lumieremargot Margot Lumière

Existe uma linha tênue entre o real e o imaginário. Adrian rezava para que nada daquilo fosse real, mas nem sempre rezar é o bastante.


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Existe uma linha tênue entre o real e o imaginário.

O quarto estava escuro, a temperatura agradável. Local ideal para uma boa noite de sono. As persianas foram abaixadas e, a luz da Lua entrava somente por frestas. O assoalho de madeira do quarto rangeu pelo peso. Inicialmente abriu os olhos, mas logo os fechou. As palavras de seu médico soaram claras em sua mente:

Existe uma linha tênue entre o real e o imaginário.

Aquilo era apenas um pesadelo. Um fruto de sua mente cansada da rotina. Recitou seu mantra até escutou um novo barulho no cômodo. Era apenas um sonho.

Apenas um sonho.

Um sonho.

Isso não impediu que o medo se alojasse em seu estômago; que sua respiração se tornasse pesada. Que o peito arfasse em busca do ar que lhe parecia estranho. Segurava o cobertor até que os nós de seus dedos estivessem brancos, mantinha os olhos fechados, mas as lágrimas ainda desciam por seu rosto.

Existe uma linha tênue entre o real e o imaginário.

Tinha alguém no cômodo, ele sabia. Podia sentir a presença cercando-o; apavorando-o de todas as formas possíveis. Tinha de ser um sonho, precisava ser um sonho. Mas não tinha coragem de levantar a voz e questionar se era ou não.

Deveria rezar? Talvez. Aprendeu quando pequeno e sabia de cor. Mas era incrível como o medo paralisa e te tira a racionalidade. Do que ele precisava? Um ímpeto de coragem? Uma fagulha de razão? Ou a tolice de puxar o terço pendurado na cabeceira da cama? A última opção era a mais fácil.

Existe uma linha tênue entre o real e o imaginário.

E quem poderia julgá-lo? Ninguém. Não quando um leve cheiro de enxofre chegou ao seu nariz, ou quando ouviu uma risada debochada que fez seus pelos eriçarem.

Ele rezou. Chamou por Maria, mãe de Deus. Pediu por proteção ao arcanjo Miguel. E por último, misericórdia ao próprio Jesus Cristo. Não era exigente, qualquer deus que o olhasse naquele momento serviria.

— Seu deus não pode te ouvir — finalmente abriu os olhos, encarando a silhueta que se esgueirava na penumbra do quarto — seu Deus não está aqui, Adrian.

Sua última lembrança antes de sucumbir, foi um par de olhos brilhantes. Tão azuis quanto turmalina polida.

31 de Maio de 2020 às 16:40 0 Denunciar Insira Seguir história
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