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embaixada-brasileira Inkspired Brasil Era uma vez... mas nem toda história começa assim. Lá estava ele: o computador, aberto no tear de vidas. E a personagem. Estava tudo certo, mas, então, ela viu o autor. Curiosa, seu dedo quase o alcançou, e a roda do tear girou. Foi assim que as coisas se tornaram tênues: um toque e tudo daria errado, outro diferente e daria muito certo! A Bela Adormecida representa a fragilidade dos elementos construtivos da história. Uma história não vem pronta, ela é construída com enredo, sinopse, capítulos... O tear representa essa construção, enquanto que a agulha é o perigo de tudo desandar com sua Bela Adormecida. Nós queremos, neste blog, mostrar a vocês dicas para que consigam tear histórias cada vez mais harmônicas.

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Foco Narrativo

Olá, caro leitor!


Tudo bem?


Hoje falaremos sobre alguns dos diferentes tipos de narração que existem e suas características, com o intuito de você poder escolher qual deles se encaixa melhor em seu tipo de narrativa e enredo.


O foco narrativo trata sobre o sentido do texto, a forma na qual ele se apresenta para o leitor, podendo ser em primeira pessoa, terceira pessoa ou ambos.


A narrativa possui uma estrutura já definida: o início da história, o desenrolar dela, os conflitos, o ápice e a finalização. Ela geralmente tem os personagens como base, e eles podem ser antagonistas, protagonistas, secundários, entre outros. De modo geral, os autores tendem a focar a escrita nos atos desses personagens, sendo de grande importância também destacar a época e o lugar em que se passa a história. Isso tudo a gente já viu em ambientação e criação de personagens.


Hoje vamos tratar do foco narrativo, que é o ponto de vista a partir do qual a sua história será contada. Esse recurso é muito importante porque é a partir dele que seus leitores conhecerão o enredo que você bolou.


Existem quatro tipos de narração ou foco narrativo, que se apresentam da seguinte maneira:


● Em primeira pessoa


O narrador é o personagem principal da história, que nos conta tudo o que acontece a partir do seu ponto de vista. É esse personagem que nos transmite os seus sentimentos em relação ao que se sucede ao seu redor, sua visão de mundo, seus ideais e mesmo suas crenças. É importante lembrar que nem sempre narradores em primeira pessoa são confiáveis, porque o que chega ao leitor é a interpretação do fato pelos olhos daquele personagem. Um dos exemplos clássicos de primeira pessoa não confiável é o Bentinho, do livro Dom Casmurro, de Machado de Assis.


Nesse exemplo, o personagem acredita numa traição e repassa isso aos leitores mesmo sem ter nenhuma prova concreta, apenas interpretando olhares e momentos que, se analisados de modo frio, não nos dizem muita coisa.


Outro exemplo que podemos citar é a saga Crepúsculo, na qual Bella narra todos os acontecimentos da história a partir de seu ponto de vista. Ela passa o sentimento de surpresa e admiração por Edward para quem acompanha a narrativa. Para nós, leitores, uma interpretação possível é a de que ela ficou interessada em Edward por conta do jeito misterioso dele. A relação dos dois se baseava no mistério, na sedução, no proibido.


Trazemos a você um pequeno trecho do livro de Mario Prata, Diário de um Magro, no qual o escritor narra em primeira pessoa sua aventura de quinze dias num spa. A história é divertidíssima, suas aventuras e descobertas no local nos fazem pensar e refletir sobre um mundo à parte do que costumamos viver. A leitura é leve e fluida; o autor consegue prender muito bem a atenção do leitor, como vemos a seguir:


“Sei lá por quê, eu sempre achei que toda velhinha era puritana e beata. Coisa da minha infância, colégio de padres, bisavó caduca, não sei.

Pois aqui eu (ia me esquecendo de dizer que aqui também tem mulheres pacientes. Muito pacientes) comecei a conversar com elas. A gente começa contando piadinha de salão, vai ficando amigo, depois parte para uma mais picantes e, de repente, tá uma pornografia que você jamais poderia imaginar.

Como as velhinhas são sacaninhas, gente! Sacaninhas, não. Sacanas mesmo! No melhor sentido que a palavra possa ter. Que velhinho era sacana, eu já sabia. Não existe nada melhor no mundo do que uma sacanagem bem‑feita, pensei outro dia, roubando um palito de cenoura de um paciente que estava no restaurante, ao meu lado.”

— Diário de um magro


● Em segunda pessoa


Neste tipo de narrativa, o narrador é você. N. K. Jemisin fez isso em seu livro A Quinta Estação e venceu alguns prêmios com ele, como o Hugo Awards. Não é tão comum vermos livros escritos assim, porém essa forma de escrever é muitíssimo interessante; pode servir de desafio para quem nunca tentou.


● Em terceira pessoa, com o narrador onisciente


É mais conhecido como narrador-observador. Ele nos descreve os acontecimentos da história, pois possui conhecimento de toda a narrativa, mesmo não participando dela. É comum em histórias que envolvam muitos personagens.


Muitos autores gostam de trabalhar mais de um núcleo nessa narrativa, desenvolvendo ao mesmo tempo os protagonistas e os antagonistas, por exemplo. De forma geral, o narrador sabe o que todos pensam e o que todos sentem, apesar de não se prender à visão de nenhum deles.


● Em terceira pessoa, com narrador focado em um personagem específico


O narrador tem conhecimento sobre todo o desenvolvimento da história, mas foca em um único personagem e explicita os sentimentos dele, sem necessariamente deturpar a realidade a partir dos olhos desse personagem. É muito comum que autores separem os capítulos por personagem a fim de abordar vários pontos de vista em terceira pessoa, ainda que naquele capítulo exprimam os pensamentos de apenas um deles. Um exemplo é As Crônicas de Gelo e Fogo, que usa a terceira pessoa com foco num único personagem a cada capítulo.


Essa narrativa possui alguns elementos básicos que geralmente fazem parte dela: trama (enredo), conflitos, ações, personagens (antagonista, protagonista, coadjuvantes), sentimentos, cidade, região ou país onde se desenvolveu a história, como também a época e o tempo.


Em Harry Potter, por outro lado, o narrador onisciente é focado num único personagem quase a série inteira (com raras exceções), passando apenas a sua visão de mundo e pensamentos.


Quando se escreve um texto ou história, é de extrema importância pré-definir o tipo de foco narrativo que vai ser utilizado, porque é o tom da história que vai guiar o leitor.


Memórias Póstumas de Brás Cubas, por exemplo, tem um narrador em primeira pessoa que conta sua vida inteira. O importante desse narrador é que ele já está morto, então o tom que ele dá à história já pré-define o tipo de texto que será.


E o Vento Levou, por outro lado, tem um narrador onisciente que foca na personagem Scarlett O’Hara na maior parte do tempo, mas existem aquelas informações às quais a própria Scarlett jamais teria acesso, justamente porque só vieram a ser descobertas anos depois. O livro trata sobre uma guerra, apesar de o romance também ser parte essencial da narrativa. É por isso que foi importante a escolha de um narrador em terceira pessoa: porque existem fatos que o leitor precisa conhecer e que a personagem não sabe.


Não recomendamos que o autor misture narrativas ou mesmo intercale primeira pessoa com diferentes personagens. Há quem tenha feito, mas de forma geral isso deixa o texto confuso porque o leitor se acostuma a um ritmo (porque a voz da narrativa sempre impõe um ritmo) e de repente a história muda de tom. É como se outra história surgisse, e isso origina uma quebra que não costuma ser agradável para quem lê (a menos que isso seja seu objetivo, como uma coletânea com 4 personagens relatando o mesmo acontecimento, cada qual em seu ponto de vista, por exemplo). Mas, sem ser em situações específicas, é extremamente incomum que isso aconteça em livros com visibilidade.


Recapitulando o mais importante: histórias em primeira pessoa focam num único personagem, que vai narrar a história a partir seu ponto de vista e experiência; ele não vai saber como os outros personagens se sentem ou o que pretendem fazer. Em segunda pessoa, o leitor é o personagem. Em terceira pessoa, o narrador tem mais liberdade para abordar outros personagens e situações, em especial aquilo que o protagonista não tem como saber.


É importante que o foco narrativo seja definido antes de você começar a escrever sua história, pois por meio dele você dará um sentido ao seu enredo, mostrando ao leitor que tipo de narrativa ele tem em mãos.


Acreditamos que isso seja o mais importante sobre esse assunto. Esperamos ter ajudado e, quaisquer dúvidas, podem deixar nos comentários!


Um abraços a todos e até os próximos!


Texto: Camy e Megawinsone

Revisão: Anne Liberton

22 de Maio de 2019 às 00:00 0 Denunciar Insira 0
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A importância do conflito em uma história

Olá, pessoas! Tudo certo?


Hoje eu, Karimy, estou aqui com a Megawinsone para tratarmos a respeito do conflito dentro de uma história, mas, antes de qualquer coisa, lhe pergunto: você sabe o que é um conflito?


Basicamente, um conflito é uma situação diferente da qual você está acostumado a lidar no seu dia a dia. De modo geral, pode-se dizer que o conflito é uma circunstância difícil que aparece de repente em nossas vidas e nos obriga a tomar decisões que sequer gostaríamos de tomar naquele momento. É quando você quer ou precisa de alguma coisa, mas existe outra lhe impedindo de chegar até seu objetivo. Dentro de um conflito, uma pessoa pode ser obrigada a agir por impulso, porque muitas das vezes ela não tem sequer tempo de pensar, caso contrário a situação pode piorar.


É quando estamos sob pressão que descobrimos e mostramos para as pessoas ao nosso redor quem somos de verdade, pois é diante de um conflito delicado que o nosso verdadeiro eu se revela, não podemos mascará-lo ou escondê-lo.


Em uma história não é diferente. É através dos conflitos que um personagem revela quem realmente é, tanto na maneira de pensar, agir, quanto em todos os outros aspectos que envolvem sua personalidade.


É quando o seu personagem passa por um determinado conflito, de qualquer natureza, que o leitor começa a criar um laço com ele, pois é nesse momento que o leitor tem oportunidade de pensar se, no lugar do personagem, ele teria agido da mesma forma ou se teria feito algo diferente e o motivo de suas decisões. Isso porque temos a capacidade de nos colocarmos no lugar de outros seres.


O conflito é importante numa história, pois é por meio dele que a trama fica mais rica e interessante aos olhos do leitor, que é instigado pela curiosidade a continuar lendo para descobrir o desfecho do conflito apresentado, tornando-o de extrema importância para o enredo.


Mas, Karimy, a vida do meu personagem é de boa e ele não tem problema nenhum. Isso é ruim?


Bom, isso é mesmo um problema, porque não conheço nenhuma história sem conflito (mas conheço algumas em que os conflitos, na minha humilde opinião, não foram bem explorados). Talvez a sua história tenha conflitos e você só não saiba como identificá-los. Veja bem, existem pelo menos quatro níveis de conflito:


O nível físico, pessoal, psicológico e social.


Falarei um pouquinho de cada um.


1. Físico: é quando a história possui um conflito no mundo físico do personagem e ele precisa enfrentar situações como doenças, incapacidades, distância, eventos catastróficos da natureza, dificuldade financeira, monstros de vários tipos etc.


2. Pessoal: normalmente, nesse nível, o personagem precisa enfrentar um rival, que algumas vezes nem é mesmo o antagonista da história, mas, para o personagem principal, aquela pessoa está sendo um obstáculo em determinado momento e por isso “luta” contra ela, deseja vencê-la. Pode ser dois caras disputando uma mesma mulher, duas mulheres disputando uma vaga de emprego importante, pode ser um lutador tentando chegar ao topo, mas que para isso terá que enfrentar o atual dono do cinturão, enfim.


3. Psicológico: é quando o grande problema está dentro do personagem. São conflitos internos que, muitas vezes, ninguém do ciclo familiar ou social desse personagem sabe, apenas ele. Aqui encaixam-se os mais variados sentimentos e pensamentos do personagem sobre ele mesmo, sobre os outros e até sobre o mundo em que está inserido.


4. Social: nesse nível, o protagonista pode ter de enfrentar situações impostas pelo governo, por uma comunidade, pela religião, empresas, economia etc. Pode ser, por exemplo, uma pessoa inserida em uma religião, mas que não crê nesses ensinamentos como as demais pessoas à sua volta. Pode ser, também, uma luta pela modificação política na sociedade, como a luta para derrubar um tirano, um rei, um ditador, por exemplo.


Viu que existem vários tipos de conflito? Alguns conflitos são profundos e exigem muito do autor e também do leitor, mas alguns outros conflitos, como muitos apresentados em contos, exibem conflitos enfrentados nos nosso dia a dia, o que acaba agradando muito pela sua fácil identificação.


Agora que você já sabe o que é um conflito e quais são os diferentes tipos de conflitos de uma história, deixarei vocês em boas mãos. Tenho certeza de que a Megawinsone tem coisas incríveis para compartilhar!


Assim como a Karimy, gostaria de falar a respeito da importância do conflito numa história. Preparado? Então vamos lá!


Podemos definir como conflito tudo aquilo que gera desconforto a uma pessoa, que instigue nela uma ação esperada ou inesperada; esse conflito pode ser tanto psicológico como de ordem material.


O que seria de uma história sem um bom conflito? Acredito que não teria graça nenhuma e seria monótona, ninguém gosta de ler algo previsível e que segue uma linha em que só coisas boas acontecem e nenhuma reviravolta aparece. Um bom conflito marca uma história, deixando-a mais interessante, e incentiva o leitor a ler, por conta da curiosidade e interesse despertado nele; o seu enredo somente enriquece com vários conflitos e dramas.


Um conflito bem-feito é a chave para o sucesso de uma história, e você pode perceber que geralmente existem vários conflitos acontecendo ao mesmo tempo numa narrativa, eles também precisam ser bem trabalhados e desenvolvidos durante a narração.


Por exemplo, na trilogia Os Senhores dos Anéis, podemos ver nítido um conflito psicológico na hora de Frodo jogar o anel na lava para destruí-lo, quando o lado racional de Frodo gritava que era para destruir o anel, a cobiça e o lado sombrio que o anel despertava naqueles que lhe possuíam faziaFrodo hesitar em destruí-lo; nesse momento o personagem viveu um conflito interno, que lhe custou quase a vida, pois Smegal atacou Frodo para roubar o anel.


Outro conflito que posso citar é o de cunho pessoal, quando Gandolf chega para pedir ajuda a seu amigo Saruman e descobre que ele está do lado do inimigo. Nessa hora, Gandolf teve um conflito com o então ex-companheiro, que quis matá-lo, isso o fez agir de forma inesperada a algo que ele não esperava que acontecesse.


Em Harry Potter, notamos um conflito social quando a família Malfoy menospreza a família Wesley por eles serem mais pobres; na trama existem alguns trechos de Draco fazendo piadas com Rony ou Lucius com Arthur.


No filme Coragem de Viver, baseado em uma história real, a protagonista Bethany enfrenta um grande problema quando um tubarão arranca o seu braço, na época ela era uma surfista e campeã nesse esporte. Na história, o conflito dela se apresentou na condição física que a acometeu após o ataque do tubarão, depois disso a garota precisou lutar para continuar surfando, contrariando a opinião e o preconceito dos outros que achavam que ela deveria abandonar o surf, porque não conseguiria mais surfar com um braço só. Ela, porém, com determinação e dedicação, mostrou que a sua condição física não a impedia de continuar a fazer o que tanto gostava.


Além disso, no desenvolvimento de uma história, não é necessário apenas um conflito, a não ser que seja um conto. O que geralmente acontece é ter um objetivo principal e pequenos obstáculos até ele. Voltando com o exemplo de Harry Potter, todos os sete livros giram em torno de “vencer o mal”, derrotar Voldemort e instaurar a paz no mundo bruxo; esse é o conflito principal do garoto que sobreviveu. Contudo, em cada livro acontece um conflito diferente, como degraus de uma escada, percorrendo todo o caminho até chegar à “grande batalha”. Em uma única história pode estar inserido mais de um conflito, sendo que um alimenta o outro. Um outro exemplo, também citado no texto: uma mulher disputando uma promoção no trabalho com outra pessoa. Esse seria o conflito principal, mas no decorrer da história pequenos conflitos darão força a ele, como, por exemplo, o carro dela quebrar a caminho de uma reunião. É um novo conflito que a personagem precisa enfrentar e que afeta diretamente o principal.


Então, o conflito se mostra dessa forma, dividido em vários tipos como a Karimy explicou anteriormente e como nos exemplos que ilustrei logo acima. Você entendeu o que é um conflito? Ficou claro? Qualquer dúvida pode deixar seu comentário, que o responderemos.


Texto: Karimy e Megawinsone

Revisão: Byun_Re

8 de Maio de 2019 às 00:00 0 Denunciar Insira 1
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Descrições e “On”, “Off”, “Pov” e “Flashback”

Olá, pessoas! Tudo certo?


Agora que você já sabe um pouco sobre a ambientação, não podia deixar a descrição de fora da nossa linha de coisas a serem vistas. Muitos escritores abrem mão da descrição, tanto de cenários quanto de personagens; como exemplo, posso citar um livro maravilhoso, do autor Heinrich von Kleist, chamado A Marquesa de O. Nesse livro, para se ter uma ideia, temos o nome de apenas um personagem, os demais são citados através de títulos e características; ainda assim, é um livro maravilhoso.


Diante disso, vem a pergunta: a descrição é necessária?


Para responder, terei uma ajudinha:


“Quanto ao trabalho da encenação, a arte do cenógrafo tem mais importância que a do poeta.”

— A Poética de Aristóteles, capítulo VI (Da tragédia e de suas diferentes partes)


Acredito que isso não só responda à questão, como seja também muito explicativo por si só. Ainda assim, esclarecerei os fatos!


O narrador, para a história, é equivalente ao cenógrafo para o teatro. Na literatura nada é desperdiçado, a não ser que seja algo completamente sem utilidade dentro da narrativa; nesses casos, precisamos usar uma “pinça” para fazer a seleção dos fatos que são essenciais para o enredo. Simplificando: se algo está maravilhoso na narração, mas não possui significado algum para a história, não acrescenta nada aos personagens, então pode ser considerado desnecessário; por isso precisamos verificar com cuidado cirúrgico os fatos. Enfim, vamos ao cenário propriamente dito agora.


Existem inúmeras utilidades para um cenário, ele não serve apenas para mostrar o espaço físico onde os personagens se encontram, mas também para modificar situações, linhas de pensamentos. Por exemplo, um personagem que está passando por um momento conturbado pode apresentar um cenário, já antes descrito, de forma confusa, tudo para mostrar seu estado de espírito. O cenário também pode ser usado para desviar a atenção do leitor, por exemplo, em romances policiais. Uma caneta pode estar em um lugar justamente para apontar um fato, uma poltrona pode ter sido movida por algum motivo específico (neste último, vale lembrar a poltrona movimentada no romance policial O assassinato de Roger Acroyd ou no novelo de lã e cortina desaparecidos em E não sobrou nenhum, ambos da autora de Agatha Christie, ou até o gosto de peixe na água de Nicolai em Gravidade da autora Tess Gerristsen). Ainda nesse pensamento, devemos levar em conta todos os cinco sentidos dos personagens. Essa tática de explorar olfato, visão, tato, paladar e audição é chamada de sinestesia.


Para criar um cenário, basta se lembrar de locais por onde esteve e levar em conta que você não apenas vê as coisas, você sente, ouve, cheira. Qual seria o cheiro de uma cena de crime onde um corpo foi encontrado? Todas essas coisas são percepções que transportam o leitor direto para a história, por isso e muito mais é, sim, importante a descrição de cenários em uma história.


Algumas pessoas, talvez por receio de descrever ou por se acharem incapazes, dispõem de fotos como artifício de descrição, disponibilizando-as para os leitores. Esse tipo de descrição não é apenas falso, por sequer estar diretamente inserido na narrativa, como também retira toda a possibilidade de o leitor imaginar certas coisas à sua própria maneira; ou seja, limita a imaginação. O interessante seria usar a foto que você tem do local como base para descrever os elementos da história.


Agora, como essa descrição será feita depende apenas de você, do seu narrador, e do tipo de história que você escreve.


Ah, Karimy, como assim?


Calma! É simples! Se sua história é mais leve, vale pensar em uma descrição suave, até mesmo se valendo do movimento e olhar do personagem (pense em uma câmera — o que seria ponto de vista); agora, se sua história for um pouco mais agressiva, vale jogar uma descrição mais pesada, longa, porque o tipo de história admite isso. Darei a vocês um exemplo de ambos e, para começar, mostrarei uma cena em que Cassie, em a 5ª Onda, de Rick Yancey, mostra sua rotina sendo quebrada e que percebe isso graças ao cenário que já conhecia tão bem.


Assim que passei pela estilhaçada porta frontal do posto, soube que algo estava diferente. Eu não vi nada diferente. A loja parecia exatamente igual à semana anterior, com as mesmas paredes grafitadas, prateleiras reviradas, chão coberto com caixas vazias e fezes de rato secas, caixas arrombados e geladeiras de cerveja saqueadas. Era a mesma confusão nojenta e malcheirosa que eu atravessava a cada semana havia um mês para chegar ao depósito atrás das gôndolas refrigeradas.

— 5ª Onda


A descrição é simples, objetiva, além de não muito abrangente. Isso porque, como disse, a história está mostrando um momento de relativa tensão: ela sabe que tem alguma coisa errada, mas não entende o que possa ser. Além do mais, se você já leu esse livro, sabe que existe um pouco mais desse cenário, só que ele foi intercalado com as impressões e pensamentos da personagem, justamente para não deixar a descrição em primeiro plano: o importante nesse momento é que tem alguma coisa de errado acontecendo, não o cenário que ela já conhece.


Um forte contraste pode ser visto em O senhor dos anéis: A sociedade do anel, de J. R. R. Tolkien; poderia pegar vários exemplos, mas como eu adoro os Hobbits e a paixão pela comida que eles têm, peguei um trechinho que mostra a mesa sendo retirada:


A noite passou lentamente. O sol nasceu. Os hobbits acordaram muito mais tarde. A manhã passou. Pessoas vieram e começaram (por ordem de alguém) a retirar os pavilhões e as mesas e cadeiras, e as colheres e facas e garrafas e pratos, e as lanternas, e os arranjos de flores em caixas, e os restos de papel de bombinhas, e bolsas e luvas e lenços esquecidos, e a comida que não tinha sido consumida (um ítem muito pequeno). Então várias outras pessoas vieram (por ordem de ninguém): Bolseiros e Boffins, e Bolgers, e Túks e outros convidados que moravam ou estavam hospedados em lugares próximos. Por volta do meio-dia, quando até os mais bem alimentados estavam a todo vapor novamente, havia uma grande multidão em Bolsão; não convidada, mas não inesperada.

— Senhor dos anéis: A sociedade do anel


São descrições bastante diferentes, não é mesmo? E, perceba, a descrição poderia ser facilmente substituída por algo como: “...a retirar os pavilhões e tudo o mais que havia lá dentro”, mas isso não aconteceu, porque ali era o lugar da comilança, e os Hobbits ficam de olho na comidinha preciosa deles, inclusive é mostrada a saída dos garfos, dos restos de papel de bombinhas (Hobbits também são bagunceirinhos), a comida que sobrou (que era muito pouca), então você percebe que essas coisas não foram simplesmente escritas, elas foram notadas e depois relatadas. Com certeza tinha mais coisa acontecendo, mas só aquilo que era importante no ponto de vista do narrador que foi mostrado, o que já nos dá pistas sobre quem é o narrador, inclusive.


Olhando um pouco mais para os personagens, a descrição de suas características físicas e vestimentas também são importantes. O critério para a apresentação também é o mesmo. Se sua história é mais leve, também vale uma descrição mais leve, mas se sua história for mais pesada, uma descrição marcante pode ser uma coisa boa, pode preparar o leitor para certas situações e impressões.


Uma Oneshot sobre Game of Thrones que escrevi mostra um pouco dos dois tipos de descrição. Isso porque existem apenas dois personagens centrais, um com um peso enorme na narrativa e outro um pouco mais solto, mais leve, mas mostrarei um de cada vez para que você perceba isso. Primeiro, vamos à apresentação de Daenerys:


Usava uma luva de lã cinza, uma bota de pele de lobo da mesma cor, e sua túnica era tão branca como o gelo que os cercava, cravejada de botões de lápis-lazúli. Usava uma calça de sedareia, também branca, e seus cabelos prateados estavam presos para trás, sem seus sinos. Devia tê-los pedido para Irri. Aqui, de frente ao lago congelado, sentia-se pequena, e os sinos a ajudariam a se lembrar de quem era. Mãe dos dragões.

— O frio que rasteja


A descrição da personagem é mostrada de forma genérica, isso porque ela não é feita em um todo, mostrando, primordialmente, a roupa que usa e seus cabelos. Isso porque resolvi mostrá-la devagar, com suavidade. Depois você verá mais características dela, seus olhos; inclusive, a verá em outra roupa, um tokar. Apesar de ser mãe dos dragões, a personagem é delicada e essa delicadeza está sendo mostrada de várias formas, inclusive na sua descrição.


Ao contrário dela, O Rei da Noite é mostrado de maneira mais brusca, forte, isso porque a presença dele vem acompanhada de todo um peso de insanidade, insensatez, desespero. Veja só como se dá a apresentação dele:


Alto e imponente, um ser surgia. Enquanto as peles dos caminhantes brancos eram congeladas, a dele era o próprio gelo. Olhos em um azul profundo, morto e ao mesmo tempo vivo o suficiente para fazê-la sentir-se pequena. Os passos dele eram silenciosos, lentos, ritmados, fortes. A armadura era gelo em aço polido, reluzindo mesmo sem que o sol o beijasse, bebendo o frio. Em sua cintura, uma espada pendia, em vez de guardada em couro, era mantida por uma espécie de diamante congelado; tudo nele era puro gelo mentiroso, fingindo ser aço e carne. Pequenos chifres brotavam da cabeça dele, apontando para trás. Linhas finas marcavam seu rosto, como se fossem rugas ou cicatrizes de batalha, e os lábios finos e largos eram duros, secos, firmes, e de suas mãos garras negras brotavam de onde deveriam sair as unhas, eram como as garras de Drogon. Mesmo sem uma coroa, ele reinava. Dany tremia.

— O frio que rasteja


A descrição dele não mostra apenas como ele é, mas também como ele anda, perceba: “Os passos dele eram silenciosos, lentos, ritmados, fortes”. A falta da conjunção “e” antes de “fortes” é justamente para marcar o ritmo do caminhar dele, leia em voz alta, isso sempre ajuda a perceber a sonoridade da escrita. A aparição também é mostrada através da confusão que a aparência toda dele causa, confundindo carne com gelo, aço com gelo, mentira com verdade. No seu todo, mostra não apenas como ele é, mas o que sua presença causa.


Perceba que a construção da descrição dos dois é feita usando comparações (“branco como gelo”) e a fusão de elementos (“era gelo em aço polido”). Veja também que para apresentar ambos os personagens não foram utilizados adjetivos desnecessários.


Se você não conhece os adjetivos e as conjunções, recomendo que dê um pulinho nas aulinhas do blog Esquadrão da Revisão. A gramática é muito, muito importante para um escritor.


É muito difícil casos em que utilizo adjetivos para descrever personagens ou cenários, isso porque cada um tem um modo de perceber as coisas, então o que pode ser lindo para uma pessoa pode ser feio para outra, pense em uma descrição assim:


Os olhos dele eram lindos, a boca, perfeita. Seu corpo era como a visão do céu. Ah, e o sorriso, o sorriso era simplesmente magnífico, nunca vi nada parecido em toda minha vida. Então, decidi, era com ele que deveria me casar.

— Situação hipotética


Acredite, descrições desse tipo são bastante comuns. Acontece que, pense bem; “Os olhos dele eram lindos”: algumas pessoas acham olhos verdes bonitos, outras preferem negros, e assim por diante. Algumas pessoas possuem os olhos grandes, outras, estreitos, pequenos. Existem pessoas de olhos puxados, caídos, olhos mais juntos, olhos separados, olhos estrábicos, enfim, uma infinitude de possibilidades e, da mesma forma que essa lista é grande, também é grande a lista de gostos pessoais, que se diferem de pessoa para pessoa. Tem gente que acha um tipo de olho mais bonito do que o outro: a pessoa interpretará, portanto, seu personagem de acordo com o gosto dela ao ler isso ou simplesmente não interpretará de forma alguma.


A mesma coisa com a boca, o corpo e o sorriso. Não adianta adjetivar seu texto do início ao fim. Se você não der uma visão clara daquilo que mostrará, teremos apenas impressões, mas nunca, de fato, saberemos como os personagens são ou o cenário é.


Uma escritora que tem descrições limpas é a J. K. Rowling. Confira a descrição de Hagrid e Rony, respectivamente, no primeiro livro da saga Harry Potter:


Um homem gigantesco estava parado ao portal. Tinha o rosto completamente oculto por uma juba muito peluda e uma barba selvagem e desgrenhada, mas dava para se ver seus olhos, luzindo como besouros negros debaixo de todo aquele cabelo.

(...)

Ela apontou o último filho, o mais moço. Era alto, magro e desengonçado, com sardas, mãos e pés grandes e um nariz comprido.

— Harry Potter e a Pedra Filosofal


Como já foi dito, alguns escritores possuem um pouco de dificuldade para fazer a transição de um ponto de vista para outro e mostrar situações que ocorreram em diferentes momentos da narrativa, a digressão. Entendo. São coisas que realmente exigem bastante atenção e trabalho, mas depois de um tempo, podem ser feitas de forma natural.


Para ajudá-lo um pouquinho com relação a esse assunto, você verá agora sobre “On”, “Off”, “Pov” e “Flashback” em uma história.


Começo essa parte com uma declaração pessoal: deixei de ler muitas histórias por causa dessas marcações, principalmente quando comecei a ler fanfictions. Motivo: é confuso, eu me sentia um peixe fora d’água!


Além dessa revelação pessoal, os recursos “On”, “Off”, “Pov” são usados em situações óbvias e são claramente desnecessários. Quando o personagem está pensando, não precisa colocar “pensamento on” para dizer que aquele é o pensamento, nem mesmo “pensamento off” para marcar o fim da reflexão. Isso pode ser dito de forma muito mais simples e limpa usando aspas, itálico, travessão, e pode até ser introduzido sem nenhuma marcação, se sua história for em terceira pessoa.


Quando mais de um personagem narra a história, alguns autores também utilizam esse recurso, além do “Pov”, quando poderiam apenas transferir a visão de um personagem para o outro com suavidade, se em terceira pessoa. Agora, se a história for em primeira pessoa, você pode fazer um capítulo para cada personagem ou quando um personagem terminar e outro começar, fazer um “subtítulo” com o nome do personagem que narrará em seguida. Não há muito mistério, tira toda a poluição da história e ainda deixa a narrativa mais fluida.


Para exemplificar, mostrarei a passagem em que Richie, personagem do livro It, A Coisa, de Stephen King, está no cinema com Beverly e Ben. O parágrafo começa com Richie e isso fica ainda mais claro porque é ele quem chama o Ben de “Monte de Feno”, mas depois a narrativa passa para o ponto de vista de Ben e isso é muito nítido, pois a introdução é feita pelo esquecimento do Ben.


Ben ficou muito calado durante a sessão. O velho Monte de Feno quase tinha sido visto por Henry, Arroto e Victor mais cedo, e Richie supôs que era isso que o perturbava. Mas Ben já tinha esquecido os calhordas (eles estavam sentados perto da tela no andar de baixo, jogando caixas de pipoca uns nos outros e gritando). Beverly era o motivo do silêncio dele. A proximidade dela era algo tão intenso que ele quase estava se sentindo mal. Seu corpo ficava todo arrepiado e, se ela ao menos se mexesse na cadeira, sua pele ficava quente, como se com febre. Quando a mão dela roçou nele à procura de pipoca, ele tremeu de exultação. Depois, pensou que aquelas três horas no escuro ao lado de Beverly foram as mais longas e mais curtas de sua vida.

— It, A Coisa


A situação, além de ter mostrado que o Ben não estava mais preocupado com os “valentões”, ainda deixa bem claro o quanto o sentimento dele pela Beverly é intenso, mesmo que para uma criança. Imagine se tivesse usado “Pov” ou “On”, “Off” na narrativa! Ele teria não apenas desacelerado os acontecimentos, causando uma grande interrupção no ritmo, como também teria “matado” a narração e o clima criado por ela.


Ainda nesse caso, existe “Narrador on/off”, “Pov narrador”: misturar primeira com terceira pessoa em um só capítulo não é nada bacana, além de causar uma confusão de “vozes”. Se você quiser usar dois narradores diferentes, três, quatro, você pode simplesmente usá-los em capítulos diferentes. Na minha fanfiction Grãos de areia, uso esse recurso: um personagem é marcado pela narração em primeira pessoa, enquanto outro é marcado pela terceira pessoa, cada um em um capítulo. Você também poderá ver esse recurso sendo usado em alguns livros, como em Questões do coração, da autora Emily Giffin.


O caso do flashback também traz alguns problemas, porque ele não é necessário em uma história. Em alguns casos, o uso dele pode ser justificado, como em histórias cômicas, quando um personagem arregala os olhos, abre a boca, fica tenso e... flashback! Podemos ver muito isso em filmes de comédia, mas em narrativas mais sérias, em romances, isso já não é legal justamente porque, assim como os “Pov”, quebra o ritmo da história.


Se você quer mostrar o sonho do personagem, não precisa dizer que ele sonhou, que foi um pesadelo, que foi um sonho bom e depois enfiar um “flashback” no meio da história. Ou, em alguns casos, um “flashback on/off”. Para não o deixar sem exemplo, mostrarei a você uma das inúmeras construções que retratam um sonho em Guerra dos tronos, da saga As crônicas de gelo e fogo, de George R. R. Martin:


Não demorou e Bran adormeceu. No sonho estava de novo escalando, alçando-se para o alto numa velha torre sem janelas, forçando os dedos entre pedras enegrecidas, com os pés lutando por um ponto de apoio. Escalou mais alto, e mais alto ainda, atravessando as nuvens e penetrando no céu noturno, mas a torre continuava a erguer-se à sua frente. Quando fez uma pausa para olhar para baixo, sentiu a cabeça girar, entontecida, e seus dedos escorregarem. Bran gritou e agarrou-se à vida. A terra estava a mil milhas de seus pés, e ele não sabia voar. Não sabia voar. Esperou até que o coração parasse de saltar no peito, até poder respirar, e recomeçou a escalada. Não havia caminho que não fosse para cima. Bem alto, delineadas contra uma lua esbranquiçada, parecia poder ver formas de gárgulas. Tinha os braços machucados, doendo, mas não se atrevia a descansar. Forçou-se a subir mais depressa. As gárgulas o observaram. Seus olhos brilhavam vermelhos como carvões quentes num braseiro. Talvez tivessem sido leões antes, mas agora estavam retorcidas e grotescas. Bran conseguia ouvi-las segredarem umas às outras em suaves vozes de pedra, terríveis de ouvir. Não devia ouvir, disse a si mesmo, não devia ouvir; desde que não as ouvisse, estaria a salvo. Mas, quando as gárgulas se libertaram da pedra e percorreram o lado da torre até onde Bran se agarrava, compreendeu que afinal não estava a salvo. “Eu não ouvi”, choramingou, enquanto elas se aproximavam cada vez mais. “Eu não ouvi, não ouvi.” Acordou sem fôlego, perdido na escuridão, e viu uma vasta sombra que se erguia sobre ele.
— Não ouvi — sussurrou, tremendo de medo, mas então a sombra disse “Hodor” e acendeu a vela ao lado da cama, e Bran suspirou de alívio.

— A guerra dos tronos


Como pode ver, o sonho foi introduzido de forma simples: ele estava sonhando, é isso e ponto! Na vida real também é assim, não temos um “flashback”, “Pov”, “On”, “Off” que nos diga que estamos sonhando, falando ao telefone, pensando ou demais coisas. Já escrevi aqui uma vez e volto a repetir: o simples em uma narrativa é algo bom. Agora, se sua intenção for a de provocar uma retirada do leitor dos acontecimentos, mudar um pouco o foco narrativo ou até mesmo introduzir elementos diferentes, em vez de usar algo mais suave para introduzir o sonho ou outra coisa, você pode colocar as letras em itálico ou pôr a referida construção em aspas. Como exemplo disso, temos o livro Alien — surgido das sombras, escrito por Tim Lebbon, em que existem, sim, introduções suaves, mas todas as vezes que a Ripley tem um lapso de memória ou sonha, isso é apresentado não só com o itálico como também com a mudança verbal, que passa de passado para presente. É realmente um puxão no leitor, como se o tirasse de um lugar e o deslocasse instantaneamente para outro. E isso é até simples de ser entendido: é o que a Ripley sente quando alucina com Amanda; é puxada de repente, sem avisos.


Para mostrar uma digressão (um personagem relembrando o passado), você também não precisa do flashback, você pode simplesmente introduzir a regressão na narrativa de forma suave: se for parar para pensar, é assim que nossa mente funciona quando estamos nos lembrando de algo, não pensamos “flashback” e lembramos, o pensamento vem com simplicidade e facilidade, não precisa do susto de uma palavra para que isso aconteça. Machado de Assis, que é um mestre da digressão (as obras dele são baseadas em pura digressão, até porque falar da vida de um morto, por exemplo, exige isso), faz isso em diversos momentos, não só para mostrar o passado, como também para mudar o ritmo da história e interagir com o leitor, que chega a se transformar em um personagem, tamanha é essa interação. Veja, como exemplo, o comecinho de Dom Casmurro, que já começa a história com uma digressão (o primeiro capítulo inteiro é uma digressão):


Uma noite destas, vindo da cidade para o Engenho Novo, encontrei num trem da Central um rapaz aqui do bairro, que eu conheço de vista e de chapéu. Cumprimentou-me, sentou-se ao pé de mim, falou da lua e dos ministros, e acabou recitando-me versos. A viagem era curta, e os versos pode ser que não fossem inteiramente maus. Sucedeu, porém, que, como eu estava cansado, fechei os olhos três ou quatro vezes; tanto bastou para que ele interrompesse a leitura e metesse os versos no bolso.

— Continue, disse eu acordando.

— Já acabei, murmurou ele.

— São muito bonitos.

Vi-lhe fazer um gesto para tirá-los outra vez do bolso, mas não passou do gesto; estava amuado. No dia seguinte entrou a dizer de mim nomes feios, e acabou alcunhando-me Dom Casmurro. Os vizinhos, que não gostam dos meus hábitos reclusos e calados, deram curso à alcunha, que afinal pegou. Nem por isso me zanguei. Contei a anedota aos amigos da cidade, e eles, por graça, chamam-me assim, alguns em bilhetes: "Dom Casmurro, domingo vou jantar com você."—"Vou para Petrópolis, Dom Casmurro; a casa é a mesma da Renania; vê se deixas essa caverna do Engenho Novo, e vai lá passar uns quinze dias comigo."—"Meu caro Dom Casmurro, não cuide que o dispenso do teatro amanhã; venha e dormirá aqui na cidade; dou-lhe camarote, dou-lhe chá, dou-lhe cama; só não lhe dou moça."

Não consultes dicionários. Casmurro não está aqui no sentido que eles lhe dão, mas no que lhe pôs o vulgo de homem calado e metido consigo. Dom veio por ironia, para atribuir-me fumos de fidalgo. Tudo por estar cochilando! Também não achei melhor título para a minha narração — se não tiver outro daqui até ao fim do livro, vai este mesmo. O meu poeta do trem ficará sabendo que não lhe guardo rancor. E com pequeno esforço, sendo o título seu, poderá cuidar que a obra é sua. Há livros que apenas terão isso dos seus autores; alguns nem tanto.

— Dom Casmurro


Perceba: “Uma noite dessas…” É simples, é explicativo e elegante.


As digressões e toda a gama de artifícios que podemos utilizar na construção da história também causam impressões ao leitor sobre sua história e é preciso ter tato para não a poluir. Não tenha medo de descrever os cenários ou os personagens, eles são elementos que trazem vida e realidade para o leitor, são coisas que aproximam sua história dele, que a tornam real.


Espero que o texto tenha sido esclarecedor quanto às questões abordadas, mas não se acanhe se surgir alguma dúvida no meio do caminho, estamos aqui para ajudar você como pudermos.


Beijos!


Texto: Karimy

Revisão: Camy


Referências:

ASSIS, Machado de. Dom Casmurro. São Paulo: Editora Ática, 1996.

MARTIN, George R. R. A guerra dos tronos. Tradução de Jorge Candeias. São Paulo: Leya, 2010.

TOLKIEN, J. R. R. O Senhor dos anéis: A sociedade do anel. São Paulo: Martins Fontes, 2000.

YANCEY, Rick. A 5° Onda. Curitiba: Fundamento, 2013.

24 de Abril de 2019 às 00:00 0 Denunciar Insira 0
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Diálogos

Olá, pessoas! Tudo certo?


Vamos trabalhar em dupla neste texto. Eu e a Camy temos visões um tanto diferentes sobre os limites do uso gramatical nos diálogos, isso porque existem vários pontos de vista. Eu sou muito aberta, mas também muito conservadora em certos momentos e caberá a você saber escolher o que funciona para suas histórias e talvez até para apenas um momento da sua história, pois pode ser que você escolha jeitos diferentes para personagens diversos ou situações que lhe peçam algo que você não costuma fazer. Eu farei a maior parte do texto, mas a Camy mostrará o ponto de vista dela quando falarmos sobre linguagem por aproximação.


Com relação aos diálogos, você já deve saber que eles podem trazer muita dor de cabeça para um autor, principalmente porque são os responsáveis por dar vida aos personagens. Para nós, brasileiros, isso pode ser ainda mais complicado; isso porque, na língua portuguesa, é muito difícil deixar um diálogo natural por conta das regras gramaticais.


Por esse motivo, já vi, em diversas histórias, autores usarem “cê” ou “vamo” como uma tentativa distorcida de diminuir a artificialidade da fala dos personagens. Acontece que escrever errado, tentar copiar a fala dessa forma sem a devida e adequada justificativa, é erro gramatical. É algo que eu, Karimy, estudante de Letras e, como já disse, um pouco conservadora quanto a movimentos “fortes”, penso, mas também acredito na flexibilidade e que, se justificado, tudo pode ser feito. Este é um assunto tratado de forma muito inteligente nos livros de Raimundo Carrero, escritor, jornalista e detentor de outros títulos, que também já revelou vários escritores conhecidos, como Marcelino Freire. Vale muito a pena conferir o trabalho dele.


Mas não fique muito preocupado. Essa falta de naturalidade das falas não é uma dificuldade que só nós temos. Na verdade, esse problema também é muito presente no espanhol e foi comentado durante uma entrevista pelo escritor, jornalista, editor e ativista político colombiano Gabriel García Márquez. Ao ser questionado pelo jornalista Plínio Apuleyo Mendonza sobre seu livro Cheiro de Goiaba, García Márquez explicou que não dá tanta importância aos diálogos em seus livros por causa do distanciamento entre o diálogo falado e o escrito, e que o diálogo escrito acaba sendo falso.


Vamos separar em tópicos os assuntos que temos a tratar, porque é bastante coisa e queremos simplificar ao máximo para que você entenda o que queremos dizer.


Linguagem por aproximação (vertente tradicional)


Calma! Não perca as esperanças! Existe uma solução para isso e uma em que você não precisará escrever errado para deixar a fala natural, que é a linguagem por aproximação. Um grande escritor que faz isso de forma maravilhosa é Guimarães Rosa, no livro Grande Sertão: Veredas, usando a regionalidade dos personagens.


Você já observou duas pessoas conversando? Por mais parecidas que elas possam ser, mesmo que gêmeas idênticas que usaram até roupa igual durante a fase de crescimento e tudo o mais, ainda assim existem diferenças nas falas delas. Isso acontece porque, quando falamos e escrevemos, recorremos ao léxico internalizado em nós — aquelas palavrinhas que aprendemos durante nossa vida. Nossa mente vai lá, como uma pinça, selecionando a palavra que consideramos mais adequada para uma situação ou outra. Bacana, não é mesmo?


Existem pessoas, por exemplo, que, quando estão conversando, utilizam muito o “é”, enquanto outras repetem muito o “oxe”, “uai”, outras dizem advérbios terminados em “mente” o tempo inteiro. São essas coisinhas pequenas que tornam nossas falas reconhecíveis. Talvez você ache que é pouco, mas provarei que não.


Para quem não sabe, Camy e eu somos até chatas quando o assunto é correção. Uma vez, estávamos corrigindo um texto para o Esquadrão da Revisão quando ela me disse: “Eu queria tirar esse ‘Palavras proparoxítonas’ e deixar o texto corrido”. O problema é que, naquele momento, eu não podia analisar a situação de perto, e a Camy sabe que uso uma linguagem informal nos textos dos blogs, principalmente no Esquadrão da Revisão, então, ela me mandou uma sugestão de troca para a situação em questão. Veja só:


“Ufa, o pior já passou. Vamos agora ver as palavras proparoxítonas!”


A única coisa que fui capaz de fazer ao ler isso foi rir e responder: “Muito eu! Pode pôr”. A Camy foi capaz de reproduzir uma frase bem próxima da minha escrita porque ela observou o meu jeito de escrever, as palavras que uso.


Então, a primeira dica que deixo para você é esta: observe as pessoas conversando, veja o que diferencia uma pessoa da outra. Não imite, entenda as particularidades das falas e as transporte para sua história. O importante em um diálogo não é se ele é bonito ou feio, se tem palavrão, se é antiquado ou até idiota, mas se é natural e sincero. Pegue um bloquinho de notas, sente perto de pessoas que estão conversando e anote as falas delas. Observe o comportamento, veja as nuances de uma conversa real para melhorar sua experiência criativa.


Linguagem por aproximação (vertente nem tão tradicional assim)


Bom, gente, é agora que eu, Camy, vou falar sobre um grupo de escritores que é um pouco mais liberal no quesito diálogos. Aqui é importante ressaltar uma coisa: não existe uma vertente “certa” e uma vertente “errada” sobre a área dos diálogos. A verdade é que a gramática não passa de uma ferramenta e é escolha do autor utilizar suas regras ou não. É essencial que todos conheçam as regras, mas, se eu vou segui-las ou não, aí o problema é meu. Eu não estou tirando isso do nada, ok? Saramago, por exemplo, foi um grande escritor português que estudou gramática por anos, resolveu que não servia para ele e criou seu próprio sistema; Valter Hugo Mãe é outro que resolveu deixar os ensinamentos tradicionais de lado e criar seu próprio sistema de pontuação e diálogos (e eu o detesto um pouco por isso, porque seus textos são difíceis de ler justamente devido à pontuação confusa).


Não estou dizendo que vocês agora vão pegar uma gramática qualquer, lê-la e decidir que não querem nada disso. Calma lá, baixem o ego, estamos falando de pessoas que estudaram a língua por anos antes de decidirem qualquer coisa. Não, o meu ponto é o seguinte: em alguns momentos, a gramática mais atrapalha do que ajuda, e no diálogo é que vemos isso em maior evidência.


Eu tive aulas por dois anos com o professor Paulo Ledur, escritor conhecido aqui de Porto Alegre, e ele era o primeiro a dizer que pontuação depende de contexto. É claro que nós não vamos reproduzir a fala escrita tal como ela acontece na realidade, ou teremos algo como “as guria disseram que vinham”, “vô te falá um negócio”, “as casa são muito feia”. Não que não exista; Margaret Michell, em E o vento levou…, constrói a fala dos personagens analfabetos dessa forma. Chega a ser muito desconfortável de ler, porque ela retira os -r do final, abrevia palavras, come letras… Enfim, ela ultrapassa os limites do que até eu considero adequado (mas o livro é maravilhoso, fica aí a sugestão de leitura). Então, não, nós não vamos simplesmente pegar a gramática, jogá-la pela janela e transcrever as falas do nosso dia-a-dia.


Manteremos os plurais e mesmo as conjugações verbais em sua maioria. O que eu defendo é que podemos, sim, modificar estrutura e mesmo ortografia em alguns casos. Um exemplo simples: qualquer texto literário meu que vocês encontrem na Internet terá “cê" em vez de “você" durante os diálogos. Eu também uso e abuso de “tá" e da construção “verbo + pronome do caso reto" (ver ela, em vez de vê-la, por exemplo), que também é condenada pela gramática normativa.


“Eu estava falando com ela, desculpa-me por não te ver" — isso é o que a gramática normativa espera.


“Eu tava falando com ela, desculpa não te ver" — isso é o que eu defendo, e a forma mais tradicional da linguagem por aproximação.


Aquele “tava" ali não causa absolutamente nenhum desconforto ao leitor, inclusive deixa a leitura bastante natural e, se a narração mantiver um bom nível de português padrão, o leitor não pensará que eu cometi um erro; ficará claro que a minha intenção sempre foi usar as palavras do jeito que eu fiz.


É claro que tudo depende do contexto da sua história; não vá fazer um adulto com graduação, passado dos quarenta anos, chamar outro com “Bora dar um rolê?” sem que tenha uma ótima justificativa. Mas, na boca de um adolescente, essa fala seria verossímil.


A ideia que a Karimy deu antes de sentar e transcrever o que as pessoas falam é muito bacana. Eu também faço Letras e isso na verdade foi uma das nossas tarefas na cadeira de Conceitos Básicos de Linguística. A atividade foi muito legal e a discussão que surgiu sobre isso em aula depois foi melhor ainda. Façam isso quando estiverem no ônibus ou mesmo no trabalho ou na escola; só escutem o que as pessoas dizem e prestem atenção em como as palavras são pronunciadas.


Alguns escritores brasileiros também se aventuram nesse mundo do diálogo sem tantas regras, como Daniel Galera e Jô Soares. Eles ainda vão ao extremo de modificar a pontuação para que ela siga o ritmo da fala que eles querem, porém esse assunto é para outra hora. Em As Esganadas, do Jô Soares, há um trecho em que um personagem está ouvindo a narração de uma partida de futebol. Eu sei que isso não é um diálogo, mas ainda é uma fala, algo que sai da boca de um personagem. Eu gostaria que vocês vissem como ele fez:


Pelas ondas curtas do rádio, Gagliano Neto tenta animar a torcida:

“Nosso valoroso goleiro Walter não se abate amigos ouvintes de todo Brasil pois sabe que o tiro itálico era indefensável! Romeu dá nova saída passa a bola a Luisinho Luisinho perde para Andreolo que chuta para fora! Zezé cobra o lateral em direção a Machado mas quem recebe o balão é Colaussi Colaussi mata a bola no peito mas perde para Lopes Lopes tenta fugir pela direita mas é desarmado por Foni que passa a Locatelli! Nosso meio-campo com Martim Luisinho e Perácio parece envolvido pelos adversários! Nesta altura o técnico Adhemar Pimenta deve lamentar a ausência daquele que já é considerado o maior crack da competição Leônidas da Silva o Homem de Borracha! Adhemar alega que o player sofre de dores musculares porém alguns comentam que Pimenta estaria poupando o Diamante Negro para a final! A verdade é que o nosso brilhante center-forward está fazendo falta!”

(SOARES, 2011)


Como dá para perceber, a gente fica até sem fôlego lendo, certo? É uma ideia bacana. Eu não sei se usaria num texto meu, mas é interessante pensar em como autores publicados costumam fazer.


Falando em autores publicados, quero apresentar vocês a Daniel Galera. Ele é brasileiro e já ganhou dois prêmios muito importantes: o prêmio Machado de Assis de Romance, da Fundação Biblioteca Nacional, e o prêmio São Paulo de Literatura. O último ele ganhou com o livro que vou usar de exemplo aqui. Eu estou falando isso porque muita gente ainda vê como erro certas abordagens ao diálogo. Eu, por exemplo, tenho mil e um receios com quem não usa travessão. Inclusive, o Daniel é um que não o usa e eu demorei bastante para pegar os livros dele justamente por isso. Os diálogos dele têm uma pontuação própria, indo muito do ritmo de fala que o autor quer passar, e mesmo a grafia das palavras muda. Ele usa termos como “afoder” e outras gírias (principalmente gaúchas, porque cresceu em Porto Alegre, apesar de ter nascido em São Paulo). Quando eu leio os livros dele, tenho a sensação de estar ouvindo as pessoas conversarem.


Sei lá, esqueci tudo. Não sei como tu decorou essa merda toda. Tu é jornalista. Eu sou burro. Não tem como me mandar por e-mail?

Porra tchê.

Desculpa. Arquivo do Estado, né? Polícia Civil.

Olha...

Gonçalo pondera um pouco do outro lado da linha.

Faz assim, deixa comigo. Eu tenho a manha de falar com essas pessoas. Eu tô atolado apurando essa sujeirada do Detran aqui — aliás, tu viu essa merda? Uma roubalheira do cacete, quarenta e quatro milhões, explodindo na governadora — mas assim que der pra respirar eu vou fazendo umas ligações e tento adiantar alguma coisa pra ti.

(GALERA, 2012)


O trecho é pequeno, mas tem dois pontos que quero chamar atenção. Primeiro: falta de vírgula depois de “porra”. A gramática nos manda escrever assim: “porra, tchê!”. Quem vive aqui no Rio Grande do Sul sabe que a gente fala essa frase em diversos tons e com muita velocidade. Na fala, a vírgula realmente não é percebida. Do jeito que está, sem a exclamação, é porque ele falou rápido e baixo, sem dar ênfase à frase, mais como um resmungo mesmo. Se houvesse a vírgula ali, nós poderíamos ler diferente, com mais pausas.


Lembram que eu disse que o Galera não usa travessões? Pois é, eu estava me referindo aos travessões que ficam antes das falas. O que ele faz nesse último parágrafo é adicionar uma informação extra sem cortar totalmente a narrativa. Cortar as frases assim com travessões é muito comum na literatura norte-americana porque eles usam aspas em suas falas, por isso colocar um travessão no meio não é problema. Para nós, por outro lado, isso pode ser uma complicação. Principalmente em plataformas online, temos o costume de escrever da seguinte forma:



Por causa disso, usar os travessões para cortar nossas falas pode ser confuso. Uma alternativa é usar parênteses (é o que eu faço), ou então escolher uma das outras tantas formas de diálogos que temos: não usar travessão, usar aspas, entre outros. Lembrem-se sempre de fazer o possível para que seu texto seja fácil de ser compreendido. Em plataformas online, como o Inkspired, é comum haver algum tipo de introdução às falas, seja com o travessão ou com as aspas. Você sempre pode escolher não utilizar nada, é claro, mas lembre-se de que nem todos os leitores saberão como acompanhar seu texto sem se perder.


Como nós já falamos: não existe certo ou errado, o que podemos fazer aqui é apontar o que os escritores costumam fazer. Enfim, é isso. O que você precisa saber é que é possível fazer de mais de um jeito e escolher o que se encaixa melhor na sua realidade, lembrando que existem autores que não concordam com o grau de flexibilidade que a Karimy concorda, menos ainda com o meu, por acreditarem que a norma da língua deve ser seguida ao pé da letra.


E nunca esqueça de contexto! Leia os textos sobre Ambientação e Criação de personagens, porque tudo aquilo também influencia como você vai construir seus diálogos. E agora devolvo vocês às mãos mais do que capazes da Karimy, que vai continuar falando sobre as outras possibilidades que existem na nossa língua.


Tipos de diálogo


Tudo explicadinho com perfeição pela Camy. Incrível saber um pouco mais sobre tudo isso, não é mesmo? Mas agora vamos nos aprofundar em outro aspecto dos diálogos. Pelo exemplo dado acima pela Camy, vocês já puderam ver falas sem marcação. Vejam agora as demais alternativas, lembrando que existem várias formas de diálogo, mas mostrarei as cinco mais conhecidas para vocês.


1. Diálogo direto

2. Diálogo entrecruzado

3. Diálogo interno

4. Diálogo interno dramático

5. Diálogo sem sinais gráficos


1. O diálogo direto é aquele marcado por aspas ou travessão. Os constituintes de um diálogo são os discursos e os incisos. Observe:



Quando escrevemos um diálogo assim, usamos verbos de elocução dicendi, sentiendi ou declarandi no inciso do autor. Existem vários desses verbos, mas o querido “disse” é o mais utilizado, assim como o mais simples e importante. É legal que você entenda que, em uma narrativa, o simples é algo muito bom. O ser contemporâneo é fragmentado, cheio de coisas na cabeça, ele quer simplicidade. Inventar coisas estranhas para usar no lugar desse “disse” pode ser arriscado.


Também não é muito bacana colocar incisos em todas as falas. Eles devem ser bem colocados, aparecendo apenas quando necessário, ou fica cansativo para o leitor. Antigamente, usava-se o inciso em todas as falas porque as leituras eram feitas depois do jantar e a pessoa que lia o fazia em voz alta para os demais que estivessem presentes. Não é mais assim hoje, definitivamente.


— Você tem mesmo certeza? — perguntou ela. — Eu nem sei o seu nome.

— Eu sou India — respondi. — Como o país ou a tinta India, mas a maioria das pessoas me chama de Imp. Portanto, você pode me chamar de Imp ou de India. Qualquer um deles está bom.

— Ok, Imp. Bem, é muita bondade sua. Prometo que vou tirar tudo do seu caminho no máximo amanhã à noite. E meu nome é Abalyn, que é como todo mundo me chama. Só não me chame de Abby. Odeio.

— Ok, Abalyn. Espere aqui. Volto daqui a pouco.

(KIERNAN, 2015)


Você vê os incisos no início da fala, mas depois eles não são mais necessários.


2. Gustave Flaubert foi o responsável pela criação de outro tipo de diálogo, o diálogo entrecruzado, que permite que as vozes se tornem mais livres nas narrações, sem apoio de incisos enormes, criando personagens com estilo. Veja a utilização desse recurso em Madame Bovary, em que a voz do conselheiro é ouvida entre as vozes de Emma e Rodolphe, em uma cena que se passa na Câmara:


— E alguma vez ela se encontra? — perguntou Emma.

— Sim, um dia encontra-se — respondeu ele.

"E foi isso que vós compreendestes", dizia o conselheiro. "Vós, agricultores e trabalhadores dos campos; vós, pacíficos pioneiros de toda uma obra de civilização! Vós, homens de progresso e de moralidade! Vós compreendestes, dizia eu, que as tempestades políticas são ainda mais temíveis, na realidade, do que as desordens da atmosfera..."

— Encontra-se um dia — repetiu Rodolphe —, um dia, de repente e quando já não se tem esperança. Então abrem-se os horizontes, é como que uma voz que grita: "Aí está ela!" Sente-se necessidade de fazer àquela pessoa a confidência da nossa vida, dar-lhe tudo, sacrificar-Lhe tudo! Não há que dar explicações, tudo se adivinha. Já nos conhecíamos nos nossos sonhos. (E olhava para ela.) Enfim, está ali o tesouro que tanto procurávamos, ali, diante de nós; ele brilha, resplandece. No entanto, ainda duvidamos, não temos coragem para acreditar; ficamos deslumbrados, como se tivéssemos saído da escuridão para a plena luz.

E, a rematar estas palavras, Rodolphe acrescentou a pantomina à sua frase. Passou a mão pelo rosto, como quem se sente atordoado; depois deixou-a cair sobre a de Emma. Esta retirou a sua. Mas o conselheiro continuava a leitura do discurso:

"E quem poderia admirar-se de que assim acontecesse, meus senhores? Unicamente quem fosse suficientemente cego, suficientemente mergulhado (não receio dizê-lo), suficientemente mergulhado nos preconceitos de uma outra época, para desconhecer ainda o espírito das populações agrícolas. Onde, efectivamente, se poderá encontrar mais patriotismo do que nos campos, mais dedicação à causa pública, numa palavra, mais inteligência? E não me quero referir, meus senhores, àquela inteligência superficial, vão ornamento dos espíritos ociosos, mas antes a essa inteligência profunda e moderada que se dedica, acima de tudo, a alcançar objectivos úteis, contribuindo assim para o bem de cada indivíduo, para o melhoramento comum e para a protecção dos Estados, fruto do respeito pelas leis e da prática dos deveres..."

— Ainda mais esta! — disse Rodolphe. — Sempre os deveres, estou cansado de ouvir aquelas palavras. São uma data de velhos caturras de colete de flanela e de beatas de escalfeta e rosário na mão, repetindo-nos sempre a mesma cantilena aos ouvidos: "O dever! O dever!" Caramba! O dever é sentir aquilo que é grande, amar o que é belo e não aceitar todas as convenções da sociedade, com as ignomínias que ela nos impõe.

— No entanto..., no entanto... — objectava a senhora Bovary.

— Oh, não! Porque se há-de declamar contra as paixões? Não são elas a única coisa bela que existe na Terra, a fonte do heroísmo, do entusiasmo, da poesia, da música, das artes, enfim, de tudo?

— Mas é necessário — disse Emma — seguir um pouco a opinião da sociedade e obedecer à sua moral.

— Ah!, mas é que existem duas — replicou ele. — a mesquinha, a convencional, a dos homens, a que varia constantemente e berra tão alto que se agita no chão, terra a terra, como esta assembleia de imbecis que está a ver. Mas a outra, a eterna, essa circunda tudo e está acima de tudo, como a paisagem que nos rodeia e o céu que nos ilumina.

(FLAUBERT, 2003)


E o diálogo continua dessa forma por um bom tempo, mostrando toda a confusão na cabeça de Emma, a situação que a rodeia e as palavras débeis de Rodolphe.


3. Depois, temos o diálogo interno, mas que não deve ser considerado o mesmo que um monólogo. O monólogo é quando o personagem está pensando consigo mesmo, enquanto, no diálogo interno, existe mais de uma voz. Observe um exemplo tirado do livro Ana-não, em que Algustin Goméz faz isso de uma forma linda e sem nenhuma marcação:


Isso quer dizer que a senhora não está com pressa. Pode permitir-se um dia de atraso na viagem. Seu filho não correrá o risco de partir sem avisá-la.

Um dia de atraso?

Estamos preparando uma festa, minha cara senhora. Uma espécie de festa nacional, uma adesão maciça aos interesses da pátria, que são os nossos. Viagem e alimentação pagas. Mais uma achega de duzentas pesetas, em dinheiro miúdo, se prefere, para não lesar os trabalhadores. A pátria e os trabalhadores, para nós, são a mesma coisa.

(GOMÉZ, 2006)


4. O diálogo interno dramático tem, realmente, uma função de conflito psicológico. Ele pode ser apresentado com aspas ou itálico, além de poder vir carregado com sinais gráficos para aumentar ainda mais seu caráter dramático. A escolha de como fazê-lo deve ser muito cuidadosa, porque esse tipo de diálogo pesa muito em uma narrativa. Você pode ver isso sendo usado entre parêntesis em Carrie, a Estranha, de Stephen King:


Carrie engoliu tentando desobstruir a garganta, mas só o (não tenho medo; que nada tenho sim) conseguiu parcialmente.

(KING, 2013)


5. Os diálogos sem sinais gráficos são aqueles que não possuem marcador — travessão ou aspas. O autor apenas coloca o discurso e depois o inciso precedido de vírgula. Daniel Galera costuma fazer isso, como vemos a seguir:


Senta aí, diz o pai, acenando com a cabeça para o sofá branco de dois lugares, imitação de couro.

É início de fevereiro e, independente do que alegam os termômetros, a sensação térmica em Porto Alegre e arredores está acima dos quarenta graus. Ao chegar viu que os dois ipês que montam guarda em frente à casa estavam carregados de folhas e padeciam no ar parado. Na última vez em que esteve aqui, ainda na primavera, suas copas floridas de roxo e amarelo tremiam no vento frio. Ainda dentro do carro passou pela parreira cultivada à esquerda da casa e avistou numerosos cachos de uvas miúdas. Dava para imaginá-las transpirando açúcar após meses de seca e calor. O sítio não tinha mudado nada nesses poucos meses, nunca mudava, um retângulo plano tomado de capim à beira da estrada de terra, com o campinho de futebol jamais utilizado entregue ao desleixo habitual, os latidos irritantes do outro cão na rua, a porta da casa aberta.

Cadê a caminhonete?

Vendi.

Por que tem um revólver na mesinha?

É uma pistola.

Por que tem uma pistola na mesinha?

(GALERA, 2012)


Vamos agora dar uma olhadinha em um outro aspecto do diálogo e, para isso, viajaremos no tempo! Iremos para 1950 quando Enry Green, em sua apresentação na rádio BBC, sobre diálogo na literatura, falou sobre a presença vulgar dos advérbios no inciso do autor.



Green diz que essa explicação mata a “vida”.


Quando conversamos com alguém, é difícil acertamos com certeza o que uma pessoa sente ao dizer algo. Na narrativa não é muito diferente, principalmente se o ponto de vista dela não for o daquele personagem com inciso enfeitado com advérbio.


Em vez disso, podemos recorrer às expressões dos personagens, ao tom de voz, à maneira como a fala foi dita e até mesmo à escolha de palavras que foi feita pelo locutor.


Como tudo apresentado até aqui para você, isso não é uma regra geral; existe um lugar para tudo em uma narrativa. Você só precisa saber o que está fazendo e fazê-lo com cuidado. Escrever um diálogo requer delicadeza, principalmente em situações de grande impacto. Através dos diálogos, podemos mostrar muita coisa para o leitor, inclusive grau de escolaridade, jeito de pensar e até se o personagem é introvertido ou extrovertido.


Algumas vezes, a grande jogada em uma narrativa é esconder o diálogo. Isso pode acontecer por vários motivos. Basta você analisar bem a situação e decidir o que deve ser mostrado e o que deve ficar oculto ao leitor. A ocultação pode acontecer quando o personagem estiver em uma situação de constrangimento, quando for um diálogo que nada acrescentará à história, um diálogo que ocorre em um momento impróprio ou em que o personagem está sob algum tipo de pressão. Algumas outras vezes, podemos apenas suprimir uma parte do diálogo, colocando o pensamento do personagem ou a narração no lugar. A escolha do que será melhor dependerá apenas do que você quer passar para seu leitor. Veja um exemplo tirado dos primeiros parágrafos do livro A Cidade e as Serras, de Eça de Queirós:


O meu amigo Jacinto nasceu num palácio, com cento e nove contos de renda em terras de semeadura, de vinhedo, de cortiça e de olival. No Alentejo, pela Estremadura, através das duas Beiras, densas sebes ondulando pôr e vale, muros altos de boa pedra, ribeiras, estradas, delimitavam os campos desta velha família agrícola que já entulhava o grão e plantava cepa em tempos de el-rei d.Dinis. A sua Quinta e casa senhorial de Tormes, no Baixo douro, cobriam uma serra. Entre o Tua e o Tinhela, pôr cinco fartas léguas, todo o torrão lhe pagava foro. E cerrados pinheirais seus negrejavam desde

Arga até ao mar de âncora. Mas o palácio onde Jacinto nascera, e onde sempre habitara, era em Paris, nos Campos Elísios, nº.202. Seu avô, aquele gordíssimo e riquíssimo Jacinto a quem chamavam em Lisboa o D.Galião, descendo uma tarde pela travessa da Trabuqueta, rente dum muro de quintal que uma parreira toldava, escorregou numa casca de laranja e desabou no lajedo. Da portinha da horta saía nesse momento um homem moreno, escanhoado, de grosso casaco de baetão verde e botas altas de picador, que, galhofando e com uma força fácil, levantou o enorme Jacinto – até lhe apanhou a bengala de castão de ouro que rolara para o lixo. Depois, demorando nele os olhos pestanudos e pretos:

— Ó Jacinto Galião, que andas tu aqui, a estas horas, a rebolar pelas pedras?

E Jacinto, aturdido e deslumbrado, reconheceu o sr. Infante D. Miguel!

(QUEIRÓS, 2010)


D. Galião se encontra de forma vergonhosa com D. Miguel e fica “aturdido e deslumbrado” ao notar quem foi que o ajudou. D. Galião respondeu D. Miguel? Claro que sim! Mas na narrativa não mostra isso. Por quê? Simples: D. Galião estava tão embaraçado por ter encontrado o príncipe D. Miguel (que foi exilado e, por conta do exílio do príncipe, o próprio D. Galião decidiu se mudar para Paris), de tanto que o admirava, que a resposta direta de D. Galião foi omitida.


Por conta do constrangimento de ter encontrado seu príncipe depois de escorregar em uma casca de laranja, e também por outros motivos que podem ser notados pelo caráter da obra, a resposta de D. Galião não aparece.


Naturalidade no diálogo em português brasileiro


Mudando um pouco de assunto: você já percebeu como nós, brasileiros, nos portamos durante uma conversa?


Escrevi nós, brasileiros, porque estas características que mostrarei são muito fortes e até assustam alguns estrangeiros: falar ao mesmo tempo que outra pessoa; mudar de assunto quando sequer encerramos o anterior, até mesmo deixando questões sem respostas; interromper a fala de outra pessoa.


É válido salientar que esse tipo de coisa costuma acontecer quando pessoas mais íntimas estão conversando, mas também acontece com pessoas que estão tendo seu primeiro contato. Temos um exemplo disso muito conhecido na televisão brasileira, o apresentador Fausto Silva. Ele não é o único; por ser uma figura pública, porém, é mais visado. E existe também aquele momento em que sequer prestamos atenção no que uma pessoa diz.


Essa marca de diálogo nacional é pouco explorada, mas, se usada de forma inteligente, pode trazer muitos benefícios, principalmente quando consideramos o fato de que, quando uma pessoa conversa com outra, ela também tenta passar toda uma carga emocional, além de uma boa impressão para seu interlocutor.


Já aconteceu de você estar conversando com uma pessoa e ela lhe responder pronunciando uma palavra errada ou usando uma inexistente na tentativa de lhe impressionar? Não? Poxa, comigo acontece!


Isso tudo pode até parecer besteira, mas essas “besteiras” podem criar um grande significado de sentido dentro de uma narrativa, principalmente se seu personagem for brasileiro, porque haverá maior identificação. Isso nos remete ao texto sobre ambientação. Lembra-se dele? Pois é! Usar a ambientação junto do diálogo pode ser uma boa jogada. Veja um exemplo disso em Missfanfic, um romance original que escrevi. Quando o Ian está conversando sobre a Carla (a personagem principal que provocou curiosidades no Ian, um escritor) com seu agente e amigo, Willian. A primeira fala é do agente:


— Ah, estou entendendo. Mas me disse que nem sabia o nome dela.

— Não sabia, até encontrar com ela no grupo de escrita do Flávio.

— Ah, cara, mentira?!

— É sério. Ela é gostosa demais. Parece até um anjinho pecaminoso com aquela pele cor de bronze que tem!

Willian riu.

— Eu sabia! Investe nela. Mas nada de compromisso, não cai nessa de novo. Acabou de sair de um relacionamento traumático e não vai ser nada legal se envolver com alguém.

— É! Mas tem um problema.

— Qual? — questionou o agente, tirando o celular do bolso do terno e começando a responder uma mensagem com um sorriso de orelha a orelha. Ele era um negro com olhos mel, sempre de roupa social, bem-arrumado, e tinha um porte confiante que a maioria dos homens não conseguia conquistar, o que atraía muitas mulheres para perto.

— Parece que ela gosta de um garoto que também participa do grupo.

Willian ainda escrevia.

— Pode falar, cara, estou te ouvindo.

— Então, ela parece nem me notar. Percebi que fica o tempo todo olhando para esse garoto.

— Hum?!

— Ele se diz amante de literatura! Mas, cara, ela escreve muito melhor do que ele. E o pior é que esconde isso de todo mundo. O único que vê um pouco da escrita dela é o Flávio. Isso me deixa indignado, porque tenho quase certeza de que ela não conta que faz histórias só por causa que o babaquinha não gosta de plataformas de fanfics. Acredita?

— É? — disse Willian, guardando o celular no bolso. — Como é mesmo o nome dele?

— Murilo. E ele é um autor autopublicado.

— E você está se sentindo acanhado por causa dele?

— Não é isso. Que parte do ela gosta dele você não entendeu?

— Ele é só um garoto, Ian. Preste atenção.

(MISSFANFIC)


Viu só o que Willian estava fazendo? Vai me dizer que você nunca ficou no WhatsApp enquanto conversava com alguém pessoalmente?


Isso não quer dizer que o Willian não estava interessado no que o Ian falava, não. Isso só quer dizer que ele possuía outro interesse também, o que fica muito claro no inciso que o descreve e diz que sua aparência e confiança atraíam muitas mulheres.


Perceba que eu não apenas usei uma característica comum de um diálogo como também a ocultação de informações, que acabaram acrescentando ainda mais coisas à situação.


Traduções


Antes de encerrarmos, gostaríamos de fazer uma observação aos nossos escritores bilíngues: é muito comum bolar os diálogos em outra língua (em especial o inglês, que tem um diálogo muito natural na escrita) e os traduzir para o português depois, o que pode ocasionar construções que não soam naturais aos brasileiros; é o que chamamos de tradução literal.


Olhem a tabela:



* como gaúcha (Camy), um “Bem que tu queria" soa melhor ainda, porque nós usamos muito o “tu".

** para não usar outro palavreado, considerando que este ainda é um blog de respeito, usamos “nojento” e “maldito”, mesmo que essas não sejam as traduções literais de “fucking”.


Você possui muitas ferramentas para desenvolver um diálogo em sua narrativa, mas o mais importante de todos é, realmente, a observação. Transformar algo real em palavras pode ser difícil às vezes, mas, quando dá certo, fica algo incrível!


Mil beijos de nós duas a vocês!


Texto: Karimy e Camy

Revisão: Anne Liberton


Referências:

CARRERO, Raimundo. Os segredos da ficção: um guia na arte de escrever narrativas. Agir, 2005.

FLAUBERT, Gustave. Madame Bovary. Porto Alegre: L&PM Editores, 2003.

GALERA, Daniel. Barba ensopada de sangue. São Paulo: Companhia das Letras, 2012.

GARCIA MARQUEZ, Gabriel. O aroma da Goiaba. Dom Quixote, 2005.

GOMÉZ, Algustin. Ana-não. São Bernardo do Campo: Mundo Editorial, 2006.

KIERNAN, Caitlín R. A Menina Submersa: Memórias. Barueri: DarkSide, 2015.

KING, Stephen. Carrie, a Estranha. São Paulo: Suma de Letras, 2013.

QUEIRÓS, Eça de. A Cidade e as Serras. São Paulo: Companhia Editora Nacional, 2010.

SOARES, Jô. As esganadas. São Paulo: Companhia das Letras, 2011.

10 de Abril de 2019 às 00:00 0 Denunciar Insira 1
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