nollaun Gamtan Nollaun

As vezes a vida dá uma guinada de 180° graus direto para as profundezas. É nesses momentos que precisamos de pessoas com quem contar, nossa rede de apoio. E a rede de apoio de Rebeca ganhou um participante inesperado. Será que aos 30 anos ela havia conquistado um admirador secreto?


Romance Contemporâneo Impróprio para crianças menores de 13 anos.

#sonhos #adulto #romance
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Remédio

*Você também pode encontrar essa história no Spirit e no Wattpad (user: @nollaun).*

O bilhete apareceu naquele dia fatídico em que parecia tudo desmoronar:

"O que vale mais que um ouro, não custa nenhum centavo, é difícil de achar e não queremos perder?"

A resposta da pequena charada veio dentro do papel dobrado que ela achou embaixo do seu material escolar na volta do intervalo.

"Um amigo."

"Espero que não deixe o que aconteceu te abalar. Você tem muito potencial e todos podem ver isso. Se apoie nos seus amigos. Se quiser pode me considerar um deles."

Beca olhou para a única amiga de verdade que tinha no curso e pra quem acabara de contar o que havia ocorrido na entrada da aula.

-- Obrigada pelo bilhete...

-- Bilhete? Que bilhete?

-- Esse aqui. -- Beca mostrou o bilhete para Nath.

-- Ai amiga! Que fofo! Mas não fui eu quem escreveu esse bilhete não. Essa não é minha letra.

-- Oxi, se não foi você, foi quem então? Só você está sabendo da situação. -- Ela sentiu os olhos marejarem novamente.

-- Ai amiga, não fica assim de novo não. Porque a aula já vai começar. Acho que você não quer chorar na frente do professor Olhar de águia Pedro, certo?

Beca piscou várias vezes, fugindo das lágrimas. Tinha decidido que aquilo não poderia afetar a única coisa que estava dando certo na sua vida, que era aquele curso técnico.

-- Mas se não foi você, quem foi então? Parece que a pessoa sabe o que aconteceu... -- Sussurrou logo depois que o professor anunciou a chamada.

-- Eu não sei... Você não me disse que o coordenador Roberto e o João viram cada um parte do ocorrido? Acho que poderia...

-- Nathalia?

-- Ser um deles. Eles tem cara...

-- Nathalia?

-- De que gostam de uma charada.

-- A senhorita Nathalia não veio? -- Professor Pedro fez a pergunta olhando diretamente pra ela.

-- Presente!

-- Peço que não fiquem conversando durante a aula pra que o cronograma não atrase, por favor. -- Disse sério.

-- Desculpe professor.

-- Paulo?

-- Presente.

A careta que a amiga fez para o professor fez Beca rir involuntariamente, mesmo diante dos problemas e agora daquele enigma.

-- Rebeca?

-- Presente. -- E foi sorrindo que ela respondeu a chamada.

-- Nossa, que cara chato. Se eu não soubesse que ele é mais novo que a gente, diria que ele tem 100 anos! -- Nath sussurrou pra ela. Beca riu ainda mais.

-- Quer falar alguma coisa senhorita Nathalia?

-- Não professor. Só estava pedindo uma caneta emprestada. -- A amiga sorriu sem humor e depois mostrou a língua para o rapaz quando este voltou os olhos para o monitor do computador.

O professor Pedro era muito sério, no entanto para Beca sua aula de administração da carreira artística era inestimável. Afinal, foram as dicas e lições da aula que possibilitaram que ela ganhasse seus primeiros cachês como cantora. E agora teria que conseguir mais cachês daqueles. O problema catastrófico voltou a sua mente fazendo com que contorcesse o rosto em uma careta.

-- Não entendeu alguma coisa senhora Rebeca?

-- Oi?

O professor voltou a perguntar:

-- Não entendeu algo que expliquei aqui nos slides. Sua cara não estava boa.

-- Ah não... -- Não tinha prestado atenção em nada do que ele tinha falado até aquele momento. -- Na verdade nem prestei atenção.

-- Pois preste, porque essa parte é importante. Outros assuntos devem ser deixados fora da sala de aula.

Sabia que tinha levado uma bronca na frente da sala toda, mas pegou o conselho pra si e se concentrou na aula deixando o problema lá fora. Depois pensaria naquilo.

A aula chegou ao fim e ela começou a arrumar suas coisas o mais lentamente possível. Não queria chegar tão cedo em casa.

-- Beca, eu vou precisar ir, porque preciso fazer um monte de coisas em casa antes de dormir. Você vai ficar bem?

-- Vou sim Nath. Pode ficar sossegada.

-- Qualquer coisa me liga. Aliás, quando eu terminar de fazer minhas coisas eu te mando uma mensagem pra saber se está tudo bem. Beijo! -- Deu um beijo no rosto da amiga e saiu correndo da sala.

Quando enfim terminou de arrumar as coisas e passou por um professor que parecia impaciente esperando ela, que era a última na sala, para trancar a porta, encontrou o coordenador Roberto no corredor da escola.

-- Olá Rebeca!

-- Olá Roberto! -- Diferente de alguns professores, o coordenador preferia ser chamado pelo primeiro nome diretamente, sem o título de professor.

-- Eu gostaria de saber se está tudo bem? -- Ele parecia estar realmente preocupado com ela.

-- Ah sim! -- Ela viu o professor passar por eles e cumprimentar Roberto com um inclinar de cabeça.-- Eu só preciso organizar umas coisas, mas vai ficar tudo bem. -- Outros alunos e professores passaram por eles e não parecia certo conversar sobre aquele assunto no corredor. Na verdade, não queria conversar sobre aquele assunto naquele momento. Ainda mais com alguém com quem não tinha intimidade.

-- Se precisar conversar é só me procurar, ok? -- E deu um dos seus sorrisos muito brilhantes.

Era impossível não sorrir de volta.

-- Ok!

-- Certo. Até mais então.

-- Até mais.

Foi se arrastando até o metrô.

-- Oi! -- Alguém lhe deu um susto!

-- AH!

-- Ah desculpa! Não percebi que estava distraída. Tudo bem?

-- Tudo bem João. -- João era um rapaz alto e bonito, 6 anos mais moço que ela, mas que era seu veterano na escola. Só faziam juntos a matéria do professor Pedro em que ele havia reprovado no semestre anterior.

-- Tudo mesmo? -- Ele ficou sério e abriu muito os olhos pra ela, que reparou que eles pareciam duas jabuticabas maduras. -- Perdão me intrometer, é que eu ouvi o que aquele cara estava dizendo pra você antes da aula.

Ela ficou muda, não sabia o que responder pra ele. Ficaram um bom tempo em silêncio, até que o barulho do trem chegando na plataforma o quebrou.

-- Se precisar conversar...

-- Na verdade, eu preciso pensar. -- O interrompeu. -- Mas obrigada.

-- Ok. Então eu vou pro outro vagão e aí você pode pensar sossegada. Até mais! -- Acenou pra ela enquanto dava uma pequena corrida.

-- Até! -- E ela viu ele se afastando pra pegar o próximo vagão do metrô.

Disse que ia pensar, mas sua mente ficou em branco durante todo o trajeto até em casa. A ficha caiu mesmo após entrar no apartamento. As coisas do marido não estavam mais lá. Toda lágrima represada começou a correr naquele momento. E ela buscou um lugar pra se sentar porque as pernas fraquejaram.

Ele tinha ligado e mandado mensagem pra ela o dia todo dizendo que precisavam conversar, mas justo naquele dia ela precisou fazer hora extra no serviço e depois ir direto pra aula. Realmente não esperava que ele a procuraria na porta da escola. As palavras delem ainda pareciam facadas:

"Você só pensa em você."

"Você me abandonou, então arranjei alguém que me valoriza. Além disso ela é linda e se cuida, e você está largada, engordou demais!"

"Já saí de casa. Você vai receber os papéis do divórcio. Depois falamos da divisão dos bens."

Nunca imaginou que o casamento de 8 anos iria acabar daquele jeito. Na verdade, tinha a ilusão de que seria pra sempre.

Além de todos os abortos e bebês perdidos, agora tinha um casamento fracassado.

Precisava de uma cerveja.

A geladeira estava vazia! Ele tinha levado até a compra do mês! Só queria uma cerveja, merecia uma!

Seu corpo escorregou devagar pela geladeira onde havia se escorado para o chão frio da cozinha e o choro se tornou convulsivo. Mas em meio ao pranto, algo incomodou sua perna.

Enfiou a mão no bolso da calça e encontrou o bilhete que havia recebido na aula, o qual já havia se esquecido.

"O que vale mais que ouro, não custa nenhum centavo, é difícil de achar e não queremos perder?"

"Um amigo."

"Espero que não deixe o que aconteceu te abalar. Você tem muito potencial e todos podem ver isso. Se apoie nos seus amigos. Se quiser pode me considerar um deles."

Leu e releu o bilhete várias vezes e aquilo surpreendentemente a acalmou.

Tinha alguém lá fora que acreditava nela. Você tem muito potencial. Não! Existiam pessoas que acreditavam nela!

Pensou em sua mãe, que provavelmente iria querer matar seu marido, agora quase ex. Pensou na Nath que até estava estudando com ela pra dar uma força pro seu sonho de ser cantora. E agora havia aquela pessoa misteriosa que a considerava uma amiga e que acreditava em seu potencial. Todos eles acreditavam nela. E até o momento em que o marido havia aparecido inesperadamente pedindo o divórcio, ela também estava acreditando em si mesma.

Se levantou do chão da cozinha.

Não iria deixar que roubassem isso dela. Ela tinha potencial sim e sairia dessa com a cabeça erguida ou não se chamava Rebeca Vidal!

23 de Maio de 2020 às 21:03 0 Denunciar Insira Seguir história
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