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Histoire courte
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Capítulo Único

__Lamento muito que tenha perdido seu " menino de recados ", prefeito.

O triunfo nos olhos azuis de Demerval deixa o prefeito ainda mais furioso. Mas é claro que ele não demonstra sua fúria e até sorri de volta.

__Bem, ele era um bom homem, um profissional competente... O acidente foi uma fatalidade. - e muda de assunto rapidamente - Mas o que você quer aqui, Demerval?

__Calma, prefeito... Eu vim em paz. Aliás, paz é justamente o que a cidade não tem mais desde o desaparecimento de Eléne De Jourdain... E agora, o " acidente " com o seu garoto... Essas coisas faz a gente pensar, né...?

Demerval continua com seu olhar triunfante, como a dizer: " você perdeu feio, prefeito! " diante da raiva e frustração de Renê, tão evidentes...

__Acho que está falando com a pessoa errada, Demerval. Eu sou prefeito, não o delegado. - isso é tudo o que ele consegue dizer... - Fale de suas desconfianças com o delegado. Tenho certeza de que ele ouvirá muito mais atentamente do que eu.

__O delegado não parece muito interessado em resolver o caso... Como nenhum parente de Elène apareceu pra reclamar seu sumiço, o delegado encerrou o caso.

__Bem, isso realmente é preocupante... - e faz um gesto amplo, sorrindo para Demerval - Se ninguém da família reclamou seu desaparecimento, então não há muito o que fazer mesmo. Mas o delegado deve continuar com as buscas... Quanto a isso, não tenho dúvidas. Só que eu sou apenas o prefeito, o homem da lei é o delegado Palhares.

Demerval sorri e encara Renê com o mesmo olhar triunfante de quando chegou...

_O homem da lei é o senhor, prefeito Renê. Quem manda nessa cidade é o senhor. O que o senhor quiser, é feito num piscar de olhos! Acho que deveria tomar a frente dessa investigação. ele levanta e anda calmamente até a porta - Ou será que prefere que a oposição faça isso?... - abre a porta - Mas vou seguir seu conselho... Vou falar com o delegado outra vez. Tenha um bom dia, prefeito!

Demerval sai da sala do prefeito sorrindo com os olhos... Nem o prefeito, nem o delegado sabem o que ele sabe. Ninguém sabe. Ele caminha lentamente pela rua estreita, com os olhos ainda brilhando, até parar em frente à entrada da pequena casa abandonada. Olha discretamente para os lados, depois abre o cadeado com cuidado.

O escombros do que foi o belo palacete do general Ovídio está impregnado pelo cheiro de mofo, corroído nas paredes e com mato já bem alto, sinal da ação do tempo... Demerval respira fundo e abre uma porta que range de um cômodo inexplicavelmente intacto, com alguns móveis como cadeiras,uma mesa, um pequeno sofá e bem no meio,uma espécie de gaiola... Dentro da gaiola, uma mulher, que choraminga, encolhida.

__Como está, madame Jourdain? - ele pergunta, enquanto tranca a porta - Dormiu bem?

A mulher,por sua vez, apenas abre os olhos,ainda tremendo de pavor...

__Desculpe pelas acomodações improvisada... Mas prometo que não a deixarei aqui por muito tempo. - e ele sorri, se aproximando da gaiola - Quer saber as novidades?... Pois bem... Ninguém está lhe procurando. Nem a polícia, nem sua família. Nem o prefeito parece interessado em saber o que aconteceu com a madame...!

A mulher franze a testa, uma lágrima cai de seus olhos... Mas ela não diz nada. E Demerval sorri largamente, tilintando os dedos pelas grades da gaiola...

__Não é incrível isso?! Ninguém se importa com a grande dama do teatro! NINGUÉM! - e fica muito sério... - Mas eu me preocupo. E vou cuidar bem da madame.

__Vai me tirar daqui? - o sotaque francês da mulher sai num fio de voz...

__Logo estará livre, madame Jourdain. E eu também.

__O que você quer? Porque me prendeu neste lugar?...

__Não! Não está presa, madame! - ele parece muito ofendido - Digamos que apenas saiu de cena temporariamente... Mas sua volta aos palcos da vida dependerá da madame.

__Por favor, me solte... Minha família não sabe onde estou, meu empresário deve estar me procurando... Me deixe ir!... - as palavras são ditas com desespero,numa voz fraca...

Demerval se afasta da gaiola e caminha pelo quarto, muito sério... Então senta no sofazinho e encara a mulher.

__Tudo vai depender da madame.

__O que você quer de mim?!? Dinheiro? Diga quanto quer e eu te dou...! - agora ela está aflita,mas ainda muito confusa...

__Dinheiro não é o problema, madame. Eu não quero seu dinheiro. Não preciso do seu dinheiro. - Demerval sorri, enigmático _ A madame é uma grande atriz,uma dama do teatro, cinema e televisão... E eu, o que sou?... Sou um simples mortal. - ele volta a ficar sério - Um reles anônimo, que sonhava com uma migalha da sua atenção!... - levanta e se coloca junto à gaiola novamente - Mas acho que agora tenho a sua atenção.

__O que você quer?... Um emprego, uma oportunidade...? Eu... Talvez isso possa ser arranjado... Se é trabalho que você quer, eu posso ajudar...

Demerval dá uma gargalhada, que faz a mulher estremecer...

__Pode me ajudar?!?! A grande atriz Elène de Jourdain, quer me ajudar?! Bem, então vejamos... Se responder minhas perguntas,pode ser que eu solte a madame.

__Que perguntas?

__A madame lembra do dia 13 de março de 1999?...

__Se eu lembro...? Como assim?

__O que aconteceu naquele dia, madame? Não lembra?

__Eu... Bem, eu... Você disse 1999...? Ah,sim... - a aflição dela é grande... - Eu estava encenando uma peça, em Curitiba... Tinha gravado uma participação especial numa novela no Rio de Janeiro e fui direto pro aeroporto... - ela encara Demerval, ainda confusa e muito assustada, e agora intrigada com a pergunta dele... - Porque quer saber isso?

__Não aconteceu mais nada, madame? Não se lembra de mais nada?

__Bem... Aquele dia foi tumultuado, uma correria... Do Rio para Curitiba, depois fomos jantar com os produtores... Não lembro de muitas coisas... Porque está interessado nisso? O que isso tem a ver com...

__Tem tudo a ver! - ele volta a sorrir de forma estranha, os dentes reluzentes e os olhos muito abertos... - Se responder corretamente... Quem mais estava lá, madame? Os seus produtores de merda, o diretor babaca da peça ridícula...

__Calma, por favor...! Eu já disse que foi um dia de correria, cheia de acontecimentos... É difícil lembrar de todos os detalhes...! - a mulher passa a mão trêmula pela testa franzida, como tentando lembrar de algo diferente que aconteceu naquela época... - Tinha um grupo de fãs... Uns jornalistas também apareceram pra tirar fotos... Sim, foi isso.

__Só isso?! Só lembra disso, grande atriz?! - Demerval dá um murro na grade da gaiola, os olhos chispando fúria e revolta...

__Sim, eu... Os fãs me pediram autógrafos... e um jornalista se aproximou pra tirar uma foto, mas... - ah, ela lembra agora...! - Um sujeito entrou na frente dele, empurrou o coitado... Acho que era um fã, queria autógrafo...

Demerval dá um suspiro profundo e depois começa a rir, batendo nas grades da gaiola...

__Um fã...! Autógrafo...! Ah, como isso é irônico! Uma grande atriz, acostumada a memorizar textos enormes... não lembra do que aconteceu naquela noite!...

__Eu lembrei sim... Foi isso que aconteceu. O jornalista ficou zangado com o homem, eu lembro que falei algo com ele... - ela sorri de leve, entre lágrimas... - Ele estava sendo inconveniente...!

__Inconveniente?!?

__Bem, ele não foi educado, como os outros fãs...

__Ele NÃO era um fã!!! - ele grita, sacudindo as grades da gaiola, qual fosse ele o prisioneiro...

__O quê...? Bem, eu não sei o que ele era, parecia um fã querendo um autógrafo, mas foi muito indeli...

__Não! Não, EU NÃO SOU UM FÃ! Não sou um maldito e ignorante fã!!!

Eléne fica paralisada ao compreender que está diante daquele homem esquisito de vinte anos atrás...

__Você... - ela balbucia, tremendo mais do que antes... - Era você...!

__Sim, eu. - o tom de voz dele se abranda e ele senta no chão, olhando para Eléne - Eu não sou um fã, madame. Eu não precisava do seu maldito autógrafo. A madame sim, precisava de mim! Precisava de algo que eu tinha... Eu tinha uma coisa importante pra oferecer, mas a madame Jourdain me ignorou totalmente...! Foi humilhante, senhora! Desprezo, zombaria e humilhação, foi o que eu recebi da madame e de seus aseclas naquela noite!

__Queria me dar... O quê?...

Demerval levanta, calmamente, vai até uma pequena mesa e abre uma gavetinha. Um envelope amarelado, amassado e sujo, entrega à Eléne.

ela segura com as mãos ainda trêmulas, sem entender...

__O que é isso?...

__O que madame Jourdain desprezou naquela noite. Abra.

Ela abre o envelope. As folhas estão amareladas, mas dá pra saber que se trata de um texto teatral... Escrito por... Demerval!

__Talvez agora, que a sua total atenção, a madame possa ler e avaliar meu trabalho... Agora que estamos a sós, poderá dizer quando encenará minha peça...

__Você escreveu isso há vinte anos...?

__E a madame chamou de LIXO! Em alto e bom som, para que todos no restaurante ouvissem e debochassem de mim, como fizeram a senhora e seus servos!

__Não, eu não... - imediatamente ela recorda daquele momento... - Eu... Você...

__Agora sua memória voltou, grande atriz? Se responder corretamente sobre a peça, talvez volte para sua casa e seus amigos...

__Responder... Quer que eu leia e diga se gosto, é isso?

__Quero que leia e diga se é boa suficiente para a madame encenar. quero que diga a verdade e não as baboseiras que me disse no passado! A verdade, senhora!

Eléne de Jourdain folheia devagar, os olhos fixos no texto, procurando não focar em Demerval, que a observa atentamente... Uma peça de teatro, com uma personagem escrita especialmente para ela... Bem, não é muito boa, ela conclui. Mas também não é de todo ruim, talvez com algumas alterações... Ah, mas o que ela está pensando...?! Medo, é tudo o que ela sente nesse momento... Entende que sua vida depende da avaliação que fizer do texto de Demerval: se disser a verdade, pode ser que ele não a poupe e se mentir, talvez ele acredite e a liberte...

__Então? O que diz, madame?

Ela respira fundo e pede forças aos céus para encontrar as palavras certas...

__Você tem talento, Demerval... Tem jeito pra coisa. - tenta sorrir, mas está tão apavorada que não consegue...

__Sim ou não? A peça é boa ou não?

__Bem, você leva jeito pra escrita.. Eu... Eu achei interessante... Uma temática interessante... A peça é boa... Mas...

__Mas o quê?

__Pode ficar melhor com alguns ajustes, algumas alterações... E quem sabe nas mãos de um bom diretor...

Demerval praticamente voa para junto da gaiola, agarra a mulher pelos cabelos e grita:

__ESTÁ MENTINDO, VAGABUNDA! ESTÁ MENTINDO! A VERDADE, SUA VACA! FALA A VERDADE PRA MIM!

__Sim, a peça é boa...! Podemos encená-la...! - ela ´da um gemido de dor enquanto lágrimas caem por seu rosto... - Falo a verdade, Demerval.... A peça é boa... É boa.

Ele a solta e sorri. Então, muito vagarosamente, tira uma corda do bolso da calça... Ainda sorrindo se aproxima de novo e rapidamente enlaça o pescoço de Eléne com a corda, apertando com força...

__Resposta errada, " madame "!

E com força descomunal, uma raiva escurecendo seus olhos, ele aperta cada vez mais a corda... Até que Eléne desfaleça... Depois abre a gaiola, carrega a mulher inerte nos braços, põe numa espécie de baú e tranca com um cadeado. Guarda a chave no bolso da calça e arrasta o baú para fora da casa. Ali perto está um carro velho, que ele abre a porta, tendo o cuidado em ver se não há ninguém na rua...

Já no cais, arrastando o baú, Demerval coloca-o dentro de um pequeno barco. Dá a partida rumo ao mar... Ele está sério, concentrado no que faz... Em alto mar, para o barco e joga o baú, que afunda quase que imediatamente...

Descanse em paz, grande atriz Eléne de Jourdain...! - sua voz está inacreditavelmente trêmula, emocionada...

Depois disso feito, ele volta para a cidade. Entra na pensão onde mora e senta no refeitório. Pede café e biscoitos para a copeira. Ele é o máximo da tranquilidade...

__Já soube das novidades, seu Demerval? - diz a copeira quando traz o café e os biscoitos - Acharam um bilhete de madame Jourdain. Ela se suicidou!

__Ah, que horror! E como foi isso? A polícia já a encontrou? - ele demonstra todo o seu espanto e consternação...

__Não ainda. Mas a polícia do Rio de Janeiro tá vindo pra cá investigar... Acharam umas coisas também, não sei bem o quê, mas parece que tinha alguém perseguindo a dona Eléne...

__Que coisa horrível... O mundo está podre mesmo!

__Se ele se matou, sei lá... Mas acho que pode ter sido assassinada.

__Meu Deus, isso é terrível! Quem faria uma maldade dessas com uma pessoa tão boa?!

__Algum maníaco, psicopata, um desses fãs malucos! O que o senhor acha que aconteceu, seu Demerval?

__Bem, eu não sei... Mas acho que ela não se mataria... Algum malvado louco, um fã talvez... As pessoas ficam obcecadas por artistas, acabam fazendo esse tipo de loucura...

A mulher suspira e se afasta enquanto Demerval sorri discretamente, tomando seu café...

13 Février 2020 09:09:33 0 Rapport Incorporer 0
La fin

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