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Ainda é bem nítido em minha memória quando acordei em um hospital com minha mãe do meu lado, seu choro de alegria e alívio em me ver acordar depois de um coma de dois meses ainda mexe comigo.


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Um ano em branco

Eu não me lembro de muita coisa, confesso. As lembranças de um ano atrás são confusas para mim, rostos embaçados, vozes distorcidas, lugares que não faço a mínima ideia de como fui chegar lá. Tudo ainda é muito difícil para mim, confiar em alguém se tornou algo extremamente difícil, e eu não julgo que seja somente pela minha insegurança diante do esquecimento, é como se esse medo de confiar sempre estivesse dentro de mim, sempre ali, como um alarme que você programou, porém, não se lembrar do porque te-lo feito.


Ainda é bem nítido em minha memória quando acordei em um hospital com minha mãe do meu lado, seu choro de alegria e alívio em me ver acordar depois de um coma de dois meses ainda mexe comigo. Me lembro de vê-la sorrir como nunca havia visto depois da morte de meu pai — pelo menos era assim ainda que eu me lembrava de minha mãe; alguém forte, mas que sempre sentiu muita a falta de seu marido.


A minha confusão de quando acordei ali, lembrando-me somente de ter saído de casa para ir à escola e depois mais nada, como se eu houvesse apenas dormindo, permanece hoje. Questionei minha mãe, como me questiono hoje, sobre o que aconteceu. Depois de se acalmar as palavras vindas de sua boca me acertaram em cheio, ainda posso me lembrar da dor e melancolia em sua voz claramente, também havia a maneria como ela tentava me dizer de uma forma que eu não me sentisse disisperado.


Mas foi em vão.


O desespero e a angústia de não me lembrar de algo fez meu peito doer ao ouvi-la dizer que eu havia saído para ir à escola e nunca mais voltei, e isso a mais ou menos um ano. E o que me afetou mais foi ouvia-lá dizer que havia conseguido me encontrar somente porque eu havia sofrido um acidente de carro enquanto tentava atravessar a fronteira do Brasil com o Paraguai, eu estava transportando drogas para um grande traficante.


Tive medo naquele dia de me lembrar de algo que me condenasse quando a polícia veio falar comigo, ainda tenho esse medo comigo, mas tento esconde-lo, fingir que posso ser sim alguém completo um dia.


Por sorte eu apenas quebrei um braço e tive uma fratura nas costelas, nada muito grave. E além de tudo o mais naquela época tinha o sentimento de que eu deveria estar morto, eu tinha que ter morrido.


Nos dias atuais — exatamente dois anos depois — não me considero superado, pronto para esquecer, mas não é como se isso houvesse me impedido de continuar vivendo, ao contrário, essa lacuna em branco em minha vida me inspirou a escolher minha carreia; sou psicanalista.


Fiz terapia por um tempo, havia esperança em mim de recuperar aquele um ano da minha vida, desisti depois de seis meses, se até mesmo a polícia havia desistido do caso pensei do porque eu continuar a insistir.


Talvez aquilo que foi esquecido devesse permanecer assim, esquecido.Talvez, não, melhor dizendo, estou bem assim. Eu tento me convencer disso todo os dias desde que acordei no hospital. E até hoje sinto que não sou bom o suficiente para enganar a mim mesmo.


Independente do quanto eu seja feliz sempre haverá essa dúvida em mim, essa angústia de não saber como fui me envolver no mundo do tráfico. De como eu sumi do nada, sem deixar rastro. Eu quero saber mesmo depois de todo esse tempo o porquê do meu sumiço, fui sequestrado? Ou talvez eu houvesse planejado tudo isso? Se sim, o que me motivou a tal?


Talvez um dia eu me lembre do que aconteceu naquele um ano e então todas as minhas perguntas teram suas tão esperadas respostas, ou não, posso viver até minha morte sem me lembrar de nada.


Independente disso vou continuar a tentar viver, a quem sabe ter uma família, filhos, e quando eu já estiver velho demais para trabalhar aproveitar meus netos.


Vou tentar seguir em frente mesmo que uma parte de mim ainda se mantenha esquecida.








1 de Junho de 2020 às 11:55 0 Denunciar Insira Seguir história
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kanaey ⠀⠀⠀⠀⠀⠀𝙋𝙇𝙐𝙎 𝙐𝙇𝙏𝙍𝘼! -'ღ'- ⠀⠀⠀⠀⠀⠀

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