vandacunha Vanda da Cunha

Toda família grande tem um irmão que quer mandar. Essa história me traz boas lembranças. Lembrança de uma infância feliz, de um tempo em que as futilidades não existiam.


Enfants Tout public.

#amor #família #irmãos
Histoire courte
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18 Dias

Conto 1

18 Dias

Eu venho de uma família grande e como em toda família grande, tem aquele irmão ou irmã que, seja por muito ou por nada, sempre nos maltrata. Nessa época, morávamos na cidade e tínhamos o privilégio de frequentar a escola, minha maior alegria era levantar cedo, vestir a camisa branca e a saia azul plissada e ir para a escola, não, sem antes passar no boteco do meu pai e pedir algum dinheiro para o lanche.

O problema era driblar meu irmão, para não ser assaltada na primeira esquina. Não tinha jeito, por mais que eu mudasse o trajeto, na maioria das vezes, ele conseguia me encontrar e me obrigava a entregar os míseros centavos da sombrinha de caramelo.

Tanto eu como minhas irmãs sofríamos nas mãos desse nosso irmão, ele tinha um certo poder sobre nós. Éramos manipuladas de várias formas, às vezes, ele nos prendia dentro do guarda-roupas até que contássemos algum segredo que lhe interessava, ou fazia isso simplesmente para nos ver morrendo de calor. Saíamos suando as bicas e vermelhas como um tomate maduro.

Entretanto, tinha aqueles momentos que ele ficava bonzinho, dava-nos doces, levava-nos ao parquinho, mas sempre com alguma intenção. Como na vez que ele tirou o dinheiro do pau-de-sebo. Nossa! Ele se transformou no melhor irmão do mundo! Até ganhei uma boneca! Só que depois, eu e minhas irmãs fomos obrigadas a pagar para assistir uma peça ridícula, que ele e outros meninos fizeram. Na somatória geral, ele arrecadou mais dinheiro do que pagou pelos presentes que nos deu.

Um dia, esse meu irmão arrumou uma confusão, não me lembro bem o que aconteceu, só sei que ele teve que fugir, porque meu pai o ameaçou com o cinturão de couro. Os dias foram passando e nosso irmão continuou sem dar notícias, minha mãe entrou em desespero, brigou com meu pai e implorou para que ele procurasse o fugitivo. Naquele tempo, não havia muita violência. Talvez, por isso papai pouco fez para encontrá-lo.

O inacreditável é que tanto eu quanto minhas irmãs, começamos a sentir falta daquele malvado. Já não lembrávamos dos puxões de cabelo, dos castigos sem motivos, dos croks na cabeça, nem dos desfalques financeiros. Lembrávamos somente dos doces, dos presentes baratos e dos abraços que as vezes ele nos dava. Então antes de dormir, rezávamos para que ele voltasse, e acendíamos uma vela para que Deus o protegesse . Como nada disso estava surtindo efeito, fomos pedir ajuda aos amigos dele, nenhum se interessou, em nos ajudar. Angustiadas voltamos a rezar e a acender velas.

Geralmente, fazíamos as refeições em uma área nos fundos da casa, certa manhã mamãe nos chamou, e disse o seguinte:

— Acho que tem um gato de duas patas comendo o resto da comida.

Já sabíamos quem era o gato. Mamãe passou a deixar mais sobras, até que um dia ela ficou escondida e... Zas! Pegou o bichano.

Quando mamãe nos acordou, não acreditamos no que vimos, nosso irmão tinha voltado! Ele estava todo sujo e com o cabelo despenteado. Nunca o vimos tão acuado e indefeso. Ele não era mais aquele garoto astucioso que nos dominava só com o olhar. Alguma coisa o transformara. Fui a primeira a abraçá-lo e dizer que estava com saudades. Depois só se ouvia risos e choro de alegria, pedimos ao meu irmão que nunca mais fizesse aquilo. Pois a ausência dele nos fez sofrer. Duas lágrimas rolaram por sua face. Foi a primeira vez que o vi chorando.

Como ele passou 18 dias fora de casa, queríamos saber tudo que aconteceu. Estávamos curiosas e insistimos para que ele falasse. Mamãe foi obrigada a interferir e pedir que o deixássemos descansar.

Meu irmão nunca contou o que aconteceu com ele, hoje sei que a experiência fora de casa, fez dele uma pessoa melhor e mais amável.






9 Avril 2020 20:18:58 3 Rapport Incorporer Suivre l’histoire
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La fin

A propos de l’auteur

Vanda da Cunha Estou viva quando escrevo, as vezes nem sei se o que escrevo é bom, mas isso não tira minha vontade de continuar. Meu marido diz que eu sou uma escritora, eu não acredito muito nisso, prefiro acreditar que as palavras tem vida, e de alguma forma, elas me vivificam. Escrevo de tudo, mas o que realmente me atrai é o místico, o sobrenatural e todos os elementos dese universo.

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