isabola Isabela Maria

Em uma noite que tinha tudo para ser entediante, Sunny recebe um convite de suas duas melhores amigas: Ir até a nova pizzaria da cidade para se distrair um pouco. É lá que trabalha Guilherme, um bonito rapaz com um passado misterioso e intensos olhos verdes. Depois de uma primeira impressão desastrosa, o destino acaba dando um jeito de uni-los novamente, pois Sunny acaba sendo contratada pela pizzaria em que o rapaz trabalha. Conforme a garota passa a conhecê-lo melhor, ela percebe que Guilherme é um homem muito mais complexo do que parece, acorrentado ao passado e com dificuldades para se relacionar com a maioria das pessoas. E, sem que Guilherme se dê conta, Sunny acaba se envolvendo em sua vida bem mais do que ele gostaria.


Romance Romance adulto jovem Impróprio para crianças menores de 13 anos.

#superação #drama #interracial #romance #amor
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Sunny

Minha mãe sempre acreditou que os nomes têm influência nas nossas vidas. É por isso que a minha irmã se chama Sun-Jung, que significa bondade e nobreza. E eu, Sun-Hi, que significa bondade e felicidade.

Ela sempre nos ensinou que não importava o quanto as coisas estivessem ruins, se nós fôssemos boas pessoas e não perdêssemos a alegria, o universo nos retribuiria com benevolência.
Não parece estar funcionando, porque faz quase dois meses que fui demitida do supermercado em que trabalhava e ainda não consegui uma mísera entrevista de emprego.

Eu rolo a página de vagas disponíveis, tentando achar alguma coisa que se encaixe nas minhas habilidades medíocres. O celular toca e eu agarro-o rapidamente. É uma ligação de Aline.

—Alô? - Falo ao atender, ainda rolando a página de vagas de emprego. Já enviei meu currículo para todas os lugares possíveis e ainda não obtive nenhuma resposta. Talvez o universo não esteja querendo colaborar comigo, afinal.

Oi, Sunny. Tá afim de dar um volta hoje? - Aline pergunta do outro lado da linha e então continua: –Eu, você e a Carolina.

—O que nós vamos fazer? - Eu fecho a página, desistindo, e me jogo na cama, interessada na proposta.

Sei lá, podemos ir comer alguma coisa, que tal? - Sugere Aline e suspira. –Eu só preciso distrair um pouco a cabeça.

Claro, amiga. Vamos sim, eu topo qualquer coisa. - Respondo, enrolando uma mecha do cabelo no dedo enquanto encaro as paredes desbotadas do meu quarto. Também preciso sair um pouco, estou enfurnada dentro de casa faz semanas, dar uma volta vai me fazer bem.

Aline encerra a chamada com um agradecimento. Levanto-me da cama em um pulo e corro em direção ao banheiro, me livro das roupas e entro debaixo do chuveiro, deixando a água gelada acalmar meus nervos. A tensão do desemprego está me deixando maluca, não é só o tédio de não ter nada para fazer, também é a incerteza do que me aguarda quando meu seguro acabar.

Saio do banho enrolada em minha toalha e vou me arrumar. Visto-me rapidamente, calço um par de tênis e penteio meus cabelos castanhos, amarrando os em um rabo de cavalo.
A campainha soa quando estou passando mais uma camada de gloss labial e conferindo a aparência. Corro abrir o portão e sou agraciada com a visão de minhas duas melhores amigas: Aline e Carolina.

—Você está pronta? - Aline pergunta, piscando os lindos olhos azuis. Assinto, abrindo um sorriso. E nós vamos para o carro estacionado em frente a minha casa.

—Você já sabe onde nós vamos? - Carol pergunta do banco do passageiro, virando-se para olhar o rosto de Aline, seus cabelos cacheados e escuros balançam com o movimento.

—Sei. - Ela responde monossilábica e pelo tom de sua voz nós não ousamos perguntar mais nada. Aline não é indecisa como nós duas, então ela sempre toma as decisões e só nos deixa a parte da situação quando não temos mais como protestar. É isso que ela está fazendo agora, evitando que Carolina e eu contrariemos sua decisão.

Vamos o resto do caminho cantarolando músicas das Spice Girls a plenos pulmões enquanto rimos.

Olho pela janela assim que o carro estaciona e me encolho, levando a mão até a testa quando leio o letreiro 'Pizzaria Bon Appetit' com uma carinha feliz desenhada em uma pizza. É a nova pizzaria que abriu na cidade e está sendo muito bem falada.

—Ai, não! - Resmungo desviando meus olhos da fachada do estabelecimento. –Não faz nem uma semana que entreguei meu currículo aqui, que vergonha! Não podemos ir em outro lugar?

—Deixa disso! - Retruca Aline saltando do carro e ajeitando os cabelos loiros em um coque. –Vamos, Sunny, não tem nada demais!

Torço o nariz e cruzo os braços como uma criança birrenta. Carolina, que já está de pé fora do carro, revira os olhos cor de ônix e abre a porta do banco traseiro, onde eu estou sentada.

—Vamos! Deixa de graça! - Agarra o meu braço magricela e me puxa para fora, impaciente. –Ninguém vai lembrar que você veio pedir emprego aqui!

—Ei! - Protesto enquanto sou arrancada do meu lugar. –Você é muito agressiva, dona Carolina!

—E você é muito fresca! - Rebate e fecha a porta do carro. –Vamos, tô morta de fome!

Nós três subimos a pequena escada de pedras e adentramos o estabelecimento, o cheiro inigualável de pizza perfuma o ar e o falatório no local é realmente agradável. Escolhemos uma mesa e nos sentamos, pegando cada uma um cardápio. Enquanto eu avalio as opções, Carol pergunta:

—Como vai o namoro, Aline?

A loira mordisca o lábio e desvia o olhar para o tampo da mesa de madeira.

—Acho que vou terminar. Nós não damos certo. - Sorri fraco, levantando o olhar para Carol.

Aline namora um rapaz de família rica chamado Ian, que é muito bonito, com os cabelos castanhos e os fascinantes olhos azuis. Mas ele e Aline vivem em pé de guerra. E o principal motivo é que o rapaz quer que ela desista da faculdade de relações internacionais para viajar o mundo com ele, porém Aline jamais vai abrir mão de algo que batalhou tanto para conseguir.

—E você? Como vai a faculdade?

—Ah, de mal a pior! - Exclama Carolina apoiando o rosto em uma das mãos, sua pele negra brilha sob a iluminação do restaurante. –Acho que odeio direito, onde eu estava com a cabeça?

Carol ri, recebendo um sorriso de Aline. Todavia, eu me distraio pensando em minha vida miserável. Ambas as minhas amigas são mulheres incríveis e com certeza serão bem sucedidas, mas o que será de mim?

Não tenho nenhum talento excepcional e conto com uma inteligência mediana. E pior ainda: não tenho sonho algum. Não faço ideia do que quero fazer da vida. Já não entrei em uma faculdade por esse mesmo motivo e agora empaquei de vez. É como se eu estivesse em uma maratona. E enquanto todos a minha volta estão próximos da linha de chegada, eu continuo correndo, sem nunca sair do mesmo lugar.

Estou tão focada nesse pensamento que nem noto que falam comigo, até Aline abanar a mão em frente ao meu rosto:

—Sun-Hi? - Chama, me encarando com o cenho franzido.

—Eu. Oi? - Respondo, despertando do transe que entrei. E então meu olhar recai sobre o rapaz parado ao lado da mesa. Encaro seu rosto e perco a fala. É o homem mais bonito que já vi, daquele tipo que só parece existir em revistas e não em cidades como Verbena.
Ele tem cabelos negros como carvão, uma barba rala emoldurando o maxilar marcado e tem um par de lindos olhos esverdeados. Olhos estes que me encaram como se eu fosse uma idiota.

—Você vai pedir algo ou não? - Questiona ele, franzindo a testa.

—Hein? - O encaro como se tivesse tomado um balde de água fria. -Vou! Eu vou!

Procuro afoita e sem jeito o cardápio que até alguns minutos atrás estava em minha mão, meu rosto queima de vergonha. E sinto-me ainda mais envergonhada quando percebo que o cardápio que tanto procuro está bem na minha cara. Rio nervosa quando o agarro e passo os olhos pelas opções.

—Eu vou querer...- Digo em uma voz esganiçada devido ao constrangimento, Carol engasga ao meu lado tentando conter uma risada. Estou tão nervosa que não consigo ler, sinto o olhar das minhas amigas e do rapaz sobre mim. Ele deve me achar patética. –Portuguesa.

Carolina não se aguenta e cai na risada, não consigo evitar olhar feio para ela. Ele arqueia a sobrancelha.

—Senhorita. - Diz com calma, como se falasse com uma criança. –Perguntei o que você gostaria de beber, suas amigas já fizeram o pedido.

Mordo os lábios envergonhada e olho para elas sentindo-me traída, elas nem sequer perguntaram minha opinião. Caramba, será que eu não posso me distrair nem por cinco minutinhos?

Sinto meu rosto em chamas e rio sem graça. Abro e fecho a boca algumas vezes antes de conseguir formular uma resposta.

—Ah, é. - Concordo. -Uma coca, por favor.

—Certo. - Ele diz baixando os olhos para sua caderneta e anotando. –Mais alguma coisa?

—Sim. - Carol fala parando de rir, os olhos cheios de lágrima brilham de divertimento. –Acho que a Sunny vai precisar de um babador a próxima vez que você voltar.

Eu arregalo os olhos e em seguida a fuzilo com o olhar, indignada. Quem precisa de inimigo quando se tem Carolina?

Nem mesmo Aline se segura e cai na risada, o rapaz faz uma careta constrangida e eu cubro o rosto com a mão, impedindo que ele consiga ver meu rosto.
Ele se retira ao som das risadas altas de minhas amigas e eu as encaro furiosa.

Carolina, sua sem noção! - Rosno.

—Só você, Sunny! - Ela responde entre risos. –Que mico!

—Você precisava ver sua cara! - Complementa Aline com um sorriso sacana. –No que é que você tava pensando? Tava moscando demais!

Expiro o ar irritada e agarro minha bolsa, em que estão meu celular e as chaves de casa.

—Vou ao banheiro. - Anuncio rangendo os dentes.

Levanto da mesa e caminho apressada até o banheiro. Ainda sinto uma vergonha absurda quando largo a bolsa na pia de granito e lavo o rosto na água fria. Encaro a mim mesma no espelho e vejo o quanto minhas orelhas estão vermelhas. Balanço a cabeça negativamente. Eu só dou bola fora.

Seco o rosto com as toalhas de papel e respiro fundo antes de voltar para a mesa.

Penso em voltar atrás quando vejo que o garçom de outrora já está lá servindo a bebida das meninas. Paro. Analiso bem o rapaz.
Bobagem, penso e continuo meu caminho.
As meninas me encaram maliciosas e eu empino o nariz, ainda irritada. O rapaz coloca a Coca-Cola que eu pedi em frente ao meu lugar, de costas para mim, quando me aproximo. Ele se vira e nós dois ficamos cara a cara. É então que eu reparo que alguns pontinhos castanhos contrastam com o verde dos seus olhos.

—Com licença. - Ele pede com sua voz grossa, desvia de mim e volta para a cozinha. Viro a cabeça para olhá-lo, sentindo aquela sensação esquisita que sentimos ao olharmos para alguém muito bonito.

—Eu avisei que ela precisaria de um babador! - Graceja Carol tamborilando as unhas cuidadosamente pintadas de rosa na mesa. –Você praticamente devorou ele com os olhos.

—Ah, cala essa sua boca! - Rebato puxando a cadeira para me sentar. Mas o que ela diz não é completamente mentira. Eu poderia ficar olhando nos olhos dele por uma eternidade e nem me daria conta.

Conforme aproveitamos o jantar, vez ou outro me pego prestando atenção no bonito garçom da Bon Appetit, alheia a conversa das meninas. Enquanto ele vai e vem sem parar, eu reparo em tudo. Reparo em como ele força um sorriso quando vai falar com os clientes e fecha a cara logo em seguida, noto que ele deve ter uma tatuagem no pescoço. Noto também que ele usa uma aliança em sua mão.

Não consigo evitar de me sentir um pouquinho decepcionada. Eu sei que não tenho a menor chance com o rapaz e que provavelmente nós nunca mais vamos nos ver novamente, mas ninguém pode me julgar, todo mundo já teve uma quedinha por um completo desconhecido.

Já é tarde e o movimento no estabelecimento está diminuindo quando decidimos ir embora.

Voltamos cantando alto enquanto Aline dirige, Meet You There do 5 Seconds of Summer toca no rádio.

"So you go your way and I'll go mine and if we're meant to, I'll meet you there", cantarolo abrindo a porta do carro para descer. Me despeço delas sorrindo de orelha a orelha e acenando até o carro sumir de vista. Volto-me para a porta e apalpo os bolsos de minha calça jeans.

Nada de chave. Nada de celular. Franzo a testa, confusa e começo a me apalpar inteira. Nada. Desesperada, levo as mãos a cabeça quando percebo o que aconteceu. Esqueci tudo na pizzaria. Maldita cabeça de vento.

E agora? E agora?, me pergunto roendo as unhas. Não faço ideia de que horas são. Será que consigo correr até lá antes que fechem tudo? E se não conseguir, o que é que vou fazer?

Decido arriscar e ponho-me a correr freneticamente de volta a pizzaria. Chego lá arfando. Eles estão prestes a fechar. Me forço a subir os degraus. Apoio as mãos no joelho enquanto meus pulmões imploram por um pouco de ar. Meu abdômen dói e acho que vou vomitar.

Dica de amiga: nunca corra depois de comer como se não houvesse amanhã.

Os últimos funcionários a sair me encaram, confusos e curiosos.

—Minhas chaves! - Consigo falar enquanto tento regular minha respiração. –Esqueci aí.

Respiro fundo, tentando me recompor. O sedentarismo está cobrando seu preço.

—Ah, moça, como é que vamos conseguir achar? Elas podem estar em qualquer lugar. - Fala uma das funcionárias me encarando, ela tem um rostinho de boneca adorável.

Nego com a cabeça, ajeitando os fios rebeldes que insistem em escapar do rabo de cavalo.

—Deixei no banheiro, estão na minha bolsa. - Murmuro, rezando para que alguém vá lá buscá-la.

—Ah! - Um dos caras exclama e grita para dentro: –Guilherme! Achamos a dona da bolsa!

Ele volta o olhar para mim antes de terminar:

—Alguém nos entregou e nós guardamos, só para o caso da dona aparecer. - Sorri gentilmente e depois desvia o olhar novamente para dentro: –É essa moça aqui, Gui.

O rapaz de antes sai de lá, segurando a bolsa em uma das mãos e um capacete na outra. Não está mais com o uniforme, usa uma camiseta branca justa ao corpo e uma jaqueta de couro preta. Nós nos encaramos, então ele lentamente levanta uma sobrancelha e me olha como se quisesse dizer: Mas é claro que tinha que ser você.

Ele se aproxima de mim sem dizer uma palavra e estende a bolsa em minha direção.

—Obrigada. - Murmuro, sem conseguir tirar os olhos do rosto do rapaz. Agarro a bolsa mas ele não a solta.

—Você deveria cuidar melhor das suas coisas. - Fala, o rosto impenetrável.

—Eu sei. - Respondo entediada. –Você não é a primeira pessoa que me diz isso.

—E mesmo assim você larga elas por aí. - Constata. Faço uma careta de indignação. –Você veio correndo até aqui? Sozinha, no meio da noite?

Concordo com a cabeça, relutante.

—É exatamente por isso que você precisa ser cuidadosa. - Solta a bolsa e vira-se para encarar os outros funcionários que nos assistem: –Carla, leva essa garota para casa.

Cerro os punhos e ranjo os dentes.

—Não precisa. Eu tenho duas pernas, posso ir sozinha. - Retruco. A última coisa que eu preciso é que me tratem como criança.

Guilherme desce os degraus e me olha lá debaixo.

—E eu não sou cego, estou vendo elas aí. - Rebate, colocando o capacete. –Não seja estúpida e aceite a carona.

Então ele some da minha frente e eu só consigo escutar o ronco de uma moto quando ele parte. Plantada no mesmo lugar, eu me sinto indignada. Quem ele acha que é afinal?

Todo o encanto que tive por ele no começo da noite desapareceu como fumaça e foi substituído por raiva.

—Já podemos ir, se você quiser. - Fala a garota de outrora balançando as chaves do carro com um sorriso absurdamente perfeito. Seus cabelos tingidos de azul parecem mágicos sob o brilho do luar. –É só você me dizer onde mora.

Agradeço ela com meu melhor sorriso, mas mentalmente ainda estou dirigindo insultos aquele cidadão.

Quando Carla estaciona verifico se a chave está na bolsa antes de descer. Agradeço ela mais uma vez e me despeço. Destranco o portão, abro a porta e entro em casa, acendendo todas as luzes. Saco o celular da bolsa e corro para o quarto colocar meu pijama enquanto o aparelho se conecta ao wi-fi.

Estou tirando a blusa quando o celular começa a vibrar com as mensagens que recebi enquanto estive fora. Pego o telefone e observo tudo que me mandaram.

Uma mensagem de um contato não salvo chama minha atenção. Entro na conversa curiosa e abro a boca surpresa enquanto leio:

"Senhorita, Kim Sun-Hi.

Boa noite! Recebemos seu currículo e já o analisamos. Ficamos felizes em saber que a senhorita apresenta muitas das qualidades que prezamos, além da disponibilidade de horário para trabalhar conosco.

Visto o nosso interesse, gostaríamos de ser informados caso a senhorita esteja interessada em fazer uma entrevista e algumas semanas de treinamento para avaliarmos se está apta a fazer parte de nossa equipe. Por favor, nos avise para que possamos marcá-la!

Atenciosamente, Pizzaria Bon Appetit."

1 de Junho de 2020 às 01:21 0 Denunciar Insira Seguir história
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