stefanippaludo Stéfani Paludo

Ainda não se sabe quando a grande epidemia de covid-19 vai passar e nem as modificações que deixará em nossa sociedade no modo de viver e agir. Muitos dos costumes que temos hoje podem ser extinguidos e a forma como nos relacionamos uns com os outros sofrerá drásticas mudanças. Esse é um conto sobre um cenário futurístico possível, onde a covid-19, após diversas mutações e décadas, ainda permanece infectando a população. Em um mundo como esse é possível que o verdadeiro amor ainda exista? Como viver uma paixão sem sair de casa? Esse é o drama de Ágatha e Mathias, dois jovens namorados que se encontram pessoalmente pela primeira vez e precisam lidar com as diferenças e obstáculos que o covid lhes impõe.


Conto Todo o público.

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Capítulo 1

Andou pela calçada de concreto em meio ao extenso gramado e alcançou o portão. Seu coração batia acelerado e as mãos tremiam. Nunca antes chegara tão distante da porta de casa. E ainda estava prestes a ir pra rua! Depois de 22 anos de vida, enfim conseguiria conhecer o mundo além de filmes, noticiários e programas de televisão. O fato de ainda não ter resistência imunológica aos cinco diferentes tipos de covid não era um problema. Não tinha medo da doença. Tinha medo mesmo era de viver trancada em casa pelo resto de sua vida. E de qualquer forma, o documento falsificado que Mathias conseguiu pra ela, forjava sua infecção cinco vezes. Perante os postos de verificação a cada esquina, ela já havia contraído as cinco principais e mais perigosas mutações do vírus e, como conseguira um trabalho presencial, estava liberada para sair de casa.

Dando seus primeiros passos rumo a liberdade, Ágatha notou de um ângulo diferente as casas que eram vizinhas a sua. Da rua, todas pareciam mais bonitas e maiores. Algumas características eram comuns a todas: muro de vidro que permitia permeabilidade visual, mas não contaminação; grandes pátios com árvores, gramas e contato com a natureza; mais de dois andares para abrigar todos os cômodos necessários na nova era, como academias, salas de jogos, às vezes até diversos escritórios.

O dia estava lindo e ela se obrigou a prestar atenção a cada detalhe. Aquele dia ficaria marcado para sempre em sua história.

No primeiro posto de verificação, não teve maiores problemas e os guardas de plantão lhe liberaram para seguir em frente e ainda lhe parabenizaram pelo suposto novo emprego. Os guardas postos na segunda esquina não foram tão gentis, mas após algumas perguntas suspeitas, liberaram a menina.

Mais de dez quadras depois e o mesmo número de postos de verificação, Ágatha conseguiu enfim chegar ao endereço que constava em seu documento como seu novo trabalho. A tarefa descrita era a de cuidar de uma criança de quatro anos enquanto o pai dela trabalhava. Ágatha nunca tivera contato com uma criança antes, mas acreditava que não seria difícil. Qualquer coisa pra poder sair de casa e encontrar seu amor.

Marcara de encontrar com Mathias no endereço que constava no documento e, após ver e refazer o trajeto até ele pelo Street View, decorando cada via, buraco e sinalização, Ágatha não tinha dúvidas de que chegaria lá. Pelo caminho, não encontrava ninguém além dos guardas a cada esquina. Poucos veículos passavam por ela. Sair de casa era exclusividade de poucos. Somente uma parcela mínima da população tinha trabalhos presenciais e somente quando necessário. A grande maioria estudava, trabalhava, ia a eventos, encontrava com amigos e pessoas queridas de forma virtual, sem riscos à saúde e a contaminação de alguém.

Uma vez por semana um integrante de cada família era liberado para ir até um supermercado comprar produtos naturais, saladas, frutas, verduras e carnes, itens que não poderiam ser escolhidos online. Estavam aptos para essa tarefa somente aqueles que já tiveram as cinco principais contaminações por covid e também somente aqueles sem problemas de saúde e com a imunidade adequada. Por jamais ter contraído o vírus antes, Ágatha nunca pôde sair para ir ao mercado. As poucas vezes que vira pessoas presencialmente, além dos pais e da avó, eram profissionais de saúde que foram examiná-la em sua própria casa.

Chegando ao endereço combinado, Ágatha se preocupou ao encontrar um galpão abandonado e não uma casa como imaginara. Apesar disso, a vontade de encontrar Mathias era maior que qualquer medo que pudesse ter e, sem pestanejar bateu na porta.

Foram necessários poucos minutos até que alguém viesse abri-la. Com um ruído, a porta foi aberta e Ágatha viu o rapaz que tanto imaginou, fazendo sinal para que entrasse. Por alguns instantes permaneceu encantada, sem esboçar qualquer reação. Mathias estava com os cabelos cacheados à mostra, com uma máscara cobrindo seu nariz, lábios e queixos. Ela já havia visto o nariz dele antes pelo computador, quando ele tivera a ousadia de mandar uma foto com o membro descoberto. Apesar disso, ela mesma não tivera toda essa coragem mesmo quando ele praticamente implorou para ver seu nariz e seus cabelos. Ela ainda não estava pronta para um passo tão grande na relação.

Ao contrário, os olhos já eram comuns a ambos. Era através deles que descobriam as emoções que o outro sentia mesmo com o obstáculo de uma tela entre eles. Apesar disso, os olhos dele eram ainda mais surpreendentes pessoalmente. Contra o sol que iluminava o local, os olhos tinham uma nuance diferente, eram cor de caramelo e para Ágatha eram os olhos mais lindos e doces que já vira em toda a sua vida.

Enquanto analisava seu namorado, ele fazia o mesmo. Ambos se observaram da cabeça aos pés, verificando a diferença entre o virtual e o real. E nisso os dois concordavam: na realidade eram ainda mais lindos e encantadores, o que fazia a paixão aumentar.

Mas nem tudo era melhor presencialmente. A aparência sim, mas a conversa nem tanto. Estavam os dois envergonhados, sem jeito e com certo receio de puxar assunto um com o outro. Era tudo tão diferente.

Por fim, foi Mathias quem deixou o pudor de lado, afinal estava mais acostumado a encontrar pessoas presencialmente e já saira de casa outras diversas vezes:

— Conseguiu chegar aqui fácil? Teve algum problema? — a voz dele era ainda mais bela sem a influência da tecnologia. Era como a melodia que faltava para tornar aquele momento ainda mais perfeito.

— Não. Foi tudo bem — respondeu ela, desviando o olhar. Era tudo tão intenso que não conseguia impedir seu corpo e seus gestos de reagirem diante dele.

— E o que achou do mundo do lado de fora? Era como esperava? — Mathias sorriu incentivando ela a falar mais.

— É ainda melhor!

Ele riu, uma risada ingênua e contagiante. Apesar do nervosismo, Ágatha riu também.

— Vamos, venha, você deve estar cansada. Vamos sentar. Eu trouxe uns bancos pra nós.

Ele pegou o braço dela, coberto pela manga da blusa e a puxou com gentileza para adentrar ainda mais o galpão. Ninguém, além de seus pais e sua avó, haviam tocado nela daquela forma antes. Tocar em qualquer parte do corpo ou mostrar pedaços de pele além das mãos, pescoço e da região dos olhos era uma atitude intima e para poucos.

Procurando superar o desconforto de ser tocada por alguém desconhecido, Ágatha focou sua atenção em observar o local onde estava. Era um imenso pavilhão de metal enferrujado. Dentro dele o piso de concreto sem revestimento estava encardido pela sujeira e ação do tempo e os diversos entulhos se amontoavam próximos às paredes. Havia o som de pássaros piando e ao olhar pra cima, viu alguns deles na estrutura de treliça que sustentava o telhado e outros voando de um lado para o outro, sem dificuldades devido a altura da edificação.

— O que é isso aqui? — perguntou. — É aqui mesmo onde vou trabalhar?

Mathias parou por um momento e olhou pra ela:

— Não, você não vai trabalhar de verdade, foi só uma desculpa.

— E a criança que constava na minha documentação? Tinha até um nome... Eduarda… era Eduarda alguma coisa.

— Eduarda Ribeiro é o nome. Ela é minha. Foi só um álibi que encontrei pra fazer isso funcionar. Eles verificariam o nome que constasse lá. Precisei colocar um nome verdadeiro.

Ágatha não prestou atenção ao que o garoto falou por último. Estava ocupada com o choque do que dissera antes:

— Sua? Essa menina é sua filha?

— Sim e não. Ela é minha filha adotiva, na verdade. Venha, — dessa vez ele puxou Ágatha pela mão e ela estremeceu imediatamente. — Vamos sentar e eu lhe explico tudo.

Os dois namorados sentaram em dois baldes improvisados como bancos no final do galpão. No centro deles, outro balde maior fazia a função de mesa, sustentando uma assadeira de inox com um bolo de chocolate.

— Quer um pedaço? — perguntou ele, apontando para o bolo. — Eu não trouxe nada pra beber, até pensei em trazer, mas não sabia o que você gostava, se suco, refri, chá…. E esqueci de te perguntar antes. Enfim, você vai querer um pedaço?

— Não sei. Meus pais sempre disseram pra nunca comer nada fora de casa que é perigoso e pode estar contaminado.

— E eles não disseram também pra você nunca sair na rua? E olha você hoje! Veio até aqui sozinha! É o dia de descumprir as regras, Ágatha.

A moça estremeceu ao ouvir seu nome na boca do amado, mas logo recuperou-se, convencida:

— Tá, tudo bem, eu aceito um pedaço, então. Mas me conte mais sobre sua filha. Em todo esse tempo você nunca comentou nada sobre ela. Quantos anos ela tem?

— Quatro.

— Mesma idade da sua irmã?

— Na verdade ela é minha irmã. Já te contei que minha mãe e irmãos morreram, não é? — Ele alcançou a fatia de bolo para ela. — Acontece que minha mãe pegou covid após ter que ir pro hospital no nascimento do último filho. O parto era difícil e precisávamos de ajuda especializada. Minha mãe conseguiu ter a criança, mas ficou bastante debilitada e acabou pegando o vírus. Depois disso ela não aguentou e acabou morrendo. Meu pai foi visitá-la e também se infectou. Os dois estavam doentes e meus outros irmãos já tinham morrido. Ficou eu e a Duda, sozinhos. Achei que meu pai fosse morrer também e como eu era menor de idade, fiquei com medo que ela fosse mandada pra um orfanato. Aí eu a registrei como minha filha, como tínhamos o mesmo sobrenome não deu problema. Hoje eu e meu pai cuidamos dela.

— E você vai precisar mesmo que eu fique com ela pra você trabalhar? — Ágatha perguntou.

— Não, isso foi só uma desculpa pra você poder sair mesmo. Pode fazer o que quiser nesses dias de liberdade, o tempo na rua é seu, se divirta. Só não consigo te pagar um salário de verdade. Essa parte também era mentira.

— Então nós vamos poder nos encontrar todos os dias aqui?

— Bem que eu queria, mas infelizmente eu tenho que trabalhar. Hoje consegui um dia de folga na oficina, mas nos outros dias preciso estar lá. Não quero arriscar perder o serviço, ainda mais que é presencial.

Ágatha pensou por algum tempo antes de dizer qualquer coisa. Considerou e reconsiderou sua situação e as opções possíveis, até que por fim declarou:

— Eu posso então pelo menos usar esse lugar aqui? Não vou poder ficar circulando por aí, na minha identificação consta meu horário de trabalho.

— Pode, fique à vontade. Agora vamos falar sobre outra coisa. Você quer tirar esse lenço da cabeça? Ou a máscara? Parece desconfortável.

— Nãooooo! Não posso, é perigoso.

— Ah, qual é, Ágatha, só o lenço, por favor. Sonhei muito em te ver sem esses acessórios, e além do mais o que pode acontecer? Seu cabelo não vai encostar em nada agora, apenas rapidinho pra eu ver. Você já viu meu cabelo e meu nariz, agora é a minha vez, nós namoramos a tanto tempo...

Ela o interrompeu:

— Tudo bem, tudo bem, eu tiro. Mas é rápido.

— Como quiser.

Devagar, Ágatha levantou de pé e começou a tirar o lenço de sua cabeça, desenrolando a peça com calma, atenta aos olhares de Mathias. Ele ficaria decepcionado ao perceber que o cabelo dela era igual ao dele? Cacheado e castanho claro? Largando os temores de lado, retirou completamente a peça e se pôs como que desnuda em frente ao rapaz.

Apesar disso, Mathias sorriu ao observá-la e não pareceu nenhum pouco desanimado:

— Você é ainda mais linda assim! — disse, erguendo-se de pé e ficando em frente a ela. — Muito linda, Ágatha.

E aproximou-se alguns passos dela, diminuindo a distância entre eles e surpreendendo-a ao envolver seu corpo em seus braços. Foi um abraço fraterno e repleto de significado, que fez o mundo de Mathias parar e Ágatha se dividir entre a culpa, o medo e a paixão. Ela não soube como reagir e deixou-se ser abraçada por ele, sem abraçá-lo de volta.

Ainda unidos, Mathias falou próximo ao ouvido dela:

— É uma pena que jamais tenham deixado você sair antes. Você é uma joia rara que nasceu pra ser vista pessoalmente Ágatha. — E afastou-se dela o suficiente para encarar seus olhos. — Lente nenhuma seria capaz de mostrar esse
efeito de cor dos seus olhos. É uma mistura de verde e azul! Nunca pensei que pudesse existir olhos assim.

— É comum na minha família — tentou amenizar, dando um passo discreto para trás. — E eu já lhe contei. Meus pais só querem o meu bem, eu nunca tive covid, é por isso que eles têm medo. Não estou apta ainda a sair de casa.

— Mas você nunca vai ter se nunca sair de casa. Precisa sair pra entrar em contato com o mundo, criar anticorpos e imunidade. Eles não podem te prender a vida inteira.

— Eles não. Mas o Estado pode sim. É lei. Não posso sair antes de ser infectada e seu eu não sair, então nunca serei. É um círculo vicioso que vai me manter presa em casa pra sempre.

— Não sempre. Afinal, você está aqui. Sempre há uma forma de driblar o sistema. E pra você tudo bem pegar o covid? A primeira vez é sempre meio tensa.

— Não sei, tem horas que fico com medo, e em outras sinto que estaria aliviada se já tivesse pegado. Não sei como vai ser, meus pais nunca falaram muito sobre as infecções dele.

— É como eu disse, a primeira vez é mais difícil, você acha que vai morrer ou que nunca vai melhorar. A saudade de casa também é foda, mas aí conforme você vai pegando de novo e de novo e vai se acostumando, quando vê, na quinta vez, já tá completamente a vontade com ela e quase agradece ao um mês de isolamento total que te dão.

— Antigamente eu tinha muito medo de pegar e passar pra minha vó que morava com a gente. Temia que ela ficasse doente.

— E hoje não tem mais esse medo?

— Não porque minha vó passou dos 60 anos e agora está protegida no asilo.

— Argh! Não sei porquê, mas não gosto desses asilos. Acho que quando meu pai chegar na idade de ir pra lá, vou dar um jeito de escondê-lo em casa.

— Mas lá a gente sabe que eles tão seguros, pelo menos. Os asilos são completamente descontaminados. Lá eles não correm riscos.

— Não correm riscos mas também não são felizes. Não quero ficar pra sempre sem vê-lo. Vai parecer que ele morreu. Prefiro que fique comigo e com a Duda.

— Mesmo com o perigo dele se contaminar?

— O perigo e a imprevisibilidade são a base da felicidade. E a rebeldia a base do amor. Eu não temo nada. O que é pra acontecer, acontecerá.

— E se você pudesse evitar, você não evitaria?

— Depende. Todo mundo vai morrer um dia, então por que temer? Acredito que o importante seja aproveitar o suficiente da vida antes que isso aconteça. Agora me diga, Ágatha, — encarou ela com intensidade, garantindo que prestava atenção às suas palavras: — O que você prefere, viver muito sempre trancada em casa e sozinha, ou viver pouco, mas intensamente e com felicidade, se divertindo e aproveitando ao máximo o que a vida tem a oferecer? A escolha é sua.

Ela ficou calada por algum tempo, refletindo sobre o que ele dissera e sobre a decisão que tomara naquele dia. Estava pondo sua vida e a vida dos pais em risco com a rebeldia de sair de casa.

Apesar dos pensamentos que despertaram em Ágatha, o restante do encontro foi como o esperado e como as conversas online que tiveram. Aquele fora um dos dias mais felizes de sua vida e chegara em casa animada para a nova saída no dia seguinte. Enfim parecia que sua vida começava a fazer sentindo e ela não via a hora de aproveitar tudo que o mundo real tinha a lhe oferecer.

31 de Maio de 2020 às 01:34 0 Denunciar Insira Seguir história
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