Histoire courte
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ILHADOS NO PICO DA BANDEIRA

Depois de anos de luta, a sociedade sucumbiu à criminalidade e, para piorar a situação, atualmente existe um toque de recolher que inicia às 19h e vai até às 07h. Nesse período não existe policiamento no Estado, casas são arrombadas, lojas saqueadas, mulheres estupradas e passou a ser comum sairmos para trabalhar ao amanhecer e encontrarmos corpos assassinados pelo caminho, corpos esses que ficam ali expostos até o recolhimento, vidas que desaparecem sem nenhuma atenção ou preocupação de quem foi o responsável por terrível crime. Toda população se armou e se tranca em casa para se defender, e quem se arrisca a sair nesse período esta fadado à própria sorte.

Hoje acordei e resolvi fazer uma caminhada pela praia, algo que era comum anos atrás, quando saia andando pela orla e observava o nascer do sol, sentindo a brisa da manhã. Estava indo ajudar minha noiva Lins e sua irmã Luma, que haviam recebido um telefonema preocupante sobre a saúde de sua mãe. Sabíamos que a viagem não seria fácil, teríamos que viajar aproximadamente 258 km, de Vila Velha até Dores do Rio Preto, o que levaria aproximadamente 5h, e o nosso tempo seria apertado, pois só sairíamos por volta de 12h e a chegada estava prevista por voltas das 17h. Restaria apenas duas horas para o toque de recolher, mas como conhecia a estrada pelas diversas vezes que estive no Pico da Bandeira tinha certeza de que daria tempo.

Caminhava pela orla quando senti um toque no meu ombro, me virei e vi um homem que ficava sempre pela orla da praia anunciando o fim do mundo.

— Desculpe, não queria te assustar!

— Você quase me matou de susto!

— Preciso te dizer uma coisa.

— Não quero saber de nada, estou com pressa! — Tentei despistar o velho.

— Quero apenas falar o que o Deus me mandou dizer. — Ele insistiu.

— Muito obrigado, mas não tenho interesse em saber.

Mesmo assim ele não se conteve e começou a falar:

— Você e seus amigos estão prestes a fazer uma viagem muito perigosa, infelizmente não vão conseguir chegar ao destino de vocês, mas essa jornada será a salvação de todos vocês.

Fiquei anestesiado na hora e logo tentei andar, foi que ele insistiu:

— As águas do mar tentarão limpar essa terra, alguns sobreviverão, mas passarão a viver como animais, vocês irão recomeçar a vida nas alturas, uma nova sociedade erguerá depois do caos, mas antes vocês passarão por várias provações e desafios. Vocês estarão correndo risco de vida a todo instante e terão que lutar pela sobrevivência.

Depois dessas palavras, resolvi sair dali e apressar meu passo.

Cheguei ao apartamento apavorado e, assim que Lins abriu a porta, me deu um beijo e foi logo perguntando:

— O que aconteceu! Você foi assaltado?

—Não! Aquele doido da praia me parou e me disse algumas coisas que mexeu comigo, mas não tem importância alguma.

— O que ele disse? – Ela ficou curiosa.

— Bobeiras e mais bobeiras, ele é doido, não sabe o que diz.

Cheguei tão assustado que não havia notado a presença da Luma e do seu namorado Téo.

— Oi pessoal, como vocês estão?

— Estamos bem, ao contrário de você, Ivo. Parece que viu um fantasma. — Respondeu Téo.

—Vai passar, é bobagem, mas e aí que horas vamos partir amanhã?

Resolvemos que sairíamos depois do serviço, por volta de 12h, e programamos de parar apenas uma vez, não queríamos arriscar.

Ficamos conversando mais por algum tempo e resolvi voltar para casa, no caminho me deparei com o doido novamente, mas dessa vez ele estava do outro lado da rua, gritando que o mundo iria acabar e que as águas do mar tomariam todo o Estado. Apressei o passo e passei o mais rápido que pude.

Saímos um pouco mais tarde do que o combinado, já era quase 13h e isso nos daria um espaço de apenas uma hora, mas resolvemos ir assim mesmo. Durante o percurso, tudo correu tranquilamente e resolvemos parar para ir ao banheiro e abastecer, saímos todos do carro e deixamos o frentista abastecendo. Quando voltamos, o capô do carro estava aberto e ninguém estava mais no local, ficamos ali um tempo procurando por alguém, mas, sem sucesso, resolvemos deixar o dinheiro na bomba de combustível para sair o mais rápido possível dali.

Quando estávamos avistando o Pico da Bandeira, o carro começou a esquentar e logo em seguida saiu fumaça, paramos e tentamos descobrir o que havia acontecido, mas sem sucesso. Ficamos desesperados, faltava aproximadamente 30 minutos para o toque de recolher e não passava nenhum carro pelo local, foi quando veio uma caminhonete e pedimos ajuda. Um homem abriu o vidro, deu um sorriso e disse que voltaria para ajudar mais tarde, nesse momento lembrei-me da caminhonete, era a mesma que estava no posto e percebi que nossa vida estava em risco.

—Preciso falar com todos, escutem! Tenho a impressão de que nosso carro foi sabotado por essas pessoas e eles retornaram, temos que nos adentrar na mata e subir em direção ao Pico da Bandeira, como conheço o local teremos mais chances de sobreviver essa noite.

Naquele momento as garotas se desesperaram, mas não era hora para choro e lamentações, corríamos risco de vida, pegamos tudo que conseguimos e entramos mata adentro.

Durante a subida, íamos observando de longe nosso carro, quando tive a surpresa de ver a caminhonete parando ao lado. Na hora, desliguei a lanterna e avisei a todos para ficarem quietos. Então desceram três homens armados do veículo, e percebi que já passavam das 19h, a partir dali estaríamos por nossa conta e risco. Eles ficavam observando o chão como se procurassem algumas marcas para identificar a direção que tínhamos tomado, mas fui muito cuidadoso em não deixar nenhuma pista, depois de alguns minutos entraram no carro e foram embora.

Durante a subida eu estava indo à frente, carregando em uma mão a lanterna e na outra um revólver 38 que meu pai havia me dado de presente. Téo estava no final da fila também armado. Tirando as dificuldades do terreno e da subida íngreme, depois de algumas horas estávamos no pico. Ao chegar o frio era intenso e a primeira coisa que fizemos foi nos abrigar perto das pedras, tivemos que ascender uma fogueira, mesmo sabendo dos riscos, mas não resistiríamos ao frio intenso daquela noite sem fogo. Tentamos arrumar um abrigo com o que conseguimos, mas não pregamos os olhos, um barulho diferente todos ficavam em alerta máximo e passamos a noite toda assim.

Quando o sol nasceu, foi uma sensação maravilhosa estar naquele local sentindo a presença de Deus.

Estávamos nos preparando para descer quando escutamos um barulho muito alto que vinha em nossa direção. Percebemos que era água.

— O que está acontecendo? - Indagou Lins.

Ficamos todos perplexos e ninguém conseguiu responder.

O que toda aquela água estava fazendo ali? Foi quando me lembrei das palavras do doido:

— As águas do mar tentarão limpar essa terra, alguns sobreviverão, mas passarão a viver como animais.

Então, caí em mim e disse:

— Aconteceu um Tsunami.

— Como assim? E a nossa família? — Perguntou Luma.

— Todos morreram, Luma! — Respondeu Téo.

Naquele momento, percebemos que todas as pessoas que amamos estavam mortas, lágrimas escorreram de nossos olhos e por algum tempo ficamos ali parados apenas chorando.

Na mesma rapidez que as águas apareceram, elas baixaram, pensamos em descer o mais rápido possível, mas ficamos com medo de ocorrer uma nova onda e resolvemos ficar ali mais um dia para ter a certeza de que não haveria mais perigo.

Permanecemos todo o dia e à noite ali e sem conversar um com o outro. Queríamos respostas, saber onde e como nossos familiares estavam.

Assim que amanheceu, juntamos as coisas e começamos a descer. Durante a descida resolvi passar em um local onde existia uma mina de e, para minha surpresa, ela estava intacta, com água natural cristalina. Enchemos nossas vasilhas e continuamos a descida. A cada passo podíamos ver a destruição. Sem carro, resolvemos seguir a estrada em direção ao litoral, mas me lembrei das seguintes palavras:

— Vocês estarão correndo risco de vida a todo instante e terão que lutar pela sobrevivência.

Com isso decidimos, seguir caminhando não pela estrada, mas ao lado, para que pudéssemos nos abrigar e esconder sem dificuldades ao menor sinal de perigo.

Chegamos próximos a uma cidade e encontramos algumas pessoas em torno de uma fogueira, aproximamos devagar e percebemos que eles estavam assando pessoas e comendo-as como animais. Na hora me deu vontade de vomitar e controlei a situação, pensamos em voltar, mas resolvemos continuar e passamos escondido sem que nos notassem.

Estávamos distante quando nos deparamos com uma espécie de armazém que havia conseguido permanecer parcialmente em pé. Resolvemos entrar lá dentro, onde escutamos o grito de crianças pedindo socorro e fomos ao encontro. Já estávamos próximos dos gritos quando vimos uma criança e um adolescente correndo de um homem.

Assim que partimos para ajudar, outro homem surgiu e, junto às crianças, assassinou o perseguidor com facas. Mais tarde descobrimos que o homem morto era o pai de outras crianças, as quais tiramos dali.

Passamos a noite no meio do mato, e me dei conta de que tudo aquilo que havia escutado na praia era verdade, e o melhor a fazer era retornar ao pico e tentar sobreviver naquele local, pois não existia mais civilização, resolvemos voltar com aquelas crianças que se tornariam nossas filhas e tentaríamos viver para confirmar a última profecia:

Recomeçar a vida nas alturas e erguer uma nova sociedade.

3 Octobre 2019 15:45:45 5 Rapport Incorporer Suivre l’histoire
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La fin

A propos de l’auteur

Maykow Debrittus Natural da cidade de Ipatinga, localizada na região leste do estado de Minas Gerais, a 240 km da capital Belo Horizonte. Venho de uma família de quatro irmãos, casado e pai de três filhos. Publiquei meu primeiro livro "Adoção, uma história de Vida”, para homenagear meus filhos, a partir daí passei a escrever por hobby e paixão. Tenho outro livro publicado “O Exercício do Amor – Drama”, participações em revistas, antologias e coletâneas.

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gakkomura gakkomura
Que bom que as mulheres não surtaram... Em situações assim, geralmente elas desandam a falar, e falar, e falar e falar... É uma merda! Rs.
October 31, 2019, 23:22
MiRz Rz MiRz Rz
Olá, eu sou a MiRz do Sistema de Verificação do Inkspired. O Sistema de Verificação atua para ver se as histórias estão dentro das normas do site e ajudar os leitores a encontrar boas histórias no quesito de gramática e ortografia; verificar sua história significa colocá-la entre as melhores nesse aspecto. A verificação não é obrigatória para sua história continuar sendo exibida no site, portanto se não se interessar em obtê-la, basta ignorar essa mensagem e não alterar o seu texto. Caso queria que outras histórias suas sejam verificadas, é só contratar o serviço através do “Serviços de Autopublicação”. Sua história está marcada como “em revisão” pelos seguintes apontamentos retirados do seu texto: 1) Algumas palavrinhas faltam alguns acentos, como em “[...] vai até as 7h [...], onde “as” precisa ser acentuado por se tratar de indicação de horas, em “contrário” também faltou um acento, bem como em “revólver”. 2) Concordância nominal. Em alguns momentos do texto, houve falta de concordância nominal, onde substantivos masculinos vieram acompanhados por artigos ou pronomes femininos e vice-versa, como em “[...] a noite todo assim [...] no lugar de [...] a noite toda assim. [...]”. 3) Falta ou substituição de palavras. Na frase “[...] tivemos ascender o fogo [...]” faltou um “que” entre “tivemos” e “ascender”. Em “[...] a barulho diferente [...]” no lugar de “[...] um barulho diferente [...]”. 4) Faltou um travessão após o diálogo em “ [...] — Todos morreram, Luma! Respondeu Teo. [...]. Como o padrão do seu texto apresentou o travessão após o diálogo, nós temos que avisar quando faltar. Caso você estiver interessado em uma nova verificação, após corrigir os erros de todos os capítulos, basta comentar aqui, que eu farei uma nova releitura. No geral foram erros muito pequenos, que acredito que uma revisão mais minuciosa por parte do autor vá corrigi-los. No geral foram erros muito pequenos, que acredito que uma revisão mais minuciosa por parte do autor vá corrigi-los. No mais, a história está ótima, parabéns! Tenha uma boa semana. :)
October 22, 2019, 15:12

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