Tecendo Histórias Seguir blog

embaixada-brasileira Inkspired Brasil Era uma vez... mas nem toda história começa assim. Lá estava ele: o computador, aberto no tear de vidas. E a personagem. Estava tudo certo, mas, então, ela viu o autor. Curiosa, seu dedo quase o alcançou, e a roda do tear girou. Foi assim que as coisas se tornaram tênues: um toque e tudo daria errado, outro diferente e daria muito certo! A Bela Adormecida representa a fragilidade dos elementos construtivos da história. Uma história não vem pronta, ela é construída com enredo, sinopse, capítulos... O tear representa essa construção, enquanto que a agulha é o perigo de tudo desandar com sua Bela Adormecida. Nós queremos, neste blog, mostrar a vocês dicas para que consigam tear histórias cada vez mais harmônicas.

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Um pouco sobre Songfic

Olá queridos leitores/autores!


Espero que estejam animados para o tema de hoje!


Mas o que seria uma Songfic? Como saber se a minha história pertence a essa subcategoria? Acalmem-se jovens gafanhotos, irei sanar todas essas dúvidas nesse texto. Então, segue abaixo.


O significado do termo Songfic é bastante fácil de se entender, já que a palavra "Song" significa música, e "Fic" vem de ficção. Sabendo disso, fica bem mais fácil de entender do que vamos falar nesse post.


Ademais é importante frisar que muitas pessoas cometem um pequeno erro ao pensarem que essas histórias só aparecem em fanfics, mas não é bem assim. Pode-se escrever originais usando como mecanismo principal a música.


Songfics são histórias que possuem uma música como tema, e, em muitas vezes, têm a letra dessa determinada música intercalada durante o capítulo. Alguns autores utilizam essa ferramenta para estimular sua inspiração ou até mesmo para ajudar na dramaticidade do texto.


É comum vermos esse gênero em histórias sobre bandas, como é o caso do livro A Wish For Us, da autora Tillie Cole, que utiliza a música como uma ferramenta principal da trama para descrever os sentimentos dos personagens.

Podemos ver isso em um trecho retirado do livro no qual Cromwell canta para Bonnie uma de suas músicas:


"Mas não estava preparada para sua voz. Nunca esperei que o timbre perfeito de sua voz trouxesse vida às minhas palavras.

(...)

Coração frio e solitário, até ouvir sua música,

Sem sinfonia, sem coro, nem todas as notas, apenas uma.

Com uma batida tão alta, você trouxe ritmo à vida,

Com amor tão puro você transformou escuridão em luz."

(...)

— A wish for us


É importante ressaltar que o trecho pode ser da autoria do autor da história, ou de algum cantor já conhecido. Essas duas opções são válidas desde que, no caso de não autoria, os devidos créditos sejam dados nas notas iniciais.


Se agora você já está decidido que a sua história é uma Songfic ou está planejando escrever algo com esse gênero, não se esqueça de colocar “songfic” nas hashtags.


Isso é tudo, pessoal! Espero que as suas dúvidas tenham sido sanadas. Não? Ainda tem alguma dúvida sobre Songfics? Então deixe seu comentário abaixo.


Até mais!


Texto: JuVick

Revisão: Leonardo Aquino


Referência

COLE, Tillie. A Wish for Us. Estados Unidos: Tillie Cole, 2018.

12 de Novembro de 2019 às 23:32 0 Denunciar Insira 1
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Foco Narrativo

Olá, caro leitor!


Tudo bem?


Hoje falaremos sobre alguns dos diferentes tipos de narração que existem e suas características, com o intuito de você poder escolher qual deles se encaixa melhor em seu tipo de narrativa e enredo.


O foco narrativo trata sobre o sentido do texto, a forma na qual ele se apresenta para o leitor, podendo ser em primeira pessoa, terceira pessoa ou ambos.


A narrativa possui uma estrutura já definida: o início da história, o desenrolar dela, os conflitos, o ápice e a finalização. Ela geralmente tem os personagens como base, e eles podem ser antagonistas, protagonistas, secundários, entre outros. De modo geral, os autores tendem a focar a escrita nos atos desses personagens, sendo de grande importância também destacar a época e o lugar em que se passa a história. Isso tudo a gente já viu em ambientação e criação de personagens.


Hoje vamos tratar do foco narrativo, que é o ponto de vista a partir do qual a sua história será contada. Esse recurso é muito importante porque é a partir dele que seus leitores conhecerão o enredo que você bolou.


Existem quatro tipos de narração ou foco narrativo, que se apresentam da seguinte maneira:


● Em primeira pessoa


O narrador é o personagem principal da história, que nos conta tudo o que acontece a partir do seu ponto de vista. É esse personagem que nos transmite os seus sentimentos em relação ao que se sucede ao seu redor, sua visão de mundo, seus ideais e mesmo suas crenças. É importante lembrar que nem sempre narradores em primeira pessoa são confiáveis, porque o que chega ao leitor é a interpretação do fato pelos olhos daquele personagem. Um dos exemplos clássicos de primeira pessoa não confiável é o Bentinho, do livro Dom Casmurro, de Machado de Assis.


Nesse exemplo, o personagem acredita numa traição e repassa isso aos leitores mesmo sem ter nenhuma prova concreta, apenas interpretando olhares e momentos que, se analisados de modo frio, não nos dizem muita coisa.


Outro exemplo que podemos citar é a saga Crepúsculo, na qual Bella narra todos os acontecimentos da história a partir de seu ponto de vista. Ela passa o sentimento de surpresa e admiração por Edward para quem acompanha a narrativa. Para nós, leitores, uma interpretação possível é a de que ela ficou interessada em Edward por conta do jeito misterioso dele. A relação dos dois se baseava no mistério, na sedução, no proibido.


Trazemos a você um pequeno trecho do livro de Mario Prata, Diário de um Magro, no qual o escritor narra em primeira pessoa sua aventura de quinze dias num spa. A história é divertidíssima, suas aventuras e descobertas no local nos fazem pensar e refletir sobre um mundo à parte do que costumamos viver. A leitura é leve e fluida; o autor consegue prender muito bem a atenção do leitor, como vemos a seguir:


“Sei lá por quê, eu sempre achei que toda velhinha era puritana e beata. Coisa da minha infância, colégio de padres, bisavó caduca, não sei.

Pois aqui eu (ia me esquecendo de dizer que aqui também tem mulheres pacientes. Muito pacientes) comecei a conversar com elas. A gente começa contando piadinha de salão, vai ficando amigo, depois parte para uma mais picantes e, de repente, tá uma pornografia que você jamais poderia imaginar.

Como as velhinhas são sacaninhas, gente! Sacaninhas, não. Sacanas mesmo! No melhor sentido que a palavra possa ter. Que velhinho era sacana, eu já sabia. Não existe nada melhor no mundo do que uma sacanagem bem‑feita, pensei outro dia, roubando um palito de cenoura de um paciente que estava no restaurante, ao meu lado.”

— Diário de um magro


● Em segunda pessoa


Neste tipo de narrativa, o narrador é você. N. K. Jemisin fez isso em seu livro A Quinta Estação e venceu alguns prêmios com ele, como o Hugo Awards. Não é tão comum vermos livros escritos assim, porém essa forma de escrever é muitíssimo interessante; pode servir de desafio para quem nunca tentou.


● Em terceira pessoa, com o narrador onisciente


É mais conhecido como narrador-observador. Ele nos descreve os acontecimentos da história, pois possui conhecimento de toda a narrativa, mesmo não participando dela. É comum em histórias que envolvam muitos personagens.


Muitos autores gostam de trabalhar mais de um núcleo nessa narrativa, desenvolvendo ao mesmo tempo os protagonistas e os antagonistas, por exemplo. De forma geral, o narrador sabe o que todos pensam e o que todos sentem, apesar de não se prender à visão de nenhum deles.


● Em terceira pessoa, com narrador focado em um personagem específico


O narrador tem conhecimento sobre todo o desenvolvimento da história, mas foca em um único personagem e explicita os sentimentos dele, sem necessariamente deturpar a realidade a partir dos olhos desse personagem. É muito comum que autores separem os capítulos por personagem a fim de abordar vários pontos de vista em terceira pessoa, ainda que naquele capítulo exprimam os pensamentos de apenas um deles. Um exemplo é As Crônicas de Gelo e Fogo, que usa a terceira pessoa com foco num único personagem a cada capítulo.


Essa narrativa possui alguns elementos básicos que geralmente fazem parte dela: trama (enredo), conflitos, ações, personagens (antagonista, protagonista, coadjuvantes), sentimentos, cidade, região ou país onde se desenvolveu a história, como também a época e o tempo.


Em Harry Potter, por outro lado, o narrador onisciente é focado num único personagem quase a série inteira (com raras exceções), passando apenas a sua visão de mundo e pensamentos.


Quando se escreve um texto ou história, é de extrema importância pré-definir o tipo de foco narrativo que vai ser utilizado, porque é o tom da história que vai guiar o leitor.


Memórias Póstumas de Brás Cubas, por exemplo, tem um narrador em primeira pessoa que conta sua vida inteira. O importante desse narrador é que ele já está morto, então o tom que ele dá à história já pré-define o tipo de texto que será.


E o Vento Levou, por outro lado, tem um narrador onisciente que foca na personagem Scarlett O’Hara na maior parte do tempo, mas existem aquelas informações às quais a própria Scarlett jamais teria acesso, justamente porque só vieram a ser descobertas anos depois. O livro trata sobre uma guerra, apesar de o romance também ser parte essencial da narrativa. É por isso que foi importante a escolha de um narrador em terceira pessoa: porque existem fatos que o leitor precisa conhecer e que a personagem não sabe.


Não recomendamos que o autor misture narrativas ou mesmo intercale primeira pessoa com diferentes personagens. Há quem tenha feito, mas de forma geral isso deixa o texto confuso porque o leitor se acostuma a um ritmo (porque a voz da narrativa sempre impõe um ritmo) e de repente a história muda de tom. É como se outra história surgisse, e isso origina uma quebra que não costuma ser agradável para quem lê (a menos que isso seja seu objetivo, como uma coletânea com 4 personagens relatando o mesmo acontecimento, cada qual em seu ponto de vista, por exemplo). Mas, sem ser em situações específicas, é extremamente incomum que isso aconteça em livros com visibilidade.


Recapitulando o mais importante: histórias em primeira pessoa focam num único personagem, que vai narrar a história a partir seu ponto de vista e experiência; ele não vai saber como os outros personagens se sentem ou o que pretendem fazer. Em segunda pessoa, o leitor é o personagem. Em terceira pessoa, o narrador tem mais liberdade para abordar outros personagens e situações, em especial aquilo que o protagonista não tem como saber.


É importante que o foco narrativo seja definido antes de você começar a escrever sua história, pois por meio dele você dará um sentido ao seu enredo, mostrando ao leitor que tipo de narrativa ele tem em mãos.


Acreditamos que isso seja o mais importante sobre esse assunto. Esperamos ter ajudado e, quaisquer dúvidas, podem deixar nos comentários!


Um abraços a todos e até os próximos!


Texto: Camy e Megawinsone

Revisão: Anne Liberton

22 de Maio de 2019 às 00:00 0 Denunciar Insira 0
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A importância do conflito em uma história

Olá, pessoas! Tudo certo?


Hoje eu, Karimy, estou aqui com a Megawinsone para tratarmos a respeito do conflito dentro de uma história, mas, antes de qualquer coisa, lhe pergunto: você sabe o que é um conflito?


Basicamente, um conflito é uma situação diferente da qual você está acostumado a lidar no seu dia a dia. De modo geral, pode-se dizer que o conflito é uma circunstância difícil que aparece de repente em nossas vidas e nos obriga a tomar decisões que sequer gostaríamos de tomar naquele momento. É quando você quer ou precisa de alguma coisa, mas existe outra lhe impedindo de chegar até seu objetivo. Dentro de um conflito, uma pessoa pode ser obrigada a agir por impulso, porque muitas das vezes ela não tem sequer tempo de pensar, caso contrário a situação pode piorar.


É quando estamos sob pressão que descobrimos e mostramos para as pessoas ao nosso redor quem somos de verdade, pois é diante de um conflito delicado que o nosso verdadeiro eu se revela, não podemos mascará-lo ou escondê-lo.


Em uma história não é diferente. É através dos conflitos que um personagem revela quem realmente é, tanto na maneira de pensar, agir, quanto em todos os outros aspectos que envolvem sua personalidade.


É quando o seu personagem passa por um determinado conflito, de qualquer natureza, que o leitor começa a criar um laço com ele, pois é nesse momento que o leitor tem oportunidade de pensar se, no lugar do personagem, ele teria agido da mesma forma ou se teria feito algo diferente e o motivo de suas decisões. Isso porque temos a capacidade de nos colocarmos no lugar de outros seres.


O conflito é importante numa história, pois é por meio dele que a trama fica mais rica e interessante aos olhos do leitor, que é instigado pela curiosidade a continuar lendo para descobrir o desfecho do conflito apresentado, tornando-o de extrema importância para o enredo.


Mas, Karimy, a vida do meu personagem é de boa e ele não tem problema nenhum. Isso é ruim?


Bom, isso é mesmo um problema, porque não conheço nenhuma história sem conflito (mas conheço algumas em que os conflitos, na minha humilde opinião, não foram bem explorados). Talvez a sua história tenha conflitos e você só não saiba como identificá-los. Veja bem, existem pelo menos quatro níveis de conflito:


O nível físico, pessoal, psicológico e social.


Falarei um pouquinho de cada um.


1. Físico: é quando a história possui um conflito no mundo físico do personagem e ele precisa enfrentar situações como doenças, incapacidades, distância, eventos catastróficos da natureza, dificuldade financeira, monstros de vários tipos etc.


2. Pessoal: normalmente, nesse nível, o personagem precisa enfrentar um rival, que algumas vezes nem é mesmo o antagonista da história, mas, para o personagem principal, aquela pessoa está sendo um obstáculo em determinado momento e por isso “luta” contra ela, deseja vencê-la. Pode ser dois caras disputando uma mesma mulher, duas mulheres disputando uma vaga de emprego importante, pode ser um lutador tentando chegar ao topo, mas que para isso terá que enfrentar o atual dono do cinturão, enfim.


3. Psicológico: é quando o grande problema está dentro do personagem. São conflitos internos que, muitas vezes, ninguém do ciclo familiar ou social desse personagem sabe, apenas ele. Aqui encaixam-se os mais variados sentimentos e pensamentos do personagem sobre ele mesmo, sobre os outros e até sobre o mundo em que está inserido.


4. Social: nesse nível, o protagonista pode ter de enfrentar situações impostas pelo governo, por uma comunidade, pela religião, empresas, economia etc. Pode ser, por exemplo, uma pessoa inserida em uma religião, mas que não crê nesses ensinamentos como as demais pessoas à sua volta. Pode ser, também, uma luta pela modificação política na sociedade, como a luta para derrubar um tirano, um rei, um ditador, por exemplo.


Viu que existem vários tipos de conflito? Alguns conflitos são profundos e exigem muito do autor e também do leitor, mas alguns outros conflitos, como muitos apresentados em contos, exibem conflitos enfrentados nos nosso dia a dia, o que acaba agradando muito pela sua fácil identificação.


Agora que você já sabe o que é um conflito e quais são os diferentes tipos de conflitos de uma história, deixarei vocês em boas mãos. Tenho certeza de que a Megawinsone tem coisas incríveis para compartilhar!


Assim como a Karimy, gostaria de falar a respeito da importância do conflito numa história. Preparado? Então vamos lá!


Podemos definir como conflito tudo aquilo que gera desconforto a uma pessoa, que instigue nela uma ação esperada ou inesperada; esse conflito pode ser tanto psicológico como de ordem material.


O que seria de uma história sem um bom conflito? Acredito que não teria graça nenhuma e seria monótona, ninguém gosta de ler algo previsível e que segue uma linha em que só coisas boas acontecem e nenhuma reviravolta aparece. Um bom conflito marca uma história, deixando-a mais interessante, e incentiva o leitor a ler, por conta da curiosidade e interesse despertado nele; o seu enredo somente enriquece com vários conflitos e dramas.


Um conflito bem-feito é a chave para o sucesso de uma história, e você pode perceber que geralmente existem vários conflitos acontecendo ao mesmo tempo numa narrativa, eles também precisam ser bem trabalhados e desenvolvidos durante a narração.


Por exemplo, na trilogia Os Senhores dos Anéis, podemos ver nítido um conflito psicológico na hora de Frodo jogar o anel na lava para destruí-lo, quando o lado racional de Frodo gritava que era para destruir o anel, a cobiça e o lado sombrio que o anel despertava naqueles que lhe possuíam faziaFrodo hesitar em destruí-lo; nesse momento o personagem viveu um conflito interno, que lhe custou quase a vida, pois Smegal atacou Frodo para roubar o anel.


Outro conflito que posso citar é o de cunho pessoal, quando Gandolf chega para pedir ajuda a seu amigo Saruman e descobre que ele está do lado do inimigo. Nessa hora, Gandolf teve um conflito com o então ex-companheiro, que quis matá-lo, isso o fez agir de forma inesperada a algo que ele não esperava que acontecesse.


Em Harry Potter, notamos um conflito social quando a família Malfoy menospreza a família Wesley por eles serem mais pobres; na trama existem alguns trechos de Draco fazendo piadas com Rony ou Lucius com Arthur.


No filme Coragem de Viver, baseado em uma história real, a protagonista Bethany enfrenta um grande problema quando um tubarão arranca o seu braço, na época ela era uma surfista e campeã nesse esporte. Na história, o conflito dela se apresentou na condição física que a acometeu após o ataque do tubarão, depois disso a garota precisou lutar para continuar surfando, contrariando a opinião e o preconceito dos outros que achavam que ela deveria abandonar o surf, porque não conseguiria mais surfar com um braço só. Ela, porém, com determinação e dedicação, mostrou que a sua condição física não a impedia de continuar a fazer o que tanto gostava.


Além disso, no desenvolvimento de uma história, não é necessário apenas um conflito, a não ser que seja um conto. O que geralmente acontece é ter um objetivo principal e pequenos obstáculos até ele. Voltando com o exemplo de Harry Potter, todos os sete livros giram em torno de “vencer o mal”, derrotar Voldemort e instaurar a paz no mundo bruxo; esse é o conflito principal do garoto que sobreviveu. Contudo, em cada livro acontece um conflito diferente, como degraus de uma escada, percorrendo todo o caminho até chegar à “grande batalha”. Em uma única história pode estar inserido mais de um conflito, sendo que um alimenta o outro. Um outro exemplo, também citado no texto: uma mulher disputando uma promoção no trabalho com outra pessoa. Esse seria o conflito principal, mas no decorrer da história pequenos conflitos darão força a ele, como, por exemplo, o carro dela quebrar a caminho de uma reunião. É um novo conflito que a personagem precisa enfrentar e que afeta diretamente o principal.


Então, o conflito se mostra dessa forma, dividido em vários tipos como a Karimy explicou anteriormente e como nos exemplos que ilustrei logo acima. Você entendeu o que é um conflito? Ficou claro? Qualquer dúvida pode deixar seu comentário, que o responderemos.


Texto: Karimy e Megawinsone

Revisão: Byun_Re

8 de Maio de 2019 às 00:00 0 Denunciar Insira 1
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Descrições e “On”, “Off”, “Pov” e “Flashback”

Olá, pessoas! Tudo certo?


Agora que você já sabe um pouco sobre a ambientação, não podia deixar a descrição de fora da nossa linha de coisas a serem vistas. Muitos escritores abrem mão da descrição, tanto de cenários quanto de personagens; como exemplo, posso citar um livro maravilhoso, do autor Heinrich von Kleist, chamado A Marquesa de O. Nesse livro, para se ter uma ideia, temos o nome de apenas um personagem, os demais são citados através de títulos e características; ainda assim, é um livro maravilhoso.


Diante disso, vem a pergunta: a descrição é necessária?


Para responder, terei uma ajudinha:


“Quanto ao trabalho da encenação, a arte do cenógrafo tem mais importância que a do poeta.”

— A Poética de Aristóteles, capítulo VI (Da tragédia e de suas diferentes partes)


Acredito que isso não só responda à questão, como seja também muito explicativo por si só. Ainda assim, esclarecerei os fatos!


O narrador, para a história, é equivalente ao cenógrafo para o teatro. Na literatura nada é desperdiçado, a não ser que seja algo completamente sem utilidade dentro da narrativa; nesses casos, precisamos usar uma “pinça” para fazer a seleção dos fatos que são essenciais para o enredo. Simplificando: se algo está maravilhoso na narração, mas não possui significado algum para a história, não acrescenta nada aos personagens, então pode ser considerado desnecessário; por isso precisamos verificar com cuidado cirúrgico os fatos. Enfim, vamos ao cenário propriamente dito agora.


Existem inúmeras utilidades para um cenário, ele não serve apenas para mostrar o espaço físico onde os personagens se encontram, mas também para modificar situações, linhas de pensamentos. Por exemplo, um personagem que está passando por um momento conturbado pode apresentar um cenário, já antes descrito, de forma confusa, tudo para mostrar seu estado de espírito. O cenário também pode ser usado para desviar a atenção do leitor, por exemplo, em romances policiais. Uma caneta pode estar em um lugar justamente para apontar um fato, uma poltrona pode ter sido movida por algum motivo específico (neste último, vale lembrar a poltrona movimentada no romance policial O assassinato de Roger Acroyd ou no novelo de lã e cortina desaparecidos em E não sobrou nenhum, ambos da autora de Agatha Christie, ou até o gosto de peixe na água de Nicolai em Gravidade da autora Tess Gerristsen). Ainda nesse pensamento, devemos levar em conta todos os cinco sentidos dos personagens. Essa tática de explorar olfato, visão, tato, paladar e audição é chamada de sinestesia.


Para criar um cenário, basta se lembrar de locais por onde esteve e levar em conta que você não apenas vê as coisas, você sente, ouve, cheira. Qual seria o cheiro de uma cena de crime onde um corpo foi encontrado? Todas essas coisas são percepções que transportam o leitor direto para a história, por isso e muito mais é, sim, importante a descrição de cenários em uma história.


Algumas pessoas, talvez por receio de descrever ou por se acharem incapazes, dispõem de fotos como artifício de descrição, disponibilizando-as para os leitores. Esse tipo de descrição não é apenas falso, por sequer estar diretamente inserido na narrativa, como também retira toda a possibilidade de o leitor imaginar certas coisas à sua própria maneira; ou seja, limita a imaginação. O interessante seria usar a foto que você tem do local como base para descrever os elementos da história.


Agora, como essa descrição será feita depende apenas de você, do seu narrador, e do tipo de história que você escreve.


Ah, Karimy, como assim?


Calma! É simples! Se sua história é mais leve, vale pensar em uma descrição suave, até mesmo se valendo do movimento e olhar do personagem (pense em uma câmera — o que seria ponto de vista); agora, se sua história for um pouco mais agressiva, vale jogar uma descrição mais pesada, longa, porque o tipo de história admite isso. Darei a vocês um exemplo de ambos e, para começar, mostrarei uma cena em que Cassie, em a 5ª Onda, de Rick Yancey, mostra sua rotina sendo quebrada e que percebe isso graças ao cenário que já conhecia tão bem.


Assim que passei pela estilhaçada porta frontal do posto, soube que algo estava diferente. Eu não vi nada diferente. A loja parecia exatamente igual à semana anterior, com as mesmas paredes grafitadas, prateleiras reviradas, chão coberto com caixas vazias e fezes de rato secas, caixas arrombados e geladeiras de cerveja saqueadas. Era a mesma confusão nojenta e malcheirosa que eu atravessava a cada semana havia um mês para chegar ao depósito atrás das gôndolas refrigeradas.

— 5ª Onda


A descrição é simples, objetiva, além de não muito abrangente. Isso porque, como disse, a história está mostrando um momento de relativa tensão: ela sabe que tem alguma coisa errada, mas não entende o que possa ser. Além do mais, se você já leu esse livro, sabe que existe um pouco mais desse cenário, só que ele foi intercalado com as impressões e pensamentos da personagem, justamente para não deixar a descrição em primeiro plano: o importante nesse momento é que tem alguma coisa de errado acontecendo, não o cenário que ela já conhece.


Um forte contraste pode ser visto em O senhor dos anéis: A sociedade do anel, de J. R. R. Tolkien; poderia pegar vários exemplos, mas como eu adoro os Hobbits e a paixão pela comida que eles têm, peguei um trechinho que mostra a mesa sendo retirada:


A noite passou lentamente. O sol nasceu. Os hobbits acordaram muito mais tarde. A manhã passou. Pessoas vieram e começaram (por ordem de alguém) a retirar os pavilhões e as mesas e cadeiras, e as colheres e facas e garrafas e pratos, e as lanternas, e os arranjos de flores em caixas, e os restos de papel de bombinhas, e bolsas e luvas e lenços esquecidos, e a comida que não tinha sido consumida (um ítem muito pequeno). Então várias outras pessoas vieram (por ordem de ninguém): Bolseiros e Boffins, e Bolgers, e Túks e outros convidados que moravam ou estavam hospedados em lugares próximos. Por volta do meio-dia, quando até os mais bem alimentados estavam a todo vapor novamente, havia uma grande multidão em Bolsão; não convidada, mas não inesperada.

— Senhor dos anéis: A sociedade do anel


São descrições bastante diferentes, não é mesmo? E, perceba, a descrição poderia ser facilmente substituída por algo como: “...a retirar os pavilhões e tudo o mais que havia lá dentro”, mas isso não aconteceu, porque ali era o lugar da comilança, e os Hobbits ficam de olho na comidinha preciosa deles, inclusive é mostrada a saída dos garfos, dos restos de papel de bombinhas (Hobbits também são bagunceirinhos), a comida que sobrou (que era muito pouca), então você percebe que essas coisas não foram simplesmente escritas, elas foram notadas e depois relatadas. Com certeza tinha mais coisa acontecendo, mas só aquilo que era importante no ponto de vista do narrador que foi mostrado, o que já nos dá pistas sobre quem é o narrador, inclusive.


Olhando um pouco mais para os personagens, a descrição de suas características físicas e vestimentas também são importantes. O critério para a apresentação também é o mesmo. Se sua história é mais leve, também vale uma descrição mais leve, mas se sua história for mais pesada, uma descrição marcante pode ser uma coisa boa, pode preparar o leitor para certas situações e impressões.


Uma Oneshot sobre Game of Thrones que escrevi mostra um pouco dos dois tipos de descrição. Isso porque existem apenas dois personagens centrais, um com um peso enorme na narrativa e outro um pouco mais solto, mais leve, mas mostrarei um de cada vez para que você perceba isso. Primeiro, vamos à apresentação de Daenerys:


Usava uma luva de lã cinza, uma bota de pele de lobo da mesma cor, e sua túnica era tão branca como o gelo que os cercava, cravejada de botões de lápis-lazúli. Usava uma calça de sedareia, também branca, e seus cabelos prateados estavam presos para trás, sem seus sinos. Devia tê-los pedido para Irri. Aqui, de frente ao lago congelado, sentia-se pequena, e os sinos a ajudariam a se lembrar de quem era. Mãe dos dragões.

— O frio que rasteja


A descrição da personagem é mostrada de forma genérica, isso porque ela não é feita em um todo, mostrando, primordialmente, a roupa que usa e seus cabelos. Isso porque resolvi mostrá-la devagar, com suavidade. Depois você verá mais características dela, seus olhos; inclusive, a verá em outra roupa, um tokar. Apesar de ser mãe dos dragões, a personagem é delicada e essa delicadeza está sendo mostrada de várias formas, inclusive na sua descrição.


Ao contrário dela, O Rei da Noite é mostrado de maneira mais brusca, forte, isso porque a presença dele vem acompanhada de todo um peso de insanidade, insensatez, desespero. Veja só como se dá a apresentação dele:


Alto e imponente, um ser surgia. Enquanto as peles dos caminhantes brancos eram congeladas, a dele era o próprio gelo. Olhos em um azul profundo, morto e ao mesmo tempo vivo o suficiente para fazê-la sentir-se pequena. Os passos dele eram silenciosos, lentos, ritmados, fortes. A armadura era gelo em aço polido, reluzindo mesmo sem que o sol o beijasse, bebendo o frio. Em sua cintura, uma espada pendia, em vez de guardada em couro, era mantida por uma espécie de diamante congelado; tudo nele era puro gelo mentiroso, fingindo ser aço e carne. Pequenos chifres brotavam da cabeça dele, apontando para trás. Linhas finas marcavam seu rosto, como se fossem rugas ou cicatrizes de batalha, e os lábios finos e largos eram duros, secos, firmes, e de suas mãos garras negras brotavam de onde deveriam sair as unhas, eram como as garras de Drogon. Mesmo sem uma coroa, ele reinava. Dany tremia.

— O frio que rasteja


A descrição dele não mostra apenas como ele é, mas também como ele anda, perceba: “Os passos dele eram silenciosos, lentos, ritmados, fortes”. A falta da conjunção “e” antes de “fortes” é justamente para marcar o ritmo do caminhar dele, leia em voz alta, isso sempre ajuda a perceber a sonoridade da escrita. A aparição também é mostrada através da confusão que a aparência toda dele causa, confundindo carne com gelo, aço com gelo, mentira com verdade. No seu todo, mostra não apenas como ele é, mas o que sua presença causa.


Perceba que a construção da descrição dos dois é feita usando comparações (“branco como gelo”) e a fusão de elementos (“era gelo em aço polido”). Veja também que para apresentar ambos os personagens não foram utilizados adjetivos desnecessários.


Se você não conhece os adjetivos e as conjunções, recomendo que dê um pulinho nas aulinhas do blog Esquadrão da Revisão. A gramática é muito, muito importante para um escritor.


É muito difícil casos em que utilizo adjetivos para descrever personagens ou cenários, isso porque cada um tem um modo de perceber as coisas, então o que pode ser lindo para uma pessoa pode ser feio para outra, pense em uma descrição assim:


Os olhos dele eram lindos, a boca, perfeita. Seu corpo era como a visão do céu. Ah, e o sorriso, o sorriso era simplesmente magnífico, nunca vi nada parecido em toda minha vida. Então, decidi, era com ele que deveria me casar.

— Situação hipotética


Acredite, descrições desse tipo são bastante comuns. Acontece que, pense bem; “Os olhos dele eram lindos”: algumas pessoas acham olhos verdes bonitos, outras preferem negros, e assim por diante. Algumas pessoas possuem os olhos grandes, outras, estreitos, pequenos. Existem pessoas de olhos puxados, caídos, olhos mais juntos, olhos separados, olhos estrábicos, enfim, uma infinitude de possibilidades e, da mesma forma que essa lista é grande, também é grande a lista de gostos pessoais, que se diferem de pessoa para pessoa. Tem gente que acha um tipo de olho mais bonito do que o outro: a pessoa interpretará, portanto, seu personagem de acordo com o gosto dela ao ler isso ou simplesmente não interpretará de forma alguma.


A mesma coisa com a boca, o corpo e o sorriso. Não adianta adjetivar seu texto do início ao fim. Se você não der uma visão clara daquilo que mostrará, teremos apenas impressões, mas nunca, de fato, saberemos como os personagens são ou o cenário é.


Uma escritora que tem descrições limpas é a J. K. Rowling. Confira a descrição de Hagrid e Rony, respectivamente, no primeiro livro da saga Harry Potter:


Um homem gigantesco estava parado ao portal. Tinha o rosto completamente oculto por uma juba muito peluda e uma barba selvagem e desgrenhada, mas dava para se ver seus olhos, luzindo como besouros negros debaixo de todo aquele cabelo.

(...)

Ela apontou o último filho, o mais moço. Era alto, magro e desengonçado, com sardas, mãos e pés grandes e um nariz comprido.

— Harry Potter e a Pedra Filosofal


Como já foi dito, alguns escritores possuem um pouco de dificuldade para fazer a transição de um ponto de vista para outro e mostrar situações que ocorreram em diferentes momentos da narrativa, a digressão. Entendo. São coisas que realmente exigem bastante atenção e trabalho, mas depois de um tempo, podem ser feitas de forma natural.


Para ajudá-lo um pouquinho com relação a esse assunto, você verá agora sobre “On”, “Off”, “Pov” e “Flashback” em uma história.


Começo essa parte com uma declaração pessoal: deixei de ler muitas histórias por causa dessas marcações, principalmente quando comecei a ler fanfictions. Motivo: é confuso, eu me sentia um peixe fora d’água!


Além dessa revelação pessoal, os recursos “On”, “Off”, “Pov” são usados em situações óbvias e são claramente desnecessários. Quando o personagem está pensando, não precisa colocar “pensamento on” para dizer que aquele é o pensamento, nem mesmo “pensamento off” para marcar o fim da reflexão. Isso pode ser dito de forma muito mais simples e limpa usando aspas, itálico, travessão, e pode até ser introduzido sem nenhuma marcação, se sua história for em terceira pessoa.


Quando mais de um personagem narra a história, alguns autores também utilizam esse recurso, além do “Pov”, quando poderiam apenas transferir a visão de um personagem para o outro com suavidade, se em terceira pessoa. Agora, se a história for em primeira pessoa, você pode fazer um capítulo para cada personagem ou quando um personagem terminar e outro começar, fazer um “subtítulo” com o nome do personagem que narrará em seguida. Não há muito mistério, tira toda a poluição da história e ainda deixa a narrativa mais fluida.


Para exemplificar, mostrarei a passagem em que Richie, personagem do livro It, A Coisa, de Stephen King, está no cinema com Beverly e Ben. O parágrafo começa com Richie e isso fica ainda mais claro porque é ele quem chama o Ben de “Monte de Feno”, mas depois a narrativa passa para o ponto de vista de Ben e isso é muito nítido, pois a introdução é feita pelo esquecimento do Ben.


Ben ficou muito calado durante a sessão. O velho Monte de Feno quase tinha sido visto por Henry, Arroto e Victor mais cedo, e Richie supôs que era isso que o perturbava. Mas Ben já tinha esquecido os calhordas (eles estavam sentados perto da tela no andar de baixo, jogando caixas de pipoca uns nos outros e gritando). Beverly era o motivo do silêncio dele. A proximidade dela era algo tão intenso que ele quase estava se sentindo mal. Seu corpo ficava todo arrepiado e, se ela ao menos se mexesse na cadeira, sua pele ficava quente, como se com febre. Quando a mão dela roçou nele à procura de pipoca, ele tremeu de exultação. Depois, pensou que aquelas três horas no escuro ao lado de Beverly foram as mais longas e mais curtas de sua vida.

— It, A Coisa


A situação, além de ter mostrado que o Ben não estava mais preocupado com os “valentões”, ainda deixa bem claro o quanto o sentimento dele pela Beverly é intenso, mesmo que para uma criança. Imagine se tivesse usado “Pov” ou “On”, “Off” na narrativa! Ele teria não apenas desacelerado os acontecimentos, causando uma grande interrupção no ritmo, como também teria “matado” a narração e o clima criado por ela.


Ainda nesse caso, existe “Narrador on/off”, “Pov narrador”: misturar primeira com terceira pessoa em um só capítulo não é nada bacana, além de causar uma confusão de “vozes”. Se você quiser usar dois narradores diferentes, três, quatro, você pode simplesmente usá-los em capítulos diferentes. Na minha fanfiction Grãos de areia, uso esse recurso: um personagem é marcado pela narração em primeira pessoa, enquanto outro é marcado pela terceira pessoa, cada um em um capítulo. Você também poderá ver esse recurso sendo usado em alguns livros, como em Questões do coração, da autora Emily Giffin.


O caso do flashback também traz alguns problemas, porque ele não é necessário em uma história. Em alguns casos, o uso dele pode ser justificado, como em histórias cômicas, quando um personagem arregala os olhos, abre a boca, fica tenso e... flashback! Podemos ver muito isso em filmes de comédia, mas em narrativas mais sérias, em romances, isso já não é legal justamente porque, assim como os “Pov”, quebra o ritmo da história.


Se você quer mostrar o sonho do personagem, não precisa dizer que ele sonhou, que foi um pesadelo, que foi um sonho bom e depois enfiar um “flashback” no meio da história. Ou, em alguns casos, um “flashback on/off”. Para não o deixar sem exemplo, mostrarei a você uma das inúmeras construções que retratam um sonho em Guerra dos tronos, da saga As crônicas de gelo e fogo, de George R. R. Martin:


Não demorou e Bran adormeceu. No sonho estava de novo escalando, alçando-se para o alto numa velha torre sem janelas, forçando os dedos entre pedras enegrecidas, com os pés lutando por um ponto de apoio. Escalou mais alto, e mais alto ainda, atravessando as nuvens e penetrando no céu noturno, mas a torre continuava a erguer-se à sua frente. Quando fez uma pausa para olhar para baixo, sentiu a cabeça girar, entontecida, e seus dedos escorregarem. Bran gritou e agarrou-se à vida. A terra estava a mil milhas de seus pés, e ele não sabia voar. Não sabia voar. Esperou até que o coração parasse de saltar no peito, até poder respirar, e recomeçou a escalada. Não havia caminho que não fosse para cima. Bem alto, delineadas contra uma lua esbranquiçada, parecia poder ver formas de gárgulas. Tinha os braços machucados, doendo, mas não se atrevia a descansar. Forçou-se a subir mais depressa. As gárgulas o observaram. Seus olhos brilhavam vermelhos como carvões quentes num braseiro. Talvez tivessem sido leões antes, mas agora estavam retorcidas e grotescas. Bran conseguia ouvi-las segredarem umas às outras em suaves vozes de pedra, terríveis de ouvir. Não devia ouvir, disse a si mesmo, não devia ouvir; desde que não as ouvisse, estaria a salvo. Mas, quando as gárgulas se libertaram da pedra e percorreram o lado da torre até onde Bran se agarrava, compreendeu que afinal não estava a salvo. “Eu não ouvi”, choramingou, enquanto elas se aproximavam cada vez mais. “Eu não ouvi, não ouvi.” Acordou sem fôlego, perdido na escuridão, e viu uma vasta sombra que se erguia sobre ele.
— Não ouvi — sussurrou, tremendo de medo, mas então a sombra disse “Hodor” e acendeu a vela ao lado da cama, e Bran suspirou de alívio.

— A guerra dos tronos


Como pode ver, o sonho foi introduzido de forma simples: ele estava sonhando, é isso e ponto! Na vida real também é assim, não temos um “flashback”, “Pov”, “On”, “Off” que nos diga que estamos sonhando, falando ao telefone, pensando ou demais coisas. Já escrevi aqui uma vez e volto a repetir: o simples em uma narrativa é algo bom. Agora, se sua intenção for a de provocar uma retirada do leitor dos acontecimentos, mudar um pouco o foco narrativo ou até mesmo introduzir elementos diferentes, em vez de usar algo mais suave para introduzir o sonho ou outra coisa, você pode colocar as letras em itálico ou pôr a referida construção em aspas. Como exemplo disso, temos o livro Alien — surgido das sombras, escrito por Tim Lebbon, em que existem, sim, introduções suaves, mas todas as vezes que a Ripley tem um lapso de memória ou sonha, isso é apresentado não só com o itálico como também com a mudança verbal, que passa de passado para presente. É realmente um puxão no leitor, como se o tirasse de um lugar e o deslocasse instantaneamente para outro. E isso é até simples de ser entendido: é o que a Ripley sente quando alucina com Amanda; é puxada de repente, sem avisos.


Para mostrar uma digressão (um personagem relembrando o passado), você também não precisa do flashback, você pode simplesmente introduzir a regressão na narrativa de forma suave: se for parar para pensar, é assim que nossa mente funciona quando estamos nos lembrando de algo, não pensamos “flashback” e lembramos, o pensamento vem com simplicidade e facilidade, não precisa do susto de uma palavra para que isso aconteça. Machado de Assis, que é um mestre da digressão (as obras dele são baseadas em pura digressão, até porque falar da vida de um morto, por exemplo, exige isso), faz isso em diversos momentos, não só para mostrar o passado, como também para mudar o ritmo da história e interagir com o leitor, que chega a se transformar em um personagem, tamanha é essa interação. Veja, como exemplo, o comecinho de Dom Casmurro, que já começa a história com uma digressão (o primeiro capítulo inteiro é uma digressão):


Uma noite destas, vindo da cidade para o Engenho Novo, encontrei num trem da Central um rapaz aqui do bairro, que eu conheço de vista e de chapéu. Cumprimentou-me, sentou-se ao pé de mim, falou da lua e dos ministros, e acabou recitando-me versos. A viagem era curta, e os versos pode ser que não fossem inteiramente maus. Sucedeu, porém, que, como eu estava cansado, fechei os olhos três ou quatro vezes; tanto bastou para que ele interrompesse a leitura e metesse os versos no bolso.

— Continue, disse eu acordando.

— Já acabei, murmurou ele.

— São muito bonitos.

Vi-lhe fazer um gesto para tirá-los outra vez do bolso, mas não passou do gesto; estava amuado. No dia seguinte entrou a dizer de mim nomes feios, e acabou alcunhando-me Dom Casmurro. Os vizinhos, que não gostam dos meus hábitos reclusos e calados, deram curso à alcunha, que afinal pegou. Nem por isso me zanguei. Contei a anedota aos amigos da cidade, e eles, por graça, chamam-me assim, alguns em bilhetes: "Dom Casmurro, domingo vou jantar com você."—"Vou para Petrópolis, Dom Casmurro; a casa é a mesma da Renania; vê se deixas essa caverna do Engenho Novo, e vai lá passar uns quinze dias comigo."—"Meu caro Dom Casmurro, não cuide que o dispenso do teatro amanhã; venha e dormirá aqui na cidade; dou-lhe camarote, dou-lhe chá, dou-lhe cama; só não lhe dou moça."

Não consultes dicionários. Casmurro não está aqui no sentido que eles lhe dão, mas no que lhe pôs o vulgo de homem calado e metido consigo. Dom veio por ironia, para atribuir-me fumos de fidalgo. Tudo por estar cochilando! Também não achei melhor título para a minha narração — se não tiver outro daqui até ao fim do livro, vai este mesmo. O meu poeta do trem ficará sabendo que não lhe guardo rancor. E com pequeno esforço, sendo o título seu, poderá cuidar que a obra é sua. Há livros que apenas terão isso dos seus autores; alguns nem tanto.

— Dom Casmurro


Perceba: “Uma noite dessas…” É simples, é explicativo e elegante.


As digressões e toda a gama de artifícios que podemos utilizar na construção da história também causam impressões ao leitor sobre sua história e é preciso ter tato para não a poluir. Não tenha medo de descrever os cenários ou os personagens, eles são elementos que trazem vida e realidade para o leitor, são coisas que aproximam sua história dele, que a tornam real.


Espero que o texto tenha sido esclarecedor quanto às questões abordadas, mas não se acanhe se surgir alguma dúvida no meio do caminho, estamos aqui para ajudar você como pudermos.


Beijos!


Texto: Karimy

Revisão: Camy


Referências:

ASSIS, Machado de. Dom Casmurro. São Paulo: Editora Ática, 1996.

MARTIN, George R. R. A guerra dos tronos. Tradução de Jorge Candeias. São Paulo: Leya, 2010.

TOLKIEN, J. R. R. O Senhor dos anéis: A sociedade do anel. São Paulo: Martins Fontes, 2000.

YANCEY, Rick. A 5° Onda. Curitiba: Fundamento, 2013.

24 de Abril de 2019 às 00:00 0 Denunciar Insira 0
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