dragonian Gabriel de Morais Soares

Como seria se monstros realmente existissem? Se existem, porque não dominaram o mundo como imperadores cruéis e super-humanos? As Cronicas das Criaturas da Noite tentam responder essas e outras perguntas. São histórias de capítulos curtos que contam os relatos de "criaturas da noite", ou qualquer tipo de monstro que goste mais de sair à noite. O primeiro livro é sobre Katherine, uma menina normal com problemas de pele, e sobre os medos dela e da sociedade em que ela vive com relação ao desconhecido. Neste livro, Katherine conta sua história por meio de um livro que sua psicóloga pede que ela escreva vários ano depois dos fatos narrados.


Drama Impróprio para crianças menores de 13 anos.

#fear #Katherine #338 #402
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Capitulo 1

Bom, eu tenho que escrever essa história, quer eu queira ou não. Poderia começar contanto sobre o dia em que eu me tornei algo que eu mesma não reconhecia, ou sobre a manhã depois do incidente. Acho que prefiro começar falando sobre o dia em que eu conheci ele. Eu tenho quase certeza que foi na minha festa de aniversário de 9 anos, num prédio enorme em alguma cidade cheia de colunas. Eu lembro de um corredor formado por uma fileira de arcos de plantas na entrada desse prédio, lembro das mesas num jardim do lado de fora das acomodações e lembro de ter pensado sobre o quanto ele parecia chato. Era quadrado e todo bege. Mas também era bem chique e a cor dava destaque para o que tinha em volta. Enfim, a festa em si tomou o lugar inteiro, mas eu lembro de, durante a manhã, tentar memorizar os entalhes dourados na parede de um cômodo todo branco e bem enfeitado com voltas e padrões. Talvez fosse um prédio barroco, não sei, mas havia tantos desses detalhes que se eu quisesse podia passar o dia inteiro olhando para a parede. Fiz isso.

Já devia ter mais de 3 anos que eu não saia de casa por nada no mundo. Meus pais acharam que por causa do que aconteceu seria mais fácil se estudasse em casa. A festa foi alguns anos antes de eu aprender como criar novos amigos pela internet. Nos anos seguintes eu estaria passando mais tempo na frente do celular que respirando, mas naquele dia a pequena Katherine estava empenhada de mais decorando padrões dourados numa parede branca de um quarto chique para vencer seu medo de falar com pessoas. Várias vezes eu tentei começar uma conversa. Para ser honesta, várias vezes os convidados tentaram conversar comigo, só que todas as vezes eu congelava, entrava em pânico e começava a suar. Depois voltava a olhar para a parede ignorando quem quer que tenha me chamado esperando que ele ou ela fosse embora.

Eu acho que chamar gente estranha não foi bem uma ótima ideia, mas quem iram chamar? Uma garotinha de 9 anos não conhece muitas pessoas, afinal. E além disso aquela era minha festa de princesa, e uma princesa deve ter súditos. Bem, meus pais gastaram bastante dinheiro tanto no lugar pra festa quanto chamando seus amigos de muito longe para virem no aniversário da sua menininha. Foi só uma pena que eles estavam lá, mas ela não.

Eu tentei me convencer de que quando a noite chegasse e eu pudesse sair do prédio, talvez eu conseguisse criar coragem para falar com alguém. Mesmo naquela época eu me sentia muito mais à vontade à noite. Não foi bem assim que aconteceu. Na verdade, do lado de fora tinha tanta gente sentada e conversando entre si que eu meio que fiquei ainda mais insegura. Que eu ia fazer? Invadir a mesa de alguém? Atrapalhar conversas alheias? Isso fora as luzes. Em festas muito grandes é como se usassem pequenos holofotes no chão para a iluminação. A maioria das pessoas não parecia muito incomodada com isso, mas eu mal podia ver um palmo afrente de meu próprio nariz. Eu simplesmente não conseguia falar com ninguém não importava o que eu quisesse, e isso me frustrava muito.

Quando o Sol finalmente foi embora, após horas de silencio na minha própria festa de aniversário, eu já podia ir para onde quisesse. Ainda assim, eu não podia fazer o que quisesse. No momento em que eu finalmente desisti de tentar fazer amigos, decidi me sentar na grama do jardim bem longe de onde as pessoas estavam. Lá a luz não ia e os meus olhos não doíam tanto. Lembro que a grama era macia também. Devo ter ficado umas duas horas lá assistindo gente dançando e se divertindo até alguém me encontrar chorando e chamar meus pais.

É que não ter amigos era bem solitário. Quando falaram sobre fazer uma festa de aniversário bem grande eu fiquei muito empolgada. Passei meses sonhando sobre isso, pensando em como seria o dia em que eu finalmente teria gente com quem brincar e conversar, mas mesmo com tantas pessoas ao redor eu só tinha eu mesma. Como se conversa com pessoas? Como se faz amigos? A maioria das pessoas sabe fazer isso naturalmente. Eu nunca fui a maioria das pessoas. Foi pensando nisso que, sentada e abraçando meus joelhos na grama, eu comecei a chorar sem ter a menor ideia do que fazer. Estava desesperada. A partir daquele momento prometi pra mim mesma que não choraria daquele jeito de novo... e eu sou péssima em fazer promessas.

Talvez por perceber o que estava acontecendo, minha mãe decidiu me fazer sentar com ela enquanto ela falava com uma amiga. Ela era de bem longe e as duas se viam poucas vezes, então aquela era uma oportunidade única de conversarem. Essa mulher tinha um filho. Ele parecia no mínimo desconfortável e não parecia querer conversar com qualquer pessoa.

Quando sentei à mesa, deitei a cabeça sobre ela e tentei olhar pelos lados para enxergar o que acontecia ao meu redor. Não queria que ninguém soubesse que eu estava chorando. A única coisa que eu podia fazer era olhar para as pessoas. Pensava sobre como todo mundo parecia muito mais elegante que eu, como o lugar onde eu estava era bonito e deveria ser bem caro, como o tecido sobre as mesas era bem mais confortável que a grama. Foi quando eu percebi que, por algum motivo, os pequenos holofotes daquele ponto em específico não faziam meus olhos doerem. Era como se alguém tivesse organizado aquilo especificamente para que naquela mesa a luz existisse, mas fosse mais fraca. Descobri anos mais tarde que o silêncio te deixa mais pensativo, e as vezes mais atento a esse tipo de coisa.

Quanto ao menino, toda vez que via ele parecia avoado, olhando para ou lugar vazio ou pensando em alguma coisa longe dali. Todo mundo na festa usava roupas sociais à caráter do tema que eu tinha pedido, menos ele. Eu lembro de estar usando um vestido roxo cheio de babado, minha mãe um vestido dourado e até a mulher com quem ela conversava usava um vestido azul vitoriano; mas por algum motivo ele vestia apenas uma blusa preta, uma calça cinza e tênis escuros. Não tirava o capuz por nada e era difícil olhar para seus olhos. Em algum momento eu parei de olhar ao redor e foquei minha visão nele. Não lembro exatamente o porquê.

Quando me dei por mim, percebi que o dia já tinha acabado e que a única parte dele em que não me senti sozinha foi observando alguém que eu não tinha a menor ideia de quem era. Talvez minha mãe tenha me visto olhando para ele. Não sei. Na verdade, no meu ponto de vista eu estava pensando em tanta coisa que nem enxergava ele direito. Seja como for, a partir daquele dia minha mãe decidiu chamar aquela amiga para visitar nossa casa. Por um tempo eu achei que isso tudo foi por minha causa, e que as visitas eram só um pretexto pra eu fazer um novo amigo ao algo assim. Nós realmente viramos amigos, mas isso é história pra outra hora.

23 de Maio de 2020 às 21:04 0 Denunciar Insira Seguir história
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