tomasrohga Tomas Rohga

Ao despertar na cabana de uma floresta abandonada, um jovem sem memórias se vê na companhia de seis desconhecidos sofrendo do mesmo tipo de amnésia. Sem se lembrar do próprio nome ou de como foi parar naquele lugar, ele percebe que a maneira de desvendar a situação é seguir a única pista deixada para trás: um pedaço de papel largado no bolso da própria calça. O garoto, porém, não esperava descobrir algo muito maior; um quebra-cabeça envolvendo assassinatos, conspirações e uma sociedade secreta. Um jogo milenar bem mais complexo do que pensava e muito mais letal do que gostaria.


Action Déconseillé aux moins de 13 ans.

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I: Segredos entocados


— Vai cair um pé-d’água.

Aborrecido, o motorista se voltou para a mulher no carona. Ela devia estar certa quanto àquilo. Ela sempre estava.

Era uma manhã amena, mas o céu se tornava de um cinzento cada vez mais hostil, adquirindo aquela tonalidade cor de aço que costumava prenunciar um dilúvio, detalhe este que parecia se refletir no (mau) humor dela.

— Qual é a dessa cara, Lia? — perguntou o motorista. Ele girou o volante e o Cronos dobrou a esquina com suavidade. De canto de olho, fitou-a novamente, encarando suas luvas de couro preto e seu terninho por sobre a blusa branca de botões. Nunca entendera o porquê das luvas, mas Lia sempre as usava. Talvez fosse para combinar com os cabelos, que se mostravam de um acaju escuro à altura dos ombros, emoldurando dois olhos cor de avelã presos ao rosto elegante e entediado. Havia algo flutuando entre os lábios dela e aquilo o fez erguer uma sobrancelha. — Um pirulito?

Lia arrancou o doce da boca, sorrindo quase deprimida.

— Estou tentando parar de fumar. Ultimamente me sinto sem fôlego.

— Não acha que possa ser os nervos? Esses casos que andam surgindo…

— Ou os fantasmas do meu passado… as contas a pagar… até aquela coxinha que você resolveu trazer um dia desses. Quem me garante que o negócio não estava largado na sua geladeira há meses? — caçoou ela, parecendo pouco preocupada. — Enfim, ao menos é uma desculpa pra largar esse vício maldito. Não me orgulho de como comecei com isso.

— É como dizem por aí: hoje em dia ninguém dá mais valor aos pequenos gestos. Tinha acabado de passar naquela padaria nova — rebateu o homem, entre jocoso e ofendido. — Em todo caso, tenho álibi para provar que só tem cerveja, amendoim e xarope pra tosse na minha geladeira.

— Kit de sobrevivência do homem moderno?

Ele concordou com fingida seriedade.

Lia fez menção de sorrir, mas havia um entretom de abatimento em seu semblante. Depois vieram minutos de caudalosa quietude, em que apenas o ronronar sonolento do motor e o chiar da rádio em sintonia se fizeram ouvir.

— Para onde estamos indo, afinal? — O homem rompeu o silêncio quando a falta de assunto começou a lhe causar comichão. — Estou dirigindo a esmo.

— Viela do Embrulho.

— Alguma diligência?

— Não. Estamos indo averiguar uma informação. Eu consegui uma testemunha sobre o caso do Sicário.

— Tá de brincadeira! — exclamou em falsete. — Três dias e tá tudo uma loucura. Por que não me contou? Quem é seu informante?

Ele viu quando Lia puxou o pirulito da boca e girou com a cabeça, mas dessa vez arqueando a sobrancelha, carrancuda. O semblante da mulher tomou algo de aborrecido diante da saraivada repentina de perguntas. Ela suspirou, como se estivesse tentando disfarçar a zanga numa lufada de ar.

— E eu brincaria com uma coisa dessas? Estaria te jogando na toca do coelho se eu te contasse. Acredite em mim, Takeda, o País das Maravilhas não é tão maravilhoso assim.

Mal terminara de escutá-la, o homem levantara tanto as sobrancelhas que sua testa se transformara numa maçaroca enrugada. Ainda tentando absorver o discurso amalucado de Lia, soltou uma risadinha nervosa.

— Ok… parou de fumar e começou a beber?

Ela sorriu amarelo.

— Muito engraçado… mas lembre-se de que ainda estou no comando por aqui e a hierarquia prevê que posso usar novatos para praticar tiro ao alvo.

— Não me lembro dessa cláusula no regulamento, mas anotei o recado — sibilou ele, prendendo a gargalhada. — Toca do coelho…

Jaime Takeda tossiu exagerado para disfarçar o ruído e levou a mão até o espelho retrovisor, ajeitando-o para fazer refletir seus olhos estreitos e o rosto retangular. Havia um enfeite pendurado no espelho, um aromatizante de interiores escrito DIPAA balançando-se aos solavancos do percurso. Ele correu os dedos pela cabeleira e alinhou o topete com desinteresse.

— Já são seis meses desde que me formei, mas, apesar dessa transferência recente como seu parceiro, às vezes penso que mal a conheço, Lia. Você tá sempre por aí com esse ar… misterioso, como se fosse obrigada a guardar o mundo para si.

Ela se voltou à paisagem que corria pelo vidro.

— Nós, seres humanos, somos como buracos cheios de segredos enterrados. Isso é tudo o que eu sou, Takeda, e é tudo o que você precisa saber.

Ele assentiu devagar.

— Quanto pessimismo… não acha que um fardo dividido acaba se tornando mais leve? É matemática simples. Prometo me calar o resto do caminho e somente ouvi-la…

— Pois bem. Então ouça.

Jaime sorriu num primeiro momento, mas a expressão de expectativa foi pouco a pouco se dissolvendo na face, substituída pela testa franzida conforme os segundos se passavam e Lia permanecia calada. Foi necessário meio minuto até Jaime lançar um muxoxo.

— E esse silêncio todo?

— Justamente — respondeu ela. — Magnífico de ouvir, não acha?

Jaime compreendeu o recado e suspirou com resignação, pisando mais fundo no acelerador.

— Não é nada pessoal… — Lia começou a se explicar, alguns quilômetros depois. — É só que… logo que acordei, recebi a notícia da morte de uma pessoa querida. Ainda estou tentando assimilar o fato. É inacreditável…

Jaime engoliu em seco, sentindo-se repentinamente estúpido ante a própria insistência.

— Sinto muito… não queria… — Mas deixou a frase morrer pelo ar, sem saber muito bem o que dizer para minimizar o constrangimento.

Lia fez uma negativa lenta com a cabeça e voltou-se à paisagem.

— Não se preocupe. Você não sabia.

Ainda envergonhado, Jaime, por fim, optou por dirigir calado durante o resto do percurso, conduzindo o Cronos até as ruelas de um bairro relativamente cinzento, onde se viam pichações distribuídas por aqui e por ali. As casinhas repartidas em lotes de meio terreno e muitas sem reboco ou retoques mais sofisticados indicavam que haviam adentrado num subúrbio.

— Ali, naquela rua — disse Lia, apontando com o dedo para um acesso à direita.

Jaime pegou o caminho indicado e começou a descer a rua com lentidão.

— Aqui está bom.

Quando o veículo finalmente estacionou, Jaime se deu conta de que o céu havia se tornado ainda mais austero. Um relâmpago cortou a cortina espessa quando ele olhou para cima.

Lia estraçalhou o restante do pirulito e abriu a porta, tirando os óculos escuros de um dos bolsos do terninho e ajeitando-os por sobre o nariz. Jaime seguiu-a na atitude e, ao puxar o freio de mão e saltar do carro, deparou-se com o número 23 pichado em vinho-ferrugem por sobre o muro de tijolos.

Lia bateu no portão de chapa galvanizada.

Houve uma algazarra geral de sons metálicos e grunhidos agudos antes de a entrada ser escancarada para dentro. O homem que se revelou pela passagem arregalou os olhos ao se deparar com a dupla de figuras empertigadas, como se tivesse dado de cara com um par de assombrações.

— Q-quem são vocês? — balbuciou ele. Usando nada mais do que uma calça azul de poliéster, expunha toda a magreza corporal em seu torso tatuado e marcado pelas excrescências visíveis das costelas. A despeito de a barba lhe crescer desgrenhada pelo queixo mostrava-se, no entanto, completamente calvo. Ao encará-lo, Jaime não conseguiu dissociá-lo da imagem de um rato desnutrido. Homenzinho atarantado esse, pensou com lástima.

— Sou a detetive Thorquato e esse é o agente Takeda — apresentou-se Lia, mostrando o distintivo apresilhado à parte interna do blazer e depois apontando para Jaime. — Somos do Departamento de Investigações da Polícia de Alameda Alvorada. Há mais alguém na casa ou apenas o senhor?

— E-eu não fiz nada — titubeou novamente, como se não a tivesse escutado; seu tom de voz tornou-se mais agudo e trêmulo.

Jaime percebeu de assalto que o olhar afetado do homem havia sido substituído por algo como desespero; aquele instante mínimo em que a adrenalina se sobressaía ao temor, quando o indivíduo estava prestes a cometer algum ato de loucura. Levou a mão ao coldre.

— Lia?

— Não fez nada…? — repetiu a mulher, provocativa. — Então por que está aí se tremendo todo? Pode me mostrar as mãos?

Foi nesse instante que aconteceu. O homem avançou para cima de Lia e a jogou para trás, fazendo-a se chocar com violência contra o para-lama da viatura. Sem hesitar um segundo que fosse, simplesmente disparou-se a correr.

— Ei! — berrou Jaime, mas quando se deu conta, Lia já estava de pé e colada no rastro do fugitivo.

— LIGUE A DROGA DO CARRO E ME ALCANCE! — rugiu ela.

Jaime se jogou para dentro do Cronos preto e acionou as luzes de oscilação camufladas, que flutuavam à frente do quebra-sol. Os módulos começaram a piscar de vermelho e azulado e as sirenes romperam a berrar. Obstinado, fixou o olhar sobre a figura veloz de Lia e pisou fundo no acelerador. Os pneus cantaram por um segundo e, numa guinada, tiraram o veículo da inércia.

Jaime não desgrudava os olhos de sua parceira e observou quando Lia dobrou a esquina atrás do alvo, ambos tão velozes que chegava a assustar. As vestes de Lia farfalhavam ao vento e os pés fustigavam o asfalto sem diminuírem o ritmo.

— Sem fôlego uma ova! — Jaime praguejou ao atolar o pé ainda mais fundo no acelerador. Ele girou o volante com ferocidade e o sedã dobrou a rua num cantar de pneus. Foi nesse instante, porém, que observou o alvo de Lia pular uma cerca de grades como se não fosse nada e sua parceira ter de segui-lo na perseguição.

Jaime bufou irritado; não poderia acompanhá-los com o carro por aquele trajeto: teria que perdê-los de vista por alguns segundos. Respirando fundo, simplesmente concentrou-se em acelerar e em executar a volta na quadra o mais rápido que sua habilidade ao volante lhe permitia.

— Que droga, Lia!

Atento ao menor sinal da dupla, a mão direita de Jaime dançava sobre o câmbio, e suas órbitas pela paisagem que corria diante de si. Ele fez outra curva brusca e avistou sua parceira em perseguição à distância de alguns metros. Jaime reduziu a marcha e arremeteu com ferocidade. Ele suava, há pouco de alcançá-los, contudo, teve de observar impotente quando o alvo de Lia guinou para outro lado e saltou sobre a cancela de um condomínio fechado. Com um muxoxo de frustração, teve de assisti-la repetir a ação e continuar atrás dele. O porteiro idoso sob a guarita gritou em protesto.

Jaime urrou e socou o volante ao se vir obrigado, mais uma vez, a fazer o retorno. Num pinote, entretanto, já estava na entrada.

— Levante a porcaria dessa cancela! — ele vociferou para o guarda, mostrando o distintivo. — Estou em perseguição policial.

O porteiro quase desabou de susto. Arregalou as órbitas e levou a mão até o peito, apertando o uniforme na altura do coração. Com o dedo trêmulo, contudo, enfim foi capaz de pressionar o botão que liberava passagem.

Jaime pisou fundo no acelerador e partiu dali com os dentes rilhados.


*******


Lia continuava em perseguição, sentindo o suor lhe cortar a face ao sabor do vento. Por entre dúzias e dúzias de carros estacionados nas laterais do percurso, comprimiu as pálpebras e cravou o olhar sobre as costas magricelas do homem. Não o perderia de vista, custasse o custar.

Foi no meio de todo aquele turbilhão que ela notou outra coisa. Era como se o braço direito de seu alvo estivesse começando a… brilhar. Mas não era como uma cintilação pura e simples, tal qual a de uma lâmpada. Era mais como se algo incandescente estivesse correndo pelo interior de suas veias e as fazendo fulgurarem de vermelho-magma, como caminhos de luzes se abrindo por debaixo da pele. O mais impressionante – ou assustador – da situação era que aquele brilho carmesim parecia estar subindo-lhe pelo membro e se espalhando pelo corpo como algo infeccioso. Ela viu quando as veias das costas do homem começaram a tingir-se daquela claridade avermelhada, e foi absorta pelo acontecimento que demorou a se dar conta de que ele começara a escalar um portão gradeado, saltando para um dos estacionamentos de cobertura.

Lia fechou a carranca e em três saltos foi igualmente capaz de sobrepujar o gradil, tirando a Glock do coldre e apontando para as costas do alvo assim que entrou na mira.

— Parado! — imperou ela.

Ao ouvi-la, estacou exatamente no centro do estacionamento, erguendo os dois braços em sinal de desistência; as veias do corpo reluzindo como metal derretido.

— Vire-se na minha direção… devagar — pediu Lia, seu tom firme como rocha.

Mais uma vez ele a obedeceu e o que se revelou diante da mulher a fez soltar uma breve exclamação, mas não afrouxar a firmeza com que segurava a pistola. Os olhos do homem haviam sido tomados por aquele brilho, e fumaça carmesim se elevava por eles, como se fossem um par de carvões recém-tirados do forno.

— Quem lhe forneceu o Éter? — perguntou Lia.

Ele urrou em resposta e partiu para cima, colérico.

Lia atirou duas vezes contra o torso dele. O sangue respingou-se no chão e o líquido se comportou como nacos de mercúrio incandescente, entrando em combustão instantânea ao atingirem o cimento frio. Os disparos, entretanto, não foram suficientes nem para retardá-lo e o homem continuou a avançar furiosamente.

Sem tempo para pensar num plano, Lia foi obrigada a partir para a agressão física, movimentando-se com consciência para não tocar nos ferimentos dos tiros. Foi quando achou uma abertura e o jogou de costas para o chão, ajoelhando-se e o imobilizando pelo pescoço ao prendê-lo contra a canela. Lia grudou o cano da pistola na cabeça do homem.

— Diga-me de uma vez quem lhe forneceu o Éter, malnascido de uma figa.

Como resposta, no entanto, ele levou o mindinho esquerdo à boca e o arrancou sob grunhidos excruciantes de dor, mas o que fez Lia arregalar as órbitas de verdade foi vê-lo cuspir sangue e dedo em sua direção.

Num gesto impensado de agilidade, ela conseguiu jogar o braço na frente do líquido incandescente e proteger o próprio rosto, saltando para longe ao arrancar desesperadamente o blazer que entrara em combustão.

Lia bufava e arquejava; seu peito subindo e descendo tão depressa quanto as batidas do coração. Com a pistola em punho, encarava seu alvo caído sobre o piso, ainda brilhando em carmesim pulsante.

— Termine o que veio fazer — disse o homem. A voz soava como chamas queimando carvão. — Eu sou apenas um parafuso numa engrenagem colossal. Nós vimos o verdadeiro poder e muitos estão se juntando à causa.

— Queria certificar-me do que me informaram, de que agora as quimeras podiam falar. Bem, parece que é verdade, não é? — disse Lia, numa tentativa de convencer a si mesma sobre aquele fato. Ela sorriu nervosamente e achegou-se a ele, estacando ao lado daquele corpo magricela e coberto de tatuagens e meandros incandescentes, porém, fez algo inusitado. Guardou a pistola no coldre e puxou do bolso uma faca com um leão talhado por sobre a lâmina. A arma brilhava de um dourado brando, mas hipnotizante.

Foi nesse instante que o rangido de pneus freando brusco ecoou sob a área da cobertura. Jaime abriu a porta e se atirou afoito para longe do sedã.

— Lia! — berrou ele, lançando-se em direção à parceira.

A faca desceu de uma vez e os membros retesados do homem tatuado finalmente relaxaram.

Foi diante daquela cena súbita e inacreditável que Jaime aproximou-se da parceira, perdendo o sustento das pernas ao suprimir a distância que havia entre ambos.

Lia ainda olhava para baixo quando as marcas sob a pele do moribundo aumentaram vertiginosamente de intensidade. Jaime percebeu que algo aconteceria, mesmo sem entender a situação por completo, e em segundos – shass! –, houve um ruído de ar se deslocando e o cadáver simplesmente entrou em combustão, irrompendo a queimar diante da vista de Lia e de um atônito Jaime (que pulara para trás quando acontecera).

— O quê?! — exclamou ele, levando as mãos à cabeça. — Que merda foi essa? Você b-botou fogo no seu informante! Ficou maluca?

Com o olhar petrificado, no entanto, Lia voltou-se para ele.

— Não há informante, Takeda — respondeu simplesmente, quase sussurrando. — Isso é o que há dentro da toca do coelho.

24 Avril 2020 02:22:29 0 Rapport Incorporer Suivre l’histoire
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