leandrosevero Leandro Severo

Um conto sobre um idoso que aprendeu a escrever. E escrevia umas histórias diferentes. Haja imaginação e sentimento! Uma das histórias que mais me emocionou em produzir.


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O VELHO QUE CONTAVA HISTÓRIAS

Seu Venâncio ficava naquela de "para e não para" de escrever. Rascunhava, parava e concluía. Sempre assim.


Ninguém lia, quase, mas não arredava o pé da mesa de jantar que servia de escrivaninha. Desde que aprendera a escrever o nome através da única professora da região, ficou viciado pela capacidade de rabiscar letras à torto e a direito. A família relevava o hábito do aposentado, embora aquele chão de mato fizesse relva para trabalhar na roça e levar uma vida somente de burro de carga do que de escritor. Além do mais, por incrível que pareça, seu Venâncio escrevia uns textos pra lá de estapafúrdios.



- Ora, ora. Se o homem nasce e pensa, ele pensa e faz nascer. E se nasce, existe do jeitinho que ele pensou. É bíblico. Assim como imaginar, assim o é. Está lá em Provérbios 27. Pode ler.



A família sorria, desatinada, mas sempre comedida, sentindo que os rabiscos eram uma espécie de diversão para o septuagenário homem de cabelos brancos, mãos de palma dura que só desempenadeira de pedreiro, tremulantes, porém firmes na ponta do lápis, tão firmes que furava a folha que riscava ou quebrava a ponta do coitado.


As crianças que mangavam.



- Vô Venâncio escreve quase igual Deus. Torto em linhas retas.



O velho não ligava.


Suas histórias eram de uma natureza peculiar que quem lia (de preferência a filha e o genro que o deixaram morar com eles depois da morte de sua esposa também septuagenária) ficava sempre com uma interrogação sobrevoando a cabeça.



- Pai, e quem disse que peixe voa, pai? E que diabo é esse de transformar a serpente do Éden num Urubu?



O velho ressabiado, colocava o lápis atrás da orelha e dizia com ar de professor de colégio:



- Mas veja, filha. A serpente no Éden bem podia ser um Urubu, pois é isso que o satanás faz. Procura nossa carniça. Quem é de Deus não fede a carniça do pecado, não. E ele nem se aprochega. Então sobrevoa procurando nosso podre. É. Quanto aos peixes que voam, olha pro céu, minha filha. Tem mar maior que esse céuzão de meu Deus? Tem não. As nuvens são espumas. Pra mim tudo é mar. E o céu e mar também. A prova é clara: a chuva é o mar do céu se desfazendo, ou voltando pra terra. E o vapor é o mar devolvendo o céu. E assim sucede com tudo.



A filha ficava quieta e dava outra folha pro pai escrever.


Quem gostava era Joãozinho, neto de seu Venâncio. Sentava perto do avô e lia as histórias dele.



- Vô Venâncio, escreve mais uma. - e as mãos pequeninas traziam seu caderno de escola com seu estojo de zíper já rasgado.



- Pois venha, João. Senta aqui que o vô vai escrever. Aliás, tu quer ler a última que o vô escreveu antes de fazer essa nova que tu pede?



- Isso, vô! Deixa eu ver. Deixa eu ver.



Era o útil se unindo ao agradável. O menino que aprendia a ler e o avô que gostava de escrever. De monta o menino virava revisor do idoso quando escrevia uma palavra errada, todavia o costume do prazer da leitura era mais forte que a pontualidade da correção.


Joãozinho lia a história que o avô produziu. Era sobre um casal que teve um filho com uma doença esquisita. Ele não tinha voz, mas cada vez que falava fazia barulho de sanfona. Mamãe e papai era fole. Os médicos não sabiam o que fazer. Depois tiveram uma menina que até falava, mas seu coração batia tão forte e descompassado que parecia uma zabumba. Depois outro filho, magro e pesado. Descobrindo o motivo do peso de criança tão fina de corpo: osso de metal. Quando batia fazia um ruído como que tocasse um triângulo. A família era toda uma banda.


A história estava incompleta. O avô não conseguira concluir devido uma crise de tosse que teve, fazendo-o abandonar o lápis.



- Tá faltando vô. O que acontece depois?



- Pois é agora que a gente descobre junto, meu piolho. Você quer dar um nome pros menino?



Ficou então sendo Sanfrônio, Zabruna e Triangulino. Os olhos do menino cintilavam qual estrela em seu repouso. Já os do avô, se fechavam com as pálpebras pesadas e enrugadas, mirando na folha e cuidadosamente rabiscando as letras. Os pais de João viram a cena e se encantaram:



- Agora que os dois não saem mais dali.



Ficou acertado, na história de seu Venâncio, que os pais sabendo que a doença estranha dos filhos não tinha cura, resolveu matar a todos num ato desesperado. Até que a mãe quis ter mais um filho. Tiveram. Nasceu uma menina chorosa e com uma doença de coração. Laudo médico atestava:


"Doença do coração triste"


A criança chorava tanto que se ouvia de outras bandas. Foi então que os pais sem saber o que fazer, colocaram os irmãos perto da recém-nascida. Quando a bebê ouviu os sons produzidos pelo trio de crianças musicais, riu, riu, a risada mais gostosa que se podia ouvir. Aquelas de filmar e afamosar-se pelas bandas da internet. Descoberta foi a cura. O som dos irmãos alegrava a pequena. Sendo assim, o pai ensinou os filhos, Sanfrônio, Zabruna e Triangulino a tocarem no compasso, afinando a voz com o tempo, acalmando o coração e fortalecendo os ossos. A menina recém-nascida, até então sem nome, passou a se chamar Pardal. E que voz linda tinha a criança.


Formou-se uma banda e a família de pobre, tornou-se a mais rica do povoado. Alegria dos pais por descobrirem que o problema das crianças virou solução pra muita gente.



- Puxa, avô. Que história legal.



- Shhhh... silêncio que eu só completei essa. Agora vou fazer a outra. É sobre um cavaleiro em busca de um jardim sagrado, a terra das flores de sete cores. Tipo um arco-íris. Um terrível dragão arrancou todas as flores desse jardim, então sobrou apenas uma semente colorida que esse guerreiro teria que plantar no jardim sagrado. Pra isso ele teria que enfrentar muitos perigos, matar o dragão e plantar a semente para as flores coloridas nascerem outra vez.



- Eita vô. E quais são as cores? Eu sei que tem azul, laranja, vermelha, amarelo e roxo.


- Uai. Roxo? E é?



- Não sei se é roxo, ou se é aquele negócio que a mãe passa no machucado. Violeta?



- Isso. Tem aquela outra que serve pra lavar roupa né?



- Anil? Ai vô, eu não me alembro! Quem ensinou isso foi a professora.



- Pois vá ver seu livros aí e me traga já. Preciso completar essa história logo! Ande!



O menino foi até sua mochila, jogou os materiais no chão e trouxe correndo um livro grosso de geografia.



- Aqui, vô. São sete cores: vermelho, laranja, amarelo, verde, azul, anil e violeta.



O avô começou a escrever... e pôs-se a tossir. Tossiu. Tossiu forte. Cuspiu sangue. Desmaiou.


A filha e o genro o levaram correndo pro hospital. Chegou morto o seu Venâncio.


Fizeram o velório. Choveu tanto que o enterro precisou ser feito as pressas, pois a cova virava lama e estava ficando ruim de cavar.


A filha entristecida, tratou de guardar os papéis velhos, amassados e os lápis mordidos do avô. A pequena mesinha de madeira, agora vazia, causava um aperto no coração da filha e do genro.


Joãozinho, ouriçado, chamou todos os seus amiguinhos de escola pra sentar ao pé de uma árvore. A chuva lá fora estiava e o sol já dava os primeiros sinais.


Os colegas de Joãozinho, tristes, consolavam o menino:



- Oh João, que pena que seu avô faleceu.



- É, João. Fico triste também.



- Minha mãe dizia que quando alguém perde alguém, a gente tem que dizer "meus sentimentos". Então, meus sentimentos, João.



Joãozinho, porém, quando viu se formar um enorme arco-íris no céu, apontou o dedinho para cima e gritou sorrindo para os amigos:



- PESSOAL, VENHAM VER! MEU VÔ CONCLUIU A HISTÓRIA!














22 de Maio de 2020 às 12:55 1 Denunciar Insira Seguir história
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Fim

Conheça o autor

Leandro Severo Eu escrevo. Se bem ou mal, aí descobriremos juntos.

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TG Thaciane Gomes
Que história linda Léo 🥺🥺😥😢
May 22, 2020, 18:51
~

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