antónia Noronha
Achei que sua história estava carregada de significado. Não se era a sua intenção, mas a sua narrativa (já agora muito detalhada e muito bem escrita) fez-me lembrar que às vezes passamos ao de leve na vida e não nos apercebemos ou não damos atenção às coisas e às pessoas. E quando viramos a nossa atenção já poderá ser tarde... Jorel se tivesse olhado bem para essa criatura poderia ter vivido tantas aventuras! Bom trabalho!
June 04, 2020, 09:46

  • Eu queria realmente colocar uma mensagem por trás e me alegra muito saber que você conseguiu entende-la! Exatamente como disse: as coisas passam rápido demais e acabamos nem percebendo ou dando atenção para as possibilidades a nossa frente. Normal ver pessoas se lamentando, como é o caso do Jorel. Fico muito feliz em saber que você gostou do conto, seu comentário é de grande peso para mim. Obrigada por ter lido e comentado! June 05, 2020, 20:41
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