lara-one Lara One

AVISO: Contém cenas perturbadoras que podem ser chocantes para fãs mais sensíveis. CONTEÚDO ADULTO - VIOLÊNCIA/ SEXO/ DROGAS Um caso de desaparecimento, o telefonema de um morto. Um hotel suspeito, onde as vítimas são homossexuais. E o que era pra ser apenas uma investigação inusitada cercada de brigas e discussões, se torna um pesadelo para Mulder e Krycek. Um jogo de vida ou morte, onde eles precisarão se unir, decifrar enigmas, cumprir ordens e manter uma mentira para sobreviver, enquanto perdem a sanidade mental.


Fanfiction Série/ Doramas/Opéras de savon Interdit aux moins de 21 ans.

#krycek #scully #mulder #crime #ação #suspense #x-files #arquivo-x
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S07#03 - POINT AND CLICK

INTRODUÇÃO AO EPISÓDIO:

Vemos pela câmera. O display mostra: bateria carregada, REC e a hora: 10:41 P.M.

Ambiente na penumbra, iluminado apenas por um abajur azul em forma de ursinho, em cima da mesa, único móvel. Algumas facas e pedaços de cordas. Paredes de concreto.

Gemidos masculinos. Altos. Angustiantes. Gritos de dor e desespero.

Alguém pega a câmera e direciona para o chão, filmando o homem gordo e enorme, que move-se sobre alguém, o penetrando com fúria e força. Vemos o braço masculino sair debaixo dele, movendo os dedos pelo concreto, quase cravando as unhas.

O estuprador estende a mão para trás. Quem segura a câmera entrega um pedaço de corda. Depois um pênis de borracha com arame farpado enrolado nele.

Corte.


Residência dos Willcox - Virginia - 11:13 P.M.

Som da televisão ligada no jogo de basebol.

Na sala, a poltrona vazia em frente a televisão. Paul Willcox, um senhor de seus 70 anos, entra na sala trazendo um pratinho com sanduíche e um copo de suco. Senta-se na poltrona, olhando para o jogo. Coloca o pratinho e o copo sobre a mesa lateral, ao lado do telefone. A esposa dele, Beth, da mesma idade, vestida de robe, entra na sala e o beija na testa.

PAUL: - Já vai dormir, Beth?

BETH: - Já. Amanhã é dia de igreja. Aproveite seu jogo. Boa noite.

Ela sai da sala, arrastando os chinelos. Ele se ajeita na poltrona, assistindo o jogo.

O telefone toca. Paul desvia a atenção do jogo para o telefone e atende.

PAUL: - (AO TELEFONE) Alô?

JULIAN (OFF): - (VOZ CANSADA) Pai?

PAUL: - (AO TELEFONE) Julian, é você, meu filho? Olha, não desliga. Volte pra casa, a gente precisa conversar. Sua mãe está preocupada e...

JULIAN (OFF): - (VOZ CANSADA) Pai... Eu amo você.

PAUL: - (AO TELEFONE) Eu sei, meu filho, eu também amo você. Sou apenas um velho ultrapassado que não entende essas modernidades da sua geração...

JULIAN (OFF): - (VOZ CANSADA) Pai... Me faz justiça?

PAUL: - (AO TELEFONE)Justiça? Como assim, Julian? Onde você está?

JULIAN (OFF): - (VOZ CANSADA) Me faz justiça pai... Me faz justiça... Eu estou morto, me faz justiça.

A ligação cai. Paul entra em desespero.

PAUL: - (AO TELEFONE) Julian? Julian, meu filho, você está aí? Alô? Julian!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!

VINHETA DE ABERTURA: READY TO PLAY?



BLOCO 1:

X-Files Investigations - 8:21 A.M.

O notebook aberto sobre a mesa de centro. Scully, com cinco meses de gravidez, sentada no sofá, afagando a barriga. Mulder sentado ao lado dela, os dois assistindo uma gravação no notebook.

Na tela do notebook vemos: Mulder andando dentro de uma casa escura, segurando a lanterna e iluminando os locais. Baba atrás dele.


FLASH BACK: (em found footage*) (*Gravação que se passa por um documentário filmado com uma simples filmadora. Ex: Bruxa de Blair)

Mulder andando dentro de uma casa escura, segurando a lanterna e iluminando os locais. Baba atrás dele.Eles entram na cozinha. Uma cadeira desliza pelo piso. Mulder mira a lanterna na cadeira. Aproxima-se. Uma das portas do armário se abre, rangendo. Mulder ilumina a porta do armário.

MULDER: - Sente alguma coisa, Baba?

BABA: -(FRUSTRADA) Pra dizer a verdade, nada. Não tem nada aqui, Mulder.

Mulder checa a porta do armário. Ilumina tudo. Percebe um dispositivo. Faz sinal para a câmera.

MULDER: - (DESAPONTADO) Langly, filma isso.

A imagem se concentra no dispositivo oculto na porta. Depois vai pra Mulder, que levanta a cadeira e a vira, analisando os pés.

MULDER: -(DESAPONTADO) Filma isso. Imãs nos pés.

Mulder coloca a cadeira no chão. A imagem vai pra Baba, que morde o dedo, aborrecida.

BABA: - Como qualquer um que não acredita, esse cara pensou que somos uma farsa e poderia nos enganar. Lamentável perder tempo com gente assim, enquanto existem outros que realmente estão precisando de ajuda com fenômenos reais.

MULDER: - Você sempre acerta, Baba. Quando diz que não tem nada, não tem nada mesmo. E você já confirmou isso antes de entrar na casa.

BABA: - Sou sensitiva, Mulder. Mas isso só funciona com espíritos de mortos. Gostaria de sentir isso pra adivinhar a intenção perversa dos vivos. Esses são os piores.

Close em Mulder, que fala com a câmera.

MULDER: -(ABORRECIDO) Eu vou parar a investigação por aqui. Não vou mais perder tempo com pessoas que acham que podem desperdiçá-lo em proveito próprio. Não tem nada paranormal nessa casa. A pessoa que nos contratou quer apenas sair nos jornais e forjou uma falsa assombração pra aparecer na mídia. Infelizmente esse tipo de gente não nos ajuda a compreender os fenômenos verdadeiros e torna a paranormalidade um motivo de piada. Somos profissionais sérios, eu trabalho com os melhores e mais experientes. E como vocês podem ver, não fomos enganados e nem estamos aqui pra enganar ninguém. Sou Fox Mulder, e essa foi a verdade que encontramos hoje. Eu quero acreditar.

Corte.

TEMPO REAL:

Scully abre um sorriso. Bate palmas, assovia, empolgada. Mulder abaixa a tampa do notebook.

SCULLY: - Adorei, Mulder! Barbara vai mandar isso pra televisão?

MULDER: - Vai. Se o amigo dela, o tal Calvin, gostar... Entramos com um programa semanal no canal dele. Com ou sem fenômeno paranormal, a proposta é mostrar a verdade. Não é entretenimento barato, forjado e falso, como a maior parte desses caçadores de fantasmas que estão na moda, onde em todo episódio sempre algo paranormal acontece, como se você pudesse controlar e acertar todas.

SCULLY: - Sabemos que nem sempre conseguimos provar ou presenciar fenômenos. Não depende da gente. Gosto dessa proposta, de mostrar a verdade, mesmo que não seja aquela que as pessoas gostariam. Nem sempre a resposta é o paranormal, algumas vezes é totalmente lógica. É assim numa investigação dessa natureza.

MULDER: - Exato. Não é entretenimento. É investigação real. Gostou mesmo?

SCULLY: - Só não gostei de uma coisa. Você fica bem diante das câmeras, Mulder. Você chama atenção. Vai acabar criando um fã-clube atrás de você, um bando de mulheres histéricas mandando mensagens de amor...

Mulder começa a rir. Dá um beijo nela.

MULDER: - Quando nosso filhote nascer e você estiver pronta, vai fazer parte das investigações. Eu que vou ter que me preocupar com o seu fã-clube, Dana Scully.

SCULLY: - Hum... Não vou contestar você sobre o meu afastamento do trabalho em campo, Mulder. Eu quero curtir essa gravidez também. Na outra, fiquei trancada em casa, com medo de tomarem nossa filha. Estou com medo, admito, mas não vou ficar trancada dessa vez. Vou ficar pertinho de você nesse escritório, vou sair com as amigas pra tomar sorvete e comprar coisinhas para o nosso bebê. Quero uma gravidez normal, Mulder. E vou fazer um chá de fralda. Victoria empolgou com isso!

Mulder se ajoelha e beija a barriga de Scully. Afaga com carinho e recosta o rosto, tentando ouvir alguma coisa.

MULDER: - Como está o nosso moleque hoje? Oi, Campeão! Tá dormindo?

SCULLY: - (SORRI) Acho que está. Preguiçoso feito o pai dele, adora dormir...

MULDER: - (FECHA OS OLHOS) Adoro ficar recostado nessa barriga linda... Tentando descobrir o que ele está fazendo... Scully, eu tô realizado. Mais um pedacinho da gente naquela casa.

SCULLY: - (SORRI) Ele não faz muita coisa, Mulder. Espera ele sair e começar a crescer, aí sim vai ter bastante coisa pra fazer... Não ficou aborrecido porque eu quis saber o sexo, né?

MULDER: - (SORRI) Não. Assim você pode ficar ocupada, decorando um quarto todo em azul, enquanto eu estou fora de casa. Vou montar o berço do garotão hoje à noite.

SCULLY: - Mulder... E o nome? Pensou?

MULDER: - Scully, já falamos sobre isso. Você escolhe. Victoria foi praticamente eu quem escolhi. Mas sabe as condições.

SCULLY: - Sei, sei, nada de júnior, nada do nome do pai dele, dos avôs dele... Mulder, você é chato! Não tenho muitas opções!

MULDER: - Tem várias. E tem tempo pra pensar. Escolhe um nome bonito, mesmo que comum. Mas foge, pelo amor de Deus, dessa sina desagradável batizando esse pobrezinho com nomes repetidos de família. Isso me soa desgraça. Sabe que sou supersticioso e sabe que nunca gostei do meu nome, nunca escondi isso. Dá um nome pra ele do qual ele tenha orgulho e possa dizer em voz alta sem medo de ser ridicularizado quando o professor fizer a chamada ou tiver que se apresentar pra alguém.

SCULLY: -Ok, Fox William Mulder.

Mulder faz cara de pânico.

MULDER: - Tá vendo? Imagina: Ei, qual seu nome garoto? Fox William Mulder Junior. E aí vem a risada: Fox? Seu nome é Fox? E o pobre do meu garoto tendo que dizer: É que a minha mãe não era criativa e queria homenagear o meu pai. Olha, Scully, maior homenagem que você ter outro filho comigo, não existe pra mim! E sabia que o nome da pessoa é a sina dela? Sei que não acredita em numerologia, mas quer uma sina de desgraças pro nosso filho, como a que eu tive? Não, né? Então nada de por meu nome nessa criança. Deixa meu filho ser uma pessoa normal!

SCULLY: - Ok, Mulder! Entendido. (DEBOCHADA) Que tal o nome do meu cantor favorito?

MULDER: - Pensa que vai me causar ciúmes, mulher?

SCULLY: - Sua filha quem sugeriu.

Mulder beija a barriga de Scully e depois dá um selinho nos lábios dela. Se levanta.

MULDER: -É um nome ligado geralmente a pessoas inteligentes, o que não é o caso do seu cantor favorito... Mas Bryan é um nome forte e bonito... Bryan... Bryan Scully-Mulder... Sabe que soou bem? Quebrou totalmente a maldição. Gostei. Nossa filha tem bom gosto.

SCULLY: - Eu não acredito, Fox Mulder! Você não vai fazer cena de ciúmes?

MULDER: - Não. Eu gostei. Meu garoto vai ser inteligente.

SCULLY: - Mulder, não conheço um Bryan que não seja bagunceiro.

MULDER: - Melhor ainda! Tal pai, tal filho!

Scully começa a rir. Sorri apaixonada pra ele.

SCULLY: - Mulder, a gravidez deixa a mulher com um brilho diferente, mas confesso que você também está com um brilho de felicidade que há muito tempo eu não via.

MULDER: - O que você queria, Scully? Vou ser pai pela segunda vez, quando nunca imaginei ter um filho sequer! Eu tenho vontade de sair gritando por aí, mas com minha fama de maluco... Já comprei até os charutos pra distribuir!

SCULLY: - Mulder, meu bobão, você não fuma, nossos amigos não fumam...

MULDER: - Tradição, Scully. Não tive isso na primeira vez, então não me tire o gostinho! (DEBOCHADO) Eu acertei o tiro! Yes!!! Eu acertei e não você!!!

Scully se levanta, abraça-se nele, rindo.

SCULLY: - É, Mulder, você acertou sozinho. Nem precisou da minha experiência como cientista e nem de um potinho...Vou explodir de felicidade, sabia?

MULDER: - Olha, Scully, você tá explodindo, mas é por outra coisa...

SCULLY: - (SORRI) E você é o culpado por isso. Mulder, olha o que você fez comigo!

Mulder sorri bobo, a abraça e a beija nos cabelos.

MULDER: - Minha Scully, mãe dos meus filhos... É, Dana Scully... As coisas entre nós dois vão mudar. Depois do nosso garoto nascer, vamos entrar para os problemas comuns dos casais que a gente nunca teve: usar camisinha ou anticoncepcional. E do jeito que a gente gosta da coisa, descer para o play vai ficar bem perigoso... Gosta de ação e suspense, não é? Bem vinda!

Scully começa a rir.

SCULLY: - Culpe a nossa filha com sua obsessão por sementinhas.

MULDER: - Ela nunca fez travessuras e a única que fez foi a melhor que poderia fazer. Vai buscá-la na escola hoje?

SCULLY: - Não, hoje é o dia da Angela. Estou tão feliz que Victoria fez amigos, que está adorando a escola e que pode se expressar sem ser motivo de chacota. Quando ela comenta algo que não deve, a professora fala com o Serling e ele explica pra ela. Preocupações a menos. Fico tranquila sabendo que nossa filha está em ótimas mãos.

MULDER: - Quero tirar um tempo pra conversar com Serling, mas ainda não deu. Ele deve ter coisas pra contar. Coisas bem interessantes.

Batidas na porta. Baba entra.

BABA: - Tem um senhor aí fora... Está tão nervoso e triste que vou preparar um chá.

MULDER: - Manda entrar.

Mulder ajeita a roupa. Scully se levanta. O velho Paul Willcox entra, amassando sua boina nas mãos.

PAUL: - Detetives? Sou Paul Willcox.

Ele cumprimenta Mulder e Scully.

MULDER: - Sente-se, senhor Willcox. Eu sou Mulder e essa é minha esposa Scully, também detetive.

PAUL: - Encantado, senhora. Vejo que está numa bela fase da vida.

Scully sorri. Mulder senta-se na poltrona. O velho senta-se no sofá na frente dele. Scully senta-se ao lado.

MULDER: - Como nos descobriu? Sempre faço essa pergunta.

PAUL: - Por um artigo sobre o Homem Mariposa, no Washington News, escrito pela Barbara Wallace. Gosto tanto dela que leio qualquer coisa que ela escreva. Li que o senhor é perito nesses assuntos estranhos, tem essa agência e... Senhor Mulder, eu não sou um maluco...

MULDER: - Nem eu, senhor Willcox. Todos aqui estamos em nossos juízos perfeitos.

Baba entra com uma caneca e entrega para o velho.

BABA: - Senhor Willcox, isso vai fazer bem. Chá de camomila quentinho.

PAUL: - Obrigado, senhora. Muito obrigado.

Baba sai. O velho toma um gole, a mão trêmula.

MULDER: - Como podemos ajudá-lo?

PAUL: - ... Eu e minha esposa tivemos três filhos. O mais velho se casou e mora aqui perto. Minha menina também já casou, é mãe de duas meninas lindas e mora no Canadá. Meu filho caçula, Julian... Como vou dizer isso, sem parecer um velho conservador... Eu sou um velho conservador, senhor Mulder. Criei meus filhos homens para serem homens, casarem, terem filhos, mas Julian... Ele gosta de homens. Tenho vergonha de dizer isso. De admitir que não fui pai o suficiente para corrigir essa conduta...

MULDER: - Senhor Willcox, a culpa não é sua. A sexualidade humana ainda é um mistério.

SCULLY: - Não tem nada demais, senhor Willcox. Não é uma vergonha. Seu filho é algum criminoso, um assassino? Isso sim seria vergonhoso.

PAUL: - Eu sei que a sociedade está mais aberta para essas coisas, mas isso me soa modismo e safadeza mesmo. É a minha criação, a educação que tive, minha religião, me desculpem se sou um velho preconceituoso, mas Deus criou homem e mulher e nenhuma terceira opção, além de que abomina esse tipo de conduta. Por isso meu filho e eu temos atritos constantes, desde que ele nos contou a verdade. Julian foi embora de casa por minha culpa. Eu nunca aceitei isso. Não queria essa vida pra ele. Não que eu tenha deixado de amar o meu filho por isso, entendem? Ele é meu filho, eu o amo, apenas não concordo com a escolha dele. Eu tenho vergonha. O irmão nunca aceitou, a irmã dele aceita, minha esposa releva, mãe é mãe... Mas eu não. E por minha culpa, meu filho desapareceu.

O velho leva a caneca à boca, tremendo. Scully olha pra Mulder.

MULDER: - Preciso perguntar se isso envolve alguma coisa paranormal, senhor Willcox.

PAUL: - Sei que só trabalha com coisas estranhas, senhor Mulder. Vou chegar lá. Sabe essas coisas de internet? Os jovens hoje ficam conversando com o mundo inteiro, com pessoas que nem conhecem... Jules conheceu um homem numa dessas conversas. Eu não entendo de tecnologia, acho que é bate-papo como eles chamam.

MULDER: - Sim, chats de bate-papo.

PAUL: - Conheceu esse homem, que não sabemos quem é. Tivemos uma briga feia, quando eu disse que se ele não virasse um homem de verdade podia ir embora da minha casa. E Jules então foi embora, levou as coisas dele e foi atrás desse sujeito. Por duas semanas não deu notícias. Registrei ocorrência na delegacia, os policiais vasculharam minha casa, levaram o computador, iniciaram uma investigação, mas até agora não sabem o paradeiro do meu filho. Noite passada, eu estava assistindo o jogo e então o telefone tocou. Era Julian.

O velho abaixa a cabeça, derrubando lágrimas.

PAUL: - A voz dele estava triste e cansada. Era ele, eu reconheço a voz do meu filho. Ele me pedia justiça. Disse que estava morto.

Mulder e Scully se entreolham.

PAUL: - Enquanto eu vinha pra cá pensei, talvez Julian esteja me pregando uma peça pra se vingar de mim... Mas não. Meu filho nunca faria isso. Ele é orgulhoso, sabe? (SECA AS LÁGRIMAS) Ele nunca me ligaria pra fazer uma coisa dessas. Preciso da ajuda de vocês. Preciso saber a verdade. Meu coração de pai já dizia que ele estava morto mesmo. Quero saber aonde está o corpo do meu filho e quem o matou. Ele me pediu justiça. Agora é só o que eu posso fazer por Julian, já que não fui o pai tolerante que ele precisava. Se tivesse sido, meu filho ainda estaria vivo e em casa.

Mulder respira fundo, olhando para um pai cabisbaixo, culpado e nervoso, que tenta inutilmente segurar as lágrimas, que caem sobre as mãos velhas e enrugadas e que apertam a boina sobre as pernas. Scully leva a mão à mão do velho e o conforta, enchendo os olhos de lágrimas. Mulder olha apiedado pro velho, depois pra Scully. Scully olha pra Mulder e afirma com a cabeça.

MULDER: - Qual a idade de Julian, senhor Willcox?

PAUL: - Julian tem 26 anos. Pode me ajudar, senhor Mulder? Pode me ajudar a fazer justiça para meu filho descansar em paz? Pode trazer pra mim o corpo dele pra que eu possa enterrar?

Mulder olha pra barriga de Scully, depois para o velho em lágrimas. Mulder abaixa a cabeça, mordendo os lábios, emocionado.

MULDER: - Scully e eu sabemoso que é perder um filho, senhor Willcox. Eu sei o que são noites insones, martelando culpas dentro da cabeça, os dias passam e você busca respostas que não encontra, não sabe o que realmente aconteceu, se o seu filho está vivo ou morto... E essa dúvida é pior do que a certeza, por mais dolorosa que a certeza possa ser. É estar num inferno eterno sem respostas...Precisa consolar sua mulher, ser homem nessa hora, mas não há mais forças em você, porque não foi homem o suficiente para proteger seu filho.

PAUL: - O senhor me entende, senhor Mulder. Eu vivo num tormento sem dormir, me culpando por cada coisa que fiz ou que deixei de fazer.

MULDER: - Eu vou ajudá-lo, senhor Willcox. Mas antes, preciso que me conte com detalhes como Julian desapareceu, me fale mais do que seu filho fazia, gostava, trabalhava, amigos, essas coisas que a polícia já lhe perguntou, mas que eu preciso saber. E me diga em que delegacia e região registrou a ocorrência, e eu vou começar a partir daí, checando com a polícia pra ver o que eles descobriram. Muitas vezes a polícia oculta informações aos parentes porque não ajudaria muito em nada a eles, mas a nós faz uma grande diferença. Me conte cada detalhe, por mais insignificante que lhe pareça.

PAUL: - Os policiais até agora nada nos disseram. O caso foi encerrado pela polícia, eles alegam que Julian é maior de idade e fugiu de casa. Mas depois do telefonema de ontem, eu acho que meu filho está morto. E como vou dizer isso a eles? Nunca acreditarão, entende? É apenas mais um... um... um gay curtindo a vida. Tudo o que ouvi foi um detetive rindo e dizendo ao outro sobre "Rose Garden". Eu nem faço ideia do que isso significa!


10:49 A.M.

Scully sentada em sua escrivaninha, pesquisando no computador. Baba se aproxima.

BABA: - E aí? Como você está? E o filhote de raposa nariguda?

SCULLY: - (SORRI) Tá mexendo. Quer sentir?

Baba coloca a mão.

BABA: - Minha nossa! Esse vai dar trabalho! Não me convide pra babá não! Esse aí vai puxar ao pai dele! Já me basta um na minha cola, imagina dois?

As duas riem. Baba senta-se.

SCULLY: - Rose Garden é uma lista de discussão entre homossexuais masculinos. Fiz um perfil falso e entrei. Estou esperando alguém puxar conversa.

BABA: - Hum, acha que vai ter chances com essa foto? Esse anônimo aí tá muito modelo para os caras acreditarem. Acho que deveria sacanear o Mulder e colocar a foto dele!

As duas riem.

SCULLY: - Opa! Ricky_Martin2007 me chamou. Vamos ver o que o Ricky Martin 2007 quer.

BABA: - Imagina o que ele quer! Comer você! Hum, ele disfarça pior do que você, colocou a foto do artista mesmo. Gosto do Ricky Martin desde que ele era um Menudo. Sempre pensei, esse aí vai ser o bonitão da turma. E foi.

SCULLY: - Ele quer saber de onde eu sou, o que faço, se tenho alguém...

BABA: - Mulder sempre me diz que se tiver que mentir, que seja o mais próximo da verdade, pra não correr risco de tropeçar na mentira. Deve ter aprendido com o fazedor de fumaça.

SCULLY: - Hum... Sou da Virgínia, sou médico e casado. Tenho dois filhos.. Vamos ver se ele corre ou se interessa... Estou adorando o meu trabalho, sabia?

BABA: - Aposto que não se divertia assim no FBI.

SCULLY: - Mas não mesmo! Essas coisas sempre ficavam para os outros departamentos, eles nos repassavam as informações, eu tinha é que ficar trancada em necrotério ou correndo atrás do Mulder! A melhor parte da investigação a gente nunca fazia. A parte fácil, mas necessária.

As duas observam a tela. Scully franze o cenho.

SCULLY: - Mas é bem coisa de homem mesmo! Eles nem ligam se o cara é casado! Ô raça triste! Ele ainda me perguntou se eu curto uma transa com sado! Ele gosta de ser escravizado...

BABA: - Chicote nele, Dana Scully!

SCULLY: - Os homens são mais diretos. Eles não enrolam como as mulheres. Eles querem sexo e já deixam isso bem explícito... Curto sado ou não?

BABA: - Ah vai, curte! Faça o menino feliz, mesmo que você não tenha o brinquedo que ele goste.

Baba se levanta.

BABA: - Vou deixar você curtir sado com o seu Ricky Martin fajuto e vou atender outro cliente novo, fazer a primeira varredura do caso pra conferir se é ou não um Arquivo X.

SCULLY: - Na volta, você me traz uma barra de chocolate? Das grandes, chocolate puro, que desmancha na boca. Estou com desejo de comer chocolate. E não mostra pro Mulder!

BABA: - Meu Deus! Do jeito que você fala, até eu fiquei com desejo de comer chocolate!


12:31 P.M.

Frohike, Langly e Byers se entreolham. Mulder em pé, recostado na mesa, esperando resposta, com os braços cruzados.

MULDER: - Frohike? Topa? Como eu expliquei...

FROHIKE: - Mulder, não vai dar, eu preciso escrever um artigo pra fechar a revista. E sinceramente, acho que você não gostaria de ser visto comigo. Sou feio e baixinho demais pra você. Chamaria muito a atenção essa disparidade toda! Aliás, já estou disparando também!

Frohike sai correndo da sala. Mulder olha pra Langly, que vai saindo de fininho atrás de Frohike.

MULDER: - Langly? Apenas um final de semana. Nada demais. Somos amigos.

LANGLY: - Pois é, eu também tenho coisa pra fazer ou a edição vai sair atrasada... Fazer o quê, né, Mulder? A agência é sua, você é o chefe e o chefe sempre tem que colocar o pescoço na forca.

Langly se escapa porta à fora. Mulder olha pra Byers. Byers coloca as mãos nos bolsos, disfarça e vai saindo.

BYERS: - Eu sou o editor de A Bala Mágica, precisam de mim ou não sai a publicação. Precisam da assinatura de um jornalista, tenho uma filha pequena, Susanne precisa de mim, sabe, né? ... Desculpe, Mulder..

Byers sai. Mulder suspira, desanimado. Krycek bate na porta.

KRYCEK: - Aonde os Pistoleiros foram com tanta pressa?

Mulder abre um sorriso.

MULDER: - Ah, Rato, meu parceiro, amigão de todas as horas, você chegou na hora certa!

Krycek olha desconfiado pra Mulder.

KRYCEK: - O que aconteceu, Mulder? Por que tanta alegria ao ver a minha cara?

MULDER: - Bem... Hum... Vai fazer alguma coisa no fim de semana?

KRYCEK: - Trabalhar no sábado e folgar no domingo. Por quê? Quer ir pescar?

MULDER: - Norris liberaria você pra uma investigação particular?

KRYCEK: - Não sei, depende do humor dele. Agora tem mais gente na homicídios. Dá pra encaixar uma folga. O que houve?

Mulder, parecendo um vendedor de gato por lebre, leva a mão sobre Krycek, caminhando com ele pela sala.

MULDER: - Que tal ir pra Carolina do Norte? Hum? Paisagens bonitas, florestas, ar puro... Vai fazer bem pra você. Peguei um caso novo. Preciso de alguém pra ir comigo. Scully vai junto, ok? Mas ela vai ficar na retaguarda, acho que entende a situação... Você até pode levar a Barbara, assim as duas ficam fazendo companhia uma pra outra no hotel enquanto a gente investiga o caso.

KRYCEK: - (DESCONFIADO) Que caso, Mulder? Em que furada você quer me meter?

MULDER: - Nenhuma! Serviço fácil! Nem vai precisar atirar em ninguém. Vamos deixar as garotas num hotel em outra cidade, vamos até a linda cidade de Uwharrie, vamos nos hospedar num casarão enorme que se transformou em hotel fazenda, no meio da natureza e vamos procurar uma pessoa desaparecida.

KRYCEK: - (DESCONFIADO) E por que as garotas não podem ficar no hotel fazenda com a gente?

MULDER: - ... Digamos que... Porque elas vão atrapalhar a investigação. São mulheres, elas vão se empolgar com caminhadas e paisagens, vão falar muito sem parar, ficar de fofoquinha e a gente acaba se distraindo olhando pra elas e perdendo a concentração na investigação, entende? Vamos acabar só pensando em diversão, você sabe, aquelas duas nanicas são dois vulcões eternos em erupção, vivem provocando... E não pensa que porque a Scully tá grávida que eu tenho paz, mas não tenho mesmo! Parece que fica pior, alega que é desejo...

KRYCEK: - (DESCONFIADO) Só isso? E onde está o Arquivo X?

MULDER: - Bom, a pessoa desaparecida provavelmente está morta. Ela comunicou sua morte por telefone ao próprio pai.

KRYCEK: - (DESCONFIADO) Tem fantasmas nessa história?

MULDER: - Provavelmente. Rato, você é o último que me sobrou. Eu não pediria isso se tivesse outra pessoa pra fazer. É sério. Eu não incomodaria você se realmente não precisasse.

KRYCEK: - (DESCONFIADO) Imagino que tenha pedido isso àqueles três, que saíram correndo daqui. O que tá me escondendo, Mulder?

MULDER: - (CÍNICO) Nada. Eles apenas... Não têm estômago pro serviço.

KRYCEK: -(INCRÉDULO) Não tem estômago pra passar um final de semana em um hotel fazenda, no meio da natureza, atrás de uma pessoa desaparecida?

MULDER: - Eles não são detetives, Rato. São força de apoio, o negócio deles são câmeras, escutas, filmagens, computadores, nerdices e conspirações. Mas você, você é detetive. E dos bons.

KRYCEK: -(DESCONFIADO) Sei... Sabe aquele ditado "o que você não me pede rindo, que eu não faça chorando"? Tá bom, Mulder. Barbara vai adorar sair de casa mesmo. Vou falar com o Norris.

MULDER: - Ah! Precisamos levar uns equipamentos. E nossas armas, por via das dúvidas. Leva munição.

KRYCEK: - Nada de armamento pesado?

MULDER: - Nada. Você me consegue uma luz negra? Vamos procurar evidências de sangue, vou tentar me hospedar no quarto em que o desaparecido ficou.

KRYCEK: - Consigo. Precisa de mais alguma coisa?

MULDER: - Não. Apenas arrume sua mala, amanhã cedo nós saímos. Leva sua jaqueta de couro, pode fazer frio. Leve jeans rasgados, alguma camiseta justa que deixe seus ombros à mostra, deixa esse brinco de argolinha na orelha...

Krycek olha incrédulo pra Mulder.

MULDER: - (SORRI) Pra sensualizar pra sua garota, Rato. Que falta de imaginação!

Krycek sai. Mulder solta o ar dos pulmões. Baba entra na sala, fechando a porta.

BABA: - Krycek vai dar uma tremenda surra em você, só tô avisando! E essa nem é a pior parte. Você vai perder um grande amigo por mentir descaradamente desse jeito. Juro que fiquei com pena dele agora. Pode ser que ele tenha sido o pior dos seus inimigos no passado, tenha sido um mal menino, mas há seis anos que vejo um menino bom ali, se esforçando pra ser uma pessoa decente e cumprindo sua palavra de que nunca mais voltaria pro lado negro da força. Isso que você acaba de fazer foi além da conta, Mulder. Krycek vai ficar achando que você ainda se recorda do passado e tá se vingando dele.

MULDER: - Baba, Krycek nunca foi o pior dos meus inimigos. Ele foi o melhor inimigo que eu tive, porque muitas vezes ele poderia ter me matado, mas nunca o fez. Ele poderia ter me ferrado muito mais, se ele quisesse, mas o que ele me ferrou foi nada em vista do que o Fumacinha, sangue do meu sangue, fez contra mim. Krycek foi apenas um peão manipulado no jogo deles. De um lado do tabuleiro Fox Mulder, o mocinho imbecil. Do outro, Alex Krycek, o falso vilão imbecil. Porque o vilão mesmo assistia o jogo nos controlando e colocando a gente em guerra.

BABA: - ... Mulder.

MULDER: - Você acha que eu estou gostando de ocultar essas coisas pra um amigo? Nenhum pouco! E nem gostando de ter que expor a minha cara e a dele! Mas se eu contar a verdade agora, o Rato vai fugir como os outros três, e eu não vou conseguir dar respostas para o senhor Willcox.

BABA: - E vai arriscar sua amizade por isso? Por um maldito Arquivo X? Vou entender que Scully tem razão em chamar você de egoísta e insensato, porque você colocava suas prioridades e até sua vida em busca de verdades. E começou a fazer isso de novo.

MULDER: - Eu não tô arriscando nada por um maldito Arquivo X! Eu sou pai! Eu não gostaria de estar na pele daquele homem, se culpando das coisas, sem saber o que aconteceu com o filho dele e sem um corpo pra enterrar! E sabe por quê? Porque eu já passei por isso!

BABA: - Ótimo! Bem vindo ao meu mundo, Mulder. Também não sei o que aconteceu com meu marido e filha e nem se estão realmente mortos, porque nunca tive corpos pra enterrar!

MULDER: - Lamento, Baba. Eu tenho dois casos dos quais nunca encontrei uma pista sequer, por mais que tenha procurado nos últimos anos: o desaparecimento da sua família e o do marido da minha irmã. Eu não esqueci deles. Estão sempre na minha gaveta, toda a vez que eu abro, dou de cara com eles.

Baba senta-se, nervosa.

MULDER: - Eu nunca arriscaria minha amizade com o Rato. Quando chegar lá, eu conto pra ele. Se ele quiser desistir, eu aceitarei. Mas só vou contar quando chegar lá. Eu sei que ele vai ficar furioso comigo, mas quando souber do que se trata, também sei que o coração dele fala mais alto que o juízo. No final das contas, melhor mesmo que os outros não tenham aceitado. Prefiro o Krycek comigo numa situação embaraçosa dessas. Pelo menos ele não vai folgar comigo pro resto da vida.

BABA: - Eu entendo, mas deixa Krycek saber que vocês dois vão passar um final de semana juntos num hotel fazenda exclusivo pra casais gays e aí sim eu quero ver a confusão que vai se armar! Só tô avisando... Ele vai ficar furioso com você, "amorzinho". Porque não tem piadinha, dessa vez a coisa é séria. Vai mesmo conseguir bancar o gay? Se os caras desconfiarem de vocês, os dois vão sair de lá debaixo de porrada.

MULDER: - Sabe de nada, inocente. Já estive em situações piores que essa, dentro de uma boate gay e sendo babá de um transexual ex-amante do diretor do FBI! Só que dessa vez, não vou arrumar confusão querendo socar os engraçadinhos, eu vou levar isso na piada.

BABA: - Só não esqueça que Krycek não tem senso de humor.

Mulder pega o paletó. Baba suspira.

BABA: - Sei não, isso não tá me deixando tranquila. Mulder, você acredita em mim. Então só me escuta: não sei se o rapaz está vivo ou morto, tentei contato e não consegui. A única coisa que meu sexto sentido diz é: tomem cuidado. Muito cuidado. Não tenho boas impressões desse caso.

MULDER: - Vou tomar cuidado, Baba. Vai ser uma investigação rápida e levarei minha arma. Vamos nos disfarçar, entrar, checar o quarto, falar com algumas pessoas e dar o fora. Agradeço por ficar com a Pinguinho pra nós. Amanhã cedo partimos pra Carolina.


Pousada Eldorado - Condado de Montgomery - Carolina do Norte -12:57 P.M.

Krycek estaciona a picape. Os quatro descem. Mulder vai pra recepção. Barbara empolgada, fecha os olhos e aspira o ar. Krycek se recosta na picape, observando o lugar cercado de florestas e montanhas.

BARBARA: - Nossa! Que ar puro! Mato, mato, mato... Pouca civilização. Eu estava precisando disso!

SCULLY: - Somos duas. Que lugar lindo!

BARBARA: - E romântico, não acha?

SCULLY: - É, mas meu romance anda limitado no momento...

BARBARA: - Azar o seu. O meu não.

As duas riem. Krycek está com o pensamento longe, sério.

SCULLY: - Alex, você está bem?

KRYCEK: - (VOLTANDO A REAL) Ahm?

BARBARA: - O que foi, Ratoncito? Tá tristinho hoje...

KRYCEK: - (SORRI) Não. Só cansado.

SCULLY: - Imagino. A rotina no FBI era uma coisa estressante. Penso na rotina de uma delegacia. Vocês são o time de frente contra o crime, todos dos dias. Quando as coisas chegavam pra nós no Bureau, vocês já tinham feito o trabalho pesado. Posso reconhecer isso.

KRYCEK: - Valeu, Scully.

BARBARA: - Ratoncito, pensa que em dois meses você vai ter férias. E vai me levar pra conhecer a Rússia!

SCULLY: - (SORRI) Sério? Ai, me traz de lá aquelas bonequinhas que ficam uma dentro da outra... Victoria vai adorar!

KRYCEK: -Matryoshka.

BARBARA: - Pode deixar. Não vou esquecer de trazer uma pra você e outra pra Victoria.

Mulder sai da recepção. Entrega uma das chaves pra Krycek.

MULDER: - O quarto de vocês fica ao lado do nosso. (DEBOCHADO) E vê se não se empolgam e fazem barulho, porque eu quero dormir pelo menos umas três horas.

KRYCEK: -(INCRÉDULO) Ahm? Barbara e eu fazemos barulho? Não foi isso que andei sabendo por aí! Esse recorde é de vocês, e é totalmente imbatível!

Barbara e Scully riem.

MULDER: - Eu mato a "Oda Mae" linguaruda!


1:36 P.M.

Scully assistindo TV, recostada na cama, com os pés sobre um travesseiro. Come biscoitos. Mulder deitado com a cabeça perto da barriga dela, fazendo carinhos.

SCULLY: - Achei legal que Krycek aceitou a situação. Isso só me diz que realmente vocês dois superaram qualquer atrito. Tem que ser muito amigo mesmo pra topar uma coisa dessas. Ainda mais vocês homens, que são todos machões, morrem de medo de alguém duvidar da sexualidade de vocês. Sei lá, nós mulheres somos mais confiantes em nossa sexualidade. Se eu tivesse que passar por isso com a Barbara, seria tranquilo, a gente ia levar numa boa, fingir e até achar graça!

MULDER: - ... Scully. Não contei tudo pra ele.

Scully olha incrédula.

MULDER: - Não me dê sermão. Baba já me deu um sermão enorme ontem. Eu vou falar com Krycek. Se ele desistir, eu vou sozinho e vocês ficam aqui me esperando.

SCULLY: - Mulder, é um hotel pra casais! Não viu no site? Nunca deixarão você entrar sozinho! Se aceitassem lésbicas, juro que me passava por uma e tenho certeza de que a Barbara iria comigo, a gente investigava e resolvia tudo logo.

MULDER: -(DEBOCHADO) E ia justificar essa barriga como? Ou a Barbie não é Barbie, é Ken?

SCULLY: -Mulder, inseminação artificial, esqueceu?

MULDER: - Se o Rato não quiser, eu vou invadir na calada da noite. Pronto. Nós temos que começar a investigação a partir desse hotel. De acordo com a polícia, foi o último local em que Julian Willcox esteve com o namorado.

SCULLY: - Eu acho tão engraçado vocês homens... Morrem de medo de alguém achar que são gays só de andarem juntos! Nós mulheres abraçamos e beijamos as nossas amigas, saímos de mãos dadas, acariciamos os cabelos das outras, e quando temos uma festa pra ir, uma ajuda a outra a se arrumar, vamos juntas ao banheiro e ninguém diz que somos lésbicas por isso!

MULDER: - Você está brincando comigo, Scully. Pra mulher isso é fácil! Sabe o estigma social que nós homens enfrentamos se saímos demonstrando sentimentos e afetos. Imagina abraçar um amigo, beijar um amigo, sair de mãos dadas com ele... Ir junto ao banheiro? Isso é assinar homossexual na testa!

SCULLY: - Machismo, Mulder! Completo machismo, digno de piedade! Vocês são vítimas de uma sociedade machista que vocês mesmos criaram e alimentaram. Se o mundo fosse regido por mulheres, vocês certamente seriam mais felizes e menos cobrados socialmente. Eu não vou ensinar meu filho a ser machista, estamos entendidos?

MULDER: - Scully, eu não sou machista, você sabe que no fundo sou um cara sentimental que...

SCULLY: - Eu sei, Mulder. Mas sempre tem um machismo escondido. Sempre. Vocês precisam agir assim, a sociedade exige. Homem não pode demonstrar sentimento que já não é mais homem. Isso é um absurdo!

MULDER: - Eu concordo, mas vou fazer o quê? Sair com uma placa exigindo direitos iguais aos das mulheres? Vou virar a piada do ano! Além do mais, se eu fosse tão machista quanto você acha, eu não iria fazer o que estou prestes a fazer!

SCULLY: - É, quanta evolução mesmo! Se Miss Bloop ouvisse você agora...

MULDER: - Ah, Scully, por favor! É diferente! Eu e Krycek nos conhecemos. Se fosse com um estranho eu nem tentaria isso!

SCULLY: - Tá vendo? Mulder, é isso o que não entendo! Se eu tivesse que encarar uma situação dessas, mesmo que com uma estranha, eu não teria medo, caso ela me cortejasse. Sabe o que significa? Que alguém do meu sexo teve a coragem de dizer que me acha interessante. Recusaria a proposta, porque não tenho a mínima curiosidade e pronto. Mas vocês homens já saem ofendidos, aos socos, como se achar um outro homem bonito fosse uma afronta a sexualidade intocável do macho. Nós mulheres achamos outras mulheres bonitas e dizemos isso. Vocês? Nossa, isso é "assinar homossexual na testa"! Maldade, Mulder. Pura maldade! Além de machismo, vocês homens veem maldade e safadeza em tudo!

MULDER: - Para de falar mal dos homens, tem um aí na sua barriga.

SCULLY: - É, e ele vai desde cedo aprender a respeitar as mulheres.

Scully coloca a mão sobre a mão de Mulder e a guia pro lado da barriga. Mulder abre um sorriso.

MULDER: - Ele tá se mexendo. Tá acordado, meu Campeão?

SCULLY: - É, ele está acordado e concordando com a mãe dele.

Mulder faz careta.

SCULLY: - Ele tá ansioso hoje. Ainda mais que papai prometeu fazer lamaze com a mamãe... Prometeu massagem nas pernas dela... Eu mereço, não acha?

MULDER: - (SORRI) Merece muito mais.

Mulder fica afagando a barriga de Scully.

MULDER: - Eu não ia pegar esse caso. Eu estava tremendo por dentro, já estava começando a me sentir na pele do velho. Então olhei pra você... Esse caso mexeu comigo, Scully.

Mulder senta-se na cama. Coloca as mãos no rosto, angustiado.

SCULLY: - Mulder... Se você acha que não consegue, a gente arruma outro jeito.

MULDER: - Não tem outro jeito. Eu vou conseguir. Se eu estivesse na situação do velho Willcox, eu também gostaria de ter alguém que se importasse e buscasse a justiça pro meu filho. Porque já estivemos numa situação parecida.

SCULLY: - Mulder, não tivemos a justiça humana, mas tivemos a justiça de Deus. A maior de todas. E essa justiça ainda está acontecendo, basta olhar pra minha barriga.

Mulder deita-se na cama. Scully vira-se de costas pra ele. Mulder a envolve com o braço, colocando a mão na barriga de Scully.

MULDER: - Quer brincar de fazer beicinho de peixe? Hum? Há seis anos que não brincamos disso.


1:44 P.M.

Krycek recostado na cama, Barbara deitada entre as pernas dele. Krycek com os dedos enlaçados nos dedos dela. Os dois assistem televisão.

BARBARA: - Sabe... É tão bom ficar assim com você, sem noção de hora, de compromisso, de nada... Pena que viemos a trabalho. Queria fugir com você e nunca mais olhar pra trás.

KRYCEK: - Mulder tá me escondendo alguma coisa.

BARBARA: - Por que Mulder esconderia algo de você?

KRYCEK: - Eu não sei, mas ele tá escondendo. Tenho experiências de uma vida inteira com gente mentindo pra mim e aprendi a reconhecer mentiras. E ele tá mentindo. E estou aborrecido porque nunca pensei que Mulder faria isso comigo.

BARBARA: - Impressão sua, Ratoncito. Mulder não mentiria pra você.

KRYCEK: - É o que vou descobrir. Penso que se Mulder está mentindo é por uma boa razão. Não é do caráter dele mentir, não tenho dúvidas quanto a isso. Só me deixa chateado porque é sinal de que ele não confia em mim. Tá vendo quando eu digo que nunca as pessoas vão realmente confiar em mim por causa do meu passado?

BARBARA: - Eu confio em você, Ratoncito.

KRYCEK: - Sabe que se você não tivesse aparecido na minha vida, eu já teria acabado com ela. Eu só consigo seguir adiante porque tenho você do meu lado. O prêmio da vida que eu nunca imaginei ganhar, e menos ainda imaginei que merecesse.

Barbara vira-se pra ele, deitando a cabeça em seu peito.

BARBARA: - Amor, leva tempo para as feridas cicatrizarem, mas você é um bom paciente, acho que evoluiu muito.

KRYCEK: - A minha sorte mesmo é que quando você apareceu, eu já tinha abandonado aquela vida. Porque se você me conhecesse antes, duvido que se apaixonasse por mim.

BARBARA: - Me apaixonaria.

KRYCEK: - Não. Você me odiaria. Pode acreditar no que as pessoas falam sobre quem eu era.

BARBARA: - Não mesmo. Não mudaria nada. O Alex, pelo qual me apaixonei, continuaria aí dentro, escondidinho. Só seria mais difícil fazer ele sair pra fora. Igual eu não desistiria.

Barbara o beija nos lábios, suavemente. Krycek olha pra ela, angustiado e apaixonado.

KRYCEK: - Eu não sei qual foi a mágica que você fez, que me deixou embrulhado nos seus dedos. Você dói aqui no meu peito. Eu nunca senti isso, nem sabia que tinha um coração ainda, pra sentir essas coisas. Essa dor, essa angústia, essa necessidade... Morro de medo de que um dia isso acabe. A gente nunca briga, salvo raras exceções. Gostamos das mesmas coisas. Temos os mesmos horários loucos... Isso não está errado? Geralmente os casais diferem em alguma coisa.

BARBARA: - Não ligo se a gente não se encaixa na droga da normalidade dos casais. Mas agente difere num ponto. Não gosto quando banca o bandido fazendo justiça e nem quando banca o herói se ferrando pra salvar todo mundo.

KRYCEK: - Então o que espera de mim, Malyshka?

BARBARA: - A única coisa que espero de você é que seja o meu homem, o amor da minha vida, meu companheiro, meu amigo, meu amante, meu tudo.

KRYCEK: - Você é a pessoa mais azarada que eu já conheci. Uma mulher do seu porte se apaixonando por um traste.

BARBARA: - E que traste, Ratoncito! Ainda bem que jogaram o traste na minha lixeira! Quer "relaxar"? Hum? Você tá precisando distrair. Método cubano de relaxamento.

KRYCEK: - (SORRI) Gosto do método cubano de relaxamento... Sempre termina com tensão elevada.

Barbara sorri e leva a mão entre as pernas dele, o massageando sobre o jeans. Krycek fecha os olhos.

BARBARA: - E quero mesmo que essa "tensão" fique bem elevada...

Barbara beija-lhe o peito. Depois desce o rosto pelo corpo dele.


Hotel Pine Tree - Floresta Nacional de Uwharrie - Carolina do Norte - 6:34 P.M.

Krycek para a picape na frente do portão. Mulder sentado no carona.

KRYCEK: - Chegamos. É um lugar bonito. Um casarão antigo... Não parece um hotel, não chama a atenção.

MULDER: - Antes de passarmos pelo portão, preciso contar uma coisa pra você.

Krycek cruza os braços, o encarando.

KRYCEK: - Eu sabia que você estava me escondendo alguma coisa. Por isso os três patetas vazaram rapidinho. O que é?

MULDER: - O lugar não chama a atenção porque... Porque... É um hotel pra casais... Gays.

Krycek olha incrédulo pra Mulder, então suspira e abaixa a cabeça sobre o volante, desconsolado.

MULDER: - Antes que brigue comigo, quero dizer que não contei porque sabia que você fugiria como os outros e realmente preciso resolver esse caso. Acredito que o filho do senhor Willcox está morto e pediu justiça ao pai por telefone. O último lugar aonde ele esteve foi no quarto dourado desse hotel, com um sujeito que ele conheceu na internet. A polícia da 3ª delegacia da Virgínia está encarregada do caso. Um dos detetives me disse que reviraram o computador, vasculharam chats e conversas e descobriram o nome do cara, Michel Millan, mas ele também está desaparecido. A única pista que eles tem é esse hotel, porque encontraram um e-mail com a confirmação de reserva online. É aqui onde começa a investigação, porque a polícia veio, fez perguntas e disseram que eles foram embora um dia depois. Arquivaram o caso porque Julian é maior de idade, é gay, namorava um cara desconhecido virtualmente, que também sumiu, tinha atritos com a família por causa da sua sexualidade, então concluíram que eles fugiram juntos. Quem se importa?

Krycek ergue a cabeça. Apoia o braço na janela, mordendo o polegar, num suspiro de aborrecimento.

MULDER: - Não tem muita informação desse hotel na internet. Eles tem um site de reservas e você só consegue reservar um quarto mediante um questionário extenso. Não pude mentir sobre nós dois. Não podia arriscar.

KRYCEK: -(INCRÉDULO) Como assim mentir sobre nós dois? Tá maluco? Bebeu vodca de novo? Fumou um? Implantaram alguma coisa na sua cabeça? Que nós dois? Não tem nós dois!!!

MULDER: - (PÂNICO) Agora tem.

Krycek continua olhando incrédulo pra Mulder, que nervoso, começa a comer sementes de girassol.

MULDER: - Scully tentou fazer a reserva com nomes falsos, identidades falsas e com o cartão da Baba. Recebeu um e-mail negando a reserva por dados falsos. Eles checam tudo, seu nome, identidade, profissão... Alegam que é pra manter a imagem do hotel, a segurança e exclusividade de seus clientes. Me soa estranho, Rato. Em qualquer lugar desse país, se você quer transar com alguém basta ir pra um hotel, dar nome falso e ninguém pergunta nada, contanto que veja seu cartão de crédito. Mas esses caras exigem muita informação, e eu não quis arriscar uma negativa novamente.

KRYCEK: - (INCRÉDULO)Você colocou meu nome real numa reserva de hotel gay? O meu nome, meu endereço, meus dados pessoais?

MULDER: - Eu dei o endereço do seu depósito. Coloquei meus dados verdadeiros também. Vamos ter que ser nós mesmos. Mulder e Krycek.

Krycek põe as mãos no rosto.

KRYCEK: -Se descobrirem isso, os caras na delegacia vão me olhar esquisito pro resto da vida! Imagina se alguém da conspiração descobre? Imagina o Fumacinha! O Coin? Mulder, você pirou! O governo sabe tudo pela internet, monitora seus e-mails... Hotel Pine Tree... Até o nome dessa espelunca é sugestivo!

MULDER: - Rato, somos detetives. Estamos em missão, disfarçados. Isso acontece e não prova nada. Se provasse alguma coisa, o FBI inteiro já teria me dado um tutu cor de rosa, das tantas vezes que já tive que passar por algo semelhante.

Krycek esmurra o volante e encara Mulder.

KRYCEK: - (IRRITADO) Podia ter sido sincero, sabia? Agora entendi porque todo mundo tirou da reta!

MULDER: - Me desculpe. Se não quiser entrar e seguir meu plano, me deixa aqui que eu vou entrar escondido.

KRYCEK: -Mulder, você tem merda na sua cabeça? Não sabemos nada desse lugar e estou começando a concordar com você que tem coisa muito estranha aí dentro, a não ser que seja um lugar exclusivo pra elite. Mas como somos policiais e eles sabem disso, não creio que seja o caso!

MULDER: - ... Só estou me colocando no lugar do pai do rapaz. Ele podia ter ido atrás de qualquer detetive, mas veio até mim. Pode ou não ser um Arquivo-X, e sinceramente, isso agora nem vem ao caso. Você não sabe, Rato, você não é pai. Não sabe o desespero que dá por não saber o paradeiro do seu filho, se o seu filho está vivo ou morto. Eu sei! Eu já passei por isso com a Scully.

KRYCEK: - E eu vou ter que me passar por gay na frente de todo mundo? É isso? Dois dias? Você e eu nesse hotel dois dias fingindo ser um casal? Olha aqui, Mulder, se quer um afetado bateu na porta errada! Você tá de sacanagem comigo! Aonde tá a câmera escondida? É uma pegadinha, confessa. Tá me sacaneando por causa daquele porre de vodca!

MULDER: -Não precisa ser afetado, vamos ser normais. Nem todo gay é afetado. A maioria deles são discretos, você nem sabe que são gays.Somos nós, não personagens estereotipados.

KRYCEK: - Ah sim, somos nós. Esqueci. Vamos ser nós mesmos, a história tem que ser o mais real possível. Só tem um problema nessa história: não somos gays!

MULDER: -Mas eles não sabem! Entramos, pegamos a chave do nosso quarto e vamos varrer aquele lugar atrás de pistas. Vamos conversar com os outros hóspedes, empregados, sem dar muito na vista porque eles sabem que somos policiais, mas vamos fazer de conta que viemos pra nos divertir. Temos o final de semana pra fazer isso. Depois voltamos pro hotel com as garotas. Lógico, se você quiser.

KRYCEK: - (FURIOSO)Mulder, eu quero é dar um murro na sua cara! Entendeu? Você mentiu pra mim, usou meu nome, meus dados e me trouxe pra um lugar desses aonde eu nem faço ideia do que eles podem fazer com os meus dados! Ahn? Podem nos chantagear ameaçando nos expor publicamente! Pensou nisso? Talvez por isso exijam os nossos dados! Pode ser uma quadrilha de estelionatários... Meu Deus! O resto de dignidade que me sobrou após Nancy Fuinha, acaba de ir para o ralo!!!

MULDER: - É claro que eu pensei! Mas não somos gays, qual o problema?

KRYCEK: - (ABORRECIDO) Não somos, mas agora somos, entendeu? No momento em que entrarmos nesse hotel com nossos nomes verdadeiros, seremos gays pra eles e pra qualquer um que descubra que estivemos aqui! A internet deixa rastros! Eu sei que você não liga, mas eu ligo! Eu ligo, e não é preconceito, mas você sabe o porquê! Passei minha vida inteira ocultando das pessoas aquela maldita violência que sofri, com medo de virar chacota dos outros e agora você, que se diz meu amigo, coloca meu nome numa reserva de hotel gay? Oficialmente eu vou ser a sua mulherzinha, é isso? Claro, já fui a mulherzinha de um estuprador militar e torturador, qual o problema de ser mulherzinha de mentirinha do grande pegador Fox Mulder? Mulder, você foi longe demais!

Mulder abaixa a cabeça, culpado. Krycek completamente perturbado, segurando lágrimas, magoado.

KRYCEK: - Brincadeira é uma coisa e até diverte... Mas isso não é brincadeira. Isso fere.

MULDER: -(CULPADO) ... Você tem razão, eu fui longe demais. Coloquei você nisso sem considerar certas coisas que aconteceram com você... Me desculpe, Krycek. Sou o pior psicólogo do mundo. E um péssimo amigo.

Krycek apoia o cotovelo na janela, o rosto na mão, olhando nervoso pro hotel. Mulder mergulhado em culpas.

MULDER: -(CULPADO) É loucura. Me desculpe. Eu, mais do que todos, não tinha esse direito de mexer com coisas que perturbam você. Tem razão, foi além de piadinhas idiotas pra desestressar. Me deixa aqui e volta pro hotel com as garotas. Não se preocupe, não vou ficar aborrecido. Só espero que não fique aborrecido comi...

KRYCEK: -(IRRITADO) Mulder, eu quero dar um soco na sua cara e duvido que alguém ficaria contra mim diante dessa situação! Eu não sei se chuto você pra fora do meu carro, se soco você ou se atiro na sua perna, pra você nunca mais esquecer do que aprontou comigo! Me jura agora, aqui, olhando na minha cara, que você nunca mais vai mentir pra mim, entendeu? Por melhores que sejam as suas intenções!

Mulder olha pra ele.

MULDER: -(CULPADO) Eu nunca mais vou mentir pra você, Krycek. Eu juro.

Mulder abaixa a cabeça. Krycek olha pra ele. Suspira. Olha pro hotel.

KRYCEK: - ... Eu não acredito que vou ter que dividir uma cama com você por dois dias e aguentar a sua cara! Você pirou! Pirou mesmo! E nem vem com beijinho e amorzinho pra cima de mim na frente dessa gente, mas nem que tenha tomado o estoque de vodca inteiro da América! Entendeu?

Mulder cabisbaixo. Krycek esmurra o volante.

KRYCEK: - Que droga, Mulder! Se tivesse me contado a verdade...

MULDER: - Você não viria.

KRYCEK: - Se tivesse me contado a verdade, eu viria sim, pra não deixar meu amigo sozinho nessa merda toda! Eu tô mais furioso nem é com a porra do que você fez! Estou furioso é porque você me escondeu as coisas! Não confia em mim? Depois de todos esses anos...

MULDER: - Eu confio em você! Só pensei que se contasse que era um hotel gay você cairia fora com medo!

KRYCEK: -(IRRITADO) E lá eu tenho medo de ir pra hotel gay com você, Mulder? Por acaso você virou flor do dia pra noite? Porque eu me garanto! Quantas coisas já fizemos juntos, até dividir uma cama! Bom, dizem que se o cara não vira até os 50, depois não corre mais perigo, mas você ainda nem chegou nos 50, melhor eu tomar cuidado... Ah já sei, você arrumou esse caso como desculpa pra me trazer pra um hotel gay. Não precisava. Bastava atravessar a rua. Por baixo, pra ninguém ver.

MULDER: -(INCRÉDULO) Quê? Olha aqui, eu vou descer, antes que eu esmurre a sua cara!

KRYCEK: - (IRRITADO) Ah, agora a moça tá furiosa? Doeu no dela? No meu não dói?

MULDER: - (IRRITADO) Vá se ferrar, "Ratatouille"!

KRYCEK: - (IRRITADO) Você é quem vai se ferrar entrando sozinho num lugar desses, Raposão! Não sabe o que aconteceu com o rapaz! E se matarem você? Ahn? E se for um bando de tarados pervertidos e fizerem com você o que Sharapov fez comigo? Você acha que eu não ligo? Eu ligo, porque não desejo isso pra ninguém! Nem quando você era meu inimigo!

MULDER: -(IRRITADO) Eu sei me defender sozinho! Não preciso de você!

KRYCEK: - (IRRITADO) Ah, eu sei que sabe! Você é o Rambo! Acertam a sua cabeça e quero ver você reagir! Mulder, você é uma criança crescida! Se somos irmãos, você é o caçula idiota que só faz idiotice e o mais velho tem que tirar você das encrencas em que se mete!

Os dois ficam de beiço, virando as caras. Krycek liga a picape.

KRYCEK: -(IRRITADO) Mais louco que você sou eu! Sou eu que ainda me importo em ajudar você! E nas piores coisas! Nas melhores nunca! Todo mundo vaza da sua volta quando o serviço sujo aparece! Deixa o Krycek se ferrar nessa! É o Krycek mesmo, quem liga? Todo castigo pra ele é pouco!

MULDER: - ... Eu ligo. Eu tenho amigos. E tenho um amigo irmão. Só um irmão aceita fazer uma merda dessas pelo outro. Eu tenho noção do que arrumei pra você. Mas eu sei que só você mesmo pra fazer isso. E fico feliz que você esteja nesse carro comigo, encarando essa situação ridícula. Me sinto mais seguro. Sei que se alguma merda acontecer, você tá ali pra me tirar dela. Como sei que você sabe que a recíproca é verdadeira.

KRYCEK: -(IRRITADO) Então tivesse me dito logo a verdade!

Mulder abaixa a cabeça. Krycek engata a marcha e avança pelo portão.


7:14 P.M.

Recepção. Duas malas ao lado de Krycek, que observa o saguão da mansão antiga, conservada e bem decorada. Mulder parado no balcão. O recepcionista, Andrew, se aproxima. É um jovem louro, muito bonito, corpo sarado e com jeito de modelo.

MULDER: - Tenho reservas em nome de Fox Mulder e Alexander Krycek.

Krycek olha irritado pra Mulder. Mulder ainda culpado.

ANDREW: - Identidades, por favor.

Mulder abre a carteira e entrega a carteira de motorista. Krycek faz o mesmo, olhando atravessado pra Mulder.

MULDER: - Somos um casal.

ANDREW: -É, eu sei. Policiais... Profissão perigosa. Não usam farda? Acho muito sexy homem de farda, com distintivo, armado, segurando algemas e um enorme cassetete na mão. Se descer a porrada então, vira paixão eterna.

Krycek arregala os olhos. Andrew devolve os documentos e mexe no computador.

MULDER: -(CULPADO) Eu sou detetive particular, ele é quem fica sexy de farda, mas ele detesta usar farda. Uma pena... Mas eu trouxe as algemas. E ele trouxe o cassetete enorme que "eu" adoro.

Krycek olha incrédulo pra Mulder. Andrew sorri, analisando discretamente com os olhos, a "anatomia" de Krycek.

MULDER: - Por que fazem tantas perguntas naquele questionário, apenas pra uma reserva?

ANDREW: -É a primeira vez de vocês nesse hotel. Então vou explicar o motivo de tanto cuidado. E tenho certeza de que voltarão mais vezes ao Pine Tree, depois dessa experiência. Não somos qualquer hotel, senhor Mulder. E vai notar isso. Creio que o senhor há de convir comigo que se quisesse um final de semana comum, poderia ir pra qualquer hotel e arriscar sua imagem ou ser flagrado em "delito". Selecionamos nossos clientes por questões de segurança, sigilo e discrição. O que oferecemos é um final de semana romântico e inesquecível.

KRYCEK: - (CONTRARIADO) Vai ser inesquecível, tenho certeza disso!

MULDER: -Mesmo assim... É estranho.

ANDREW: - Somos uma casa com 16 quartos. O senhor colocaria qualquer pessoa dentro da sua casa? Sentiria-se seguro em seu quarto, sem saber que tipo de pessoa estaria no quarto ao lado, se uma pessoa de bem ou um bandido? Gostaria de ser incomodado ou sofrer algum tipo de assédio? Aqui nós nos preocupamos pelo senhor, para que possa sentir-se livre por todas as nossas dependências, como se fosse a sua casa. Nossos clientes são pessoas como o senhor. Pessoas decentes, trabalhadoras, com um certo nível educacional, por isso pedimos tantas informações. Aqui vocês não são hóspedes, são convidados.

O recepcionista entrega um panfleto.

ANDREW: - Terá mais informações do hotel aqui e das atividades que dispomos para os casais, como sauna, piscina, caminhadas, podem cavalgar, pescar, nadar, temos cachoeira, jantar a luz de velas ao luar... São tantas atividades!

MULDER: - (DEBOCHADO) Gostei do jantar de velas ao luar. O que você acha, amorzinho?

KRYCEK: - Interessante. Vocês têm flores? Acho que ele merece um buquê, depois do Oscar de filho da puta do ano.

ANDREW: -E tomem sempre o cuidado de falar comigo sobre o programa que gostariam de fazer, porque nós temos o cuidado de outro casal não estar na mesma área. Muitos casais curtem banho de cachoeira nus e eu recomendo.

MULDER: - (DEBOCHADO) Vai ser legal não acha, Alex? Eu e você como viemos ao mundo, é tão romântico e perverso que me deixa excitado só de pensar.

KRYCEK: - Ah sim, estou tão excitado com isso, Mulder. Mal espero a hora de ir pra cachoeira. (COCHICHA PRA MULDER) Afogar você sem piedade alguma!

ANDREW: -Entendeu porque temos toda uma preocupação e seleção de pessoas? Também queremos nossa segurança e nenhum problema aqui dentro. Já sofremos discriminação lá fora, seria desagradável ter que chamar a polícia e ser motivo de piadinhas, fora a exposição de precisar testemunhar ou ser preso. Sua reputação é tudo, não é mesmo? Grande parte dos nossos clientes são homens casados e que tem família e muito a perder. Imagina vocês que são policiais, seus colegas machões chegando aqui para atender uma ocorrência e encontrarem vocês dois? Seria fim de carreira, casamento e toda a vida social. Muito injusto, entende? Precisamos ser responsáveis e garantir a segurança e sigilo dos clientes.

MULDER: - É... Entendo. Detestaria que acontecesse alguma confusão aqui, e eu acabasse tendo que me expor, sou policial, sei que a polícia faria perguntas e até poderia ligar pra minha esposa. Imagina, Alex, se as nossas esposas soubessem aonde estamos?

KRYCEK: - É. A minha então nem faz ideia! Se a nanica descobrir, mata você. E depois me arranca os pedaços gritando em espanhol.

ANDREW: -Nossos quartos são por cores, cada um com uma decoração diferente. Pode ver pelas chaves. Alguma cor favorita?

MULDER: - Gosto do dourado. É chique!

ANDREW: -Ótima escolha, é um quarto lindo, ao estilo vitoriano, super romântico, você e o seu namorado vão adorar! (COCHICHA PRA MULDER) E a cama tem grades pra você se deixar algemar. Seu namorado é muito sério e quieto, parece sempre de mal humor. Tem jeito de tira malvado com aquela jaqueta de couro. Aposto que bate forte.

MULDER: -(DEBOCHADO/ COCHICHA) Você nem imagina! Ele tem uma pegada violenta. Já chega socando, empurrando, me jogando em cima de qualquer coisa e me fazendo de saco de pancadas.

ANDREW: - Sortudo!Vem, vou levar as bagagens. Por favor me sigam, temos um elevador, a casa tem três andares. E tem uma história toda.

O recepcionista pega a chave e as malas.

ANDREW: - Me sigam, senhores. Essa casa é do período da guerra civil. Serviu de enfermaria para os confederados...

Um casal de homens desce as escadas. O recepcionista olha pra Mulder e Krycek.

ANDREW: - Os senhores poderiam aguardar? Eu vou preencher a saída desse casal e já subimos.


7:55 P.M.

O recepcionista abre a porta com a chave. Entra com as malas. Mulder e Krycek observam o quarto enorme, em estilo vitoriano, todo decorado e com detalhes dourados nas cortinas, mobília e quadros. O recepcionista coloca as malas no tapete. Entrega a chave pra Mulder.

ANDREW: -Se precisarem de alguma coisa, basta chamar a recepção. Creio que depois de interagirem com o ambiente vão perceber que cuidamos de cada detalhe para que nada falte. As refeições são servidas à hora em que desejarem, basta ligar pra cozinha. Tenham uma boa noite.

Krycek tira a carteira.

ANDREW: - Não se preocupe. Não aceitamos gorjetas.

O recepcionista sai fechando a porta. Krycek se atira na poltrona. Mulder anda pelo quarto.

KRYCEK: - Por que disse aquilo na recepção? Praticamente disse que eu sou o seu homem!

MULDER: - Pra que você não se sentisse pior do que já está se sentindo. Me coloco na sua pele e penso que psicologicamente isso deve perturbar você por causa da violência que sofreu, então é justo dizer que você é o homem.

KRYCEK: -... Não precisava ter feito isso. Eu sei que é uma coisa humilhante pra um homem.

MULDER: - Depois do que eu fiz pra você... Acho que é justo virar a piada.

KRYCEK: - Mulder, não quero que se sinta culpado. Vamos esquecer, tá? Já passou. Estamos aqui mesmo. Então vamos nos deter em fazer o que viemos fazer aqui.

Mulder para diante de um balcão no quarto, cheio de frascos lacrados e um pote de vidro cheio de preservativos. Ergue um preservativo mostrando pra Krycek. Krycek começa a rir.

MULDER: - Prevenção, Rato. Todo cuidado é pouco.

KRYCEK: - Não se preocupe, eu só transo com a minha garota.

Mulder pega um frasco. Lê o rótulo.

MULDER: - Uau! Gel anestésico!

KRYCEK: - É, acho que você vai precisar de todos os frascos nesse balcão.

Mulder olha debochado. Coloca o gel no bolso. Krycek olha incrédulo.

MULDER: -(DEBOCHADO) Não me pergunte nada. Só vou usar daqui alguns meses. Evita gritaria e barulhos desnecessários durante a noite.

Krycek põe a mão no rosto, rindo.

KRYCEK: - Mulder, você não presta! Não sei como a Scully ainda não foi canonizada em vida!

MULDER: - Hum... Também temos óleos essenciais... Você prefere algum aroma em particular?

KRYCEK: - Vodca russa. Tem?

MULDER: - Quer me manter afastado de você, né, amorzinho?

Krycek percebe as revistas na mesa ao lado da poltrona. Pega uma. Folheia. Mulder olha pra mesa. Uma garrafa de vinho importado e uma cesta de frutas.

MULDER: - Hum, temos frutas e vinho italiano legítimo. Cortesia da casa. Nossa noite de amor promete, Rato!

Mulder liga a TV. Sexo grupal entre homens. Mulder arregala os olhos. Desliga a TV.

MULDER: - A programação hoje está nervosa...

Krycek abre a página central da revista e mostra pra Mulder.

KRYCEK: - E temos um peludão chamado Jim Fast!

MULDER: - (DEBOCHADO) Nossa, que delícia! Adoro um macho enorme e peludo em cima de mim!

Krycek rindo lê a revista.

KRYCEK: - (LENDO) Americano, 1,98 metros, 130 quilos, 25 centímetros de pênis, não circuncidado... (ARREGALA OS OLHOS) Tá de brincadeira! 25 centímetros?

MULDER: - (DEBOCHADO) É um cavalão! Já tô até com água na boca, você não está?

Krycek dá uma gargalhada, fecha a revista e joga na mesinha. Se levanta.

KRYCEK: -Sério, chega de palhaçada, Mulder. Vou falar uma coisa pra você. Eu já percorri diversos países pelo mundo, ficando em hotéis caríssimos, mas é a primeira vez na minha vida que vejo um hotel dessa classe e com serviço disponível 24 horas por dia.

MULDER: -Viu, "amorzinho"? Nunca levei nem a Scully pra um lugar chique assim. E a cama é enorme!

Mulder atira-se na cama, num olhar debochado, fazendo posição sexy e dá um tapinha no colchão.

MULDER: -(DEBOCHADO) Scully tá grávida e eu ando na secura. E aí, Rato? Prometo ser bonzinho.

KRYCEK: - (SACANA) Isso me tranquiliza, pelo menos sei que você não vai relutar quando eu te pegar de jeito com o meu cassetete enorme.

Mulder se deita de costas, rindo. Observa o quarto. Krycek sorri sacana. Tira a jaqueta, olhando pra Mulder.

KRYCEK: - Tá pensando no que estou pensando?

MULDER: - Mas aonde vamos conseguir chicote e roupa de couro numa hora dessas?

KRYCEK: - Mulder, fala sério!

Krycek pega sua mala e coloca sobre a cama. Mulder detém os olhos no espelho do outro lado, em frente a cama.

MULDER: -(SÉRIO) Fala mais nada, Alex. Não viemos aqui pra falar. Chega de brincadeiras, é sério. Deita aqui comigo.

Krycek olha incrédulo pra Mulder. Mulder olha fixamente pra ele como quem tenta dizer alguma coisa com o olhar.

MULDER: - Deita, vem. Por favor, amorzinho. É sério. Muito sério.

Krycek desconfia. Deita-se ao lado dele. Mulder se vira pra ele, aproximando os lábios do ouvido de Krycek.

MULDER: - (COCHICHA) Tem escutas e câmeras. Olha o espelho.

Krycek se levanta. Liga a televisão.Sexo grupal entre homens. Krycek arregala os olhos. Muda de canal rapidamente, até achar um canal de esportes.

KRYCEK: - Não, não vou deitar agora. Vou desfazer minha mala. Vamos ter tempo pra isso...

Krycek para em frente ao espelho. Ajeita o cabelo.

KRYCEK: - Mulder, você detesta espelhos. Reparou que tem um aqui? Vai realizar minhas fantasias hoje?

Mulder se levanta da cama, puxando o lençol. Dobra e cobre o espelho.

MULDER: - Não. Não gosto de olhar pra mim enquanto fazemos sexo. Sabe que esse nosso pequeno delito ainda me deixa culpado.

Krycek abre a mala.

KRYCEK: - Tá pronto pra noite, amorzinho? Não sou cara de perder tempo. Você prefere o pequeno e grosso ou o comprido e fino?

Mulder olha em pânico. Krycek tira um detector de escutas e uma luz negra comprida, mostrando os dois pra ele, enquanto dá um sorriso sacana.

MULDER: - Sem graça você! Me dá o pequeno.

KRYCEK: - Tem nada pequeno aqui, Mulder. Mas não se empolgue, não tem 25 centímetros.

Mulder começa a rir. Pega o detector de escutas e sai pelo quarto, checando. Krycek analisa a parede ao redor do espelho. Puxa um canivete do bolso traseiro. Deita-se no chão. Começa a retirar o papel de parede. Mulder passa em frente ao abajur no criado mudo. A luz do aparelho pisca. Mulder senta-se na cama, solta o aparelho e retira a cúpula do abajur.

MULDER: - Então Rato, sua mulher não desconfiou quando você resolveu pescar comigo?

KRYCEK: - (CAVOCANDO A PAREDE) Não, Mulder. E a sua?

MULDER: - (TIRANDO UMA ESCUTA E ERGUENDO/ OBSERVANDO) Ficou aborrecida, mas não desconfiou. Está ficando difícil pra gente se encontrar sem levantar suspeitas.

KRYCEK: - (CAVOCANDO A PAREDE) A sociedade é uma merda, sabe? O que é diferente não se encaixa...

Mulder segue procurando escutas. Krycek finalmente abre um buraco na parede de gesso. Se levanta, vai até a mala, pega uma lanterna e um alicate.

MULDER: - Gostei desse hotel. Acho que podemos voltar outro dia.

Krycek se deita no chão novamente e mira a lanterna no buraco, vendo outro cômodo e o tripé de uma câmera de vídeo. Volta a escavar a parede e começa a ampliar o buraco.

KRYCEK: - Mais tarde tomamos um banho, pedimos um jantar, bebemos alguma coisa, a noite é grande. E eu não costumo dormir à noite.

MULDER: - É, não pode. Uma noite que você dorme, já vira o relógio biológico de novo e quando volta pro trabalho, já não aguenta mais o turno da madrugada.

Mulder sobe na cama, apontando o aparelho para a lâmpada. O aparelho pisca. Krycek leva o alicate pelo buraco, cortando o fio da câmera.


9:21 P.M.

No canto do quarto, Krycek atirado na cadeira, com os pés sobre outra. Mulder sai do banheiro.

MULDER: -Temos um problema. Tem duas toalhas escritas "Ele". A azul é minha. A vermelha é sua porque você é comunista.

Krycek pega uma maçã e atira em Mulder, que desvia.

KRYCEK: - Ah, tá ficando esperto!

MULDER: - Admita, somos espertos. Agora podemos conversar, tomar banho e usar o banheiro. Tinha uma câmera escondida no banheiro.

Mulder senta-se.

KRYCEK: - Uma câmera escondida atrás de um espelho de frente pra cama. Outra câmera escondida no banheiro. Soma. Você é esperto.

MULDER: - Eles gravam os caras fazendo sexo, tomando banho e até urinando, se você quer saber. Um voyeur não se daria a todo esse trabalho, por mais doente que fosse.

KRYCEK: - Quem é o dono desse hotel?

MULDER: - Não faço ideia, ainda. Amanhã perguntaremos ao Andrew.

KRYCEK: - Mulder, nem todo gay é assumido porque ainda existe muito preconceito. E agora vamos começar a falar sobre os bissexuais. Nós dois por exemplo, nessa situação aqui. Caras casados que curtem fugidinhas com homens. Então vamos supor que eles selecionam a clientela pelo que eles tem a perder. Gravam o cara transando com outro cara, depois chantageiam, ameaçando mandar a fita pra esposa, pra família. O cara desesperado paga o que pedirem. A chantagem nunca vai parar, por isso eles têm toda essa infra-estrutura. É uma quadrilha.

MULDER: - Concordo em partes.

KRYCEK: - Julian foi chantageado, não tinha dinheiro, então sumiu. Talvez tenham tentando chantagear o pai dele.

MULDER: - Já digo se a sua teoria tem fundamento. É uma boa teoria... Rato, abre esse vinho.

Krycek pega a garrafa. Mulder pega o celular e liga. Krycek abre o vinho.

MULDER: - (AO CELULAR) Senhor Willcox, é Fox Mulder... Não, ainda não, mas já estou na Carolina. Eu preciso fazer uma pergunta e me responda honestamente...

Krycek serve duas taças.

MULDER: - (AO CELULAR) O senhor recebeu alguma gravação, foto, qualquer coisa que denegrisse a imagem do seu filho? ... Não? Nem foi chantageado de alguma maneira? ... Não, é apenas para eliminar possibilidades... Sim... Certo. Boa noite.

Mulder desliga.

MULDER: - Não é isso.

KRYCEK: - Mulder, se não é por dinheiro é por prazer. Então temos um tarado que gosta de ver.

MULDER: - Um cara que gosta de ver porque não tem coragem de fazer, de se assumir... Krycek, estamos entrando num terreno perigoso. Um serial killer?

KRYCEK: - Por que não? Justifica o desaparecimento do rapaz e o namorado dele. A não ser que filmem e vendam pra sites pornôs.

MULDER: - E quem pagaria? Sites pornôs não compram vídeos, tem caras que mandam de graça. Existem pessoas que gostam de se expor publicamente, isso é um prazer a mais pra eles. Não pagariam por esse tipo de filme. Se incluísse fetiches, assassinato, algo totalmente hardcore e insano, até poderia ser. Mas não um casal de gays transando por amor ou prazer. E depois quem paga essas coisas prefere pagar diretamente a quem está no vídeo.

KRYCEK: - Como assim?

MULDER: - Existem pessoas que ganham a vida gravando-se ao vivo e cobrando pra quem quer assistir. Fazem qualquer fetiche que o cliente virtual deseja.

KRYCEK: - Você entende disso, né?

MULDER: - Digamos que eu já tive meus dias de solidão. Custam caro em todos os sentidos. Você paga pra ter atenção. Até pra conversar. É um serviço, elas vendem seu tempo, é justo.

KRYCEK: - Nem diria solidão, porque eu também tive os meus dias de solidão, que não eram poucos, mas não recorria a isso. Você tinha era timidez e baixa autoestima. Eu nunca fui tímido, mas a minha autoestima baixa surgia quando eu pensava no que me aconteceu. Então, como ninguém sabia, eu levava minha vida sexual fingindo ter autoestima enorme.

MULDER: - Como eu disse pra você, uma mulher estuprada nunca supera totalmente, mas pela sua condição de mulher, ela vai levando a vida na raça. Já pra um homem em situação semelhante, isso vai pra cama com ele pelo resto da vida. A mulher que sofreu abuso, se ela tiver um homem carinhoso e que entenda pelo que ela passou, com o tempo ela aprende a confiar de novo e a se entregar, mesmo que os traumas ainda permaneçam. Mas pra um homem, tudo é mais difícil, porque lhe foi tirado a dignidade de macho e isso é algo forte dentro da gente, que as mulheres nunca entenderão. Elas são passivas, é a natureza. Nós somos ativos, é a natureza. E quando isso se inverte pra um homem, nesse contexto de violência, de não permissão, ferra com a cabeça do cara porque ele começa a achar que não é mais homem. O que é uma mentira.

KRYCEK: -Pelo menos você compreende isso... Mas eu nunca entendi você, Mulder. Você é um cara bonito, inteligente, educado, tem presença, é o tipo de homem que deixa as mulheres malucas, mas vivia retraído na sua, tendo que pagar por atenção e sexo, e o pior, sexo que nem real era!

MULDER: - Baixa autoestima, timidez, insegurança e medo de perder. Traumas da vida. Mas depois comecei um tratamento com uma medicação chamada Dana Scully, acabei viciando e superando qualquer trauma na minha cabeça. E você aceitou finalmente a medicação Barbara Wallace que lhe receitei.

KRYCEK: -Acabei viciando e tem me ajudado muito a superar traumas também. Eu acho que ela entendeu, sabe? Ela tem sensibilidade. Ela faz questão de me tratar como homem, de me chamar de homem, e algumas vezes penso que ela faz isso pra... Como eu vou dizer...

MULDER: - Pra reforçar sua autoestima como macho.

KRYCEK: - Isso. Barbara se coloca muitas vezes como uma mulher vulnerável, só pra elevar meu ego de macho.

MULDER: - Numa tentativa de fortalecer sua masculinidade em detrimento de qualquer pensamento traumático que você possa ter, reforçando o contrário. É uma boa tática. Funciona?

KRYCEK: - Tem funcionado. E eu não me prevaleço disso, eu entendo o jogo dela. Ela me ajuda e eu devo respeito àquela mulher forte que parece fraca de tanto que é sentimental, mas que tem uma força sobrenatural pra conseguir carregar um cara como eu e me ensinar como andar de novo. Não dá mais pra ficar sem ela, Mulder. Nem pra ficar longe por muito tempo. O rato caiu na ratoeira. E não quer mais sair. É bom ser dois. Você tinha razão.

MULDER: -(SORRI) O amor, Rato. O amor é a cura pra tudo. A mulher certa faz toda a diferença pra um homem. E a errada também. A mulher certa nos traz para a vida. A mulher errada nos enterra de vez. Fazer o quê? Somos apenas homens, a força mesmo está com elas.

Os dois riem. Mulder pega uma maçã. Dá uma mordida.

KRYCEK: -Bom, sabemos que ninguém morreu nesse quarto, porque passamos a luz ultravioleta e o luminol. Tudo o que encontramos foram manchas pelo colchão e o quarto inteiro que não eram sangue, mas esperma... Estou perdido. Manter um hotel pra olhar os outros? Isso é totalmente ilógico.

MULDER: - Rato, ilógico é pensar que o ser humano tem limites. Ele não tem. Não vamos descartar essa teoria.

Mulder para de mastigar.

MULDER: - Me diz que checamos essas frutas.

KRYCEK: - (RINDO) Não.

Mulder faz cara de pânico.

KRYCEK: - (RINDO) Mentira Mulder. Não tem nada nas frutas.

Mulder cospe fora e larga a maçã. Krycek desata a rir. Mulder vai pro banheiro.

KRYCEK: - E se estamos ligando fatos que não estão ligados? Temos um voyeur e Julian esteve aqui e foi embora realmente? Pelo menos vimos um casal saindo. E se ele fugiu e está tentando pregar uma peça no pai por vingança? Ou se o sujeito com quem ele estava o matou em outro lugar, depois que saíram daqui, por isso também está desaparecido?

Mulder sai do banheiro limpando a boca. Senta-se. Bebe um gole de vinho.

KRYCEK: - Você é paranoico, sabia? Quem iria ejacular numa fruta?

MULDER: - Ah você nunca assistiu American Pie mesmo! Você não sabe o que os caras fazem com frutas e até verduras!

Krycek faz cara de nojo.

KRYCEK: - Nem quero saber! Tanta gente passando fome no mundo e os caras fodem vegetais e frutas? Falta mulher no seu país? Na Rússia temos de sobra!

MULDER: - Isso que você não é inocente, imagina se fosse.

KRYCEK: - Sei lá, essas coisas me soam absurdas.

MULDER: - A sexualidade humana é absurda. Existem fetiches pra tudo. E existem doentes pra tudo. Parafilias extremas.

KRYCEK: - ... Quando eu era jovem e vivia nas ruas de Moscou, Vanya atendia mulheres também. Ela atendia quem pagasse. Uma noite, uma cliente dela, quis me colocar no pacote. Isso acontecia algumas vezes.

MULDER: - (CURIOSO) Conta pra mim. Você transou com mais de uma ao mesmo tempo?

KRYCEK: - Sim. Até com três. Eu tinha sexo e ainda ganhava pra isso. Não com meninas da minha idade, era com mulheres experientes e com pelo menos o dobro da minha idade ou mais. Um bom negócio na época, pra um garoto de rua sobreviver. Então essa cliente dela um dia me pagou em dobro. Mas trouxe o marido. O cara queria assistir.

MULDER: - Você topou?

KRYCEK: - Topei, achando aquilo estranho. Nunca tinha ouvido falar de voyeurismo. Foi esquisito. Uma hora eu olhei pro cara e ele tava se masturbando olhando pra mim. Juro pra você que quase broxei na hora. Depois disso não quis mais atender a mulher por rublo algum. Então mesmo não sabendo sobre frutas e verduras, eu sei do que as pessoas são capazes de fazer. Veja bem, eu não tô discriminando ninguém. Não é porque A não me serve, que vou desprezar o A. Cada um na sua. E aquilo não me servia, nem por dinheiro algum.

MULDER: -Eu já falei pra você que quando eu era jovem, comecei a tomar gosto por Freud e uma das teorias dele me deixou perturbado, porque se encaixava na minha vida: pai omisso, mãe repressora, a culpa da menina ter sido abduzida e o menino indesejado ter ficado... Eu comecei a achar que se as garotas não olhavam pra mim, era porque eu era gay sem saber. No final das contas, precisei fazer faculdade de psicologia pra descobrir a Phoebe Green e o quanto eu realmente adorava mulher. Minha primeira vez foi em cima da sepultura de Sir Artur Conan Doyle.

KRYCEK: - (RINDO) Sherlock Holmes deve ter se revirado no túmulo! Pelo menos foi com a garota que você gostava. Acho que naturalmente, tudo tem seu tempo. No meu caso, não foi muito naturalmente. Por que a gente tá aqui conversando essas coisas?

Mulder ergue a taça.

MULDER: - Um brinde a nossa amizade!

Os dois brindam.

MULDER: - Acho engraçado, sabe? Eu não consigo ter esse tipo de conversa com os caras. Acho que quando comecei a usar você como projeto de pesquisa do pós-graduação...

Krycek começa a rir. Mulder boceja.

MULDER: - Sei lá, você conseguiu se abrir e me contar coisas que me deixam até hoje de cabelo em pé... Então, acho que nada do que eu disser sobre mim vai chocar você. Já os outros, por mais amigos e malucos que sejam... Eu não teria coragem. Não mesmo... (SORRI) A vida é engraçada, Krycek. Quando algum dia, lá no passado, a gente poderia imaginar que éramos tão parecidos e que um dia estaríamos conversando coisas desse tipo?

KRYCEK: - E num hotel gay.

Mulder ri.

KRYCEK: - Você me ajudou muito, Mulder. Como amigo e como psicólogo, mesmo quebrando as regras da profissão. Por sua causa, somente sua causa... Eu encontrei a Barbara.

MULDER: - Tá caidinho por ela, né? Dá pra ver. Vocês formam um casal maluco tanto ou quanto Scully e eu.

KRYCEK: - Posso perguntar uma coisa íntima pra você?

MULDER: - Rato, estamos num hotel gay, fingindo ser gays, quer coisa mais íntima que isso?

KRYCEK: - Mulder, há algum tempo, pra dizer a verdade, há alguns anos, eu cheguei a conclusão que a Barbara é a mulher da minha vida. Que eu quero envelhecer com ela... Não ria...

MULDER: - Não vou rir. Eu fico muito feliz em ouvir isso.

KRYCEK: - Então... Eu sei que ela quer casar. Eu também estou disposto a oficializar isso. Mas não sei como. Como você falou sobre casamento com a Scully?

MULDER: - Na verdade, depois de tanta indireta da parte dela, sei lá, as coisas foram acontecendo. A gente casou até na beira de uma lagoa. Terminamos com a coisa da igreja...

KRYCEK: -Eu quero fazer algo que surpreenda a Barbara. Ela é toda romântica, quero um casamento que ela nunca mais esqueça. Ela merece, sabe? Sei que toda mulher sonha com algo diferente. Eu quero estar a altura, fazer o inimaginável, tornar isso mágico pra ela. Sou um sapo, Mulder, só quero é ser um príncipe pra aquela mulher, nem que seja apenas por um dia.

MULDER: - Posso ajudar você a pensar. Mas juro que agora não. Eu deveria ter dormido hoje à tarde, mas a Scully queria massagem nos pés e lamaze, fazendo beicinho de peixe...

KRYCEK: - Você disse uma coisa no carro hoje... Você disse que eu não sabia o que era perder um filho. Eu sei, Mulder. Mesmo que ainda fosse um feto, era meu filho, sangue do meu sangue. Pode não parecer, mas eu tenho sentimentos. Eu não demonstro, porque aprendi que demonstrar sentimentos o torna fraco diante das pessoas e isso as faz pisarem em você de todas as formas possíveis.

MULDER: - ... Eu lamento pelas coisas que eu fiz e disse, Krycek. Eu posso ser um cretino quando quero. Scully sempre me alerta disso. E eu sei que você tem sentimentos. Eu sou um homem que chora e você um homem que banca o durão. Essa é a diferença. Eu demonstro, você não. Mas ambos somos seres humanos e sangramos da mesma maneira.

KRYCEK: - Tudo bem, Mulder. Quem nunca foi um cretino? Quem sou eu pra ficar de birra eterna com você por isso? Mais cretino do que eu já fui na vida...

Mulder se levanta.

MULDER: - Sério, Rato. Eu sei que não quer filhos, mas sabe que isso pode acontecer de novo.

KRYCEK: - É, Mulder, eu desci para o play, tenho que saber brincar e mesmo assim, pode acontecer.

MULDER: - Eu nunca quis filhos, pensando na herança genética que daria a eles, os meus genes ruins. Medo de não ser pai o suficiente, por não ter referências do que é ser um bom pai. Medo de repetir com eles o que eu passei, de encher meus filhos de traumas como meus pais me encheram. Ser um mentiroso como Bill ou um cretino como o Spender.

KRYCEK: - Eu só penso que é um mundo cruel demais pra colocar uma criança inocente nele.

MULDER: - Pode ser cruel. Você sabe que é, você passou por boas. Mas pense que seu filho não irá passar por isso. Você teve um bom pai, sabe o que é amor paterno. Um exemplo de homem na sua vida. Você não será diferente com o seu filho. Ele terá um exemplo e um protetor dentro de casa. Como seu pai foi, você será. E será mais ainda, porque você conheceu a maldade e estará atento ao máximo para afastar seu filho de tudo que possa causar dano a ele.

Krycek abaixa a cabeça.

MULDER: - Vou colocar o lençol naquela cama suja, pelo menos o lençol tá limpo. Me acorda às três, eu faço o segundo turno.

Krycek sorri.

KRYCEK: - Boa noite, Mulder.

Mulder vai pra cama. Krycek tira a arma da cintura e coloca sobre a mesa. Bebe um gole de vinho.


2:23 A.M.

[Som: Rockwell - Somebody's Watching Me]

Vemos pela tela de computador sobre a escrivaninha.

Imagem em preto e branco, do infravermelho da câmera filmando: Mulder, dorme nu na cama, de bruços. Um braço por cima dele.

Ouvimos uma respiração masculina ofegante, que sente prazer no que vê.

Ele é alto, grande, gordo e forte, vestindo apenas um sobretudo, usando um chapéu. Senta-se na cama. Leva a mão com luva de couro, acariciando o traseiro de Mulder e depois o agarrando com força. Solta um gemido de êxtase. Leva a outra mão entre as pernas, se masturbando.

Corte.


Escuridão.Vemos toda a cena através do infravermelho da câmera. Mulder abre os olhos. Passa a mão no corpo e percebe que está nu. Sente o braço por cima dele. Mulder passa a mão no braço que o envolve, sentindo pelos, então arregala os olhos. Afasta o braço de cima dele. Sem ver nada e confuso, leva a mão tentando encontrar um abajur que não tem.

MULDER: -(NERVOSO/ IRRITADO) Krycek!!! Que merda tá acontecendo? Enlouqueceu?

Nenhuma resposta. Mulder desiste de achar o abajur. Leva a mão pro lado, assustado, meio zonzo, sem ver nada na escuridão. Toca nas costas nuas de Krycek. Mulder dá um sobressalto. Sente o ombro de Krycek. Mulder recua, assustado, confuso.

MULDER: -(INCRÉDULO) Rato, é você?

Nenhuma resposta. Mulder tateia as costas de Krycek. Faz cara de pânico ao perceber que Krycek também está nu. Mulder cutuca Krycek.

MULDER: - (FURIOSO/ ASSUSTADO) Krycek, acorda, seu filho da puta! Que merda é essa?

Krycek nem se move. Mulder salta furioso da cama. Tenta se guiar no escuro. Como nada vê, dá com o rosto na parede de vidro.

MULDER: - Au!!!!!

Mulder esfrega o nariz.

MULDER: - (IRRITADO) Droga! Tinha um móvel aqui!

Mulder tateia a superfície e então percebe que é vidro. Mulder fica mais confuso. Tenta voltar pra cama, consegue achar o colchão. Mulder senta-se, desatinado, colocando as mãos no rosto.

Ouvimos a respiração masculina, descompassada, ansiosa.

As luzes acendem. Mulder vira-se rapidamente olhando pra Krycek nu, de bruços e desacordado. Percebe o sangue que escorre da cabeça de Krycek para a testa. Mulder o sacode.

MULDER: - Krycek, acorda!!!

Krycek não se move.

MULDER: -(DESESPERADO) Ah, Rato, me diz que você está vivo!!!

Mulder pega o pulso de Krycek. Sente a pulsação. Respira aliviado. Então presta atenção ao redor.

Close nos olhos de Mulder, arregalados e assustados.



BLOCO 2:

Luzes acesas. Uma cela de vidro, cercada por câmeras em trilhos. Uma das paredes é metal. Na cela um quarto com cama, mesa para dois, um aparelho de TV, pia, vaso sanitário e um box transparente com chuveiro. Três vasos de plantas.

Mulder, sentado no chão, de costas pra uma das câmeras, recostado na parede de vidro, com o travesseiro entre as pernas. Olhar vazio, perdido.

Krycek abre os olhos. Senta-se na cama, atordoado. Leva a mão à cabeça, depois à testa. Olha para os dedos sujos de sangue. Então percebe que apenas um lençol o cobre.

MULDER: - Melhor voltar a dormir. Acaba de acordar num pesadelo.

Krycek se levanta, enrolando o lençol na cintura, observando o lugar com incredulidade.

MULDER: - Você tá bem?

KRYCEK: - Mulder... O que aconteceu? Que lugar é esse? E por que diabos estamos pelados?

MULDER: - Por causa daquilo?

Mulder gesticula pra câmera atrás dele. Krycek então percebe as câmeras ao redor da cela de vidro. Entra em pânico.

MULDER: - E se olhar pra cima, tem uma câmera que filma 360 graus.

Krycek olha pra cima. Vê a câmera. As paredes altas de vidro, um teto de vidro, alguns buracos para entrar o ar. Mais acima, um espaço enorme até o teto. Krycek vai até uma das paredes e observa que a cela está num ambiente maior, como um depósito.

MULDER: - Temos uma cama, uma mesa, um banheiro sem paredes e uma televisão que não pega nenhum canal. E temos plantas.

KRYCEK: - Mulder, como chegamos aqui?

MULDER: - Não sei. Me diga você que estava acordado quando eu fui dormir.

Krycek leva a mão na cabeça, sentindo dor.

KRYCEK: - Eu... Eu não sei. Não lembro de nada, lembro apenas de estar sentado na cadeira...

Krycek, revoltado, olha pra câmera acima da cela.

KRYCEK: - (GRITA) Quem é você? O que quer da gente?

MULDER: - Poupe seu fôlego. Já gritei, perguntei e nenhuma resposta.

Krycek senta-se ao lado de Mulder.

KRYCEK: - (COCHICHA) Acha que eles nos escutam?

MULDER: - (COCHICHA) Provavelmente, mas não respondem. Talvez falando bem baixo as câmeras não captem o som.

KRYCEK: - (COCHICHA) Mulder... Preciso tanto de roupas quanto de teorias. Não tenho nenhuma.

MULDER: - (COCHICHA) Acho que temos realmente um voyeur mais perigoso, a ponto de sequestrar... E quem sabe matar? Agora imagino o que aconteceu com Julian. Ou então, seja quem for, sabe que estamos aqui pra investigar e resolveu se vingar de um jeito bem sórdido.

KRYCEK: - (COCHICHA) Mulder, observa toda essa estrutura complexa e cara, essas câmeras... Não creio que seja vingança. Estão acostumados a fazer isso. Estamos numa espécie de estúdio de televisão com paredes de vidro, cercados por câmeras, como num reality show. O cara filma. O que faz com isso é o que não tenho ideia!

Krycek fecha os olhos, angustiado.

MULDER: - (COCHICHA) Aposto que colocaram algum tipo de sonífero no vinho.

KRYCEK: - (COCHICHA) Eu mesmo abri, a garrafa estava lacrada. Só se injetaram pela rolha... Droga! Só pode ter sido isso!

MULDER: - (COCHICHA) E se sabem que não somos gays?

KRYCEK: - (COCHICHA) Se soubessem, não teriam nos colocado aqui, concorda? Já podiam ter nos matado.

MULDER: - (COCHICHA) Então mantenha a mentira. Ela vai nos levar a verdade.

KRYCEK: - (COCHICHA) Mulder, o problema da verdade é que eles vão nos matar. E o problema da mentira é que... (NERVOSO) O que acha que esperam da gente nos jogando num quarto e nos filmando?

Mulder se levanta, irritado, segurando o travesseiro entre as pernas. Puxa o lençol da cama e se enrola. Num acesso de fúria, pega uma cadeira e atira contra o vidro. Krycek se assusta. O vidro nem lasca.

MULDER: - (AOS GRITOS/ ENLOUQUECIDO/ OLHANDO PRA CIMA) Quem está aí? O que quer da gente? Fala, desgraçado!!! Eu sei que está nos observando!!!

Som de um celular tocando. Mulder e Krycek se entreolham. Krycek se levanta, os dois procuram o celular. O barulho cessa. Mulder então dirige a atenção para a televisão.

MULDER: - Krycek...

Mulder aponta pra televisão, Krycek olha.

MENSAGEM EM LETRAS: Olá meus meninos bonitos.

Mulder e Krycek se entreolham apavorados.

MENSAGEM EM LETRAS: Dormiram bem?

MULDER: - (GRITA) Seu filho da puta, você nos drogou!!! O que você quer da gente?

MENSAGEM EM LETRAS: Sim, os droguei e tirei a roupa de vocês.

Mulder e Krycek se entreolham assustados.

MENSAGEM EM LETRAS:Lindos espécimes... Desejáveis.

KRYCEK: - Seu filho da puta, o que você fez com a gente?

MENSAGEM EM LETRAS:Verdade ou desafio?

Os dois entram em pânico.

MENSAGEM EM LETRAS:LOL* (risada)

Mulder faz cara de pânico. Krycek fecha os olhos, cerrando os punhos.

MENSAGEM EM LETRAS:E os coloquei nessa cama, como bebês, Mulder. Os meus bebês.

MULDER: - Ele sabe meu nome?

KRYCEK: - Claro. Por que o espanto? Ele tem todos os nossos dados!

Mulder abaixa a cabeça, angustiado.

KRYCEK: - Ou estou errado?

MENSAGEM EM LETRAS: Alex, você é esperto.

KRYCEK: - Quem é você?

MENSAGEM EM LETRAS: Me chamem de Papai Urso.

KRYCEK: - Por que papai urso?

MULDER: - (TENSO) Rato, cala a boca. Não vai querer saber... (GRITA) Nos tire daqui, seu imbecil!!! Somos policiais!!!

MENSAGEM EM LETRAS: Eu sei. Adoro policiais, algemas e cassetetes enormes. E você disse em alto e bom som o quanto adora homens grandes e peludos em cima de você. Eu sou grande e peludo. Fiquei interessado.

Mulder arregala os olhos. Krycek cai sentado na cama, desanimado.

MENSAGEM EM LETRAS: Tem tudo o que precisam nesse quarto.

MULDER: - Ah, sim. Incluindo privacidade?

MENSAGEM EM LETRAS: Já jogaram point and click?

Krycek olha pra Mulder, como quem pergunta com os olhos.

MULDER: - São jogos de internet, você geralmente está preso em algum lugar e precisa clicar em todas as partes desse lugar, para encontrar respostas, pistas, enigmas, objetos e avançar para a próxima fase... Está falando que isso é um jogo?

MENSAGEM EM LETRAS: Sim. Prontos pra jogar?

MULDER: - Não tem nada aqui para procurar!

MENSAGEM EM LETRAS: Tudo o que precisam está nesse quarto. Papai não mente. E terão tarefas a cumprir. Tarefas que darei. Me agradem.

KRYCEK: - Isso não é um quarto! É uma jaula pra animais! E você não é meu pai!

MENSAGEM EM LETRAS: Papai não gosta de meninos ingratos. Tudo está aí, do melhor, para meus meninos. Basta procurar. O que não tiver, papai dará, mas precisam merecer. Ou terei que castigá-los por mau comportamento. Não vão querer ver papai zangado.

MULDER: - E se encontrarmos tudo e resolvermos o enigma, você vai nos soltar?

MENSAGEM EM LETRAS: Se forem bons meninos, recebem recompensa. Se forem maus meninos, recebem punição.

Mulder começa a rir, desatinado.

KRYCEK: - Que tipo de recompensa?

MENSAGEM EM LETRAS: Revelo um enigma ou objeto. E darei presentes. Cuidarei bem de vocês, como todo papai cuida dos seus meninos. Sejam obedientes. É o meu conselho.

MULDER: - O que afinal de contas você quer?

MENSAGEM EM LETRAS: Eu quero assistir. Peço uma brincadeira, vocês brincam e eu assisto. Vocês gostam de brincar um com o outro, não será difícil...

Krycek olha indignado pra Mulder, que faz cara de pânico.

KRYCEK: - É. Obrigado, Mulder! Muito obrigado pelo maravilhoso final de semana fazendo o que a gente "adora" fazer! Não vai ser difícil, ah não mesmo. Imagina! A gente é gay, adora isso!

MENSAGEM EM LETRAS: Prontos pra jogar? Mulder, euquero que você chupe seu parceiro.

Krycek arregala os olhos. Mulder fica irritado.

MULDER: - Por que eu e não ele?

Krycek olha incrédulo pra Mulder.

MENSAGEM EM LETRAS: Porque você disse ao recepcionista que era passivo. Estou sendo gentil e respeitando sua opção.

Krycek começa a rir alto. Mulder fica mais furioso.

MENSAGEM EM LETRAS: Ou estão mentindo pro papai? Sabe o que acontece quando mentem pra mim? Fico zangado. E machuco. Muito mesmo. Machuco pra valer.

Krycek se levanta, olhando pra TV.

KRYCEK: -(AOS GRITOS/ FURIOSO) Você é um maldito pervertido desgraçado! Aparece aqui! Vem você me chupar pra ver o que acontece!!!

MENSAGEM EM LETRAS: Sente-se Alex, seu menino rebelde. Mulder, não me desaponte.

Krycek olha pra Mulder, que está parado, de olhos fechados, tenso.

KRYCEK: - Me responde uma coisa, Mulder. O que é papai urso? A gente vai se ferrar muito?

MULDER: - Urso éuma subcultura gay masculina e também a descrição de um tipo físico de homem: corpo peludo e barba, muito grandes e pesados, brutos ou não. Como ursos. Uma contestação aos ideais de beleza padronizada de homens musculosos e sem pelos.Papai urso significa que esse urso curte caras mais novos do que ele.

KRYCEK: - (SUSPIRA) É, a gente tá ferrado mesmo!

MENSAGEM EM LETRAS:Agora sabem que são meus filhotes e estão na minha caverna. Grr... Comecem a brincadeira.

As câmeras se movimentam focalizando os dois. Mulder, num acesso de raiva, pega a cadeira e atira novamente contra o vidro. Krycek pega a outra cadeira e tenta quebrar a câmera no alto.

MENSAGEM EM LETRAS: Maus meninos. Papai vai punir vocês. Eu avisei.

Barulhos. Os buracos para entrada de ar, são fechados por um dispositivo. Um gás começa a sair do teto da cela, tomando conta rapidamente do ambiente.

Corte.


Mulder abre os olhos, caído ao chão, sendo sacudido por Krycek, sentado ao lado dele.

KRYCEK: - Acorda, Mulder.

MULDER: - Me diz que foi um pesadelo.

KRYCEK: - Não vou mentir pra você.

Mulder senta-se, levando a mão na cabeça. Percebe que Krycek sangra mais.

MULDER: - Ele bateu em você de novo?

KRYCEK: - Acho que ele sente prazer em me punir pra afetar você.

Os dois suspiram angustiados, ao mesmo tempo.

KRYCEK: - (COCHICHA)Mulder, vamos ser sensatos, ok? Cumprindo o joguinho dele ou não, esse sádico dos infernos vai nos matar. E eu não estou disposto a cumprir joguinhos de um pervertido sádico, até porque você não é a Angelina Jolie. E não há como fugir dessa cela.

MULDER: -(COCHICHA/ CULPADO) Eu coloquei a gente nessa situação, Rato. Você tava certo, desde o início, eu me deixei levar pelos sentimentos e olha a merda que arrumei pra nós dois!

KRYCEK: -(COCHICHA) Mulder, você é o cara dos perfis. Você é um ótimo psicólogo. Tenta entrar na mente desse doente.

MULDER: -(COCHICHA) A mente desse doente é isso o que você está vendo, Krycek. Ele sente prazer vendo homens transarem, provavelmente filma pra assistir depois. E é o que ele tá esperando da gente. Ele quer "ação" nessa cela. Ele é um sádico. E pode estar desconfiando da nossa mentira. E admito, eu não vou provar nada pra ele.

KRYCEK: -(COCHICHA/ NERVOSO) Acho melhor a gente pensar numa coisa, porque eu não quero apagar de novo! Eu não sei o que ele faz conosco quando nos apaga. E só de pensar, me dá medo.

Mulder percebe que Krycek está começando a desabar psicologicamente.

MULDER: - (DEBOCHADO) Bom, tô sentado e nada tá doendo por aqui. E aí?

Krycek dá um sorriso sem graça. Apoia os braços nos joelhos e abaixa a cabeça sobre eles.

KRYCEK: -(COCHICHA) Eu prefiro morrer a ser violentado novamente, Mulder. Sabe que eu luto com isso desde que eu era jovem. Eu nunca mais fui o cara que eu era...

Mulder olha apiedado pra ele. Krycek enche os olhos de lágrimas. Começa a desabafar.

KRYCEK: -(COCHICHA) Eu já sofri todo o tipo de violência e tortura que você possa imaginar, Mulder... Mas nenhuma delas me deixou tão pirado. Eu nunca vou superar totalmente isso. Sabe o que é você recuar e broxar, apenas porque a sua garota beijou você e levou as mãos ao seu traseiro? Levei anos pra deixar Barbara tocar na minha bunda, me agarrar por trás... Não, Mulder. Eu prefiro a morte a pirar. Eu não gosto de ser enjaulado e torturado, a experiência me diz que nunca acaba bem.

Mulder se levanta. Rasga um pedaço do lençol e molha na pia. Senta-se ao lado de Krycek, levando o pano, limpando a testa dele.

MULDER: - Ainda bem que você é cabeça dura. No seu aniversário vou dar de presente um capacete de futebol americano...

KRYCEK: - Pode guardar o presente.Não tenho motivos pra comemorar aniversários, Mulder.

MULDER: - (INCRÉDULO) Isso é algum tipo de tradição russa?

KRYCEK: - Não. É coisa minha mesmo. Não vejo porque fazer festa pra celebrar minha existência.

Som do celular. Os dois viram-se para a TV.

MENSAGEM EM LETRAS: Aprenderam a lição? Vão jogar?

Mulder se levanta, ficando de frente pra TV, segurando o lençol no corpo.

MULDER: - (FURIOSO) Você é doente, sabia? Meu parceiro tá sangrando por sua culpa!

MENSAGEM EM LETRAS: Não. Por sua culpa.

MULDER: - Quero um estojo de primeiros socorros!

MENSAGEM EM LETRAS: Você já tem tudo o que precisa. Prontos pra jogar?

MULDER: - E se não quisermos jogar? Ahn? Vai nos fazer desmaiar de novo? Ótimo! Assim dormimos e você não tem seu show!!!

Uma imagem surge na TV. Sobre a escrivaninha, um urso de pelúcia segurando um tubo de ensaio, com um líquido âmbar. Ao fundo, um monitor, onde vemos Mulder e Krycek na cela de vidro.

A imagem desaparece, voltando a tela escura e as letras que vão surgindo.

MENSAGEM EM LETRAS: Papai está bravo com vocês. Sabem o que é VX? Pois ele vai sair do mesmo lugar de onde saiu o outro gás, só que esse não os fará dormir por horas. Vocês dormirão para sempre.

Mulder olha pra Krycek.

KRYCEK: - VX é um agente químico de guerra, cem vezes mais poderoso do que o gás sarin. Basta menos de uma gota para matar uma pessoa. Mesmo que tranque a respiração, ele penetra na pele, interrompe a transmissão dos impulsos nervosos, causando convulsões musculares e a morte vem por asfixia ou parada cardíaca.

MULDER: - Ele está brincando, não é?

KRYCEK: - Pela cor daquela substância no tubo de ensaio... Acho que não, Mulder.

Mulder anda de um lado pra outro, pensativo. Krycek continua sentado e cabisbaixo. Mulder para na frente da TV. Faz carinha de cachorrinho pidão.

MULDER: - Papai, vamos conversar. Eu não sou um mau menino. É que... Você deu uma primeira tarefa meio extrema.

MENSAGEM EM LETRAS: Está mentindo pra mim, Mulder? Não quero pensar que vocês estão me enganando. Não são gays? O que vieram fazer em meu hotel? A polícia sabe de alguma coisa? Ou o FBI?

MULDER: - Saber do quê? Disso aqui? Acha que viríamos sozinhos pra cá e arriscaríamos as nossas vidas, sabendo o que você faz aqui? Eu nem sou mais do FBI, sou detetive particular, pode checar! Eu não estou mentindo pra você. Alex e eu temos...

Mulder senta-se na cama. Abaixa a cabeça.

MULDER: - ... Nunca imaginei me apaixonar por um homem. Minha cabeça ainda não assimilou o que está acontecendo entre Alex e eu.

Krycek olha pra Mulder e ergue as sobrancelhas, curioso.

MULDER: - Vai contra todas as regras morais que aprendi... Sabe quando você não consegue se encarar na frente de um espelho? Você tem vergonha do que faz, mas ao mesmo tempo... Você sente necessidade de fazer, mais e mais vezes. Entende isso? O prazer que isso dá é proporcional a culpa sentida. Mas você, tem razão. Não somos gays. Acho que somos bissexuais. Todas as formas nos agradam, tanto femininas quanto masculinas.

MENSAGEM EM LETRAS: Continue. Estou gostando da sua sinceridade, Mulder.

MULDER: - Você sabe minha vida, sabe a do Alex. Temos mulheres, eu tenho filhos. Acha que não me sinto culpado? Que ele não se sente culpado? Aí você me pede pra chupar o meu parceiro na sua frente? Eu nem sei como reagir! Você sabe o nosso segredinho sujo que ninguém mais sabe! Eu estou... Chocado, envergonhado, eu nem sei mais o que estou sentindo!

MENSAGEM EM LETRAS: Como isso começou?

MULDER: - É uma longa história. E não foi fácil pra gente perder a cabeça... Acho que a vodca nos deixou menos tímidos.

Krycek abaixa a cabeça, num suspiro. Mulder fica olhando pra TV, tentando ganhar confiança e tempo com histórias que agradem os ouvidos do sujeito.

MENSAGEM EM LETRAS: Me conte em detalhes, Mulder. Cada detalhe desse crime entre vocês. Não me esconda nada. Tenho muito tempo para ouvir os pecados sórdidos entre meus dois meninos lindos... Isso me deixa muito, mas muito excitado. Papai gosta disso...

Corte.


Krycek, sentado aos pés da cama, entediado de tanto assunto, quase dormindo. Mulder ainda sentado na cama contando história. Leva a mão até a mão de Krycek e a segura. Krycek se acorda, olhando pra mão de Mulder segurando a sua, depois olhando assustado pra Mulder.

MULDER: -Não é, "amorzinho"?

KRYCEK: - (FORA DO ASSUNTO) Ah, é. É sim, "amorzinho". É isso aí que você falou.

MULDER: - Você entende, Papai Urso?

MENSAGEM EM LETRAS: Vocês são novatos nisso, o que me deixa mais excitado... Sentem-se culpados por gostarem um do outro, por desejarem o proibido... Vivem uma vida de mentiras...

Krycek olha furioso pra Mulder. Puxa sua mão de volta. Mulder continua se fazendo de idiota.

MENSAGEM EM LETRAS:Gosto da maneira como fala, Mulder. Sua voz sexy e arrastada... O seu jeito de menino inocente e culpado, isso deixa papai louco... Alex, eu posso entender porque se apaixonou pelo Mulder. Ele tem uma personalidade apaixonante.

KRYCEK: -Ah é... É fácil se apaixonar pelo Mulder. Ele me deixou maluco desde a primeira vez que eu o vi. Completamente maluco. Ele consegue deixar qualquer um maluco.

MULDER: - Vai nos deixar viver? Prometo que vamos embora e não faremos nada contra você.

MENSAGEM EM LETRAS: Não posso deixá-los irem. Não sou idiota, Mulder. Mas gosto de vocês dois. Um menino bom e um menino malvado. É uma combinação explosiva e excitante. Seja um bom garoto e me dê o que eu quero.

MULDER: - Por que nos escolheu, papai? Certamente havia casais mais interessantes. Alex e eu somos muito monótonos.

MENSAGEM EM LETRAS: Porque são o casal mais lindo e interessante em que já coloquei meus olhos. Vi quando entraram no hotel. Acho que Alex está meio chateado com você, talvez ciúmes...

MULDER: -É, ele anda meio aborrecido comigo. Foi minha ideia esse final de semana, pra gente fazer as pazes...

KRYCEK: - E pelo jeito sua ideia foi a pior de todas as ideias que você já teve!

MENSAGEM EM LETRAS: Não brigue com ele, Alex... Posso sentir a inexperiência e a novidade em vocês dois, e Mulder apenas me confirmou isso. Mas papai vai ajudar vocês a superarem essa vergonha. Seus meninos travessos.

Krycek olha atravessado pra Mulder, cerrando o punho.

KRYCEK: - Mulder, o meu "amor" por você só aumenta a cada dia. Não sabe como estou me contendo, doido para expressar todo o meu "amor" por você...

Mulder faz cara de pidão.

MENSAGEM EM LETRAS: Estão prontos pra jogar? Serei mais compreensivo para provar como esse jogo funciona. Me dê o que quero e terá recompensa. Caso contrário... Gás mortal.

Mulder se levanta, ficando de frente pra TV. Krycek, atordoado, se deita na cama, colocando o travesseiro na cabeça e se encolhendo feito criança.

MENSAGEM EM LETRAS: Por que Alex está triste?

MULDER: - O que você acha? Ele está com vergonha, ferido e com dor.

MENSAGEM EM LETRAS: Você pode ajudá-lo, Mulder. Basta agradar o papai. Gosto de olhar... Olhar me excita. Você é lindo. Transpira sensualidade... Você cheira a sexo. Sinto seu cheiro através das câmeras... Posso sentir o seu gosto.

Mulder fecha os olhos, angustiado.

MENSAGEM EM LETRAS: Estou sendo gentil, em consideração a sua sinceridade. Você abriu seus sentimentos. Eu admiro isso. Um homem sensível, mas ao mesmo tempo másculo, sem afetação... Eu quero que se toque por cima desse lençol, Mulder. Apenas se toque, pensando em Alex. Quero ver você se tocando enquanto pensa nele. Prazer ou morte? Me agrade.

Mulder olha pra trás. Krycek de costas pra ele, com o travesseiro na cabeça. Mulder olha pra TV. Então desce a mão por entre as pernas. Fecha os olhos, se tocando por cima do lençol.

MENSAGEM EM LETRAS: Bom menino... Gosto disso... Papai vai dar uma dica. Escolha. Quer um estojo de primeiros socorros para o Alex ou uma calça pra vestir e ficar menos exposto?

MULDER: - O estojo.

MENSAGEM EM LETRAS: Vá até o chuveiro. Na planta ao lado. Erga-a. Tem um estojo de primeiros socorros.

Mulder vai até a planta e a ergue do vaso, colocando no chão. Pega o estojo de primeiros socorros.

MENSAGEM EM LETRAS: Eu disse que vocês têm tudo o que precisam por aqui. Basta procurarem bem. Aponte e clique, Mulder.

A TV desliga. Mulder senta-se ao lado de Krycek. Tira o travesseiro do rosto dele.

MULDER: - Deixa eu ver isso, Rato. Pode infeccionar.

KRYCEK: - (ABORRECIDO) Me deixa, Mulder! Isso é uma violência mental! Não deveria ter feito o que ele queria! Você só atraiu mais ainda a atenção dele pra cima da gente!

MULDER: - Ah sim, e íamos morrer? (COCHICHA) Seu idiota, preciso ganhar a confiança dele ou vamos acabar mortos. Eu sou o psicólogo aqui, lembra? E enganei ele.

Krycek senta-se na cama, olhando incrédulo. Mulder levanta a franja dele e começa a limpar.

KRYCEK: - (COCHICHA) Como assim?

MULDER: - (DEBOCHADO/ COCHICHA) Pensei na Scully. Não acha que eu ia pensar em você né?

KRYCEK: - (COCHICHA) Ainda bem, porque eu socaria você até a morte... Ai!!!

MULDER: - Fica quieto, tem um corte enorme nessa cabeça dura. Para de se mexer! Vou colocar alguma coisa pra fechar.

KRYCEK: -(COCHICHA) Prefiro a minha enfermeira cubana. Não encosta muito.

MULDER: -(COCHICHA) Preferia minha médica nua nessa cama e não um rato pelado. Mas ele acreditou na minha história. Talvez pegue mais leve com a gente.

KRYCEK: -(COCHICHA) A Barbara tem razão, você devia virar escritor com essa imaginação fértil. Até eu já tava acreditando que estávamos tendo um caso!

MULDER: - (COCHICHA) Vamos revirar esse quarto e procurar em todos os cantos. Ele disse que temos tudo o que precisamos. Quem sabe encontramos a saída?

KRYCEK: -(COCHICHA) Concordo, mas tô com medo do próximo desafio.

MULDER: -(COCHICHA) Fique grato se ele pedir coisas fáceis. E se a nossa vida depender que eu chupe você, considere-se um cara morto.

KRYCEK: -(COCHICHA) Mulder, nossas garotas vão ficar preocupadas quando não voltarmos e virão atrás de nós.

MULDER: - (COCHICHA) Com certeza, por isso precisamos nos manter vivos até lá. Confio nas nossas mulheres. Quando perceberem que a gente não voltou, as nanicas virão armadas. Scully vira o Hulk quando mexem comigo. E a sua carrega a frigideira do Thor...

Corte.

Mulder abre o armário sobre a pia. Quatro escovas de dentes coloridas, pasta dental, produtos para fazer a barba. Krycek tenta tirar outra planta, mas essa não sai.

KRYCEK: - Mulder, nunca joguei point and click! Essa coisa de apontar e clicar. Vamos apontar e clicar no quê?

MULDER: - (OBSERVANDO O ARMÁRIO) Tô pensando... Deveria jogar, são jogos bem interessantes e acredite, bem difíceis. É um jogo de raciocínio e observação. Num jogo de point and click, você está preso em algum lugar. Você desliza o mouse e vai clicando em cada lugar do cenário pra encontrar coisas que levarão você à saída. Tem uma saída. Ele tá dizendo isso. Só precisamos encontrar todas as peças escondidas aqui e sairemos. Acho que nós somos o... Mouse?

Mulder começa a rir. Krycek olha pra ele com deboche.

KRYCEK: - Não... Nem pense! Não vai me pegar e me deslizar por aí, amorzinho! Só se for numa valsa! E clicar em mim, mas nem pensar! Quem clica aqui sou eu!

MULDER: - (RINDO) Só fiz uma analogia, Rato. Tem que prestar atenção em todos os detalhes nesse jogo, qualquer coisa pode ser uma pista. Acho que nós somos o mouse, o clique é o ato de pegar o objeto ou encontrar a pista. Olha embaixo do vaso.

Krycek vira o vaso. Um algarismo romano escrito.

KRYCEK: - Tem um X aqui. Quebro o vaso?

MULDER: - Não! É uma pista. Veja debaixo dos outros.

KRYCEK: - Por que está parado na frente desse armário?

MULDER: - Estou observando os objetos antes de mexer em cada um deles. Tem quatro escovas de dentes: vermelha, azul, amarela, verde. Nós somos em dois. Isso deve ser uma pista.

Mulder olha para o ambiente.

MULDER: - Se ver alguma coisa que remeta a cores, me avise.

Mulder checa os produtos, colocando todos de volta no mesmo lugar. Krycek ergue o outro vaso. Nada. Tenta tirar a planta. Uma chave dourada cai da folhagem.

KRYCEK: - Achei a chave! Mas não tem porta!

MULDER: - Não se anime. Isso abre alguma coisa, que nos levará a outra coisa. Guarde.

KRYCEK: - Que jogo maluco!

MULDER: - São migalhas, Rato. Precisa juntar tudo e descobrir pra que servem. O objetivo é sair desse quarto.

Mulder vira a mesa. Embaixo dela está escrito a letra I.

MULDER: - Mais um algarismo romano. Temos X e I.

KRYCEK: - Legal. Mas em que ordem?

MULDER: - Dedução. Quando encontrarmos onde temos que usar essa informação, vamos tentar todas as combinações possíveis. Rato, me avise antes de tirar alguma coisa, não podemos perder nenhum detalhe.

Os dois observam o ambiente. Caminham de um lado pra outro. As câmeras se movem, os acompanhando. Mulder observa o chuveiro. O ladrilho no chão. Mulder entra no box transparente. Agacha-se, tateando o ladrilho.

MULDER: -Tem alguma coisa debaixo de um desses ladrilhos. Preciso de algo pra levantar.

KRYCEK: - Só tenho a chave dourada. Tente com ela.

Krycek entrega a chave. Mulder tenta erguer o ladrilho com a ponta da chave. Consegue. Retira o ladrilho. Sorri.

MULDER: - Olha o que encontrei.

Krycek espia. Mulder ergue a pequena caixa.

MULDER: - Não tem fechadura. Abre com uma combinação de três letras. Rato... Precisamos achar mais um algarismo romano.

Corte.


Mulder ergue o tapete.Krycek, de quatro, tateia o chão.

MULDER: - Não tem nada no tapete, mas vale ver você de quatro nesse chão.

KRYCEK: - Admite, Mulder, você tá gostando dessa brincadeira! Quem devia estar de quatro aqui é você, meu amorzinho! Você que gosta de ficar de quatro pra mim!

MULDER: -(DEBOCHADO) Não sei, amorzinho... Na verdade, se olhar bem pro nosso passado, eu chegava agarrando você, metendo porrada e encostando você aonde queria e você nem reagia, morria de medo, mas adorava apanhar e me deixar agarrar você.

KRYCEK: - Claro que eu tinha medo! Você manifestava seu desejo oculto por mim. Melhor nem reagir, vai que se eu socasse de volta, você se apaixonasse? Nem o Canceroso que metia tanto medo! ... Tem alguma coisa aqui. Vou erguer esse ladrilho. Me dá a chave.

Mulder entrega a chave dourada pra ele. Krycek tenta tirar o ladrilho.

MULDER: -Ao contrário do que pensa, casais gays raramente se limitam a um passivo e outro ativo. Geralmente eles se revezam.

KRYCEK: - É. Geralmente. Mas entre nós, você é o passivo. Não tem negociação.

Krycek senta-se no chão. Para o que faz e olha pra Mulder.

KRYCEK: - Tá com medo, não é? Eu sei que está com medo. Quando começa a fazer piadinhas é porque está nervoso. Sabe o "nosso problema"? Ele é pior do que você me disse, estou certo? Não me esconda nada.

MULDER: - É.

Mulder se agacha. Krycek continua tentando tirar o ladrilho.

MULDER: - (COCHICHA)O voyeurismo é o ato de observar as pessoas em situações íntimas sem que elas percebam, seja olhar pessoas se despindo ou praticando sexo. A excitação vem do ato da observação e se dá também pelo risco de serem descobertos. É uma forma de parafilia, mas a maioria dos voyeurs não atende os critérios clínicos de transtorno parafílico.O desejo de observar outros em situações sexuais é comum e não é anormal em si mesmo, ou filmes pornôs seriam banidos da sociedade. O que difere nesse cara é que isso virou compulsão.

KRYCEK: - (COCHICHA) Vício?

MULDER: - (COCHICHA) Disfarça e fica adiando levantar esse ladrilho e não olha pra mim, temos uma câmera em cima da gente... (LEVA A MÃO À BOCA/ DISFARÇA) A perversão dele evoluiu a ponto de o transformar num sequestrador e molestador sexual. Ele não liga que saibam que ele está observando. Esse cara também é um sádico, tem necessidade em causar sofrimento, tanto físico quanto emocional, isso lhe causa excitação e prazer sexual. Ouso arriscar que é a única forma que ele obtém prazer. Isso vai além da perversão. Ele já entrou na fase de matar suas vítimas, ele pode ser considerado também um psicopata. A brincadeira dele é prenúncio de loucura.

KRYCEK: - (COCHICHA) Sabe que ele não vai ficar apenas nesse joguinho de toque aqui e ali.

MULDER: - (COCHICHA) Eu sei. Por isso precisamos conquistar a confiança e a simpatia dele pra ganhar tempo e "tarefas" menos cruéis, até Scully e Barbara desconfiarem que sumimos e virem com a polícia pra cá. Eu só espero que estejamos em algum lugar do hotel. Porque nem sabemos aonde estamos.

KRYCEK: - (COCHICHA) Se existem tarefas menos cruéis. Qualquer tarefa implica em violência psicológica.

MULDER: - (COCHICHA) Eu sei disso. Mas admita que é melhor se tocar pra ele assistir que tocar o outro.

KRYCEK: -(COCHICHA) É isso o que estou dizendo, não vai demorar pra ele pedir algo que não conseguiremos fazer e vamos morrer por isso.

MULDER: -(COCHICHA) Eu sei, Rato. Portanto continuemos a jogar o jogo dele, procurar coisas, deixá-lo satisfeito conosco, criando uma falsa reciprocidade e aceitação da situação. Se esse cara ficar zangado, os desafios dele vão aumentar e quem vai sair perdendo somos nós.

Krycek retira o ladrilho. Há um embrulho com um pano. Mulder pega o embrulho e desembrulha no chão. Outra caixinha, essa com fechadura. Mulder abre o pano.

MULDER: - Parece um mapa.

KRYCEK: - É, mas não se parece com essa cela... Parece um mapa de um complexo.

MULDER: - Acha que estamos em...

KRYCEK: - (COCHICHA) Mulder, acho que não estamos naquele hotel. Acho que estamos em algum tipo de complexo, talvez militar. Esse cara pode ser um militar.

Mulder senta-se no chão. Põe as mãos no rosto.

MULDER: - (COCHICHA) Talvez nunca nos encontrem... Nem nossos corpos. Rato, eu não quero morrer. Eu tenho dois filhos pra criar, um nem nasceu ainda.

KRYCEK: - (COCHICHA) Também não quero morrer, Mulder.

MULDER: - (COCHICHA) Melhor não deixarmos ele perceber que estamos com medo da situação. Isso só faria o sadismo dele aumentar... A gente tá ferrado, Rato. O jogo dele vai virar hard antes que nos encontrem, e ele vai começar a aumentar o nível de dificuldade. Estamos mortos.

Corte.


Os dois sentados à mesa olhando o que conseguiram encontrar.

KRYCEK: - Temos uma chave dourada, uma caixa que abre com três algarismos romanos, dois algarismos romanos, uma caixa que abre com uma chave que não encontramos ainda, um mapa e a combinação de cores... E eu quero fazer xixi e tem câmeras me bisbilhotando. E parecemos dois fantasmas enrolados em lençóis. Piro agora ou piro depois?

MULDER: -(COCHICHA) Faz sentado, Rato. Sacaneia o sacaneador. Embora ele já tenha visto tudo o que queria da gente enquanto tirava nossas roupas...

KRYCEK: -(COCHICHA) Mulder, não sei como ainda consegue ter senso de humor. Se eu sair vivo dessa, esse cara vai sofrer.

Krycek se levanta e vai até o vaso sanitário. A câmera o acompanha.

KRYCEK: - Fala sério! Esse cara é doente!

MULDER: - Rato, além de nos ver, ele nos escuta, ok?

Krycek ergue a tampa do vaso. Olha pra dentro.

KRYCEK: - Tá de brincadeira.

MULDER: - (PÂNICO) Tem câmera dentro do vaso?

KRYCEK: - Não. Tem alguma coisa dentro do vaso. Ah, mas não enfio a mão aí de jeito nenhum. Você que tem experiência em enfiar a mão em coisas nojentas.

MULDER: - (DEBOCHADO) Nem vou dar resposta pra você.

Mulder se aproxima. Olha pra dentro do vaso.

MULDER: - (CURIOSO) Parece uma cápsula... Deve ter algo dentro.

Mulder se agacha e enfia a mão dentro do vaso, erguendo uma cápsula metálica. Krycek acena negativamente com a cabeça. Mulder vai até a pia, lavando a cápsula. Krycek se aproxima por trás dele, tentando espiar.

MULDER: - (DEBOCHADO/ COCHICHA) Dá pra tomar distância, amorzinho? Você pode se empolgar.

Krycek se afasta rindo. Mulder abre a cápsula e retira o canivete de Krycek. Vira-se e mostra pra ele.

KRYCEK: - O meu canivete? Mas... Por que ele nos daria uma arma?

Som do celular. Os dois viram-se para a TV, nervosos.

MENSAGEM EM LETRAS: Estão se divertindo? Jogar é uma boa maneira para passar o tempo. Adoro ver meus meninos se divertindo... Mulder, você me surpreende. Não fique com ciúmes, Alex, papai também gosta de você.

KRYCEK: - "Papai" que tal algumas roupas?

MENSAGEM EM LETRAS:Prontos pra jogar?

Os dois se entreolham, tensos.

MENSAGEM EM LETRAS: Alex? Meu garoto rebelde e revoltado. Faça uma coisa para o papai e terá uma recompensa ou um presente. Quem sabe roupas? Embora eu não entenda o que querem com roupas, muito desperdício cobrir anatomias belas e perfeitas.

MULDER: - Está ficando frio aqui.

MENSAGEM EM LETRAS: Esquentem um ao outro. Nada como o calor de um corpo para aquecer outro corpo.

Krycek põe as mãos na cintura e olha pra TV, indignado.

MENSAGEM EM LETRAS: Alex, papai quer que você faça uma coisa da qual sentirá muito prazer. Sabe as regras, me agrade. Está pronto pra jogar?

KRYCEK: - (NERVOSO) ...

MENSAGEM EM LETRAS: Vamos, Alex, não fique assim... Vai ser divertido. Para nós três. Quero que fique atrás de Mulder e o agarre pela cintura, bem violento, sentindo o traseiro dele no seu pau. Não é algo difícil, vocês dois gostam.

Mulder olha pra Krycek. Krycek pra Mulder. Os dois nervosos.

MULDER: -(COCHICHA) Eu disse que o nível de dificuldade ia aumentar...

KRYCEK: - Olha aqui, papai. Eu não posso fazer isso. Mulder vai ficar magoado comigo, ele tem vergonha de se expor. Pede outra coisa.

MENSAGEM EM LETRAS: Finjam que não estou aqui. Vai me obedecer ou terei que matar os dois? Eu quero mais ação nesse jogo. Já provei minha complacência, agora provem que são gays mesmo, porque estou começando a ter ideias aqui que fazem de vocês dois mentirosos.

Mulder fecha os olhos. Vira-se de costas pra Krycek.

MULDER: -Tenho dois filhos. Eles é o que me importam. Faz.

KRYCEK: - (ANGUSTIADO) Mulder, eu não...

MULDER: - (COCHICHA/ NERVOSO) Se realmente se importa comigo, faça. Não posso morrer.

MENSAGEM EM LETRAS: Vamos, Alex. Posso colocar o relógio na tela pra você ver a contagem regressiva de um minuto, antes que o gás VX desça para dentro dessa caixa de vidro. Prazer ou morte? Não entendo a dificuldade.

Krycek agarra Mulder pelas costas. Mulder cerra os olhos, perturbado. As lentes das câmeras aumentam o zoom em direção a eles.

KRYCEK: - (COCHICHA) Me perdoa.

MULDER: - (MURMURA) Não é sua culpa.

MENSAGEM EM LETRAS: Ótimo. Gostei da sua pegada violenta, meu menino malvado. Agora pegue o canivete que está com Mulder.

Krycek pega o canivete da mão de Mulder.

MENSAGEM EM LETRAS: Quero que abra o canivete e acaricie com a ponta da lâmina as costas de Mulder, pra cima e pra baixo. Bem devagar...

Krycek abre o canivete. Desliza a ponta da lâmina pelas costas de Mulder. Mulder está paralisado, abalado e angustiado. Krycek completamente desconfortável.

MENSAGEM EM LETRAS: Assim... Isso... Bem devagar, meu menino malvado... Agora leve a ponta dessa lâmina ao pescoço de Mulder... Sim, eu quero sentir o medo que Mulder sente.

Krycek o faz. Mulder de olhos fechados, sem reação.

MENSAGEM EM LETRAS: Agora permaneça atrás do seu namorado, leve suas mãos e tire o lençol dele, exponha a nudez de Mulder. Mostre pra mim o que é seu, Alex. Deixa papai ver.

Krycek fecha os olhos. Relutante, leva as mãos à cintura de Mulder, desatando o lençol e o abrindo.

Corte.


Vemos ele sentado em frente a tela do computador, usando o chapéu. Geme, ofegante, se masturbando, sentindo prazer no jogo mórbido, mortal e humilhante.

Corte.


Mulder enrolado no lençol, sentado no chão, cabisbaixo, de costas para o vidro. Krycek em pé, com a testa e as mãos contra o vidro. Ambos perturbados e em silêncio.

As câmeras continuam filmando. Nenhuma saída. Nenhum conforto.

Barulhos são ouvidos. Os dois voltam a atenção para a parede de metal. Um compartimento se abre, revelando a bandeja com o jantar.

Mulder abaixa a cabeça sobre os braços apoiados no joelho, indiferente. Krycek volta a olhar perdido através do vidro.

KRYCEK: - Me desculpe.

MULDER: - ... Só tem um culpado aqui. Eu, que trouxe a gente pra essa armadilha.

KRYCEK: - Não. O único culpado aqui está atrás dessas câmeras. Se divertindo com a nossa humilhação e tortura...

Krycek senta-se ao lado de Mulder, que está visivelmente humilhado.

KRYCEK: - (COCHICHA) Me desculpe.

MULDER: - (COCHICHA) Fez por que quis? Ou por que eu pedi pra obedecer?

Krycek abaixa a cabeça, perturbado.

KRYCEK: - (COCHICHA) ... Você tinha razão. O jogo dele começou a ficar mais difícil.

MULDER: - (COCHICHA) Você que tinha razão. É loucura colocar um filho nesse mundo de malucos, doentes e pervertidos!

Mulder enche os olhos de lágrimas. Krycek brinca com os dedos, nervosamente.

MULDER: - (QUASE CHORANDO/ COCHICHA) ... Não vou conhecer meu filho. Scully nunca vai descobrir aonde estou. Vou morrer aqui. Como o filho do Willcox. E quem vai fazer justiça? Ahn? Quantos esse cara já matou? Já parou pra pensar como ele seleciona as vítimas? Maldita sociedade doente, que cria monstros todos os dias. Mulheres são mortas porque são mulheres. Gays são mortos porque são gays, negros porque são negros e judeus porque são judeus. Para cada tipo de pessoa sobre a terra, existe um desgraçado a fim de matá-la pela sua condição sexual, étnica ou religiosa.

KRYCEK: -(COCHICHA) Eu entendo o que está dizendo. Eu já perdi um amigo irmão por isso. Mas não estou disposto a perder outro. Me promete uma coisa. Se ele nos colocar um contra o outro num jogo assassino... Você não pensará duas vezes. Faça o que tiver que fazer e depois me mate. Nunca culparei você por isso.

Mulder olha pra ele.

MULDER: -Por que acha que a sua vida vale menos do que a minha?

KRYCEK: -Porque eu só tenho uma coisa pra perder. Você tem três. E duas dependem de você. É apenas uma questão de lógica.

MULDER: -Quantas coisas você já fez pra sobreviver? Numa situação de sobrevivência, não existe altruísmo e isso é completamente permissível e aceito, é o natural do ser humano. É a sua vida que está em risco, primeiro você, depois o outro. Por que faria isso por mim?

KRYCEK: -Porque é o que eu faria por um irmão.

MULDER: -Nem temos o mesmo sangue. Finja que somos inimigos ainda.

KRYCEK: -Nem se fôssemos inimigos ainda, eu faria uma coisa sórdida dessas com você.

MULDER: - Sua autoestima está baixa ou ainda sente que me deve alguma coisa.

KRYCEK: - Não é autoestima baixa e nem sinto que ainda deva alguma coisa.

MULDER: - Mentiroso.

KRYCEK: - Para de dar uma de psicólogo comigo, Mulder!

MULDER: - Eu sei porque faria. Pelo mesmo motivo que eu faria por você. Não quero morrer, mas eu daria a vida pra salvar você.

KRYCEK: - Não, você não daria. Eu posso ser seu amigo, mas não sou prioridade na sua vida. Nem tenho direito de ser.

MULDER: - Krycek, eu não rezo. Mas se eu rezasse, você estaria nas minhas orações. Como explica isso?

KRYCEK: - Não sei, o perito em comportamento aqui é você.

MULDER: - Eu digo pra você. Criamos um elo de ligação muito forte, num momento terrível da sua e da minha vida, e vivenciar essa experiência traumática juntos, isso nos fez mudar a concepção que tínhamos um do outro e nos aproximou mais. Sabe por quê? Sobrevivência. Nos unimos pra sobreviver. Isso criou um laço emocional muito forte entre nós dois.

KRYCEK: - Mulder, eu não quero falar disso, vamos esquecer e...

MULDER: - Ok, não falamos. Mas não pode negar que depois disso ficamos ligados como gêmeos siameses.

KRYCEK: - Se continuarmos aqui sendo torturados psicologicamente, vamos pirar e eu não quero enlouquecer. Eu sou egoísta, Mulder. Prefiro morrer e deixar você sofrendo. Essa é a verdade. Feliz em saber?

MULDER: - Sabe que não é verdade, Krycek. É apenas uma defesa inconsciente, como a coisa de não querer ter um filho. Eu ou o filho somos apenas a desculpa que você tem para não se envolver emocionalmente com medo de perder. Você sabe o que é perder quem ama. Perdeu todos durante a sua vida, salvo Barbara, que você relutou e ainda enrola pra casar pelo medo que tem de perdê-la.

KRYCEK: - Tá fazendo mestrado agora e não me avisou? Essa é a tese?

MULDER: - Não. Estou falando com o meu irmão. (COCHICHA) Que está aqui ferrado comigo nessa cela de vidro, porque não sabe me dizer não, quando estou precisando de ajuda. Você já deu sua vida de novo por mim, quando entrou naquele hotel comigo. E mesmo não sabendo o que viria, sabia que era perigoso e tentou me alertar, mas eu não dei ouvidos à você.

KRYCEK: - (COCHICHA) Porque você é o caçula teimoso e metido.

Mulder seca as lágrimas, num sorriso.

KRYCEK: - (COCHICHA) Quando isso terminar, nunca mais poderemos nos olhar, depois do que estamos sendo forçados a fazer aqui. Já não posso olhar pra você agora.

MULDER: -(COCHICHA) E o que aconteceu demais? Hum? Foi uma piada de mal gosto. Apenas isso. Encare assim.

KRYCEK: -(COCHICHA) Não foi brincadeira, Mulder. Não foi as palhaçadas que fazemos, aquele desgraçado me fez expor você pra ele e encostar no seu traseiro! Isso é pessoal e muito abusivo!

MULDER: -(COCHICHA) Mas estamos vivos. Pronto. Acabou. Se eu sentisse alguma coisa dura atrás de mim, pode ter certeza de que não estaríamos tendo essa conversa, porque você estaria morto.

Krycek abaixa a cabeça rindo. Mulder sorri.

MULDER: - (COCHICHA) Imagina se fosse o Frohike? Se dependesse dele, eu tava morto!

Os dois riem.

KRYCEK: - O Byers ou o Langly?

MULDER: - (COCHICHA) Eles teriam morrido de ataque cardíaco quando entrassem no quarto do hotel... Lembrei da Nancy agora. Cairia morta se visse o que fizemos.

Krycek fica pensativo. Mulder abaixa a cabeça.

MULDER: - Pelo menos você me distrai da realidade assustadora.

KRYCEK: - Eu? Você que me distrai com piadinhas.

MULDER: - Você. Porque passo tempo me preocupando em como preservar a sua sanidade mental e esqueço da merda em que estamos. Não consigo pensar em nada, em nenhum plano, porque não há como escapar dessa jaula!

Krycek aproxima-se mais de Mulder. Coloca o braço sobre ele. Mulder olha pra Krycek sem entender. As câmeras se movimentam.

KRYCEK: - (COCHICHA) Finge que estamos namorando e me escuta.

Mulder recosta a cabeça no ombro de Krycek.

KRYCEK: - (COCHICHA) Temos algumas coisas a nosso favor. A maior delas é que somos amigos, confiamos um no outro, eu daria minhas costas pra você e... Bom, você deu as suas costas pra mim, porque confia em mim, mesmo com um canivete no seu pescoço, você sabia que eu não ia te matar, nem que aquele desgraçado pedisse. Eu não gostaria de estar nessa situação com alguém em quem não confiasse. Alguém que pra salvar a própria pele me estupraria se aquele cara mandasse.

MULDER: - (COCHICHA) Tem razão. Confio em você e você em mim.

KRYCEK: -(COCHICHA) Então nossos rabos estão a salvo. Você falou da Nancy. O que a Nancy pensa sobre nós é menos importante do porquê ela pensa isso de nós. Posso estar errado, me corrija se não temos um plano. Por que a Nancy acha que somos gays?

MULDER: -(COCHICHA) Porque ela vê o que ela quer ver... Ela enfiou isso na cabeça e qualquer gesto ou palavra que você e eu trocarmos, já é motivo pra ela ver o que não existe... (SORRI) Rato, você é um gênio!

KRYCEK: -(COCHICHA) Esse cara é a Nancy agora. Uma Nancy hardcore. Ele quer show e vai nos pedir isso. Você falou toda aquela balela pra ele sobre vergonha. Vamos enrolar esse cara até termos tempo de sair daqui ou nos encontrarem. E sem deixá-lo com raiva, entendeu?

MULDER: -(COCHICHA) E quando ele pedir algo que não podemos fazer? Como se finge sexo?

KRYCEK: -(COCHICHA/ SACANA) Esse cara vai chegar ao extremo. O objetivo é esse. E quando ele chegar...

Krycek cochicha algo no ouvido de Mulder. Mulder olha incrédulo pra ele. Krycek se levanta, estende a mão pra Mulder.

KRYCEK: - Vamos jantar. Estou com fome, "amorzinho". Depois vamos procurar mais items e juntar tudo o que achamos no jogo. Ainda não examinamos a cama e o colchão.

As luzes diminuem dentro da cela de vidro. Os dois olham assustados pra cima.

Corte.


Meia luz. O colchão fora da cama, travesseiros sem fronha e rasgados, penas por toda a parte.

Um castiçal com a vela acesa. Louças empilhadas na bandeja. Krycek à mesa, coloca a chave prateada na caixa com fechadura. Mulder sai do box e volta com o frasco de xampu.

MULDER: - Nunca ia adivinhar que havia uma chave no travesseiro. Mas talvez o algarismo romano que nos falte é o "V" de Visage, o melhor xampu.

Som do click. Krycek abre a caixa. Uma pequena chave Phillips.

KRYCEK: - Me diz o que vamos fazer com isso?

MULDER: -Não faço ideia, mas vai servir. Agora vamos ver a caixa que abre com os numerais.

Mulder pega a outra caixa que abre com uma sequência de numerais romanos. Insere o X, I, V, não abre.

MULDER: - Ok. Então vamos de V, I, X...

KRYCEK: - Nada. V, X, I.

MULDER: - Não. X, V, I... Não.

KRYCEK: - I, V, X. Vamos por aumento do valor.

MULDER: - Não. I, X, V.

A caixa abre, revelando os dois cartuchos de 9 mm.

MULDER: - Ok. Acho que reconheço o pente da minha arma.

KRYCEK: - Eu também. Espero que encontremos as armas.

MULDER: - Isso está estranho... Por que nos daria isso?

KRYCEK: - Não quero nem pensar. Quero encontrar o que essa chave dourada abre. Espero que uma porta.

Som do celular. Os dois começam a ficar nervosos. Olham pra TV.

MENSAGEM EM LETRAS: Gostaram do jantar romântico? Alex fez por merecer.

KRYCEK: - Espero que não tenha nos envenenado.

MENSAGEM EM LETRAS: Eu não faria isso com meus meninos preferidos. Já estão resolvendo os enigmas? Acham que concluem logo o jogo?

MULDER: - Talvez sim, talvez não.

MENSAGEM EM LETRAS:Estão indo bem. Mas agora... Arrumem essa cama.Hora de dormir, meninos.Amanhã vocês continuam sua busca.

A TV se apaga. Mulder assopra a vela, coloca discretamente a caixa de fósforo na cintura, debaixo do lençol. Se levanta e coloca o colchão de volta na cama. Senta-se na cama. Krycek vai até ele e senta-se ao lado dele.As luzes se apagam completamente.

KRYCEK: - (COCHICHA) Acha que alguma dessas câmeras tem visão noturna?

MULDER: - (COCHICHA) Vamos descobrir hoje. Eu faço o primeiro turno. Preciso pensar o que esquecemos de olhar aqui dentro.

Vemos pela imagem da câmera com visão noturna: Krycek se deita. Mulder fica sentado na cama.

Corte.


Luz do fósforo que se acende. Mulder acende a vela. Pega o castiçal e aproxima-se da parede de metal, feita de painéis metálicos, tentando encontrar o compartimento que abriu antes.

KRYCEK: - Mulder, o que...

MULDER: - Psiu!

Krycek vai até ele.

MULDER: - Me ajuda a encontrar aquele compartimento da onde saiu o nosso jantar.

KRYCEK: - Ele está nos vendo.

MULDER: - Acho que não. Notou que ele parecia ocupado e nos mandou dormir? Acho que não está nos vendo nesse momento.

KRYCEK: - É, mas vai ver a gravação.

MULDER: - Estamos jogando, apenas isso.

Krycek vai passando as mãos pela parede. Mulder também. Krycek se agacha.

KRYCEK: - Mulder, ilumina aqui.

Mulder se agacha. O último painel de metal tem quatro parafusos o prendendo.

MULDER: - A chave Phillips!

Mulder se levanta e pega a chave de fenda de cima da mesa. Entrega pra Krycek. Coloca a vela no chão. Krycek começa a soltar os parafusos, enquanto Mulder apoia as mãos no painel.

MULDER: - Que sejam as nossas armas... Que sejam as nossas armas.

KRYCEK: - Ele não seria idiota. E os vidros devem ser à prova de balas.

Krycek termina. Ajuda Mulder a tirar o painel. Olham pra dentro.

KRYCEK: - Acho que encontramos nossas calças.

MULDER: - É, já me sinto bem melhor tendo uma calça pra vestir.

KRYCEK: - Vamos deixar aberto ou fechar? Ele vai saber que o desobedecemos.

MULDER: - Ele vai saber de qualquer jeito. Coloca nossas calças na mesa e me ajuda a descobrir como aquela coisa abriu!

Mulder pega a vela e continua procurando alguma abertura na parede de metal.

As luzes se acendem. O celular toca. Eles olham nervosos pra TV.

MENSAGEM EM LETRAS:Estão sem sono? Então vamos jogar!

Os dois desanimam. Mulder apaga a vela num sopro.

MENSAGEM EM LETRAS: Estão muito nervosos. Desta vez será bem mais interessante e prazeroso para ambos. Alex, quero que pegue uma cadeira e sente-se perto de alguma das paredes de vidro.

Krycek, à contragosto, pega uma cadeira e coloca na frente da parede de vidro lateral, ao lado do banheiro. Ajeita o lençol enrolado na cintura e senta-se. Cruza os braços, em reprovação.

MENSAGEM EM LETRAS: Mulder, dentro da gaveta do criado-mudo à sua direita, existem frascos de óleos. Escolha o seu perfume favorito.

Mulder olha nervoso pra Krycek. Vai até o criado-mudo, abre a gaveta e pega um frasco.

MENSAGEM EM LETRAS: Muito bem, Mulder. Agora sente-se no chão, na frente do Alex. Quero que massageie os pés dele.

Mulder olha incrédulo pra Krycek, que numa fisionomia de raiva, olha pra TV. Mulder respira fundo. Ajeita o lençol na cintura e senta-se no chão, na frente de Krycek, que olha pra ele. Mulder pisca o olho e segura o riso. Krycek vira o rosto, levando a mão à boca, disfarçando. Mulder abre o frasco. Pega o pé de Krycek e despeja óleo, olhando com deboche pra ele. Krycek quer rir, mas disfarça. Mulder começa a massagem.

MULDER: - (COCHICHA) Podia ser pior. Pra minha sorte ele quer pés.

KRYCEK: - (COCHICHA) Só pra sua? Pra minha também! Mesmo assim, isso é doentio, Mulder!

MULDER: - (COCHICHA) Chama-se podolatria. É uma parafilia, obsessão por pés. O cara sente prazer em ver isso.

KRYCEK: - (COCHICHA) Em pés? Qual a graça disso? Bom, se ele sente prazer com isso, faz isso o dia todo pra ele não pensar em nada pior... Pelo menos uma massagem cai bem. Scully tem razão em exigir massagem, até que você leva jeito pra coisa.

MULDER: - (COCHICHA) Você me paga, Rato.

KRYCEK: - (COCHICHA) Eu? Você quem me colocou nessa fria!

MENSAGEM EM LETRAS: Lentamente, Mulder... Sem pressa. Massageie com carinho os pés do seu namorado. Ele precisa relaxar...

KRYCEK: - É, Mulder, e capricha porque eu preciso relaxar.

Mulder olha com deboche pra ele. Krycek vira o rosto, segurando o riso e erguendo o outro pé.

MULDER: - Você vai ver, Ratinho... Aguarda. Tá gostando não é?

KRYCEK: - (COCHICHA) Prefiro as mãozinhas da minha gata. Não curto patas grandes de raposa.

MENSAGEM EM LETRAS: Mulder, agora quero que massageie o dedão dele. Pra cima e pra baixo. Bem lentamente. Bem gostoso.

Krycek tira o pé, Mulder puxa o pé dele de volta, nervoso.

MULDER: - (COCHICHA/ ANGUSTIADO) Aguenta firme, porque a humilhação maior é a minha, ok?

KRYCEK: - (COCHICHA/ REVOLTADO) Posso não ser especialista nessas parafilias, mas entendi o significado da coisa com o dedão. Meu sangue está subindo e quero esfolar esse cara vivo.

Krycek vira o rosto, incomodado. Mulder obedece, observando a câmera que os filma. Observa o ambiente ao fundo. Não dá para ver muita coisa.

MENSAGEM EM LETRAS: Bom menino. Alex, quero que coloque seus pés no peito de Mulder. Deslize seus pés lambuzados de óleo pelo peito dele. Lambuze Mulder.

Krycek, num olhar de pânico, vira o rosto pra Mulder, que está imóvel e olha pra ele. Mulder murmura "faz" e fecha os olhos. Krycek leva os pés ao peito de Mulder, sem olhar pra ele.

MENSAGEM EM LETRAS: Bom menino... Agora quero que use seus dedos e aperte os mamilos dele. Suavemente.

Krycek o faz. Mulder, fica sem reação.

MENSAGEM EM LETRAS: Mais um pouco. Faça repetidas vezes. O excite.

Krycek faz, incomodado, sem conseguir olhar pra Mulder, que também não olha pra ele. A tortura psicológica é visível no rosto de ambos.

MENSAGEM EM LETRAS: Ótimo. Bons meninos. Fizeram o combinado. Agora papai vai dar um presente pra vocês.

Mulder se levanta, perturbado. Krycek permanece sentado, sem conseguir olhar pra Mulder.

MENSAGEM EM LETRAS: Existem prazeres únicos na vida. Um deles é uma boa taça de champanhe. Eu sei que toda essa luz deixa esse lugar muito quente. Algo bem gelado seria bom. Devem estar com sede.

O compartimento se abre na parede de metal. Os dois olham. Mulder se aproxima. Uma garrafa de champanhe no balde de gelo e duas taças.

MENSAGEM EM LETRAS: Pegue, Mulder. Vocês merecem.

MULDER: - E como vou saber se isso não está envenenado?

MENSAGEM EM LETRAS: Terá que confiar em mim. Não está envenenado. Eu não quero matar meus garotos, eles me dão tanto prazer. Quero retribuir com mais prazer.

Mulder pega o balde com a champanhe e as taças. Coloca sobre a mesa. Olha desconfiado.

A TV desliga.

MULDER: - Juro que estou morrendo de sede e essa água da pia tem um gosto horrível. Mas estou com medo.

KRYCEK: - Como dizia um camarada, o que é um peidinho pra quem já está todo cagado? Abre essa porcaria logo e vamos beber, Mulder. Se morrermos, pelo menos morremos bebendo!

Mulder abre o champanhe. Krycek se levanta, mas os pés cheios de óleo o fazem deslizar pelo chão, ele tenta se manter em pé, mas depois de quase dançar o twist, sem ter aonde se segurar, acaba caindo sentado no tapete.

MULDER: - (PÂNICO)Uh! Isso deve ter doído.

KRYCEK: - Melhor me trazer um copo, porque a minha situação aqui tá difícil!

Corte.


Escuro dentro da cela de vidro. Apenas as luzes de fora acesas, tornando o ambiente na penumbra. Os dois, ainda enrolados nos lençóis, sentados no tapete, rindo e bebendo, completamente drogados.

KRYCEK: - Sabe aonde estamos?

MULDER: - Ia perguntar isso pra você...

Os dois riem. Mulder olha ao redor.

MULDER: - Estamos num quarto esquisito, nus e bebendo... Mas não tenho certeza se isso é real... Acho que tô chapado.

KRYCEK: - Lembra de alguma coisa?

MULDER: - Não. E você?

KRYCEK: - Eu sei lá! Estou meio tonto, fora de órbita... Mulder, o que a gente tá fazendo nesse lugar?

MULDER: - Não faço a mínima ideia. Pensei que você soubesse.

Os dois riem. As câmeras se movimentam.

KRYCEK: -Shiii... Tem uns barulhos esquisitos aqui... Não tá ouvindo?

MULDER: - Seus parentes?

KRYCEK: - Acho que não... Som metálico... Robôs?

MULDER: - Não ouvi nada. Acho que você tá drogado. Eu tô!

KRYCEK: - E por que estamos drogados? E por que tem robôs aqui?

Mulder recosta as costas na cama. Krycek faz o mesmo. Os dois observam o ambiente.

MULDER: - Não estou em casa. Estamos na sua?

KRYCEK: - Acho que não. Meu depósito?

MULDER: - Hum... Pode ser.

Mulder vira o rosto pra Krycek.

MULDER: - Por que me trouxe aqui?

Krycek olha pra ele.

KRYCEK: - Não sei. Eu trouxe?

MULDER: - Não sei. Eu até levantaria se pudesse. Acho que meu carro tá lá fora.

KRYCEK: - (RINDO) Mulder, você tá com uma cara engraçada.

MULDER: - (RINDO) Eu? Você é quem tá com uma cara engraçada.

Os dois riem, olhando um pro outro. Então ficam sérios.

MULDER: - Tô confuso.

KRYCEK: - Tô tonto. O que a gente tava fazendo?

MULDER: - Não sei. Mas tá estranho.

KRYCEK: - É. Tá estranho. Será que a gente fez alguma coisa que não devia fazer?

Mulder olha pra si e depois pra Krycek.

MULDER: - Parece. Estamos nus, enrolados em lençóis, sentados num tapete no escuro, bebendo champanhe e tem uma cama revirada aí atrás. Fizemos besteira?

Os dois riem.

KRYCEK: - Sei lá. Me sinto estranho... Não lembro de nada. Por que você tá aqui?

MULDER: - Eu não sei se tô aqui. Nem sei se você é real.

Mulder cutuca Krycek com a ponta do dedo.

KRYCEK: - Por que isso?

MULDER: - É, você parece real. Veja se eu sou real.

Krycek cutuca Mulder com a ponta do dedo.

KRYCEK: - Eu acho que você é real.

Corte.


Vemos ele sentado de costas, com o chapéu, assistindo pela tela do computador. A imagem em preto e branco do infravermelho. Mulder e Krycek sentados no tapete, rindo, olhando um pro outro.

Ele ri, achando graça da situação dos dois que ele drogou, e que estão tão fora da casinha que nem sabem o que fazem. Ele leva a garrafa de cerveja na boca, percebemos agora a barba grande que ele tem. Continua assistindo pela tela. Aproxima mais uma das câmeras, melhorando o foco em Mulder, recostado com a cabeça na cama, olhando pra Krycek, que também olha pra ele. Mulder passa o dedo no nariz de Krycek.

MULDER: - Você tem um nariz bonitinho. É todo perfeitinho.

KRYCEK: -Tá me chamando de delicado?

MULDER: - Não. De perfeitinho.

Os dois riem. Ficam sérios, se olhando.

KRYCEK: - Até que você é um cara bonito. Pelo menos, não tenho mal gosto.

MULDER: - A gente tá apaixonado?

KRYCEK: - Eu não sei. Essa bebida... O que você me deu?

MULDER: -Não sei. Eu dei? Ou você me deu?

KRYCEK: - Não faço ideia de quem deu ou não!

Os dois riem alto.

MULDER: - Que merda a gente fez? Hum?

KRYCEK: - Eu não lembro. Foi bom?

MULDER: - Não sei. Foi?

KRYCEK: - Sei lá! Eu nem sei se isso é real! Por que seria?

MULDER: - Como vou saber? Nem sei se estamos aqui! Nem sei se você é você, se eu sou eu...

KRYCEK: - Eu acho que tô dormindo, tendo um pesadelo dos mais estranhos... Não é a primeira vez que me acontece. Da outra vez foi com a Scully. Por que agora com você?

MULDER: -Mas o que eu tô fazendo no seu sonho?

KRYCEK: - Como vou saber? E se você está sonhando e eu estou no seu sonho?

MULDER: - Por que eu tô sonhando com você? E por que transamos no sonho? Freud explica?

Mulder e Krycek se observam. Ao mesmo tempo aproximam os lábios. Olham-se nos olhos. Se afastam. Mulder abaixa a cabeça, começa a chorar.

KRYCEK: - Acho que fizemos merda.

MULDER: - (CHORANDO) Eu não sei... O que a gente fez?

KRYCEK: -Sei lá. Não lembro. Nem quero lembrar!

Mulder se abraça nele, chorando, perturbado. Krycek o envolve no braços, segurando lágrimas.

MULDER: -(EMOCIONALMENTE ABALADO) Eu nunca tive amor de homem na minha vida. Viu? Eu tava certo, sou gay. Meu pai nunca me abraçou, sabia? Minha mãe me odiava. Eu não era a menininha que eles amavam, e que por minha culpa foi levada de casa. Eles me odiavam porque eu era o menino bastardo, uma experiência maldita. O menino que só causou problemas. Eu nem devia ter nascido!

KRYCEK: - (EMOCIONALMENTE ABALADO) Não... Não foi sua culpa. Você sempre foi um bom menino. Meninos bons sempre se ferram, Mulder. Eu sei porque eu fui um menino bom, e o que ganhei com isso? Meus pais mortos e uma vida nas ruas, passando trabalho e fazendo coisas erradas pra viver... Quem nem devia ter nascido sou eu, um peso morto nesse mundo. Não chora... Se continuar, chorando, vou chorar com você.

Os dois choram abraçados. Completamente atordoados, abatidos e drogados.

"Ele" rindo, se inclina sobre a tela, prestando atenção no assunto dos dois.

MULDER: - (CHORANDO) Me abraça forte e me perdoa se magoei você. A culpa é minha do que aconteceu entre a gente.

KRYCEK: -(CHORANDO) Não, Mulder. A culpa é minha. Me perdoe você. Eu não sou homem. Me tiraram isso, você sabe. Tiraram toda a minha dignidade no dia em que me estupraram naquela cela. Se tem alguém aqui que não é homem, sou eu.

Mulder recosta a testa na testa de Krycek.

MULDER: -(CHORANDO) Não vou deixar que ninguém machuque você, eu prometo. Nunca mais.

KRYCEK: -(CHORANDO) Eu vou proteger você, Mulder. Ninguém vai magoar você nunca mais, eu prometo.

Vemos sobre a escrivaninha um pequeno monitor com a imagem deles e um display que dispara números, aumentando cada vez mais.

Krycek beija Mulder na testa. Segura o rosto dele e ficam se olhando, chorando, com as testas coladas.

KRYCEK: - Sabe que eu te amo, muito, do fundo do meu coração. Me perdoa.

MULDER: - Eu sei. Eu também te amo muito, do fundo do meu coração. Me perdoa.

KRYCEK: - Me perdoa você. Não quero mais magoar você, que eu já magoei tanto... Você não merece nada de ruim na vida. Você é o sujeito mais decente e honesto que eu já conheci. Você mora no meu coração, Mulder. Você é como um pai, como um irmão, você supre a minha falta de afeto, porque quando eu era odiado por todo mundo, você foi o único que me estendeu sua mão e me confortou da dor, a mesma que causei a você. Se isso não é bondade e pureza de espírito, eu não sei mais o que é.

MULDER: - Você é o único homem que me deu atenção de verdade na vida. Meu parceiro, me juntando dos cacos, meu amigo, irmão, pai, tudo você foi quando eu mais precisava.

Mulder solta Krycek, tentando secar as lágrimas. Os dois se olham, sorrindo tristes. Mulder se recosta nele. Krycek envolve o braço nele, acariciando os cabelos de Mulder, que se aninha contra o ombro do amigo e fecha os olhos, completamente perturbado.

MULDER: - Obrigado por ser meu pai agora. Nunca precisei tanto de um.

"Ele" leva a mão à tela, afagando a imagem de Mulder com o dedo. Em sua maldade e perversão, ele vê o amor que deseja ver.

Os números continuam disparando no display e aumentando.

Corte.


Mulder dorme no tapete, em posição fetal, recostado com a cabeça no peito de Krycek, que dorme com os braços ao redor de Mulder, como o protegendo.

Os pés com botas se aproximam. Ele se agacha, passando a mão com a luva de couro no rosto de Mulder. Depois afaga o rosto de Krycek. Deita-se ao lado de Mulder. Então tira a luva. Leva a boca até o rosto de Mulder, vira o rosto dele e o beija na boca. Depois leva a boca até os lábios de Krycek, o beijando. Mordisca a orelha de Krycek, enfia a língua.

Em seguida coloca o dedo polegar na boca de Krycek, enquanto se esfrega contra o traseiro de Mulder. Desce a mão agarrando o traseiro de Krycek. Geme em êxtase. Após se divertir perversamente com suas vítimas imóveis e desacordadas, ele se levanta e se afasta.

O foco continua em Mulder e Krycek.

Ele volta ao foco, arrancando os lençóis que eles usam. Tira um frasco do bolso e joga um líquido sobre os dois.



BLOCO 3:

Som do celular. Mulder abre os olhos. Percebe Krycek abraçado nele. Mulder senta-se. Olha pra Krycek nu. Olha pra si nu. Cerra os olhos, levando a mão à cabeça. Sacode Krycek.

MULDER: - Rato, acorda. Roubaram nossos lençóis!

Krycek senta-se, também cerrando os olhos, sem saber aonde está.

MULDER: -(COCHICHA) O que fazia dormindo pelado e colado em mim?

KRYCEK: - (COCHICHA) Eu? Colado em você? Tá maluco? Pelado?

MULDER: - (COCHICHA) E levaram as nossas calças de volta.

Krycek percebe que está nu. Leva as mãos à frente do corpo, assustado. Mulder pega as fronhas do chão e atira uma pra Krycek, colocando a outra na frente do corpo.

MULDER: -(NERVOSO) Que merda aconteceu aqui? Ele nos drogou de novo?

Krycek começa a se coçar.

KRYCEK: - Eu não sei, não consigo pensar, estou... Estou zonzo. Acho que vou...

Krycek se levanta correndo e se agacha na frente do vaso sanitário, vomitando.

Mulder começa a se coçar. Leva a mão aos olhos, evitando a luz, que machuca.

MULDER: - Que coceira desgraçada... Deve ser pulga de rato. Você tá bem?

Krycek senta-se no chão, com a mão na cabeça.

KRYCEK: - Mulder, eu apaguei... Eu não lembro de nada e isso está me deixando assustado. Meu estômago tá me matando.

MULDER: - Dois. Estou enjoado. Minha cabeça dói, eu não consigo pensar e nem lembrar de nada e... Que coceira infernal!

Os dois continuam se coçando.

Som do celular. Eles olham pra TV.

MENSAGEM EM LETRAS: Bom dia meus garotos. Obrigado por aquele espetáculo de ontem à noite.

Mulder se levanta, indignado, colocando a fronha na frente do corpo.

MULDER: - Você mentiu pra gente! Você nos drogou!

MENSAGEM EM LETRAS: Eu não menti. Não envenenei vocês, apenas dei um estímulo que faltava para abrirem suas asinhas sujas, tão imundas quantos seus segredinhos sórdidos.

Krycek segura a fronha à frente do corpo e continua sentado. Medo nos olhos. Mulder olha pra ele, nervoso. Depois pra TV.

MULDER: - Que segredinhos? Eu não lembro de nada!

MENSAGEM EM LETRAS: O que infelizmente é um dos efeitos da droga que administrei via champanhe gelada. Mas terão o resto da vida para pensarem sobre o que falaram e fizeram nesse tapete. Alguma culpa tortuosa nisso? Acho que não. Prontos pra jogar?

MULDER: - Não! Não estamos prontos pra jogar! Estamos enjoados e tontos por causa daquela droga que nos deu!

MENSAGEM EM LETRAS: Não culpem a droga, vocês dormiram mais de doze horas, o efeito já passou. Contudo, já estão com coceira?

Mulder e Krycek se entreolham, ainda se coçando.

KRYCEK: - O que fez com a gente, seu desgraçado?

MENSAGEM EM LETRAS: Modere seu tom, papai não gosta disso. Papai machuca quando é irritado. Prontos pra jogar? A coceira que sentem vai começar a ficar bem pior. O enjoo também. É um composto químico, não letal, mas que se não retirado da pele, podem se coçar tanto que vai machucar, criar feridas e feridas virarão úlceras. A cabeça de vocês vai girar tanto que nenhuma aspirina vai aliviar.

MULDER: - Por que nos tortura se fazemos tudo o que pede?

MENSAGEM EM LETRAS: Porque fazem apenas o que eu peço. Gostei do que fizeram ontem, gosto de como conversam, como riem juntos, como demonstram amor e fiquei realmente surpreso com as coisas que falaram, o que significa que vocês não mentiram pra mim. Ocultaram algumas coisas, mas eu posso entender. Tanta dor, tanto trauma, isso os faz diferentes, os faz os meus meninos favoritos, que sentem vergonha de fazerem sujeiras na frente das câmeras e sentem medo de se entregarem totalmente ao prazer. Gostei do beijo.Foi bonito e romântico. Fazia tempo que não via um beijo tão sincero.

Mulder e Krycek arregalam os olhos, olhando um pro outro. Depois olham pra TV.

MENSAGEM EM LETRAS: Mas eu também quero mais! Não aproveitam o tempo que estão juntos pra fazerem o que vieram fazer no hotel. Vocês têm vergonha, eu entendo, mas não quero vergonha aqui. Sou o papai, eu mando na minha casa! Sejam livres, meu meninos! Quero paus em ação. É isso o que eu quero! Luta de espadas, bocas, beijos, chupadas e tudo o que vocês dois fazem juntos, mas não querem me mostrar. Eu quero ver! Eu preciso ver! Me agradem!!!

Krycek respira fundo, se coçando. Mulder se coça, olhando com ódio pra TV.

MENSAGEM EM LETRAS: A boa notícia é que podem se livrar da coceira e dos enjoos. Basta tomarem banho. Bastante sabonete e isso sai da pele e o enjoo vai embora. Eu antecipo as jogadas. Vocês não são páreos pra minha inteligência. Vão ficar com vergonha? Agora vão ter que perder a vergonha, ou vão se coçar até sangrarem, vomitarem as tripas e a cabeça vai explodir de tanta dor. Prontos pra jogar?

Eles ficam calados. O cativeiro e o abuso já começam a cobrar o preço da sanidade mental.

MENSAGEM EM LETRAS: Há um chuveiro para os dois. Sabem aonde fica. O mecanismo do chuveiro só aciona se dois estiverem no box. Se apenas um estiver, vai continuar sem banho. Portanto, culpem o outro pela sua coceira caso ele não aceite jogar. Ou joguem e tomem um banho juntos. E se eu gostar do que ver, os recompensarei. Se eu não gostar... Acabou o jogo pra vocês. Os deixarei com fome por dias. E depois vou ensinar pra cada um de vocês, em particular, o que é o verdadeiro sexo entre machos. Alex você me entendeu. Você sabe do que estou falando.

Krycek arregala os olhos. A TV desliga. Mulder deita-se no chão. Continua se coçando, mas perde os olhos no vazio, já cansado e desanimado. Krycek fica mais nervoso.

KRYCEK: -(TENSO) O que fizemos ontem, Mulder? Que beijo? O que falamos? Ele insinuou alguma coisa. Ele sabe que sofri abuso. Acaba de dizer claramente que vai nos estuprar!

MULDER: - Eu não sei, Krycek. Eu não lembro e acho melhor a gente nem lembrar mesmo.

Krycek se levanta. Coça os braços. Estende a mão pra Mulder.

KRYCEK: - Vem. Vamos sobreviver a isso.

MULDER: - Não quero mais sobreviver. Ele vai nos matar agora ou depois. E estou perdendo o meu amigo, porque a vergonha não me deixa mais levantar desse tapete. Já aceitei que fiz uma escolha errada e que nunca mais verei minha família. Me perdoa por levar você pra morte. E me perdoa por sei lá o que aconteceu ontem.

KRYCEK: - Eu não sei se a culpa foi sua ou minha.

MULDER: - Provavelmente minha. Porque sou um idiota.

Krycek senta-se no chão, ajeitando a fronha entre as pernas.

KRYCEK: - Você gosta de basquete, não é? E basebol. Eu prefiro futebol. Russos gostam de futebol.

MULDER: -(OLHOS PARADOS) ...

KRYCEK: - Você joga ainda?

MULDER: - Algumas vezes jogo basquete com minha filha. Por quê?

KRYCEK: - Mas jogou na escola. Com certeza.

MULDER: - É, eu era do time da escola. Até jogava bem, mas não ganhava mulher com isso.

Mulder continua se coçando. Krycek estende a mão pra ele.

KRYCEK: -(COCHICHA) Vamos, Mulder. Levanta daí. Hora de encarar um vestiário. Quantos já encarou na vida?

MULDER: -(COCHICHA) Vendo cara pelado, um monte. Mas não com um cara pelado debaixo do mesmo chuveiro.

Krycek abaixa a cabeça, brincando nervosamente com as mãos, alterando algumas vezes pra se coçar. Olhos em lágrimas.

KRYCEK: -Eu tenho vergonha de chorar, Mulder. Eu me seguro pra chorar, eu prefiro bancar o sério, durão, ameaçador... As pessoas te respeitam mais, quando você age assim. Elas não pisam em você. Cria um muro, sabe? Mas com você, eu não tenho vergonha, porque você também é homem e não tem vergonha de desabar... Mulder, não desista da sua vida porque um imbecil está forçando você a tomar banho com outro homem, que no caso sou eu, seu amigo. Existem coisas bem piores na vida. Muito mais humilhantes pra um homem. Como ser torturado fisicamente por um estranho, apanhar dele feito um animal, ser jogado numa mesa, dominado e violentado até sangrar e perder a consciência.

Mulder olha pra ele, com tristeza.

KRYCEK: - Isso sim é humilhação, Mulder. Aquilo lá é apenas um chuveiro e um banho com um amigo. Não é nada. É vestiário de jogo. É a diferença entre a esperança de sair vivo e voltar pra quem amamos ou a certeza de morrer sofrendo nesse lugar nas mãos de um sádico. É sobrevivência.

Mulder se levanta. Estende a mão pra Krycek.

MULDER: -(COCHICHA/ DEBOCHADO) Mas se o sabonete cair no chão, quem pega é você.

Corte.

Os dois dentro do box. As câmeras rentes ao vidro. Mulder esfrega os cabelos.

MULDER: - Até a minha cabeça tá coçando.

Krycek olha pras câmeras, enquanto se ensaboa.

MULDER: - O que tá pensando, Rato?

KRYCEK: -(COCHICHA) Que estou num reality show, completamente nu e exposto e nem vão me pagar 1 milhão pra ficar nessa casa. O pior de tudo é que não tem festa e nem mulher, a bebida é batizada e a comida escassa! Que furada!

Mulder angustiado, tentando ignorar as câmeras.

KRYCEK: - (COCHICHA/ ÓDIO) Mulder, quero ficar vivo pra pegar esse cara. Aposto com você que é militar ou foi militar. Ele tem acesso a substâncias tóxicas que não são comercializadas. E pouco me importa se ele é grande. Quanto maior o tamanho, maior será o tombo.

MULDER: - (COCHICHA/ RAIVA) Com o ódio que a gente tá, derrubamos ele no soco. Já matou um urso?

KRYCEK: - (COCHICHA) Não, mas adoraria caçá-lo e colocar o couro dele como tapete no chão. Esfrega as minhas costas que estão coçando. Ou vai acabar nos matando por "falta de ação".

Krycek vira-se pra Mulder, que esfrega as costas dele com a esponja.

MULDER: - (COCHICHA) Isso é ridículo. Ação. Ele quer ação. Estamos ferrados! O máximo de ação que ele vai ver é esfregarmos nossas costas. Eu tô surtando, Rato.

KRYCEK: - (COCHICHA) Eu vou dar ação pra ele. Só queria enfiar uma dinamite no rabo desse filho da puta e explodir pra ver se ele goza.

MULDER: - (COCHICHA) Eu me perdi nos dias. Você sabe se estamos há mais de 48 horas aqui?

KRYCEK: -(COCHICHA) Eu não lembro. Entramos no hotel na sexta à noite. Passaríamos o sábado e sairíamos no domingo à tarde. Sinceramente espero que já seja domingo pras garotas começarem a se preocupar e virem atrás da gente com a polícia.

MULDER: - (FALA ALTO) Amorzinho, esfrega as minhas costas! Tá coçando!

Mulder entrega a esponja pra Krycek, olhando debochado pra ele.

KRYCEK: -(COCHICHA) O que foi?

MULDER: -(COCHICHA) Vê lá aonde vai descer esfregando essa esponja.

Krycek ergue os olhos, irritado. Mulder vira-se de costas.

MULDER: - (COCHICHA) Você não queria ser ator? Eu juro que me esforço, só não sei se convenço a plateia.

KRYCEK: - (COCHICHA/ SACANA) Ah convence, bem melhor que eu!

MULDER: - (COCHICHA) Não vou te dar resposta porque agora é você quem tá com a esponja e o sabonete.

KRYCEK: -(COCHICHA) Eu queria ser cantor de ópera, e todo cantor de ópera também é ator. Mas não ator de filme pornô gay, de terceira categoria. Minha ideia de interpretação nunca incluiu tomar banho pelado com você... Nem esfregar suas costas.

MULDER: -(COCHICHA) Essa merda me lembra o tempo em que vigiavam Scully e eu dentro do meu apartamento. Tem certeza de que Marita nunca...

KRYCEK: -(COCHICHA) Não sei. Mas eu não vi nenhum vídeo seu transando com a Scully. Acho que a Marita me escondia as cenas nuas da sua ruiva, em compensação devia olhar você até no chuveiro. No seu caso, eu me preocuparia mais é com aquela velharada do Sindicato. Será que assistiam?

Mulder faz cara de pânico. Krycek devolve a esponja.

KRYCEK: - Me passa o xampu. Espero que não caia o cabelo.

MULDER: -(COCHICHA) Rato, eu prefiro que fique sério, porque quando resolve fazer piada, você me assusta! (DEBOCHADO) Bom, eu não tenho culpa se a sua ex era responsável por observar todos os meus "movimentos". E mulher me olhando é algo que eleva o meu ego.

KRYCEK: -(COCHICHA) É? Mantenha seu ego baixo e dormindo, ou soco sua cara nessa parede... Me diz o que é menos pior no meu dilema: Ficar de frente pra você e de costas para a câmera do tarado, ou de frente para a câmera do tarado e de costas pra você?

MULDER: -(DEBOCHADO) Não curte de ladinho?

KRYCEK: - Nem vou te responder. Sai debaixo desse chuveiro e abre espaço aí sem encostar. Ainda bem que não canta no banho ou aquele cretino já tinha jogado VX aqui dentro!

Mulder troca de lugar com Krycek. Puxa a toalha e enrola na cintura. Fica pensativo.

KRYCEK: -(COCHICHA) Nem sei o que estamos fazendo, só vamos morrer limpos e sem coceira, apenas isso. Porque ele não vai ter ação aqui. Quando desligar esse chuveiro, estaremos mortos.

MULDER: -(COCHICHA) Tive uma ideia. Estamos numa gaiola, sendo tratados como animais de estimação... Canta alguma coisa pra mim, bem alto. Tipo uma serenata.

KRYCEK: -(COCHICHA) Eu? Pra quê? Virei canário agora?

MULDER: - (COCHICHA) Canários são belgas e você é russo. Esse maluco falou que gosta da gente porque somos diferentes, românticos... Talvez não nos mate por falta de criatividade... Já estou no estágio da vítima que pensa em todas as formas de agradar o agressor pra não ser morto... Krycek, eu realmente não tô bem.

KRYCEK: - (COCHICHA) Mulder, nem eu, e você sabe que quanto mais tempo nessa situação, mais louco a gente vai ficar. Mas estamos aqui um pelo outro, ok? Aguenta firme. Vamos ter que ser criativos pra fugir de sexo. Sua ideia de romance é interessante, mas não sei se ele vai gostar.

MULDER: - (COCHICHA/ MEDO) Pela primeira vez na minha vida tô fugindo de sexo feito o diabo da cruz! Ele vive dizendo: Me agrade. Vamos agradar da nossa maneira. E torcer pra que isso o agrade realmente.

Mulder sai do box, o chuveiro se desliga.

KRYCEK: -(COCHICHA) Me passa a toalha.

Mulder entrega a toalha, Krycek se enrola.

KRYCEK: - (COCHICHA) O que eu vou cantar pra você? Elvis?

MULDER: -(COCHICHA) Eu sei lá! Canta qualquer coisa romântica pra mim. Pensa na sua gata e canta. MenosJailhouse Rock, por motivos óbvios... (DEBOCHADO) Também não canta Elvis, vai que me apaixono... Sério, Rato, sua voz agora é a nossa arma. Canta. E canta como se a nossa vida dependesse disso. Porque depende. Ele quer ação aqui, que não podemos dar. Então sejamos criativos, porque esse banho já terminou e...

Barulhos na cela. Os buracos de ventilação se fecham. Mulder olha pra cima, desanimado. Senta-se no vaso sanitário. Fecha os olhos.

MULDER: -(SUSPIRA) Acho que a nossa vida também terminou. Não somos bons atores. A plateia não curtiu a performance da esponja nas costas.

Mulder abaixa a cabeça, desanimado. Krycek, ainda dentro do box, recosta a testa e as mãos no vidro, fechando os olhos.

Krycek começa a cantar Caruso, de Lucio Dalla.

KRYCEK: - (CANTANDO) Qui dove il mare luccica... E tira forte il vento... Su una vecchia terrazza davanti al golfo di Surriento...

As câmeras se direcionam rapidamente pra Krycek.

KRYCEK: - (CANTANDO) Un uomo abbracia una ragazza, dopo che aveva pianto... Poi si schiarisce la voce... E ricomincia il canto.

Mulder olha pra Krycek, num sorriso de admiração.

KRYCEK: -(CANTANDO) Te voglio bene assaie... Ma tanto tanto bene sai... È una catena ormai... Che scioglie il sangue dint'e vene sai...

Os buracos de ventilação se abrem. Mulder olha pra cima, depois pra Krycek e sorri aliviado.Derruba lágrimas, olhar distante num ponto de fuga. Krycek continua cabisbaixo, cerrando os punhos contra o vidro, cantando com a voz embargada.

Corte.

O compartimento se abre na parede de metal. Travesseiros com fronhas, lençóis limpos e dobrados, e as calças deles dobradas. Uma cesta de frutas.

Krycek cabisbaixo, sentado aos pés da cama. Mulder pega os "presentes". Atira um dos travesseiros na cabeça de Krycek, que olha pra ele.

MULDER: - Se pudesse, dava um Grammy pra você agora.

Krycek sorri triste. Mulder atira as calças pra ele. Os dois começam a se vestir.

MULDER: - (DEBOCHADO) Bom usar calças. Ando muito arejado nas partes baixas. Posso me resfriar e "espirrar" em você.

KRYCEK: -(SEGURA O RISO) Eu mato você se "espirrar" em mim!

Mulder pega os lençóis e o cesto de frutas, que entrega pra Krycek.

MULDER: - Levanta daí, vou arrumar essa cama.

Krycek se levanta. Mulder vai arrumando a cama.

MULDER: -Conseguiu me fazer chorar. Eu não sei, sinceramente, aonde você esconde toda essa emoção durante o dia, debaixo de cara feia, seriedade e um ar de brutalidade, mas que extravasa quando canta. Talento desperdiçado. Odeio o Fumacinha! Você é um artista que disfarçaram de pistoleiro.

KRYCEK: - Acho que um assassino disfarçado de artista.

MULDER: - O que veio primeiro? O artista ou o assassino?

KRYCEK: - Então aplauda Hitler, antes de virar assassino era pintor. E também usava jaqueta de couro.

MULDER: - Não compara. Pra Hitler você não serve. Além de sobrar altura, você não combina com bigodinho ridículo e dorme com um judeu.

Krycek sorri. Os dois sentam-se na cama.

KRYCEK: - Tô com fome. Mas depois das coisas que falou sobre frutas... Não vou arriscar.

MULDER: - Podemos lavar. Mas se tiver droga nelas... É, não vou arriscar. Também tô morrendo de fome... (COCHICHA) Obrigado por nos salvar.

KRYCEK: - (COCHICHA) A ideia foi sua. Eu nunca poderia imaginar que a música me salvaria...

MULDER: -(COCHICHA) Ele tá quieto. Não falou nada, mas nos deu recompensas. Gostou do seu show.

KRYCEK: -(COCHICHA) Não estou tranquilo com isso. Tenho medo só de ouvir aquele som de celular, a TV ligar e ler a frase: Prontos pra jogar? Acho que já traumatizei.

MULDER: -(COCHICHA) Eu também, mas até que esse silêncio me deixa aliviado. Mesmo sabendo que alguma punição pode acontecer a qualquer momento, eu prefiro não ver as palavras dele. Por que ele não fala conosco? Por que apenas escreve?

KRYCEK: -(COCHICHA) Não sei. Poderia pensar que vai nos soltar mesmo e não quer que o reconheçamos pela voz, mas acho isso improvável.

MULDER: -(COCHICHA) Acho que ele não gosta de se expor. Criar contato com as vítimas. Nós iríamos interagir mais, se fosse uma conversa direta. Cara, juro que tô doido pra comer essa maçã.

Mulder se levanta e coloca o cesto na mesa. Se atira na cama.

MULDER: - (COCHICHA) Eu faço o primeiro turno. "El Ratoncito" precisa descansar que o show foi desgastante.

Krycek sorri. Se atira na cama. Fecha os olhos.

KRYCEK: -(COCHICHA) Representar tem sido desgastante, Mulder. Pra nós dois.

As luzes se apagam.

MULDER: -(COCHICHA) Ele está quieto, mas está nos observando. Apagou a luz.

KRYCEK: -(COCHICHA) Ele deve estar pensando que depois dessa minha serenata romântica, você vai dar pra mim. (FALA ALTO) Lamento, Mulder, hoje não vai rolar. Tô cansado e com dor de cabeça! Acho que foi aquela droga somada ao veneno e a fome!

Krycek puxa o lençol e vira-se de costas pra Mulder, que segura o riso.

KRYCEK: - Pelo menos me sinto limpo, dormindo em lençóis limpos e com uma raposa limpa do meu lado.

MULDER: - (DEBOCHADO) Se sentir frio, sou um ótimo casaco de pele.

KRYCEK: -(SACANA) Beleza! Você me dá as costas e a gente dorme de conchinha.

MULDER: - (COCHICHA/ DEBOCHADO) Você vai ver é a conchinha da minha mão na sua orelha.

KRYCEK: - (COCHICHA) Não paro de pensar na Barbara. Queria estar com ela agora.

MULDER: -(COCHICHA) Isso chama-se saudades. Tenho isso desde que me apeguei a Scully.

KRYCEK: -(COCHICHA) Mulder, eu já tô no meu limite. Depois disso ou vem a loucura ou a violência.

MULDER: -(COCHICHA) Eu sei, Rato. Também estou, mas precisamos continuar vivos, fingindo e sendo criativos. Tenta dormir um pouco.

Corte.


A vela acesa sobre o criado-mudo. Mulder deitado na cama, fecha a gaveta do criado-mudo. Krycek se acorda.

KRYCEK: - (COCHICHA) O que tá fazendo?

MULDER: - (COCHICHA) Tentando não surtar. Já revirei todo esse lugar novamente e não encontrei mais nada e nenhuma saída. Mas deve ter alguma porta, como ele nos colocou aqui dentro? E você tinha razão, nessa gaveta só tem preservativos.

KRYCEK: - (COCHICHA) Na gaveta do meu lado tem gel anestésico anal, óleo corporal e gel sabor morango. Servido?

MULDER: - (COCHICHA/ DEBOCHADO) Quer experimentar o sabor morango?

KRYCEK: -(COCHICHA) Sério? Que tal você experimentar se o anestésico anal funciona?

MULDER: -(COCHICHA) Sem graça, Rato. Você que precisaria de anestésico.

KRYCEK: -(COCHICHA) Quê? Vai medir tamanho agora é?

MULDER: -(COCHICHA) Não preciso, eu ganho em comprimento.

KRYCEK: -(COCHICHA) Ah, andou olhando pra mim é? Esperava 25 centímetros, confessa!

MULDER: -(COCHICHA) Tá maluco? Estávamos nus nesse lugar, tomamos banho juntos, como não olhar? E você? Você também me olhou!

KRYCEK: -(COCHICHA) E vai dizer que nunca olhou discretamente pra outro cara tentando comparar?

MULDER: -(COCHICHA) Negarei até a morte, mas nunca debaixo de uma viga.

KRYCEK: -(COCHICHA) Sei... Sabia que comprimento não importa? O que vale mesmo é a grossura?

MULDER: - (COCHICHA) Fica você com sua grossura e deixa o meu comprimento em paz. Você me dá medo!

KRYCEK: -(COCHICHA) Você que me dá medo!

MULDER: -(COCHICHA) Fiquei com inveja de você. Eu sempre tive problemas com isso.

KRYCEK: -(COCHICHA) Com inveja?

MULDER: -(COCHICHA) Com tamanho.

KRYCEK: -(COCHICHA) Dizem que as mulheres gostam.

MULDER: - (COCHICHA) Mentira.

KRYCEK: -(COCHICHA) Sério?

MULDER: -(COCHICHA) Algumas se assustam.

KRYCEK: -(COCHICHA) E eu sempre pensei que uns centímetros a mais cairiam bem...

MULDER: -(COCHICHA) Tá maluco? Você até já tá fora do normal. O normal mesmo, segundo a literatura médica, é uns 9 cm em repouso e 13 cm ereto.

KRYCEK: -(COCHICHA) Dizem que os negros são mais avantajados que os brancos.

MULDER: -(COCHICHA) Eu li um estudo que uns cientistas fizeram sobre o tamanho do pênis em vários países do mundo. Eles disseram que a média global é 14 cm. O país mais bem dotado é a República Democrática do Congo, com uma média de 18 cm.

KRYCEK: -(COCHICHA) Posso me considerar um negrão congolês então? E o menos dotado?

MULDER: -(COCHICHA/ RINDO) A Coréia do Norte. Média de 9,65 cm.

KRYCEK: -(COCHICHA) Tá vendo o que eu digo sobre comunismo? Até no tamanho do pau atrapalha!

Os dois riem.

KRYCEK: - (COCHICHA) ... Fala sério, seus pais eram judeus religiosos?

MULDER: -(COCHICHA) Não. Exceto pra me castrarem.

KRYCEK: - (COCHICHA) Você não foi castrado, Mulder. Quanto exagero!

MULDER: -(COCHICHA) Mas nem ferrando que vou deixar circuncidarem o meu filho. A graça do brinquedo pra mulherada é o excesso de pele. Sabe né? O velho estica e puxa, esconde e revela... Eu também tenho frustração por causa disso.

Krycek leva as mãos ao rosto, tendo um ataque de riso.

KRYCEK: -(COCHICHA) Juro que queria ter sido circuncidado. Eu não sei o que é mais feio, se excesso de pele ou pele nenhuma!

MULDER: -(COCHICHA) E depois o infeliz fica sensível, dependendo do tecido até machuca. Russos não são adeptos a circuncisão?

KRYCEK: -(COCHICHA) Tem muito judeu na Rússia, mas historicamente, quando Vladimir I decidiu que o país deveria ter uma religião, também tinha muito islâmico por lá na época. Entre judeus e islâmicos, ele preferiu o catolicismo, porque não simpatizou com a ideia deles em cortar prepúcios, abolir a carne de porco e principalmente abandonar a vodca!

MULDER: - (COCHICHA) Acho que seu pinto se salvou historicamente por causa da vodca.

KRYCEK: - (COCHICHA/ RINDO) Também acho! Eu não acredito que estamos falando sobre pênis!

MULDER: -(COCHICHA/ RINDO) Por quê? As mulheres não falam de suas vaginas? Nós temos o direito de falar sobre nossos pênis. E reclamar de tradições antigas que ainda são praticadas.

KRYCEK: - (COCHICHA) Quer rir?

MULDER: -(COCHICHA) Conta.

KRYCEK: -(COCHICHA) Você já ganhou alguma cueca diferente?

MULDER: -(COCHICHA) Várias. A mais diferente foi uma com estampas de alienígenas que a Scully me deu. Preta com aliens verdes fluorecentes que brilham no escuro. Minha mulher é louca!

KRYCEK: -(COCHICHA) Louca é a minha que veio com uma cueca que era a cara de um elefante. Imagina o que você veste pra dentro da tromba?

Os dois começam a rir.

MULDER: -(COCHICHA/ RINDO) Você usou?

KRYCEK: -(COCHICHA/ RINDO) Eu tive que experimentar e dizer que incomodava.

MULDER: - (COCHICHA/ RINDO) É pra não sentir frio, Rato.

KRYCEK: -(COCHICHA/ RINDO) É, vai que ele pegue um resfriado...

MULDER: -(COCHICHA/ RINDO) Se espirrar então...

Os dois se reviram de rir.

MULDER: - (RESPIRA FUNDO/ SORRI/ COCHICHA) Amo aquela louca. Um dia longe dela é pra ficar doente.

KRYCEK: - (COCHICHA) Entendo, também amo a minha maluquinha. Pensei que a saudade diminuísse com o tempo.

MULDER: -(COCHICHA) Não, só aumenta.

KRYCEK: - (COCHICHA) Então tô lascado. Queria saber o que ela está fazendo agora... Ela nem imagina a situação em que estou.

MULDER: -(COCHICHA) Aposto que está no quarto com a Scully. As duas estão reclamando da gente, enquanto se entopem de pizza e refrigerante e assistem algum romance na TV.

KRYCEK: -(COCHICHA) Estive pensando. Se sair vivo, eu prometi pra Barbara que a levaria pra conhecer a Russia nas minhas férias. Já que ela gosta tanto do meu país, podia me casar por lá com ela. Numa pequena igreja, num vilarejo distante...

MULDER: - (COCHICHA) Ela vai adorar. Mas pensa bem, não vai depois ela fazer como a Scully, que qualquer casamento servia, mas começou a namorar um vestido de noiva até me arrastar pra igreja.

KRYCEK: -(COCHICHA) Não, a Barbara é diferente. Ela não liga mesmo pra essas coisas, só se os pais dela se irritarem com isso. Sei que ela é católica, mas ela não liga se tiver igreja, vestido, convidados. O que ela liga mesmo é a presença de um padre. Pra abençoar a união diante de Deus, é o que ela me diz. Vou amadurecer essa ideia, não vou falar nada pra ela. Quando chegarmos na Russia, a pego de surpresa.

MULDER: - (COCHICHA) Eu disse que você ia gostar de brincar de casinha. Tá aí sorrindo bobo... Não foi bom? Hum? Não é bom ter alguém do seu lado pra dividir a vida? Não tomou juízo na marra? Eu nem reconheço mais você.

KRYCEK: - (COCHICHA) Nem eu me reconheço mais, Mulder. Mas uma coisa eu concordo com você, quando me dizia que a mulher transforma um homem, tanto para o bem quanto para o mal. Barbara me transformou. Antes dela eu era um cara, agora eu sou outro. E o pior que elas fazem isso tão discretamente, que você nem percebe quando começou a mudar.

MULDER: - (COCHICHA) Exato. Digo a mesma coisa. Eu era um antes da Scully, hoje sou outro. Acho que hoje somos melhores, não acha?

KRYCEK: -(COCHICHA) Com certeza. Vamos ter que concordar com elas. Mudanças foram necessárias. Vou cochilar, Mulder. Me chama pro segundo turno.

Krycek vira-se de costas pra Mulder e fecha os olhos. Mulder olha pra ele e sorri.

MULDER: -(COCHICHA) Rato, você me deu as costas numa cama pela segunda vez. Percebeu isso?

KRYCEK: -(COCHICHA) Confio em você, Mulder.

Mulder sorri. Assopra a vela e deita-se.

KRYCEK: - (COCHICHA) Mulder... Obrigado. Não fosse o seu senso de humor, eu já tinha surtado.

Corte.


Escuridão. As luzes da cela se acendem.

Som do celular. A TV se liga. Mulder cutuca Krycek. Os dois olham nervosos pra TV.

MENSAGEM EM LETRAS: Quantas surpresas ainda terei com meus meninos favoritos? Tem uma bela voz, Alex e um gosto musical bem refinado. Nunca imaginei ter um cantor de estimação. Gostaram dos presentes?

Krycek cerra o cenho. Mulder olha pra câmera acima deles.

MULDER: - (CONTRARIADO) Sim, "papai". Obrigado.

MENSAGEM EM LETRAS:Percebi que Mulder está insone e foi jogar mais um pouquinho. Depois ficaram de cochichos e risadinhas como todo o casal. Mas estou aborrecido com os meus meninos. Vamos elevar o nível desse jogo.

Os dois se entreolham. Krycek pisca o olho pra Mulder. Então levanta-se.

MENSAGEM EM LETRAS:Vocês vieram passar um final de semana juntos, não acho que tenha sido apenas pra conversar. Vamos agir como homens adultos. Eu já deixei claro que eu quero ação. Querem sobreviver? Me agradem! Prontos pra jogar?

Mulder se levanta.

MULDER: - Eu sei o que você quer, mas eu sou tímido. E esse monte de câmeras me deixa mais tímido ainda.

Krycek esmurra a parede de vidro. Num acesso de fúria, mete um falso soco em Mulder, que cai em cima da cama.

KRYCEK: - Você me colocou nessa merda toda! Maldita hora que aceitei esse fim de semana dos infernos, sabia? Podíamos ter ido pescar mesmo! Você, eu e uma barraca. Mas não, você veio com "ah, mas não tem conforto, mas eu quero beber champanhe e transar com você em lençóis macios". Podia ser no meio do mato, seu otário!Pode ser até aqui, fica de quatro agora e eu resolvo logo o seu problema, o meu problema e o problema desse maluco!

Mulder se levanta e acerta um falso soco em Krycek que voa contra o vidro.

MULDER: - Nunca mais me trate desse jeito, entendeu? Eu não sou uma garota pra você destratar!Não sou seu saco de pancadas, idiota! Se bater, apanha na mesma intensidade!

MENSAGEM EM LETRAS: Estou gostando dessa violência toda... Ela é excitante.

Os dois se agarram a falsos socos e tapas, tentando um derrubar o outro. As câmeras dirigem o foco para os dois "brigando".

MULDER: - (AOS GRITOS) Eu vou matar você!!!

KRYCEK: -(AOS GRITOS) Eu é quem devia matar você! Me trouxe aqui pra uma coisa e olha o que aconteceu? Estou cansado das suas culpas e desculpas e da sua timidez!!!

MULDER: -(AOS GRITOS) E eu cansado dessa sua pose de machão, que não passa de pose! Você não admite que gosta! Eu posso ter vergonha de assumir, mas você tem medo!

MENSAGEM EM LETRAS: Resolveram ser machos agora?

KRYCEK: -(AOS GRITOS) Eu não tenho medo! Eu não tenho nada a perder, você é quem tem! Sua mulher vai chutar seu traseiro quando souber que você e eu temos um caso!

Os dois começam a discutir.

MULDER: - E a sua não vai?

KRYCEK: - Eu não ligo pra ela! Eu quero você! Não entendeu ainda? Quantas vezes eu já disse, foda-se mulher, foda-se polícia, emprego, vamos embora, vamos viver juntos, mas você... Você é quem tem medo de assumir!

MULDER: - Pra você é fácil dizer isso! Você não tem família!

KRYCEK: - Cansei, Mulder! Você me cansou! Você tem sérios problemas psicológicos!!!

Krycek pega o travesseiro e deita no chão.

MULDER: - Não faz papel de bobo!

KRYCEK: - Não toca em mim! Se chegar perto, eu juro que amasso essa sua cara! Entendeu? Não quero nem sentir seu cheiro hoje! Me esquece!

MULDER: - Me esqueça você!

Mulder senta-se na beirada da cama, coloca as mãos no rosto.

MENSAGEM EM LETRAS: Meninos... Depois de uma briga violenta, que tal fazerem as pazes?

KRYCEK: - O que você quer? Que a gente transe pra você ver? É isso? Pois eu não vou transar com esse idiota! Eu quero é dar um soco na cara dele hoje! Ele tá pedindo uma surra há muito tempo!

MULDER: - Perdi o tesão com tanta ignorância! Vai se foder, Krycek!

KRYCEK: - Vai você, Mulder!

MENSAGEM EM LETRAS: Estou perdendo minha paciência com vocês. Quero que façam as pazes, agora.

KRYCEK: - Não. Eu não vou pedir desculpas!Quem perdeu o tesão foi eu!

MULDER: - Nem eu! Eu não mereço ouvir o que ele falou!

Mulder se levanta, andando de um lado pra outro.

MENSAGEM EM LETRAS: Não vão inverter o jogo. Sabem que não estou brincando. Eu quero vocês dois agora, mostrando pra mim a sujeira que fazem escondidos das suas esposas. Acabou a minha paciência, prometo que não vou jogar VX aí dentro, vou é fazê-los dormir e comer o rabo dos dois enquanto estão desmaiados! E eu não canto e nem sou romântico!

Ambos se entreolham mais nervosos. O plano falhou.

MENSAGEM EM LETRAS:Ou me satisfazem acordados um com o outro, ou eu vou me satisfazer sozinho com os dois desacordados. Quinze minutos pra pensarem.

A TV desliga. Mulder senta-se no tapete. Krycek vai até ele e senta-se ao lado, dobra as pernas e coloca os braços sobre os joelhos, apoiando a cabeça. Mulder suspira.

MULDER: - (COCHICHA) Seu plano deu certo por um tempo. Esse é o Arquivo X mais fodido que eu já encarei!

KRYCEK: -(COCHICHA) Não, Mulder. O menos fodido. Porque se fosse o mais fodido, aquele cara lá tava feliz da vida com a gente. Meu Deus, o que não se faz pra sobreviver?Prefiro fingir o que ele quiser e continuar vivo.

MULDER: - (COCHICHA) Prefiro ser um gay vivo que um machão morto. E não leve isso ao pé da letra.

KRYCEK: - (COCHICHA) Esse filho da puta vai nos dopar e nos estuprar. Eu não tô achando isso engraçado. E sabe que ele vai fazer. Espero que tenha uma ideia, ou estamos literalmente fodidos.

MULDER: -(COCHICHA) Eu só espero que as nossas garotas estejam procurando por nós.

KRYCEK: -(COCHICHA) Eu também, mas elas não vão chegar a tempo. Mulder o que vamos fazer?

MULDER: -(COCHICHA) Scully tinha razão. Nessa situação em que estamos, para as mulheres seria mais fácil.

KRYCEK: -(COCHICHA) Como assim? Acha fácil para uma mulher hetero fingir ser lésbica?

MULDER: -(COCHICHA) Não falo do sexo em si, logicamente não seria, como não é para um homem hetero. Digo que se fôssemos mulheres não teríamos vergonha de fingir mais intimidade. Porque a sociedade não liga pra isso, mulheres são "frágeis, vulneráveis e sentimentais". Agora nós homens, somos machos. Ficamos pensando no que o outro vai pensar, com medo de ser considerado gay.

KRYCEK: - (COCHICHA) Eu nem sei se é medo do que o outro vai pensar, porque acho que a gente já se conhece bem e olha o que a gente já fez aqui! Imagina se alguém visse isso. Se sairmos vivo, mas nem em sonho você conta o que fizemos aqui pras garotas!

MULDER: - (COCHICHA) Tá maluco? Scully ia folgar até meu último dia de vida!

KRYCEK: - (COCHICHA) Aposto que não. Mas teríamos vergonha. Porque temos vergonha do que estamos sendo obrigados a fazer contra a nossa natureza. E esse pervertido assassino não quer mais carinhos, ele quer sexo. Mulder, acabou. Ou contamos que não somos gays e morremos, ou ele nos estupra. Voto por contar.

MULDER: -(COCHICHA) Negativo. Sabe por quê? Ele é um abusador. Se souber que não somos gays, isso vai chamar mais ainda a atenção dele. Não vai nos matar. Vai ficar mais excitado, pois na mente doentia dele, causar dor no outro é prazer. O prazer dele por enquanto é ver porque acha que transamos. Se souber que não somos gays, o prazer dele será nos forçar a ir contra nossa natureza. O jogo só vai piorar pro nosso lado.

KRYCEK: -(COCHICHA) Tem razão.Se tivéssemos como fazer algum tipo de máscara, algo que nos poupasse de respirar essa porcaria e desmaiar... A gente pegava o desgraçado quando ele entrasse aqui. Temos um canivete e muita raiva.

Os dois nervosos, olhos parados no nada.

MULDER: -(COCHICHA) Vou ter que fazer uma pergunta.

KRYCEK: - (COCHICHA) Não faça. Não estamos tão insanos a esse ponto. Ainda não.

MULDER: - (COCHICHA) Mas eu vou fazer. Até aonde você iria? Qual seu limite?

KRYCEK: -(COCHICHA) Com um estranho?

MULDER: -(COCHICHA) Não somos estranhos.

KRYCEK: -(SUSPIRA DESANIMADO) ...

MULDER: -(COCHICHA) Difícil, não é?

KRYCEK: -(COCHICHA) Pior ainda, Mulder. A gente se conhece, é amigo, tem uma relação. Nem é questão de machismo, de pensar no que o outro vai pensar, é questão de respeito. Mesmo que a gente ainda se odiasse, eu não teria coragem. E qual seria seu limite?

MULDER: - (COCHICHA) Prefiro a morte. Mas ele nos tirou essa opção. Estou pensando, e se esse cara já sacou que não somos gays e está jogando numa tortura maior ainda, como o que penso que faria?

KRYCEK: -(COCHICHA) Acha que ele quer que transemos pra nos humilhar? Porque de qualquer forma a humilhação viria, ou a gente se humilharia fazendo, ou ele nos humilharia num estupro.

MULDER: - (COCHICHA) Pode ser... Nem sei mais o que pensar, e o nosso tempo tá acabando.

KRYCEK: - (COCHICHA) Você perguntou de limites. Quando ele pediu pra você se tocar... Fica menos pior quando a tarefa é particular. Quando envolve o outro, se torna insuportável. Igual é violento e tortuoso, mas pelo menos você não precisa se preocupar com limites. Ele quer sexo. O máximo do meu limite seria dar um beijo em você. Até porque sou russo e isso é costume, não vai contra a minha moral. Por que esse infeliz não pede algum fetiche mais fácil?

MULDER: - (COCHICHA) Porque ele já está no nível hard do jogo... Ok. Vamos ser lógicos. Eu não vou transar com você. Você também não. Então ele vai e sabe lá o que fará conosco.

KRYCEK: -(COCHICHA) Eu vou surtar. Esse é o perfeito dilema pra enlouquecer. Eu não quero passar por isso de novo. Mulder, você que é o especialista em pornografia, existe alguma maneira de fazer sexo sem tocar o outro? Porque eu não encontro saída.

MULDER: - (COCHICHA) O único sexo que conheço sem tocar o outro é se tocando...

Os dois se entreolham.

MULDER: -(COCHICHA) Tá pensando no que eu tô pensando?

KRYCEK: -(COCHICHA) É, não sou tão inocente assim. Merda! Isso é... Isso é humilhante! Eu não vou bater uma olhando pra você batendo uma!

MULDER: -(COCHICHA) Você não olha pra mim e eu não olho pra você. Ou... Existe outra possibilidade tão humilhante quanto. Já assistiu filmes eróticos?

KRYCEK: - (COCHICHA) Erótico ou pornô?

MULDER: -(COCHICHA) Erótico. Você sabe que atores em filmes eróticos não transam de verdade. Eles simulam.

KRYCEK: -(COCHICHA) A gente vai ter que se encostar e fingir que...

MULDER: - (COCHICHA) E fazer o expectador acreditar em algo que não existe. Como os socos da nossa briga.

KRYCEK: - (COCHICHA) Debaixo dos lençóis? Luz apagada? Você não vai pensar na sua mulher, né?

MULDER: -(COCHICHA) Tá maluco? Nem você vai pensar na Barbara! Pensa em algo broxante. Se concentra em fingir. Tenta deixar o lado animal que nós homens temos bem longe. Não é diversão, é sobrevivência.

KRYCEK: - (COCHICHA) Não se preocupe com meu lado animal, eu não vou ter uma ereção com você se encostando em mim ou eu me encostando em você, mas nem ferrando e espero o mesmo de você. Não tô levando isso na brincadeira, Mulder. Isso afeta meus limites e acredito que os seus, mas é isso ou ser currado por aquele psicopata insano. Que merda de pesadelo dos infernos!

MULDER: -(COCHICHA) Acho que é a opção menos agressiva, porque não será real pra nós, mas será pra ele. Prefiro fingir que transamos que bater uma na frente desse cara. Em você eu confio, mas naquele filho da puta...

Mulder se levanta.

MULDER: -(COCHICHA) Tem outro problema. Seu trauma. Isso será agressivo ao nosso emocional, mas ao seu...

KRYCEK: - (COCHICHA) Dane-se o meu emocional, eu já tô ferrado mesmo! Prefiro uma ficção com você que uma realidade com o sádico. E aí, como funciona? Quem pega quem? Quem começa?

MULDER: -(COCHICHA) Como eu tenho uma boca enorme pra criar piada e me colocar em situação ridícula... Ele espera que você seja o ativo, então você começa ou ele vai desconfiar. Merda, todo mundo vive me dizendo: Cala a boca, Mulder! Eu tenho mesmo que aprender a calar a minha boca. Olha aonde a minha boca me levou dessa vez!

KRYCEK: - (COCHICHA) É muita humilhação. Tá, vamos combinar isso direito. Eu tô nervoso!

MULDER: -(COCHICHA/ PÂNICO) O quê? "Nervoso"?

KRYCEK: - (COCHICHA) Eu tô nervoso! Você não está numa pilha de nervos? Olha a situação!

Mulder solta o ar preso dos pulmões, num alívio.

MULDER: - (COCHICHA) Pensei outra coisa. Deixa pra lá, você não entenderia. Vamos combinar, eu vou fazer você relaxar...

KRYCEK: - (COCHICHA/ ASSUSTADO) Mas nem ferrando que você vai me fazer "relaxar"!

MULDER: -(COCHICHA) Qual o problema? Vai ficar nervosinho aí e o cara vai desconfiar. Precisa se acalmar.

Agora é Krycek quem respira aliviado.

KRYCEK: -(COCHICHA) Esquece. Pensei outra coisa. Não vem ao caso.

MULDER: - (COCHICHA) Relaxa, pensa que é uma brincadeira. Nancy está olhando e nós queremos sacanear a moralista. Rato, é só uma rapidinha de casal cansado, entendeu? Nada de carinho. Não precisamos nos expor além da conta. Só tesão mesmo.

KRYCEK: -(COCHICHA) Tá. E tenta encostar o menos possível. Quem sabe o travesseiro entre nós?

MULDER: -(COCHICHA) Boa. De lado?

KRYCEK: -(COCHICHA) Com certeza, de quatro é que não vai ser! Mulder... (ANGUSTIADO) Tem que gemer, fingir estar sem ar e... Fingir um orgasmo?

MULDER: -(COCHICHA/ ANGUSTIADO) Rato, agora você me deixou visualizando a cena... Não vamos conseguir... Eu quero chorar!

KRYCEK: -(COCHICHA) Mulder, se acalma. Não fazemos barulho. Pronto. Somos silenciosos.

MULDER: -(COCHICHA) Fala sério, dá pra ser silencioso realmente quando se faz sexo? Vamos conseguir convencer? Eu não consigo ser silencioso com mulher, imagina ser silencioso levando no rabo?

KRYCEK: -...

MULDER: - (COCHICHA/ CULPADO) Desculpe, Rato. Falei merda de novo.

KRYCEK: -(COCHICHA) Bom que fale merda. Fico feliz que não saiba... Vamos ser silenciosos. Gememos tão baixinho que a câmera não capta o áudio. Como nos nossos cochichos. Ele não vai saber se estamos ou não gemendo. Agora se acalma. É isso ou ser estuprado. Confia em mim, é bem melhor fingir.

Mulder olha apiedado e culpado pra Krycek, quevai pra cama e se enfia embaixo do lençol, numa fisionomia de quem está prestes a ser torturado. Mulder olha pra TV.

MULDER: - Papai, pode apagar a luz? Igual vou sentir vergonha, mas pelo menos com a luz apagada eu posso tentar.

As luzes se apagam. Mulder respira fundo. Angustiado, se deita na cama, enfiando-se embaixo do lençol. Vira-se de costas pra Krycek, que puxa o lençol os cobrindo até a cabeça.

Corte.


Luzes acesas. Os dois deitados na cama, olhando para o teto, em silêncio humilhante e constrangedor.

Som do celular. Os dois olham pra TV.

MENSAGEM EM LETRAS: Não foi o que eu esperava para dois amantes românticos e que custam a se encontrar, mas posso entender que o tesão acumulado exigiu sexo trivial e rápido. Uma coisa mais animal e direta, só pra desopilar. Vocês têm sérios problemas com vergonha, se esconderam debaixo dos lençóis, mas na próxima, não haverá lençóis. Vou dar um presente aos dois pela obediência.

O compartimento se abre na porta de metal. Mulder vai até lá. Pega duas lanternas.

MULDER: - Pra quê essas lanternas?

MENSAGEM EM LETRAS: Vão precisar delas. Quero ver os dois dormindo, como dois pombinhos cansados e abraçadinhos. Torcendo para a segunda da noite ser mais quente e demorada, como geralmente é.

Krycek revira os olhos, desanimado. Mulder se deita na cama. Passa o braço por baixo da cabeça de Krycek. Krycek, à contragosto, se vira de lado e coloca a cabeça no ombro de Mulder.

A TV desliga.

KRYCEK: - (COCHICHA) Ele quer uma segunda? Mas nem ferrando! Eu tenho problemas de ereção. É uma e olhe lá!

MULDER: -(COCHICHA) E eu sou cardíaco e sofro de ejaculação precoce!

KRYCEK: - (COCHICHA) Eu não vou dormir desse jeito sentindo seu cheiro.

MULDER: - (COCHICHA) Nem eu quero dormir com você aí encostado em mim.

KRYCEK: - (COCHICHA) As garotas já devem estar atrás de nós. Acho que já se passaram dois dias.

MULDER: - (COCHICHA) Perdi a noção de tempo.

Krycek se afasta dele.

KRYCEK: - (COCHICHA) Mulder, mais um dia nesse jogo e eu vou pirar. Não nos resta mais nenhum pingo de dignidade! Viu o que ele disse? Na próxima nada de lençóis.

MULDER: - (COCHICHA) Nem me fala, Rato... Eu tô surtando. Eu quero pegar esse desgraçado e sufocar até a morte.

KRYCEK: - (COCHICHA) Nem tenho sono. Durma você. Eu faço o primeiro turno.

MULDER: - (COCHICHA) Situação traumática... Ser forçado a uma coisa que não é da sua natureza. Você foi inteligente puxando os lençóis pra cima da gente. Ele não viu o travesseiro, nossas caras de humilhação e nem os gemidos que não aconteceram.

KRYCEK: -(COCHICHA) É, ele não pode ver quando puxei o travesseiro e coloquei entre nós. Mas igual foi tenso e constrangedor. Foi como se um estivesse dormindo enquanto o outro se masturbava contra um travesseiro.

MULDER: - (COCHICHA) ... Não pensei no seu traseiro. Juro. Não pensei em nada.

KRYCEK: - (COCHICHA) Eu sei. Nem eu pensei em você. Pensei apenas em ficarmos vivos.

MULDER: - (COCHICHA/ ANGUSTIADO) Eu não quero assustar você, mas sabe a coisa com o canivete? Eu estou com medo de encontrarmos nossas armas. Ele pode começar a pedir que nos machuquemos. Ele sente prazer com violência durante o sexo. E se notou, ele sabe que estamos com fome, mas não quer nos alimentar pra abalar mais ainda o nosso psicológico.

KRYCEK: - (COCHICHA) Faço todos os turnos. Perdi o sono realmente.

MULDER: -(FALA ALTO) Papai, pode apagar a luz?

A luz não se apaga. Os dois se viram de lado, um de frente para o outro.

MULDER: - (COCHICHA) Por que ele não apagou a luz?

KRYCEK: -(COCHICHA) Ele pode nos ver no escuro. A não ser que...

MULDER: -(COCHICHA) Vai também nos privar do sono...

Mulder se levanta correndo e vai até a pia do banheiro. Abre a torneira. Não tem mais água. Ele volta nervoso e se deita na cama. Vira-se de frente pra Krycek.

MULDER: -(COCHICHA) Reza pra não enlouquecermos nesse cativeiro.

KRYCEK: -(COCHICHA) A perfeita estratégia da loucura. Privação de sono, de água, comida e tortura psicológica. Estou com pena de você, Mulder. Porque eu aguento. Eu já passei por isso mais de uma vez. Tenho doutorado no assunto.

Mulder fecha os olhos, nervoso.

KRYCEK: -(COCHICHA) Calma, Mulder. Isso não será pra sempre. Nossas garotas vão nos encontrar. Tenta dormir, coloca o travesseiro na cabeça. Pensa nos seus filhos, na Scully... Pensa em coisas confortáveis que o medo vai embora.

MULDER: -(COCHICHA/ OLHANDO PRA KRYCEK) No que você pensava quando estava preso na Sibéria? Como resistia?

KRYCEK: -(COCHICHA/ SORRI OLHANDO PRA MULDER) Pensava na minha infância. Meu pai sentado à mesa, com a vela acesa, escrevendo poemas em pedaços de papel de embalagens, que ele catava pela rua, porque papel era caro... Minha mãe costurando na máquina, enquanto eu brincava com os carretéis de linha no chão...

Mulder fecha os olhos, num sorriso.

MULDER: - Conta mais da sua infância, "Kalinka". Você tinha uma família que amava você. Gosto de ouvir isso, porque eu não tive. Fala mais sobre seus pais que dançavam dentro de casa, sobre o garoto pobre e tímido que morava num cortiço de Moscou...

KRYCEK: -Isso é uma sessão de terapia, Dr. Fox?

MULDER: - (DE OLHOS FECHADOS) É, mas hoje eu sou o Mulder, um paciente. Me conta história pra distrair.

KRYCEK: - Vou te contar das bolinhas de gude.

MULDER: - (SORRI/OLHOS FECHADOS) Isso fez parte da minha infância também.

KRYCEK: -Uma vez, o velho Mikhail, que já não gostava de beber vodca...

Mulder sorri.

KRYCEK: -Estava num bar de Moscou e os camaradas do bar desafiaram ele numa aposta: Ô Micha, você escreve, não é? Inventa aí um verso bonito sobre comunismo e sexo. Se fizer, vai ganhar um saco de bolinhas de gude pro seu filho... E lá meu pai queria saber de bolinhas de gude, ele queria era provar que podia vencer o desafio. Nunca se desafia um Krycek, ele gritou. Então abriu a boca: O comunismo é morte, o sexo é sorte, vocês fodem a Rússia e matam a consorte!

Mulder ri. Abre os olhos.

KRYCEK: - Ganhou as bolinhas de gude pra mim e apanhou dos caras todos, incluindo o dono do bar. E apanhou de novo quando chegou em casa todo esfolado. Você me lembra meu pai, Mulder... Perdia a vida, mas não perdia a piada.

MULDER: - Seu pai devia ser um cara legal.

KRYCEK: - Se ele estivesse vivo, vocês dois me deixariam louco.

MULDER: - Você puxou a sua mãe, mais sério, centrado...

KRYCEK: - E você? A quem puxou realmente?

MULDER: - Uma certa semelhança física com minha mãe, os olhos. O resto não faço ideia. Nunca me achei parecido com meu pai em nada, exceto na teimosia, na tendência a miopia e a bebedeira. Nem com o Fumacinha, talvez dele a criatividade e a ironia. Acho que vou recorrer a geração anterior. Meu avô paterno. Sabe, Rato, a vida é engraçada... Estamos aqui presos, numa situação diferente, mas um dependendo do outro pra seguir adiante nessa tortura. Isso lembra algo que contei pra você?

KRYCEK: - Dr. Mulder e Major Krycek dividindo uma cela em Auschwitz? Sabe, Mulder, eu não acredito em reencarnação. Mas acredito que em algum lugar dentro da gente exista uma memória dos antepassados. E acho que é isso que nós carregamos.

MULDER: - Por que não acredita?

KRYCEK: - Penso que se Deus é o cara do bem, porque nos faria voltar um monte de vezes pra sofrer de novo? Isso não é evolução espiritual, isso é tortura. Acho que a gente morre e dorme.

MULDER: - Os judeus creem nisso. O sheol, o mundo dos mortos.

KRYCEK: - Minha mãe era católica, mas era judia. Não de religião, mas de sangue. E ela sempre falava isso. Que dormimos até o dia que Deus nos acordaria novamente.

MULDER: - Mas como explicar fantasmas?

KRYCEK: - É, tem isso. Alguns não dormem? Opção ou não largam a vida terrena?

MULDER: - Minha esperança é que um dia minha filha me diga a verdade. Se ela tiver acesso a essa verdade... O que sei é que por melhor que seja do outro lado, ninguém quer partir... Conta mais histórias.

Mulder fecha os olhos. Krycek sorri.

Corte.


A música começa a tocar.

[Som: Nirvana - Polly]

Mulder e Krycek sentam-se na cama, assustados.

MULDER: - Isso é Nirvana?

KRYCEK: - É...

Os dois se calam escutando a letra da música. Começam a ficar nervosos.

MULDER: - Polly... Algo como louro quer biscoito, um bichinho de estimação... Essa música fala do sequestro, tortura e estupro de uma garota de 14 anos. O maníaco a pendurou de ponta-cabeça em seu próprio trailer, raspando sua cabeça e a agredindo com um maçarico, com sessões de estrangulamento. Ela conseguiu ganhar a confiança e simpatia do cara, convencendo ele de que estava gostando e assim escapou quando ele parou para abastecer. É uma letra que relata o abuso e violência sexual, física e psicológica sofrida pela vítima, mas do ponto de vista do estuprador.

Som do celular. A TV se liga.

MENSAGEM EM LETRAS: Polly quer biscoito? Devem estar com fome. LOL... Eu não tenho animais de estimação, eu tenho filhotes. Grr.

Eles ficam em silêncio.

MENSAGEM EM LETRAS: Devem estar com fome. Querem comer? Me agradem!

KRYCEK: - Temos a opção morrer de fome?

MENSAGEM EM LETRAS:Claro. Essa opção vem associada ao gás para dormirem e eu mesmo me divertir sozinho com vocês desacordados. É uma boa opção. Gosto dela.

Mulder e Krycek se entreolham desanimados. Se levantam da cama.

MULDER: - Por que nos tortura se fazemos o que você quer?

MENSAGEM EM LETRAS: Ainda não estão fazendo como eu quero. Experimentem do meu jeito e verão que as privações de sono, comida e água acabarão. São policiais, são espertos. Se alternam em turnos para dormir, com medo de que eu entre aí... Eu entro aí quando eu quiser, basta apertar o botão de gás e vocês dormem. Eu mando. Vocês me obedecem. Quando vão entender isso?

KRYCEK: - Já entendemos isso e estamos fazendo o melhor que conseguimos! Pegou o casal errado, "papai". Somo cheios de complexos, relutamos contra nossos desejos e não damos espetáculo. Deveria ter pego um casal de atores pornôs!

MENSAGEM EM LETRAS: Alex, meu garoto rebelde... Eu não preciso de atores pornôs, eu tenho dois policiais, um deles canta triste como um passarinho na gaiola e o outro é totalmente sentimental e passional. Estão sofrendo? Eu sou gentil. Já deixei o canivete pra vocês. Podem acabar com o sofrimento um do outro. Sugiro que cante enquanto fazem isso. Adoro ópera. Um Romeu e Julieta versão gay seria interessante... Se preferem veneno, posso conseguir.

Mulder leva as mãos ao rosto, cansado.

MENSAGEM EM LETRAS: Estou pensando no que faço com vocês. Acho que uma semana sem comer e sem dormir, vai estimulá-los a fazer algo melhor. Ou talvez eu devesse abaixar as calças de vocês e dar muitas palmadas como castigo por serem maus filhotes.

MULDER: -(GRITA/ RAIVA) Já transamos, já fizemos todos os seus fetiches, o que mais quer da gente?

MENSAGEM EM LETRAS: Que sintam-se em casa, completamente à vontade, essa é a cela de vocês e ficarão nela por um bom tempo. Curtam o que não podem curtir lá fora. Coloquem o tesão pra fora, fiquem nus, brinquem, estão aqui, longe de esposas e de tudo o que os oprime, estão libertos e eu dei essa oportunidade para vocês que não estão aproveitando por vergonha?

Mulder e Krycek se entreolham.

MENSAGEM EM LETRAS:Vou colocar vocês pra dormirem e retirar suas roupas, lençóis, toalhas e tudo que possam usar para se cobrirem. Estão sentindo o ar esfriando? Diminuí a temperatura da cela. Uma semana congelando com frio, fome e sono e vocês aprenderão a respeitar o papai.

MULDER: - Desculpe, papai. Eu levantei a voz pra você. Desculpe, eu não queria.

MENSAGEM EM LETRAS: Espero rebeldia do Alex, não de você, Mulder. Está desapontando o papai. Quero apenas fazê-los chegarem ao máximo do prazer. O meu prazer é o prazer entre vocês.

KRYCEK: - Seu prazer difere do meu conceito de prazer. Você é sádico!!!

MENSAGEM EM LETRAS: Alex, meu querido, já usou brinquedinhos? É uma ótima forma de prazer sem contato e sem culpa. Alguma cor favorita? E você, Mulder, que cor prefere? Não se preocupem, sei exatamente o tamanho do pênis de cada um, portanto, serão do tamanho que estão acostumados, exceto se quiserem experimentar um tamanho diferente. Também podem incluir algumas preliminares, com introdução de supositórios de glicerina lentamente... Isso é divertido e relaxa a musculatura anal.

Mulder olha em pânico pra Krycek que está catatônico.

O compartimento se abre. Nele há uma corda e a jaqueta de couro de Krycek.

MENSAGEM EM LETRAS: Prontos pra jogar? Ou querem uma semana de castigo? Talvez brinquedos e supositórios? Alex pegue a corda e a sua jaqueta, você não merece passar frio, mas Mulder merece punição.

Krycek olha pra Mulder. Mulder fecha os olhos e afirma com a cabeça. Krycek pega a corda e a jaqueta.

MENSAGEM EM LETRAS:Alex, vista sua jaqueta. Vai perceber que existem algumas coisas no bolso. Coloque-as sobre a cama.

KRYCEK: - E a minha camiseta?

MENSAGEM EM LETRAS: Sem camisetas. Eu quero seu peito nu em contato com o couro, isso me excita. Seus mamilos contra o couro, ficando endurecidos.

Krycek coloca a corda sobre a cama e veste a jaqueta. Vai tirando do bolso e colocando na cama: uma mordaça de couro com uma bola, uma venda de tecido, um par de protetores auriculares e um par de prendedores unidos por uma corrente. Mulder olha assustado. Krycek começa a ficar nervoso. Leva a mão ao outro bolso e retira uma coleira. Mulder fecha os olhos, angustiado.

MENSAGEM EM LETRAS:Alex, preste atenção. Pegue a corda. Com uma das pontas amarre as mãos de Mulder para trás. Deixe sobrar um pouco de corda.

KRYCEK: - Mulder, tem certeza? Podemos tentar aguentar uma semana sem sono, comida e sem roupa.

MULDER: - (COCHICHA)Esqueceu que ele vai colocar gás aqui dentro e nos adormecer, antes de tirar nossas roupas, lençóis e toalhas e bater no nosso traseiro? Supositórios e brinquedinhos? Pode me amarrar. E se tiver que beijar na boca, tô no lucro.

Mulder leva as mãos pra trás. Krycek o amarra, não muito forte.

MENSAGEM EM LETRAS: Alex, pegue a outra ponta da corda. Passe ao redor dos braços de Mulder, por três vezes, imobilizando-o.

Krycek faz, tenso e angustiado. Mulder calado, de olhos fechado, nervoso.

MENSAGEM EM LETRAS: Agora passe o resto da corda sobre os ombros dele, de forma a fazer um X em seu peito. Finalize com um nó na outra ponta que está nos pulsos dele.

Krycek obedece.

MENSAGEM EM LETRAS: Pegue no centro do X e veja se está firme.

Krycek fica na frente de Mulder, puxa o centro da amarração, enquanto olha preocupado pra Mulder, que vai pra frente e pra trás, completamente imobilizado. Krycek vira-se pra TV.

MENSAGEM EM LETRAS: Ótimo para um iniciante, Alex. Você leva jeito para bondage. Agora, lentamente, coloque a coleira no seu parceiro.

Krycek pega a coleira de couro cheia de tachas prateadas. Coloca no pescoço de Mulder.

MULDER: - (COCHICHA) Preferia ser iniciado no bondage por uma ruiva. E se me chamar de seu cachorrinho, eu voo no seu pescoço à cabeçadas.

KRYCEK: -(COCHICHA) Mulder, não tenta fazer piada pra animar. Isso não tá me cheirando coisa boa. O cara é sádico e você é masoquista. Ser torturado pode ser tão ruim quanto ser obrigado a torturar um amigo.

MULDER: - (COCHICHA) Rato, eu tô nervoso. Vai que você resolva descontar todas as surras que eu já te dei.

MENSAGEM EM LETRAS: Parem de cochichos. Alex, coloca a mordaça na boca de Mulder.

KRYCEK: - (COCHICHA) Ele se tarou em você, Mulder. A obsessão dele é você. Não tenho culpa. Quando eu digo pra não fazer carinha de cachorrinho pidão você não me acredita.

Mulder olha incrédulo pra Krycek. Krycek coloca a mordaça em Mulder.

KRYCEK: -(COCHICHA) Meu canivete tá no bolso. Se ele entrar aqui, porque você tá amarrado, eu mato ele. Consegue respirar com isso na boca?

Mulder faz que sim com a cabeça, olhos arregalados, já suando frio. Krycek olha pra TV com raiva.

MENSAGEM EM LETRAS:Agora coloque a venda nos olhos dele... Isso... Lentamente.Os protetores auriculares.

KRYCEK: - (IRRITADO) Qual o objetivo dessa palhaçada? Tortura não é prazer!

MENSAGEM EM LETRAS: Isso é para a privação dos sentidos. E pra vocês ficarem sem comunicação. Você vai discordar em breve, Alex. Tortura é prazer.

KRYCEK: -(REVOLTADO) Prazer sente quem tortura!Você nunca foi torturado, seu sádico!

MENSAGEM EM LETRAS: Me agrade ou coloco os dois pra dormir agora. Vai ser bem interessante se eu fizer. Mulder está amarrado e você... Eu amarro rapidinho. Nunca comi um russo, a ideia me atrai. E você tem uma bunda maravilhosa. Acho que eu deveria tirar o seu trauma... Ah que pena, Mulder já fez isso. E você se apaixonou pelo romantismo dele, não é?

Krycek se cala. Olhar de ódio pra TV.

MENSAGEM EM LETRAS: Agora pegue os grampos. Coloque cada um deles em um dos mamilos.

KRYCEK: - Tá maluco? Isso deve doer!!!

MENSAGEM EM LETRAS: Quer dormir e acordar comigo em cima do seu rabo comunista?

Krycek pega os grampos e leva aos mamilos de Mulder, meio virando o rosto e mordendo os lábios, compadecido. Mulder dá um pulo, sem saber o que está acontecendo.

MENSAGEM EM LETRAS: Ótimo. Pegue seu canivete. Acaricie o rosto dele com a ponta da lâmina.

Krycek tira o canivete do bolso e o abre. Faz o que ele diz. Mulder se assusta.

KRYCEK: - (MURMURANDO) Queria enfiar esse canivete no seu rabo, filho da puta.

MENSAGEM EM LETRAS: Agora desça a ponta da lâmina pelas costas, bem devagar... Depois pelo peito, terminando no pescoço.

Krycek obedece, à contragosto. Mulder tenta se manter quieto.

MENSAGEM EM LETRAS: Aperte a ponta da lâmina no pescoço dele. Não quero que o mate. Quero apenas ver uma gota de sangue.

KRYCEK: - Eu não vou fazer isso!!!

MENSAGEM EM LETRAS: Coloco o gás agora?

Krycek morde os lábios, angustiado. Aperta levemente a lâmina. Mulder se assusta. Uma gota de sangue escorre do pescoço dele.

MENSAGEM EM LETRAS: Agora passe a sua língua no corte e o chupe.

Krycek abaixa a cabeça. Perde a reação. Olha pra Mulder. Olha pra TV.

MENSAGEM EM LETRAS: O que espera? Já chegou até aqui. Ou quer realmente me dar a bundinha do seu namorado e depois a sua?

Krycek leva os lábios até o pescoço de Mulder, que recua assustado. Dá um chupão nele. Mulder agora está completamente apavorado e nervoso, sem saber o que está acontecendo. Krycek se afasta, olha pra TV.

MENSAGEM EM LETRAS: Bom garoto. Agora quero que puxe Mulder pra perto de você pelo X na corda. Sente-se aos pés da cama e o faça deitar em suas pernas.

Krycek fica mais nervoso ainda.

KRYCEK: - Merda!

Krycek puxa Mulder pela corda. Mulder leva outro susto. Krycek senta-se e tenta fazer Mulder se deitar sobre as pernas dele, Mulder, com medo, sem ver, ouvir e falar, reluta. Krycek o domina e consegue derrubá-lo sobre suas pernas. Faz um carinho no cabelo dele como quem diz "confia". Mulder se acalma.

MENSAGEM EM LETRAS: Agora ele está completamente dominado. Você vai castigá-lo por mim. Desça as calças dele e lhe dê boas palmadas na bunda.

KRYCEK: - Eu não vou fazer isso! Não tenho o direito de expô-lo dessa maneira, seu doente!

MENSAGEM EM LETRAS: Alex, devo lembrar-lhe quem dá ordens aqui? Que a dor é prazer? O medo é prazer? Que ou você castiga Mulder por ter sido um mau menino ou eu castigarei vocês dois do meu jeito?

Krycek desce as calças de Mulder. Mulder tenta se desvencilhar, assustado, mas não consegue. Krycek ergue a mão e vira o rosto pra TV, acertando uma palmada de leve em Mulder. Mulder toma um susto.

MENSAGEM EM LETRAS: Não. Mais forte.

Krycek morde os lábios, ainda com o rosto virado e acerta com mais força.

MENSAGEM EM LETRAS: Não está se esforçando, Alex. Mulder merece. Quanto mais tempo demorar pra fazer isso, mais Mulder irá sofrer.

Krycek desce a mão com força. Mulder grita abafado.

MENSAGEM EM LETRAS: Agora sim. Repita mais cinco vezes, até esse traseiro lindo ficar vermelho.

Ele fecha os olhos e acerta mais cinco vezes rapidamente. Mulder tem seus gritos abafados. Krycek cai com as costas na cama e leva as mãos ao rosto, perturbado.

MENSAGEM EM LETRAS: Agora pode soltá-lo. Bom garoto. Como eu prometi, uma recompensa merecida.

O compartimento se abre na parede de metal, revelando um frasco de veneno.

Corte.


Mulde atirado na cama, de lado, olhos parados no nada.

Krycek deitado no tapete, olhando fixamente pra câmera no teto. Brinca com o canivete na mão.

Ambos em silêncio e apáticos.

Som do celular. Os dois se levantam automaticamente, com medo, olhando para a TV.

MENSAGEM EM LETRAS: Estão horríveis. Nem parecem meus meninos. Há coisas bem interessantes no armário do banheiro. Quero que façam a barba um do outro, com carinho. Preciso realmente dizer o que pode acontecer se não me obedecerem?

Os dois vão até a pia. A TV desliga. Krycek tira a jaqueta de couro e joga com raiva contra a parede de vidro. Mulder abre o armário, pegando a espuma de barbear.

MULDER: - Vem aqui.

KRYCEK: - ... Eu não aguento mais. Nem posso mais olhar pra você!

MULDER: -(COCHICHA) Rato, só obedece. Eu tô cansado de resistir ok? Ele agora é nosso dono. Ou obedecemos ou vai nos torturar até implorarmos a morte. E que certamente só virá depois que ele nos machucar muito ou se tomarmos aquele frasco de veneno. Então, por favor, obedeça.

Krycek se aproxima. Mulder coloca a espuma na mão e passa no rosto de Krycek.

KRYCEK: - (COCHICHA) Mulder, você não tá bem. O que eu posso fazer...

MULDER: - (COCHICHA) Nada. Porque você também não está bem.

KRYCEK: - (COCHICHA) Eu não queria fazer aquilo com você, eu não queria bater forte, eu...

Mulder pega o barbeador descartável. Começa a barbear Krycek. As câmeras se movimentam.

MULDER: - (COCHICHA) Psiu. Não quero machucar você... Krycek, eu posso não ter visto ou ouvido, mas eu sei que não fez porque queria. Fez porque ele mandou. Então, esquece. Eu já esqueci. Tá vendo as câmeras? Acha mesmo que ele quer que fiquemos bonitos pra ele?

KRYCEK: - ...

MULDER: - (COCHICHA) Isso é apenas mais um fetiche pra excitá-lo. Como tudo o que ele pede, por mais bobo e inocente que pareça, não tem nada de inocência. É perversão. Somos objetos de prazer pra ele. Apenas isso. Dois animais enjaulados que precisam fazer truques ou serão punidos. Você sabe os meus limites e eu sei os seus. Fora isso... Eu não vou dizer não. Eu quero sobreviver.

KRYCEK: - (COCHICHA) Mulder, me escuta. Por favor, me escuta, eu sei o que estou falando. Já passei por isso e posso dizer que você já está tão abalado física e emocionalmente que é capaz de qualquer coisa que ele pedir. Mulder, resista, por favor.

MULDER: - Fique quieto, eu preciso terminar isso e ir pra cama. Quero tentar dormir.

KRYCEK: - Mulder...

MULDER: - Fica quieto, Rato. Você já nem tem pelo...

KRYCEK: - Sou da espécie ratus pelladus. Conhece?

Mulder sorri.

MULDER: - Também não tenho muita barba, mas você ganhou... Acho que tá pronto. Lava o rosto.

Krycek lava o rosto. Mulder entrega a toalha pra ele. Krycek seca o rosto e pega a espuma de barbear, passando no rosto de Mulder.

KRYCEK: - (COCHICHA) Quem se excita com isso?

MULDER: -(COCHICHA) Podia ser pior. Ele podia se excitar com coprofilia.

KRYCEK: -(COCHICHA) E o que seria isso?

MULDER: -(COCHICHA) Teríamos que cagar um no outro.

Krycek arregala os olhos. Pega o aparelho de barbear.

KRYCEK: - Isso é piada, né?

MULDER: - (COCHICHA) Antes fosse. Também tem os que se excitam com urina, com cadáveres, com crianças e a lista se estende.

KRYCEK: - Mulder, vou te dizer uma coisa. Definitivamente o mundo tá louco!

MULDER: - Há muito tempo, Rato... Toma cuidado com a minha pintinha.

KRYCEK: - (COCHICHA) Não vou arrancar seu charme com as garotas... Mulder, temos que pensar em alguma maneira pra atraí-lo aqui. E com a gente acordado. Ele tem vantagem porque não mostra a cara, nem a voz e nem entra aqui. A hora que entrar, ele vai se ferrar.

MULDER: - (COCHICHA) Krycek, esse cara não é burro. Mesmo que eu finja um ataque cardíaco, ele nunca vai revelar a entrada dessa cela com você acordado. Ou ele me deixa morrer, ou coloca o gás pra você dormir, e eu durmo junto.

KRYCEK: -(COCHICHA) Mas tem que haver uma saída. Deve estar oculta, mas tem que haver. Vou terminar sua barba, você vai dormir e eu vou revirar esse quarto de novo.

Corte.


Som do celular. Mulder se acorda, sentando-se na cama, já olhando automaticamente para a TV que liga. Krycek, sentado numa cadeira com os pés sobre a mesa, olha para Mulder, com preocupação.

MENSAGEM EM LETRAS:Prontos pra jogar? Vocês tem uma corda.

Mulder fecha os olhos e suspira tão alto que Krycek escuta.

MENSAGEM EM LETRAS: Um de vocês vai amarrar o outro nessa cama. Vai desenhar com o canivete o que quiser nas costas do parceiro, enquanto o sodomiza com violência. É a última fase do jogo. Vocês já encontraram tudo aqui dentro. A chave é da saída e o código de cores também. O que sodomizar vai embora, tem minha palavra e até agora eu não menti pra vocês. O sodomizado ficará. Esse é o preço. Um vai e o outro fica. Papai não pode ficar sozinho.

Agora é Krycek quem começa a surtar, se levantando da cadeira. Mulder já está surtado. Os dois completamente desatinados.Mulder leva as mãos à cabeça, numa culpa e impotência visíveis. Krycek olha pra TV, olha pra Mulder, olha pras câmeras, em nervos.

MENSAGEM EM LETRAS: Como sou um bom papai, vocês tem duas horas pra fazerem isso. O relógio vai aparecer na tela. Tirem a sorte no par ou ímpar. Ao final de duas horas, se não tiverem feito, eu colocarei ambos pra dormirem e farei com os dois. Depois os mato. Me agradem!!!

As letras somem. A hora digital aparece, em contagem regressiva.

MULDER: - (GRITA/ DESESPERADO/ CHORANDO) Pra mim chega!!!!!!!!!!!!

Mulder cai de joelhos ao chão. Leva as mãos à cabeça, chorando, perturbado. Então percebe Krycek em pé ao lado dele, segurando a corda e o canivete.

KRYCEK: -(COCHICHA) Agora sabemos o que houve com Julian. Ele morreu nesse jogo, e o namorado dele, se escapou, ficou tão maluco que sumiu!

Krycek joga a corda e o canivete na frente de Mulder.

KRYCEK: - Faz.

Mulder acena negativamente com a cabeça.

KRYCEK: -É você ou eu. Você é pai, Mulder. Um nem nasceu ainda. Na sua pele, eu não pensaria duas vezes. É apenas lógica.

MULDER: - Eu não posso fazer isso...

KRYCEK: - Você consegue. Pense no passado, como se estivesse lá. Matei seu pai. Ajudei a sequestrar a Scully, ferrei você e seus amigos. Você tem motivos de sobra no passado. Busque todos eles agora e acione a sua raiva.

MULDER: - (DESESPERADO)Eu não estou no passado! Eu não posso fazer isso com você!!! Nem no passado eu faria isso, por mais filho da puta que você era! Agora, nem pensar!!!

Krycek se agacha e olha pra ele. Mulder olha chorando pra Krycek.

KRYCEK: -(COCHICHA) Lembra quando eu disse que nossa relação estava ficando perigosa a ponto de um dar a vida pelo outro? Nunca é bom quando chega a esse ponto. Amor fraterno pode ser tão perigoso quanto o amor entre um homem e uma mulher. E eu sei que temos amor entre nós dois. Não da forma como esse sádico deseja.

Mulder desvia o olhar. Krycek toma o rosto dele com a mão e olha pra ele.

KRYCEK: - Me escuta, Mulder. Você é mais forte do que pensa. Já passou os seus bocados na vida e teve força pra lutar pela sua mulher e sua filha. Agora precisa continuar lutando por elas e pelo seu garoto que está chegando e precisa do pai dele! Faz o que ele mandou e sai daqui.

MULDER: - Ele vai matar você!!!

KRYCEK: - Isso é problema meu!!!

MULDER: - Eu não posso fazer uma coisa dessas com você!!!

KRYCEK: -E eu nunca mais poderei conviver comigo mesmo, se deixar você passar pelo que já passei! De nós dois, quem já passou por isso uma vez? Sejamos racionais! Eu é que não farei isso com você! Eu não posso!!!

MULDER: -Então finge que eu sou outro cara e não pense duas vezes!!! Acha que eu posso chegar a esse ponto? Cuida da Scully e dos meus filhos...

KRYCEK: - Você vai cuidar deles e sabe que é o certo a ser feito!

Mulder se abraça em Krycek, chorando. Krycek o abraça, segurando lágrimas.

KRYCEK: - Você é o irmão que eu não tive. O inimigo que nunca tive a coragem de matar. O meu maior amigo. A quem eu devo a minha vida. Deixe suas emoções de lado, nunca vou culpar você por isso. É sobrevivência, Mulder.

MULDER: - Nem quando éramos inimigos eu não teria coragem de fazer isso, quanto mais agora. Eu não posso...

Krycek se solta dele e se levanta. Faz um nó na corda e enfia as mãos, puxando a extremidade da corda com os dentes, atando-se sozinho. Senta-se na cama. Olha pra TV.

KRYCEK: - O tempo tá correndo, Mulder. Ninguém virá nos salvar e você sabe disso.

Mulder se levanta.

MULDER: - (GRITA) Papai!!!!!!!!!!!!!!! Vamos negociar!!!!!!!!!!!

Nenhuma resposta. Krycek olha pra Mulder com piedade e com o medo estampado no rosto.

O compartimento na parede se abre. Mulder vai até ele. Pega uma mochila. Abre a mochila e retira um frasco de medicação e uma garrafa de uísque pela metade.

O celular toca. O relógio some da tela e aparecem as letras.

MENSAGEM EM LETRAS: Alguns comprimidos de Ecstasy ingeridos com álcool podem dar coragem pra você e aliviar a dor do seu parceiro.

MULDER: - Ele vai morrer, não vai?

MENSAGEM EM LETRAS: Você vai sair daqui. O que vai acontecer com Alex é entre ele e eu.

MULDER: -(CHORANDO/ ANGUSTIADO) Eu não posso fazer isso!!!

MENSAGEM EM LETRAS: Então deixe que ele o sodomize. Você fica comigo e ele vai embora. Ou tomem o veneno e morram juntos.

Krycek se levanta, olhando pra TV.

KRYCEK: - (ÓDIO) Seu sádico doente!!! Eu não vou estuprar o Mulder e nem cortá-lo pra você ficar aí se masturbando e sentindo prazer com isso!!! Gosta de macho? Mostra a sua cara e desça aqui que eu resolvo o seu problema!!!

MENSAGEM EM LETRAS: Uh! Boa escolha, Mulder. Arranjou um homem de verdade. E ele ama você.

MULDER: - Nunca duvidei do amor que temos um pelo outro. Vamos melhorar o seu jogo. Eu fico aqui e você solta o Alex. E faz o que quiser comigo.

KRYCEK: - Você está maluco, Mulder? Não pode negociar com um tarado doente!!!

MENSAGEM EM LETRAS: Hum... Proposta interessante. Mas você é tímido diante das câmeras.

MULDER: - Eu faço o que você quiser, mas solte o Alex! Faça comigo o que você quer que eu faça com ele. Eu não tenho coragem de machucá-lo e ele também não tem coragem pra me machucar. Entre nós há sentimento. Entre você e eu haverá apenas sexo. Não é isso o que você quer? Serei seu escravo sexual até quando se cansar de mim!

KRYCEK: - (NERVOSO/ ATORDOADO) Mulder, não faz isso! Me escuta por favor!!!

MENSAGEM EM LETRAS: Pensei que Alex sodomizaria você, afinal de contas, você é sentimental e sensível demais... Mas eu me enganei, você é mais macho do que eu pensava. Minha intenção sempre foi você, Mulder. Há algo em você que me deixa de pau duro... Eu não disse que depois disso mataria o que ficasse, porque a última fase do jogo precisa começar. Eu preciso dos dois vivos pra isso. Aceito sua proposta. Tenho a sua palavra?

KRYCEK: - (DESESPERADO) Mulder, não faz isso!!!

MULDER: - Tem. Eu fico. Vamos pra próxima fase. Depois vai soltá-lo?

MENSAGEM EM LETRAS: Depois de completarem o jogo sim. E você fica. Peguem tudo o que conseguiram encontrar e coloquem na mochila. Prontos pra jogar?

Barulho na parede de metal. Uma porta se abre para a escuridão.

Corte.


Mulder e Krycek acendem as lanternas, passando pela porta. Krycek leva a mochila. A porta de metal se fecha atrás deles. Escuridão. Os dois vão iluminando o caminho.

KRYCEK: - Seu idiota! Ele vai matar você depois de ferrar com você inteiro! Vai ter sorte se morrer, porque se ficar vivo, sua cabeça vai pirar como a minha pirou!

MULDER: - Vamos acabar com isso logo. Eu tô cansado. Não me importo mais com nada, Rato. Honra menos ainda. Se ele quer comer o meu rabo, que se dane!

Krycek para.

MULDER: - O que foi?

KRYCEK: -(SACANA) Se tivesse dado pra mim, comigo seria com carinho.

Mulder se vira e mira a lanterna na cara de Krycek que está rindo.

MULDER: - (DEBOCHADO) Ainda temos tempo pra uma rapidinha, que tal? Promete que depois a gente inverte os papéis? Hum? Também vai ser com carinho. (PISCA O OLHO) Eu sou muito romântico, sensível e cuidadoso...

KRYCEK: - Não vai rolar, Mulder. Você vai se apaixonar e ficar me perseguindo.

MULDER: - Sem graça, você. Já tava até me empolgando em procurar um banheiro por aqui...

Os dois riem. Param diante da porta de metal. Ao lado, um painel com botões coloridos na parede e algo que parece um compartimento escondido.

KRYCEK: - Lembra da sequência de cores?

MULDER: - Vermelho, azul, amarelo e verde? Ou verde e amarelo?

KRYCEK: - Dá pra errar?

MULDER: - Sempre dá.

Mulder aperta a sequência de botões com as coresvermelho, azul, amarelo e verde. O compartimento abre, revelando as armas deles.

KRYCEK: - (SORRI) Agora sim... Agora esse filho da puta vai sentir o cano duro no rabo que ele tanto tá querendo.

MULDER: - Dois canos duros. A pergunta é: por que ele nos deu as armas?

KRYCEK: - Pra nos matarmos?

MULDER: - Não. Ele vai ficar comigo.

KRYCEK: - É, vai pensando. Vai pensando que vou dar você de bandeja pra ele e vou embora daqui sozinho.

MULDER: - Hum, tá com ciuminho, "amorzinho"?

KRYCEK: - É, "amorzinho". Você é só meu. Só divido com a Scully.

MULDER: - Scully não divide nada, ela é ciumenta. Já a Barbara...

KRYCEK: - Aham... Confia que a gata não é ciumenta. Ela bota você pra correr com unhas afiadas e uma frigideira na mão... Por que toda nanica é brava?

MULDER: - Complexo de inferioridade?

Krycek revira a mochila. Entrega os dois pentes de balas. Mulder observa, pega um e entrega o outro. Os dois colocam os pentes nas armas.

MULDER: - Seja o que estiver do outro lado dessa porta... Precisamos de armas. Essa é a verdade.

KRYCEK: - Abra devagar, Mulder. Eu cubro você.

Mulder abre a porta grossa de metal. Krycek aponta a arma.



BLOCO 4:

Os dois saem num largo túnel iluminado apenas por lâmpadas vermelhas, quase penumbra. Câmeras no alto. No piso de concreto, faixas amarelas. Nas paredes faixas amarelas e pretas.

MULDER: - O que isso parece pra você?

KRYCEK: - Um subsolo de alguma base militar desativada. Ele é militar, sem dúvida. (COCHICHA) E continua nos observando. Mas agora estamos fora daquela gaiola e armados.

MULDER: -(COCHICHA) Rato, esse cara é esperto, se é militar, pior ainda... Não pensa que estamos livres. Deve ter alguma coisa aqui, vamos seguir devagar e tomar muito cuidado. Pode haver armadilhas. Não sabemos o que nos espera.

Mulder leva a mão no bolso traseiro do jeans e pega o mapa. Krycek fica apontando a arma em todas as direções, atento. Mulder mira a lanterna no mapa. Depois observa o túnel.

MULDER: - De acordo com o mapa, estamos no Nível 1. Precisamos ir para o Nível 2. Acho que é pra frente... Saímos da porta, fomos pra direita... É. É pra frente. Lá atrás não tem saída.

Mulder guarda a lanterna no bolso. Os dois seguem caminhando. Na parede está escrito Nível 1. Logo o túnel tem uma curva.

MULDER: -Até a Idade Média não havia o termo "homossexual". Eles não tinham palavra pra isso porque era uma relação comum. Os gregos se casavam, mas mantinham seus amantes homens. Sexo com mulheres era para a procriação, sexo com homens era por prazer. Sócrates e Alexandre, o Grande, são os gays mais populares da história.

KRYCEK: -Nem quero saber porque chamavam ele de "O Grande". O interessante é que se você parar pra pensar, esses caras eram machos pra caramba!

MULDER: - Por que precisa ser muito macho pra ficar debaixo de outro macho? Essa frase preconceituosa começa a me soar verdadeira.

KRYCEK: -Pensa bem, na Grécia os caras nasciam pra guerra. Guerras com espadas, lanças e escudos, combate corpo-a-corpo... Tinha que ser muito macho pra isso. E aí... Vai entender.Até mesmo no antigo Japão havia homossexualismo entre samurais. Acho que até hoje no Japão, apesar de não falarem muito, eles mantêm essa cultura de prazer com homens ser algo normal.

MULDER: - A medicina explica que o clitóris da mulher é o seu órgão de prazer. E nos homens é a próstata.

KRYCEK: - Já ouvi essa teoria, mas ela não explica porque alguns homens são gays e outros não.

MULDER: - A ciência tenta explicar, mas não acha explicação. Também a mesma ciência achava antigamente que lobotomia "curava" homossexualidade e ninfomania.

KRYCEK: - Se olhar pra história da medicina, os caras eram sádicos. E se não fossem, talvez não tivéssemos tantas descobertas...

MULDER: - Médicos são sádicos. Tenho uma em casa. Se não vou ao proctologista, ela veste luvas e me ameaça.

Krycek começa a rir.

KRYCEK: - Mulder, depois de uma certa idade, você perde toda a dignidade. Mas é necessário. É alto o índice de homens que morrem de câncer de próstata, tudo pela ignorância machista de não fazer um exame.

MULDER: - Eu sei. Eu fui. Scully me levou pela orelha. Fiquei um tempão na recepção esperando. Aí saiu um velho do consultório, mancando, todo torto... Fiz uma cara de pânico e me levantei na mesma hora procurando a saída!

KRYCEK: - Mulder, para! Você tá de brincadeira!

MULDER: - Não, é sério. Scully me segurou pela camisa. O médico saiu me chamando e a primeira coisa que eu fiz quando o cara abriu a porta foi olhar a grossura dos dedos dele.

Krycek para, tendo um acesso de riso.

MULDER: - É sério, Rato. Não tô de brincadeira. Depois fiquei sabendo que o velho sofria de reumatismo, mas juro que na hora pensei que a coisa fosse violenta...

Krycek abaixa a cabeça, se abanando, quase sem ar de tanto rir.

MULDER: - Tá rindo porque não foi você passando vergonha. Depois tive que aturar as piadinhas da Scully pelo resto do dia. A cada lavada de louça enfiava luvas, estalava o látex e olhava debochada pra minha cara...

Som de tiros. Mulder e Krycek se encostam na parede.

KRYCEK: - Tem alguém atirando na gente?

MULDER: - Desgraçado, ele deve estar nos caçando!

MARK: - (GRITA) Quem são vocês???

Mulder e Krycek se entreolham.

MULDER: - Tem mais caras presos aqui?

KRYCEK: - ... Estou tão surpreso quanto você!

MULDER: - (GRITA) Não atirem!!! Fomos sequestrados!!!

THOMAS: - (GRITA) Nós também!!! Meu namorado está comigo!!! Não atirem, não vamos atirar!!!

MULDER: - (GRITA) Como posso confiar em vocês?

MARK: - (GRITA) Vamos nos aproximar. Por favor, não atirem!!!

Mulder olha pra Krycek.

MULDER: - Fique esperto.

Krycek assente com a cabeça. Mark, um homem meia-idade, negro e alto se aproxima. Atrás dele, Tomas, branco, de meia-idade. Ambos vestindo apenas calças jeans e carregando uma mochila igual.

MARK: - Pensamos que era o Papai Urso.

MULDER: - (INCRÉDULO) Vocês estão aqui há quanto tempo?

THOMAS: - Não sabemos. E vocês?

KRYCEK: - Não faço ideia. Numa cela de vidro, cercada por câmeras. A gente se hospedou no hotel e...

MARK: - E acordaram numa cela de vidro! Como a gente! Ele nos dava recompensas e desafios. Tivemos que jogar, encontrar objetos...

MULDER: -Que filho da puta! Quantos mais estão aqui?

THOMAS: - São o primeiro casal que encontramos... Ah, eu sou Thomas, esse é o meu noivo Mark.

Eles se cumprimentam.

MULDER: - Eu sou Mulder, esse é o Krycek...

KRYCEK: - Namorado dele.

MULDER: - (SUSPIRA/ DEBOCHADO) É, o meu namorado.

MARK: - Vocês... Eles são os tiras.

Thomas, discretamente, empurra Mark.

KRYCEK: - Como sabe?

THOMAS: - Palpite. Vocês parecem policiais, da forma como seguram as armas. Bom, vamos? Precisamos achar a saída.

Os dois saem andando, de mãos dadas. Mulder e Krycek se entreolham desconfiados. Mulder faz sinal pra Krycek manter os olhos nos dois.

MULDER: - Bom, vocês sabem que somos policiais. E vocês, o que fazem?

MARK: - Sou engenheiro civil, Thomas é advogado.

Mulder caminha ao lado de Krycek.

MULDER: - (COCHICHA) Não confio em advogados.

KRYCEK: - Sabem se Papai Urso nos escuta?

THOMAS: - Não, porque Mark e eu já o xingamos aos gritos e ele não nos puniu. Mas ele nos vê. Podem observar que existem câmeras nesse túnel.

KRYCEK: - Qual o objetivo do jogo agora? Ahn? Vocês sabem?

Os dois se viram rapidamente apontando as armas.

MARK: - Lamento, não sei nada sobre vocês e isso não é pessoal. O objetivo agora é sobreviver.

O casal atira. Mulder empurra Krycek e se joga pro lado, os dois miram as armas e atiram no casal.

Corte.


Mulder, agachado, examina a mochila deles, virando tudo no chão. Krycek mantém a atenção, com a arma em punho.

KRYCEK: - Droga, Mulder! Eles eram vítimas como a gente! Por que esses idiotas atiraram em nós? Que merda é essa?

MULDER: - Eles falaram que era sobrevivência. Talvez Papai Urso tenha mandado nos matar.

KRYCEK: - Isso não faz sentido, porque ele quer você vivo! Como eles sabiam que éramos tiras?

MULDER: - Não faço ideia. E na mochila deles tem a mesma coisa que na nossa. Vou pegar as armas.

Mulder pega as armas do chão. Olha para os dois mortos.

KRYCEK: - Acha que existem mais homens presos aqui?

MULDER: - Provavelmente. Tenho uma teoria.

KRYCEK: - Manda.

Mulder tira os pentes das armas.

MULDER: - Acho que ele soltou todos de suas celas e nos colocou aqui pra ver que casal vai sobreviver no final.

KRYCEK: - Ele quer que matemos uns aos outros? Deus! Esse cara é mais louco do que a gente pensava!

MULDER: - Tudo é um jogo pra ele se divertir. E acho que pelas coisas que ele nos disse... Ele aposta na gente.

KRYCEK: - Será que vamos encontrar Julian Willcox com vida? Comecei a ter esperanças.

MULDER: - Não sei. Mas vamos andar em silêncio e atentos. Podem existir mais caras por aí...

Corte.


Mulder e Krycek chegam numa sala enorme e vazia. Olham para um imenso telão na parede.


📷


Mulder e Krycek se entreolham em pavor.

MULDER: - É um jogo online em tempo real? De sobrevivência real?

KRYCEK: - Olha de novo. Tem 40 mil pessoas apostando na gente. A pergunta é: contra quem estamos jogando para que 63 mil pessoas apostem neles?

Mulder leva as mãos à cabeça, nervoso, andando de um lado pra outro.

MULDER: - (GRITA) Merda!!!

Corte.


Mulder e Krycek sentados no chão, dentro do túnel. Mulder morde o polegar, pensativo. Krycek com os braços nos joelhos, apoiando o queixo.

KRYCEK: - Então é um site em tempo real de apostas para gays. Aquele joguinho de point and click na cela era apenas aquecimento?

MULDER: - Não. Eu penso que era parte de um jogo privado dele com suas vítimas. O que ele fez conosco naquela cela, aquilo é o mostruário para que os apostadores decidam em que dupla apostar e percebam que ele tem o controle dos jogadores para que o obedeçam. Ele é um sádico, ele se excita com isso, e também é esperto o suficiente para ganhar dinheiro com a sua tara. Os apostadores nos veem cumprir ordens, jogar, nus, transando, conversando, realizando fetiches diversos... Decidem pelo casal que acham mais interessante.

KRYCEK: - Então não era apenas aquele sádico que nos observava?

MULDER: - Não. Mais de cem mil homens. E quarenta mil nos achou um casal interessante.

KRYCEK: - Nem quero saber o que viram de interessante! Eu nem sei o que acontecia conosco quando aquele sádico nos apagava!

MULDER: - No melhor dos casos, close de nossas bundas ou dos nossos paus. No pior... Nem quero saber.

KRYCEK: - Deep web. É isso que você falou?

MULDER: - Provavelmente. É onde atividades ilegais acontecem na internet. Você aluga assassinos, compra escravas sexuais, drogas, armas, pedofilia exposta, assassinatos... E uma sorte de bizarrices e coisas fora da lei.

KRYCEK: - O governo não fiscaliza isso?

MULDER: - Rato, o governo criou a internet. A deep web é uma camada da internet que não pode ser acessada através de mecanismos de busca ou dos navegadores comuns sem usar algumas ferramentas. Nada é indexado, você não consegue simplesmente digitar um endereço "ponto com" e encontrar o que quer. É como se esta parte da internet não existisse. Sabe um iceberg? A parte acima da água é a internet normal que usamos. A maior parte do iceberg que fica abaixo da água, é a deep web. Invisível aos olhos. Mas está lá. Desde informações sigilosas até bizarrices.

KRYCEK: - Me diz que os Pistoleiros acessam a deep web.

MULDER: - Acessam. Mas não pra esse tipo de coisa, mais para informações confidenciais vazadas por pessoas do governo. Azar o nosso. Se um deles fosse gay, talvez a polícia já estivesse procurando por nós.

KRYCEK: - Não sei se azar ou sorte. Meu Deus, imagina quem nos conhece e possa ter visto tudo o que fizemos naquela cela?

MULDER: - Acho que se alguém que conhecemos assistiu, jamais vai admitir para não se incriminar, não concorda?

KRYCEK: - E agora Mulder?

MULDER: - Agora, Rato... Continuamos um pelo outro. Vamos tentar sobreviver.

Corte.


Os dois sobem as escadas, com armas em punho. Krycek abre a porta contra-fogo. Saem num corredor. Na parede escrito Nível 2.

MULDER: - Bom, sobrevivemos ao nível 1. Agora precisamos passar do nível 2. Fica de costas pra mim. Vamos andar devagar, você olha pra frente e eu olho pra trás.

Os dois seguem o corredor, com as armas em punho.

Barulhos.

Os dois se viram rapidamente, olhando para uma porta. Mulder sinaliza pra Krycek. Leva a mão na fechadura. Krycek mantém a arma apontada pra porta. Mulder abre a porta rapidamente.

Dois garotos por volta de 18 anos, abraçados e assustados, quase chorando, só de calças jeans, olhando pra eles. Dillan segura uma mochila igual a deles.

ANTON: - Não nos matem, por favor!!!

DILLAN: - Eu não quero morrer!!!

MULDER: - Saiam daí, mãos pra cima. Onde estão as armas?

ANTON: -Ali, no canto!!! Não queremos matar ninguém.

Mulder e Krycek se entreolham. Seguram o riso. Krycek abaixa a arma.

MULDER: - Somos policiais. Não vamos atirar em vocês.

ANTON: - Cara, eles vão matar a gente! É a dupla dos tiras! Nível de letalidade 9! Você viu as cartas no painel do jogo! A gente se ferrou!

MULDER: -Ei, ei, ei! Ninguém aqui vai matar ninguém, ok? Eu sou detetive, ex-agente do FBI e o meu parceiro é policial. Vocês estão seguros.

ANTON: - Vieram nos salvar? Ou vão abusar da gente?

KRYCEK: - Não vamos abusar de vocês dois, ok? Fiquem calmos. Caímos na mesma armadilha, mas se ficarem conosco vamos proteger vocês.

Os garotos respiram aliviados.

MULDER: - Ok, garotos. Hora de "sair do armário". Vamos.

Os dois saem do armário. Mulder pega as armas, retira os pentes e coloca tudo na mochila de Krycek, enquanto olha debochado para eles.

MULDER: - Não são jovens demais pra passarem um final de semana num hotel? Seus pais sabem disso?

DILLAN: -Como assim? A gente tava acampando na floresta e depois acordamos aqui. Vocês são gays, não são? Não vão contar nada para os nossos pais...

KRYCEK: - (SEGURA O RISO) Fiquem calmos, ok. Ninguém aqui vai contar nada pra ninguém, o segredo de vocês tá guardado. Sabem quem sequestrou vocês? Viram o cara?

DILLAN: -Não, a gente bebeu, né Anton? Bebemos algumas cervejas...

ANTON: -Cara, eles são da polícia, você tá nos encrencando mais ainda!

MULDER: - (RINDO) Não vamos encrencar ninguém. Quero que contem tudo o que sabem.

DILLAN: - A gente não lembra. Bebemos e fomos dormir. Acordamos numa cela de vidro.

ANTON: - É, o cara ameaçava a gente o tempo todo e tivemos que fazer as coisas que ele mandava...

Mulder puxa Krycek pra um canto.

MULDER: - (COCHICHA) São menores, duas crianças. Aquele desgraçado sequestrou dois garotos e podemos imaginar o que eles passaram.

KRYCEK: -(COCHICHA) Eu quero pegar esse cara, Mulder. Vamos sobreviver a esse jogo e pegar esse filho da puta.

MULDER: -(COCHICHA) O problema é que ele está olhando, e como em todo o jogo, só um ganha. Entendeu?

KRYCEK: -(COCHICHA) Vamos ter que pensar num jeito de esconder esses dois, mas deixá-lo achando que nós os matamos. Não sabemos quem mais está aqui, mas não acredito que esses dois aí foram os mais escolhidos pelos apostadores. Há mais gente aqui. E eles não vão pensar duas vezes antes de atirar nesses meninos.

MULDER: - (COCHICHA) Concordo.

Mulder olha para os dois jovens.

MULDER: - (COCHICHA) Seguinte. Eu sou o Mulder e ele é o Krycek. Vocês são...

DILLAN: - Eu sou Dillan, ele é o Anton. Por que tá cochichando?

MULDER: - (COCHICHA) Ok, Dillan e Anton. Daqui pra frente apenas cochichem, eu não sei se esse cara não nos escuta. Fiquem perto de nós, olhos atentos e tentem ser silenciosos, ok?

Os dois concordam com a cabeça, assustados. Mulder segue em frente, mirando a arma. Krycek segue de costas, mirando a arma para o outro lado.

MULDER: -(COCHICHA) Tem portas nesse corredor.

DILLAN: -(COCHICHA) Sim, duas. A gente já tentou abrir, mas estão trancadas. A única que abriu foi daquele armário.

MULDER: - (COCHICHA) De onde vocês saíram? Do nível um?

DILLAN: -(COCHICHA) Sim. Não tinha ninguém lá. Quando chegamos aqui em cima tinha um cara negro e um branco, armados. Aí tentamos nos esconder e a única porta que abriu foi a do armário.

KRYCEK: -(COCHICHA) Fizeram bem. Aqueles caras tentaram nos matar lá embaixo. Mas não vão mais incomodar ninguém.

Dillan olha assustado pra Krycek.

KRYCEK: - (COCHICHA) Todos saem do nível 1, em algum tipo de ordem.

MULDER: - (COCHICHA) Talvez de acordo com a ordem em que chegaram aqui. Já estiveram no nível 3?

ANTON: - (COCHICHA) Cara, a gente subiu as escadas, empurrou a porta e vimos dois caras lá em cima quebrando as lâmpadas. Voltamos correndo pro armário.

MULDER: -(COCHICHA) Ok, Rato. Sabemos que temos dois lá em cima. E que vai ficar bem escuro.

Eles param na frente de uma das portas.

MULDER: - (COCHICHA) Podia atirar na fechadura, mas vamos entregar nossa localização.

KRYCEK: - (COCHICHA) Bem se vê que você nunca viveu nas ruas, Mulder...

Krycek pega o canivete. Começa a arrombar a porta. Os jovens observam curiosos.

MULDER: - Ele não é um bom exemplo, ok? Não façam isso.

Krycek faz careta pra Mulder. Os jovens riem. Krycek consegue abrir a porta. Empurra.

Corte.


Um laboratório químico. Mesas, utensílios, computador. Eles entram. Mulder fecha a porta. Krycek corre até o computador. Mulder analisa o ambiente. Procura câmeras. Não há.

MULDER: - Ok. Agora podemos falar. Acho que descobrimos como ele consegue drogas e substâncias químicas.

KRYCEK: - Merda! O computador não funciona. Nem liga!

DILLAN: - Deixa a gente tentar, tio.

Krycek olha incrédulo pra Dillan. Mulder ri. Os garotos correm pro computador.

MULDER: - (DEBOCHADO) É "tio", deixa eles tentarem, é da geração deles. Vem pra cá conversar sobre bolinhas de gude.

Krycek se aproxima.

MULDER: - Acho que podemos deixar esses garotos aqui. Eles podem trancar a porta e ficar em segurança... Rato, esse cara pode ser militar mesmo, mas agora sabemos também que ele entende de química.

KRYCEK: - Mulder, preciso colocar minhas ideias em ordem. Estou cansado, com fome, sem dormir, com os nervos a mil, e isso não é uma situação boa para o que vamos enfrentar.

MULDER: - Vamos sentar e pensar um pouco... E aí, garotos? Conseguem arrumar essa coisa e pedir ajuda?

ANTON: - Não tem como. Isso aqui é objeto de decoração retrô. Deve ser do tempo da internet discada!

KRYCEK: - O que tem o tempo da internet discada? Tentem abrir e ver se tem placa de modem. Ou não conhecem placa de modem? Se tiver, tem como conectar. Juventude... Acham que tudo vem por Wi-Fi, até a mesada.

Mulder começa a rir. Krycek senta-se no chão. Despeja o conteúdo da mochila. Pega as armas dos garotos. Mulder senta-se ao lado dele. Os garotos ficam entretidos no computador.

ANTON: - Como vamos abrir isso? É daqueles parafusos x!

KRYCEK: - Na mochila de vocês deve ter uma chave Phillips. Isso se chama parafuso Phillips.

Os dois reviram a mochila. Mulder abaixa a cabeça rindo.

KRYCEK: - Parafuso x... Eu mereço! Essa geração de hoje não sabe se virar sozinha?

MULDER: -Eu não posso criticar. Também não entendo muito de consertos domésticos.

KRYCEK: - Mas pelo menos você sabe o nome das ferramentas e pra que servem.

MULDER: - Ah, isso eu sei. O que temos aí?

KRYCEK: - Dois revólveres, um 38 e um 22.

Krycek entrega pra Mulder.

KRYCEK: - E duas automáticas com pentes carregados com... 15 balas... Pega um pente pra você de reserva e eu fico com o outro. Quer o 38 ou o 22?

MULDER: - Tenho problema em perder a arma. Você fica com o 38 e eu com o 22.

KRYCEK: -(CULPADO) Por causa do que fiz com você daquela vez?

MULDER: - Não, aquilo a fisioterapia resolveu. É que sempre perco a arma mesmo.

Krycek abaixa a cabeça, colocando a mão no rosto.

MULDER: - Ah não! Isso não é hora pra lembrar de merdas do passado. Estamos vulneráveis emocionalmente, não caia nas ciladas dos pensamentos oportunistas, ok?

Krycek se levanta, coloca o 38 atrás, pra dentro das calças. Vai até os garotos.

KRYCEK: - Me dá essa chave aqui, vocês não sabem porcaria nenhuma!

Mulder ri. Krycek começa a abrir a CPU. Anton observa curioso.Mulder sinaliza pra Dillan se aproximar. Dillan senta-se ao lado de Mulder. Mulder fica observando Krycek.

ANTON: -Você entende de eletrônica?

KRYCEK: - Pouco, mas o suficiente pra me virar. Deveria ter escolhido essa matéria na escola, é muito importante, sabia?

ANTON: - É, tô vendo agora, tá ligado?

KRYCEK: - É, "tô ligado". Vocês vivem ligados, mas não entendem como funciona o botão liga e desliga. Seu pai não ensina nada pra você?

ANTON: - Não tenho pai. Ele deu o fora quando minha mãe ficou grávida.

KRYCEK: - Lamento pela imbecilidade dele.

Krycek tira a tampa da CPU.

KRYCEK: - Olha aqui... Essa é a placa de modem. Tá meio enferrujada, mas a gente pode achar algum reagente químico que não seja muito corrosivo, afinal estamos num laboratório. Podemos tentar limpá-la e torcer pra que funcione.

ANTON: - Legal! Aprendeu isso na escola?

KRYCEK: -Nem existia computador no meu tempo. Eu só estudei até a quinta série. A gente não aprende tudo na escola, garoto. Aprende na vida, uns com os outros. Aprende nos livros. Precisa ter curiosidade pelas coisas e fazer perguntas, porque nunca sabe o que vai enfrentar na sua vida. Conhecimento nunca é demais, tá ligado? O conhecimento salva você de muitas encrencas. Podem roubar tudo de você, menos o que você aprendeu. E isso vai te ajudar a se erguer toda vez que precisar.

Mulder sorri. Olha pra Dillan.

MULDER: - Sabem quanto tempo estão aqui?

DILLAN: - Não.

MULDER: - Me fala mais sobre essa coisa das cartas do jogo. Krycek e eu só vimos duas cartas com nossos nomes num telão. Não sabemos contra quem estamos jogando.

DILLAN: - Seguinte. São cartas, tipo RPG, sabe?

MULDER: - Não entendo muito de RPG. Mas preciso entender no que estamos metidos.

DILLAN: - No caso, as cartas são pares. O cara que está jogando online precisa escolher um par de cartas. Não pode escolher um de cada par, tem que ser o mesmo par, porque somos casais.

MULDER: - Entendi.

DILLAN: - Aí eles apostam no casal que escolheram. Cada carta tem o nome do personagem, que no caso somos nós. Tem nossa foto, descrição física, acho que é para os caras que gostam de apostar nos mais sexys. Tem também de onde somos, eu vi que seu namorado é russo e tinha um cara que era haitiano. Tem nossas habilidades, as armas que usamos e o nível de letalidade no jogo. Vocês são policiais, então são perigosos, sabem usar armas, por isso nível 9 na letalidade. Anton e eu temos nível 1 de letalidade. A gente não sabe lutar. Quem apostou na gente foi apenas porque somos garotos e... Devem ter gostado de nos ver juntos, sabe? Anton acha que eles nos assistem pra decidir em quem apostar, em quem simpatizam, qual casal mais quente, mas romântico...

MULDER: - Eu concordo. Acho que ficamos naquela cela sendo filmados em nossa privacidade para que eles escolham com qual sentem mais afinidade. Papai Urso forçou vocês a transarem?

DILLAN: - A gente já transa lá fora. Mas ele queria ver a gente transando. Se a gente fizesse o que ele pedia, a gente ganhava comida, roupa limpa, dicas no point and click... Claro que a gente fazia pra ele ver. E os apostadores também assistiam, né? A gente não gostava, mas tinha que fazer, ou ele nos botava pra dormir ou ameaçava nos matar. Eu nem sabia que tinha mais gente aqui, até vermos os caras no corredor do nível 2. Aí entendemos que era um jogo de sobrevivência e preferimos nos esconder pra não morrer. Somos os garotos nesse jogo, contra homens adultos. Não temos chance alguma! Vocês são os Tiras, nós somos os Nerds!

Mulder suspira, morde os lábios. Coloca as coisas espalhadas de volta na mochila.

MULDER: - Eu sei, ele fez o mesmo comigo e com Krycek e certamente com cada casal que está aqui. E além de vocês dois e aquele casal inter-racial, vocês viram as cartas dos outros?

DILLAN: - Os caras que estão no nível 3. Eles são 10 em letalidade. A maior parte apostou neles e a outra maior parte em vocês.

MULDER: - Ok. Por que eles são mais letais que a gente? Tipos de armas, habilidades, lembra? Tudo o que puder lembrar vai nos ajudar.

DILLAN: - Eu sei que um é australiano e o outro é inglês. Não são mais altos que vocês dois... O de olhos azuis, australiano, tem um arco e flecha. O inglês tem um rifle Savage 17 HMR, com mira telescópica. Na carta tem uns desenhos estranhos e um leão. Eles são os Caçadores.

MULDER: - Valeu, Dillan.

Mulder se levanta. Aproxima-se de Krycek que limpa a placa do modem sob os olhos curiosos de Anton.

MULDER: - Somos nós contra um casal de caçadores. Etapa final do jogo.

KRYCEK: - Caçadores? Bom, agora entendo porque mais de 60 mil apostaram neles e não em nós.

MULDER: -Um australiano e um inglês. Um arco e flecha e um rifle Savage com mira telescópica. Se quebravam as lâmpadas, possivelmente tem visão noturna no rifle.

KRYCEK: - Duas 9 mm com pentes extras, um 38 e um 22... Ainda estamos dentro, Mulder.

MULDER: - Primeiro vamos tentar conversar, ok? Eles também são vítimas como nós.

KRYCEK: - É, eu sei. Mas prefiro os render primeiro e depois conversar. Primeiro você soca, depois pede os documentos... Anton, agora é com você. Vou colocar a placa de volta, já consertamos o fio elétrico. Liga essa porcaria e tenta conseguir ajuda.

MULDER: - Garotos, nós vamos voltar pro jogo. Quero que tranquem a porta quando sairmos. Espero que consigam pedir ajuda. Caso não consigam, esperem aqui. Se a gente não voltar em algumas horas, é porque não conseguimos. Vocês terão que sair daqui, tentem evitar as câmeras, tentem serem rápidos e fugirem. Não se arrisquem enquanto não se acharem seguros e prontos pra tentarem. Combinado?

DILLAN: - Combinado.

MULDER: - Se fugirem daqui... Eu sei que não vão procurar a polícia, porque terão que contar coisas que causarão problemas pra vocês. Mas eu vou pedir um favor. Conhecem a pousada Eldorado, em Montgomery?

ANTON: - Sim, a gente mora em Montgomery.

MULDER: - Quarto 11 e 12. Minha esposa está lá, ela se chama Dana, é uma ruiva baixinha, está grávida e está com a Barbara, mulher do Krycek. Minha mulher é detetive, a dele é jornalista e vocês podem confiar nelas. Preciso que digam aonde estamos. Não se preocupem, elas não vão colocar vocês em confusão com seus pais, certo? Mas preciso que deem esse recado pra elas ou as duas jamais nos encontrarão.

DILLAN: - Vocês são gays e casaram com mulheres?

Krycek e Mulder se entreolham rindo.

MULDER: - É uma longa história.

Krycek tira a jaqueta de couro. Revira o bolso de dentro, retirando o rosário de Barbara. Coloca no bolso das calças. Entrega a jaqueta pra Anton.

KRYCEK: - Entregue minha jaqueta pra elas. Elas saberão que vocês estão dizendo a verdade.

MULDER: - Agora tranquem a porta. E não abram pra ninguém. Se for a gente vamos bater três vezes, parar e depois batemos mais três vezes. Combinado?

Eles afirmam com a cabeça. Krycek pega a mochila e coloca nas costas. Mulder coloca a 22 na cintura.

MULDER: - Temos bastante munição, mas não podemos sair atirando à esmo.

KRYCEK: - Sabemos que estão lá em cima. Vamos chegar no elemento surpresa. Agora precisamos matar os garotos, porque não venceremos o jogo se eles estiverem vivos. Só um casal pode sobreviver.

Os garotos olham assustados.

MULDER: - Não vamos matar vocês de verdade. Ele precisa achar que estão mortos.

Krycek revira as prateleiras. Mulder o ajuda.

KRYCEK: - Mulder, qualquer coisa que lembre sangue... Menos fósforo vermelho, melhor não arriscar, estamos descalços e esse piso pode fazer faísca.

MULDER: - Se eu entendesse de química...

DILLAN: - O que vocês querem fazer?

MULDER: - Queremos deixar pegadas com sangue quando sairmos, pra ele pensar que vocês estão mortos.

DILLAN: - Deixem comigo. Preciso defenolftaleína, amoníaco e álcool.

Eles reviram as prateleiras. Dillan pega um béquer, um bastão de vidro, um medidor e um copo de água.

KRYCEK: - Mais sorte que juízo. Fenolftaleína.

MULDER: - Amoníaco e álcool. O que você vai fazer, garoto?

DILLAN: - Sangue do diabo. Já ouviram falar?

Mulder e Krycek se entreolham. Dillan começa a preparar a substância.

KRYCEK: - Não tem nada menos encapetado não? Se é do diabo, boa coisa não é...

MULDER: - Isso é tóxico em contato com a pele?

DILLAN: - Não. A gente joga na roupa branca dos outros pra sacanear. As meninas ficam furiosas.

KRYCEK: - Você mancham as roupas das garotas de propósito?

DILLAN: - Não, isso fica vermelho por um tempo, elas ficam malucas da vida achando que perderam a roupa pra sempre, mas depois a substância desaparece.

MULDER: - Já serve. Basta o tempo pra câmera filmar. Ele vai ficar acompanhando é o nosso movimento, quando ver que vocês não saíram.

Corte.

Mulder despeja o líquido no chão, perto da porta. Pisa em cima. Se afasta. Krycek pisa em cima.

MULDER: - Pronto, temos as pegadas.

Krycek puxa o 38 e atira duas vezes na parede. Os garotos levam as mãos às orelhas.

KRYCEK: - Pronto. Estão mortos.

Krycek abre a porta. Espia pra fora.

KRYCEK: - Vamos, Mulder. Garotos, tranquem a porta. E não façam barulho algum!

Mulder sai. Krycek sai atrás dele, fechando a porta.

MULDER: - Merda, Krycek! Você não devia ter matado os garotos!!!

KRYCEK: - Acorda, Mulder! Precisamos sobreviver. Eram eles ou nós! Vamos dar o fora daqui!

Os dois deixam pegadas vermelhas pelo chão. A câmera foca e fica parada na porta, por um tempo. Depois desvia o foco.

Corte.


Mulder e Krycek terminam de subir as escadas. Mulder carrega a mochila. A porta anti-fogo em frente a eles.

MULDER: - (COCHICHA) Rato, vamos tentar pegá-los de surpresa e fazerem se render. Sabemos que são tão vítimas quanto nós.

KRYCEK: -(COCHICHA) Se eles atirarem, eu vou atirar de volta. Mulder, lembra. Caçadores, ok? Não sabemos o que eles caçam. Esses caras ouviram os tiros que eu dei lá embaixo e nem desceram pra ver. Então fica ligado, porque eles estão ocupados com alguma coisa.

MULDER: - ... (COCHICHA) Caçadores fazem armadilhas.

KRYCEK: - (COCHICHA) Presta atenção aonde pisa, no que toca e fica de olhos bem abertos. Olha pra cima, para o chão, para os lados... Eu não quero ser atingido de surpresa, entendeu? Sobrevivência, Mulder. Dane-se, se eu tiver que matar quem eu não conheço, não vou pensar duas vezes, porque eles vão nos caçar.

Krycek tira o canivete e abre. Começa a cortar as pernas das calças acima dos joelhos. Mulder olha debochado pra ele.

MULDER: - (COCHICHA) Ô Rato... Sua mulher fica uma gracinha de shortinho jeans, mas você com essas pernas brancas e peludas, sem chance.

KRYCEK: -(COCHICHA/ IRRITADO) Cala a boca, Mulder. Você anda olhando pra minha mulher?

MULDER: - (COCHICHA/ PROVOCANDO) Eu não! Mas ela vai molhar o jardim no finalzinho da tarde, com aquelas pernas morenas e bem torneadas à mostra, enquanto pega na mangueira... Eu não sou cego!

KRYCEK: -(COCHICHA) Mas pelo jeito quer ficar, né? A Scully também é uma gracinha quando usa aquelas calças de cotton apertadinhas pra caminhar de manhã cedo.

MULDER: -(COCHICHA/ IRRITADO) Você anda olhando pra Scully?

KRYCEK: -(COCHICHA) Eu não! Mas ela cruza comigo todo o dia de manhã quando estou chegando. Sempre no mesmo horário... Que culpa eu tenho se ela resolve se exercitar na mesma hora em que chego? Hum? Coincidência? Acho que vou convidar a Scully pra malhar comigo nos meus aparelhos de musculação.

MULDER: -(COCHICHA) Tenta malhar com a Scully e você vai descobrir rapidinho como se asfixia um canalha com um supino. Mantenha sua jaqueta de couro longe da minha mulher!

Mulder olha pra ele o fuzilando com os olhos. Krycek segura o riso.

KRYCEK: -(COCHICHA) Guarda isso na mochila, podemos precisar.

Krycek atira os pedaços de jeans, Mulder guarda na mochila.

KRYCEK: - (COCHICHA) Vamos tentar achar alguma outra entrada a não ser essa porta, porque...

Mulder abre a porta antes que Krycek termine a frase.

Uma lata amassada de refrigerante cai no chão, fazendo barulho. Mulder cerra o punho e os dentes, indignado consigo mesmo.

KRYCEK: -(COCHICHA/ IRRITADO) Legal, Mulder. Agora sabemos que eles são espertos e eles sabem que estamos chegando.

Mulder tira o mapa do bolso.

MULDER: -(COCHICHA) Fica esperto, vou ver pra que lado é a saída.

KRYCEK: -(COCHICHA) E o que faz você pensar que eles estão vigiando a saída? E se estão do lado oposto pra nos pegarem por trás?

MULDER: -(COCHICHA) ... Tem razão... Par ou ímpar?

KRYCEK: -(COCHICHA) Ímpar.

Os dois mostram as mãos.

MULDER: - (COCHICHA) Você ganhou, Rato. Vamos para o lado oposto a saída.

Corte.


Corredor escuro. Câmeras de visão noturna no alto. Mulder e Krycek com lanternas e as armas na mão. Mulder ilumina o alto das paredes, mostra pra Krycek as lâmpadas quebradas. Krycek fica mais tenso. Então segura Mulder, que recua. Krycek aponta a lanterna para a poça de água no chão. Ilumina e percebe o fio desencapado que está ligado numa tomada. Mulder olha assustado pra Krycek.

Krycek mira a lanterna observando o tamanho da poça. Então recua, toma impulso e pula. Sinaliza pra Mulder, que faz o mesmo.

MULDER: - (COCHICHA/ ANGUSTIADO) Eles tem mira telescópica. Aposto que infravermelho. Eles vão nos ver no escuro antes de estarmos perto deles. Não vamos ter chance.

KRYCEK: - (COCHICHA/ NERVOSO) Não importa. Vamos apagar as lanternas, nos manter andando com as costas contra a parede, tateando a parede e avançando devagar pelo escuro. Um pé de cada vez, sentindo o chão e o que tem adiante. Esse túnel é em curva, isso vai dificultar a mira deles.

MULDER: - (COCHICHA) Certo.

KRYCEK: - (COCHICHA) Precisamos encontrar uma porta e sair desse túnel. Inverter o jogo, fazê-los irem atrás de nós pra nos caçarmos. Aqui estamos na mira, vulneráveis e expostos, não temos como nos esconder. Vamos em silêncio, sem barulho, nem da respiração.

[Som: The Sound - I Can't Escape Myself]

Eles seguem com as costas contra a parede, em passos lentos, cautelosos e nervosos, um ao lado do outro, Mulder depois de Krycek.

Vemos pela câmera em preto e branco, visão noturna: Eles continuam, tateando a parede e seguindo o curso do túnel, com as costas na parede. Krycek vai sempre levando o pé e a mão para o lado, procurando armadilhas.

Krycek para. Leva a mão rapidamente para o lado, procurando Mulder e o segura pelo pulso com força.

Vemos o sujeito passando na frente deles com um arco e uma flecha apontando pra frente, desconfiado.

Eles não se vêem, mas Krycek pressente, permanece segurando Mulder pelo pulso.

O sujeito recua, desconfiado. Então se vira e volta para onde veio.

Krycek com os olhos fechados, quase trêmulo. Mulder morde os lábios, angustiado e assustado. Krycek solta o pulso de Mulder. O pega pela mão. Seguem mais um pouco. Krycek leva a mão pela parede e então sente o marco de metal. Avança mais um passo, tentando encontrar a maçaneta, que está perto da mão dele, mas ele nem tem como perceber, fica tateando até encontrar. Desce lentamente a maçaneta, tentando evitar ruídos. Empurra, a porta está trancada. Krycek, angustiado, segura a raiva. Continua seguindo pelo túnel.

Mais uns passos. A escuridão deixa os dois mais nervosos. Krycek leva o pé e sente a linha encostar em sua perna. Para. Mulder esbarra nele. Krycek leva a mão até a linha, sentindo-a. Segura a linha, ergue a perna e coloca do outro lado. Faz o mesmo com a outra perna, ficando parado e levando a mão de Mulder até a linha. Mulder entende. Segura a linha e ergue a perna passando, fazendo o mesmo com a outra perna. Eles continuam andando contra a parede, vagarosamente. Krycek sente outro marco de metal. Tateia procurando a maçaneta, angustiado. Vemos na porta um cartaz com a inscrição: DANGER BIOHAZARD.

Krycek desce a maçaneta e empurra a porta. A porta abre rangendo alto.

Krycek se joga de costas pra dentro, puxando Mulder pela mão, ao mesmo tempo que uma flecha voa por cima deles, sem que eles vejam. Krycek cai de costas no chão e chuta a porta rapidamente. Alguém a força, Krycek empurra a porta com os pés. Mulder mira na porta e acerta um tiro.

Corte.


Silêncio.

A luz da lanterna na mão de Mulder acende. Mulder tranca a porta. Ajuda Krycek a se erguer.

MULDER: - Você está bem?

KRYCEK: - Por hora, mas só quero ver quando chegar aos 50 se ainda vou ter a coluna inteira.

Krycek fica sentado no chão, recostando as costas na parede, num semblante de dor. Mulder ilumina o lugar com a lanterna. É um laboratório enorme, sujo e abandonado. Mulder mantém o foco da lanterna num tanque de metal, olhando apavorado para a flecha que penetrou o tanque. Uma substância marrom cai em gotas pingando no chão.

MULDER: -Rato... Olha aquilo.

KRYCEK: -É o que tenho medo, Mulder. Tenho mais medo de ser flechado que de tomar um tiro. O estrago que isso faz é quase sempre fatal.

Mulder continua parado, iluminando o lugar, procurando coisas e observando. Há câmeras os vigiando.

MULDER: -(COCHICHA) Aqui tem câmeras. Ele está nos observando...

KRYCEK: -(COCHICHA) E transmitindo.

MULDER: - Aquele fio... Agora entendi porque cortou suas calças. Não sentiria nada nas pernas se estivesse com jeans. Já passou por isso, Rato?

KRYCEK: -Fazíamos treinamento no exército russo. Nas florestas. Uma vez Karel e eu aprendemos da pior maneira que nem sempre armadilhas são feitas com cordas, essas você sente mesmo usando calças grossas. Tropeçamos numa linha fina de pesca, não deu pra sentir. Uma bomba de tinta espirrou em nós. Banho frio, flexões e sem jantar pra aprender a não ser idiota.

MULDER: -Odeio militares. Nunca conseguiria sobreviver no exército.

KRYCEK: -Não foi minha opção, Mulder. Mas de certa forma, aprendi muita coisa lá. Dirigir, mecânica, eletrônica, marcenaria, armas, sobrevivência... Foi a minha escola. Lado bom e lado ruim.

Krycek se levanta. Tira a lanterna e ilumina o lugar. Os dois andam pelo laboratório.

MULDER: -Agora estamos encurralados aqui. Eles sabem aonde estamos... Não tem janelas... Isso é um subterrâneo.

KRYCEK: -Com certeza. O que tem naquele tanque, Mulder?

MULDER: - Uma placa escrito Risco Biológico. Quer checar?

KRYCEK: - Passo! Que merda essa gente fazia aqui?

Os dois param diante da câmara de descontaminação. Iluminam o laboratório do outro lado da parede de vidro. Geladeiras, armários, mesas, microscópios, tudo abandonado e empoeirado.

MULDER: - Mesmo que não tenha mais nada, não entro aí nem ferrando.

KRYCEK: - Armas biológicas? Mulder, eu não creio que estamos muito longe do hotel. Essa região é praticamente cheia de florestas. Um laboratório militar clandestino e abandonado, debaixo de uma floresta? Boa coisa não faziam aqui.

MULDER: -(COCHICHA) E certamente nosso amigo conhece bem o lugar. Deve ter trabalhado aqui. Isso tudo é bem antigo.

KRYCEK: - (COCHICHA) Ele nos chama de garotos. Já temos mais de 40, que idade ele tem então?

MULDER: -(COCHICHA) Pra ele ainda somos garotos. Rato, me ajuda a pensar como vamos sair daqui. Aqueles caras estão lá fora e sabem que estamos aqui dentro.

Krycek anda pelo lugar.

KRYCEK: - Mulder, não acho que devemos sair daqui. Devemos deixá-los entrar. Aqui temos onde nos esconder e pegá-los de surpresa.

MULDER: - E acha que eles vão entrar?

KRYCEK: - Você não está angustiado pra terminar esse jogo, encontrar a saída e dar o fora daqui? Não está cansado, com sono, com fome, esgotado mental, física e psicologicamente? Eles também. Vamos ter que ser mais pacienciosos do que eles. Deixa o tempo correr. Eles vão acabar invadindo.

MULDER: - Tem razão. Vamos preparar o território a nosso favor. Vamos procurar aonde nos esconder, onde podemos ter um melhor ângulo para disparar naquela porta.

Krycek olha para a escada do tanque. Mulder senta-se no chão, recostando-se na parede. Abaixa a cabeça.

KRYCEK: - O que você acha, Mulder? Lá em cima?

MULDER: - ....

KRYCEK: - O que foi?

MULDER: - ... Coisas estão vindo na minha cabeça. Acho que... Estou cansado.

KRYCEK: -Que coisas?

MULDER: - Jasmine.

Krycek olha preocupado. Senta-se ao lado de Mulder.

KRYCEK: - Mulder... Lembra que...

MULDER: - Eu sei. Mas eu preciso falar, não sei se vamos sair daqui vivos... Eu fiz merda. Me sinto culpado até hoje.

KRYCEK: - Fez mesmo?

MULDER: - Não acha?

KRYCEK: - Não. Foi tenso? Foi. Mas o que falamos? O melhor é fingir que não aconteceu, não tocar no assunto, seguir em frente e quem nunca cometeu insanidade na vida por um momento de carência afetiva? Não pode se culpar a vida toda por isso, Mulder. Scully não esqueceu? Não vamos tocar mais nesse assunto Jasmine, enterra isso. Preciso que se concentre agora, temos que sobreviver. Culpas inexistentes não vão nos tirar daqui. Preciso de você com cabeça fria agora. Vamos subir nesse tanque e esperar aqueles caras. E se eles chegarem atirando, vamos atirar. Somos nós ou eles. Se não tem coragem, me diz agora. Eu faço sozinho.

MULDER: - Eu tenho coragem, Rato. Não gosto de matar. Sabe disso. Mas se tiver que fazer, eu farei.

KRYCEK: - Vamos Mulder. Você mesmo me ensinou a esquecer as culpas do passado. Quanto mais as inexistentes!

Os dois ficam cabisbaixos. Krycek olha pra câmera. Puxa a arma.

KRYCEK: - Sabe de uma coisa, Mulder? A vida é pra ser vivida. É um eterno risco e uma eterna loucura impulsiva. Se a gente vai morrer mesmo, dane-se esse jogo! Concorda?

Mulder olha pra ele num sorriso cansado. Krycek fecha um olho e mira a arma na câmera, com deboche.

KRYCEK: - Foda-se, cretino! Você não tem direito de olhar pra nós.

Krycek atira na câmera. Mulder começa a rir.

Corte.


Barulhos. Mulder atrás do tanque, mirando a arma na porta. Tenso, suor escorrendo da testa. A porta é arrombada num supetão. O Atirador entra apontando o rifle com mira telescópica. O Arqueiro entra depois dele, já com a flecha posicionada no arco.

MULDER: - Somo policiais, ok? Não queremos matar ninguém! Vamos conversar...

O Atirador começa a atirar em Mulder. Mulder se esconde atrás do tanque. O Arqueiro procura Krycek com os olhos. Mulder troca tiros com o Atirador, o Arqueiro corre se ocultando atrás da mesa. Krycek, deitado em cima do tanque, mira no Atirador, acertando um tiro entre os olhos. O sujeito cai morto no chão.

O Arqueiro mira a flecha em Krycek e dispara. A flecha passa perto. Mulder, mira a arma no Arqueiro, que rapidamente prepara outra flecha. Mulder atira na cabeça dele.

Krycek desce do tanque, pela escadinha. Mulder checa o Arqueiro.

MULDER: - Idiota... Eu não queria matar.

KRYCEK: - Vamos embora, Mulder. Pega a mochila e vamos cair fora.

Corte.


[Som: The Sound - I Can't Escape Myself]

Mulder e Krycek com as armas e as lanternas caminham pelo túnel escuro. Chegam até a porta do elevador. Mulder pressiona o botão. A porta se abre. Os dois olham pra dentro, desconfiados.

MULDER: - Muito fácil.

KRYCEK: - Também tô achando.

Mulder entra, Krycek fica trancando a porta. Não há painel com botões, apenas uma fechadura. Mulder tira a chave dourada do bolso e coloca, encaixando perfeitamente.

MULDER: - Sobe?

Krycek entra.

O elevador começa a subir. Mulder olha pra Krycek, que olha pra ele. Os dois atentos e desconfiados, mantendo as armas nas mãos, mirando na porta.

O gás começa a invadir o elevador. Os dois se olham em pânico, tentando abrir a porta, inutilmente. Krycek tenta segurar a respiração, enfiando a mochila na cara.

Corte.


Um corredor. Penumbra.

Ele de costas, usando botas, sobretudo e chapéu. Assoviando "Polly" e puxando a corda sobre os ombros. Arrastando pelos pés um Mulder desacordado e amarrado.

Corte.


Krycek, cabisbaixo, abre os olhos. Está sentado, de costas pra um cano na parede. Sente suas mãos amarradas ao cano. Krycek ergue a cabeça. Os olhos de Andrew, o recepcionista, o admiram.

ANDREW: - Oi policial russo.

Krycek sorri com charme pra ele.

KRYCEK: - Você?

ANDREW: - Surpreso?

KRYCEK: - Bastante. Uma boa surpresa, admito.

Andrew se aproxima mais do rosto de Krycek. Leva a faca contra o pescoço dele. Aproxima os lábios da orelha de Krycek.

ANDREW: -(SUSSURRA) Agora você é só meu.

Andrew leva a língua na orelha de Krycek, mordiscando e lambendo-lhe o brinco. Afasta-se, olhando com desejo insano nos olhos dele. Krycek olha pra ele, num sorriso sacana.

KRYCEK: - Temos um problema, lourinho. Meu namorado é muito ciumento.

ANDREW: - (SORRI) Não temos não. Ele está com Papai.

KRYCEK: - E o que Papai é de você?

ANDREW: - Meu homem. Mas ele não é ciumento.

Andrew desliza a faca pelo peito de Krycek. Mordisca-lhe o mamilo.

KRYCEK: - E Mulder e Papai podem nos ver? Não gostaria que Mulder entrasse aqui e...

ANDREW: - (SORRI) Não se preocupe com Mulder. Papai está ocupado com ele.

Andrew desliza a faca entre as pernas de Krycek. Sorri. Leva os lábios aos lábios do russo, dando-lhe um beijo.

ANDREW: - Gostei de você. Gostou de mim?

KRYCEK: - Eu seria louco se não gostasse de um lourinho jovem e bonito como você.

Andrew sorri, Krycek de olho na faca. Então olha sacana pra ele, tentando ganhar confiança.

KRYCEK: - Então é assim, lourinho? Vai me deixar amarrado, né? Excita você deixar o cara olhando pra todo esse corpo gostoso e ficando de pau duro sem poder tocar? Eu não me contento só em ver, ok? Eu gosto de saborear.

Andrew dá uma risada. Aproxima o rosto do rosto de Krycek. Sussurra contra a pele dele.

ANDREW: - (SUSSURRA) Não pode tocar. Mas pode falar sujeira que eu fico doidinho.

KRYCEK: - (SACANA) Isso é cruel, sabia? Hum? Quer me torturar? Eu comeria essa bundinha se pudesse.

Andrew aproxima os lábios dando outro beijo em Krycek, que dessa vez corresponde. Andrew solta a faca no chão, ao lado de Krycek. Passa as mãos no peito dele.

ANDREW: - Você me atrai, policial machão da boca suja. Seu canalha.

KRYCEK: - Faz um favor pra mim?

ANDREW: - Não vou soltar você.

KRYCEK: - Não quero que me solte, estou gostando disso.

ANDREW: - O que quer então?

KRYCEK: - Posso falar uma coisa no seu ouvido?

Andrew se aproxima.

KRYCEK: - (SACANA/ COCHICHA) Me chupa bem gostoso? Hum? Não tô mais aguentando olhar pra você.

Andrew sorri. Krycek alterna o olhar entre a faca no chão e o agressor.

ANDREW: - Eu adoro receber ordens.

KRYCEK: - E eu adoro mandar. Me chupa agora, lourinho. Bem gostoso.

Andrew leva as mãos ao zíper dele.

KRYCEK: - Espera... Deixa eu me ajeitar melhor pra você.

Krycek abre as pernas.

KRYCEK: - Quero que você roce seu rosto no meu jeans, depois abra lentamente a minha calça e coloca meu pau na sua boca. Eu já tô ficando duro só de imaginar. Vai garoto, eu quero sentir essa boca deliciosa. Anda! Me deixa duro e depois senta em cima que eu vou te castigar como você merece!

Andrew fica empolgado, leva o rosto entre as pernas de Krycek. Krycek aperta as coxas no pescoço dele, dando uma chave de perna. Andrew fica sem ar, tateia o chão procurando a faca. Krycek vira-se pro lado oposto a faca, dificultando o alcance da mão de Andrew, e apertando cada vez mais o pescoço do agressor.

Andrew resiste por minutos, então desmaia. Krycek cansado, o empurra com os pés. Tenta empurrar a faca com o calcanhar pra mais perto das mãos, mas não consegue. Krycek começa a friccionar os pulsos tentando afrouxar a corda.

Corte.

[Som: Nirvana - Polly]

Ele entra assoviando "Polly" na sala quase escura. Na mesa, o abajur azul em forma de ursinho, uma garrafa de bebida, um copo, algumas facas, cordas e o vibrador enrolado num arame farpado. Ele pega uma das facas. Sente a ponta da lâmina com o dedo, até sangrar. Chupa o sangue. Abre um sorriso, mostrando os dentes amarelados. Serve uma dose no copo, tira um comprimido do bolso. Engole o comprimido com a bebida.

Tranquilamente ajeita a câmera no tripé, regulando o ângulo da filmagem. Vemos REC no display.

Ele volta pra mesa. Pega a faca, cordas e o vibrador. Anda alguns passos e para diante de Mulder desacordado, amordaçado, deitado nu e de bruços no chão de concreto. Ele deixa os utensílios de tortura no chão e amarra os pulsos de Mulder, os atando num cano na parede.

Ouvimos a respiração ofegante.

Ele leva a mão com a faca afiada e percorre as costas de Mulder. Sobe e desce a ponta da lâmina, como se o acariciasse. Com a outra mão, ele afaga os cabelos de Mulder.

A respiração dele aumenta. Quase sem ar. Prazer.

Ele desce a mão pelas costas de Mulder, agarrando-lhe o traseiro com força. Percorre os lábios chupando as costas dele.

Ouvimos gemidos de êxtase. Ele sente prazer no que faz.

Mulder se acorda. Arregala os olhos quando vê os utensílios de tortura. Começa a se debater, pressentindo o pior. Ele acerta vários socos na cabeça de Mulder, o deixando tonto e sem reação.

Ele abre as pernas de Mulder, e deita-se sobre ele, esfregando seu corpo. Mulder fecha os olhos, derrubando lágrimas. Ele leva a faca até o pescoço de Mulder, e continua se esfregando, gemendo e sentindo prazer. Afasta a faca, cheira a nuca de Mulder, mordendo-lhe a orelha. Aspira o cheiro da pele. Solta o ar. Então fica de joelhos e leva a mão ao zíper, abrindo as calças e levando a mão pra dentro.

Krycek agarra ele por trás, pelos cabelos, puxando a cabeça para trás, levando com ódio a faca na jugular. Ele arregala os olhos. Num corte único e rápido, o sangue espirra. Krycek puxa ele e o atira pro lado. O sangue continua jorrando. Ele fecha os olhos e sorri perverso antes do último fôlego.

Krycek leva a faca nas cordas e solta Mulder. Tira a mordaça do amigo. Mulder coloca as mãos no rosto e começa a chorar, encolhido como uma criança. Krycek senta-se ao lado dele, fechando os olhos, cansado. Mulder se abraça na cintura dele, chorando. Krycek envolve o braço em Mulder.

KRYCEK: - Acabou, Mulder... Acabou...


4:27 P.M.

Movimento de muitos policiais na floresta. Faixas de isolamento. Uma porta de metal aberta no chão.

Dois policiais saem do búnquer, levando Andrew algemado.

Scully sai do búnquer, atrás dela o delegado. Barbara, usando a jaqueta de couro de Krycek, que lhe parece um vestido, com uma máquina fotográfica pendurada no pescoço, sai correndo do búnquer e apoia-se numa árvore, segurando os cabelos para o lado e vomitando enojada.

O delegado se afasta. Scully se aproxima de Barbara, que está com a cabeça baixa contra a árvore.

SCULLY: - Você está bem?

BARBARA: - Não sei... Nunca vi uma coisa assim em tantos anos de jornalismo. Uma sopa humana...

Barbara ergue a cabeça, tomando ar, olhos em lágrimas.

BARBARA: - Ácido?

SCULLY: - Sim. Após estuprar e matar, eles jogavam as vítimas naquele tanque de ácido no laboratório. Felizmente alguns ossos sobraram, a perícia pode tentar encontrar o DNA e dar um nome aqueles homens.

BARBARA: - Que mundo é esse, Scully? Que tipo de prazer é esse?

Scully a abraça. Barbara se abraça nela.

SCULLY: - Vamos, Barbara. Vamos pegar o que é nosso e vamos embora daqui.

Corte.

Na estrada ao lado da floresta, viaturas e uma ambulância. Paramédicos no local, bombeiros e policiais. Mulder sentado dentro da ambulância, com um cobertor enrolado na cintura, recostado e olhando para o teto, olhos em lágrimas, alívio misturado a cansaço. Krycek sentado na porta, enrolado em outro cobertor, imóvel, olhar no nada e visivelmente perturbado. Ao lado dele a mochila. Ele mantém uma das mãos fechada, apertando alguma coisa. Os dois em silêncio.

MULDER: - ... Obrigado.

KRYCEK: - ...

Mulder olha pra Krycek de costas, imóvel.

MULDER: - ... Você salvou meu rabo, literalmente.

KRYCEK: - ...

MULDER: - Quando alguém salva a sua vida, você deve sua vida a essa pessoa.

KRYCEK: - ...

MULDER: - (DEBOCHADO) Mas o mesmo não acontece quando alguém salva o seu rabo.

Krycek fecha os olhos e aos poucos começa a rir. Mulder senta-se ao lado dele e sorri.

KRYCEK: - ... Guarda essa mochila. Depois destrua o que está dentro dela.

Mulder abre a mochila. Retira algumas fitas digitais. Coloca de volta na mochila.

MULDER: - Vão fazer perguntas, isso são provas da violência que sofremos. Mas eu não sei de nada.

KRYCEK: - Nem eu. O FBI já deve estar chegando.

MULDER: - Espero que eu não conheça o chefe da seção de crimes cibernéticos.

Barbara se aproxima. Leva as mãos e toma o rosto de Krycek, o beijando na testa. Krycek olha pra ela com lágrimas que não deixa cair.

BARBARA: - Acabou, meu Ratoncito. Vamos pra casa. Vou cuidar de você.

Mulder olha pra eles num sorriso. Krycek pega a mão de Barbara e estende a mão fechada sobre a mão dela, soltando o rosário. Fecha a mão dela.

KRYCEK: - Mais um dia de promessa cumprida. De volta a quem pertence.

Barbara sorri em lágrimas, dá um selinho na boca de Krycek e se abraça nele. Scully se aproxima. Coloca a mão na cintura e outra na barriga, olhando séria pra Mulder. Mulder faz cara de cachorrinho pidão e desce da ambulância. Fica em frente a Scully.

MULDER: - Não vou ganhar abraço e beijinho? Ele ganhou!

SCULLY: - (SÉRIA) ...

MULDER: - (PÂNICO) ...

SCULLY: - Vamos embora, Mulder. Já teve romance demais pra uma semana.

KRYCEK: - Estamos aqui há uma semana?

SCULLY: - Sim. E agradeçam aos garotos, Anton e Dillan. Se eles não tivessem ido até o hotel nos avisar, nunca encontraríamos vocês, porque a polícia bateu no hotel três dias depois e não encontraram nada.

Mulder abaixa a cabeça, angustiado.

SCULLY: - Vamos pegar nossas coisas e voltar pra Virgínia.

Uma viatura estaciona. O velho Willcox desce do carona. Se aproxima deles. Abraça Mulder com força.

PAUL: - Obrigado. Agora eu tenho alguns ossos pra enterrar. E a justiça foi feita.

MULDER: - Não me agradeça. Aquele cara ali é quem fez a justiça para o Julian.

O velho se aproxima e abraça Krycek, derrubando lágrimas. Krycek sem reação. O velho se afasta.

PAUL: - Obrigado. Deus abençoe vocês todos, por tudo o que passaram para me ajudar. Minha eterna gratidão. A gratidão de um pai.

O velho se afasta indo em direção à floresta. Então para. Vira-se pra eles.

PAUL: - Julian sofreu muito nas mãos desses pervertidos?

Mulder e Krycek se entreolham.

MULDER: - ...

KRYCEK: - Sim.

O velho sorri triste e entra na floresta. Mulder olha pra Krycek.

KRYCEK: - Se fosse meu filho, eu gostaria de saber a verdade. Por mais que doesse. Concorda?

MULDER: - ... Concordo. Só não tive a coragem de dizer isso pra ele.

BARBARA: - Vamos. Vocês precisam de um banho, roupas e comida.

SCULLY: - Principalmente um banho, porque estão fedendo.

As duas se afastam. Mulder olha pra Krycek.

MULDER: - Minha mulher acaba de nos chamar de fedidos?

KRYCEK: - Agradeça que ela só nos chamou de fedidos. O pior virá depois. Espera chegar em casa.

MULDER: - (PÂNICO) Rato... Quer trocar de esposa por um dia?

KRYCEK: - Nem ferrando, Mulder!


Posto de Combustível - Estrada Interestadual - 7:31 P.M.

Mulder e Krycek sentados no banco de trás da picape. Calados.

Barbara e Scully saem da loja de conveniência, carregando pacotes e refrigerantes.

BARBARA: - ... Acha que eu devia ter dado uma dura no Ratoncito?

SCULLY: - Não. A culpa não é dele. Ambas sabemos quem vai levar uma dura.

BARBARA: - Tadinho, Scully. Mulder está sofrendo.

SCULLY: - Eu sei. E só vou pegar leve e lamber as feridas dele porque em parte eu tenho culpa por permitir essa loucura e Mulder passou por uma situação traumática. Minha vontade é de dar na minha cara por ter permitido isso.

BARBARA: - Mas como você ia saber que a coisa seria tão perigosa? Não tinha nada pra ser perigoso. Quando você me contou, até tive um ataque de riso imaginando os dois brigando feito moleques! Alex deve ter surtado quando descobriu as intenções do Mulder.

SCULLY: - Mulder não devia ter mentido. Barbara, seu homem é homem. O meu ainda tem uma criança dentro dele que não enxerga a maldade, o perigo e que se doa sem pensar. E eu alimentei isso. Podíamos estar voltando pra casa sem maridos. Você culparia o Mulder pro resto da vida. Eu teria que criar meus filhos sem o pai.

BARBARA: - ... Tem razão. Foi sério.

SCULLY: - Eu entendo, Barbara. Entendo mesmo, esse caso afetou a sanidade do Mulder e a minha também. Perdemos um filho. Isso mexe com qualquer pessoa, é algo que você nunca supera. Um filho é a coisa mais sagrada que existe. Nem pensamos em nada, só queríamos ajudar o senhor Willcox.

BARBARA: -Eu entendo, Scully. Eu faria o mesmo. Mas vamos ter que pegar leve com os rapazes. Tadinhos, nem imagino o que sofreram nas mãos daqueles doentes!

SCULLY: -Igual você sabe que caiu na internet, nunca mais se apaga. Espero que ninguém no FBI que conheçamos veja aquelas fitas. Será uma humilhação aos dois.A gente nem sabe pelo que eles passaram, mas podemos imaginar. E acho que eles nunca vão contar. A vergonha do macho. Se fosse a gente... Nós mulheres gritamos, colocamos tudo pra fora. Eles encarceram dentro deles.

BARBARA: - Scully nos passamos por lésbicas, lembra? Pra sobreviver. Eles nem desconfiam disso. Então não podemos cobrar deles os seus segredos, concorda?

SCULLY: - Concordo. Vamos levar nossos homens pra casa, dar banho, colocar pijaminha, dar sopinha e botar pra dormir.

BARBARA: - É, eu acho melhor fazer isso. Com o tempo, eles vão superar. Sofreram por uma boa causa. Não fossem eles, quantas famílias ainda estariam em busca de seus filhos desaparecidos?

SCULLY: - Não foi um Arquivo-X. Mas salvou muita gente de virar vítima daqueles psicopatas.

Residência de Barbara Wallace - 11:34 P.M.

Barbara deitada de camisola, de lado, fazendo carinhos nos cabelos de Krycek, deitado com o rosto entre os seios dela, num olhar vago e perdido. Ela ajeita o edredom sobre eles.

BARBARA: - Tá quentinho?

KRYCEK: - Humhum.

BARBARA: - Tá gostoso ficar aí no meio dos seus peitinhos que você tanto adora?

KRYCEK: - Humhum.

Barbara mexe no brinco de argolinha na orelha dele.

BARBARA: - É ouro?

KRYCEK: - Humhum.

Barbara levanta o cabelo dele e cheira-lhe a testa.

BARBARA: -... Cheirinho de xampu de jojoba.

Barbara cheira o ombro dele.

BARBARA: - E sabonete de limão com ervas. É aquele que te dei?

KRYCEK: -Humhum... Mas parece que ainda tô com o cheiro daquele lugar...

BARBARA: - Não tá não. Tá com cheirinho gostoso de Ratoncito da Barbie. Tomou o remedinho?

KRYCEK: - Humhum... Logo vai fazer efeito. (SUSPIRA) Barbara... Eu sou homem pra você?

BARBARA: - Alex, de novo com essas coisas? Bom, você é homem pra mim em todos os sentidos.

KRYCEK: - E no sexo?

BARBARA: - Bem, você é homem na cama, na sala, na cozinha, no banheiro, na piscina, no banco traseiro daquela picape...

KRYCEK: - É sério, Barbara.

BARBARA: - Alex, vou querer terminar nossa relação por causa de 95 cents.

KRYCEK: - Como assim?

BARBARA: - Bem, porque quando eu te conheci minha vagina tinha o tamanho de uma moedinha de 5 cents, agora tem o tamanho de uma de um dólar. Por 95 cents quero divórcio. Entendeu se é homem pra mim ou preciso explicar a piada?

Krycek fica pensativo. Então começa a rir.

BARBARA: - Vai dormir, seu bobo. Descansa bastante porque amanhã é dia de jardinagem. Eu quero polinizar a orquídea, porque estou há uma semana longe de você.

Krycek ri. Barbara segura o riso.

KRYCEK: - Malyshka, você não presta, garota boca suja... Estou triste pelo Mulder... Ele tá com a cabeça mais pirada do que a minha.

O celular toca. Krycek se ergue, nervoso, automaticamente olhando pra TV. Barbara leva a mão e pega o celular. Ignora a ligação.

BARBARA: - Calma, grandão. É só o pessoal da operadora enchendo o saco.

Krycek respira fundo, se agarra nela e coloca a cabeça entre os seios dela novamente, fechando os olhos. Barbara faz carinhos nos cabelos dele.


Residência dos Mulder - 11:39 P.M.

Mulder de pijama, sentado aos pés da cama, olhando fixamente pra tela da TV desligada.

Scully entra no quarto com uma caneca, sentando-se ao lado dele.

SCULLY: - Não é comprovado cientificamente, mas a Dra. Scully defende seu chá de camomila quentinho como um paliativo bem gostoso pra uma boa noite de sono.

Mulder pega a caneca. Toma um gole olhando pra TV.

SCULLY: - Quer falar sobre o que aconteceu?

MULDER: - Não.

SCULLY: - (OLHANDO TERNAMENTE PRA ELE)

MULDER: - (OLHAR VAGO)

SCULLY: - Mulder, estou preocupada. Como posso ajudar você?

MULDER: -(ANGUSTIADO) Tem uma mochila lá embaixo que eu trouxe comigo. Assista aquelas fitas, são apenas as filmagens da cela de vidro. Krycek as pegou, por motivos óbvios. As gravações do jogo online nós deixamos para o FBI encontrar... São provas.

Scully continua olhando pra ele, preocupada.

MULDER: -Caso eu tenha feito algo com Krycek, do qual eu me envergonhe, enquanto estava drogado... Não me diga. Só me diz se eu fiz as escolhas certas naquela cela.

SCULLY: - Eu não preciso assistir. Eu sei que fez as escolhas certas.

MULDER: - Eu não tenho essa certeza. Percebi que ainda existem feridas dentro de mim que eu achava já estarem cicatrizadas. Como a falta de amor paterno.

SCULLY: - Mulder, feridas cicatrizam, contudo as marcas permanecem.

MULDER: - Acho que pirei a cabeça do Krycek. Não sei o que ele deve estar pensando sobre mim. Algumas vezes, me senti um menino precisando de um homem adulto me protegendo. Isso soou boiola.

SCULLY: - Sabe de uma coisa? Acho que Krycek não está pensando nada do que você acha. Na verdade, penso que ele gostou de ter a chance de cuidar de você.

MULDER: -Qual de nós dois é mais viado, Scully?

SCULLY: -Nenhum dos dois, Mulder. Percebe o que falamos aquele dia? Como vocês homens são escravos de uma sociedade machista que está enraizada na educação, na concepção de vocês. Esse medo de demonstrar sentimentos, essa cultura do não poder chorar na frente de um homem, não poder precisar e depender da ajuda de outro. Tudo é sexual na cabeça de vocês, tudo envolve medo de ser menos homem, menos macho. Mulder, isso é uma besteira, e você sabe disso. Você é o meu homem. E chora. E cai algumas vezes. E daí? Isso faz você ser gay? Bom, não me parece isso quando estamos nessa cama. Mas não parece mesmo! Desde que conheci você, nunca mais deixei as grades da cabeceira em paz! E nem a vizinhança dormir direito! E olha pra minha barriga, estou virada num botijão de gás por sua culpa, seu tarado!

Mulder sorri cansado.

MULDER: - Acha que o Rato não está pensando mal de mim?

SCULLY: - Mulder, não sou psicóloga, mas não me soa novidade que Krycek precise se sentir útil pra você. Ele quer agradar o exemplo dele, entende? Como um aluno que precisa agradar o mestre. Deixa ele achar que é o irmão mais velho, quando na verdade, o caçula é ele. Ele quem corre atrás do irmão, quem segue o exemplo do irmão e vive esperando aprovação.

MULDER: - Scully, como pode saber que eu fiz as escolhas certas, se nem eu mesmo tenho certeza?

SCULLY: - (SORRI) Você voltou vivo pra mim e para os seus filhos. Essa é a prova de que fez as escolhas corretas.

Mulder olha pra ela e dá um sorriso cansado.

SCULLY: - (SORRI) Não, nem ouse dizer. Hoje eu digo primeiro: Eu te amo, Fox Mulder. Quando a gente optou pela polícia, já sabíamos tudo o que poderia envolver. Importa é o dever cumprido. É fazer a pequena diferença no mundo, trazendo um pouco de justiça pra quem precisa e tirando um pouco do lixo da sociedade. Acho que a gente ficou tempo demais no porão, perseguindo o sobrenatural, e quando nos deparamos com o pior dos monstros, o ser humano, nos sentimos impotentes e na dúvida sobre fazer a coisa certa. Vem Mulder.Toma seu chá e vamos pra cama, dormir agarradinhos. Um dia de cada vez, amor da minha vida.

Mulder sorri pra ela, já cerrando o cenho pra chorar. Scully o abraça forte.

SCULLY: - Tá ficando difícil abraçar você, Mulder. Tem um Mulderzinho entre nós dois...

MULDER: - Rezo pra que ele não seja idiota como o pai dele.

SCULLY: - Rezo pra que ele tenha o senso de justiça, o caráter e a sensibilidade do pai dele. Assim sei que será um homem de verdade.

Scully toma o rosto de Mulder nas mãos e o beija com amor.


X-Files Investigations - 6:56 P.M.

Baba coloca a caneca de café sobre a mesa de Mulder, que digita no computador. Olha pra ele ternamente e preocupada. Pega a bolsa e sai, fechando a porta. Mulder continua digitando.

MULDER (OFF): - Richard Duncan, vulgo Papai Urso, 62 anos, engenheiro químico do exército americano, tenente afastado aos 40 anos, sem direito a nada, por denúncia de abusos sexuais contra soldados e uso de drogas. Teve uma infância abusiva por parte da mãe, que nunca aceitou o filho gay, e fazia questão de humilhá-lo publicamente na frente de estranhos. A polícia até hoje não tem provas, mas desconfia que ele a matou por envenenamento. Nunca se casou ou teve filhos. Jamais assumiu sua homossexualidade. Morou sozinho a vida toda, até conhecer Andrew Perkins.

Mulder leva a caneca à boca. Continua digitando.

MULDER (OFF): -Andrew Perkins, 29 anos, o atendente do hotel, formou-se em Ciências da Computação, pagando seus estudos com vídeos próprios, realizando todo o tipo de fetiche, de acordo com a solicitação dos clientes, que pagavam para assistir e compravam os objetos que ele usava em seus vídeos, desde roupas a vibradores. Em 2004 conheceu Duncan, que já era seu cliente virtual e começaram um relacionamento amoroso fora da web. Ambos tinham muito em comum, gostavam de assistir casais gays transando com bondage, sadomasoquismo e todo tipo de violência. Perkins era o escravo e Duncan seu dominador. Com o tempo, Perkins teve a ideia de criar um site na deep web, para satisfazerem seus desejos e ao mesmo tempo ganharem dinheiro com isso.

Ouvimos sons de marteladas.

Mulder dirige a atenção para a porta da sala de reuniões. Abaixa a cabeça num suspiro triste e continua digitando.

MULDER (OFF): -Inicialmente o casal frequentava boates, bares e cinemas para gays, atraindo suas vítimas com propostas de sexo, as levando para becos, filmando tudo e realizando estupros, o que rendeu milhares de seguidores pagantes no site. Com o tempo, do estupro passaram para sequestro, depois evoluíram para assassinato e tortura das vítimas, o que aumentou a audiência. Duncan trabalhou no que hoje é um búnquer abandonado do exército, portanto, lugar perfeito para levarem as vítimas. Em menos de dois anos, eles encontraram aquela casa antiga nas proximidades, conseguiram comprar a casa que transformaram em hotel, fazendo dela uma fachada bem mais fácil para conseguirem atrair vítimas desavisadas.

Krycek sai da sala de reuniões segurando o cesto do lixo, com as fitas quebradas. Coloca perto da janela. Abre a janela. Joga álcool no cesto e ateia fogo.

MULDER (OFF): - Eles filmavam os casais primeiramente em seus quartos para escolherem os mais interessantes para seus objetivos e depois os colocavam numa cela de vidro no búnquer, exigindo todo o tipo de coisa, mediante tortura psicológica e ameaças, sempre terminando em tortura física e num estupro mortal. Os vídeos tiveram mais acessos que os anteriores. Em 2006, Duncan e Perkins resolveram ganhar mais dinheiro com suas perversões e incluíram no site, um jogo de sobrevivência. A ideia vingou, apostadores do mundo todo começaram a aparecer, e eles mantiveram esse site por dois anos, matando mais de 90 homens em seus jogos sórdidos e sumindo com os corpos em tanques de ácido dentro do búnquer.

Krycek perde os olhos nas chamas da lixeira.

MULDER (OFF): - Andrew Perkins foi preso e será julgado. Richard Duncan está morto. O FBI encontrou arquivos com os nomes e dados dos homens que eles mataram. Julian Willcox estava entre eles, juntamente com seu namorado Michael Millan. Parte dos corpos deles foram recuperados no tanque de ácido. O site foi retirado do ar, e infelizmente, quase nenhum dos assinantes e apostadores conseguiu ser rastreado. Eles fomentaram a tara e a ganância daqueles dois e jamais pagarão pelos crimes hediondos que incentivaram a cometer.

Mulder olha pra Krycek, que continua olhando perturbado pra lixeira.

MULDER: - ... Então?

KRYCEK: - Não se preocupe. Não transamos. O beijo que ele se referia foi um beijo que dei em sua testa. Estávamos psicologicamente frágeis, procurando consolo um no outro, chorando e contando nossos traumas. Nada demais aconteceu. Caímos no sono, dormimos abraçados. Não acho que isso nos faça menos machos.

MULDER: - ... E se tivesse acontecido?

KRYCEK: - Se tivesse acontecido... O que quer saber com essa pergunta?

Mulder abaixa a cabeça, perturbado. Krycek olha pela janela.

KRYCEK: - Não faria de você ou eu gays, mas dois caras carentes e chapados, sem noção alguma da realidade e totalmente confusos das ideias. Isso sim é o mais assustador. Pensar que se não fôssemos amigos e nos respeitássemos... Podíamos ter... Transado pra aquele cara ver. O que talvez tivesse feito ele não nos torturar tanto, mas a gente se torturaria infinitamente pro resto da vida.

MULDER: - Acha que sou gay?

KRYCEK: - Tanto quanto eu, que sofri um estupro. Ou seja: não. Ou você se excita com homens?

MULDER: - Não. Nunca tive ereção por homens. E você?

KRYCEK: - Nem ferrando. E pra dizer a verdade, mesmo que você fosse gay, isso não teria importância pra mim. Eu não deixaria de gostar de você por isso. E se eu fosse?

MULDER: - Não faria diferença pra mim também. Daria minhas costas pra você, tranquilamente.

KRYCEK: - Eu só aguentei aquilo, porque você é quem você é. Se não fosse, eu tinha pirado. Teria cortado meus pulsos e dane-se quem estivesse comigo. Eu não ia esperar pra alguém me estuprar de novo.

MULDER: - ... Obrigado. Nunca poderei esquecer o que fez por mim. Ainda terei sua amizade?

KRYCEK: - Depois do que passamos juntos, das nossas intimidades expostas, do nosso passado compartilhado, de choramos juntos, nos abraçar e sobreviver naquele inferno, um segurando o outro pra não desistir e tentando manter a sanidade mental... De prometermos guardar sigilo do que fomos forçados a fazer... Não temos mais segredos, Mulder. Nos conhecemos até pelados e debaixo do chuveiro. Isso pra mim não é pejorativo, mas foi além de amizade. Isso é irmandade de sangue. Só irmãos se respeitam assim e cuidam um do outro dessa maneira. Culpe a vida, Mulder. A vida nos quis juntos.

Mulder se levanta. Krycek vira-se pra ele. Mulder constrangido.

KRYCEK: - Obrigado por cuidar de mim, irmão.

MULDER: - Obrigado por cuidar de mim, irmão.

Os dois trocam um aperto de mão. Krycek puxa Mulder, pra um abraço forte. Mulder o abraça, segurando lágrimas.

KRYCEK: - Minha nanica tá fazendo um jantar cubano, Scully comentou que está com desejo de comer coisas diferentes. Não vamos aceitar um não como resposta. Victoria inclusa no pacote, sem negociação.

MULDER: - Levamos a cerveja.

Os dois se afastam.

KRYCEK: - Vamos embora, "amorzinho". Mulheres não gostam de esperar. Baixinhas menos ainda. A paciência delas é igual ao tamanho. E se quer saber se somos gays? Não. Mas não pergunta isso pra Nancy.

Krycek sai. Mulder sorri. Desliga o computador e sai, fechando a porta.


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05/04/2020

30 Avril 2020 03:27:23 0 Rapport Incorporer Suivre l’histoire
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La fin

A propos de l’auteur

Lara One As fanfics da L. One são escritas em forma de roteiro adaptado, em episódios e dispostas por temporadas, como uma série de verdade. Uma alternativa shipper à mitologia da série de televisão Arquivo X. Siga-me para mais em https://www.facebook.com/laraone1

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