bhpoiano B. H. Poiano

Após receber uma ligação confusa de sua ex-esposa, Robert vai até seu apartamento e presencia o horror que Amanda tem vivido.


Horreur Déconseillé aux moins de 13 ans.

#horror #sono #pesadelos #brasil #necronomicon #H-P-Lovecraft #Terror-Cosmico
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Terror Noturno

A humanidade e sua mania ingênua de priorizar prazeres carnais aos contatos reais é que vai nos levar a decadência lenta, dolorosa e iminente. Encarando as marcas nos meus braços lembro da noite em que julguei ter perdido a sanidade e a noção da diferença do que era real ou irreal. Era madrugada quando acordei com meu celular tocando incessantemente, tirando-me de um sonho estranho e absurdo. Sentado na beirada da cama, encarando o aparelho com a cabeça pesada vi o nome de Amanda em mais de três chamadas perdidas.

Não fiquei feliz ao saber quem me acordara. Não nos falávamos desde o divórcio quando ela me obrigou a encerrar um casamento outrora feliz e amoroso. Amanda e eu vivemos juntos por mais de dez anos com uma relação de confiança e companheirismo, mas nos últimos anos, ela se tornara antipática, ninfomaníaca e violenta ao ponto de atacar-me com objetos que outrora tivera um significado profundo para nosso casamento.

Quando o telefone tocou novamente, atendi contra minha própria vontade e quando a chamada caiu, uma sensação antiga começou a tomar o lugar do sono. Lembrei que durante as nossas últimas noites juntos ela começara a sofrer de paralisia de sono e alegava ouvir e contemplar coisas inexplicáveis e extraordinárias durante esses eventos, como se flutuasse e entrasse em um lugar onde o tempo e o espaço não existiam, em um universo além da meteria e das leis da lógica que comandam tão duramente nossa realidade.

Esperei por minutos até perceber que o telefone não tocaria novamente, decidi eu mesmo ligar e enquanto o telefone chamava, todas as lembranças de nossos últimos meses passavam como um filme na minha cabeça. A ligação caiu, liguei novamente. Eu me perguntava por que Amanda experienciava a paralisia tão diferentemente das outras pessoas, enquanto muitos sofriam ela agia como se estivesse transcendendo.

A ligação caiu. Eu já não tinha mais sono quando liguei pela terceira vez, ela atendeu na primeira chamada, mas a única coisa que ouvi foi um choro agudo e infantilizado. Chamei seu nome, perguntei o que acontecera, disse que estava tudo bem, mas ela não respondia, a única coisa que eu escutava eram seus soluços. Quando a ligação caiu eu sabia que não voltaria a dormir novamente, a preocupação tomara conta do meu corpo.

Troquei rapidamente de roupa e de carro fui até seu apartamento. Garoava quando passei por casas velhas e malconservadas, acelerei por semáforos e sinais de pare. Além de mim, na rua, só havia ratos e insetos. Quando cheguei ao seu prédio, subi as escadas o mais rápido que pude e ao chegar na porta, vi que estava entreaberta. Hesitei. Eu não a via a mais de um ano, nós não trocamos uma palavra sequer durante esse período e na primeira ligação que recebo venho correndo a sua presença como uma criança pedindo colo da mãe.

Encarando o vão entre o batente e a porta, tomo coragem. Entrei lentamente em um apartamento escuro e o cheiro de mofo e comida velha e estragada enchem meus pulmões. Entre os sons estranhos que havia ali o mais proeminente era um choro fraco e soluçado. Parei, pois sabia que a escuridão era prenhe de ruídos assustadores e inexplicáveis, procurei na parede o interruptor e ao acender a luz vi como o lugar estava sujo e malcuidado, toda a louça estava suja sobre a pia, mesa e estante, talheres em todos os lugares, o chão cheio de copos quebrados. Surpreso, segui o choro até um dos quartos e ao entrar, senti cheiro forte de sangue e gozo. Acendi a luz e encontrei Amanda ajoelhada em um canto segurando fortemente seu travesseiro.

Corri até ela pisando em roupas sujas e lenções, vi como estava suada, pálida e ao tocá-la, a senti fria. Seus braços tremiam tensos e suas mãos estavam brancas pela força que se agarravam ao travesseiro. Seus olhos estavam dilatados e lagrimas escorriam, quando a toquei, ela pareceu não me notar. Chamei-a da maneira mais calma possível, disse que estava aqui, que ela estava segura, mas a única coisa que ela fez foi chorar novamente.

Nunca me senti tão impotente quanto no momento que sentei ao seu lado incapaz de acalmá-la. Abracei-lhe fortemente, mas não soube o que fazer além de fazer-me presente, minhas ações desajeitadas pareciam mais atrapalhar do que ajudar. Quando vi seus braços soltando o travesseiro, senti seu peso escorando em mim, chamei-a baixinho e ela olhou-me e pela primeira vez desde que cheguei, senti que ela me via.

Ajudei-a a levantar e percebi o quanto ela havia emagrecido, não havia músculos em seus braços e nenhum sinal de gordura em seu corpo, apenas ossos a mostra. Amanda tinha uma grossa camada de sujeira sobre a pele e cabelo e um cheiro forte de suor e sangue, suas roupas encardidas grudavam em sua pele. A levei até a sala e a coloquei sobre o sofá, me dirigi até a cozinha e procurei um copo para dar-lhe água, mas só o que achei fora uma geladeira vazia e canecas cheias de insetos. Procurei nos armários até encontrar uma xicara, lavei-a, e lhe servi com água da torneira.

Mesmo sabendo ser uma perda de tempo procurei nos armários algo que ela pudesse comer, mas as únicas coisas que encontrei foi pão mofado e bolachas murchas. Enquanto ela bebia eu observei o ambiente a minha volta, teias de aranha formavam-se no teto e paredes, poeira de semanas ocupavam a mobilha. Perguntei-me o que acontecera aqui e tive medo de saber a resposta.

Ela ainda tremia quando me devolveu o copo, temendo o pior, perguntei-lhe se alguém havia invadido, se alguém forçara-se nela, mas a única coisa que ela conseguiu me dizer com uma voz fraca, quase inaudível foi que ela sonhara, um sonho tão real que ela pode sentir sabores, escutar línguas desconhecidas, ver criaturas inumanas. Tive medo com a normalidade com que ela me descrevera os sabores e horror ao ouvi-la repetindo sons animalescos.

Insisti na minha pergunta inicial, queria saber se ela fora abusada ou o que acontecera para que ela chegasse nesse ponto, mas ela não respondeu. Ao contrário do que eu esperava a outrora frágil criatura tornou-se violenta, atacou-me com tapas e gritou palavras sem sentido que fizeram um arrepio estranho correr pelo meu corpo. Quando a segurei, ela encarou-me com uma intensidade que ela não tinha, suas pupilas dilataram-se novamente, senti cheiro se sangue e vi uma mancha vermelha escorrendo pelo sofá.

Soltei-a e dei dois passos para traz enquanto a observava voltar ao estado que a encontrei. Um calafrio percorreu meu corpo quando vi seus olhos arregalarem-se como se ela tivesse acabado de usar drogas. Peguei meu celular e ligava para o SAMU quando ela começara a se masturbar. Seu rosto não tinha expressão, mas seus gemidos fracos eram audíveis quando lhe dei as costas e sai do cômodo acovardado e incapaz de fazer alguma coisa.

Esperei na cozinha até ouvir o som de sirenes, quando os paramédicos entraram expliquei para eles o que estava acontecendo. Amanda ainda estava sentada sobre sangue e gemia baixinho quando os paramédicos se aproximaram, mas sua presença não pareceu influenciar nada nela, ela continuava a encarar o vazio e se masturbava cada vez mais intensamente.

Um dos paramédicos se aproximou e identificou-se dizendo seu nome e função, tinha o semblante tranquilo e lhe ofereceu ajuda, o qual Amanda ignorou. Ele chegou ainda mais perto tentando chamar sua atenção e conversar com ela, mas não adiantava, seus olhos encaravam um vazio muito além de nós. Ele seguiu por procedimentos inúteis e demorados que não tiveram nenhum efeito aparente, ele só conseguiu tirar alguma reação dela quanto tocou seu braço tentando pará-la, deixando-a violenta.

O outro paramédico entrou em ação ajudando seu parceiro a conte-la e ambos a prenderam sem dificuldade. Amanda foi levada de ambulância até o hospital mais próximo onde médicos esperavam sua chegada, e policiais a minha. Perguntaram minha relação com ela, o que fazia em seu apartamento, porque demorara tanto para chamar o atendimento adequado e preocupado eu respondia o mais rápido possível.

Esperei por horas em uma sala de espera lotada e barulhenta onde doentes entravam e saiam e nada de saber notícias, interrompi enfermeiras, perguntei a médicos, falei com a recepcionista, mas não me falaram do estado que Amanda estava. Eu olhava em meu relógio incessantemente, mas o tempo estagnara, fui para fora, fumei meus cigarros, observei a chuva engrossar e diminuir, mas não havia notícias.

Quando finalmente foi-me permitido vê-la, a encontrei amarrada em uma maca com uma agulha em seu braço. Ao observá-la limpa sobre a luz, vi o quão decadente era seu estado. Arranhões largos e fundos sobre suas pernas, seus braços possuíam marcas roxas, suas costelas estavam visíveis assim como as maçãs de seu rosto, seu cabelo fora cortado.

Sentei e enquanto a observava dormindo, pensava no que acontecera em sua vida para deixá-la tão destruída. Pouco antes de nos separarmos ela havia conseguido uma promoção em seu trabalho, recebera novos objetos para estudar, escrevia artigos para revistas importantes e estava planejando um livro. Era uma mulher inteligente, educada.

Um médico entrou e explicou-me que ela ficaria bem depois de descansar e comer, mas precisaria recuperar muito peso antes que pudesse deixar o hospital. Nervosamente perguntei se havia algum sinal de abusou sexual ou coisa pior, encarando-me ele disse que não encontrou nenhum indício de sêmen ou outro material, mas que ela havia usado outros objetos para satisfazer-se e acabara lesionando seu órgão sexual.

Sentei-me ao seu lado e passei o dia todo esperando que ela acordasse, o que aconteceu somente quando a lua já estava bem alta no céu. Eu cochilava levemente quando sua voz fraca e roca chamou-me lentamente. Quando percebi que era ela, despertei no mesmo instante.

Debruçado no leito vi que esse era um dos raros momentos que a sanidade voltou aos seus olhos. Conversamos por alguns minutos até eu ter coragem de perguntar o que acontecera, ela, então, contou que começou quando ainda éramos casados, quando recebera objetos para sua pesquisa. Entre eles estava um pequeno diário escrito em alemão que ela acreditava que datava entre 1935 e 1944, nele havia relatos pessoais e copias de livros para estudo, mas nas últimas páginas havia copias do livro “the Kitab al Azif” um antigo livro árabe que segundo o diário teria sido escrito por um poeta louco em decadência no começo do oitavo século.

Amanda contou-me que estudara as transcrições traduzindo do alemão o que o autor traduziu do árabe, mas de início não levou a sério o que encontrou ali, informações incompletas sobre grandes antigos que jaziam no ártico, passagens sobre seres rastejantes, rituais escritos pela metade, informações absurdas sobre tempo e descrições espaciais impossíveis. Seu superior até à havia mandado esquecer o diário pois ali não havia nenhuma informação valiosa, mas ele deixara Amanda curiosa.

Foi na época que eu comecei a desconfiar que ela sofria paralisia do sono, mas nem por um momento ela acreditou que fosse, ela sabia exatamente o que estava acontecendo. Amanda havia realizado um ritual sem acreditar na sua eficiência e o resultado foram visões, transcendência, enquanto dormia, com seu corpo suscetível e relaxado sua mente era transportada para um ambiente superior onde a forma não era a maneira de estar, onde a visão possuía pouca importância e os outros sentidos eram o que davam razão a existência.

Ela narrou que sentiu o gosto de cores novas, ouviu e aprendeu línguas mortas e alienígenas, esteve na presença de criaturas gigantescas com corpos inumanos cujo só a presença era capaz de criar horror e fascinação. Contou que dormiu com criaturas sem corpo e sentiu orgasmos que duravam horas. Quando acordava, voltava ao diário e encontrava descrições de eventos parecidos, quiçá idênticos. E isso se transformou em sua rotina, toda a noite ela sussurrava as o ritual e aproveitava os prazeres impossíveis em um lugar onde a realidade não chegaria jamais.

Ela viciara. Contava as horas até a noite, encarava o relógio até ver o ponteiro marcar oito horas para ir dormir e acordava perfeitamente oito horas depois, mesmo que em seu sonho parecesse semanas. Quando os sonhos não aconteciam, tornava-se violenta, rude. Quando não podia sentir os orgasmos e os prazeres infinitos, obrigava-se violentamente sobre mim. Quando nos separamos ela voltara-se a pornografia. Parara de trabalhar e já não se importava com o diário, pois o ritual estava sempre fresco em sua memória. Agora passava o dia masturbando-se e a noite dormindo com criaturas. Suas prioridades mudaram e sua busca era o prazer inacabável, não importava com o que era.

Depois de um tempo as criaturas simples já não davam conta, ela procurara coisas maiores, mais rudes, perigosas. Até que o encontrou, uma criatura insaciável, sedenta por miséria que a consumiu ao ponto de deixá-la a beira da morte. Foi no fim de um momento de extrema tortura que a lucidez voltou e ela tentou destruir o livro e esquecer tudo que havia ali, mas não foi capaz, estava fraca, faminta, sedenta, quando inevitavelmente desmaiou, voltou ao vazio animalesco fora da realidade onde a criatura já a esperava.

Ela não podia escapar, não conseguia, como fugir dos sonhos? Como não dormir? Quando a criatura acabava de tirar dela seu prazer animal e bestial, Amanda acordava exausta, ela procurara no diário maneiras de se livrar daquilo tudo, mas o escritor devia ter sofrido o mesmo destino, pois nas ultimas páginas havia somente o desenho de uma criatura nua, acéfala e morbidamente obesa, cercada por cicatrizes e pele sobre pele. Na palma das mãos, pequenas bocas com línguas grandes e finas.

Amanda não conseguiu dizer seu nome pois tinha medo de lembrar das letras que o formavam, mas lembrava do desenho pois sabia que era aquele ser antigo e poderoso que a usava em todos os seus sonhos. Deitada na cama, ela chorava, enquanto me confessava tudo, ela chorava. Incapaz de pedir ajuda ou escapar daquele destino cruel, ela chorava. Se eu não a conhecesse ou tivesse ouvido de outra pessoa eu encararia aquilo tudo como um delírio de algum paciente de manicômio, mas era Amanda que narrava tais fatos e a quantidade de detalhes que ela usava era assustadora. Sensações, cheiros, toques.

Estremeci. Ela segurou minha mão com força e pediu que eu destruísse o diário, que o escondesse, que o trancasse num cofre e jogasse-o nas profundezas do oceano. E que nunca o abrisse, se pudesse nem o tocasse, pois aquilo era mau e fora narrado pelo próprio Lúcifer. Um médico entrou no quarto assustando-nos, fez algumas perguntas para ela e verificou os aparelhos. Instantes depois uma enfermeira trouxe uma bandeja com comida.

Sai do quarto pensando nas coisas que ela disse e quando cheguei no carro tive vontade de fugir, mas a visão de Amanda destruída sobre aquela cama fina encheu meu coração com um desejo de vingança, dirigi até seu prédio e entrei em seu apartamento. Ainda temeroso, entrei naquele ambiente decadente, procurei pelo livro, mas o que encontrei foi apenas mofo e sangue seco. Ao entrar no quarto, abatido pelo cheiro de gozo e poeira comecei a procurar, encontrei o celular jogado no canto onde outrora encontrei Amanda e um calafrio percorreu meu corpo ao lembrar da cena.

Encontrei o diário jogado embaixo da cama, coberto por roupas sujas e insetos. Tive medo de tocá-lo, tive receio até de olhá-lo, lembrar das descrições de pesadelos e angústias de Amanda era o suficiente para me manter longe daquele objeto asqueroso. Puxei-o usando roupas e coloquei-o dentro de uma vasilha grande. Evitei olhá-lo o máximo que pude, pois o medo era maior que a minha curiosidade. Levei-o até minha casa onde tentei destruí-lo sem sucesso. Água não entrava em suas páginas, fogo não comia sua capa de couro, facas não penetravam. Algo protegia aquilo com unhas e dentes. Algo queria que aquilo sobrevivesse e destruísse outras pessoas.

Coloquei-o de volta na vasilha que o trouxe e o enterrei no fundo do meu quintal em um buraco com mais de sete palmos. Estremeci quando fechei a cova, pois uma sensação inexplicável se instalou em meu corpo, não soube se era ruim ou o que era, mas eu não conseguia fugir, esquecer ou me livrar. Tomei um banho escaldante, mas ainda me sentia sujo. Voltei ao hospital para encontrar Amanda assustadiça. Ela olhava-me com os olhos vermelhos e inchados, em sua mão um copo de café.

– Estou com sono. – Disse-me. – Por favor, não me deixe dormir.

24 Mars 2020 15:56 0 Rapport Incorporer Suivre l’histoire
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La fin

A propos de l’auteur

B. H. Poiano Contista, escritor de fantasia e ficção cientifica, aprendendo a escrever romances .. Instagram.: instagram.com/bhpoiano/

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