leandrosevero Leandro Severo

Raquel ama fazer compras. O problema é o tempo que ela leva em cada loja. Descubra nesse conto um verdadeiro teste de paciência para alguns maridos e saiba QUANTO CUSTA algumas coisas que não tem preço...


Conto Todo o público.

#humor
Conto
0
574 VISUALIZAÇÕES
Completa
tempo de leitura
AA Compartilhar

QUANTO CUSTA?

Sempre que eu e Raquel saímos, boa parte das vezes era pretexto para passar nas lojas que soberanamente ela escolhia sem destino ou item fixo que queria. Raquel usava uma tática infalível para me segurar por mais tempo em cada estabelecimento:

— Meu amor, nós passaremos na livraria. Se você quiser, compraremos aquele volume.

Nunca passávamos. E quando sim, Raquel não tinha a mesma paciência de esperar seu esposo perdido em literaturas decidir qual livro levaria.

Ela ganha mais do que eu. Porém, divide muito bem seu salário com as despesas da casa e nossas coisinhas. Nunca tive problema em deixa-la administrar a renda, haja vista Raquel tem mais controle do que o gastão aqui.

Meus atributos físicos se foram com o tempo. Sobrou-me uma qualidade defeituosa: a paciência. Onde ela se mostra mais forte? Quando o assunto é COMPRAS.

Certo dia, Raquel pediu que me arrumasse e fomos numa feirinha específica para mulheres. O relógio marcava 11h30. O sol era Apolo e Hefesto na mais cruel das manifestações. Senti que Josué clamara novamente para que o astro-rei se detivesse, mas mirando em minha moleira.

— Vamos antes da feirinha acabar, meu bem. Preciso comprar uma calça.

Já na feira, o que mais tinha era a roupa da moda e a moda dos corpos. Quanto mais expostos, melhor para a moda. O açougue perde feio quanto o assunto é exibição de carne nesses lugares.

Enquanto observava Raquel analisar cada barraca e seus produtos, minha mente de marido driblava meus instintos masculinos para não focar nas vendedoras que estavam super a vontade ali. Na verdade todas as pessoas pareciam a vontade naquele lugar. Eu não.

Após passar por várias barracas, perguntei:

— Achou alguma coisa, meu mozinho?

— Não. Acho que já acabou a feira. — falou isso olhando para os lados, como se procurasse alguma coisa.

Pensei: "agora iremos para casa".

Errado. Estávamos no centro de um bairro. E o que mais tem em lugares assim são lojas. Saindo da feira, fomos visitar algumas dessas famigeradas.

Antes, Raquel me levou numa livraria. O vendedor grudou em mim como um carrapicho que falava "Você tem cara de que gosta de ler" e entre outras baboseiras óbvias de puro marketing incentivando a adquirir "esse, que é muito bom" ou "essa saga tá demais. Eu mesmo já li três vezes".

Aporrinhei-me de tal forma que desanimei da compra. Fui embora sem nada. Somente com a garantia de que meu "happy hour" tinha acabado. Agora era a vez dela.

Eu não tinha me tocado.

Acostumei com o modo que Raquel docemente escolhe uma infinidade de roupas e modelos para não levar nenhum. E ao solicitar minha opinião, sou específico em meus argumentos:

— Ficou lindo em você, meu bem.

No qual ela sempre respondia:

— Ah. Mas você é homem. Não entende. Minha mãe falaria melhor.

E eu concordo. Só que em espírito. Sorrio.

É certo que a frase "de grão em grão a galinha enche o papo" traduz uma verdade, todavia, a mesma não se aplica para mulheres em dia de compra por dois motivos básicos: primeiro, mulheres não são galinhas, são princesas. Segundo, não são galinhas, portanto, nunca estarão satisfeitas.

Na "lista" de desejos de Raquel constava apenas uma calça. E nos lugares que entramos compramos um batom da Anitta, um pó de arroz, uma base da Vulti, uma escova, uma pulseirinha, uma blusa de alcinha, um short, dois brincos, um anel de bijuteria. Cada item em uma loja diferente.

Nada da calça.

Entre estabelecimento e promoções, meu corpo foi ficando cansado, e auxiliando o peso interno, meu desgaste emocional fez contrair os ombros e franzir o cenho quase que automático.

— Que cara é essa, querido?

— Nada, benzinho. O sol que está de matar.

Tentei concluir o passeio:

— Bom, amor… como não achamos a calça, vamos voltar pra ca…

Ela olhou para o lado como se tivesse visto um anjo. Foi mais que isso.

— Meu bem, vamos entrar nessa galeria. Tem umas roupas lindas que estão com desconto!

Tentativa frustrada. Ela não tinha se tocado.

A euforia de Raquel constratava (e realçava) com meu desânimo, mas cri que deveria ser a última parada.

Mais mulheres. Menos roupa no corpo. Mais teste de fidelidade visual. Venci.

— Amor, vou provar essa peça. Segura a cortina do provador aqui pra mim.

— Claro, querida.

Os demais provadores foram sendo usados e com eles os respectivos maridos seguravam as pontas dos panos para suas esposas.

Virei rapidamente para o homem que estava no provador ao lado. Em seu olhar tive a impressão que o mesmo vivia um dia semelhante ao meu.

— Amor, não entrou. Parece que fiquei gorda.

Raquel saiu do provador com a mesma roupa que entrou, mas não com o mesmo semblante.

Deixo registrado uma máxima: esposas não engordam, nem ganham peso. A culpa é o modelo da roupa e ponto final.

Eu já estava crente que havia se encerrado aquele passeio, porém, logo o sorriso de minha esposa voltou quando entramos numa loja de variedades, dessas que vendem de tudo.

E foi lá que meu céu se tornou inferno.

A expressão "calor humano" aliada a frase "está mais barato" se encaixam muito bem (mal). Sei bem como é enfrentar um metrô abarrotado de gente, pois o sufoco não vai durar para sempre e o aperto é involuntário.

Mas isso não se aplica quando se está numa loja com promoção acompanhado da esposa cujo maior hobby é justamente fazer compras.

Raquel me deu uma cestinha e pediu que a esperasse no final de um corredor enquanto ela procuraria um shampoo e outros produtos.

Foi aí que minha esposa simplesmente sumiu no meio daquela multidão.

Nesse tempo fui confundido com um funcionário do estabelecimento umas três vezes. Provavelmente pela cara de mal-humorado que estava ou por ficar parado igual a um manequim.

Fiquei com desejo de largar aquela cesta, pegar no braço de Raquel e sumir daquele lugar. Contudo, pensei nas finanças... é ela que administra. Ah! Mas estava ficando de saco cheio. Estava decidido. Iríamos embora. Nem se minha esposa jogasse alguma coisa ou fato na minha cara (coisa que ela nunca fez, graças a Deus), aquele sofrimento não valia a pena.

Porém, o rosto alegre de Raquel, seus olhos brilhando a cada item que tocava, sem levar nenhum. O sentimento de posse com tudo aquilo, o passeio das "compras" era tão bom para ela… que não tive coragem de sequer me mover do lugar.

Por fim, estava decidido. Decidi esperá-la.

É minha esposa. Eu a amo. São apenas umas besteirinhas. Logo voltaríamos para casa.

Ela reapareceu depois de muito tempo com um esmalte. Apenas um único esmalte.

— Amor, pergunta pra algum funcionário onde fica o shampoo (….)

Nada me fazia acertar a pronúncia daquele shampoo. Fui até um funcionário da loja e perguntei. Ele respondeu com um sorriso de quem não vê a hora do almoço chegar:

— Naquele corredor mesmo, senhor.

Fui até o famigerado corredor. Nada.

— Não achei, Raquelzinha. Que pena.

— Ah! Deixa pra lá, então. Vamos pro andar de cima.

Ela não tinha se tocado.

Sem olhar para trás, Raquel subiu as escadas rolantes em busca de algo somente Deus sabia.

Rodamos por dez minutos ali só para levar uma fita dupla face. Fomos embora.

Entramos em outra loja de roupas. Tinha desodorantes masculinos em promoção ali.

— Sente esse cheiro, meu bem. O que achou?

— Cheira barato. — e findei a resposta com um sorriso cansado.

Sentei com as sacolas onde se provam sapatos esperando ela escolher as muitas roupas que gostou. Raquel apareceu dez minutos depois com nove peças dentro da sacola. Foi ao provador.

Saiu de lá trazendo uma só. A calça. Finalmente, Senhor!

Fomos para fila do caixa. E lá, mais um problema surgia...

— Ai, vida. Está sem preço. E agora? Vou ter que procurar outro modelo e...

— Não amor! Por Deus! Calma que dou um jeito.

No caixa, perguntei para uma atendente o preço da calça. Ela chamou uma gerente para ajudar e pediu que aguardássemos ao lado da fila. Enquanto isso outras pessoas eram atendidas, passando assim a minha vez.

Nessa hora eu já nem me sentia dentro do corpo. Até minha esposa fazer algo.

No instante que esperávamos, nada como uma boa brincadeira de casal em público. Raquel começou a beliscar minhas nádegas.

— Está gordinho, hein bundão!

Realmente ela não tinha se tocado.

— Amor, para de fazer isso. Ficou doida? Tem gente vendo!

Minha censura em voz baixa soou como a reprimenda de um professor diante de toda a classe. Raquel murchou e agora era meu remorso beliscava.

— Querida, saindo daqui, vamos tomar um sorvete, ok?

Compramos a calça e tomamos um milk shake de ovomaltine. O sorriso de minha esposa voltou. Já o dinheiro, não.

Chegando em casa, desmaiei no sofá. Eu estava exausto. O que devia ser somente uma visita a uma feira feminina, fora, na verdade, um tour por todas as lojas existentes no centro.

No fundo, não sabia porque ainda aceitava fazer compras com Raquel. Ela demora demais. Além disso, as coisas que comprava nem sempre faziam sentido para mim.

Porém, a noite, quando acordei e vi nossa foto de casamento, que estava numa velha moldura, colada na parede com a fita dupla face. E Raquel surgiu… meu Deus. Como estava linda. Ela estava usando tudo o que tinha comprado naquele dia.

Foi nessa noite de amor que descobri o quanto valia a pena, e que nada no mundo pagaria por aquele momento maravilhoso que tive com minha adorável Raquel.

Era eu que não havia me tocado.


28 de Maio de 2020 às 08:57 0 Denunciar Insira Seguir história
0
Fim

Conheça o autor

Leandro Severo Eu escrevo. Se bem ou mal, aí descobriremos juntos.

Comentar algo

Publique!
Nenhum comentário ainda. Seja o primeiro a dizer alguma coisa!
~

Mais histórias

Peregrina Peregrina
Ela olhou para a existência Ela olhou para a exi...
Bem vindo ao espaço em branco Bem vindo ao espaço ...