lara-one Lara One

Lembram-se da primeira temporada de One? Em Yeti vocês viram Mulder confessar seu amor por Scully. Em Enigma 2, vocês viram esse amor ser consumado. Mas será que vocês realmente sabem de tudo o que aconteceu na primeira noite? A pedido da Thamara, aqui vai a fic com a primeira noite de nossos agentes. E a cena final que cortei de Enigma 2 - vocês nunca suspeitaram, né? - Tive de revirar pilhas de disquetes pra achar a bendita! Naquela época eu cortei porque achei que vocês ficariam perdidos sem entender nada (dentro da minha percepção dos personagens as cenas seriam psicologicamente complexas demais) e por achar que ‘coisinhas‘ muito descritas chocariam vocês e eu tinha vergonha de publicá-las na época. Bem, dei umas modificadas de leve, só incrementei mais coisas... Tentei fazer um prefácio. Mas não me atrevi. Nunca acharia as palavras que definissem o relacionamento de Mulder e Scully. O assunto desta fic é sagrado demais para nós shippers. Mas eu sou amante da música e ela expressa sentimentos de uma maneira mais intensa porque usa a poesia. Sim, havia pilhas de músicas em todas as línguas, inclusive os temas de nossos agentes. Mas sinto, nem Foo Fighters ou Moby poderiam explicitar todo o sentimento. Então achei uma música, ao acaso, em nossa língua. Então, o prefácio da fic é do Lulu Santos. Ele diz tudo. Eu não faria melhor. Dedicada à minha amiga Thamara Fraga.


Fanfiction Série/ Doramas/Opéras de savon Interdit aux moins de 21 ans.

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S05#06 - THE TRUTH IS IN YOUR HEART - PARTE I

‘Eu gosto tanto de você que até prefiro esconder. Deixo assim ficar subentendido. Como uma ideia que existe na cabeça e não tem a menor obrigação de acontecer. Eu acho tão bonito isso de ser abstrato baby, a beleza é mesmo tão fugaz. É uma ideia que existe na cabeça e não tem a menor pretensão de convencer. Pode até parecer fraqueza, pois que seja fraqueza então! A alegria que me dá, isso vai sem eu dizer... Se amanhã não for nada disso, caberá só a mim esquecer. O que eu ganho ou o que eu perco ninguém precisa saber. Eu gosto tanto de você que até prefiro esconder, deixo assim ficar subentendido. Como uma ideia que existe na cabeça e não tem a menor pretensão de acontecer.’

(Apenas mais uma de amor – Lulu Santos)



📷



INTRODUÇÃO AO EPISÓDIO:

Época atual - Apartamento de Mulder – 8:31 P.M.

[Som: Spandau Ballet – True – {até o início dos backings vocals}]

[Início do acorde de introdução aos backings: Fade out – (tela escura se abre)]

[Ambiente a meia luz de um abajur.]

Foco na escrivaninha. O computador ligado.

Há um texto não terminado na tela, com o título em letras de fôrma:

‘A REVELAÇÃO’.

Duas canecas sobre a mesa.

Uma rosa vermelha sobre um livro envelhecido de Pablo Neruda, cercada por sementes de girassol espalhadas ao redor.

Atrás do livro, um porta-retratos.

Nele, a foto do casal.

[Início da música cantada]

A ruiva abraçada ao pescoço dele, olha pra câmera, com um sorriso de felicidade nos lábios, enquanto ele, com a mão na cabeça dela, a segura contra seu peito, de olhos fechados, num sorriso de ternura.

Em seu dedo, uma aliança. No dela, um anel.

No pedaço de tempo imortalizado, estampado no papel, uma única certeza: essa é a verdade.

O sorriso estampado em cada rosto revela o motivo comum: felicidade.

A música confirma: ‘This is the sound of my soul’. (este é o som da minha alma)

O som do sorriso dela é ouvido.

Desvio do foco para o sofá. [A música diminui de intensidade]

Mulder sentado no sofá. Scully deitada entre as pernas dele, aninhada em seus braços. Os dois riem de alguma coisa. Despreocupados. Mulder segura as mãos dela entre as suas. Ela olha pro nada, relembrando alguma coisa.

MULDER: - Realmente, Scully. As coisas eram difíceis naquela época.

SCULLY: - Você se lembra do quanto éramos confusos?

MULDER: - Mas nós ainda somos confusos!

SCULLY: - (SORRI)

Scully ergue a cabeça e olha pra Mulder, passando a mão em seu rosto ternamente. Mulder olha pra ela.

MULDER: - (CURIOSO/ NUM SORRISO) O que foi?

SCULLY: - Quero morder suas bochechas.

Ela começa a beijar, mordiscar e sugar as bochechas dele, enquanto fala.

MULDER: - Au!

SCULLY: - (SORRI)

MULDER: - Sua canibal!

SCULLY: - Adoro suas bochechas, seu rosto quadrado é próprio pra mordisca-las. São bochechas provocantes.

MULDER: - (DEBOCHADO) É... E eu que pensava já ter ouvido falar em tudo...

Scully sorri. Aninha-se mais contra o corpo dele. Mulder a mantém firme entre seus braços e pernas. Fecha os olhos.

Scully fecha os olhos também, recostando sua cabeça no ombro dele, o nariz em seu pescoço.

[Silêncio no ar. Apenas o som dos acordes da música.]

Ela quebra o silêncio. Fala de olhos fechados, num tom baixo, que ele pode ouvir perfeitamente, enquanto sente na pele o ar quente que sai da boca de Scully junto às palavras entrecortadas.

SCULLY: - ... *Amo você em sua fragilidade de menino, ou em sua virilidade de homem... Amo você quando existe em seu olhar um ponto de interrogação...

Ele abre os olhos, surpreendido. Ela, de olhos fechados, continua a falar.

SCULLY: - Amo você quando o calor das suas mãos dissipa o frio da minha alma. Amo você quando é forte e me protege da maldade do mundo. Amo você quando é fraco e busca o abrigo do meu peito para voltar a ser criança e chorar lágrimas que só eu posso ver. Amo você quando a cor indefinida dos seus olhos vem de encontro aos meus e me faz perguntas, que só meu coração pode lhe responder....

Mulder morde os lábios, perdendo o olhar no aquário, um ponto de fuga. Ela continua falando, de olhos fechados, como se precisasse dizer algo trancado há muito na garganta.

SCULLY: - Amo você quando consegue entender o que meus olhos lhe perguntam. Amo você quando nossos risos se casam no mesmo tom, e sobem ao ar formando nuvens de felicidade. Amo você no instante que tenho medo de perde-lo. Amo você quando se torna infinitamente grande, pela grandeza do seu amor, e, ao mesmo tempo, infinitamente pequeno, pela simplicidade da sua bondade pura. Amo você com minha intensidade de mulher, pois você é um homem.

MULDER: - ...

Scully abre os olhos. Ergue a cabeça e olha pra ele. Mulder está mudo, segurando lágrimas que tentam escapar.

MULDER: - Desculpe. E-eu... E-eu fui surpreendido.

VINHETA DE ABERTURA: TRUE


BLOCO 1:

[Fade in]

A REVELAÇÃO

[Fade out]

Cinco anos antes – Nepal - 3:27 A.M.

Mulder acorda. A primeira visão que tem é a do pescoço de Scully.

MULDER (OFF): - Acordei. Então me dei conta de que estava agarrado nela. Meu braço estava ao redor de sua cintura. Minha perna por sobre suas pernas. Ela dormia. Não havia notado que me virei enquanto dormia e instintivamente me envolvi em seu corpo, procurando calor. A sensação que tinha era de que havia feito algo que sentiria vergonha. Então me afastei. Mas ainda assim, permaneci virado pra ela, a observando enquanto dormia... Suas costas, sua nuca... Escutava sua respiração... Podia sentir seu cheiro e o calor de seu corpo contra o meu. Então veio a sensação. Eu queria mais. Eu a queria. Queria toca-la, mas não como estava acostumado a toca-la. Eu queria sentir o corpo dela. O calor dela. O cheiro, a pele, o gosto...

Mulder levanta sua mão, ainda enfaixada, e passa por sobre os cabelos e o corpo de Scully.

MULDER (OFF): - Ergui minha mão e a deslizei imaginariamente por seus cabelos, seu tronco, seus quadris... Não podia toca-la, ela não entenderia. Mas podia imaginar isso. Precisava dar a mim mesmo pelo menos a ilusão... Ela não veria nada, estava dormindo. E eu podia me iludir por alguns segundos. Aproximei meu rosto de sua nuca e pude sentir o seu perfume. Seu cheiro suave de canela. Uma sensação única. Uma oportunidade única... Ela dormia ali, ao meu lado. Nunca esteve tão próxima do meu corpo e tão vulnerável. Senti-me um covarde, por saber que só tinha coragem porque ela estava dormindo. Então fechei meus olhos. Precisava conter isso. Frustrado, virei-me na cama, de costas pra ela e fiquei observando a parede de madeira, enquanto sentia o calor do corpo dela, que mesmo distante de mim, dominava a cama. Um suspiro de indignação veio de mim mesmo, por não ter coragem de falar. Quantos anos nessa angústia! Eu sentia que era recíproco, apesar de duvidar algumas vezes. Qual de nós dois daria a primeira cartada? Eu já havia tentado em sutis ironias, mas ela nunca cedeu. O que me fazia crer que não era recíproco, afinal, o que uma mulher como ela veria num louco como eu? Seria ridículo o tamanho do fora que eu levaria. Seria o pior de todos e eu já podia imaginar a minha cara de pânico pro resto da vida. Entraria pra um seminário, se acreditasse na Igreja Católica. Talvez me alistaria na Legião Estrangeira, de tanta vergonha. Respirei fundo. A razão estava começando a fugir. Eu a imaginava ali do meu lado, tudo o que eu queria. Estávamos sozinhos, despidos de nós mesmos. Perdidos num lugar inóspito. Podia ouvir o vento lá fora anunciando uma temperatura mais baixa ainda. Tentava me conter. O desejo de virar-me novamente, abraça-la, tê-la, dizer tudo, contar tudo que eu trancava há muitos anos dentro de mim... Tudo isso era maior. Maior do que o medo. Eu queria sentir aquele perfume de novo. Eu queria tocá-la, mas não como um amigo. Eu queria toca-la como um homem toca uma mulher. Abraça-la, senti-la... E não resisti. Foi mais forte do que eu. A oportunidade estava ali. Nada mais importava. Eu estava cego.

Mulder vira-se pra ela de novo. Coloca sua mão e sua perna por sobre o corpo de Scully. Aproxima seu rosto dos cabelos dela, ofegante.

MULDER (OFF): - Senti o calor dela. Senti seus quadris em minha mão. O peso de parte do meu corpo sobre parte do pequeno e frágil corpo dela. Fechei meus olhos e aspirei o perfume de seus cabelos acobreados. O desejo surgiu em instantes. Eu a puxei mais pra perto de mim, afundando meu rosto entre aqueles cabelos, em sua nuca, e meus lábios não mais me obedeciam. Eles percorriam sua nuca... Seu pescoço... Como exploradores de um território desconhecido e desejado. Cego de desejo. Cego de paixão. Cego de mim mesmo.

SCULLY (OFF): - Acordei sentindo os lábios dele em minha nuca, sentindo a respiração quente e descompassada. Então meus sentidos despertaram do sono, me localizei no tempo e no espaço e pude perceber que era Mulder quem me segurava pela cintura, aninhado contra mim. Fiquei incrédula. Mulder estava ali... Tocando-me como um homem.

Scully ergue as sobrancelhas assustada, incrédula com a atitude dele.

SCULLY (OFF): - Fiquei com meus olhos arregalados de surpresa. Eu perdi qualquer reação, fiquei paralisada. A surpresa era maior do que a vontade de me virar e demonstrar que era recíproco. Ele continuou a percorrer seus lábios por meu pescoço e eu podia notar perfeitamente que em questão de segundos eu ia me entregar. Ele correu seus lábios e beijou meu ombro, por sobre minha blusa de lã.

MULDER (OFF): - Então caí em mim. Nem pensei duas vezes e saltei pra fora da cama. Num momento de insanidade eu entreguei o jogo. O meu medo agora era enfrentar a verdade que nunca antes fora exposta.

MULDER: - (NERVOSO) Me-me desculpe, e-eu...

Scully continua paralisada. Olha pra ele, ainda incrédula, olhos arregalados.

MULDER: - O-olha, e-eu...

MULDER (OFF): - Entrei em pânico. Não havia nada que eu dissesse pra justificar o que havia feito. Com raiva de mim mesmo, chutei uma das cadeiras.

SCULLY (OFF): - Sentei-me na cama. Percebi que ele lutava contra si mesmo. Então percebi seu caráter. Fiquei o observando, em silêncio, estarrecida com a coragem dele. Nunca pensei que ele desse o primeiro passo. Nunca tive a certeza absoluta de que ele me desejava. Agora eu tinha. Mas também tinha medo. E vergonha de que ele sabia que eu havia escondido dele a reciprocidade desse sentimento. Embora estávamos os dois na mesma situação: Lutávamos a favor da verdade. Mas passamos anos, mentindo um pro outro sobre nossos sentimentos.

MULDER: - O-olha, Scully, e-eu não quero que você pense que...

SCULLY: - Pensar o quê, Mulder?

MULDER: - E-eu...

MULDER (OFF): - Não adiantava. Não tinha como explicar o que aconteceu. Não podia encara-la. Coloquei meu casaco e saí porta à fora.

SCULLY (OFF): - Quando ele saiu, nervoso, eu fechei meus olhos, relutante. Num suspiro, eu disse pra mim mesma, em voz baixa.

SCULLY: -Eu não acredito! Isso não pode estar acontecendo...

[Fade in]


O MEDO

[Fade out]

Nepal - 4:07 A.M.

Scully bebe café, sentada à mesa.

SCULLY (OFF): - Havia 15 minutos que Mulder estava lá fora. Eu o observava pelo vidro embaçado da janela. Ele estava parado no frio, a neve caindo, a lhe cobrir os cabelos, olhando pra lugar nenhum, com as mãos nos bolsos. Perdido... Culpado. E eu sentia uma angústia enorme dentro de mim. Agora estava exposto. Não dava mais pra mentir. Não íamos poder arranjar desculpas. O assunto seria a pauta da noite. Talvez, a pauta de uma vida. Ele teria que entrar, mais cedo ou mais tarde e não haveria como não tocarmos no assunto. Ele na defensiva. Eu, tentando estudar se o caminho era seguro para expor meus sentimentos. Meu coração havia se despedaçado tantas vezes que agora eu precisava de confirmação antes de me entregar... E afinal, havia muito a perder naquilo tudo. Mas eu faria assim: Caso ele me dissesse que havia sido tesão, eu mataria o tesão dele, e não confessaria o que sentia. Terminaria ali. Caso ele dissesse que me amava, eu confirmaria tudo o que tranquei dentro de mim por tanto tempo. Mas de uma coisa eu tinha certeza: em qualquer um dos casos, nossas vidas mudariam dali pra frente...

MULDER (OFF): - Havia ficado na neve, tentando esfriar a cabeça, pensando no que eu inventaria pra contornar a situação. Então me dei conta de que eu chegara ao limite. Só restava dizer a verdade. Eu teria que dizer. Era tarde demais. Nenhuma desculpa justificaria a minha atitude. Eu precisava assumir. Precisava dizer a ela. Era um risco. Mas não havia outra alternativa.

SCULLY (OFF): - Então ele virou-se. Veio em direção a casa. Pude sentir meu coração se acelerar. Medo, expectativa. Ele entrou cabisbaixo. Vergonha estampada no rosto, como quem comete um crime e se arrepende. Ergueu seu rosto triste e olhou nos meus olhos como sempre fazia, quando havia algo importante a ser dito.

MULDER: - Foi uma atitude desesperada e eu espero que você possa me perdoar...

SCULLY (OFF): - Olhei pra ele com piedade. Aquela carinha de quem sentia culpa. Culpa que nunca existia.

MULDER: - E-eu quero que você continue confiando em mim, que essa situação não afete nossa amizade... Droga, estou mentindo pra mim mesmo! Como as coisas poderão voltar a ser como antes?

SCULLY (OFF): - Fechei meus olhos, angustiada. Respirei fundo. Eu precisava saber o que ele queria. Eu também sabia que nada voltaria a ser como antes. E ele continuava a buscar justificativas, num desespero visível.

MULDER: - Já que eu fui um imbecil e que estraguei tudo mesmo, não adianta mais esconder.

SCULLY (OFF): - Abri meus olhos. Dentro de mim havia a certeza. Não é apenas sexo. Então o medo veio, porque eu tinha medo de sentir isso por meu único amigo. Virei meu rosto para a janela, com vergonha. Estava tão nervosa quanto ele.

MULDER: - E-eu fiz aquilo porque... Porque...

SCULLY (OFF): - Olhei pra ele. Eu sabia o que ouviria. Mas precisava ouvir antes de dizer alguma coisa.

MULDER: - Por que eu te amo! Pronto, até que enfim consegui dizer isso! Não quero que você pense que sou um canalha que gosta de atacar minhas amigas no meio da noite. Eu... Você há muito deixou de ser apenas uma amiga.

SCULLY (OFF): - Fechei meus olhos e pendi minha cabeça pra baixo. Era recíproco. E a situação toda havia me pego desprevenida. E o medo dele, de que eu pensasse que era apenas tesão, era visível. Ele se preocupava com o que eu pensava. Sinal de que tinha medo de me perder.

MULDER: - Eu vou entender se você brigar comigo, nunca mais olhar na minha cara. Depois de hoje, nada mais será como antes. Estraguei nossa amizade, nossa confiança, nosso trabalho. Coloquei tudo fora, por que não pude mais controlar esse sentimento que está ficando difícil de conter.

SCULLY (OFF): - Eu não podia acreditar que Mulder gostava de mim. E nós dois não percebíamos que ambos estavam agindo com uma barreira de autodefesa. Ele tinha baixa auto-estima, interpretava meu medo como recusa. E eu interpretava a baixa-estima dele como arrogância. Falávamos a mesma coisa, mas a autodefesa impedia que percebêssemos isso.

SCULLY: - Mulder... Seja sincero, não brinque comigo, por favor.

MULDER: - Sincero? Mais sincero do que eu estou sendo, admitindo o que sinto por você? Você quer sinceridade, tá bom, eu vou ser sincero: Eu menti. É que estou sozinho aqui, com uma mulher que não é uma página de revista barata, e então resolvi me aproveitar!

MULDER (OFF): - Fiquei indignado com ela. Ou comigo. Ela não tinha culpa se não era recíproco. Eu que delirei achando que ela pudesse sentir algo por um idiota como eu. Peguei a garrafa de uísque e comecei a beber de raiva. Legião Estrangeira. Era o caminho. Ou ficaria ali mesmo no Nepal e viraria um monge budista. Ela estava me esnobando, como todas as outras faziam. E eu caí feito patinho de novo. Então apelei pra única defesa que eu conhecia contra as mulheres: comecei a humilha-la, bancar o arrogante.

MULDER: - Poderia ser a Sharon Stone, a Tina Turner ou você. Tanto faz.

SCULLY: -Por que está sendo estúpido comigo?

MULDER: - Por que achei que você também sentisse algo por mim!

SCULLY (OFF): - Eu sabia que não era mulher à altura pra um homem bonito como o Mulder. Mas isso não dava a ele o direito de me esnobar. Então apelei pra única defesa que eu conhecia contra os homens: bancar a difícil, recusá-lo.

SCULLY: - Mulder, alguma vez dei motivo para você pensar isto?

MULDER (OFF): - Veio em disparada, boca à fora, sem pensar nas consequências. Autodefesa... Agressão.

MULDER: - “O nome dela é Bambi?” “Ah, a Drª White”... E o que me diz daquele tal do Eddie mutante? Você estava prestes a ir pra cama com ele quando eu abri aquela porta! E o pior é que ele era eu. Ou sei lá o que ele era.

SCULLY: -Eu estava bêbada!

MULDER: - Ah, essa é uma boa desculpa. Como sou burro! Por que não pensei nisso antes? Eu estava bêbado, Scully!

SCULLY: -Você não tem o direito de falar assim comigo!

SCULLY (OFF): - Me levantei da cadeira e disse verdades que não queria dizer. Mas ele precisava ouvir, aquele estúpido.

SCULLY: -Você é a pessoa mais imprestável que eu já conheci, Mulder. Desde o primeiro dia em que coloquei meus pés nestes malditos Arquivos X eu odiei a sua arrogância!

MULDER: - Ah, e você? Quando te vi pela primeira vez vi a própria Mata Hari tentando me dedurar. Pronta para armar a forca em praça pública e levar minha cabeça numa bandeja para o Canceroso.

SCULLY: -Humph!

MULDER: - E quer saber do que mais? Você é uma ruivinha, baixinha, que era sardenta quando criança, mimada e com um alto grau de convencimento!

SCULLY: -Ah, eu sou? E você, que é um lunático, tarado... Não, porque tem que ser um tarado pra ter uma gaveta cheia de filmes pornôs no próprio escritório! E que vive comendo sementes de girassóis. Isso é um símbolo fálico, agente Mulder. Como psicólogo deveria saber disso.

MULDER: - Já parou pra pensar que as fitas são uma fuga por que eu tenho medo de me entregar, de amar alguém?

Scully abaixa a cabeça. Silêncio dos dois por segundos. Nenhum deles olha pro outro.

SCULLY (OFF): - Deus, como eu fui tola! Fui tantas vezes humilhada que havia aprendido a devolver na mesma moeda. Mas desta vez esqueci quem estava ali comigo. Era o Mulder. Senti-me culpada. Eu sabia quem ele era. Eu podia imaginar o seu medo de amar alguém. Ele tinha uma busca, e a experiência havia lhe ensinado que nem sempre o outro quer fazer isso.

MULDER (OFF): - Havia entregado pra ela, em uma única frase, todos os meus mais secretos medos... E o maior deles: o medo de ser recusado.

Segundos depois, Mulder vira-se pra ela.

MULDER: - Eu tenho medo, Scully. Medo de que aconteça o que aconteceu aqui hoje. É por medo disso que eu prefiro ficar com minhas fitas.

Scully senta-se na cama. Mulder caminha de um lado para outro, nervoso.

MULDER: - Desculpe. Eu fui grosseiro com você. Você não tem obrigação de aceitar o que sinto. Foi criancice.

Scully apoia os cotovelos por sobre os joelhos. Coloca as mãos sobre o rosto.

SCULLY (OFF): - Estava findado, eu sabia. Eu amava nele a sua carência. Eu amava nele a sensibilidade. Amava nele a incapacidade de conviver socialmente. Acho que amava nele, tudo o que eu não era.

MULDER: - Eu vou entender se você pedir transferência dos Arquivos X. Mas eu não queria perder sua amizade. Sei que estou pedindo muito.

SCULLY: -Isso não está acontecendo! Eu estou dormindo! Amanhã vou acordar na Califórnia, na beira da praia, com um homem desconhecido e várias latas de cerveja...

Mulder senta-se na cama ao lado dela. Scully pega a garrafa das mãos dele. Bebe um grande gole. Ri. Mulder olha pro nada.

SCULLY (OFF): - Não o deixaria se torturar mais. Ele estava sendo sincero. Agora, meu medo de ser rejeitada havia fugido pra bem longe daquela cabana. Eu ia falar. Agora era eu quem abriria meus mais secretos sentimentos. Éramos mais iguais em medos do que eu poderia imaginar.

SCULLY: -E-eu bem que tentei, mas... Eu nunca acredito em nada mesmo. (RI) Você já devia saber disso, Mulder.

Scully bebe outro gole. Entrega a garrafa pra Mulder.

MULDER (OFF): - Ela disse o óbvio que eu não tinha visto. Ela sempre precisava estudar tudo pra comprovar as coisas.

SCULLY: -Toma. Você tá precisando.

MULDER: - Eu te amo, Scully. Só queria que entendesse que isso é uma verdade.

SCULLY: - Entendo você, Mulder.

MULDER: - (TRISTE) Não quero te perder. E o que fiz hoje, num desespero, vai fazer eu te perder. Se não posso ter você como mulher, me deixa tê-la como amiga. Mas não me deixe, por favor.

SCULLY: -(OLHAR AO LONGE) Mulder, você me surpreende todo o dia. Esse seu lado é realmente engraçado. Agora entendo porque mulheres como Phoebe Green e Diana Fowley fazem o que fizeram com você. Você parece um garoto arrependido, culpado por ter sentimentos, que se humilha, numa tentativa desesperada de apagar o que fez. De fugir do que sente. Mulder, você se desculpa demais. Criou regras próprias para você e as segue rigidamente. Não dá a si mesmo o direito de sentir.

Mulder abaixa a cabeça.

MULDER (OFF): - Ela tinha razão. Ela me conhecia mais do que eu mesmo me conhecia.

SCULLY: - Há alguns anos, tentei chamar a sua atenção. Mas me dei conta de que isso não ia levar a nada, vendo mulheres como a Diana Fowley perto de você. Mulheres sexys, sedutoras, como a miss novembro de 1998, que você pendurou no lado de dentro da porta do armário.

MULDER (OFF): - Eu abri um sorriso de quem tem a esperança. Era recíproco. Ela não me diria te amo, mas sim um texto todo que poderia ser traduzido por estas três palavras.

SCULLY: - Não passo de uma sombra atrás de você, Mulder. Eu caminho em direção oposta à sua.

MULDER: - (OLHA NOS OLHOS DELA) Se você caminha em direção oposta à minha, eu caminho atrás de você.

SCULLY: - Eu sou sem graça, Mulder. Não posso competir com a miss novembro de 1998.

MULDER (OFF): - Então percebi. Ela olhava pra mim e sentia medo. E tinha um complexo de inferioridade tão grande quanto eu tinha. Éramos iguais. Muito iguais. E essa descoberta me foi uma surpresa.

MULDER: - Isso não é verdade. A miss novembro de 1998 está na porta do meu armário porque é a convenção de beleza feminina que a sociedade impôs. Eu não pendurei uma ruivinha, baixinha...

SCULLY: -Que era sardenta quando criança....

MULDER: - Por que as ruivinhas baixinhas estão mais distante do meu mundo do que a miss novembro de 1998, e qualquer um pode tê-la, é por isso que eu a tenho. Você precisa de uma prova científica dos meus sentimentos?

SCULLY: -Não, Mulder. Eu confio no meu “sexto sentido”...

Scully pega na mão dele.

SCULLY: -Mulder, eu não quis te magoar. É que foi difícil acreditar que... Eu precisava ter certeza, como sempre preciso. Ter certeza de que a coisa com a qual eu mais sonhava estava se realizando.

SCULLY (OFF): - Ele me olhou num ar de incompreensão. Eu, numa atitude tão desesperada quanto a que ele teve, tirei a garrafa de suas mãos. Eu precisava sentir seu gosto. Eu desejava que aquilo acontecesse.

SCULLY: -Acho que você não precisa mais disto. Precisa disso.

Scully aproxima seus lábios dos dele. Olha-o nos olhos. Fecha os olhos.

MULDER (OFF): - Deus! Ela me pedia um beijo. E me dava uma confirmação. Era recíproco sim. Eu me senti mais aliviado. A beijei ternamente... Agora eu podia sentir o gosto dela. Pela primeira vez estávamos trocando um beijo real, um beijo com a certeza mútua do que significava. O medo da recusa havia se ido. Mas vinha o medo de consumar aquilo. Era um sentimento tão grande que assustava.

SCULLY (OFF): - Ao sentir o gosto de sua boca, eu comecei a sentir um calor dos pés à cabeça. E fiquei cega. Tirei minha blusa, me deitei na cama. Eu queria me entregar pra ele. Afinal, era assim que funcionava sempre. Então ele me sorriu e saiu-se com uma inédita.

Mulder sorri pra ela.

MULDER: - Se você não quiser, eu...

SCULLY (OFF): - Eu queria. Então o mandei calar a boca, porque se ele falasse mais alguma coisa, eu ia fugir assustada. Eu estava com medo e desejo. Então senti seu corpo pousar sobre o meu. E senti que ele estava molhado pela neve, e o empurrei, sentindo frio.

SCULLY: -Você está molhado!

MULDER: - Eu caminhei lá fora, estava nevando...

SCULLY (OFF): - Aproveitei a desculpa pra despi-lo do blusão e olhar pra aquele corpo que me acendia inteira.

MULDER (OFF): - Eu aproveitei a desculpa pra reclamar do frio, porque eu tava com medo de fazer aquilo. Afinal, era ela.

MULDER: - Tá frio...

SCULLY: - Cala a boca, Mulder.

Mulder senta-se na cama.

MULDER: - Não dá, Scully. Eu não consigo. Isso não tá acontecendo...

SCULLY (OFF): - Percebi que ele estava com mais medo do que eu, porque começou com gracinhas pra fugir da realidade. Então eu teria de dar o próximo passo, afinal, sempre dividimos tudo. Empurrei-o na cama e deitei meu corpo sobre o dele.

SCULLY: - Chega de brincadeiras, Mulder. É sério.

MULDER (OFF): - Então começamos a rir de nós mesmos. Não podíamos fazer aquilo. Não era a hora. Não era o momento. Havíamos esperado tanto pra ser algo tão animalesco? Só pele?

SCULLY (OFF): - Não, precisava ser mágico. E depois de tanta neurose a magia havia se ido. Não era a hora. Ambos sabíamos. Seria passo a passo. Seguro.

MULDER (OFF): - Tanto ela quanto eu precisávamos dessa segurança. Havíamos sempre nos envolvido com pessoas erradas, estávamos calejados. Apostaríamos no diferente. Naquilo que as pessoas chamam de utopia. Se muitos anos haviam se passado, quem esperou tantos anos, poderia esperar mais algum tempo.

MULDER: - Não dá. Acabou o clima.

Scully sai de cima dele. Põe a blusa.

SCULLY: - Vou fazer um café. Preciso de cafeína desesperadamente.

MULDER: - Vou tentar consertar o rádio. Precisamos sair daqui.

SCULLY: - E o Yeti?

Mulder coloca o blusão.

MULDER: - Dane-se o Yeti.


BLOCO 2:

Scully e Mulder ainda no sofá.


O DESEJO

SCULLY (OFF): - Depois que revelamos nosso sentimento, o que pareceria tão fácil, acabou se tornando o impossível. Quando um não fugia, fugia o outro. Tínhamos medo de consumar aquele sentimento, parecia transcendental demais para dar vazão ao sexo. Mas a pele pedia. O desejo vinha cego. E não bastasse nosso medo, as coisas todas só vinham a atrapalhar os momentos de cegueira. Um indício de que não era a hora. E se havíamos esperado e cultivado a união de nossas almas com tanta paciência, esperaríamos e cultivaríamos até o próximo passo acontecer: a união de nossos corpos.


FLASH BACK:

Motel Atlântico – Chicago - 7:00 P.M.

Scully entra no quarto de Mulder, com um pacote de supermercado. Coloca-o sobre a cômoda. Mulder está dormindo. Ela deita-se sobre ele. Mulder acorda.

MULDER: -Shii. Esqueci a pizza!

SCULLY: - Eu trouxe o vinho... E Pringgles, pra garantir...

MULDER: - Ninguém viu você entrar?

SCULLY: - Nem um mosquito.

Mulder a abraça.

MULDER: - O quê descobriu?

SCULLY: - Depois de usar uma serra elétrica...

Mulder faz cara de nojo.

MULDER: - Nossa! Você parece que sente prazer nisso...

SCULLY: - Descobri que o senhor Bob morreu por exposição à radiação ionizante.

MULDER: - Ionizante?

SCULLY: - Eu sei o que vai dizer, Mulder. Apesar de não acreditar nisso, é sim. Como você diz, radiação presente em discos voadores. Mas não acho que um disco voador caberia naquela caixa.

MULDER: - Talvez um ET morto.

SCULLY: - Ou talvez um ET vivo, que tentou espichar seu dedinho emitindo uma “luzinha” e dizendo: ET, phone home...

Mulder vira-se e fica por sobre o corpo dela.

MULDER: - O que achou do Black?

SCULLY: - Me parece ser um bom sujeito. Um pouco estranho. Ficou parado, olhando pro cadáver ...

MULDER: - Você devia ver ele narrando a história. Fantástico! Quer ouvir minha teoria?

SCULLY: - Âhm? O senhor Bob foi morto por alienígenas?

MULDER: - Não. O senhor Bob foi morto por alguma coisa que era alienígena e estava dentro daquela caixa.

Mulder a beija. Começa a beijar seu pescoço.

SCULLY: - Mulder, preciso de um banho.

MULDER: - Ah, eu vou adorar isso...

O celular de Mulder toca. Ele ergue a cabeça, com aquela cara de “pânico”. Atende. Scully começa a beijar o pescoço dele. Mulder faz sinal para ela ficar em silêncio.

MULDER: - Sou eu... Onde você está? Tudo bem, estou indo.

Scully desiste. Fica deitada na cama. Mulder levanta-se.

MULDER: - Guarde o vinho pra outra hora. O Black descobriu alguma coisa importante.

SCULLY: - Ah... Mulder, estamos tentando uma aproximação mais séria e você vai... Tudo bem. É a sua causa e eu disse que não colocaria nosso relacionamento acima disso.

Mulder pega o casaco e sai. Scully suspira.

SCULLY: - Isso não vai dar certo...

[Fade in]

MULDER (OFF): - Era uma complicação só. Cada vez que tentávamos ficar mais íntimos, sempre aparecia algo ou alguém pra nos atrapalhar. Castigo. Puro castigo. Quem disse que tudo tem que ser fácil na vida?

[Fade out]

Scully avança nele, empurrando-o por sobre uma mesa. Começa a tirar a camisa dele. Mulder começa a beijá-la. Ela também. Entre beijos aqui e ali, Scully vai tirando a roupa.

SCULLY: - É hoje, tem que ser hoje!

MULDER: - Tudo bem, pode ser hoje! Agora! Já! Eu não me importo nem um pouquinho. Pode ser até aqui nessa mesa, no chão, numa árvore...

SCULLY: - Eu não aguento mais, Mulder!

MULDER: - O que diz de mim, que não tenho como esconder isso?

SCULLY: - Eu te amo! Se você morresse, poderia te embalsamar?

Ele a encara sem entender.

SCULLY: - Ah, deixa pra lá!

O telefone toca. Mulder a empurra.

MULDER: - Estou começando a desconfiar que isso é coisa do Canceroso.

SCULLY: - Deixa tocar, Mulder. Hoje não.

Scully o puxa e o beija. O telefone insiste.

MULDER: - E se for importante?

Scully o solta. Atende ao telefone, irritada. Mulder põe as mãos no rosto. Tenta se acalmar. Vai até o frigobar.

SCULLY: - Alô. Sim... Estou indo.

Scully vira-se e vê Mulder encostado, de frente pro frigobar com a porta aberta.

SCULLY: - (RINDO) O que está fazendo?

MULDER: - Tentando me acalmar. Toda a vez que você tira a roupa, eu só consigo chegar na parte em que você ameaça tirar o resto, e isso é frustrante.

SCULLY: - Chame o Black, Mulder. Tem alguma coisa acontecendo no cais.

MULDER: - O que foi agora? Roubaram a caixa vazia?

SCULLY: - Não. Os estivadores afirmam que tem um ÓVNI sobre o depósito.

Mulder pega sua camisa e sai correndo porta à fora.


TEMPO REAL:

Os dois riem, sentados no sofá. Ele aninhado nos braços dela.

SCULLY: - Você se lembra de Frank Black, não?

MULDER: - Claro que me lembro. O Black nos trouxe a boa sorte.

SCULLY: - Como assim?

MULDER: - Depois que o sinistro Black se foi, as coisas começaram a se ajeitar entre nós. (RINDO) Ele levou o azar que pairava sobre a gente...

SCULLY: - (SORRINDO) Me lembro daquele caso. Mulder, como eu ainda era tolinha!

MULDER: - Mas foi ali que começamos a questionar sobre um possível relacionamento sério. Você estava com tanto medo.

SCULLY: - Estava. Sempre fui mais neurótica do que você...

MULDER: - Mas eu não estava numa situação tão corajosa não. Era engraçado que tudo atrapalhasse, até alimentava mais a curiosidade. Só que eu sabia que um dia nada atrapalharia. E aí? Quem de nós dois sairia correndo inventando um pretexto bobo pra fugir???


FLASH BACK:

Motel Atlântico 09:14 P.M.

Os dois encostam suas testas. Olham-se nos olhos.

SCULLY: - Queria que o telefone não tocasse... Que o mundo desaparecesse!

Mulder encosta-a na parede.

MULDER: - Quero tanto que tenho até medo. Não é bem medo. É... é respeito. Eu conheço você há tanto tempo, somos tão amigos que... Eu tenho medo de que não dê certo entre a gente, de que nossa amizade termine...

SCULLY: - Por que não daria certo? Não quer tentar?

MULDER: - Eu quero, mas...

Mulder larga-a. Senta-se na cama.

MULDER: - Eu não consigo, Scully. Pensei que o mais difícil fosse dizer o que sinto por você, mas... Agora é mais difícil ainda. Se o telefone ou as pessoas não atrapalhassem, acho que a gente se atrapalharia.

Scully senta-se ao lado dele.

SCULLY: - Eu também não consigo, Mulder. É por isso que estou furiosa. Comigo mesmo, não é com você. Você deu o primeiro passo e eu deveria dar o próximo, já que você não consegue...

MULDER: - É melhor a gente ir devagar, como os nossos avós faziam... Começar pelo buraco da fechadura... Depois nós namoramos no sofá da sua mãe, na presença dela. E quando ela for buscar chá, eu passo minha mão nas suas pernas...

Scully ri. Ele também.

MULDER: - Depois de anos, eu peço a sua mão...

SCULLY: - Como meu pai morreu, você tem que pedi-la pro meu irmão.

MULDER: - O Bill? Ah, não! Eu me esqueci que ele e eu não temos um relacionamento amistoso. Ele não vai permitir.

SCULLY: - Eu fujo com você e deixo um bilhete na geladeira da mamãe.

Os dois riem. Scully fica séria.

SCULLY: - Mulder, estamos voando longe demais...

MULDER: - Acha que eu não me casaria com você?

SCULLY: - Eu não sei... Dê tempo ao tempo...

MULDER: - Scully, supondo que amanhã tudo acabe. Que eu encontre a Samantha, que a conspiração do Canceroso termine, que as pessoas possam saber que estamos juntos. O que você faria?

SCULLY: - Eu não sei, Mulder...

MULDER: - Se eu pedisse pra casar comigo? Pra viver comigo. Pra dividir nossas diferenças, nossa vida?

Scully abaixa a cabeça.

SCULLY: - Mulder, eu... Eu não poderia aceitar.

MULDER: - Por quê? Não sente nada por mim? Tem medo?

SCULLY: - Não é isso, Mulder. Tudo está muito bonito, muito gostoso, mas temos que pensar no futuro.

MULDER: - Estou pensando. E não vejo motivos pras coisas darem errado. É a minha mãe? A sua família?

SCULLY: - Não, não é isso. De onde tirou a ideia de que não gosto da sua mãe? O que não gosto são das atitudes dela. Parece que você é culpado de tudo, inclusive do desaparecimento da Samantha... Mulder, se ficarmos juntos, se decidirmos ter uma vida... Vamos pensar como adultos: Você vai querer filhos. E eu não posso tê-los. E não é justo deixar você sem o pequeno Mulder pra jogar beisebol nos fins de semana.

MULDER: - Eu não ligo pra isso. Eu quero você. Do jeito que você é.

SCULLY: - Eu sei, Mulder. Mas...

MULDER: - Não pense nisso, tá? Não fique se atormentando, me promete?

Scully levanta-se.

SCULLY: - Mulder, me desculpe. Mas eu preciso ficar sozinha um pouco. Preciso pensar.

Scully caminha até a porta. Mulder a segura pelo braço.

MULDER: - Pense. O tempo que precisar. Eu estarei esperando por você.

[Fade in]

SCULLY (OFF): - Então chegou aquela noite... Quando a gente saiu do FBI e você fez o convite.

MULDER (OFF): - Se eu soubesse que aquilo terminaria neste momento agora, numa aliança e em não poder mais olhar para as gatinhas...

SCULLY (OFF): - Seu cachorro!

MULDER (OFF): - (RINDO) Au!

[Fade out]


FBI – Washington D.C. – Final de tarde

Mulder aperta o botão do elevador. Eles esperam em silêncio. O elevador chega. Scully entra. Mulder fica.

SCULLY: - Não vai descer?

MULDER: - Não. Vou apanhar algumas coisas e vou pra casa. Olha, às 9 horas eu vou colocar o peixe e o gato pra fora. Se você quiser me ajudar, eu te espero.

Scully sorri.

SCULLY: - Não, Mulder. Eu não vou. Não me espere.

MULDER: - Não quer saber o que eu fiz naquela noite em que te deixei sozinha no seu apartamento?

SCULLY: - Não.

MULDER: - Tudo bem. Se você for colocar o peixe e o gato pra rua comigo, você vai descobrir.

SCULLY: - Não sou curiosa, Mulder. Sabe que posso te processar por assédio sexual?

Mulder ri. Skinner entra no elevador. Eles mudam de assunto. Mulder fica sério.

MULDER: - Bom final de semana, Scully. Vejo você na segunda, sua cética imprestável!

A porta do elevador fecha-se.


TEMPO REAL:

Mulder, sentado na frente do computador, estala os dedos. Olha sacanamente pra Scully. Ela, sentada ao lado dele, comendo pipocas, o encara, erguendo as sobrancelhas.

MULDER: - Chegou a hora da verdade, Scully. Pronta?

SCULLY: - (SORRI) Sou corajosa.

MULDER: - Vai me contar o que pensou antes de ir até lá? Ou vou ter que quebrar meu juramento e ler seus pensamentos?

SCULLY: - Não! Você disse que nunca faria isso!

MULDER: - Não, eu me controlo pra não te desrespeitar. Mas se você me negar a sua versão... Terei de apelar pra esse golpe baixo.

SCULLY: - O que eu digo sobre o poder? Mulder, você não pode ter poder nas mãos, sabia?

MULDER: - (RINDO) É mas confessa, que você adora me pedir pra ler seus pensamentos enquanto a gente faz...

SCULLY: - (RALHA/ CORADA) Mulder!

MULDER: - (RINDO/ BATUCANDO NO TECLADO COM OS DEDOS)

SCULLY: - Hum, vai ser engraçado relembrar isto, Mulder. Vamos fazer assim: Em terceira pessoa. Faz de conta que estamos falando de outras pessoas.

MULDER: - (DEBOCHADO) Tudo bem, se te deixa mais calma... Mas eu quero em detalhes! Vou adorar escrever isso.

SCULLY: - Eu escrevo essa parte! Você vai pra cozinha, faz um bolo e me deixa aqui sozinha. Eu não vou conseguir fazer isso na sua frente!

MULDER: - (FRUSTRADO) Por que não?

SCULLY: - (CURIOSA) Vai descrever em detalhes?

MULDER: - (OUSADO) Tudinho. Cada sensação.

SCULLY: - ... Mulder, eu não vou conseguir falar isso.

MULDER: - Mas você conseguiu ‘sentir’ isso.

SCULLY: - Ora, seu tarado de uma figa...

MULDER: - (DEBOCHADO) Medrosa!

SCULLY: - (INDIGNADA) Eu não sou medrosa! Você vai ver, Mulder. Depois disso escreverei um livro de contos eróticos. Não brinque comigo!

MULDER: - Uau! E eu?

SCULLY: - O que tem você?

MULDER: - Estarei nele, não?

SCULLY: - Ah, pobrezinho de você, Mulder! Poupe-me!

MULDER: - Esnoba! Esnoba! Mas aposto que ninguém conseguiu te deixar louquinha como eu consigo! Ho ho ho!

SCULLY: - Cale essa boca, Mulder. Escreva!

[Fade in]


A PRIMEIRA NOITE

[Fade out]

Apartamento de Scully – 7:43 P.M.

Scully sai do banheiro às pressas, enrolada numa toalha, escorrendo água pelo corpo. Abre o guarda roupa rapidamente.

SCULLY: - ... (NERVOSA) O que eu vou vestir?

Ela olha para as roupas. Pega uma, pega outra, atira na cama, não se agrada de nada.

SCULLY (OFF): - Ai, Deus! Essa roupa não, o que ele vai pensar de mim? ... Essa também não, essa ele conhece...

Ela senta-se na cama, desanimada. Olha para o guarda-roupa.

SCULLY (OFF): - Droga! O que eu posso vestir pra ele?

Scully suspira.

SCULLY (OFF): - Acho que eu tenho de me vestir como me visto sempre. Posso assusta-lo se usar outra coisa... Mas eu queria ir diferente... Não, Dana. Melhor ir como ele te conhece... Mas é uma ocasião especial... Não, Dana. É especial, mas não sabe se ele vai reagir igual ao ver uma Dana diferente...

Ela continua olhando para o guarda-roupa, desanimada.


Apartamento de Mulder – 7:46 P.M.

Mulder anda de um lado pra outro, vestido num robe preto de seda. Ajeita um objeto na estante. Ajeita a almofada no sofá.

MULDER: - Não, não ficou bem aqui.

Muda as almofadas de lugar. Coloca as mãos na cintura. Observa.

MULDER: - Bom, acho que agora esse apartamento ficou com cara de apartamento. Pelo menos tá limpo, arrumado... Um jantar... Mas se eu fizer um jantar ela vai estranhar. Melhor não... Mas seria uma surpresa, contaria pontos a meu favor... Não, a Scully gosta de mim como eu sou... O que eu poderia fazer pra agrada-la?... Recapitulando: apartamento organizado, champanhe, lençóis pretos de cetim... Será que ela não vai ficar meio assustada? Bom, eu sempre deixei no ar que era um tarado. Acho que ela espera isso.

Mulder senta-se no sofá. Olha pro nada.

MULDER: - Ela não virá. Não sei porque estou fazendo tudo isso. Ela não virá. A Scully é racional, sabe que isto não é certo... Embora eu ache que não há nada demais nisso...

Mulder olha para o peixe no aquário.

MULDER: - O que você acha? Será que não exagerei com lençóis pretos, cama, velas, champanhe... E se ela se chocar? Você pode me dar uma dica de como a gente trata uma deusa?


Apartamento de Scully – 8:11 P.M.

Scully, num tailleur, abre a porta. Fecha-a. Suspira. Não tem coragem.

SCULLY: - Não. Eu não vou. Definitivamente, eu não vou! Isso é loucura!

Scully senta-se no sofá. Passa as mãos no rosto. Olha pro nada. Divaga.

SCULLY (OFF): - Isso é loucura... Já levamos isso longe demais. É mais doente e insano do que sair com um homem casado! Não vai dar certo. Eu posso sentir isso na minha pele! Não temos nada em comum... Bom, temos algumas coisas em comum... Não. Não vai dar certo. Mulder não sabe o que é um relacionamento decente! Vai acabar se apegando demais e se não der certo, eu não vou mais me livrar dele! Alguma coisa de errado tem pra que ele viva sozinho... Não. Ele vive sozinho porque quer... O que aconteceu entre ele e aquela coisa cujo nome nem quero pronunciar? Quem deixou quem? E se eu fosse apenas pra... É, só por uma noite, sem promessas... Droga! Por que eu sou capaz de transar com um desconhecido que encontro num bar e estou morrendo de medo de transar com alguém que eu conheço?

Ela levanta-se, andando de um lado pro outro.

SCULLY (OFF): - Ele me convidou, o que significa uma cantada e se eu for, o que ele vai pensar de mim? ... Bem, não foi uma cantada. Ele apenas me convidou pra... (PÂNICO) Ele não me convidou pra nada! Ele só disse pra eu ir até o apartamento dele... Ele deixou no ar... Mas é óbvio o que ele quer que aconteça. Eu não sou criança, é mais do que certo: qualquer coisa pode acontecer, só não vamos discutir sobre alienígenas!

Scully suspira. Senta-se de novo.

SCULLY (OFF): - Se eu não for vou ficar aqui a noite toda, me remoendo por não ter ido. E se eu for? O que poderá acontecer? .... Deus! (PÂNICO) Eu vou transar com o Mulder!

Ela levanta-se, assustada. Serve uma bebida, mãos trêmulas.

SCULLY (OFF): - Eu vou transar com o Mulder... É, o Mulder! Isso não está certo. Passei anos da minha vida desejando isso e agora que tenho a oportunidade nas mãos eu vou jogar fora? ... (CERRA AS SOBRANCELHAS) Acho que vou... Pense, Dana, pense... (BEBE O COPO NUM GOLE) ... Se fizermos amor, vou me comprometer mais ainda emocionalmente. Vou me envolver por completo. E se não der certo? E se essa noite for uma droga?

Scully vai até o banheiro. Ajeita os cabelos. Olha-se no espelho.

SCULLY (OFF): - Me produzi pra ele. Estou tendo um encontro, o que é um acontecimento raro nos últimos tempos! ... Vá, Dana. É só um encontro... (PÂNICO) Só um encontro com o seu único amigo, parceiro de trabalho... Vocês se conhecem até demais! ... Droga, acho que por isso estou com medo. Ele sabe quem sou. Q-quer dizer, ele pensa que sabe quem sou. E se ele se surpreender? Se tiver surpresas e ficar chateado com a mulher Scully?

Ela abaixa a cabeça, numa angústia e indecisão visíveis.

SCULLY (OFF): - Dana, acalme-se. Relaxe. É só um encontro. Não há motivos pra estar nervosa. É só um encontro com o Mulder... (PÂNICO) Oh, Deus! É isso que está me deixando nervosa!

Ela sai do banheiro. Fica olhando pra porta.

SCULLY (OFF): - Pareço uma adolescente, morrendo de medo da primeira vez! ... Eu quero, mas eu tenho medo. E se eu ficar mais apaixonada do que estou? E se não der certo? Meu Deus, por que estou preocupada com isso? Se não der certo, não deu, não foi a primeira vez que um encontro não dá em nada... (TRISTE) Mas é o Mulder. Tem que dar em alguma coisa, eu depositei tantas esperanças nele... E se depois dessa noite ele não me quiser, eu vou ficar sofrendo por anos a fio e tendo de conviver com ele do meu lado! Não, eu não vou. Isso é loucura.

Ela anda de um lado para o outro.

SCULLY (OFF): - Mas eu quero ir...

Ela olha pra porta.

SCULLY (OFF): - O que vou dizer pra ele se eu for? Ahnahn... Mulder, eu vim aqui pra gente conversar... Não, isso é patético e infantil! ... Que tal: Mulder, vamos deixar rolar... Não, é muito espontâneo, pode soar vulgar... Mulder, estava passando por perto e... Argh! Essa é muito velha! ... Mulder, eu pensei no seu convite e resolvi aceitar... Não, não... Droga! O que vou dizer pra ele, meu Deus?

Scully olha pra porta. Respira fundo. Toma coragem e num impulso abre a porta e sai, fechando-a atrás de si.


Apartamento de Mulder – 8:26 P.M.

Mulder olha pro relógio na parede.

MULDER (OFF): - (PÂNICO) 34 minutos... Ela vai bater naquela porta em 34 minutos. Tudo o que eu sonhei vai bater naquela porta em 34 minutos... A minha vida vai tomar outro rumo em... 33 minutos... Eu posso sentir isso na minha pele... Será que eu estou preparado?

Mulder bebe um gole de uísque na garrafa.

MULDER (OFF): - Eu não posso falhar com ela. Eu não posso perde-la. Se isto der errado eu vou perder a amiga também.

Mulder olha pra porta, angustiado.

MULDER (OFF): - Scully, não venha. Foi loucura, eu não deveria ter feito o convite... Não vem, Scully. Não vem! Isso não vai dar certo, você vai se decepcionar comigo e depois até a nossa amizade vai terminar... (FECHA OS OLHOS) Vem, Scully! Vem rápido! Eu sei que você vai vir, eu tô com medo, mas eu sei que você virá!

Ele anda de um lado pra outro, angustiado.

MULDER (OFF): - Será que tudo está perfeito pra ela? Será que não esqueci de nenhum detalhe? (NERVOSO) Recapitulando: ela gosta de preto, ela gosta de champanhe...


Prédio de Mulder – 8:46 P.M.

Scully sentada dentro do carro. Olha pro relógio.

SCULLY (OFF): - Preciso esperar. Não vou chegar mais cedo ou vai parecer que estou desesperada. (COLOCA AS MÃOS NO ROSTO) Meu Deus, o que eu estou fazendo aqui??? Até perfume eu coloquei! Acho que exagerei na produção... Ai, Deus, me dá coragem pra subir. E-eu nem sei o que dizer pra ele, mas na hora eu penso... Melhor, na hora o coração pensa... (SUSPIRA) Mulder, eu te amo tanto que morro de medo de não ser quem você queira, de não corresponder às expectativas... Se rolar alguma coisa eu juro que vou ser bem danadinha, pelo menos acho que é assim que você gosta... (ABAIXA A CABEÇA) Eu não vou conseguir! Ah, eu não vou conseguir! Acho que vamos ficar conversando. É, é isso. Eu não vou ceder e nós vamos conversar a noite toda... Por que estou me enganando? Só de imaginar o toque dele eu já fico arrepiada... Nós não vamos só conversar!


BLOCO 3:

Apartamento de Mulder - 09:00 P.M.

Scully bate na porta. Mulder abre, vestido num robe de seda preta. Scully abaixa a cabeça e ri.

SCULLY: -Vim ajudar você a colocar o peixe e o gato pra fora.

MULDER: - (RINDO) Entra. Eu sabia que você ia vir.

Scully entra, meio receosa, com vergonha. Olha pro apartamento. Está todo arrumado.

SCULLY: - Nossa! O que houve por aqui?

MULDER: - Dei uma de faxineiro. O peixe e o gato me ajudaram...

SCULLY: - Ah, Mulder... Me desculpe, eu não ia adivinhar...

MULDER: - Quando você falou aquelas coisas, eu entendi que era um sim. Queria que tudo fosse perfeito... O mais difícil foi conseguir comprar uma cama nova e um colchão na madrugada. Mas tenho algumas pessoas que me devem favores...

Scully tem um acesso de riso.

MULDER: - (CABISBAIXO) Achei que o sofá não era digno pra você...

Mulder fecha a porta.

SCULLY: - (SURPRESA) Por que está vestido assim?

MULDER: - Preto não é a sua cor favorita?

SCULLY: - Oh, Mulder...

MULDER: - Vem aqui, quero te mostrar uma coisa.

Mulder toma a mão dela. Abre a porta do quarto. Scully entra. Fica boquiaberta. Lençóis de seda pretos, champanhe, e o quarto todo iluminado por velas.

SCULLY: - Você me surpreende, Mulder...

MULDER: - Eu queria fazer um templo pra você, mas qualquer coisa que eu faça, parece tão pouco pra te adorar...

Scully começa a rir. Ele faz sua cara de “coitadinho”.

SCULLY: - Mulder, e-eu... (SÉRIA) Estou nervosa.

MULDER: - Não se preocupe, Scully. Daqui a pouco o telefone vai tocar mesmo... Você vai pôr sua roupa e eu vou me meter na geladeira...

Scully pega a garrafa de champanhe. Entrega a Mulder. Ele abre. Serve dois copos. Scully bebe tudo numa vez. Mulder olha pra ela apavorado.

SCULLY: - Preciso me acalmar...

Mulder coloca um CD.

MULDER: - Não encontrei nada do Bryan Adams, mas... Achei Roy Orbison... E eu sei que você gosta dele também...

SCULLY: - Hum... Detalhista... Eu escolho a música.

Mulder está nervoso. Senta-se na cama. Scully coloca a música Pretty Woman. Agarra a garrafa de champanhe e bebe. A música começa. Ela começa a dançar abraçada na garrafa. Mulder observa-a, rindo. Scully larga a garrafa. Abre sua blusa, dançando. Mulder põe a mão na testa. Ela tira a blusa. Mulder, estático, abre a boca e fica olhando impressionado.

MULDER: - E disseram que você era puritana... Eu sabia!

SCULLY: - Eu disse que você não me conhecia, Mulder.

Scully continua dançando. Atira a blusa na cara dele. Mulder está estarrecido, admirando-a. Scully aproxima-se dele.

SCULLY: - Isto é confidencial, agente Mulder. Eu estou bêbada.

Scully tira a saia. Está de lingerie preta. Coloca a perna sobre a perna dele. Mulder olha pra perna dela. Olha pra ela, pasmo. Scully ameaça tirar o sutiã.

MULDER: - É nessa parte que o telefone toca sempre.

SCULLY: - Hoje ele não vai tocar.

Scully olha sedutoramente pra ele. Afasta-se, dançando. Faz sinal com as mãos pra ele ir até ela. Mulder levanta-se da cama empolgado. Aumenta o som.

MULDER: - Estou adorando esse seu lado irracional. Quer mais champanhe, uísque, vodca... Ou tudo de uma vez?

Scully pega a garrafa. Bebe. Mulder começa a dançar com ela e a beber junto. Scully sobe na cama dançando. Os vizinhos começam a gritar. Mulder começa a pular pra fazer mais barulho. Scully desce da cama e começa a dançar na frente dele. Ele fica paralisado. Scully põe a mão no peito dele. Desce as mãos e abre o robe. Tira-o lentamente. Joga-o no chão. Olha pra baixo.

SCULLY: - Hum, Mulder... Seda preta?

Ele olha pra ela, erguendo os ombros. A música termina. Scully vai até o som. Coloca uma música lenta, bem baixinho. Aproxima-se de Mulder. Os dois se abraçam e se embalam suavemente, um de frente pro outro. Mulder desce suas mãos e segura as dela. Fecha os olhos.

MULDER: - Não acredito que isso está acontecendo... Você foi a única verdade que consegui encontrar na minha vida...

SCULLY: - (Olha emocionada pra ele)

MULDER: - Dana, e-eu...

SCULLY: - Dana?

MULDER: - (RI) Scully...

Mulder aproxima seus lábios dos dela. Trocam um beijo suave. Continuam dançando.

MULDER: - Eu te amo tanto... Nem sei se...

Scully coloca o dedo indicador nos lábios dele, silenciando-o.

SCULLY: - Essa etapa é comigo, Mulder.

Scully pega a mão dele e a beija. Coloca-a em seu seio. Mulder fecha os olhos. Ela se aninha nos braços dele. Mulder segura o rosto dela com as mãos. A beija suavemente. Desce beijando o pescoço dela. Scully fecha os olhos.

SCULLY: - Eu amo você...

MULDER: - Dessa vez, Scully, nada de abelhas intrometidas, telefones tocando, gente batendo na porta, roteiristas noromos, “Tio Carter” não está vendo isso...

Eles trocam carinhos até a música acabar. Estão explodindo de desejo um pelo outro. O telefone toca. Mulder não para. O telefone insiste, repetidas vezes. Mulder larga Scully.

MULDER: - (FURIOSO) Eu não acredito! Eu não sou uma pessoa popular, por que essa merda tem que ficar tocando cada vez que nós estamos juntos? Que droga!

Mulder aproxima-se do telefone.

MULDER: - (FURIOSO) Alô?... Mãe? Por que tá me ligando? Você nunca me liga, tinha que ligar justo hoje?........ Me desculpe, é que eu não estou me sentindo bem.

Scully respira fundo. Olha pra Mulder.

MULDER: - Não, eu estava em Chicago..... Mãe, posso ligar outra hora.... Não, eu não estou descartando você.... Tá bom, fala..... Sei....

Scully respira fundo. Seu corpo treme. Bebe mais um pouco. Olha pra Mulder, de cima a baixo.

SCULLY: - Ah, hoje não! Ninguém vai estragar minha festa!

Scully bebe mais. Respira fundo, como se criasse coragem. Fecha os olhos. Abre-os. Aproxima-se de Mulder. O abraça. Começa a beijar o peito dele. Puxa-o e enfia a língua na orelha dele. Mulder fecha os olhos.

MULDER: - Não, não tem ninguém aqui, eu estou sozinho..... Não, eu.... É o gato, mãe! O gato tá aqui no quarto...

Scully olha maliciosamente pra Mulder, completamente bêbada. Mulder olha pra ela, sem entender. Scully põe as mãos no peito dele. Vai se abaixando, até se ajoelhar. Mulder arregala os olhos, boquiaberto. Olha pra baixo.

MULDER: - (ASSUSTADO) Mãe, eu preciso desligar, tá acontecendo alguma coisa estranha por aqui... Ah, meu Deus, o que você tá fazendo aí?.... Não estou falando com a senhora, mãe... Tô falan...do com o gato... qu-quer dizer, estou.... Ah, meus deus!..... (FECHA OS OLHOS, RESPIRA OFEGANTE)... Não, mãe, eu não estou com falta de ar.... É, acho que eu tô (E OLHA PRA BAIXO. FECHA OS OLHOS)... ah, minha nossa!.... Mãe, eu não estou me sentindo bem... Estou....hummm.....tonto...Meu deus, não faz isso comigo, um pobre mortal.....Não mãe, estou pensando em voz alta....É, estou delirando..... E-eu vou tomar uma aspirina....... Não mãe, eu não estou com dor... É bom... Muito bom...Bom demais!.... Mãe, eu vou ter de desligar. Deixei o peixe na rua.

Scully levanta-se. Mulder desliga o telefone. Scully olha maliciosa pra ele. Tira o sutiã.

SCULLY: - Eu sou uma menina má, Mulder... Você nem sabe o quanto! As aparências enganam...

Mulder a agarra furiosamente. A levanta. Scully enlaça as pernas nele. Os dois começam a se beijar como loucos. Mulder a encosta na parede.

MULDER: - Ok, Scully. Você não pode ficar brincando comigo desse jeito. Hoje não tem nada de geladeiras...

SCULLY: - Vá buscar o champanhe.

MULDER: - Agora?

SCULLY: - É. Agora. Preciso de champanhe pro que estou pensando...

MULDER: - (EMPOLGADO) Sim, senhora!

Mulder solta ela e corre pra cozinha. Scully se enfia embaixo dos lençóis. Mulder volta, enfia-se debaixo do lençol e entrega a garrafa pra ela. Ela despeja o champanhe no peito dele. Mulder olha pra ela estarrecido. Scully começa a lamber o peito dele.

MULDER: - Ah, minha nossa... Scully, estou com medo de você...

SCULLY: - Cala a boca, Mulder... Estou tentando um contato imediato com uma forma de vida que eu achei que fosse assexuada...

Mulder a empurra. Scully ri.

MULDER: - Assexuada? Você é que parecia ser assexuada! Eu tinha revista pelos menos.

SCULLY: - E sabe se eu também não tinha?

Mulder avança nela. Beija-a furiosamente. Vai descendo até os seios dela.

SCULLY: - Hum, Mulder... Isso é..... muito bom....

Scully fecha os olhos. Mulder enfia a cabeça debaixo do lençol.

SCULLY: - “Estranho Mulder”...... Você não vai fazer coisas estranhas comigo, vai?... (RINDO) Mulder, o que está fazendo?

MULDER: - Um contato imediato...

Mulder volta pra cima. Beija-a na boca. Beija seu pescoço. Ela envolve seus braços nele. Mulder fica em cima dela, ofegante.

SCULLY: - Mulder... Ah, meu Deus!

Scully segura-se na cabeceira da cama, ofegante.

SCULLY: - Mulder, eu... ahhh... acho que não somos anatomicamente compatíveis... Meu Deus, Mulder!

Mulder passa as mãos nos braços dela subindo até suas mãos. Enlaça seus dedos nos dedos dela. Beija-lhe o pescoço.

SCULLY: - Mulder... (ERGUE AS SOBRANCELHAS) .... Nossa!

Scully fecha os olhos. Põe as mãos nas costas dele. O puxa mais contra seu corpo. Mulder abre os olhos.

MULDER: - Scully... Sua menina má...

Os dois fazem amor por minutos. Ternamente.

O telefone começa a tocar. Os dois não param. O telefone insiste repetidas vezes. A secretária eletrônica atende. Após o sinal, ouve-se a voz de Frohike.

FROHIKE: - Mulder, você não vai acreditar. Caiu um ÓVNI em Kansas. Você tem que ir pra lá imediatamente, tá uma agitação de gente e militares...

Mulder sai de cima de Scully. Deita-se, o corpo tremendo. Fecha os olhos. Respira fundo. Scully fecha os olhos, numa atitude desconsolada. Mulder olha pra ela. Ele estende o braço até o telefone. Arranca-o da parede. Scully olha-o com surpresa.

SCULLY: - Não vai ir até lá, Mulder?

MULDER: - Não, Scully. Hoje não. Hoje, realmente não.

Scully sorri. Mulder a puxa de encontro a seu corpo e a abraça. Faz carinhos nos cabelos dela. Ela recosta sua cabeça no peito dele, trêmula.

SCULLY: - Por que seu coração está disparado?

MULDER: - Pela mesma coisa que o seu. Que loucura, Scully!... E-eu... Acho que você me pegou, Scully.

Scully sorri.

MULDER: - Tem uma coisa que eu não disse pra você.

SCULLY: - E o que é?

MULDER: - ... Foi bom. Muito bom mesmo.

SCULLY: - Hum...

MULDER: -(SÉRIO) Tem outra coisa.

Mulder abre a gaveta da cômoda. Entrega uma caixinha pra Scully.

MULDER: - Venho guardando isso há muito tempo, e se quiser ficar brava comigo porque eu não falei antes, tem todo o direito.

SCULLY: - O que é?

MULDER: - Abre.

SCULLY: - Mulder...

Scully abre a caixinha. Vê uma chave.

SCULLY: - O que é isso, Mulder?

MULDER: - É a chave de um recipiente metálico que está guardado num laboratório de criogenia.

Scully olha pra ele, intrigada.

SCULLY: - Você sempre me dá presentes estranhos, mas agora...

MULDER: - É uma coisa que eu consegui pegar do Canceroso. E é muito importante pra você... E-eu não entreguei antes, porque... Eu tinha medo que morresse de câncer e... Além de te perder, eu perderia um pedaço de você...

SCULLY: - Mulder, você tá me assustando. O que tem lá?

MULDER: - Seu filho, Scully. O filho que você pensa que não pode ter mais.

Scully olha-o sem entender.

MULDER: - Roubei alguns óvulos seus, que estavam de posse deles.

SCULLY: - (EMOCIONADA) Mulder... E-eu...

Scully o abraça. Chora. Ele fecha os olhos e a envolve em seus braços.

MULDER: -Amo você... Faria qualquer coisa por você...

[Fade in]


BLOCO 4:

A CULPA(cena cortada da fic Enigma 2)

[Fade out]

O silêncio entre eles perdura. Ela, envolvida nos braços dele, derrubando lágrimas. Ele, afagando ternamente os cabelos dela. Então ela quebra o silêncio.

SCULLY: - Teria me entregado isto se essa noite não acontecesse nunca?

MULDER: - ... Eu... Eu não sei. Não vou mentir pra você, Scully. Mas eu... Eu tinha a certeza de essa noite aconteceria. Que depois das coisas que falei, dos sentimentos que demonstramos... Não havia mais volta. Scully, o que sentíamos era tão latente que todos a nossa volta percebiam. E você e eu também, mas fingíamos por medo.

SCULLY: - ...

MULDER: - E eu... (TRISTE) Eu só queria que... Que seus filhos fossem meus filhos. Fui egoísta? Fui. Eu... Eu não questionei por nenhum momento que você... Que você quisesse tê-los com outra pessoa... Me desculpe.

Ela seca as lágrimas, tentando parar de chorar. Ele fecha os olhos sentindo o corpo dela se aquecendo ao seu.

SCULLY: - (CONFUSA) Mulder... Isso é verdade? Ou você está apenas brincando comigo?

Ele abre os olhos e olha pra ela, incrédulo.

MULDER: - Por que eu brincaria com você?

SCULLY: - ... Porque homens gostam de fazer isso.

MULDER: - Canalhas gostam de fazer isso.

SCULLY: - ... É que você sempre faz brincadeiras com tudo... Poderia estar brincando comigo.

MULDER: - Se você tivesse acreditado na minha brincadeira de dizer verdades, teria ouvido as verdades que insisto em dizer brincando.

SCULLY: - ...

MULDER: - ...

SCULLY: - ...

MULDER: - Está arrependida?

SCULLY: - Você está?

MULDER: - Não.

SCULLY: - Não estou arrependida também. Só estou me sentindo culpada.

MULDER: - Dois.

Ela o solta. Recosta o corpo no colchão. Puxa mais o lençol sobre os seios. Eles disfarçam, olhando pros lados. Silêncio completo. Medo um do outro.

SCULLY: - ...

MULDER: - ...

SCULLY: - ...

MULDER: - Eu acho que você sabe que não sou um canalha. Nunca te dei motivos pra pensar o contrário.

SCULLY: - (NERVOSA) ... Me desculpa.

Mulder acaricia o rosto dela ternamente, num sorriso. Vira o rosto dela suavemente pelo queixo e olha em seus olhos.

MULDER: - Eu amo você. Isso é só um complemento. Se nunca acontecesse, não mudaria em nada o que sinto por você.

Ela olha pra ele com medo. Ele olha nos olhos dela. Ela dá um sorriso, entre lágrimas. Abraça-se nele.

SCULLY: - Você me surpreende...

MULDER: - Eu posso te surpreender a cada dia, contanto que me deixe fazer isso.

SCULLY: - ...

MULDER: - (SÉRIO) Scully, me diz que o que aconteceu hoje aqui não foi apenas hormônios. Eu não quero brincar com você e nem quero que você brinque comigo.

Ela senta-se na cama, recostando-se no travesseiro ao lado dele. Puxa o lençol sobre os seios.

SCULLY: - (PREOCUPADA) Por que me disse isso?

MULDER: - Porque eu... (RECEOSO/ BRINCA COM OS DEDOS NERVOSAMENTE) Eu sou um cara calejado, tá legal? Eu não estou mais em idade de ficar brincando.

Ela olha pra ele.

SCULLY: - ... Mulder... Vamos ser sinceros. Vamos ser racionais por um momento. Isto não vai dar certo. Não vamos fazer promessas. Nós dois somos completamente diferentes. Não dá certo nem no trabalho!

MULDER: - Sabe o que penso sobre isso? Talvez Deus queira que nós conheçamos algumas pessoas erradas antes de encontrar a pessoa certa para que saibamos, ao encontrá-la, agradecer por esta bênção.

Ela perde o olhar no nada.

SCULLY: - Eu entendo. Mulder, eu também não tive boas experiências e acho que você deve suspeitar disso. Sei que a gente nunca conversou sobre essas coisas...

Ele olha pra ela. Scully também brinca com os dedos nervosamente.

SCULLY: - Eu sempre me envolvi com os homens errados, geralmente mais velhos do que eu, porque tinha medo de não agradar os homens da minha idade, porque eu sou feia e os homens mais velhos pelo menos queriam mulheres mais novas. Era só o que eu poderia oferecer pra eles, a minha juventude... Eu não sou a mulher que você pensa, tenho coisas no meu passado que gostaria de enterrar, coisas negras e sujas e...

MULDER: - Todos temos coisas das quais não queremos relembrar, Scully. Eu também tenho. E não quero o seu passado. Eu quero o seu presente. Pouco me importa o que você fez. Era o certo pra você naquela hora. Você deve ter raciocinado e chegado à única lógica de aquilo era o mais certo. Se hoje te parece errado, foi a única resposta na época. Não fica se martirizando por erros, Scully.

SCULLY: - ...

MULDER: - E nem fica dizendo que você é feia. Você não é feia. Eu não sei porque você se acha feia, você é uma mulher sexy, uma mulher inteligente, bonita, alguém com quem a gente nunca cansa de falar, a gente não enjoa... Quando eu estou pra baixo me encerro neste lugar e não abro a porta nem pros meus amigos. Mas se sei que é você, por pior que eu esteja, eu abro a porta. Porque sei que é a minha amiga Scully quem está ali. Ela vem me dizer coisas que só eu e ela entendemos. Ela vem com esperança e brilho nos olhos. Ou ela está só e confusa, precisando de palavras ou de um abraço.

SCULLY: - Mas eu não sou mulher pra você, Mulder. Olha pra você, você é o tipo que toda a mulher sonha!

MULDER: - (DEBOCHADO) Até eu falar em discos voadores e conspirações governamentais. Depois de ‘um cara interessante’ eu caio pra última posição: ‘descartar da agenda, ele é louco’.

Ela começa a rir. Ele olha apaixonado pra ela. Ela abaixa a cabeça. Ele aproxima seus lábios do rosto dela e a beija suavemente no rosto. Ela sorri, sem olhar pra ele. Ele ajeita o cabelo dela pra trás da orelha, admirando-a.

SCULLY: - (TÍMIDA) Para, Mulder, estou ficando corada!

MULDER: - (SORRI)

SCULLY: - ... Mulder, começou errado.

MULDER: - Nosso relacionamento?

SCULLY: - Essa noite.

MULDER: - Por quê?

SCULLY: - (NERVOSA) Olha, eu não quero que você pense que eu sou mulher dessas coisas, sabe?

MULDER: - (DEBOCHADO) Que coisas?

SCULLY: - (ENVERGONHADA) Dessas... Você sabe do que estou falando. Eu só quero que saiba que estava bêbada.

MULDER: - (SORRI/ OLHANDO-A COM A TERNURA DE QUEM ENTENDE O MEDO DELA) ... Scully...

SCULLY: - É, é sério, eu não sou assim e...

MULDER: - Por que está me dizendo isso?

SCULLY: - Porque eu não quero que pense que eu sou uma vadia qualquer e...

MULDER: - Scully, por que se preocupa com o que eu possa pensar? Por que acha que pensaria isto de você?

SCULLY: - (NERVOSA) ...

MULDER: - Que mal pode haver no que você fez? Eu gostei.

Mulder abaixa a cabeça, brincando com o lençol, nervoso.

SCULLY: - Eu estava bêbada. Foi isso.

MULDER: - Tudo bem. É uma boa justificativa.

SCULLY: - Não estou me justificando...

MULDER: - Ah, não?

SCULLY: - E-eu... Eu acho que... É que...

MULDER: - Scully não é mais fácil você olhar pra mim e dizer a verdade: Mulder eu senti vontade de fazer isso com você. É simples, não é?

SCULLY: - Mas é que eu... E-eu só queria ser mulher pra você... Sabe? Você é uma pessoa cheia de experiências, você é um homem sem preconceitos, que exige sexo não convencional... sabe...

MULDER: - Um tarado?

SCULLY: - Não, essa palavra é forte demais, e-eu...

Ele começa a rir. Ela olha pra ele, assustada.

MULDER: - Desculpe... Desculpe, Scully. É que eu achei engraçado.

SCULLY: - ...

MULDER: - De onde tirou essa ideia de que eu seja um tarado?

SCULLY: - E não é?

Ele abaixa a cabeça rindo. Brinca com o lençol.

MULDER: - Scully, cão que ladra não morde.

Ela cala-se, morta de vergonha. Ele afaga o rosto dela.

MULDER: - Olha pra mim.

Ela olha pra ele.

MULDER: - Se você não começasse de algum jeito, eu ia terminar bêbado e contando piada de papagaio. Porque eu não teria coragem. Não teria mesmo.

Ela sorri.

MULDER: - Pra mim você é uma deusa, algo intocável. E se tudo acontecesse seriamente, naquela convenção comum, com certeza eu teria fugido pela janela num ataque de pânico. E você conhece muito bem a minha cara de pânico... (PÂNICO) Estou com ela agora.

SCULLY: - Você não fala sério. Você não é tímido.

MULDER: - Scully, você vai se surpreender comigo. Lamento te informar, mas aquele cara cheio de experiências sexuais, um tarado sem vergonha, na verdade não passa de um babaca cheio de teorias. Prática muito pouca. Era propaganda enganosa... (ABAIXA A CABEÇA/ SORRI) Por que estou admitindo pra você a minha incapacidade de me entregar?

SCULLY: - ... (NERVOSA) Ambos não sabemos detalhes íntimos um do outro...

MULDER: - (DEBOCHADO) Eu não tenho preconceitos, Scully. Contanto que você não me proponha roupas de couro cheias de tachinhas e o uso de objetos pontiagudos...

Ela ri. Ele tenta deixa-la mais calma. Vira-se de lado e apoia o cotovelo no travesseiro e a mão no rosto, olhando pra ela. Ela brinca com os dedos, cabisbaixa, sem olhar pra ele.

SCULLY: - Eu sou uma pervertida, Mulder. Se soubesse o monte de fantasias que eu tenho... Sei lá, nem são tão absurdas eu acho, podem até serem comuns pras pessoas, mas eu nunca as vivi e...

MULDER: - Ah, eu duvido que sua lista seja maior do que a minha. São coisas muito bizarras?

SCULLY: - (RINDO) Não!!!!!

MULDER: - Então fala.

SCULLY: - Não! (RINDO DE SI MESMA/ NERVOSA) Meu Deus, por que estou dizendo isso pra você na nossa primeira noite????

MULDER: - (DEBOCHADO) Hum, acho que devem ser coisas escandalosas mesmo, Scully...

SCULLY: - (FELIZ) Por que você consegue fazer com que eu diga coisas que teria vergonha de dizer até para um padre numa confissão?

MULDER: - (RINDO) Você até agora não me disse nada escandaloso! E eu tô doido pra ouvir você dizer algo escandaloso. Isso seria um fato inusitado!!!

SCULLY: - ... Lugares diferentes. Coisinhas diferentes.

MULDER: - (SEM ENTENDER) Coisinhas???

SCULLY: - (RINDO) ... É, coisinhas... Entende o que quero dizer, não é?

MULDER: - (RI) Hum, gostei do ‘coisinhas’. Acho que vai entrar pro meu dicionário de verbetes. Coisinhas é diferente.

SCULLY: - (SORRI)

MULDER: - Que coisinhas? Tipo a champanhe de hoje, ou morangos e sorvete?

SCULLY: - ... (RINDO/ ENCABULADA)

MULDER: - Ah, isso não é escabroso! Você devia ler mais anúncios de jornais. Encontra cada uma.

Ela sorri. Ele olha apaixonado pra ela. Ela escorrega o corpo e deita-se.

MULDER: - Você fica mais linda quando sorri. Sabia disso? Poucas vezes vi você sorrindo assim. Eu gosto disso.

SCULLY: - ...

MULDER: - Você brilha.

SCULLY: - E você gosta de dizer coisas bonitas sempre? Ou está dizendo apenas porque é nossa primeira vez?

MULDER: - Eu sou um romântico incurável, Scully. Embora eu não deixe isso transparecer.

SCULLY: - Me fala sobre isso, Mulder. Que tipo de homem você é?

MULDER: - (DEBOCHADO) Com duas pernas e dois braços.

Ela dá um tapinha nele. Ele ri.

SCULLY: - É sério!

MULDER: - Eu... Eu sei lá, Scully. Eu sou sentimental, acho que já percebeu isso... E você?

SCULLY: - Deixe que o tempo diga quem sou, Mulder.

MULDER: - Hum... E eu gosto de mulheres misteriosas...

SCULLY: - (SORRI)

Mulder a contempla com os olhos.

MULDER: - ... Aquilo que o senso comum entende hoje por amor platônico, amor sem contato físico, é diferente do que está em Platão. Para ele, esse amor idealizado não exclui o contato físico e sim otranscende.

SCULLY: - ... (TRISTE) Pode haver amor assim? Transcendental? Mágico? Nosso sentimento é assim? Eu... Eu gostaria de acreditar nisso, Mulder. De viver isso. Mas está apenas em contos de fadas e teorias filosóficas.

MULDER: - Você transcende qualquer desejo da carne. Você é desejo do espírito. Alimento da alma. Quantos anos tocar em sua mão me iluminava num sorriso? Suas palavras me iluminavam em ternura? Seu amor, sua doçura, me transformavam em alguém melhor? Sua cumplicidade abria meus olhos? Sua ciência me salvou? Quantas vezes você me afastou da morte? Da minha própria ruína? Eu só descobri que tinha um coração quando ele começou a bater no meu peito. E isso foi no dia em que comecei a amar você. E quando esse sentimento surgiu foi que percebi que a vida tinha beleza. E que eu tinha algo muito importante pra perder, precisava reduzir minha velocidade. Proteger meu tesouro dos inimigos.

SCULLY: - (OLHANDO PRA ELE EM LÁGRIMAS)

MULDER: - Bastava apenas um toque. Um gesto. E tudo ficava envolto em magia. Chamo isso de transcendental. Por isso tenho tanto respeito. E medo. Medo de te perder. Porque o que sentimos é recíproco. E isso me fascina. É diferente. Envolve muito mais do que pele. Envolve alma. É único. Raro. Puro.

Mulder olha pra ela. Ela olha pra ele. Olhos nos olhos. A seriedade surge repentinamente entre os dois. O silêncio também.

MULDER (OFF): - Fiquei olhando dentro dos olhos dela. Sim, Scully. Poderia haver amor transcendental. Era o que eu sentia por você. Eu só queria te adorar. Como alguém que adora o sol. Como alguém que entende a lua. Como alguém que grita em desespero pela salvação dos anjos... Você era o meu anjo. Meu anjo Scully. Vinha me salvar de mim mesmo. Da minha destruição.

Mulder aproxima os lábios dos dela. Ela fecha os olhos, enquanto ele toma os lábios dela num beijo suave. Segura o rosto dela com uma das mãos, pousando seu corpo sobre o dela. Afasta seus lábios. Olha-a nos olhos. Ela retribui o olhar, deixando cair uma lágrima. Ele arrasta-se mais pra cima e beija-lhe os cabelos, aspirando seu perfume. Scully fecha os olhos. Ele beija-lhe a testa, sopra suavemente as pálpebras dela, beija-as. Beija seu rosto. Seus lábios. Seu queixo, pescoço, entre seus seios, a adorando. Ela solta um suspiro incontido, permanecendo de olhos fechados, envolta em magia. Mulder desce os lábios pela barriga de Scully. Beija-a. Desliza a ponta de seus dedos pelos braços dela. Scully permanece imóvel, de olhos fechados.

Mulder percorre seus lábios semi-abertos pelo ventre dela, em suaves beijos. Ela contrai a barriga, num reflexo. Ele desce para as pernas dela, beijando-a. Ela vira o rosto contra o travesseiro, entorpecida, soltando gemidos baixinhos, se entregando. Mulder volta arrastando seus lábios pela pele alva, subindo-lhe pela perna, quadril, e pousando seus lábios entre os seios dela. Ela envolve as mãos nos cabelos dele, deslizando-as com carinho pelas costas. Mulder guia os lábios lentamente até os seios dela. Ela vira o rosto para o outro lado, numa expressão de prazer e de quem não acredita que aquilo está acontecendo. Ele desliza a ponta dos dedos, em carícias suaves pelo corpo dela. Ela vai se entregando mais e mais. Ele volta a beija-la no pescoço, afagando-lhe os cabelos. Ela vira o rosto procurando os lábios dele. Trocam um longo beijo. Scully inclina a cabeça contra o travesseiro entregando-lhe o pescoço. Ele a beija com ternura. Scully envolve os braços nas costas nuas dele, sentindo sua pele, sua anatomia. O medo vai dando espaço ao desejo de vários anos. Ela sente-o dentro de si. Não contém um gemido. Solta os braços e agarra-se nas grades da cama. Ele sobe as mãos suavemente pelos braços dela e segura-se nas mãos dela, movendo seu corpo lentamente. Scully solta as mãos das grades da cama e envolve seus braços em Mulder. Uma das mãos entre os cabelos dele. Sorri apaixonada. O mantém preso em seus braços. Mulder procura os lábios dela. Trocam um beijo profundo, apaixonado. Os dois enlaçam os dedos. Ele continua a mover-se suavemente contra o corpo dela, com a cabeça aconchegada entre o ombro e o pescoço de Scully, fechando os olhos, naquele seu sorriso repleto de ternura.

MULDER: - (MURMURA) Eu amo você... Deus, como eu amo você...


TO BE CONTINUED...


*Sinceramente, achei esta poesia envelhecida entre meus papéis. Não sei quem é autora.


06/03/2001

15 Août 2019 23:12:05 0 Rapport Incorporer 1
La fin

A propos de l’auteur

Lara One As fanfics da One são escritas em forma de roteiro adaptado, em episódios e dispostas por temporadas, como uma série de verdade. Uma alternativa shipper à mitologia da série de televisão Arquivo X. https://www.facebook.com/laraone1

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