maxinexx Maxine Gross

Me parecia uma ótima ideia estudar em um instituto apenas para garotos — por sorte do destino, meu pai não sabe o quão pecaminoso é colocar um adolescente gay em uma dessas —, seria uma perfeita oportunidade para me distanciar do velho rígido. Por outro lado, não esperava ter que lidar com um bando de adolescentes estranhos que beiravam o sobre-humano. De qualquer forma, eu estava fodido.


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Quem sabe o que planta, não teme a colheita

Pela janela do carro, observei o clima mudar vagarosamente. A cidade quente e acolhedora de Towns Hill já estava há quilômetros de distância, e eu já podia sentir a saudade me corroendo.

Meu pai cantarolava algum hino gospel despreocupadamente, sem se importar com o carro sacolejando sob as estradas esburacadas que pareciam ficar pior a medida que avançávamos pelo trajeto.

A frente fria aumentou consideravelmente, me obrigando a revirar minhas roupas na mala, até que achasse algo quente o suficiente.

— Te avisei que deveria trazer roupas quentes — murmurou o Sr. Wright, enquanto eu revirava os olhos.

Era comum fazer o contrário do que meu pai me dizia, não só porque sou um “juvenil irresponsável” — como ele adora me chamar —, mas também porque esse homem consegue me irritar de maneira surreal com suas pregações rígidas e seu método de educação nada agradável.

Por um lado, me parecia uma ótima ideia estudar em um instituto apenas para garotos — por sorte do destino, meu pai não sabe o quão pecaminoso é colocar um adolescente gay em uma dessas —, seria uma perfeita oportunidade para me distanciar do velho grisalho. Por outro lado, eu simplesmente detestava ficar enclausurado em uma escola, sem meus amigos ou qualquer rosto conhecido.

No entanto, não me restava outra opção. Nas palavras do meu pai “só Deus e uma educação severa poderiam colocar um moleque como você no lugar”. Tsc, como se diversas cintadas não fossem uma educação severa… Vai ver Deus gosta de mim do jeito que sou, embora seu livro diga explicitamente que irei para o Inferno.

De qualquer forma, religião nunca foi algo pra mim. Ainda que um caminho sem Deus e fé fosse estritamente solitário, era melhor do que a hipocrisia que meu pai chamava de religião.

— Chegamos — anunciou, me tirando dos devaneios furiosos.

Observei a grande estrutura em minha frente; precária e assustadora. O conjunto de três prédios estava degradante, embora a tinta parecesse fresca. A infraestrutura parecia pronta para cair em cima de qualquer desavisado, mas nenhum aluno parecia se importar com isso. Aliás, caminhavam tranquilamente pelo pátio de pedras escuras, enquanto eu parecia ser o único a sacudir de frio.

Os portões negros abriram-se aos poucos, enquanto um homem robusto vinha em nosso caminho. Segurei minha mala com firmeza, encarando meu pai com o olhar pidão e um pedido de socorro. Ok, talvez a ideia de morar com meu pai não fosse tão ruim assim.

— Comporte-se, eles são mais rígidos que eu — sua mão pesada me deu tapas nas costas, enquanto um sorriso enorme sustentava sua expressão de bom cidadão.

— Boa tarde, Sr. Wright — o homem corpulento parou em nossa frente, imediatamente cumprimentando meu pai. — E você deve ser o jovem Thomas, certo?

Seu sorriso era grotesco e exibia os dentes amarelados e podres que definitivamente não combinavam com suas roupas ilustres e elegantes. Seu olhar era de um completo mistério, mas eu podia sentir a maldade em suas palavras.

Apenas o cumprimentei com um aceno e assim ficaria, se não fosse pela cotovelada do meu pai, pedindo por bons modos.

— É um prazer Sr…?

— Oh, que grosseria a minha… Me chamo Lee — sua mão áspera segurou a minha com uma força exagerada. Não estava gostando desse cara, não seríamos bons amigos.

— O diretor Williams não está? — questionou papai, retirando as outras duas malas do carro.

— Ele está em uma reunião importante, peço desculpas por sua ausência, Sr. Wright.

Ignorei o falatório para poder me atentar aos detalhes do local; havia um longo gramado perto de um dos prédios, estava branco feito neve, possivelmente devido a geada. As flores mortas faziam um contraste perfeito com a floresta arrepiante a sua volta, sem contar com as inúmeras gárgulas de corvos espalhadas pelos telhados. O lugar provavelmente havia sido construído no período da arte gótica, porque nada mais explicaria o recinto fúnebre.

Senti minha espinha arrepiar-se violentamente, enquanto minha cabeça dava sinais de uma terrível enxaqueca. Estava começando a ficar resfriado e se a conversa entre os dois tagarelas não tivesse fim, eu congelaria em questão de minutos.

— Boa sorte garoto, vai precisar — John Wright riu, sem se incomodar com seu próprio filho.

— Sempre muito carinhoso, não é, papai? — sussurrei, segurando minha mochila, ao mesmo tempo que Lee carregava as outras malas.

— Me acompanhe, jovem Thomas — Lee caminhava rapidamente, abrindo espaço entre os numerosos alunos.

Alguns deles não pareciam nem perceber a minha presença e certamente ganharam pontos comigo. Outros, porém, pareciam dispostos a me encarar até que eu adentrasse um dos três prédios, sumindo entre os corredores gélidos.

O local era frio, muito pior que o vento cortante lá fora. Haviam candelabros por todas as paredes de pedras, o que me fez indagar sobre a energia elétrica naquele lugar. Haviam enormes pinturas penduradas na parede, do tipo que levaria dias para apreciar todas elas.

— São três prédios, o A, B e C — começou Lee. Que original. — O prédio B é o dormitório, enquanto no A ficam as aulas, biblioteca e refeitório.

— E o C? — questionei, como o bom curioso que sou.

— Está interditado, pode cair a qualquer momento. Mas não se preocupe com isso, os outros dois prédios foram restaurados recentemente — podia ouvir os passos ecoarem pelos corredores vazios, todos os alunos estavam nas aulas ou almoçando.

— Que alívio — comentei sarcasticamente, enquanto subíamos lances de escadas que pareciam infinitos.

— Aqui está o cronograma com seus horários — Lee teve de fazer malabarismo com as malas para pegar o papel em seu bolso, eu poderia ajudá-lo se não estivesse tão distante, maldito sedentarismo — Cuide para não se atrasar, os monitores são rígidos quanto aos horários.

— Certo — assim que o alcancei, agarrei o papel, notando que o horário de recolhimento era às nove da noite.

Caminhamos por outro longo corredor, até pararmos na última porta. Lee largou minhas malas, suspirando pesadamente. Observei uma pequena letra entalhada na porta, um simples “A” com um grande risco na horizontal.

— A missa começa daqui dez minutos, você não vai querer se atrasar — avisou-me Lee. — E tente não ser muito inconveniente com seu colega de quarto, ele não tem um humor encantador — sorriu maliciosamente, me deixando sozinho após longos segundos em silêncio.

Bufei, exausto. Uma missa e um colega de quarto era tudo que eu não precisava no momento. Só gostaria de tomar um banho quente e dormir pelo resto do dia, de preferência sem ninguém torrando minha paciência.

Adentrei o quarto, notando na solitude que o acompanhava. Havia duas camas de solteiro, cada uma em um canto da parede. Duas escrivaninhas com uma porção de livros amarelados e velhos. Dois guarda-roupas de cor negra estavam encostados na parede, junto de um galão de água.

Não parecia haver sinal de vida, a cama estava intocada, havia até pó sob os travesseiros. Abri o primeiro guarda-roupa me deparando com uma grande quantidade de roupas negras, em contraste com os uniformes azul-marinho. Ah, pronto, dividiria o quarto com um fã de emocore.

Meus pensamentos foram interrompidos por uma batida brusca na porta do banheiro, dei três passos para trás, reparando no garoto que saía enfurecidamente de lá. Ele não estava sozinho, uma jovem moça o acompanhou, me olhando de forma desgostosa. Aparentemente, eu havia interrompido algo.

— O que está fazendo no meu quarto? — sua voz áspera e dura poderia botar qualquer um para correr, mas eu estava hipnotizado demais em sua beleza para que minhas pernas saíssem do lugar.

Tinha a estatura alta e era corpulento, o que era o suficiente para assustar qualquer um. Seus cabelos eram negros e bagunçados, assim como seus olhos furiosos. A barba rala deixava-o com a aparência mais velha e intimidante. Usava roupas negras que escondiam os desenhos de suas tatuagens, além de usar anéis elegantes nos quatro dedos. O homem era um deus grego, ou algo do tipo.

— Ah… E-eu sou novo — murmurei, sentindo minha voz falhar repetidamente. Engoli em seco a medida que seu olhar pareceu se tornar mais agressivo.

A mulher bufou irritadamente, deixando o quarto em passos rápidos, enquanto o garoto não pareceu se incomodar com isso, estava focado demais em me ameaçar com aqueles grandes olhos intimidadores.

— Tem algo errado, não divido quarto com ninguém — murmurou ele, finalmente desviando o olhar. Caminhou em direção a porta, me encarando por uma última vez — Quando voltar, não quero suas coisas aqui — e saiu

Suspirei pelo que pareceu a décima vez em menos de uma hora, já havia arrumado problemas, justamente com um garoto que já odiava minha presença insignificante.

— Quem ele pensa que é? — sussurrei, irritado.

Por fim, deitei-me na cama a fim de dormir por horas a fio, sem me importar com o garoto rude e a missa idiota. Eu merecia um bom dia de sono.

18 de Maio de 2020 às 21:02 0 Denunciar Insira Seguir história
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