pidghuntercohen Vinícius Pinheiro

"Talvez a constelação de Órion seja a mais intrigante para mim. Talvez seja pela mitologia que está inserida envolta dela ou ao menos pela atração um tanto exótica que sempre tive em todos os assuntos que envolvam o espaço sideral. De qualquer forma, foi através dela que eu vivi a melhor e não mais dolorosa experiência da minha vida até agora: o primeiro coração partido." Eliseu Pereira é um jovem habitante do pequeno município de São Camilo, interior da Bahia. Divide o tempo entre estudar astronomia na UFBA e trabalhar como caixa em uma padaria na sua cidade natal. Apesar disso, sua vida sempre foi monótona e sua dificuldade em lidar com socializações firma-se como um enorme empecilho. Assim, após um desabafo em seu quarto enquanto observava o céu noturno, presencia um encontro que promete mudar por completo sua vida.


Romance Para maiores de 18 apenas.

#mistério #amor #auto-descoberta #amizade #ficção #constelação #constelações #espaço #misticismo #nordeste
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Três Marias

Talvez a constelação de Órion seja a mais intrigante para mim. Talvez seja pela mitologia que está inserida envolta dela ou ao menos pela atração um tanto exótica que sempre tive em todos os assuntos que envolvam o espaço sideral.

De qualquer forma, foi através dela que eu vivi a melhor e não mais dolorosa experiência da minha vida até agora: o primeiro coração partido.

Antes de revelar como tropecei em meio ao abismo do meu próprio egoísmo, é necessário que vocês estejam bem situados, então, sem mais delongas, embarcaremos logo no mar vasto de pensamentos que compõem a melodia instável da minha vida pessoal.

— Bom dia, Eliseu! — Dona Marta, uma das clientes mais assíduas da padaria, me cumprimentava e eu prontamente lhe entregava os mesmos pães que possuía a rotina de comprar.

— Bom dia, Dona Marta! Vai querer mais alguma coisa hoje? — Sorri, me afastando do balcão após entregar a sacola, me preparando para a quase inexistente possibilidade dela pedir algo.

— Dessa vez eu quero sim! — Se apoiava no balcão, numa postura típica de quem teria uma longa prosa em instantes.

— E o que seria? — Me aproximei do balcão novamente.

— Queria saber da tua vida, ora mais! O que você tá fazendo por aqui, hômi? — Falou, arrastando o sotaque. — Trabalhando nessa padaria bem na véspera do carnaval! Vá se divertir, é tão novinho e a Bahia é logo ali, rapaz!

O riso foi inevitável, mas só um risinho mesmo, como os que damos quando alguém espalha uma história de infância embaraçosa.

— Não sou muito de festas, viu Dona Marta? Ainda foi difícil convencer o Seu Manoel de que eu vinha trabalhar aqui hoje. Sabia que ele não ia abrir a padaria?

— Nem fale nisso, menino! Ia ser um horror se vocês fechassem isso antes do tempo certinho. — Respirou fundo, uma respiração cansada, provavelmente por causa da idade.

— Eu só não peço pra trabalhar no carnaval também porque tenho matéria da faculdade pra dar conta... — Repousei o pano branco em que limpava as mãos sob o ombro.

— Ôh, meu filho... Eu sempre digo pros meus meninos que estudar é a melhor coisa pra eles fazer, mas você vive pra lá e pra cá, uma hora tá aqui, outra hora tá com sua família e outra hora tá longe estudando. Quando vai sair dessa rotina judiosa?

— Dona Marta, eu fico com mainha, painho, meu irmão e minha irmã... Isso basta. — Outro risinho fraco.

— Pra quem? — Pegou novamente a sacolas dos pães que outrora estavam repousadas sob o balcão. — Mas sua alma, sua palma. Não vou mais me meter. Só pense no que eu falei, tá bom?

E foi embora, me deixando pensativo até acabar o turno, guardei o avental, joguei fora a touca e as luvas e, por fim, tranquei a padaria, deixando a chave na casa do Manoel, meu patrão.

A rotina que Dona Marta fez questão de mencionar, se refere a 100% do meu tempo livre. Entretanto, desde pequeno sou acostumado com mudanças, saía todos os dias de São Camilo de Dentro pra estudar em São Camilo de Fora, coisa de trinta minutos de distância em uma estrada pavimentada até a metade, sendo cortada também por um rio que nunca vi secar, mas nunca vi encher além da conta.

Tudo bem que ambas partes ainda são do município de São Camilo, com pouco mais de sete mil habitantes dispersos. Enfim, além disso, curso astronomia e astrofísica, tendo que abandonar de novo a minha cidade para uma um pouco mais distante, politizada, populosa, que abriu meus olhos e me rendeu perrengues nas primeiras viagens.

Todo final de semana eu retorno pra São Camilo, ver minha família e garantir meu sustento, que não é muito, mas é o suficiente pra pagar as despesas extras, já que moro nas dependências da universidade e não preciso me preocupar com aluguel ou comida.

E não, não é que eu não goste de festas, eu consigo até aproveitar elas, mas não sozinho, e as diversas experiências de mudança, perca e descoberta de amizades não foram um ciclo favorável para meu receio crônico de situações sociais. E agora, começando a faculdade, aí é que não tenho ninguém por perto, somos completos desconhecidos buscando causar uma primeira impressão boa o suficiente para que outras pessoas possam nos aceitar aos poucos pelo que verdadeiramente somos. Nem mesmo passaram trabalhos em grupos ainda, se fosse assim eu já teria sido forçado a interagir, talvez fosse recíproco, mas talvez fosse apenas estresse no fim das contas.

Ao chegar em casa, corri imediatamente para o meu quarto, estava escurecendo e minha família já havia saído para a missa de trígésimo dia de um amigo do meu pai de tempos mais antigos. Ainda sem tomar banho, peguei o meu telescópio e posicionei na janela do meu quarto, mirando no céu estrelado que iluminava a cidade melhor que a rede elétrica. Encarei fixamente a constelação de Órion, que parecia completamente visível, mas minha atenção ficou voltada totalmente para as "Três Marias" formadas em seu cinturão.

É até engraçado como as aulas mais rápidas de serem ministradas conseguem fixar melhor na nossa cabeça do que o método repetitivo e exaustivo de discorrer sobre o mesmo tópico várias vezes, em vários momentos. Por isso lembro bem da aula, ou melhor, da citação sobre o cinturão.

"Há uma teoria de que as três pirâmides do Egito estejam localizadas bem abaixo de cada uma dessas estrelas, bem como ouvi uma vez em uma viagem que um dos povos nativos daqui do país acredita que na verdade cada estrela antes era uma humana, que encantadas pelo céu, desejaram ser transportadas. Assim foi feito, hoje brilham no céu esperando que alguém troque de lugar... Mas isso é só uma curiosidade, vamos focar na parte que interessa pra aula"

É a única coisa que consigo me lembrar desse dia, por isso decidi focar a visão justamente nas Três Marias, numa tentativa falha de assimilar com alguma imagem do slide quase infinito do professor e tentar lembrar de alguma coisa. Frustrado, suspirei enquanto apoiava meus ombros sob a base da janela, olhando a rua de terra, deserta como em um filme americano de Velho Oeste.

— É, mas ao menos imagino que daí vocês tenham uma visão melhor que daqui. — Disse enquanto voltava a atenção, agora a olhos nus, para a constelação. — Ao menos vocês não estão solitárias aí, nessa vastidão de céu... Se bem que estar sozinho não significa estar solitário, eu por exemplo, tô cheinho de gente ao redor e me sinto solitário... Não é irônico? Se vocês voltassem pra cá eu aposto que tentariam levar uma vida melhor... Eu nem mesmo consigo mudar minha rotina chatinha...

Suspirei novamente, me dando conta de que estava me lamentando não só para poeira universal como também para poeira existente na rua em frente de casa. Daí decidi tomar banho e já me preparar para dormir, uma vez que estudar seria inútil.

Foi quando saí do banheiro, enrolado na toalha e cantarolando Alceu Valença, que encontrei a imagem dela refletida no meu espelho enquanto penteava os cabelos. Eu jamais esqueceria aquela pele escura, atraente como se fosse o próprio céu noturno, muito menos aquelas curvas que tornavam o corpo um pouco mais robusto, em uma silhueta perfeita da mulher dos meus sonhos. O cabelo azul vibrava forte, realçando ainda mais sua expressão facial. Os olhos então, nem se falam, era uma coisa hipnotizante, como se fosse um poço sem fundo... E eu queria mergulhar de cabeça nele, como eu queria.

— Oxe, quem é tu, criatura? E o que faz aqui? — Disse após me recuperar o suficiente para uma reação.

— Me chame do que quiser, sou só uma guia para seus desejos mais profundos, vim do seu credo, te acudir e acolher como uma mãe, ser compreensiva como uma amiga e te dar amor como uma irmã. — A voz serena penetrava com doçura em meus ouvidos e invadia rapidinho o meu coração.

— Meu credo? Tava espiando a janela? É parente da Dona Marta? — Levantei uma sobrancelha.

— Não, sou a resposta da sua prece praquela lá em cima. — Voltou a responder.

— A Santíssima Trindade? — Permanecia confuso. — É mainha que reza direto, eu mesmo não.

— Não, elas. — Apontou para a constelação que eu observava antes.

A gargalhada foi inevitável.

— Você é muita gaiata mesmo, viu moça? — Falei enquanto me aproximava. — Agora saia que eu preciso me trocar. — Tentei pegar no pulso dela pra puxar dali, mas minha mão simplesmente atravessou.

Tentei de novo, e de novo, e quantas vezes foram necessárias para que ela me convencesse, algum tempo depois.

— Pronto, agora me materializei, já posso explicar as regras? — Sentou na minha cama, ignorando minha cara de bocó, perplexo com aquilo.

— Vá em frente. — Sentei do lado dela, completamente fascinado.

— Vim aqui para te ajudar nos seus problemas, quando eu acabar minha missão, volto pro meu lugar de origem. Contudo, há três regras... Volto mais cedo se não tiver jeito de concluir meu objetivo, ninguém tem a capacidade de me ver além de você e eu não posso, de forma alguma, me envolver romanticamente... O que significa que você não pode se apaixonar por mim.

Tarde demais.

— Por que acha que eu vou me apaixonar? — Cruzei os braços.

— Pois enxergará seus sentimentos em mim, já que eu fui feita deles, não vai ser amor, vai ser egoísmo e narcisismo, qualidades que não agradam elas lá em cima. É como um teste, você vai querer que eu me prenda a você, não posso, sou livre, são as regras das estrelas.

— Ainda te acho convencida. Que fique claro... — Revirei os olhos.

— E por último, um detalhe, só posso aparecer pela noite e devo sumir logo antes de nascer o Sol... Agora, como começamos? — Sorriu, de ponta a outra.

— Não começamos. Minha rotina é diária, eu uso a noite apenas pra estudar. — Mexi os ombros para cima e para baixo, sem me importar tanto.

"Não tem problema, podemos conversar assim e quando for de noite, nos encontramos."

— O que você fez? — Disse após ouvir a voz dela em minha cabeça.

— Já que eu não posso aparecer enquanto o Sol estiver no céu... Você só vai poder me ouvir na sua cabeça. Assim como não vê as estrelas de dia na maioria das vezes, mas elas sempre observam tudo. — Riu.

— Isso é extremamente bizarro. — Falei e ouvi batidas na porta, sinalizei para que ela ficasse quieta e fui abrir.

Era minha mãe, que havia acabado de voltar da missa, após me abraçar, olhou o quarto inteiro.

— Falando sozinho? — Perguntou.

"Lembre das regras" — A voz ecoou novamente.

— É, mainha! — Dei um risinho sem graça — É um jeito novo de estudo, repetir as coisas em voz alta.

— Sendo assim, vou deixar meu filho estudar... Mas qualquer coisa tem comida na mesa, viu? Sei que não comeu nada aqui, só se tiver comido algo na padaria...

— Pode deixar... — Disse e fechei a porta novamente assim que ela saiu, voltando a sentar do lado dela. — E já que tu é humana também, sente fome?

Ela negou com a cabeça antes de responder:

— Eu posso comer quando tô materializada, mas não sinto fome ou necessidade de ir ao banheiro... Assim como você pode me tocar agora, as estrelas me deram esse presente como forma de me aproximar mais dos humanos de modo geral, mesmo você sendo o meu primeiro...

E assim foi conversa sendo jogada fora a noite inteira, naquela véspera de Carnaval, descobrindo mais sobre ela e ela descobrindo mais ainda sobre mim. Até brincamos de adivinhar, eu descobri que ela não sabe ler os meus pensamentos, ainda bem! Imagina ela descobrir que não saía da minha cabeça? E eu nem estou falando da tal pseudotelepatia dela... Mas sim do outro sentido, eu já sabia que a minha desgraça estava programada como desfecho daquela história.

28 de Maio de 2020 às 04:43 0 Denunciar Insira Seguir história
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