ana-luiza-ferreira1586302961 Ana Luiza Ferreira

Durante a pandemia de um vírus mortal que assola o mundo, os irmãos Annenberg, Alex e Ivan, deixam a vida como conhecem e mergulham de cabeça no desconhecido. A questão permanece - que destino terá a humanidade depois da ruína?


Post-apocalyptique Déconseillé aux moins de 13 ans.

#virus #posapocaliptico #terror #originais #acao #aventura #adventure #action
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Pest-1

Não se passa um dia sequer em que a garota não recorda com angústia no peito àquele dia.

A chuva caía fina do lado de fora da Escola Santa Trindade, a qual Alex frequentara desde que aprendera a andar. A cabeça encostada na janela,os olhos perdidos nas finas gotas de água que escorriam pelo vidro, completamente alheiaà aula da professora Neiva sobre diagonais de um polígono.

O alarme de emergência dispara.

Ninguém se preocupa, como de costume. Afinal, simulações de situações de risco são frequentemente impostas na escola pelo menos uma vez por semestre. O alarmante foi quando as luzes se apagaram, mergulhando a sala – e toda a instituição – em um breu, o que fez todos imediatamente olharem janela à fora, à procura de luz.

Foi quando viram. Mais de uma dúzia de homens com roupas de proteção branca entravam às pressas na escola, e as pessoas lá em baixo saíam aos montes, perplexas. Não era uma simulação.

Alex não conseguiu reagir. Ficou apenas olhando para o rosto pasmado da professora Neiva enquanto essa tentava calmamente tirar os alunos da sala. Mas, ao olhar para a porta, uma feição conhecida chamou sua atenção. Ivan, seu irmão, irrompe pela sala e a tira do transe. Segura em seu cotovelo e a puxa em direção à porta, costurando por entre as pessoas em pânico.

Nenhuma palavra é trocada, mas no irmão mais velho ela vê um porto seguro. Estão indo para casa.

“Já foram registradas pelo menos 2.700 mortes em menos de uma semana por conta do vírus no litoral sul do estado.”

“A pandemia do vírus que estão chamando dePestilentia1, ou PEST-1, já atingiu proporção mundial e botou o mundo inteiro em quarentena. A contagem de mortes já passa de sessenta e cinco milhões.”

“Os sintomas do vírus assemelham-se ao Ebola, com a diferença de ser transmitido também pelo ar. Os sintomas iniciais incluem febre, dor de cabeça, dor muscular e calafrios. Posteriormente, a pessoa pode sofrer hemorragia interna, resultando em vômitos ou tosse com sangue.”

“Os leitos de todos os hospitais pelo mundo inteiro estão lotados. Ainda não há casos de pacientes curados.”

“Sabe-se que o vírus ataca como nunca visto antes, despertando sintomas uma hora após o homem entrar em contato com ele.”

“As autoridades recomendam estritamente que não se saia de casa.”

A rotina dos Annenbergconsistia em se sentar no sofá de casa, em frente à televisão, e ouvir notícias como essas o dia inteiro. Lado a lado, pai, mãe e irmãos dividiam as refeições industrializadas que haviam estocado na casa com a esperança de que em breve teriam boas notícias.

Alex olhava por entre as persianas semicerradas. Os vidros embaçados os separavam de um mundo caótico lá fora. Não se via uma alma nas ruas. Aos doze anos, Alex era muito inteligente e precisou amadurecer rápido. Ela tinha medo do que aconteceria se abrissem a porta de casa.

Situações de pandemia como essa pareciam estar muito distantes de sua realidade.

Era algo que lia em livros de história e via em filmesdistópicos. Membros da família e amigos esperavam em corredores de hospitais para receberem diagnósticos que já conheciam, mas a esperança era algo comum em todos. Cientistas iriam descobrir em breve algum meio de, ao menos, retardar a dissipação da doença.

— Deus está nos castigando? - Deixou escapar certa noite, quando a mãe fez questão de colocá-la na cama.

A pergunta a pegou de surpresa.

— De onde tirou isso, querida? - Seus finos dedos se entrelaçaram pelo cabelo castanho claro da filha.Vi na TV.Não deveria acreditar em tudo o que vê na TV. - Fez uma longa pausa, e Alex teve certeza que viu seus olhos marejarem. A mãe nunca chorava em sua frente. - Vai ficar tudo bem, minha querida. Deus está conosco.

Para ser sincera, a garota nem tinha convicção de quem era Deus.

A noite lá fora corria fria enquanto Alex dormia mais uma noite mal dormida. Seus sonhos conturbados são interrompidos por uma ardida sensação no braço direito. Acorda desnorteada, os olhos se acostumando ao escuro. Seu cérebro demorou a processar o que acontecia. Havia uma seringa em seu braço, e sua mãe injetava algo tremulamente.

— O que...? Mãe? - Alex levanta, e por instinto tenta desvencilhar-se da sensação de queimação em seu braço. Outra silhueta escura sentada em sua calma segura forte e carinhosamente suas mãos.

— Pronto, pronto, já acabou. - Seu pai a ampara. - Precisa acordar agora, filha.

Alex olha no relógio. 3:47 da manhã.

Não pensa em questionar. Sua mãe tira a seringa de seu braço e coloca um pequeno curativo.

No segundo seguinte, já está fora do quarto. Acende a luz ao sair e murmura algo como“Seja rápido”para o marido.

Agora, sentada à cama, seu pai ainda não ousou soltar suas mãos.

— O que está acontecendo, pai?

Este por sua vez não consegue responder. Põe-se de pé e abre o armário da filha.

— Arrume suas coisas, Alex. Só o essencial, pode ser?

Era impossível tentar entender o porquê. Estavam condicionados àquela casa pelas últimas duas, três semanas. Ela não conseguiu perguntar. Tanto o pai quanto a mãe pareciam à beira de um colapso nervoso. Tinha tantas perguntas que não sabia se questionar a injeção em seu braço era prioridade.

Correu para fora do quarto, bem a tempo de ver sua mãe parada em pé do lado do sofá, com uma das mãos repousando pensativamente sobre seu próprio ombro enquanto batia um dos pés no chão repetidamente, de modo nervoso.

Ivan estava sentado no sofá, com a luz da televisão iluminando seu rosto. Um curativo em seu braço direito, assim como o dela. Debruçado sobre os joelhos e com as mãos tampando a boca, parecia incrédulo ao ouvir a notícia. A garota correu para sentar ao seu lado e aumentar o volume da televisão.

Notícia Urgente! A partir de agora até às 10 da manhã desta segunda-feira estaremos iniciando medidas de evacuação da cidade por conta da disseminação em grandes proporções do PEST-1. As autoridades afirmam que ao Norte, a cerca de 600 quilômetros do centro, há um lugar equipado para suportar grande parte dos habitantes.”

Isso éperfeito!,Alex pensou. Por que estariam todos tão tensos?

Olhou para o rosto de seus pais, juntos lado a lado, e depois para o irmão, que não desviou os olhos da tela.

Estaremos dando prioridade para as crianças e adolescentes menores de 17 anos. Apresentem-se com seus filhos até às 10 na estação de trem mais próxima. Caso não seja detectado sinal do vírus no indivíduo, tiraremos primeiro os mais jovens daqui.”

Silêncio.

O pai coloca a TV no mudo, e olha para o rosto dos filhos.

— O que estão esperando?

A esposa começa a chorar ao seu lado, mas vira a tempo de esconder as lágrimas e um soluço. Já está recomposta.

Ivan olha para a irmã.

— Não podemos ir sem vocês. - Disse exatamente o que ela pensava.

— É claro que podem, não sejam tolos. - A mãe consegue pronunciar. - É uma ótima oportunidade. Eles finalmente vão nos deixar sair desse ninho.

— Temos que ser rápidos. A transmissão já está no ar há quase uma hora. As estações de trem vão estar uma loucura. - diz o pai.

— Não vamos sem vocês! - Alex quase grita, agora se permitindo chorar.

A mãe pensa em gritar, mas não é assim que quer que sua filha se lembre dela. Ao invés disso, se coloca na frente da menina.

— Faça as malas, Alex. Não temos escolha. - A mão do marido pousa em seu ombro, e ela entrelaça seus dedos nos dele. - É o que posso fazer para dar a você e ao seu irmão a chance de uma vida melhor. - Seus olhos repousam no filho mais velho. - Cuide da sua irmã, ok? Vamos estar juntos em breve.

Ivan não conseguiu responder. Aos dezessete anos, nunca imaginou tanta responsabilidade. Mas passou confiança. Mais para si mesmo e para a irmã mais nova que o olhava, do que para os próprios pais.

— Andem, saímos em dez minutos.

7 Avril 2020 23:50:40 4 Rapport Incorporer Suivre l’histoire
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Ana Clara Ana Clara
É uma história cheia de altos e baixos, com emoções que oscilam entre a melancolia e e o medo. Sua escrita é maravilhosa, bem detalhada. Geralmente eu sentiria falta de descrições, porque gosto de desenhar os personagens e os locais na minha mente. Mas, a história é tão envolvente que não tive tempo para isso huehauhaua.
April 26, 2020, 05:46

  • Ana Luiza Ferreira Ana Luiza Ferreira
    ai, fico tão feliz que tenha gostado!! esse cap ficou meio corridão mesmo, espero que curta os outros! April 26, 2020, 15:07
Luiz Fabrício Mendes Luiz Fabrício Mendes
Muito, muito bom! Sua escrita é excelente. Tudo é bem descrito, os diálogos são ótimos e a narrativa corre num bom ritmo, nem lenta ou apressada demais. Gramática e ortografia são impecáveis (só olhe depois algumas palavras aqui e ali que o editor do Inkspired juntou, ele vive fazendo isso comigo também, hauahau!). Acho muito interessante a escrita ajudar a gente a lidar com a pandemia no mundo real, e ao mesmo tempo alertar aos perigos de uma situação dessas, com todo o fator humano e seus desdobramentos. Já fiquei bastante envolvido com a Alex e toda essa despedida da família dela foi bem emocionante e ao mesmo tempo crível, considerando a situação à qual a pandemia do enredo chegou. Estou ansioso por mais. A história é muito promissora. Parabéns, e até os próximos capítulos!
April 08, 2020, 02:51

  • Ana Luiza Ferreira Ana Luiza Ferreira
    Nossa, muito obrigada! Significa muito pra mim você ter gostado hahahah tenho vários capítulos escritos já e vou tentar postar todo dia. Agora de quarentena fica produtivo escrever hahah Espero que atenda as suas expectativas!! Muito obrigada e até <3 April 08, 2020, 13:53
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