asheviere Jupiter L

O reino de Fierilde, isolado dos demais em um distante arquipélago, possui uma curiosa tradição como parte de sua cultura: antes de ser considerado o herdeiro ou herdeira do trono, as crianças da realeza devem passar um ano vivendo nas ruas.


Histoire courte Déconseillé aux moins de 13 ans.

#fantasia #destino #oneshot #reino #princesa #amizade #conto #irmãos #caldeiristory #Desafio-do-Parágrafo #Esquadrão-da-Escrita
Histoire courte
1
4.0k VUES
Terminé
temps de lecture
AA Partager

Único - O Primeiro Voo da Borboleta

Uma vez, quando ainda vivia no monastério da ilha Korneus, eu tive um sonho. Uma borboleta amarela entrou pelo vitral quebrado do salão real e pairou na minha frente, transformando-se em um ser cuja aura era tão forte que meus olhos queimavam quando eu tentava olhar. Ela pegou minha mão e eu tenho certeza que ouvi a voz da própria deusa sussurrar para mim:

Saiba, Vienna, que pessoa alguma pode se dizer rei ou rainha sem antes se pôr como o mais miserável dos súditos.”

Esse aviso divino veio a mim duas semanas antes da notícia do falecimento de minha irmã, a Rainha Igraine, e eu ter de assumir o seu lugar. Em razão de ser o desejo Superior, hoje eu instauro a Tradição da Crisálida.”

– Diário da Rainha-Sacerdotisa Vienna. 1124.


O cair da neve chegava a queimar minha pele. Estava no meio da floresta com as árvores já caducas devido ao inverno. Sentei-me na grossa camada que antes me deitava. Não lembrava como havia parado ali, mas mesmo assim, o que mais me assustava era não sentir o peso dos loiros cabelos símbolos de minha família. Passei as mãos na cabeça careca, confirmando minha hipótese. A vida como Princesa Viria havia acabado.

Não. Minha vida como a Princesa Viria de Fierilde não havia acabado. Estava apenas suspensa, por enquanto. Este era o meu aguardado Ano da Crisálida.

Percebi que as roupas que me cobriam não eram familiares. Nada dos elegantes trajes da realeza, apenas peças velhas e desbotadas, e um manto já a ponto de virar trapo. Apesar do incômodo dos tecidos grossos e ásperos, eu fui grata. Eles me impediram de congelar na neve. O frio me enrijecera os membros, mas me forcei a levantar e caminhar. Eu precisava encontrar a cidade e descobrir onde eu estava.

Minha situação não era uma surpresa. As crianças da realeza crescem sabendo que só podem se tornar herdeiros aqueles que passarem pela Crisálida, ou não terão a bênção da deusa Imago para sentar-se ao trono. Eu também sabia que não havia chance de se preparar, a Crisálida acontece de repente, é uma surpresa. Mas eu pensei que ao menos eu saberia que ela estava para começar. Em vez disso, minha mãe deve ter dado a ordem, e as sacerdotisas devem ter colocado algo em minha bebida. A Crisálida era uma mudança brusca. Era ir dormir em sua cama envolta em seda e acordar em meio à neve e ao barro.

Era deixar de existir.

Ao meio dia, eu não estaria na reunião do Alto Conselho ao lado de minha mãe, e nenhum dos Lordes presentes questionaria isso. Durante um ano, meu nome não seria mencionado no interior das paredes do castelo. Não haveria retratos meus, no castelo ou em qualquer outro lugar do reino, todos deveriam ser retirados ou cobertos. Durante um ano, eu nunca teria existido como Viria de Fierilde.

Eu também não deveria lembrar desse nome. Lembrar era prolongar meu sofrimento, comparando minha vida de antes com a atual. Fui dormir como princesa, na noite anterior, e acordei como a mais insignificante dos mendigos.

Estranhamente, refletir sobre isso fazia um sorriso surgir em meus lábios, ao passo que meu âmago parecia pulsar com o desafio. Ainda me lembro dos olhares condescendentes sobre mim, depois que Vermont falhou em sua Crisálida. Como o prêmio dessa provação é o título de herdeiro, os príncipes e princesas enfrentam a Crisálida com duas opções em mente: ser bem-sucedido ou morrer tentando. A corte entrou em grande alvoroço quando meu irmão surgiu com uma terceira opção: ele desistiu.

“Pobre pequena princesa”, os Lordes pareciam dizer uns para os outros, com olhares enviesados por onde quer que eu e meu irmão passássemos. “O egoísta do irmão a condenou!” Olhando para trás, penso mesmo que muitos desses comentários exageravam a situação em uma tentativa de me manipular contra meu irmão. Ele não me condenara! Ele permitira que eu mudasse tudo. Na época, chamava-se Príncipe Vermont de Fierilde, e com paciência incomum, respondia a cada dúvida de sua irmã mais nova.

As grandes torres de tom creme denunciavam que eu ainda estava na capital, Arauden. A cidade ainda estava pouco movimentada, pois acabava de amanhecer. Eu precisava pensar no que fazer a seguir, mas me permiti devanear por uns instantes, observando o castelo, sobre todos os confortos que momentaneamente me foram tirados. Segui, mecanicamente, rumo à praça central, onde alguns poucos comerciantes armavam suas bancas. Percebi seus olhares surpreendentemente hostis. Se meu nome ainda fosse Viria, e eu, uma mulher nobre no alto da elegante torre do castelo, jamais se atreveriam a me olhar daquela maneira.

Mas eu estava para aprender que o mundo parece muito diferente quando visto do chão.

~*~

Meu irmão nunca concluiu sua Crisálida. Eu tinha oito anos, quando, aos dezesseis, ele simplesmente desapareceu. Parecia realmente que fora isso. Em um dia, eu jantava com ele, que me contava piadas e falava de seus livros; no dia seguinte, eu sabia que não podia mencionar seu nome, mesmo que não entendesse bem o porquê. O Príncipe Vermont não existia. Era um rito, uma prova. Pois Imago queria que mostrássemos nossa força. Fierilde precisava de monarcas resistentes e determinados. A vida era dura no arquipélago, tão distante do continente. O último ponto habitado antes dos navios entrarem nos vastos mares que um dia pertenceram ao Quinto Continente, hoje perdido.

Porém, três meses depois, ele voltou a existir. Vermont apareceu no castelo, maltrapilho, nem parecia ele mesmo, e terrivelmente doente. O médico real disse que se Vermont não tivesse retornado naquele mesmo dia, teria morrido. Estava muito magro e muito fraco. Ainda assim, ele havia voltado para o castelo com nove meses de antecedência. Nossa mãe lhe deu a opção de tentar novamente no ano seguinte, como era comum quando o preferido para herdeiro fracassava. Vermont aceitara a segunda tentativa, mas ele desistiu alguns dias antes.

“Como pode desistir, Vermont?” Eu lembro de ter perguntado. “Uma prova de um ano para ter uma vida de rei, é uma condição que dá para suportar!”

Minha indignação não era apenas por causa da oportunidade desperdiçada. Meu coração de criança se apertava com a dúvida que pairava sobre o destino do meu irmão. Ninguém nunca desistira da Crisálida, e eu não sabia o que isso significava. Eu ainda tinha um irmão? Vermont estava bem ao meu lado, mas por quanto tempo? Certamente, ele não era mais um príncipe. O que faria? Nossa mãe permitiria que ele continuasse com sua vida de antes, ou, além de ex-príncipe, seria também ex-filho e ex-irmão? Ele olhou para mim com um sorriso triste. Estávamos só nós dois, sentados nos degraus de um corredor vazio. Eu tinha metade de sua idade, mas ele sempre conversou comigo como se fôssemos iguais.

“Se você pensar na Crisálida como um teste, uma prova, então já terá fracassado, Viria” explicou com toda a sua delicadeza. Ele possuía um ar grave de professor, sempre conseguia o silêncio dos ouvintes enquanto explicava seu ponto de vista. “A Crisálida é uma lição, não uma prova. É sobre empatia e privilégio, não sobre força e resistência.”

Aquelas palavras não fizeram muito sentido para mim, que, com oito anos, não entendia as nuances entre testes e lições. Com a paciência de sempre, no entanto, meu irmão me explicou. Vermont era um príncipe intelectual, apaixonado pelas artes e a história de nosso próprio povo. Se questionado, ele sabia explicar os detalhes de cada evento importante desde a chegada de nosso povo nas ilhas de Fierilde, e suas consequências. Para mim, era uma habilidade impressionante, mas os lordes não pareciam valorizar.

Mesmo que não fôssemos um país dado à guerra – afinal, não tínhamos fronteiras delimitadas por qualquer coisa além do mar –, Vermont era muito subestimado pela falta de talento para as batalhas. Ele seria um rei? Aquele garoto, que nem ao menos conseguia levantar uma espada? Que, apesar de tantos livros e pesquisas, era incapaz de olhar um mapa e traçar uma estratégia bélica eficaz? Era triste reconhecer, mas desde antes de sua Crisálida, seu reinado já estava condenado. Hoje, vejo que Vermont entendia isso muito bem, e não viu razão de tentar novamente receber a bênção de Imago.

Eu também não tive sorte para as batalhas, mas, por outro lado, bastava apenas que me mostrassem um mapa e algumas informações sobre o inimigo, e eu sabia o que ordenar aos exércitos. Parecia ser o bastante para os outros nobres, que se mostravam mais esperançosos comigo do que com meu irmão.

Naquela tarde tão distante, Vermont tirou debaixo da sua capa um livro antigo, de páginas gastas e tinta quase apagada. O couro da capa já caía aos pedaços, mas quando Vermont me mostrou a primeira página, o título ainda permanecia bastante reconhecível.

“Diário da Sacerdotisa Vienna de Fierilde, 1122 à 1125?”

“É apenas um dos vários diários nos quais a Rainha-Sacerdotisa registrou suas memórias. Alguns foram perdidos com o tempo, mas este é especial. Sabes me dizer por quê?”

“Porque ela se tornou rainha em 1124?”

“1123” corrigiu. “As pessoas confundem a data, mas é compreensível…”

“Vermont, você está se desviando de novo? O que a Crisálida tem a ver com a rainha Vienna?”

“Tem tudo a ver, Vi. Ela criou a Crisálida.”

“Sim. Ela teve um sonho com a deusa.”

“Não.” Meu irmão falou, e ainda me lembro de seu sorriso esperto ao me dizer aquilo, segredando-me algo que nunca antes alguém ousara falar. “Sobre isso, ela mentiu.”

“Ela não mentiu!” defendi, indignada. A sugestão de Vermont era um completo disparate. A Rainha Vienna era íntegra e virtuosa, como jamais um monarca havia sido. Até mesmo se aproximava de uma heresia. Não havia nada de divino em Vienna, mas a História e a memória popular a tinham em alta estima. “Ela não se deixaria macular nem por uma mentira. Foi o historiador real quem lhe disse isso?”

Vermont permaneceu calmo.

“A Rainha Vienna tem uma anotação do dia em que supostamente sonhou com a deusa Imago. É curta e insignificante. ‘Houve um deslizamento de terra em Medena. Apenas perdas materiais. Recebemos os feridos.’ Ela era muito devota, e semanas antes devaneou por meia página sobre um pensamento aleatório a respeito de Imago. Não acha que alguém assim, se tivesse recebido qualquer tipo de aviso divino, com certeza o registraria em seu estimado diário? Mesmo que ainda não soubesse que era um aviso?”

“Mas…”

“Além disso…” Vermont interrompeu, como costumava fazer quando se empolgava. “Ela é mais conhecida por sua clemência. Vienna entrou para o sacerdócio aos 13 anos, quando seu irmão mais velho tornou-se rei. A maior parte de sua vida foi no monastério, afastada do luxo da realeza em uma vida tão simples quanto a de qualquer fazendeiro. Ela conhecia o povo de um jeito que seus irmãos jamais conheceriam. O rei morreu, e a coroa passou para Igraine, e depois para Vienna. A Sacerdotisa Vienna aceitou a coroa como um dever, não um direito, e viajou por semanas de Korneus para cá. Ao chegar em Arauden, a primeira coisa que ela vê é o linchamento de um homem que havia roubado uma garrafa de leite do lorde para o qual trabalhava. Isso está escrito no diário! Vienna impediu que a punição acontecesse, mas, ainda assim, aquilo a deixou horrorizada.”

“Mas o que isso tem a ver?” perguntei, ainda um pouco incomodada com o que ele tentava me fazer acreditar. As sacerdotisas e mesmo meus tutores se empenhavam em nos educar na religião tendo Vienna como exemplo. Ela não era apenas bondosa e devota, era pura, e no momento eu temia que Vermont falasse a verdade, pois essa ideia me magoava.

“Vienna achava um absurdo que um conselho de nobres julgassem tão duramente alguém que roubou um pão ou uma garrafa de leite, quando nenhum deles nunca soube o que era passar fome. Nenhum deles nunca precisou fazer os filhos mastigarem gelo na encosta das montanhas para aliviar a fome, enquanto os observavam definhar dia após dia pela fraqueza. Mas a lei era a lei, e nem mesmo a Coroa pode se colocar sobre a Justiça. Séculos de uma justiça bruta e crua não poderiam ser alterados pela sua simples vontade. Só um ser está acima de nossas leis, então… por que não contar uma pequena mentira em Seu nome?”

Talvez ele não saiba o quanto eu absorvi daquelas palavras. Somos ensinados que, para Imago, a mentira e a trapaça são grave falta de caráter, altamente condenáveis. Vienna sem dúvida sabia disso, mas preferiu a mácula. Vienna preferiria a mácula da mentira, da trapaça; se contaminaria com esses pecados até tornar-se indigna da atenção de Imago, se isso trouxesse algum bem para aqueles que precisavam de sua proteção. Vienna provocou grandes mudanças em sua época, mas a Crisálida era uma garantia para os futuros monarcas. De certa forma, um mecanismo egoísta. Deveria ensinar aos grandes que suas ações impactavam fortemente os pequenos, porém, para os que não conseguiriam aprender empatia dessa forma, havia outro incentivo: os pais veriam os filhos na situação do mais humilde dos súditos. Quanto melhor e mais justo fosse um rei, menos seus filhos sofreriam durante a Crisálida.

“Que pena que você não poderá ser rei, Vermont…” deixei escapar, com sinceridade. “Se a Crisálida é uma lição, eu acho que você a aprendeu muito bem.”

Ele abriu um sorriso enigmático, havia certa tranquilidade misturada à melancolia em seu rosto.

“Vossa Alteza deve me chamar de Seth a partir de agora” falou, e eu entendi de imediato. “Era o nome que usava nas ruas, e de agora em diante, será meu novo nome.”

Depois daquele dia, passei a vê-lo cada vez menos. Eu realmente tinha perdido meu irmão, o Príncipe Vermont, mas ganhei um bom amigo em troca, na forma de Seth. Ele ainda vivia no castelo, embora nas alas comuns, pois o médico real o aceitara como aprendiz. E quando eu ficava entediada, e Seth não estava ocupado com seus estudos, às vezes nos encontrávamos na biblioteca ou nos celeiros, e conversávamos sobre nossas vidas. Era interessante como uma tradição forjada podia mudar tanta coisa entre nós. Às vezes até nos esquecíamos que o mesmo sangue corria em nossas veias. Seth era meu melhor amigo, mas havia certa barreira entre nós que antes não existia. Ele também sabia disso. Sempre me tratava apropriadamente: “Vossa Alteza”, “Senhora”, “Princesa”… Nunca “Viria”, nunca “irmã”, pois a palavra agora soava tão falsa em nossas línguas que não havia sentido em tentar manter a relação que tínhamos antes.

E, estranhamente, apesar dessa barreira, parecia também que tínhamos mais liberdade. Antes, estávamos unidos em um emaranhado de nossos próprios laços, mas o destino tratou de desatá-los, um a um, e agora podíamos nos mover livremente. A Crisálida podia não ser sagrada, mas sua importância era inegável.

Os dias passavam com uma rapidez anormal. Alguns dias eram bons, calmos. Outros, mais frequentes, eram tão duros quanto as pedras que os comerciantes atiravam na humilde pedinte que se aproximava deles com hesitação, em busca apenas de um punhado de moedas para que pudesse comer algo ao cair da noite. Os dias tornaram-se meses, mas aquela força pulsando dentro de mim parecia tão vívida quanto no dia em que acordei na neve. Mesmo que não tivesse nada de sagrado naquele rito, parecia que Imago me observava, e eu tinha certeza de que receberia sua aprovação e sua bênção. E não haveria pessoa alguma na terra que pudesse pôr em dúvida o meu direito.

A Crisálida podia ser uma tradição falsa, mas de certo modo, era uma ferramenta do destino. Organizava-nos como peças de um tabuleiro, colocava-nos onde éramos necessários. Doze meses se passaram, e o Ano da Crisálida finalmente havia chegado ao fim. E eu estava exatamente onde deveria estar, em uma mesa cheia de líderes, com uma coroa em meus cabelos; o mesmo valia para Seth, entre seus livros empoeirados de história e as monografias de biologia, química e medicina.

A magia da Tradição da Crisálida é o que nós fazemos dela. Em seu Ano, o garoto que um dia foi meu irmão descobriu que não era realmente um príncipe. Podia ser por fora, mas, internamente, seu nome era outro, assim como sua matéria, sua vocação e seu destino. E, por isso, eu sabia que Seth não havia fracassado como todos pensavam. Era isso que as crisálidas fazem com as lagartas, uma mudança. Nenhuma borboleta jamais pôde voar antes de abandonar a antiga forma e descobrir quem realmente é.

O mesmo aconteceu comigo. Porém, enquanto Seth descobria seu verdadeiro nome, eu apenas confirmava o meu. E quando voltei para casa, destinada a assumir o trono de minha mãe, não havia uma alma em todo o reino que pudesse negar que eu era a Princesa Viria de Fierilde.

FIM

1 Février 2020 01:10:12 0 Rapport Incorporer 1
La fin

A propos de l’auteur

Commentez quelque chose

Publier!
Il n’y a aucun commentaire pour le moment. Soyez le premier à donner votre avis!
~