Real Suivre l’histoire

the9intheafternoon Layse Amaral

Julie sempre achou que tudo que parecia ser complicado era o que lhe serviria melhor. Porque quanto mais complicado, mais perto da realidade seria. Desde a escolha de sua profissão até seu filme favorito, seu instinto sempre lhe levou para o lado mais complexo. Até conhecer Collin. Collin e suas várias mudanças de humor. Collin e seus vários jogos. Collin, que faz Julie se perguntar até que ponto as complicações devem fazer sua vida mais real. História baseada em fatos reais e adaptada dentro do contexto da música da banda Years & Years, Real. DISCLAIMER: Esse conto relata a história de um relacionamento abusivo. Se você se sente incomodado ou possui algum gatilho relacionado ao assunto, considere não ler este conto.


Histoire courte Déconseillé aux moins de 13 ans.

#years-and-years #songfic
Histoire courte
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Capítulo Único

I broke my bones

Playing games with you

This type of fun

It makes me blue


O silêncio na pequena casa de poucos cômodos era palpável. Até mesmo a respiração dos dois habitantes da mesma parecia estar em suspensão. Um contraste gigante com os gritos e portas batendo de poucos minutos antes. A mobília ainda estava espalhada, o sofá empurrado para o lado, a poltrona com as costas pressionadas contra a parede, o chão de madeira marcando a trajetória furiosa que essa fez. Uma televisão foi ligada na casa do vizinho, fazendo tudo naquele ambiente soar ainda mais quieto e agressivo. Na bancada da cozinha, Julie inspirava fundo.

Sua cortina de cabelos castanhos grudava nas suas bochechas. A mistura de lágrimas e suor bagunçava sua fisionomia junto com os próprios fios. As mãos estavam espalmadas sobre o esguio balcão de mármore preto, o que fazia sua pele alva ainda mais evidente. Parada ali, em pé, parecia ter corrido uma maratona e que estava a se recuperar da mesma.

Mas, afinal, quem poderia dizer que não era assim?

Havia um tremor, dos mais discretos, na ponta de seus dedos. Não era o frio; o termostato estava ajustado de uma forma que a temperatura ambiente não a permitiria nem suar nem sentir suas extremidades gelando. Era a adrenalina, a emoção, a conclusão. Até mesmo as células de seu corpo sabiam que a hora havia chegado.

O tremor era alívio, também.

Uma decisão tinha que ser tomada, e Julie sabia que sua sanidade dependia disso. Os jogos haviam chegado ao seu ápice, naquela discussão e o que foi dito não poderia ser retirado. E nem queria retirar. Se pudesse, repetiria palavra por palavra, mais uma vez, mesmo que isso resultasse naquela explosão cruel da qual se viu obrigada a participar. Julie não era do tipo de pessoa que apreciava uma briga. Escapou de várias no decorrer de seus 25 anos, porque achava tolo um debate apaixonado de argumentos que não seriam mudados ou derrubados. Sempre optou por conversas inteligentes e respeitosas e era essa a sua proposta até Collin ser... bem, Collin.

Ela levantou sua cabeça lentamente, fitando o curto corredor que levava ao quarto de hóspedes, o banheiro social e, finalmente, o quarto que os dois dividiam nos últimos dois anos. Sabia que Collin estava ali dentro, a cara fechada, os braços cruzados como uma criança birrenta. Sabia que seu cenho estaria franzido, enquanto encarasse insistentemente a porta até ela resolver abri-la e atravessá-la para lhe responder seu ultimato.

Ou re-ultimato. Ou até mesmo ultimato, versão final. Não saberia dizer ao certo.

Havia um odioso padrão nas suas brigas mais sérias. Um padrão que se desenhava a partir do momento em que Julie o contrariava de forma definitiva. Collin não sabia lidar com a namorada lhe dizendo um não. Não sabia como reagir perante a mulher que dizia ser perdidamente apaixonado levantando uma bandeira e defendendo-a por ela mesma. E isso o fazia dizer coisas que faziam Julie vacilar, se sentir culpada. Coisas como “você não tem o direito de agir assim comigo” ou “você está me maltratando e não perdoarei isso”. O próximo passo era a reclusão em seu quarto e o silêncio. Ele plantava a semente da dúvida e desaparecia das vistas da moça, deixando-lhe a sós com seus pensamentos. E por fim ela ia até ele, após lágrimas e escolhas refeitas. E pedia desculpas a ele, sem nem ao menos entender o motivo de estar fazendo isso.

Ali, na cozinha, com um comercial de pasta de dentes ao fundo em uma voz distante, Julie decidia o que fazer com aquele padrão opressor.


×


Oh, I

I think I'm into you

How much do you want it too?

What are you prepared to do?


3 anos antes

A saída da amostra de cinema era composta de várias pessoas que Julie chamava de wanna be cults. Fazia parte de seus próprios estudos sociais observar pessoas assim, que se esforçavam tanto para parecerem superior intelectualmente que outras. Elas eram um pequeno eixo na grande máquina complexa na qual toda as vidas eram engendradas. A mulher de vinte e poucos anos acreditava cegamente, desde pequena, que a vida era feita de coisas complicadas, algumas mais do que as outras, e que se você se cercasse das mesmas, você estaria no centro real da coisa. Análises de comportamento humano por muitas vezes cimentavam esse seu ponto de vista. Por muito pouco não entrou no ramo da psicanálise. Mas... física teórica lhe pareceu ainda mais complexo que isso e foi então sua escolha óbvia. Poucos anos depois de formada, trabalhava na faculdade em que se formou como uma de suas mais promissoras pesquisadoras.

Ela estava no centro da complexidade, mais uma vez. Ela estava junto da sua realidade.

Porém sua ida ao centro de convenções não foi mais uma comprovação de sua obsessão. Estava ali por causa do homem de trinta e poucos anos, vários centímetros mais alto que ela, que naquele instante limpava as lentes de seus óculos na barra da própria camisa. Era um encontro. Um dos vários que estava tendo com Collin, desde quando foram apresentados. Ele era um espécime adorável, na sua opinião. O queixo pontudo, quase sempre escondido por um rastro de barba escura, combinava com o olhar caído de seus orbes castanhas. Seus cabelos cheios, escuros e finos viviam caindo aos poucos sobre sua testa, o obrigando a jogá-los vez ou outra para trás, com um ar incomodado. Sua risada que a fazia sorrir sempre que a ouvia. O modo como suas ideias eram expostas em um fluxo constante, porém inteligível. O jeito como sempre que ele passava seus braços ao seu redor, dava um jeito de ter a cabeça dela apoiada em seu ombro. Ele a atraía de uma forma que não sabia nem por onde começar a explicar.

— O quê? — Collin perguntou a ela, sorrindo de canto, ao flagrar o insistente olhar que a mulher lhe lançava.

— Então? — Julie perguntou de volta, parecendo um pouco ansiosa e com várias expectativas. — O que achou?

— Bem... é Donnie Darko. E é seu filme favorito. — O homem começou a dizer, ponderando tanto com suas palavras quanto com seus gestos cuidadosos. — Então... eu meio que estou processando o que assistimos. Eu acho que respondo isso daqui a algum tempo.

— Esperto — ela lhe respondeu, sorrindo para ele com um leve ar de admiração.

Um silêncio leve surgiu entre os dois. Aquele tipo de silêncio que se compartilha depois de boas gargalhadas ou de um longo olhar cúmplice. Julie se sentia à vontade na companhia dele. Não se sentia estranha, ou deslocada, ou qualquer outro adjetivo que já escutou na vida por causa de seu gosto pelo diferente. O modo como Collin falava com ela, como fazia seu corpo reagir sempre que seus olhares se cruzavam... Era como uma explosão, que começava pequena e terminava como um verdadeiro show pirotécnico. Ela se tornava o ser mais extasiado possível naquele momento, onde quer que estivessem.

— Vamos para onde, agora? — Julie resolveu quebrar o silêncio, colocando-se em movimento. Collin andava em seu lado, sem a menor pressa. — Comer alguma coisa? Beber alguma coisa? Quebrar alguma coisa?

Ele riu de sua piadinha ruim de imediato, a fazendo olhar para o chão, satisfeita consigo mesma e ao mesmo tempo se sentindo muito boba. Não entendia bem o que estava acontecendo com ela. Estava tão viciada na companhia de Collin que seu comportamento até fugia do usual. Era como se estivesse regressado a sua adolescência, apesar de que nem mesmo nesse período agiu de maneira tão embaraçosa. Era seu efeito sobre ela. E ela queria, de uma maneira muito complicada de se entender, é claro, que esse efeito permanecesse.

— Eu não sei... Eu não estava muito afim de emendar caminho por aí.

A resposta pareceu um tremendo soco no estômago de Julie. Talvez o seu rosto petrificado a tenha traído em algum momento. Ela não saberia dizer. Não tinha como testar suas feições naquele momento sem parecer maluca. Os olhos castanhos e ágeis de Collin vasculharam seu rosto, notando algo. Definitivamente ela reagiu à notícia com todo o seu corpo. Escolheu então apenas acenar com a cabeça, com um sorriso amarelo, enquanto olhava para o outro lado da rua. O calor da vergonha subia aos poucos para a sua cabeça.

— Ou poderíamos ir para a minha casa — a voz dele sugeriu em seu ouvido, a fazendo ter ligeiros calafrios.

Voltou seu rosto para encará-lo, um sorriso autêntico brotando em seus finos lábios naturalmente rosados. Os cabelos escuros dançaram para o lado, quando pendeu sua cabeça o encarando. Seus olhos castanhos captaram o exato momento quando Collin encarou sua boca por segundos a mais do que o normal. As intenções dele eram claras. E Julie gostava da ideia.

— Então sua casa é nosso destino de hoje.

Não se importou com o fato de que em primeiro momento ele havia lhe rejeitado. Não viu sentido em se ater a isso quando, após cinco encontros, finalmente iriam pular as amenidades. Isso deveria significar algo, é claro.

Deveria significar que ele também estava pronto para um novo passo.


×


I think I'm gonna make it worse

I talk to you but it don't work

I touch you but it starts to hurt

What have I been doin wrong?

Tell me what it is you want


2 anos antes

A casa cheirava a desinfetante e até mesmo isso deixava Julie ansiosa. Collin limpou tudo, em uma crise de organização compulsiva. Ou talvez vingança, porque ela tinha alergia ao tipo de produto usado. Três meses dividindo o mesmo teto e já estavam tendo uma discussão em um nível tão agressivo que seu corpo parecia querer repelir essas emoções. Definitivamente ela não havia nascido para esse tipo de coisa. Sua garganta queria fechar e ela lutava contra as lágrimas que ameaçavam escapar a qualquer momento. Estava confusa, perdida. E bastante frustrada.

— Se você ao menos me dissesse o que quer... — Ela começou a dizer, balançando a cabeça, parecendo incrivelmente cansada.

— Ah, agora quem não sabe o que quer sou eu? — Collin perguntou, parecendo realmente incapaz de acreditar no que estava ouvindo. — Você toma uma decisão completamente diferente do que você é e eu que não sei o que eu quero? Okay, Julie, okay.

— Eu não fiz nada demais! Você mesmo já fez isso antes! — Agora quem parecia não acreditar era ela.

Então Collin estava realmente irritado com ela porque ela escolheu fazer hora-extra no trabalho, enquanto que ele mesmo fazia isso no jornal onde trabalhava? Julie estava perdida em seus sentimentos. Raiva crescia dentro de si. Uma revolta contra o posicionamento do namorado era a resposta óbvia para ela. Porém, em um canto sombrio de sua mente, um canto que crescia e se espalhava tal qual um nevoeiro obscuro, o pânico tomou conta. Ela se magoaria com ele, se fosse o oposto, certo? Então estava sendo mesmo alguém ruim. Certo? E Collin estava com raiva, muita raiva. E a ideia do homem com raiva de si deixava Julie terrivelmente assustada e nervosa. E se ele desistisse dela?

— Foi algo completamente diferente. Eu fui obrigado pela minha chefe a ficar. — Collin pressionava as pontas dos dedos no peito, dando ênfase a cada uma de suas palavras incrédulas. Seu olhar misturava raiva e aversão. Quase como se tivesse enjoado do argumento da namorada. — Você não tem o direito de comparar as duas coisas.

— Eu... eu não... — Julie não sabia mais o que dizer a ele. A confusão em sua mente a fazia querer gritar. E chorar. E de repente se viu tão pequena ali na frente dele, tão indefesa, tão errada. Com passos vacilantes, se aproximou de Collin, esticando a mão na sua direção. — Eu sinto muito, eu não...

— Não quero ouvir suas desculpas agora — ele lhe cortou, se afastando dela abruptamente. Suas costas eram rígidas quando o viu andar em direção ao quarto dos dois e fechar a porta.

E então o silêncio dominou a cena, pela primeira vez na vida de Julie.


×


Oh I think that If I had been enough for you

Would I be better?

Would I be good?

And I'll do you what you like if you'll stay the night

You tell me you don't think you should

Do it boy


Com uma calma que nem parecia sua, Julie abriu o armário da cozinha e retirou de lá guardanapos de papel, secando todo o líquido salgado que se misturou em seu rosto. Os dedos ainda tremiam, sim, mas não como antes. A adrenalina estava diminuindo e conseguia finalmente pensar com clareza. E quanto mais pensava, mais questionamentos tinha vontade de fazer para Collin.

Como, por exemplo, se ele achava que ela não era suficientemente boa para ele.

Claro, aquilo cruzou sua mente nas várias discussões que tiveram, mas o contexto era outro. Anteriormente pensava nisso como se fosse o fim do mundo. Estava certa de que de fato não era o suficiente, de que era estranha com gostos estranhos, e que ninguém mais além dele iria aceitar de braços abertos sua natureza incomum. E que tinha sorte, muita sorte, de Collin ter se apaixonado por ela. Por isso o medo de perdê-lo lhe sufocava a cada briga que tinham.

Porém, naquele precioso instante, havia amargura e ironia em sua mente.

Julie se orgulhava de suas conquistas na vida. Do bom emprego estável que tinha conseguido por seus próprios méritos antes mesmo dos 30 anos, dos seus conhecimentos gerais bem amplos. De seu comportamento social adequado e de sua empatia com os outros. De seu bom humor quando as coisas tendiam a dar errado, não se abalando de fato com o caos das contrariedades. Em sua opinião, era mesmo uma boa pessoa. Então por que Collin só ficava com ela quando ela parecia acreditar no oposto? Em outras vezes, quando questionado por ela sobre isso, Collin sempre dizia que ele não achava que ela era menos, em momento algum... Mas suas ações demonstravam o contrário.

Amassando o papel com fúria e jogando-o na lata de lixo mais próxima, Julie respirou fundo. Não restava mais dúvidas em sua mente. Nada que anuviasse suas certezas. Seu cérebro era de uma claridade que faria olhos desatentos se fecharem devido a seu brilho.

Se ele a achava menos, que ele fosse em frente com isso. Julie tinha uma resposta final a dar sobre isso.


×


I itch all night

I itch for you

You're just my type

What's a boy to do?


3 anos antes

Julie estava em seu escritório no campus, escrevendo anotações em um grande quadro branco, quando seu celular vibrou com uma notificação. Saiu praticamente em disparada em direção ao aparelho, se jogando no tampo da mesa e verificando ansiosa sobre o que se tratava. Um mantra passava por sua mente: “por favor, que seja ele”. Se passaram cinco dias desde o seu último encontro com Collin, o que se estendeu até a casa dele, que se estendeu até a manhã do dia seguinte. E desde então a mulher parecia empalidecer ainda mais a cada momento que passava sem qualquer notícia nova sobre ele. Desbloqueou a tela do celular e então leu a mensagem recebida.

“Tenho pensado em você. Todos os dias. Todas as noites. Quando finalmente poderei ver a minha garota dos gostos estranhos novamente?”

Uma espécie de grito agudo escapou dos lábios de Julie. Respirando fundo, apoiou o aparelho na ponta de seu queixo quadrado, enquanto pensava bem em como responder àquela pergunta. Queria parecer misteriosa, instigante e especial. Principalmente especial. Estava louca por ele e por algum milagre ele parecia estar mesmo afim dela. Ele a chamou de minha!

“Ouvi dizer que o expediente de hoje deve terminar mais cedo. Talvez pudéssemos nos encontrar em um barzinho perto daqui. Que tal?”

Aguardou alguns minutos, até que o celular vibrou novamente. A resposta havia sido dada.

“Não é justo, você não vai gastar nenhum tempo até chegar lá. Tsc. Conheço um lugar que fica no meio do caminho, para os dois. O que acha?”

Julie sorriu com a resposta, um pouco vacilante. Ele iria se encontrar com ela. Ele disse que estava pensando nela. Por que ele precisava contrariá-la de imediato? Balançando a cabeça, como se isso fosse arejar seus pensamentos, resolveu deixar isso de lado. Não era importante. O importante era que Collin estava interessado nela. Que ela havia o conquistado.

Enquanto digitava sua nova resposta, sentia que o coração estava para saltar da caixa torácica de tão feliz que estava.

×

Os sapatos baixos de Julie eram silenciosos, mas teve a impressão de que cada passo dado ecoou por todo o corredor. Talvez fosse sua consciência limpa e fresca, como já não o era a tanto tempo, que estava conseguindo perceber coisas que antes lhe passavam alheias. Ah, as ironias da vida. Parou em frente a porta do quarto, encarando a maçaneta. Era a hora. Estava preparada para isso, sabia que estava. Sabia qual era a escolha mais saudável a se fazer. Era pelo bem dela. Era o que precisava de verdade.

Assim que girou a maçaneta e abriu a porta, conseguiu vislumbrar Collin exatamente como esperava: os braços cruzados, o rosto endurecido, a postura rígida. O modus operandi lhe era tão familiar que quis rolar os olhos. Mas não iria fazer isso. Pretendia colocar sua opinião para ele sem perder a sua razão em momento algum.

— Eu tenho uma resposta — anunciou, passando pela porta e parando exatamente na frente do homem que lhe observava com uma expressão birrenta. — Tenho uma resposta para a sua resposta sobre eu querer ou não ser livre.

— Eu não falei isso... — Collin começou a argumentar, porém Julie ergueu seu indicador no ar, pedindo a palavra. Ele respirou fundo, sugando até mesmo o ar de dentro de suas bochechas, antes de fazer um curto gesto com uma das mãos. — Certo, prossiga.

— Você disse que eu deveria responder se eu ainda estava comprometida com você ou não. Porque você achou que era falta de comprometimento meu não atender as suas ligações durante toda a tarde, mesmo quando avisei que passaria o dia em reuniões com outros pesquisadores da universidade. — Julie continuou falando, em uma velocidade rápida, porém inteligível. Tinha que falar rápido. Era o que a vontade de acabar logo com aquilo lhe deixava fazer. — Você me perguntou, mais uma vez, se eu sabia o que eu queria. E, bem, eu vim dizer o que eu não quero.

Julie assistiu Collin se contorcer na beira da cama, provavelmente se preparando para mais uma rodada de acusações onde ele depositaria toda a culpa da briga dos dois sobre ela. Mas ela não daria espaço para isso. Não mais.


Well, love I will let you go

Love I will let you go

Love I will let you go

Love I will let you go

Oh it's enough to feel better

If I could


— O que eu não quero é que me faça pensar que eu não sou o suficiente. Porque eu sei que sou. Eu sei que sou o melhor que posso ser, todos os dias. Que eu me doei desde o primeiro momento para esse relacionamento dar certo. Que eu aceitei muita coisa calada e que voltei atrás de outras tantas coisas, só pra fazê-lo feliz. Mas essa fase passou. Eu não posso me sentir melhor enquanto alguém me puxa para baixo. Eu não posso ser melhor quando não tenho espaço de verdade para isso.

Julie deu mais um passo à frente, fitando Collin diretamente em seus olhos. O peso das palavras a seguir era tão grande e ao mesmo tempo tão satisfatório. O alívio fez brotar um sorriso sincero em seus lábios finos, antes de finalmente botar para fora aquilo que deveria ter dito há tanto tempo.

— O que eu não quero é uma pessoa tóxica na minha vida. Eu quero ser livre. Livre de você.

Collin não se dignou a dar uma só palavra sobre aquilo por um longo tempo. Ele assistiu a mulher pegar sua bolsa de mão e jogar ali dentro todos os seus itens importantes. Porém, quando ela se encaminhou para a porta, resolveu fazer uma última investida.

— Então é isso? Você não vai querer nem me ouvir? Vai falar tudo o que quer e vai embora? — Perguntou, visivelmente ultrajado.

— Eu cansei dos seus jogos e de ficar destruída depois deles, Collin. Não tem mais nada que fale que não tenha dito antes. — Julie afirmou, balançando a cabeça com tristeza, porém cercada de segurança com sua decisão. — É por isso, amor, que estou lhe deixando.

Com a cabeça erguida, Julie caminhou em direção ao corredor e posteriormente para fora da casa. Não precisava daquele amor. Não precisava daquela complexidade em sua vida. Ainda acreditava que o destino eram eventos complexos reunidos e que juntos formavam a realidade. Porém a eliminação de alguns elementos difíceis não tornava o todo mais artificial. Pelo contrário. Naquele momento, Julie se sentia mais abraçada pela vida real do que em qualquer instante anterior.

4 Septembre 2019 15:10:00 2 Rapport Incorporer 3
La fin

A propos de l’auteur

Layse Amaral Escritora desde o começo de 2010, acrescentando referências a cultura pop em qualquer ocasião possível desde sempre. Fanfics postadas na conta @notaqueenakhaleesi.

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Donna Dan Donna Dan
Olá, Layse! Sou da equipe de Verificação do Inkispired e vim te parabenizar pelo seu trabalho. Estou, na verdade, apaixonada pela sua escrita! Não vou mentir que inicialmente o alerta de relacionamento abusivo me preocupou um pouco antes de começar a leitura, mas respirei fundo e pensei: vamos lá! Realmente é um tema sensível, entretanto sua escrita é leve e nos conduz em um rítimo muito confortável e cúmplice da personagem rumo a sua liberdade. Como mulher e leitora, acho importante a produção de mais obras e personagens com a força de Julie. As quebras de tempo na história foram muito bem marcadas com a ajuda dos trechos da música escolhida e fica bem claro para o leitor a evolução do relacionamento dos dois. Pessoalmente, gostei muito da forma que você expôs esta cronologia. Acredito que sempre que estamos para fechar um grande ciclo em nossa vida, e por consequência iniciar outro, refletimos como chegamos naquele ponto. Foi justamente este movimento que sentia a personagem Julie fazendo na história, maravilhosamente retratado por você. Em relação à gramática e ortografia também está de parabéns. como disse anteriormente a leitura é muito agradável e não percebi nada que incomodasse ou atrapalhasse a leitura. Quando finalizei o conto, muito contente com Julie seguindo em frente, pensei imediatamente que este seria um conto digno do nosso desafio do mês, o Lute como uma garota. Você conhece o desafio? No caso, só são aceitas histórias feitas especificamente para o desafio e esta não poderia ser usada. Mas, julgando pelo seu excelente trabalho com esta obra, gostaria que considerasse uma nova produção. O que acha? No Blog Desafios 2019/2019 você encontrará as regras em “Lute como uma garota”. Ficaria muito feliz em ver uma obra sua no desafio! Obrigada por postar! Seu trabalho é incrível!
23 Octobre 2019 12:05:55

  • Layse Amaral Layse Amaral
    Levei muito tempo para processar esse comentário, cheguei a reagir nas minhas redes sociais, mas acho que agora consigo falar diretamente. Antes de mais nada, muito obrigada por todos os elogios, de verdade, foi algo muito enriquecedor de se ler, especialmente no período conturbado no qual me encontrava. Também gostaria de dizer, sobre o assunto, é que eu tenho um carinho muito grande por esse conto/songfic, uma vez que ela foi escrita logo após eu ter experienciado esse tipo de relação; meu objetivo, na época, era ser justamente um contraponto às publicações que eram muito mais comuns no seguimento romance, que exaltavam relacionamentos abusivos. Fico muito contente da mensagem de Real ser eficiente mesmo depois de anos da primeira vez que foi publicada. Infelizmente no período do desafio estava ocupada com novas situações particulares a serem digeridas e processadas, mas adoraria escrever mais contos sobre mulheres que lutaram por si. Novamente, meu muito obrigada por suas palavras! 1 week ago
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