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kztironi Karina Zulauf Tironi

Um escritor entra em coma e seus personagem lutam para acordá-lo. "Estava claro para todos que seria algo tão impossível que, de alguma forma, poderia dar certo."


Histoire courte Tout public.
Histoire courte
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Todos por Um

Primeiro houve um som oco, como uma fruta madura caindo de um galho e atingindo o chão. Depois, o completo e mais assustador silêncio. Não o silêncio opcional, quando as partes envolvidas escolhem por ele, mas o silêncio do vazio, da ausência e o silêncio de quase morte.

Depois disso? O completo desespero.

– O que está acontecendo? – O primeiro perguntou. Aquele que tinha uma pele quase translúcida de tão branca, olhos pequenos e asas grampeadas nas escápulas – Por que ficou tudo escuro?

O segundo que se pronunciou era um dos exploradores, tinha pouco papel além de guiar, mas felizmente, por isso, carregava um lampião a querosene, o qual usou para iluminar o lugar. Vários rostos diferentes e várias feições o encararam de volta, piscando por causa da forte iluminação.

– Acho que ele dormiu. – Disse uma das mulheres. Cabelos longos e ruivos, sardas cobrindo cada milímetro de seu fino rosto.

– Não seja estúpida. Você ouviu, não ouviu? O barulho. Alguma coisa aconteceu.

– Quando ele dorme as luzes não se apagam assim, não totalmente. – Falou o príncipe indiano, usando um dhoti dourado ornamentado e vários anéis de ouro em cada dedo. Ele tinha dificuldades em erguer as mãos – Isso não é comum.

Vozes explodiram de todos os cantos, considerando, refletindo, ponderando cautelosamente ou simplesmente surtando. O explorador tinha pouco a dizer, mas tomou seu lugar no centro, mantendo a única iluminação do grande recinto – grande o suficiente para ser impossível saber onde começava e onde terminava. O príncipe se juntou a um grupo de mulheres para discutir sobre o que poderia estar acontecendo, o homem com as grandes asas brancas ficou mais afastado, pensativo com os dedos beliscando o queixo proeminente.

– Causar essa comoção não nos ajudará a entender o que aconteceu. – Veio uma voz firme do canto esquerdo, onde uma senhora de idade estava sentada em uma cadeira de balanço. Ela tinha em mãos um novelo de lã e agulhas de tricô, mas não havia começado nenhum trabalho recentemente. Seus olhos eram sagazes e experientes enquanto estudava os outros ali presentes.

– E o que sugere que façamos, então? – Questionou acidamente a bruxa de setecentos anos, dando um passo à frente.

A senhora olhou para a bruxa, sem se afetar.

– Os Registros e nosso Manual dos Personagens Imaginários.

Mais uma vez, o silêncio tomou conta. Dessa vez, de surpresa e descrença. Alguém mais ao longe deu uma risada.

– Não ouvimos falar de nenhum dos dois há anos. Os livros se perderam ou viraram poeira e sugerir que os usemos é uma ideia tão absurda quanto tentar procurar o pote de ouro no fim do arco-íris.

Havia um duende entre eles, que se sentiu ofendido com a grosseria.

– Está sugerindo que mentimos sobre o pote de ouro?

– Ele não está – falou a bruxa, revirando os olhos avermelhados – Só que seria uma burrice procurar os livros desaparecidos, tanto quanto tentar achar o pote.

– Ah, bom. – O duende disse em um tom mais dócil – Nesse caso, é mesmo.

Ele bem sabia quantos haviam morrido tentando encontrá-lo. Nas suas histórias, ao menos.

– Os Registros e o Manual não se perderam nem viraram pó. – A senhora falou novamente, com uma expressão séria no rosto enrugado e marcado – Eu sei muito bem onde estão.

O homem de asas se aproximou com cautela.

– Não estamos querendo duvidar da senhora, mas já faz tanto tempo desde que os vimos pela última vez. Como você poderia saber onde estão?

– Porque – a senhora fez uma pausa dramática, olhando para cada um antes de desencostar as costas da cadeira, e tirar de lá dois grandes livros marrons de capa dura – Eu estou com eles.

Seguiu-se sons surpresos de “oooooh” entre todos. Um homem que segurava sua cabeça de abóbora ao lado do corpo andou para perto da senhora, da bruxa e do homem alado. As órbitas vazias da abóbora brilhavam em uma luz laranja e seu sorriso aterrorizador a cobria de uma extensão à outra.

– Você os escondeu de todos nós?

– Eu não poderia nos dar o luxo de perdê-los, em caso de realmente precisarmos dos livros um dia. – Ela deu de ombros – De qualquer forma, foi o melhor a ser feito.

– Mas sem consultar os outros? – Insistiu a face luminosa da abóbora.

– Que direito você acha que tem acima de nós? – Alguém gritou da multidão de outros personagens imaginários.

A senhora nem mesmo piscou.

– Bom, eu fui a primeira personagem já criada por ele. Acredito que por isso eu tenha prioridades. Conheço-o muito mais e por mais tempo que vocês. Agora, se me dão licença, preciso fazer uma leitura.

– Nada disso. Nós leremos esses livros juntos. Todos nós. – O príncipe indiano também se aproximou, decidido. Mal conseguia gesticular, mas tentava mesmo assim.

– Como quiserem – disse a senhora com desdém, passando os livros pesados para o príncipe indiano, que os repassou para a bruxa. Ela começou a ler imediatamente – Mas não esqueçam que eu os li inteiros, uma vez. Sem minha ajuda nunca irão achar a parte sobre apago...

– Achei! Tem aqui no sumário. Barulhos incomuns e apagões. Página 347.

A senhora mais velha bufou.

– Tanto faz. – Disse ela e começou a tricotar.

Os personagens se juntaram todos ao redor da bruxa, que segurava o Manual dos Personagens Imaginários e do homem com asas, com os Registros, iluminados pela luz do lampião Embora esse último fosse importante, somente continha o histórico do homem que havia criado todos eles, suas ocorrências e, como nada assim havia acontecido anteriormente, os Registros não seriam de muita ajuda. Por outro lado, o Manual dos Personagens continha tudo que os personagens pudessem precisar, desde o que fazer quando seu criador está com falta de memória e os esquecendo até em casos como aquele, no qual nenhum dos personagens tinha a menor ideia do que acontecia.

Mas na página 347 logo acharam sua resposta.

– Ele está... desacordado? – A bruxa ergueu os olhos do livro, franzindo o cenho.

– Em coma? Mas... como isso aconteceu? – Perguntou um executivo rico que estava do lado dela, sobre o Manual.

– Aqui diz que ele sofreu algum acidente, por isso o barulho e o apagão geral. – A mulher ruiva leu, com o dedo nas palavras da página em questão – Ele está apagado.

Todos silenciaram, em completo desnorteamento.

– Se ele está em coma, o que isso significa para a gente? – Alguém perguntou.

– Como fazemos para reverter? – O indiano indagou, girando um de seus anéis mais caros no dedo – É possível?

A bruxa voltou a ler novamente e uma luz se acendeu em seu rosto no próximo minuto.

– É claro. Nós só precisamos estimular o cérebro dele.

– E como exatamente faremos isso? – Uma mulher usando um longo vestido do século dezoito perguntou. Ela ostentava um grande penteado que parecia perigosamente prestes a cair para frente e um espartilho tão apertado que mal a deixava respirar.

– Nós precisamos criar algo grande, algo que o jogue de volta para a consciência. Uma história. A melhor que conseguirmos. Temos que ser criativos. – A bruxa fechou o livro em um gesto único – Onde está aquele pirata caolho?

Os personagens se entreolharam por um instante, mas o pirata não estava em lugar algum, nem com a sua tripulação ali presente e nem entre as mulheres que vestiam somente camisolas – onde normalmente costumava estar, com um sorrisão desavergonhado no rosto manchado de sol.

– Pelo amor de Deus, onde é que está esse pirata? – A bruxa jogou as mãos para o alto, impaciente.

Alguém de sua tripulação fez um som discreto com a garganta.

– Ele está em um encontro.

A bruxa espremeu os olhos.

– Onde?

– No barco. Ele nos mandou não interrompê-lo.

– É claro. – Ela riu, mas não havia humor algum em sua voz – Alguém vá buscar aquele bêbado incompetente. Nós precisaremos do barco pirata se iremos fazer algo grande.

Dois de seus homens partiram imediatamente, usando um segundo lampião do explorador para iluminar o caminho. Os que restaram questionaram a bruxa sobre o que poderiam fazer para criar a história.

– Para criarmos uma história grande e chamativa o suficiente que vá acordá-lo do coma, cada um terá que ser o personagem principal. Isso vai causar uma confusão, histórias se entrelaçarão, personagens se chocarão uns com os outros, mundos diferentes serão obrigados a conviver como um só; é exatamente isso que queremos.

Estava claro para todos que seria algo tão impossível que, de alguma forma, poderia dar certo.

Na próxima uma hora uma sucessão de coisas malucas e ridiculamente geniais aconteceram, acarretadas umas às outras, começando primeiramente pela chegada do pirata e seu barco, sendo escoltado por dois homens corpulentos de sua própria tripulação. O pirata tinha um olho de vidro na órbita direita e o olho esquerdo piscava quase que incessantemente, trabalhando por dois. O homem usava uma roupa formal demais para um pirata – embora, ainda assim, considerada velha e suja, toda amassada –, sua camisa branca amarelada estava meio para dentro meio para fora da calça e ele andava aos tropeços, decididamente bêbado demais para dizer algo em sua defesa.

– Bêbado novamente. – A bruxa o estudou com seu olhar mais frio e penetrante – É um milagre que ainda esteja vivo, capitão.

O pirata teve dificuldades em focar a visão na mulher em sua frente, mas quando o fez e a reconheceu, um sorriso caloroso e desajeitado acompanhou.

– Ora, minha querida. A vida é muito chata quando se está sóbrio.

– Imagino que fique maravilhosa quando você mal consegue andar. – Retrucou ela, cruzando os braços e controlando a vontade que estava de esganá-lo. Ao invés disso, canalizou toda a sua insatisfação com o pirata para a história que ainda havia de ser criada. Ela deu as instruções básicas (façam o que vocês foram criados para fazer, recriem seus clímaxes e não parem mesmo ao se deparar com outro personagem. Na verdade, se puderem, se juntem a ele) e a Grande História de Todos por Um foi criada. Com a ajuda da iluminação de muitos lampiões, claro.

Foi uma grande confusão.

O barco pirata se viu infestado por fadas, bichos papões, aprendizes de confeiteiros, uma boa dose de nadadores olímpicos e ainda alguns homens carregando maletas. Esses últimos imediatamente tiveram problemas em se misturar com os demais personagens, pois carregavam mercadoria roubada em suas maletas e tinham ordens secretas para não serem descobertos. Os bichos papões começaram a assombrá-los e as fadas deram um jeito de entrar dentro das maletas pelo seu fecho, fazendo um estrago lá dentro. Os confeiteiros tomaram a cozinha do barco e começaram a preparar bolos com morango e chocolate preto. Os nadadores olímpicos andaram pela prancha de madeira e com muita graça pularam dela e saíram nadando crawl.

Na escuridão, a luz piscou algumas vezes, como uma lâmpada prestes a queimar.

– É isso! Está funcionando, não parem! – Gritou alguém, o que foi seguido por gritos de alegria.

Havia um arco-íris do lado oposto do barco pirata e também havia seu fim. Nele se aglomeravam saqueadores de tesouros, jardineiras e um único duende, desesperadamente tentando proteger seu pote de ouro dos ladrões. As jardineiras – a maioria sênior – usaram seus ancinhos e suas pás para acertar a cabeça dos saqueadores e tiveram êxito em proteger o ouro. Até mesmo a senhora deixou seu tricô e sua cadeira de balanço de lado para ajudar. Como recompensa, o duende deu cinco moedas para cada uma e uma promessa de que iria visita-las em seus sonhos, garantindo-as sorte para o resto da vida.

No interior de um bar típico do Velho Oeste norte-americano que parecia estar caindo aos pedaços de tão velho havia um casino enorme e luminoso onde um garimpeiro e um engenheiro florestal discutiam sobre a economia mundial e sua influência na criação de gado enquanto jogavam pôquer. O engenheiro florestal estava ganhando.

Enquanto essa desordem toda rolava, a bruxa não percebeu a aproximação do pirata caolho, pois estava concentrada em uma briga que acontecia entre o cabeça de abóbora e uma mulher com nariz de cenoura e mãos de alface.

– Você está muito bonita esta noite. – Sussurrou o pirata em um galanteio atrapalhado (afinal, ele ainda estava sob efeito do rum).

A bruxa o olhou com surpresa por instante, somente para fechar o rosto e desviar o olhar novamente.

– Está escuro demais para que você consiga me ver, muito mais para me achar bonita. Me deixe em paz e faça seu papel na história.

– Eu sempre a achei bonita, Doroty. – Insistiu ele, dando mais um passo para ficar ao seu lado – Só nunca encontrei uma maneira de falar com você.

A bruxa soltou um resmungo irritado, ainda sem olhar para ele.

– Você acha todas bonitas. Não me surpreende. – Ela trincou os dentes – E não me chame mais assim, nunca mais.

– Como? – O sorriso do pirata se alargou – Doroty?

– Meu nome é Doroteia, seu imundo incompetente. – Reagiu a bruxa, virando para lhe dar um soco no ombro que o fez cambalear para trás – Você não tem direito nenhum de me chamar assim. Ou mesmo usar meu nome. Ele seria veneno em seus lábios.

O pirata piscou, atordoado com a agressão, mas se recompôs em pouco tempo. Ele nunca teve bom senso.

– Bom, o que seria mais um tipo de veneno para mim?

E então o mundo caiu.

Ou ao menos despencou para o lado alguns metros.

Todos os personagens gritaram de assombro, o barco pirata ficou inclinado, pendendo para trás, os lampiões se apagaram, o pote de ouro caiu no chão e todas as moedas saíram rolando. O pirata perdeu o resto de equilíbrio que ainda tinha e por pouco também não foi ao chão, se não fossem os braços da bruxa que o seguraram a tempo.

O mundo dos personagens imaginários ficou estagnado assim por um tempo, na escuridão e no silêncio. Novamente o silêncio do vazio, da ausência e o silêncio de quase morte.

Ninguém ousou dizer nada por um tempo.

Até que de repente as luzes se acenderam. Os personagens escutaram um som constante de “bip-bip-bip” que vinha de fora.

– Funcionou? – O homem alado perguntou, atônito.

– Logo vamos descobrir. – Disse o príncipe indiano, que estava caído no chão ao lado de um dos nadadores olímpicos.


.


– Meu Deus, ele acordou! Helen, o Anderson acordou!

Dói quando pisco. Dói quando respiro. Na verdade, dói quando faço qualquer coisa, mesmo o menor movimento. Olho em volta para as pessoas ao redor de mim, para o quarto impossivelmente branco e sem decoração, finalmente abaixando meu olhar para o soro que recebo na veia e a máquina ao meu lado, registrando meus batimentos cardíacos. Bip-bip-bip.

– Filho? Está nos ouvindo?

Ergo os olhos para o homem bigodudo e calvo que se inclina levemente em minha direção. Ele tem olhos cansados, embora estejam totalmente alertas, e noto que sua mão está tremendo levemente.

– Não exija tanto dele agora, querido. Foi um choque e tanto, ele deve estar confuso. – Minha mãe disse para meu pai, afagando de leve seu braço – Vamos lhe dar um tempo para se recuperar.

– Mais tempo? – Mirian, minha irmã cinco anos mais velha, olhava para mim como se eu fosse um extraterrestre. E não porque estou todo entubado, não, mas porque esse é o olhar que ela sempre usou comigo. Ela o chama de olhar do irmão mais velho, o que eu acho totalmente sem sentido – Ele esteve em coma por quase duas semanas e vocês querem dar mais tempo a ele?

– Mirian, por favor. Agora não. – Minha mãe a repreendeu e depois voltou-se para mim com muita tranquilidade e doçura – Leve seu tempo, meu amor. Quando quiser...

Pisquei mais uma vez. Dessa vez não dói tanto. Acho que fiz um progresso. Talvez eu até pudesse arriscar falar.

Respiro fundo e sou observado por três rostos ansiosos.

– Alguém poderia me arranjar um caderno e uma caneta? Acabei de ter uma ideia surreal para o meu próximo livro.

10 Janvier 2020 02:48:24 0 Rapport Incorporer Suivre l’histoire
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La fin

A propos de l’auteur

Karina Zulauf Tironi Como escrever sobre mim, quando me torno tantas outras pessoas enquanto estou escrevendo? Só uma menina tentando transformar seus monstros em histórias que possam entreter.

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