sweet-mary Mary

Eis que parar de escrever não resolveria o enigma, eu apenas me entregaria ao marasmo do momento e calaria minha voz para levar a tal da vidinha comum onde tudo é executado no piloto automático sem mais adendos, no entanto quando se tem incutido na mente a ideia de que o conceito de ordinário é bastante relativo e até um pouco tolo, abandonar minhas aspirações porque designei objetivos diferentes daqueles pelos quais comecei, é possível que uma luz dentro do coração se acenda e as lágrimas, tão teimosas, cessem. Prometi aos meus personagens que os ajudaria a resolverem seus problemas, estendi minha mão para que não caíssem, acreditei neles quando ninguém mais quis, abri as portas da minha casa, fui um pouco mãe, irmã, namorada, amiga, psicóloga, investigadora, de mãos dadas com eles estive em lugares do mundo onde o nem mais conceituado dos viajantes chegou a estar, porque essas viagens eu fiz de olhos fechados, dei um salto e mergulhei nas profundezas mais inóspitas da alma. Os relatos mais francos, inspirados por um bloqueio criativo.


Non-fiction Tout public.

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Curitiba, 22 de abril de 2018.

Perdi a conta das vezes em que meus olhos se umedeceram e se perderam pela tela do computador, as palavras se embaçaram e um soluço percorreu o corpo, cujos braços cobriram o rosto para abafar a dor, a vergonha, o sentimento de fracasso e desolação, de não ter respostas convincentes para as perguntas que formulo para mim mesma. Foram (e ainda são) recorrentes as ocasiões em que analiso meu trabalho e me pergunto por que ainda insisto nele.

Eis que parar de escrever não resolveria o enigma, eu apenas me entregaria ao marasmo do momento e calaria minha voz para levar a tal da vidinha comum onde tudo é executado no piloto automático sem mais adendos, no entanto quando se tem incutido na mente a ideia de que o conceito de ordinário é bastante relativo e até um pouco tolo, abandonar minhas aspirações porque designei objetivos diferentes daqueles pelos quais comecei, é possível que uma luz dentro do coração se acenda e as lágrimas, tão teimosas, cessem.

Prometi aos meus personagens que os ajudaria a resolverem seus problemas, estendi minha mão para que não caíssem, acreditei neles quando ninguém mais quis, abri as portas da minha casa, fui um pouco mãe, irmã, namorada, amiga, psicóloga, investigadora, de mãos dadas com eles estive em lugares do mundo onde o nem mais conceituado dos viajantes chegou a estar, porque essas viagens eu fiz de olhos fechados, dei um salto e mergulhei nas profundezas mais inóspitas da alma.

Abandonar esses amigos sem lhes conceder qualquer satisfação me soa um ato de covardia, rompe (sem volta) o laço de confiança que estreitamos, pois ainda que numa certa plataforma eu não tenha qualquer visibilidade e todos nós sejamos apenas mais uma conta com poucos seguidores e poucas visualizações, ofuscados pelos clichês baratos e pelo mais-do-mesmo, ainda que as lágrimas de dor e a sensação de que todo o esforço parece em vão, sei que eles estão ao meu lado nessa luta silenciosa por algum espaço, não me julgam com base em convenções sociais estúpidas que segregam, oprimem e demonstram quão mesquinha pode ser a natureza humana quando se deixa influenciar pelas aparências, quando julga o outro sem conhecê-lo de verdade.

Alguns desses meus amigos me viram crescer porque cresceram comigo, das folhas de fichário migraram para documentos noMicrosoft Worde mais tarde os blogs dessa vida, os sites de fanfics e web novelas; outros amigos eu conheci ao acaso, através de uma palavra que criou um mundo totalmente novo e fantástico, onde pude rir, chorar e fazer parte de todas as conversas, onde minha presença não foi tratada como um fardo, porque dependendo do clichê posso me render, até porque não há quem não resista a dois olhares apaixonados que se demoram num beijo que nasci ali mesmo, no olhar, onde as almas não mentem uma para a outra e se entregam sem ressalvas.

Perder faz parte de viver. A unanimidade não me seduz. Os ataques de ódio apenas expõem a imaturidade de uma pessoa que não sabe conviver com as diferenças, que não aprendeu direitinho como se aplicar o verbotolerarsem ser tendenciosa e seletiva. E mesmo chorando porque muitas vezes me sinto falando sozinha, só existe uma saída quando se tem um coração de tinta: continuar escutando aquela voz que vem do coração porque ela alimenta a imaginação que necessita desse incentivo para que seja capaz de sobreviver a todos os golpes da vida com um estoicismo de dar inveja.

Escrever, escrever, escrever. Não aquilo que "dá ibope". Não porque está na moda. Não porque alguém me disse para fazer assim ou assado. Escrever, acima de tudo, para tornar real aquela ponte entre a realidade e a imaginação, por onde meus grandes amigos precisam passar para poderem viver seus finais felizes. Aqui abro um parênteses para dizer que não sou hábil em elaborar discursos de despedidas, sou muito sensível e sempre que preciso das palavras certas, elas teimam em me abandonarem.

Por outro lado, quero deixar claro, meus amigos continuarão existindo dentro do meu coração e sempre que eu quiser me lembrar do tempo maravilhoso que passei ao lado deles, basta olhar para trás, para todos os sacrifícios empenhados, para os dedos doloridos, os livros lidos, as músicas ouvidas, as crises de riso, o imprevisto necessário, as palavras que quando alocadas em capítulos compostos de tantas páginas recriam não apenas este mundo como outro que todo aquele que for capaz de enxergar com o coração, será capaz de morar.

Este coração de tinta chora,sim. Chora porque até a tristeza de certo modo inspira. Chora porque às vezes é frustrante ter uma ideia boa na cabeça e não conseguir colocá-la no papel. Chora quando deixa de lado algum amigo porque não consegue pensar num meio de ajudá-lo a resolver aquele problema porque é como se nós dois estivéssemos de um lado da ponte, podemos visualizar o outro lado, mas bem no meio a correnteza do rio apavora, as tábuas estão quebradas e não posso evitar me sentir mal por isso. E essa alma colorida também chora não porque queira confete na cabeça e implorar por visualizações, e sim porque às vezes é injusto ver tantas bobagens serem aclamadas mais do que merecem e tudo o que foi criado por mim não ter nem 1/4 da repercussão, do reconhecimento, do carinho.

É fato, eu sei e você sabe, tudo aquilo que se obtém com esforço e luta tem muito mais valor do que o que vem com muita facilidade. Então, pouco e muito não passariam de conceitos meramente relativos? Pois bem, conquistei muito mais do que imaginei, porque não me ative aos números, mas a tudo o que implica aprender a ser profissional mesmo sem ser remunerada e em meio às palavras, revisões e correções, me descobrir.

Lá no início do texto mencionei aquela sensação de frustração que me abate quando me deparo com injustiças que não posso corrigir e as razões pelas quais choro, pois falar a verdade já me colocou em grandes encrencas, fui mal interpretada (eu digo A, fulano entende B e quando sou agredida, beltrano está discorrendo sobre Z), ridicularizada e até mesmo silenciada, seja pelo machismo, pelos velhos e manjados argumentos de quem não construiu nada de útil e por isso mesmo tenta apagar a estrela dos outros.

No entanto, a estrela de um coração de tinta nunca se apaga,sabe por quê?

Porque um bloqueio criativo não dura para sempree se revela o prenúncio de grandes aventuras, descobertas, o incentivo a enxergar a vida com outro olhar mais condescendente e uma postura mais complacente consigo mesmo (a) porque se a escrita deixar de ser algo que você faz por amor, é melhor parar por um tempo e repensar seus valores, é sobremaneira tóxico viver se cobrando a atingir metas desumanas, se comparando o tempo todo, se sentindo menor sempre porque a comparação sempre nos incita a ignorar tudo o que temos de positivo, tudo o que conquistamos e ressaltar aquilo que não temos, contudo também é preciso se perguntar se você está pronto (a) para isso, se tudo o que você espera da vida é ser popular e ponto, porque viralizar é fácil, qualquer vídeo de tombo pode bombar na internet, deixar um legado é bem diferente.

No ano passado um sujeitinho aí me disse que"se eu tivesse 28, 29 anos, que era pra desistir de escrever porque não iria mais rolar esse negócio de publicar livro. Tenta um roteiro, sei lá, vá fazer outra coisa, pois você é imatura, seu trabalho não tem foco e é superficial".Ele me empurrou dentro do buraco e jogou terra em cima porque eu no presente momento estou me despedindo da década dos 20 e poucos anos sem saber o que me espera. Não o respondi, ouvi a tudo sem reagir. Mais tarde, quando fui ver como Tita estava, uma luzinha se acendeu dentro do meu coração:não, Mary, você não pode acreditar nesse cara, o mundo precisa de você, o mundo precisa da Tita, precisa que você escreva.

E aí eu me lembro do meu querido Ramón Valdés. Já pensou se ele tivesse desistido de atuar porque alguém lhe disse que ele era "velho demais" para sonhar? Sempre que penso que estou velha demais para andar de skate ou mesmo me aventurar a escrever todas as histórias que tenho vontade, me lembro de que o papel que consagrou Don Ramón foi o Seu Madruga, quando ele já era um cinquentão e prova de que legado não se contesta é que já faz praticamente 30 anos que nosso querido Madruguinha não está entre nós e ainda rimos de suas piadas, de suas caretas, de seus bordões, e nos emocionamos com a simplicidade do homem fora das telas, que passou por tantas dificuldades e nunca perdeu a fé, então por que eu daria crédito a um babaca machista que posta foto de comida gordurenta?

Bem, o trabalho da garotinha imatura e sem foco já ganhou um concurso no Wattpad, alcançou segundo lugar em outro e já recebeu menção honrosa num terceiro. A porcaria superficial já fez pessoas de vários cantos do Brasil rirem, chorarem e se emocionarem, transformou leitores em amigos, fez com que muitas pessoas se despissem de velhos padrões e se abrissem ao novo e todo dia faz o mesmo comigo.

A propósito, quem é ele? E o que ele fez de relevante? Ele é crítico da ABL? Ele é Publisher da Companhia das Letras, da Intrínseca ou da Rocco? É embaixador do Wattpad? É beta do Nyah?

NÃO, CLARO QUE NÃO!

Ele foi apenas alguém que queria me desestimular a escrever porque tentando forçar a barra para ser escritor, não aconteceu, então ao ver uma pessoa que mesmo não sendo reconhecida continua lutando, sente uma pontada de despeito e pensa que desencorajando os outros irá longe só porque ele foi arrogante e não teve garra de testar os próprios limites, sonhar alto, se aperfeiçoar.

Ter um coração de tinta requer cuidado também.

Bem, infelizmente tem muita gente no mundo que nem esse sujeito que defeca regras que não fazem o menor sentido PORQUE AS PESSOAS NÃO SÃO IGUAIS. Ótimo para quem encontra o amor da vida no primeiro ano do EM, entra na faculdade aos 17, se forma aos 21, se casa antes dos 25 e com 30 já tem dois filhos, um cachorro e uma mansão, mas a vida não é igual para todo mundo, as oportunidades não são justas, cada ser que existe nesse mundo tem uma trajetória que nem sempre será marcada apenas por sorrisos e caramelos. Eu também sonhava em estar formada aos 21, morar noutra cidade aos 24 e aos 30 ter feito muito mais coisas do que fiz, mas a vida tinha outros planos para mim e se estou aqui agora é porque é o meu lugar, aqui devo estar, essas lições preciso aprender e mesmo que às vezes caia na tentação de me sentir deslocada, envergonhada e perdida, por outro lado sei que sou eterna aluna nessa escola maravilhosa sobre dois trilhos porque tudo o que me transforma em mulher se reflete na escrita.

Se meu trabalho num dado momento perdeu o foco foi porque eu tinha me esquecido de empenhar amor naquilo que fazia/faço, só estava me comparando com as outras, me alimentando daquele sentimento ruim de rejeição, me esquecendo do que realmente motivava o meu coração de tinta e que ainda motiva, que são as amizades que tornam a caminhada mais prazerosa, que atenuam o ritmo do percurso, que me ajudam a encarar aqueles trechos mais sinuosos.

Se perdi o foco é porque em algum momento tentaram apagar minha estrela. E conseguiram. Conseguiram porque ainda que inconscientemente eu consenti. E se tentarem porventura apagar a sua estrela, saiba que é só simbólico e momentâneo, você pode redesenhá-la, como eu estou redesenhando todo o meu universo, o meu universo particular, o meu adorável mundinho porque aquela ponte um dia ficará pronta, é preciso ter calma, por mais que seja difícil ver o tempo passar, tanta coisa acontecer e a inspiração ficar perdida ali no meio das responsabilidades e adversidades, entretanto eu te contei que um coração de tinta sempre encontra o seu próprio jeito de cruzar o outro lado da ponte?

Se quiser saber, basta me seguir. Eu também não sabia, descobri vivendo, me machucando, quando tentei parar de escrever e a escrita não quis ir embora de mim porque se nessa vida aquele amor que tanto escrevo não aparecer, um eu sei que vai me acompanhar até o fim e eu não abriria mão dele por ninguém, porque ninguém valeria tamanho sacrifício e se uma pessoa me fizesse querer parar com o que mais amo, com certeza não seria amor à motivação da aproximação.

E, bem, não custa nada confessar que espero que a pessoa com quem espero passar o resto da minha vida (PESSOA, não HOMEM e quando eu falo PESSOA é porque tenho bem claro em mente que a PESSOA que pode vir a me fazer feliz seja uma MULHER e eu não tenho medo disso, mas de passar uma vida inteira me rotulando de algo que não sou) dote de sensibilidade para compreender o que é estar ao lado de um coração de tinta e que também seja um, porque aí seriam dois corações de tinta unidos num propósito magnânimo, dois universos colidindo para formar um terceiro, onde reina o amor sem preconceitos e de mãos dadas às soluções são pensadas, conversadas, decididas e a poesia vive livre de regras, de moralismos, de achismos, de qualquer sentimento contrário à liberdade.

Por hoje, então, este coração de tinta se prepara para descansar, para sonhar um pouco, para no dia de amanhã recomeçar o aprendizado que inclui também o exercício constante da paciência, da tolerância e da sabedoria para filtrar aquilo que agrega daquilo que envenena porque de algo eu os advirto: não vale a pena desperdiçar tempo, energia e lágrimas por motivos que nem merecem se às vezes tudo o que precisa ser feito é transformar o olhar?

14 Décembre 2019 00:47:17 0 Rapport Incorporer Suivre l’histoire
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La fin

A propos de l’auteur

Mary Curitibana, futura jornalista, escritora em constante progresso, escorpiana com ascendente e lua em peixes. Apaixonada por todas as singelezas da natureza, onde se encontra o olhar compassivo de Deus. Em matéria de livros, filmes e músicas, minha lista tende a crescer, mas sempre há aqueles que têm um espacinho especial no meu coração. Prazer, eu sou a Mary.

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