ellariamlamora EllariaM Lamora

[...] Olhe, lá estão eles. Humanos. Oh, criaturas tão tolas e frágeis, concorda? Ei, veja ali! Está vendo? Ao lado esquerdo do peito algo pulsa. Vê? Chamam de coração e ele marca o tempo de suas vidas. Vê os números? Aqueles algoritmos que vão diminuindo em um piscar de olhos? É o seu tempo acabando. Pobres criaturas, correndo com as multidões, queixando-se dos aborrecimentos que a monotonia traz e afins. Vivendo estupidamente como se fossem durar para sempre e fazendo de conta que a morte jamais irá soprar-lhes a vida. Acham que são eternos! Lamentável. [...]


Conto Todo o público.

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Eternidade

Olhe, lá estão eles. Humanos. Oh, criaturas tão tolas e frágeis, concorda? Ei, veja ali! Está vendo? Ao lado esquerdo do peito algo pulsa. Vê? Chamam de coração e ele marca o tempo de suas vidas. Vê os números? Aqueles algoritmos que vão diminuindo em um piscar de olhos? É o seu tempo acabando.

Pobres criaturas, correndo com as multidões, queixando-se dos aborrecimentos que a monotonia traz e afins. Vivendo estupidamente como se fossem durar para sempre e fazendo de conta que a morte jamais irá soprar-lhes a vida. Acham que são eternos!

Ei! Olhe ali!

Ali mesmo, naquele quarto de hospital, aquele senhor de idade avançada desistindo de lutar contra aquela doença chamada câncer. Olhe, vê os números zerando? Veja ali, os batimentos cardíacos cessando. Ouça. Ouça! Ouça os médicos tentando mantê-lo vivo! Veja seus pensamentos, vasculhe sua memória e veja o quanto ele arrependeu-se de não ter aproveitado a vida que teve, vendendo-separa as correrias das multidões.

Ah, aqui temos um caso especial.

Olhe esse jovem, veja os números perto de zerarem. Ele está com a pistola apontada para sua cabeça, ajoelhado no chão do banheiro de sua casa. Ouça os gritos de sua família discutindo na cozinha, os pratos sendo arremessados, os corpos lutando um contra o outro. Veja as marcas em seus pulsos. Os pensamentos são lidos facilmente: Ele acha que não tem salvação. Ele sabe que a vida de ser o chacota da escola, abusado sexualmente pelo tio, e humilhado pelos pais não tem mais jeito. Olhe seu telefone tocando, o único amigo que se importa tentando ajudá-lo. Perceba as lágrimas escorrendo por sua face. Ele queria ter feito diferente, ele queria ser eterno e consertar tudo o que fez de errado e agido com mais confiança, mudando tudo.

Mas veja, ele sente os algoritmos zerando seu peito. E, para nossa admiração, ele aceita que não é eterno e sorri sem graça para a morte. O rapaz dispara a arma contra seu crânio, mesmo que seu celular não pare de tocar.

Oh. Aqui está o caso que eu mais acho interessante de estudarmos.

Vê aquele motoqueiro? Olhe ele recusando o beijo de sua esposa e o abraço da filha, acreditando que terá tempo para isso depois. Veja ele correndo pelas avenidas, pensando no dia de trabalho que irá ter. Ah, olhe ali dois assaltantes o parando em um sinal vermelho, veja o motoqueiro recusar-se a entregar a moto. Olhe! Olhe! Eles estão fuzilando-o e roubando a tão amada moto! Olhe o motoqueiro caído no chão, lamentando-se de não ter beijado sua esposa e nem abraçado a filha.Veja a pobre criatura, arrependendo-se de acreditar que teria mais tempo. O marcador zera, o coração perfurado pela bala para de bater.

Agora, para todos os casos, feche os olhos. Isso. Agora escute, preste bem atenção no que vem a seguir: Os gritos desesperados dos que se importavam com os exemplos e as lágrimas escorrendo por suas faces. Eles não querem aceitar isso. A muralha que dizia que eram eternos e que estava tudo bem em desperdiçar tempo está ruindo, desmoronando. Oh!Veja, essa é a parte mais interessante! Eles começam a questionar se estão aproveitando o tempo que tem, parecendo ter quase consciência do cronometro que diminui em seus peitos.

Eles param no meio da multidão, que continua seu caminho. Elesescutam os aparelhos tocando sem parar, as conversas aleatórias, veem os rostos borrados, as roupas esvoaçando, os olhos sem emoções. Eles param, refletem sobre mudar. Viram-se na direção oposta e começam a enfrentar a multidão.

Então param.

Infelizmente a memória da morte foge por seus dedos e eles voltam a crer que têm todo o tempo do mundo aos seus pés.

Mas o tempo continua a correr. O tempo para eles começa a aproximar-se cada vez mais do fim. Os números diminuem rapidamente, sem nenhuma piedade.

E eles continuam a crer que são eternos.

Lamentável, hm?

30 de Maio de 2020 às 23:29 0 Denunciar Insira Seguir história
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Fim

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EllariaM Lamora A vida é apenas uma escolha importante após a outra; siga em frente e observe até onde essas escolhas tolas podem levar você. — YATO. Abuto.

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