Literatura russa e o mito cult Seguir blog

erikasbat Érika Batista Literatura russa não é literatura exclusiva de intelectual, de gente fresca, de super cérebros. Não é empoeirada, mas viva e pulsante, é o encontro da “alma russa” com a alma humana. É triste, alegre, intensa, toca a cada um. Ensina muito, e nem precisamos analisá-la com monóculos para isso. É só pegar, ler, e refestelar-se. Quando o que complica é o fandom. Uma reflexão sobre as consequências da postura do apreciador de uma obra na receptividade que essa obra tem entre as outras pessoas. O texto é sobre literatura russa, mas os raciocínios tecidos valem para qualquer obra artística.
História Não Verificada

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Literatura russa e o mito cult

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Todo mundo que me conhece por alguns dias logo descobre que eu sou fascinada por literatura russa. É uma paixão que já tem aí uns dez anos e influenciou bastante minha vida. Quando eu digo pra alguém que meu escritor favorito é Dostoiévski (ou Gogol, os dois pra mim estão quase empatados), geralmente a reação é um misto de respeito e distanciamento, parece que dá pra ouvir os pensamentos meio irônicos da pessoa por trás da expressão facial, algo do tipo “Hm… ela é cult, ela”.

Se for alguém um pouco mais extremo, pode te achar até meio nojentinho(a).

(Exceto se for outro fã de literatura russa, que apenas vai te entender completamente).

Estive pensando sobre isso, e percebi que essa reação geralmente se origina por causa da fama que a literatura russa tem de profunda e inacessível. Sabe, Tolstói com seus tomões históricos densos de 1200 páginas, Dostoiévski pai do existencialismo, etc. etc. É uma fama que acaba sendo reforçada porque muito do que se produz sobre eles é analisando tecnicamente as suas obras e fazendo ligações com outros escritores cult ou filósofos de outras nações (Sartre, Camus, Nietzche e por aí vai).

Existe alguma verdade nisso: a literatura russa é de fato profunda. Há pensamentos nos livros desses e de outros autores russos que são um tapa na cara (da sua mente). Alguns deles também têm linguagem um pouco pesada para quem não tem hábito de leitura, ou descrições ou divagações difíceis de acompanhar em tempos de concentração nível Twitter.

Mas, apesar disso, ela está longe de ser inacessível.

Se formos falar apenas dos clássicos mais conhecidos, como os já citados Tolstói e Dostoiévski, se deve observar, pra começo de conversa, que nem todas as obras deles são grandonas. Dostoiévski tem novelas como “O Jogador” ou “Noites Brancas”, onde se encontra, em dose menor e concentrada, a mesma força de suas obras principais. O mesmo pode ser dito dos contos e novelas de Tolstói, como “A morte de Ivan Ílitch” ou “Sonata a Kreutzer”.

Aliás, sobre Dostoiévski ainda pode ser dito que até seus livros grandes, em que pese a ação se desenrole devagar, têm alguns picos de ação eletrizantes, alternando com os diálogos filosóficos. O próprio tema do crime, elemento vital do enredo desses livros, gera aquela tensão que nos faz querer saber o que vai acontecer a seguir — como em qualquer best-seller moderno.

Ainda que eles, e Tchekhov, e etc., fossem de fato “inacessíveis”, volumes gigantes e tediosos compreensíveis apenas pelos iniciados, bem, a literatura russa não se resume a eles. Ela é amplíssima, com autores para todos os gostos, que vêm aos poucos chegando até nós com mais e mais frequência por meio de novas traduções.

A fama de difícil e o mito cult permanecem para boa parte da sociedade leitora, porém, e infelizmente alimentado por nós demais leitores e escritores.

Lembro de um episódio que aconteceu há algum tempo. Eu administro a página Literatura Russa para Brasileiros desde 2012, publicando nela trechos de livros, pequenas traduções de poemas ou contos/ensaios, e notícias sobre literatura russa em português. Quase tudo o que aparece na minha timeline pessoal sobre o assunto — e eu sigo muitos russófilos — eu replico na página. Um tempo atrás, a (bem conhecida) página Obras Literárias com Capas de Memes Genuinamente Brasileiros, com sua proposta jocosa e criativa, publicou algumas capas de clássicos russos com a versão meme. Eu compartilhei na página de literatura, e um dos seguidores parece que se ofendeu, disse que gostava mais quando a página compartilhava coisas sérias (o que nunca se deixou de compartilhar) e que no Brasil tinha um humorista a cada esquina, algo nessas linhas.

Apesar de respeitar a opinião do colega, não posso deixar de ficar um pouco triste com essa postura que não é exclusiva dele, mas transparece em muitos grupos de leitores e de escritores, de que participo, geralmente observando mais que falando. Existe uma aparente necessidade de adotar sempre um ar grave e um vocabulário rebuscado quando falamos de literatura russa. Como se fossemos o padre de O Nome da Rosa, que via no riso um pecado mortal.

E assim acabamos afastando outros leitores não iniciados, que gostam do riso, e quando veem nossas caras sisudas, se afastam com um “Desculpa aí, então”.

Que engano e que maldade essa desnecessária intelectualização. Os autores russos ganharam a fama que ganharam porque tratam como ninguém de temas universais — o amor, a morte, Deus, a alma, o bem e o mal — e retratam muito bem o ser humano. Em suas obras há lugar para tudo que é humano, inclusive o humor.

Vamos ver alguns exemplos, claro, porque aqui a gente mata o urso e mostra a AK-47. (Mentira, nenhum animal foi ferido durante a redação deste artigo). Olha esse poeminha do Sasha Tchiórnyi:


📷Talvez o dedo coce para marcaralguém.


Outro que arrasava no humor era Bulgakov, com frequência misturando o tragicômico e o fantástico em seus livros. Ele causa muitos risos, seja ao retratar um médico de província desesperado com a própria incompetência para atender os casos que lhe aparecem, ou quando fez o diabo causar um rebuliço num teatro lotado em Moscou, ou quando zoou com a cabeça de um pobre funcionário público em Diabolíada, encrencando a vida dele por repassar a mensagem de que “A todas as datilógrafas e às mulheres em geral serão oportunamente distribuídas ceroulas de soldado”.

Para quem gosta de brincar com o nonsense, Daniil Kharms é um prato cheio:


📷que


E a fila segue, com muitos outros. A ironia de Dovlatov. A crítica de Vladimir Voinovitch, cunhada exagerando situações e personagens típicos da URSS e do período pós-soviético ao ponto do absurdo (é um dos meus três favoritos e quem me atraiu para a literatura russa, ainda resenharei os livros dele). O próprio Dostoiévski, em O Crocodilo, O Sonho do Titio, A aldeia de Stepantchikovo e seus habitantes, Bobók, e em algumas sequências de Os Demônios com o personagem Piotr Stepanovitch expondo a sociedade.

E Gogol. Ah, Gogol. Não é à toa que ele é a imagem que abre o artigo. Gogol, com o bizarro conto sobre o homem sem coragem de abordar o próprio nariz, porque este tem um cargo público mais elevado que o dele; Gogol, que nos faz sorrir do pobre batizado de Akaki Akakievitch pra depois se despedaçar com o destino dele; Gogol, com o seu Tchitchikov malandro do nível de Malasartes, inventando um esquema de dar inveja em político brasileiro, e que parece pronto a tomar uma cerveja com Odorico Paraguaçu para discutirem o quanto são incompreendidos e injustiçados…

Literatura russa não é literatura exclusiva de intelectual, de gente fresca, de super cérebros. Não é empoeirada, mas viva e pulsante, é o encontro da “alma russa” com a alma humana. É triste, alegre, intensa, toca a cada um. Ensina muito, e nem precisamos analisá-la com monóculos para isso. É só pegar, ler, e refestelar-se.

Com os nomes grandes nos acostumamos, as palavras estrangeiras, aprendemos, vamos nos maravilhando com os pontos de contato entre as nossas cultura, enriquecendo com as diferenças. Quando você perceber, vai estar lendo Guerra e Paz sem sentir. Ainda pode demorar um ano pra terminar — quem nunca? — mas vai apreciar a jornada.

25 de Julho de 2019 às 00:15 0 Denunciar Insira 0
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