tsukimiko_san Tsuki Miko

"O que via nos sonhos eram memórias de uma vida passada muito distante, talvez em outro mundo — um mundo onde ele lutava pela sua vida, pessoas tinham poderes e Khun estava perdidamente apaixonado." Khun sonha com sua vida passada em outro mundo, e descobre que, lá, ele era apaixonado por um garoto de olhos dourados e o sorriso mais lindo e gentil que já tinha visto.


Fanfiction Anime/Mangá Impróprio para crianças menores de 13 anos.

#fluffy #tower-of-god #khunbam #khun-x-bam #khun-aguero-agnis #25th-bam #bamkhun
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Capítulo Único

Então... eu vi os primeiros eps do anime de ToG recentemente e fiquei curiosa, então fui ler o manhwa.

Eu pensei antes de começar “Calma, Tsuki, você não vai se apaixonar por mais um shipp, ficar hypada e escrever fanfic deles dessa vez”

Terminei de ler o manhwa semana passada. Eu me apaixonei por mais um shipp, fiquei hypada e escrevi fanfic deles.

Aqui está o resultado do meu amor eterno por esses dois garotos que merecem o mundo.

ANIME ONLYS, CUIDADO: CONTÉM SPOILERS DO MANHWA!!!

PS.: No manhwa traduzido, o Bam trata todo mundo por Sr., Sra. e Srta., mas eu fui checar a raw em coreano e vi que ele usa o honorífico -ssi, então eu apenas mantive o original. Eu entendo absolutamente nada de honoríficos coreanos, se eu fizer alguma besteira me avisem, pfv.



Khun Aguero Agnis não era uma pessoa supersticiosa.

Crescendo em uma família rica onde tudo o que importava era a sua habilidade em manter os negócios da família enquanto tentava não ser esfaqueado pelas costas, era muito mais conveniente ser cético. Não confie em nada além de si mesmo e da sua própria mente, era o que sua mãe dizia.

Até o dia em que a sua mente decidiu traí-lo.

Os sonhos começaram quando ele entrara no Ensino Médio. A princípio, não era nada demais, apenas o esperado de um sonho; flashes de cenas confusas e pessoas. Elas pareciam estar lutando de um jeito que nunca seria possível na vida real, com movimentos estranhos e coisas brilhantes que pareciam magia. Parecia algo tirado diretamente de um dos animes de fantasia que seu amigo, Shibisu, gostava de arrastá-lo para assistir.

Mas, com o passar do tempo, os sonhos foram tomando forma até se tornarem tão terrivelmente vívidos que Khun não podia mais ignorar. Neles, apareciam vários de seus amigos — Shibisu, Endorsi, Hatz, até Anaak, que estranhamente tinha uma pele esverdeada e uma cauda de lagarto nos sonhos. Mas, também, apareciam pessoas desconhecidas, lutando ao seu lado. E, por algum motivo, sempre que acordava, ele não conseguia lembrar dos seus nomes, apenas seus rostos.

Khun era uma pessoa que funcionava pela racionalidade, mas ele simplesmente não conseguia encontrar uma explicação lógica para seus sonhos. Eles eram realistas demais, e, mesmo fora de ordem, pareciam se conectar uns aos outros por uma mesma linha do tempo — como se fossem uma única história. Khun podia ser um garoto extremamente inteligente para a sua idade, mas não acreditava que tinha uma imaginação fértil o bastante para criar tudo aquilo do zero, todas as noites, por meses.

Porém, de todas as coisas estranhas que via nos sonhos, a mais desconcertante de todas era aquele garoto.

Ele não tinha uma aparência especialmente chamativa: cabelos escuros, olhos redondos e dourados, e um rosto inocente. Assim como todas as outras pessoas que via nos sonhos, Khun não sabia seu nome, mas, por algum motivo, ele estava sempre presente; fosse lutando ao seu lado, fosse conversando sobre alguma leviandade, fosse dando um sorriso gentil e apertando suas mãos quando Khun se preocupava com alguma coisa, fosse dominando seus pensamentos quando ele estava longe.

Cada vez que ele acordava de mais um sonho, a imagem do garoto ficava marcada na sua retina por um bom tempo, como se tivesse olhado diretamente para o sol. Seu coração, apertado no peito, doía com um sentimento que não conseguia nomear, mas que lhe fazia querer estender a mão, alcançar aquele garoto e trazê-lo para o mundo real para que pudesse tê-lo nos braços. Khun nunca o tinha visto na vida, tinha certeza disso. Mas por que ele parecia ser alguém tão importante? E por que se sentia tão confortável e seguro quando os dois estavam juntos nos sonhos? Quando fora a última vez que se sentira verdadeiramente seguro...?

Depois dos primeiros meses, Khun jogou pela janela toda a sua lógica e racionalidade e decidiu pesquisar na internet o que estava acontecendo consigo. Não ter nenhuma ideia do que aqueles sonhos ou aquele garoto significavam era excruciante; qualquer explicação lhe parecia melhor que nenhuma.

Assim que leu o termo “vidas passadas”, Khun quis rir. Rir de si mesmo. Aquilo ia contra todo o ceticismo que guiava sua vida, mas, sem nenhuma hesitação, ele se viu acreditando. Era a única coisa que fazia sentido; o que via nos sonhos eram memórias de uma vida passada muito distante, talvez em outro mundo — um mundo onde ele lutava pela sua vida, pessoas tinham poderes e Khun estava perdidamente apaixonado.

No fim, ele não conseguiu a coragem para contar a ninguém, nem aos seus amigos. Era mais fácil se acostumar com aqueles sonhos e enterrar aqueles sentimentos onde nunca mais pudesse encontrá-los. Ninguém além dele se lembrava, de qualquer forma. Não seria diferente com qualquer outro que encontrasse novamente — não seria diferente com aquele garoto.

Até que, em uma fatídica tarde quente de verão do início do seu segundo ano, Khun caíra no sono na biblioteca da escola. Ele tinha ficado acordado até tarde na noite anterior, resolvendo problemas relacionados ao conselho estudantil, não lhe dando muito tempo de sono.

Ele se sentara sozinho para estudar na biblioteca como costumava fazer todos os dias depois das aulas, mas, quando deu por conta, já tinha deitado a cabeça sobre os livros. A dor de cabeça pela privação de sono gradualmente desaparecera enquanto deslizava para a inconsciência.

Daquela vez, era um dos sonhos tranquilos. Khun estava de pé em uma varanda. O céu azul e limpo, repleto de nuvens brancas, se estendia acima de si — não era o céu de verdade, pelo que soubera em outro sonho; naquele mundo, tudo o que havia acima da sua cabeça era um enorme teto. Mas era uma visão bonita do mesmo jeito.

Seus cabelos lisos e azulados estavam soltos, balançando gentilmente na brisa. O silêncio era uma bênção, considerando toda a agitação que costumava ser a maioria dos outros sonhos.

Então, um barulho ao seu lado chamou sua atenção. Sem surpresa alguma, Khun viu a figura já familiar do garoto que costumava amar. Ele se escorara no gradil da varanda e estava encarando o “céu” também. As laterais de seus corpos se tocavam, e apenas aquilo já era o bastante aquecê-lo — de dentro para fora.

O que você está fazendo aqui sozinho? — o garoto perguntou, com um sorriso divertido. A luz do dia refletia nos cabelos castanhos, curtos e levemente ondulados, e dava aos seus olhos um tom mais vibrante de dourado. — Você está irritado comigo?

Nunca. — Sua resposta foi rápida, sem hesitação. — Você sabe que eu nunca consigo ficar irritado com você.

Vindo de você, isso me deixa lisonjeado. — O garoto riu, e, para Khun, o som era simplesmente angelical. — Mesmo assim, eu ainda queria pedir desculpas. Nós finalmente nos encontramos de novo, e temos que seguir caminhos separados.

Não é sua culpa. Foi aquela maldita guia da FUG quem sugeriu isso, não foi? — Sem pensar no que fazia, Khun cobriu a mão do outro, que descansava ao seu lado, com a sua. — Claro, ainda é frustrante, não me entenda mal. Por mais irritante que o crocodilo seja, eu mal posso esperar para que nós três sejamos um time de novo. — Ele revirou os olhos, tirando uma risada do garoto. — Só vamos ter que esperar um pouco mais. Só isso.

Só isso — o outro garoto repetiu, como se tentasse convencer a si mesmo. Então, em uma tentativa de descontrair, Khun empurrou o ombro do outro e sorriu de canto.

Só não esqueça de mim enquanto estiver longe.

Nunca! — Ele riu e inclinou a cabeça, apoiando-a na sua têmpora. O dourado em seus olhos brilhava ainda mais de perto. — Eu nunca esqueceria você. Nem se eu morresse.

Não fale sobre morte, é deprimente.

— Mas é verdade. Nem em outra vida eu esqueceria de você.

Eu não acredito nisso de outras vidas, mas... Ouvir você falar isso me deixa um pouco aliviado — sussurrou. Inconscientemente, Khun virou a cabeça, deixando suas testas unidas, levou a mão livre até seu rosto e acariciou a pele suave com delicadeza. Ele estava perto, tão dolorosamente perto.

Mas, para a sua surpresa, foi o outro garoto quem timidamente eliminou a distância entre eles, selando seus lábios. Era um toque gentil como o bater de asas de uma borboleta, mas foi o bastante para acender fogos de artifício dentro de si.

Quando eles se separaram, Khun sentiu o rosto queimar — algo pouco característico dele, mas ele acreditava que aquele garoto era capaz de trazer à tona um lado de si mesmo que sequer conhecia.

Espera... você acabou de me beijar?

— Oh... D-Desculpa, eu...

— Não estrague nosso primeiro beijo com um pedido de desculpas. — Khun pôs o indicador sobre seus lábios, e admirou como o garoto ficava encantador com as bochechas ruborizadas. — Eu só não esperava que você também gostasse de mim.

— É claro que eu gosto! Desde o andar de testes, como eu poderia não-- Espere um pouco... — Ele estreitou os olhos. — Você disse “também”?

Khun revirou os olhos, mas não conseguiu conter o sorriso que surgiu em seu rosto.

Não me faça dizer em voz alta. — E puxou-o para um beijo novamente.

Quando Khun abriu os olhos na biblioteca da escola, eles estavam úmidos de lágrimas.

Com irritação, ele enxugou o rosto com as mãos, agradecido pelo lugar estar vazio. Seu corpo subitamente parecia frio, apesar de estarem no verão.

Na mesa ao lado dos livros, a tela do seu celular se acendeu com uma mensagem de Endorsi, que o chamava para ajudá-la com um relatório para o conselho estudantil. Khun sentiu-se tentado a enviar uma resposta mal-educada e um sermão, pois aquilo era trabalho dela, mas ele sentia que precisava dissipar seus pensamentos. Digitou uma resposta rápida, não sem um xingamento depois, guardou suas coisas e saiu da biblioteca.

Esperando que qualquer vestígio de choro tivesse desaparecido de seu rosto, Khun cruzou os corredores quase vazios do colégio até a sala do conselho estudantil. Por conta do clima, poucos alunos permaneciam dentro dos prédios da escola fora do horário de aulas. Ele não se importava; preferia ficar do lado de dentro do que ter sua pele pálida queimada pelo sol quente.

Em frente à sala do conselho, quatro estudantes aguardavam, recostados na parede do lado oposto à porta e conversando casualmente entre si. Com um sobressalto, Khun reconheceu-os de seus sonhos. Uma garota de cabelos compridos e um loiro com uma expressão brincalhona, ambos com o uniforme do Ensino Médio, junto com uma menina baixinha e um garoto de cabelos escuros com o uniforme do Fundamental.

Khun lembrava de vê-los lutar... Inferno, ele fora parte do time deles por um bom tempo. Podia não lembrar-se dos seus nomes, mas os reconheceria em qualquer lugar.

Então, os olhos rosados da garota de cabelos compridos captaram sua presença. Ela cutucou os amigos e sussurrou, como se achasse que ele não a ouviria:

— É o presidente!

Os olhos dos estudantes relancearam a braçadeira do conselho estudantil presa ao seu blazer e se calaram. Khun suspirou. Ele podia ser um presidente rigoroso, mas isso não queria dizer que as pessoas precisavam ter medo dele. Tanto faz, pensou, dando de ombros, e encaminhou-se para a porta.

Então, ela se abriu e um garoto saiu apressadamente. A voz animada de Endorsi se fez ouvir:

— Por favor, volte sempre que quiser!

— O-Obrigado, E-Endorsi-ssi, mas eu n-não quero inco--

Sua voz morreu na garganta assim que seus olhos cruzaram com os de Khun.

Dourados. O tom mais brilhante e lindo de dourado que ele já vira.

A lembrança do beijo que revisitara há pouco dominou sua mente com força total.

O momento durou no máximo dois ou três segundos, mas lhe pareceram horas. Os estudantes que estavam esperando rapidamente se adiantaram e puxaram o garoto dos seus sonhos — literalmente — pelo corredor. Khun mal registrou as palavras que o loiro disse:

— Vamos, novato, ou o karaokê vai fechar!

O garoto desviou o olhar e se deixou ser arrastado pelos amigos. Já Khun não conseguia desgrudar os olhos dele, como um girassol que acompanhava o movimento do sol no céu. Ele fora exatamente do mesmo jeito na outra vida; nunca conseguia olhar para longe daquela pessoa que se tornara a maior luz da sua existência.

Pouco depois que o grupo desapareceu no fim do corredor, Endorsi surgiu ao seu lado, apoiando um cotovelo em seu ombro.

— Ei, Khun, que cara é essa? Parece até que viu um fantasma.

— Quem... quem é aquele garoto? — perguntou, ignorando o questionamento da garota, e parabenizou-se por ser capaz de manter a voz estável.

— O que saiu agora? O nome dele é Bam. Ele é um aluno transferido, veio para tirar dúvidas sobre os horários. Bonitinho, não é? Totalmente meu tipo. — Ela enrolou uma mecha de cabelo castanho curto no dedo, e uma sobrancelha perfeitamente feita ergueu-se. — Por quê?

Claro que ele é seu tipo. Você tinha um crush avassalador nele na outra vida.

Khun dissipou aqueles pensamentos e focou no que importava para ele. Bam. Agora que ouvira seu nome, ele percebeu o quanto ele soava familiar e lhe trazia um conforto no peito.

— Eu te encontrei — sussurrou, mal acreditando nas próprias palavras. Se, desde que tudo aquilo começou, Khun não fosse incapaz de sonhar qualquer outra coisa além das suas memórias da vida passada, ele acharia que estava sonhando.

— Hm? Você disse alguma coisa? — Endorsi inclinou a cabeça para o lado, curiosa. Khun despertou de seu devaneio e voltou-se para a amiga.

— Eu te ajudo com o relatório, mas você vai pagar meu almoço pelas próximas duas semanas.

— E minha dívida com o presidente Khun só aumenta. Céus, garoto, você é pior que um agiota. Não me surpreenderia se qualquer dia desses você mandasse me matar por não ter pago o que eu te devo.

— Você é rica, Endorsi, pare de se lamentar. Vamos ao trabalho.


►♦◄


— Bam? Você está bem? — Wangnan perguntou, preocupado. Eles já estavam há um tempo no karaokê, mas apenas os outros estavam cantando; até Prince, que teve que ser ameaçado por Miseng para pegar o microfone, cantara uma música ou duas. Já Bam apenas assistia, sentado no sofá com um olhar perdido, sorrindo e respondendo educadamente quando se dirigiam a ele.

— Se você não estiver se sentindo bem, podemos ir embora — Ehwa disse, gentilmente, e sentou-se ao seu lado. Bam sacudiu a cabeça veementemente.

— Não, eu estou bem! Eu fiquei muito feliz que você e Wangnan me convidaram para sair...

— É claro que convidamos! — Wangnan deu tapinhas nas suas costas. — Você entrou hoje na nossa sala, mas eu sinto como se fôssemos amigos de longa data!

É porque somos, pensou. Mas não nessa vida.

Bam sorriu.

— Obrigado. Eu acho que só não estou muito a fim de cantar hoje. Posso deixar pra próxima?

— Claro, o que você quiser! — Wangnan bagunçou seus cabelos.

— Por que vocês obedecem o Bam mas quando sou eu vocês me obrigam a cantar? — Prince reclamou, e desviou de uma almofada que Miseng jogou nele.

Bam riu enquanto os outros voltavam a discutir e decidir a próxima música. Era bom vê-los assim, descontraídos, sem a preocupação de sobreviverem ao dia seguinte, e sem o peso do luto pela morte de companheiros.

A verdade era que ele estava muito satisfeito em apenas se divertir com os amigos que ele teve a sorte de reencontrar naquele mundo. Na aula, mas cedo, quando viu Wangnan e Ehwa acenando para ele enquanto procurava um lugar para sentar no seu primeiro dia, Bam sentiu como se houvesse encontrado um tesouro que estava há muito tempo procurando.

Desde que começara a ter sonhos sobre sua vida passada, ele se viu ansioso para encontrar as pessoas que ele conhecera antes. Bam deixara aquilo em segredo, pois imaginava que ninguém acreditaria; o que ele diria? “Nós éramos amigos na minha vida passada, você não lembra de mim, mas eu conheço você por causa dos meus sonhos. Então, quer ser meu amigo de novo?”?

Felizmente, ele conseguira, até então, manter um bom relacionamento com os antigos companheiros que encontrara por acidente. Reencontrara até Endorsi! A orgulhosa princesa, que agora era vice-presidente do conselho estudantil, ainda flertava descaradamente com ele, apesar de Bam nunca ter sido capaz de identificar se era sério ou uma brincadeira.

O dia estava sendo normal. Excepcionalmente bom, por ter reencontrado alguns de seus amigos, mas normal. Até Bam sair da sala do conselho estudantil e seu olhar cruzar com um par de olhos azuis-cobalto terrivelmente familiares.

Aquele garoto de cabelos azuis e um sorriso pretensioso quase permanente era a maior incógnita dos seus sonhos. Em todos eles em que aquele garoto aparecia, ele se sentia quente por dentro; neles, Bam se lembrava de referir-se a ele como seu melhor amigo, sua pessoa mais preciosa e, em algum momento daquela vida, a pessoa que mais amava.

Era um pouco assustador, saber que era tão apaixonado por alguém que não conhecia no presente, mas, ao mesmo tempo, ele não conseguia controlar aquele sentimento esmagador de saudade. De querer estar ao lado de uma pessoa a cada segundo, e de sentir um vazio inexplicável quando percebia que ela não estava ali — como ver um quebra-cabeça com uma peça faltando.

Os dois se amavam muito naquela vida, Bam tinha certeza disso. Mas... ele fechou os olhos e lembrou de quando o viu ali, em carne e osso, parado no corredor, a poucos metros de distância. O garoto parecia um pouco abatido, mas nada conseguia ofuscar o quão lindo ele era: nem as leves olheiras sob os olhos azuis, nem os cabelos presos frouxamente e com muitos fios fora do lugar, como se tivesse acabado de acordar. Apenas alguns passos, e Bam conseguiria esticar a mão e afastar as mechas soltas de seu rosto delicado. Até agora, seus dedos formigavam com a vontade de fazê-lo.

Pare com isso. Ninguém que você reencontrou tinha lembranças daquela vida. Ele não vai se lembrar de ter te amado.

— Ei, Miseng? — Bam chamou, e a menina virou a cabeça na sua direção. Ela era a única que não estava cantando naquele momento — Prince, Wangnan e Ehwa estavam executando uma performance impressionante de algum grupo popular de kpop com três integrantes. — Você pode me dizer quem é aquele garoto que estava perto da sala do conselho estudantil quando eu saí hoje mais cedo? O com a braçadeira.

— Ah, você quer dizer o presidente Khun? — Miseng segurou o queixo, pensando. — Ele é o presidente do conselho do Ensino Médio. Eu e Prince não o vemos muito, porque temos o nosso próprio conselho estudantil na divisão do Fundamental, mas dizem que ele é bem rígido. Ehwa diz que ele é incrível, tem as melhores notas da escola e ainda é o único capaz de coordenar o conselho estudantil com tanta eficiência. Até Endorsi Jahad o ouve.

— Khun-ssi, huh...? — Ao dizer o nome em voz alta, Bam percebeu o quão familiar ele era. Tinha a impressão de que falara aquele nome muitas vezes antes. — Ele é um gênio aqui também... por que não estou surpreso? — Deu uma risada fraca, ganhando um olhar confuso de Miseng.

Eu o encontrei de novo, pensou, sorrindo para Wangnan, Ehwa e Prince, que terminavam a música com uma pose digna de um grupo idol. Isso já é o suficiente para mim.


♦◄


Estranhamente, naquela noite, Khun não teve sonhos.

Nenhuma batalha. Nenhum companheiro morrendo na sua frente. Nenhuma ameaça de morte. Nenhum garoto o beijando e sussurrando que o amava.

Quando ele acordou na manhã seguinte com o seu despertador, arrancando-o de um sono preenchido apenas com a escuridão, Khun permitiu-se parar por alguns minutos, encarando a luz do sol que atravessava pelas frestas da cortina de seu quarto, indicando o início de um novo dia. Aquela fora a primeira noite de sono normal que tivera desde que entrara no Ensino Médio, há pouco mais de um ano.

Ao mesmo tempo que sentia um certo alívio — alguns daqueles sonhos eram tão intensos que o faziam acordar sobressaltado e ofegante, mais cansado que ficaria se tivesse passado a noite em claro —, Khun também sentiu-se vazio. Ele esperava ver Bam de novo. A parte mais egoísta de si queria continuar a receber seu amor ao menos nas memórias do passado.

Mas, talvez, o Universo estivesse sendo gentil com ele. Se Khun continuasse a sonhar com o outro, seria infinitamente mais torturante vê-lo na vida real.

No dia anterior, Khun conseguira convencer Endorsi a emprestá-lo a ficha de Bam em troca de reduzir uma das dívidas que a garota tinha com ele. Ele se sentia um stalker usando sua posição para ver aquele tipo de informação, mas seu único objetivo era descobrir em qual classe o garoto estava. Ambos cursavam o segundo ano, mas estavam em turmas diferentes.

Por isso, naquela manhã, Khun se viu inquieto durante as aulas, sabendo que Bam estava a apenas algumas salas de distância, no mesmo corredor. E, nos intervalos, ele procurava em meio à multidão de alunos sem nem perceber, como se seus olhos tivessem vontade própria. Quando o fim do horário de aulas chegou, Khun concluiu que não havia se concentrado em absolutamente nada naquele dia, e teria trabalho dobrado para ler suas anotações quando fosse estudar sozinho.

Shibisu percebeu sua expressão de derrota enquanto encarava o quadro negro no fim da última aula e os outros alunos deixavam a sala, conversando animadamente. Ele e Hatz eram os únicos dos seus amigos que compartilhavam a mesma turma que Khun. Os dois trocaram um olhar preocupado antes de irem até ele; Shibisu sentou na carteira em frente à dele, enquanto Hatz permaneceu de pé ao seu lado, brincando com a alça da mochila.

— Ei, cara, aconteceu alguma coisa? Endorsi disse que você estava meio estranho ontem, e hoje você parece meio perturbado.

— Não é... — Khun hesitou. Aquela era a sua natureza: mentir, esconder o que sentia e lidar com seus problemas sozinho. Mas... suspirou, resignado. — Talvez... talvez tenha algo.

— Você sabe que pode nos contar. — Hatz cruzou os braços e franziu a testa.

— Oh, Hatz está subitamente preocupado comigo. Sabe o que chamam pessoas como você no Japão? Tsunderes.

O garoto foi rápido em golpeá-lo com a mochila que carregava. Khun desviou por pouco.

— Leve isso a sério, idiota.

— Ok, ok. — Respirou fundo e deslizou os dedos pelos cabelos para acalmar-se. Eles tinham um pouco de frizz, para seu desgosto. — Se, hipoteticamente, eu não conseguisse parar de pensar em uma pessoa em específico, e, por causa disso, eu não conseguisse me concentrar em nada... O que eu deveria, hipoteticamente, fazer?

— MEU DEUS! — Shibisu plantou as mãos na mesa de Khun, sobressaltando-o e fazendo-o dar um pulinho para trás na cadeira. — Não me diga que Khun está apaixonado?!

Ele sentiu um leve déjà-vu, porque se lembrava de ter ouvido Shibisu dizer aquelas exatas palavras na outra vida quando descobrira sobre seus sentimentos. Foi durante os seis anos que Khun acreditara que Bam estava morto, e todo o seu mundo havia desmoronado. Num momento de fragilidade, ele confessara sem querer em uma conversa com o outro, e nunca mais mencionaram aquilo — até Bam retornar, são e salvo para seus braços.

— Eu disse hipoteticamente — frisou, mas sabia que de nada adiantava. Arrependimento começava a tomar conta de si a cada segundo que passava. — Vai responder à pergunta ou não?

— Quem diria que Khun Aguero Agnis é um ser humano com sentimentos? — comentou Hatz, que ganhou um olhar assassino de Khun.

— Bom... "hipoteticamente"... — Shibisu fez aspas com as mãos. — Eu acho que você deveria falar com essa pessoa, se possível. Se você não consegue parar de pensar nela, pode ser porque você tem algum tipo de sentimento mal resolvido.

— Hipoteticamente.

— Hipoteticamente, claro — ele confirmou. Khun estreitou os olhos.

— Eu não esperava que logo você fosse dar um conselho. Esse é o meu trabalho, sabia?

— Você pode ser bom aconselhando as pessoas sobre qualquer coisa, Khun, mas é totalmente perdido quando se trata de sentimentos. — Shibisu se levantou e puxou Hatz pelo braço. — Vamos. Vamos deixar o Khun pensando sobre seu problema hipotético.

Logo, ele estava sozinho na sala de aula, acompanhado apenas de seus pensamentos.

Sentimento mal resolvido.

Bruscamente, levantou-se da cadeira e saiu apressadamente. Correr nos corredores não era uma atitude muito apropriada para o presidente do conselho estudantil, mas Khun não conseguia se importar naquele momento. Se tivesse sorte, ele ainda estaria na escola...

E, aparentemente, o Universo estava de bom humor naquele dia: ele captou, de relance, por uma janela, a figura conhecida do garoto de cabelos castanhos, que caminhava sozinho com uma pilha de papéis nos braços. Khun desceu as escadas e saiu do prédio, levemente ofegante e olhando para os lados. Bam se encaminhava para o outro prédio, provavelmente para entregar aqueles papéis na sala dos professores.

Khun ansiosamente alisou as roupas e os cabelos, tentando recuperar o fôlego e os resquícios da tranquilidade e frieza que lhe eram habituais, antes de se adiantar na direção do outro e chamar:

— Bam!

O garoto parou imediatamente e girou nos calcanhares, prendendo os olhos dourados em si. Khun perdeu todo o fôlego novamente.

— Khun-ssi? — A voz suave chamando seu nome pessoalmente, sem ser em um sonho, não fazia bem para seu coração. — Como... como você sabe meu nome?

— Eu poderia perguntar o mesmo. — Khun andou até ele, ignorando os batimentos cardíacos martelando nos ouvidos, e, sem pensar muito, pegou metade da pilha de papéis, aliviando sua carga. — Isso parece pesado.

— É claro que eu sei seu nome. Você é o presidente, oras. — Bam ajeitou os papéis remanescentes nos braços. — Obrigado. Eu estou levando isso para a sala dos professores, se importa...?

— Ah, certo. Eu te ajudo a levar.

Os dois caminharam em silêncio até a sala dos professores. A garganta de Khun fechou, engasgada com a intensa carga de emoções que carregava pelo garoto ao seu lado. Eu quero encontrar meu eu da vida passada e socá-lo. Por que diabos você foi se apaixonar?

Depois de deixarem os papéis e saírem, Bam fechou a porta da sala atrás deles e sorriu.

— Obrigado. Você foi muito gentil.

— Eu não sou gentil. — Khun desviou o olhar. — Eu fiz isso só porque é você.

Ele só percebeu o quão estranhas pareceriam aquelas palavras quando elas já haviam escapado da sua boca. Bam inclinou a cabeça, mirando-o com um olhar indecifrável por alguns segundos.

— Khun-ssi... você não me respondeu. Como sabe meu nome?

— Eu perguntei a Endorsi ontem. Só isso. — Khun virou e começou a se afastar. Ele sentia que, se falasse mais, revelaria seu segredo. Porque ele sempre fora assim na frente de Bam; aqueles olhos dourados pareciam enxergar sua alma e saber exatamente quando estava mentindo.

— Por quê? — O outro garoto foi rápido em alcançá-lo, mantendo-se no seu campo de visão e acompanhando seus passos. Sua voz estava mais agitada.

— Porque você é um aluno transferido.

— Mas eu não fui o único estudante transferido essa semana. Eu ouvi que uma garota nova entrou em outra classe ontem também. Qual é o nome dela?

Khun parou de andar. O corredor onde estavam parados estava completamente vazio.

— Você está tentando me fazer confessar que eu sou um stalker?

— Não. — Bam parou de frente para ele, com as mãos atrás das costas. Ele parecia ansioso. — Só estou curioso. Você me conhece de algum lugar, Khun-ssi?

Khun prendeu a respiração. Ele poderia mentir. Mil desculpas diferentes invadiram sua mente em um instante, e ele sabia que, com as palavras certas, todas elas seriam convincentes. Ele faria aquilo com qualquer um.

Mas aquele era Bam.

Xingou-se mentalmente.

— Você... você acreditaria se eu dissesse... — Khun olhou para o pátio da escola pela grande janela na parede ao seu lado, para as árvores farfalhando ao vento, para o sol de verão, ofuscante e intenso. Então voltou a olhar para o outro. Bam ouvia suas palavras com atenção. Não, ele não brilhava como o sol, cegando-o; mas sim, como um farol que guia marinheiros perdidos para casa. Um alento em meio à escuridão. — Se eu dissesse que eu te vi em meus sonhos...?

A brisa que entrou pela janela bagunçou ainda mais os cabelos escuros e ondulados do garoto à sua frente. Khun sentiu a mão coçar com o impulso de ajeitá-los, mesmo sabendo que seria um esforço inútil. Bam o encarou em silêncio por alguns instantes, que pareceram durar horas, até o outro ter a reação que ele menos esperava: uma risada.

— Eu diria que essa foi a pior cantada que eu já recebi na vida... — Bam riu novamente, e Khun percebeu que algumas lágrimas se acumularam nos seus olhos e escorriam pelo rosto. — Eu diria isso, se não fosse o mesmo comigo.

— O... O mesmo? O que quer dizer? — Não podia ser...

— Você disse uma vez que continuaria a me seguir não importa o que acontecesse. — O outro sorriu entre as lágrimas, e Khun sentiu borboletas se alvoroçarem em seu estômago. — Você cumpriu sua promessa, não foi?

Sem perceber o que estava fazendo, Khun deu um passo para frente e envolveu os braços ao redor de seus ombros. Bam imediatamente devolveu o abraço, enlaçando seu tronco e afundando o rosto em seu ombro. Khun fechou os olhos e apertou-o, sentindo-se completamente entorpecido. O sentimento latente de vazio, que sempre estivera ali desde que começara a sonhar com sua vida passada, finalmente desapareceu.

Há quanto tempo que eu não abraçava alguém...?

Khun se afastou apenas o suficiente para limpar as lágrimas no rosto de Bam com a manga do blazer.

— Eu ainda não acredito que você lembra — o outro comentou, rindo. — Ninguém que eu encontrei se lembrava...

— Nem eu. — Khun terminou de enxugar as suas lágrimas e afastou os fios castanhos que haviam grudado na pele ao redor dos olhos úmidos. — Eu passei meses sonhando com batalhas, desconhecidos, uma torre estranha... Eu achei que tinha enlouquecido.

— Eu também! É... é tão difícil. Fingir que nada aconteceu quando eu olho para eles. Fingir que eu não os vi morrer, chorar e sofrer por minha causa.

— Não se culpe por tudo de ruim que aconteceu. Eu já te disse isso algumas vezes, não é? — Khun suspirou.

— Ouvir você preocupado comigo me deixa tão nostálgico. — Bam riu e fitou-o, com um olhar impossivelmente suave. Khun engoliu em seco quando os olhos do outro relancearam seus lábios, mas rapidamente retornaram para cima. — Ei, Khun-ssi... eu sei o que nós éramos antes, mas... se você se sentir desconfortável... não precisa se sentir na obrigação de manter o relacionamento que nós tínhamos.

Khun passou alguns momentos analisando-o.

— Você está certo. — Ele encostou suas testas, deixando as suas respirações quentes se misturarem. — Mas você não acha que termos nos encontrado de novo, lembrando de tudo, pode ser uma segunda chance? Temos mais uma vida inteira pela frente, em um mundo em que não precisamos nos preocupar em sobreviver no meio de uma guerra. Eu aceito usar esse tempo para te conhecer de novo. — E me apaixonar de novo, acrescentou mentalmente, para sua própria surpresa. Quem você quer enganar, Aguero?, pensou. Você já está se apaixonando por ele.

— Quando você diz assim, é como se fôssemos almas gêmeas. — Bam deu uma pequena risada, que mal passou de um sopro. — Então... podemos ser amigos de novo?

Khun assentiu. Se ele mesmo de dois anos atrás o visse agora, tão ansioso apenas para ser amigo daquele garoto, lhe daria um tiro na cabeça e diria que era um impostor.

Ele estava muito bem com isso.

Seu celular escolheu aquele momento para vibrar no bolso, fazendo-o se afastar um passo para pegá-lo. Khun atendeu sem ler o nome.

Presidente! Por favor, você precisa vir, Endorsi-ssi e Anaak-ssi vão destruir a sala! — A voz de Goseng, a secretária do conselho estudantil do Ensino Médio, soava urgente.

— Elas estão brigando de novo? Diga para elas levarem isso pra longe da sala do conselho pelo menos.

Você é o único que consegue argumentar com elas quando elas brigam!

— Certo, certo, já vou. — Khun afastou o celular e direcionou um olhar de desculpas para Bam. — O dever me chama. Perdão. Nos vemos amanhã?

— Um presidente tão confiável. — O garoto sorriu. — Tudo bem. Vá em frente.

Khun acenou com a cabeça e se afastou, já planejando o que faria quando chegasse na sala do conselho estudantil, quando ouviu Bam chamá-lo:

— Ei, Khun-ssi?

— Sim? — Ele girou nos calcanhares na sua direção e, mais rápido que conseguia raciocinar, mãos seguraram seu blazer e todo o seu corpo foi puxado para frente, fazendo seus lábios se chocarem com os de Bam.

A mente de Khun entrou em curto. Um calor gentil irradiou de seu peito e aqueceu cada parte do seu corpo — o que, mesmo o clima estando quente do lado de fora, não era nem um pouco incômodo.

O selinho se encerrou tão rápido quanto começou. O outro garoto desviou o olhar, ruborizado.

— Eu só queria fazer isso uma vez. Desculpa.

— Onde está a sua força de vontade para começarmos como amigos? — Khun não conseguiu evitar de dar um sorriso de lado.

— Só vá. Vejo você amanhã. — Ele revirou os olhos e o empurrou de leve.

E ele foi, com a cabeça nas nuvens e com uma paz de espírito que não sentia há muito tempo. Quando chegou na sala do conselho estudantil, Anaak e Endorsi ficaram tão chocadas com sua expressão que pararam de discutir na hora.

— Khun está sorrindo. Isso é a coisa mais assustadora que eu vi desde aquele filme de terror com palhaços — Endorsi constatou.

— Eu odeio concordar com a princesinha aqui, mas ela tem razão. — Anaak assentiu solenemente com a cabeça.

— Por que eu ainda sou amigo de vocês? — Khun suspirou, mas nem aquilo foi capaz de acabar com seu bom humor.

Seus lábios ainda formigavam levemente, e a sensação continuou consigo por muito tempo.


♦◄


Depois daquele dia, nem Bam nem Khun sonharam com sua vida passada. A história da torre, de um garoto com poderes inimagináveis, de seu melhor amigo que sempre esteve lá por ele, dos seus companheiros e das provações que passaram nunca mais foi revisitada por sonhos; porém, jamais foi esquecida.

Aquela era uma segunda chance para que fossem felizes. E eles a aceitaram sem hesitar.



Mais ou menos quando eu acabei de escrever essa história, saíram os spoilers do capítulo 65 da s3 (aka o capítulo com o primeiro abraço KhunBam em painel no manhwa). Eu ainda não me recuperei desse assassinato em massa que o SiU fez com a gente, assim como o resto do fandom.

24 de Maio de 2020 às 23:47 0 Denunciar Insira Seguir história
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Fim

Conheça o autor

Tsuki Miko Escritora nas horas vagas, otaku em tempo integral. Ela/Dela ♀.

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