lumieremargot Margot Lumière

No alto da colina há uma casa de vidro. O ser que nela habita, tem o poder de julgar o mundo e, por suas mãos, o fim tem um começo.


Conto Todo o público.

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O mais belo carrasco

Perfeitamente simétrica, de arquitetura requintada; embora os detalhes fossem quase simples demais para todo seu simbolismo.


Seu contorno abraçava a vegetação espessa que a cercava. Seu brilho facilmente notável mesmo de longe. E quando o Sol, com toda sua exuberância, lhe dedicava seus raios, ela derramava sobre a terra o seu esplendor.


A casa de vidro no topo da colina, a marca do início da humanidade. Ninguém sabia quem a criara, ou quem nela vivia. Quando os curiosos - que aventuravam-se a atravessar a floresta para lá chegar - aproximavam seus rostos no vidro, nada podiam ver. Somente um espaço claro e vazio.


Pobres almas humanas. Indignas de entender o quão complexo tudo aquilo era.


Os homens e sua incrível ignorância de achar que podem dominar tudo e todos. Fizeram inúmeros estudos ao longo dos anos. Tentaram derrubar, quebrar; outros só queriam proteger a relíquia do tempo.


Pobres almas humanas que achavam que poderiam tocar em algo que era intangível.


Contudo, mesmo o mais insondável mistério um dia se torna claro. E aquele dia seria lembrado por quem ainda estivesse lá para passar o conhecimento adiante.


Dentro da casa de vidro no alto da colina, um ser belo abriu os olhos. Lumes verdes como esmeralda lapidada. Iris resplandecentes, possuidoras de todo conhecimento.


Sua voz estava rouca pelo desuso. Mas seus lábios ainda eram rosados, perfeitamente esculpidos. A imagem da incomum beleza, obra desigual feita pelas mãos do Criador.


A Estrela da Manhã, Príncipe Celeste. Os cachos dourados, banhados pelo Sol. A pele alva, sem quaisquer imperfeições. As grandes asas do mais puro branco. Reluzentes, macias, majestosas. Retrato da imponência, da ordem, da justiça.


Ele encarou toda a obra. Os extensos mares, as densas matas, as milhares de espécies. Tudo perfeitamente feito para aqueles que estragavam tudo ao seu redor.


Humanos tolos que acreditavam comandar o mundo.


Estalou os lábios descontente, tamanho era seu desagrado. Moveu-se de seu trono, feito em ouro para acomodar tal magnitude. Ainda sim, indigno de toda sua glória. Perfeito demais para existir em um mundo tão ignóbil como aquele, obviamente nunca foi sua intenção ali estar.


Deixou seus aposentos, alongando suas asas. O farfalhar suave gerado pelo movimento dava a débil noção de seda roçando recém fabricada, tão leve e delicado que poderia desmanchar-se ao mero toque, todavia, eram tão fortes como tempestades em alto mar. Tudo nele provava o quão exuberante era. Idôneo demais para habitar em terras tocadas por mãos humanas.


Escrituras feitas anos antes alegavam que o Ser que encarava o mundo era desleal, mentiroso; pecador. Que havia sido expulso de seu local de origem, sendo condenado a vagar nos confins da Terra.


Escrituras falsas, fantasias de tolos e suas estúpidas religiões.


O mundo em que viviam, desde sua criação, tinha data de validade. O imaculado anjo ali estava para ser seu carrasco. O que daria fim a brincadeira do Criador, um de seus muitos testes feitos pelas diversas galáxias.


A primeira trombeta soou, anunciando o fim. E de asas bem abertas, o Príncipe preparava-se para completar sua tarefa.


A casa de vidro no topo da colina já não comportava seu poder, trincou, fazendo barulho como uma taça de cristal que se estilhaça. Os mares passaram-se a revoltar-se, os ventos a rugir; as estrelas a perderem seu brilho.


A segunda trombeta soou, convocando os seres vivos a ouvirem. Nunca houve a lei de que o fim do mundo seria trazido pela guerra de anjos e demônios pelo controle da humanidade. Isso foi apenas delírio de um homem que dizia ter sonhado com o fim. Os arranhas céus passaram a ruir, os vulcões a acordar, a terra a tremer. Tudo que fora criado, reconhecia a ordem do Superior.


E quando a terceira trombeta soou, Lúcifer ergueu-se nos céus. Sua luz era a única a ser vista por todos na vasta Terra. A súplica de muitos subia, mas não havia ninguém para ouvir.


Tolos humanos que acreditavam comandar o mundo. Destruíam tudo que tocavam, ingratos com tudo que lhes foi oferecido.


O Majestoso abriu seus braços, sua luz aumentou, ou era apenas o mundo que se tornava escuro. Pois com o fim do som da última trombeta, tudo acabou.


A casa de vidro deixou de existir. Abrigo do segundo do Céu agora já não tinha finalidade, a missão que foi dada quando concebido fora completada.


Deixou o que um dia foi a Terra, retornando ao seu verdadeiro lar.

31 de Maio de 2020 às 16:45 0 Denunciar Insira Seguir história
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