S05#05 - DOMINATUM Suivre l’histoire

lara-one Lara One

Algo está acontecendo no apartamento de número 42. Mas a ajuda não chegará tarde demais para Scully?


Fanfiction Série/ Doramas/Opéras de savon Interdit aux moins de 18 ans.

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S05#05 - DOMINATUM

INTRODUÇÃO AO EPISÓDIO:

[Som: Era – Enae Volare Mezzo]

Scully puxa a arma, enquanto abre a porta do quarto. Mira-a nervosamente. Cabelos desgrenhados. Blusa semi-aberta. Ela treme de medo, mas se mantém firme. Os nervos à flor da pele.

SCULLY: - (GRITA/ NERVOSA) Para trás! Não se aproxime ou eu atiro!!!!!!

Ela consegue sair correndo, abrindo a porta do apartamento. Fecha-a. Nervosamente procura a chave nos bolsos, mas percebe que o agressor gira a maçaneta. Scully desiste. Corre até o elevador. O pavor estampado nos olhos. Ela aperta o botão do elevador insistentemente. Olha pra cima e percebe que falta apenas um andar para o elevador chegar. Mas vira-se pra trás e vê que não dará tempo. Ele caminha em sua direção.

Scully corre e empurra a porta que dá acesso às escadas. Desce em desespero. O suor lhe escorre da testa e ela consegue atingir o pavimento do estacionamento. Corre, enquanto retira as chaves do bolso. Aproxima-se do carro. Mãos trêmulas, ela mal consegue segurar a chave. Ergue o rosto na direção das escadas e o medo aumenta. Ela não tem muito tempo e não consegue abrir a porta de nervosismo. Alterna o olhar assustado entre a chave e a direção das escadas. Pulsação acelerada, suor e medo.

Scully consegue abrir a porta, entra rapidamente, trancando-a. Coloca a chave na ignição, não consegue parar de tremer. Olha para a janela do carro e percebe a mão que se projeta contra o vidro, estilhaçando-o. Scully encolhe-se, soltando um grito de pavor. Mulder apenas lhe dá um sorriso cínico, olhos brilhando de fúria. Rosto arranhado, escorrendo sangue. Mulder a agarra pelos cabelos, a mão ensanguentada pelos cacos de vidro, puxando a cabeça dela pra fora do carro, violentamente. Ela chora, desesperada, aos gritos.

SCULLY: - (SUPLICA/CHORANDO) Não!! Não me mata, por favor!!!!!!

VINHETA DE ABERTURA: A VERDADE ESTÁ LÁ FORA


BLOCO 1:

Virgínia – 10:29 A.M.

[Som: Simple Red – For your Babies]

Mulder dirige o carro. Scully ao lado dele, com uma pasta de couro, cheia de papéis, tentando ajeita-los. Mulder sorri.

MULDER: - Quem manda ser uma cientista renomada? Parabéns, você foi a escolhida para trabalhar nesse sábado ensolarado e bonito. Vou largar você em Quântico e depois vou pra casa, ficar de pernas pra cima, rindo de você.

SCULLY: - (SORRI) E vai fazer o supermercado.

MULDER: - (DEBOCHADO) Sabia que alguma coisa tinha que me deixar estressado... Que tal se eu fosse invadir uma colônia alienígena? Hum? Acho menos perigoso e tumultuado.

Ela sorri. Mulder dobra a rua, subindo a pequena ladeira, cheia de árvores pela calçada. Scully continua mexendo com os papéis, mas volta sua atenção pra janela, acompanhando algo com a cabeça. Mulder para o carro. Dá marcha ré.

SCULLY: - O que está fazendo?

MULDER: - (SORRI) Desculpe, esqueci que toda a vez que passamos por essa rua você tem que namorar um pouco.

Ela olha pela janela. Abre um sorriso. Mulder estaciona o carro.

MULDER: - Vamos, Scully. Vamos dar uma olhada e aproveitar que hoje temos tempo. (DEBOCHADO) Já estou cansado. Cada vez que viemos pra Virginia e passamos por aqui, você fica babando pela janela. Hora de matar a curiosidade desses olhos azuis.

Mulder desce do carro. Scully atrás dele. Os dois param na calçada, um ao lado do outro, olhando para a casa amarela de dois pisos com um jardim florido.

SCULLY: - Eu gosto de olhar pra ela, Mulder.

Mulder disfarçadamente leva sua mão até a dela. Segura-a. Ficam de mãos dadas. Mulder olha pra ela, que contempla a casa, com os olhos brilhando.

SCULLY: - Essa casa me transmite paz.

MULDER: - (SORRI) 'Sente' isso?

SCULLY: - (SORRI) 'Sinto'.

MULDER: - Essa casa é a sua cara, sabia? Ou estou errado?

SCULLY: - (IMPRESSIONADA) É a casa dos meus sonhos, que eu sempre imaginei. Parece até que foi feita por alguém que entrou em minha mente.

MULDER: - (DEBOCHADO) Tem certeza de que nunca namorou um arquiteto?

Mulder caminha pelo jardim. Olha para a placa de 'vende-se'. Pega o celular.

SCULLY: - O que está fazendo?

MULDER: - Eu quero saber quanto custa.

SCULLY: - (SÉRIA) Mulder, por favor! Nós não temos dinheiro pra comprar uma casa como esta. E eu não costumo jogar na loteria.

MULDER: - Vamos Scully, permita-se sonhar. E depois, olhar não paga nada.

Scully acena a cabeça negativamente, rindo. Caminha pelo jardim. Observa a frente da casa. Mulder fala ao celular, enquanto olha pra ela com ternura. Scully caminha ao lado da casa, a observando. Mulder corre até ela, guardando o celular.

MULDER: - Uma mulher muito simpática diz que está há apenas uma quadra daqui e virá nos mostrar.

SCULLY: - Mulder, você é maluco!

MULDER: - Assim você mata a curiosidade.

SCULLY: - (RINDO) Bem, a garagem é grande. Cabe meu Porsche, meu carro velho e o carro que você não tem...

Ele olha pra ela debochado.

MULDER: - Pensei que fosse 'comunhão de bens'.

SCULLY: - (DEBOCHADA) Ora, Mulder... Acha mesmo que vou sair ganhando algo? Dois carros contra um sofá velho cheio de farelos e sementes de girassol?

Ele ri. Os dois param à frente da garagem. Desviam o olhar para o lado. Perdem os olhos para o quintal, sérios. Ficam em silêncio de segundos, espantados.

MULDER: - Você acredita no que está vendo?

SCULLY: - Não mesmo!

MULDER: - Confesso que olhando a frente da casa eu nunca suspeitaria que existisse isso tudo aqui atrás.

SCULLY: - Parece simples, em vista das demais casas daqui, mas com tudo isso no quintal deve custar uma fortuna!

Mulder abre um sorriso. Pega a mão dela. A puxa para o espaçoso quintal com jardim, gazebo, piscina, uma fonte, espaço coberto com mesa, estufa, balanço, um barracão e uma árvore enorme. Os dois ficam rindo. Mulder solta a mão dela.

MULDER: - Bom, dá para o júnior fazer uma casa na árvore...

SCULLY: - (OLHOS BRILHANDO) ...

MULDER: - Dá pra jogar basquete sem ser incomodado... O Cookie vai ter espaço pra se exercitar...

Ela sorri. Mulder caminha até a piscina.

MULDER: - (DEBOCHADO) Tem uma estufa pras suas plantas mais ao fundo, uma piscina pra você promover os churrascos mensais da família Scully... E um barracão velho de jardim pra que eu possa me esconder do seu irmão.

Ela começa a rir. Vira-se pra casa. Há uma enorme varanda que dá acesso à porta dos fundos. Scully abre um sorriso como quem sonha alto.

Corta para a mulher gordinha, de óculos, que se aproxima rapidamente deles, com uma pasta.

DEBBY: - Olá, é o casal Watkins?

Scully olha pra Mulder. Mulder pisca pra ela. Olha pra mulher.

MULDER: - Exatamente.

Ela os cumprimenta.

DEBBY: - Muito prazer. Sou a corretora, Debby Lincoln. Bem, acho que já se impressionaram com o jardim. Mas precisam ver lá dentro. Tem uma cozinha espaçosa, uma sala de jantar, sala de estar... Vocês têm filhos?

MULDER: - Um. Por enquanto.

Scully olha pra ele, incrédula.

DEBBY: - Ah, então é perfeita pra vocês! Tem muito espaço pra crianças e tem três quartos. (SORRI) Pra garantir que o próximo filho tenha o seu...

Mulder olha para Scully. Ergue as sobrancelhas debochadamente. Ela abaixa a cabeça, rindo. Ele envolve o braço nela.

MULDER: - (DEBOCHADO) Só três quartos? Hum... Acho que não vai dar... Ela gosta de família grande, sabe? Tipo seis, sete, sentados à mesa e atirando cereais uns nos outros às 8 da manhã...

DEBBY: - (SORRI) Mas há muito espaço para reformas. Os quartos ficam lá em cima. E ainda tem um sótão incrível que serve para escritório... Ah, mas deixa que eu mostre pra vocês. A varanda precisa de uma pintura.

MULDER: - (PARANOICO) Por que a casa está à venda? Alguém morreu aqui, algum fenômeno poltergeist, qual o histórico do terreno...

A mulher olha pra Mulder. Scully sorri, desconcertada, o cutucando.

MULDER: - Eu gosto de saber dessas coisas, embora as imobiliárias nunca revelem a verdade.

SCULLY: - (SORRINDO SEM GRAÇA) Ele está brincando.

DEBBY: - Ah!

Ele olha sério pra Scully.

MULDER: - Não estou não.

SCULLY: - (RALHANDO) Mulder!

DEBBY: - Bem, ela foi construída pelo atual proprietário, ele é arquiteto. A casa é nova e nunca foi habitada. Ele construiu para a família, mas a esposa preferiu morar na Califórnia. Quanto ao terreno, se o senhor quiser verificar nos registros do município... Mas lhe garanto que não foi aqui que Steven Spielberg se inspirou para fazer Poltergeist.

Scully segura o riso. Debby olha pra ela.

DEBBY: - Não se preocupem. Também sou supersticiosa.

Debby puxa a corrente do pescoço, revelando um pingente de pirâmide. Mulder olha debochado pra Scully. Olha pra Debby.

MULDER: - E a vizinhança?

DEBBY: - Nenhum tarado ou assassino serial que saibamos.

Scully ri. Mulder se entrega e ri também. Debby sorri pra eles.

DEBBY: - Vocês têm muito senso de humor... Bem, mas a vizinhança é calma, é um bairro tranquilo, os vizinhos trabalham o dia todo, você só sabe que tem vizinho quando chega o horário de pico da tarde. A rua não tem muito movimento. Mas venham, vou mostrar os cômodos pra vocês. Puxa, me esqueci de dizer. Senhor Watkins vai adorar o porão!

MULDER: - (DEBOCHADO) Puxa, está tão na cara assim que eu gosto de porão?

Scully sorri.

DEBBY: - (SORRINDO) Por causa da adega. Ah, senhora Watkins, vai adorar a lavanderia. Há espaço pro que quiser guardar. Tem armários bonitos, espaçosos... A cozinha é de dar inveja. O piso da casa é em madeira. Bem, como eu disse, o proprietário construiu para ele, então não poupou em design e criatividade. E embora seja uma construção bem simples, ele também não poupou em conforto.

MULDER: - E segurança?

DEBBY: - Bom, a casa toda tem alarmes, incluindo o jardim. Dispositivos de movimento. Ninguém entra aqui sem ser convidado.

Mulder olha pra Scully, debochado. Ela segura o riso. A mulher entra na varanda, retirando as chaves do bolso.

DEBBY: - Se não gostarem da pintura externa...

MULDER: - Não, eu acho o amarelo uma cor muito bonita.

Scully olha pra ele. Cochicha.

SCULLY: - Para! Você sabe que não podemos comprar. Você já tirou o tempo, então não fique alimentando a esperança dela.


Hospital Trinity – Washington D.C. – 9:07 P.M.

A única enfermeira na recepção está atarefa tentando atender telefone e pessoas paradas ao balcão. O Dr. Kepler aproxima-se. Olhar frio e distante.

KEPLER: - Preciso da ficha da senhora Elizabeth Finkler.

A enfermeira não dá ouvidos, continua falando ao telefone, explicando alguma coisa. O médico esboça uma fisionomia de impaciência.

KEPLER: - Pode ser pra hoje?

A enfermeira desliga. Lança um olhar de raiva para o médico. Abre os arquivos, puxando várias pastas. Entrega uma para Kepler. Na agitação, ela derruba duas pastas, misturando os papéis.

MYRA: - Droga!

Ela separa os papéis sem olhar, colocando-os erradamente nas pastas. Vai até o balcão atender os pacientes.


10:46 P.M.

Recepção vazia. O Dr. Kepler aproxima-se do arquivo, sorrateiro. Abre uma gaveta aleatoriamente. As duas pastas mal colocadas lhe chamam a atenção. Ele pega uma delas.

KEPLER: - Saint, Jules A.... (SORRI) ........ Não, é estéril.

Ele larga a pasta no arquivo e pega a outra.

KEPLER: - Scully, Dana K.... (SORRI) Fértil.

O médico pega a pasta de Scully. Fecha a gaveta do arquivo. Aproxima-se do telefone. Disca, tranquilamente, com uma fisionomia estranha. Nada. Procura outro número de telefone na ficha. Disca novamente.

KEPLER: -... Senhorita... (Lê o nome novamente na pasta) Scully, por favor... Aqui é Dr. Alvin Kepler, médico-chefe da ginecologia do Hospital Trinity... Ah, não está... Quem fala? ... Ah, sim. Em nossos registros não consta que ela seja casada... Senhor Mulder, eu... Eu não sei como dizer isto, eu... Eu preciso urgentemente falar com sua esposa e não sei como lhe dar a notícia... Sinceramente, gostaria que o senhor viesse sozinho até aqui para que eu pudesse lhe explicar o que está acontecendo... Sim, receio que é grave. Prefiro não falar por telefone e prefiro que a mantenha desinformada até que possamos conversar... Sim, eu o aguardo... Boa noite.

Kepler desliga. Perde seu olhar para o nada, com um sorriso diabólico nos lábios.


11:17 P.M.

Mulder entra no hospital. Fisionomia de preocupação. Veste camiseta, calças jeans e tênis, revelando ter saído às pressas de casa. Aproxima-se da recepção.

MULDER: - Dr. Kepler, por favor.

MYRA: - Qual deles?

MULDER: - (NERVOSO) Alvin Kepler, o ginecologista.

A enfermeira olha pra Mulder, num tom debochado.

MYRA: - (DEBOCHADA) E... Você tem hora marcada, 'meu bem'?

MULDER: - Ele me ligou, precisa falar comigo.

MYRA: - Seu nome, 'meu bem'?

Mulder se irrita. Mostra o distintivo.

MULDER: - Agente Mulder, do FBI, 'meu bem'.

MYRA: - Ah! Um momento, por favor.

A enfermeira sai da recepção. Mulder abaixa a cabeça, segurando uma angústia visível. Estala os dedos, olha pro lados, coloca as mãos nos bolsos, irrequieto. Kepler aproxima-se.

KEPLER: - Senhor Mulder?

MULDER: - (VIRA-SE RAPIDAMENTE) Sim.

Mulder e Kepler trocam um cumprimento.

KEPLER: - Vamos conversar em minha sala.

Os dois caminham pelo corredor.

MULDER: - (NERVOSO) Aconteceu alguma coisa? E-eu não sabia que ela tinha feito algum exame e...

Kepler abre a porta. Mulder entra. Kepler entra depois dele, trancando a porta. Mulder olha pra ele.

MULDER: - O que houve? O que está acontecendo com a Scully?

Kepler fica de frente pra Mulder e segura sua mão. Mulder olha pra ele. Kepler o encara.


11:38 P.M.

Mulder sai do consultório de Kepler. Policiais passam por ele. Mulder caminha até a saída, sem esboçar nenhuma reação.

Corta para os policiais. Eles entram na sala de Kepler. Este está sentando no chão, se balançando de um lado pra outro, como um autista.

POLICIAL 1: - Dr. Kepler?

Kepler olha pro policial.

POLICIAL 1: - O senhor está preso, acusado de estupro e homicídio premeditado.

KEPLER: - (SEM ENTENDER NADA) Eu???

POLICIAL 2: - Tem o direito de ficar calado ou vamos usar tudo que disser contra você mesmo, seu canalha!

KEPLER: - E-eu não sei do que estão falando! O que estou fazendo aqui?

Os policiais o erguem violentamente, jogando-o contra a parede e o algemando.

KEPLER: - O que foi que eu fiz????

POLICIAL 2: - Sua esposa nos revelou tudo. Diretamente da sala de autópsias, já que ela não pode mais falar.

KEPLER: - (INCRÉDULO) Minha mulher??? Minha mulher morreu?

POLICIAL 1: - Muito engraçado, Kepler.

Kepler começa a chorar em desespero e tenta reagir. Os policiais o arrastam pelo corredor do hospital, chamando a atenção de todo mundo.


Apartamento de Mulder – 1:23 A.M.

Mulder entra. Fecha a porta atrás de si. Coloca a chave do carro sobre o balcão. Cookie está deitado no sofá. Ergue a cabeça, olhando pra Mulder. Mulder olha para o cachorro. Cookie começa a rosnar. Mulder o encara. Cookie levanta-se. Late ferozmente, ameaçando Mulder. Mulder lança um olhar de raiva pra ele. Cookie sai ganindo, correndo pra cozinha e se esconde debaixo da mesa.


2:22 A.M.

Scully sai do elevador rapidamente, cabisbaixa, carregando a pasta de papéis. Para. Põe a mão na testa. Recosta-se na parede, sentindo-se tonta. Olha pra porta de Mulder e instintivamente olha para o elevador. Respira fundo. Caminha até a porta. Ao colocar a mão na maçaneta, ela percebe os pelos do braço arrepiarem-se. Olha intrigada para seu braço. Mas gira a maçaneta e entra, fechando a porta atrás de si. Abraça-se com frio.

SCULLY: - Mulder?

MULDER: - No quarto!

Cookie sai correndo da cozinha, fazendo festa pra Scully.

SCULLY: - Ô, meu filhinho... Sentiu saudades da mamãe?

Scully afaga Cookie.

SCULLY: - Algum problema com o ar? Está frio aqui.

Mulder sai do quarto. Cookie começa a latir.

SCULLY: - Que foi, filho?

Cookie parece histérico, olhando pra Mulder e latindo.

SCULLY: - Papai xingou você, é isso?

MULDER: - (IRRITADO) Esse cachorro parece maluco! Tá agindo estranho desse jeito! Até parece que está vendo o diabo na frente dele!

Cookie rosna, ameaçador.

SCULLY: - Para Cookie! Que coisa feia! O que deu em você?

Cookie senta-se aos pés de Scully. Fica olhando pra Mulder.

SCULLY: - Mulder, estou cansada. Trabalhei como escrava. E o pior é que chego em casa e nem ganho um beijinho.

Mulder sorri. Aproxima-se dela. Cookie avança em Mulder, o segurando pelas calças.

SCULLY: - (GRITA/ ASSUSTADA) Cookie!!!!!!!!!

Mulder tenta se soltar. Scully pega Cookie pela coleira. O cachorro parece fora de si. Continua latindo, louco pra morder Mulder.

SCULLY: - Vou colocá-lo na varanda. Cookie, que diabos está acontecendo com você?

Scully arrasta o cachorro, porque ele reluta, tentando avançar em Mulder. Mulder fica olhando pra ele com raiva. Scully vai pra cozinha.

MULDER: - Deu as vacinas certas?

SCULLY: - Claro! E-eu não sei o que houve com ele.

MULDER: - Eu sei, eu sempre disse que esse cachorro me odiava!

SCULLY: - Mulder, animais não têm ódio. Eles só reagem ao instinto.

MULDER: - Ah, tá certo. Quer dizer que ele tá com fome então e resolveu lanchar a minha perna?

Mulder vai até a cozinha. Scully fecha a porta da varanda, mas Cookie continua latindo como desesperado. Scully abre a porta e grita com ele. Ele se cala. Scully fecha a porta. Sente seus pelos se arrepiarem.

SCULLY: - Mulder, tá muito frio aqui dentro... Não está sentindo um arrepio?

Mulder a abraça por trás, beijando-lhe a nuca.

SCULLY: - Hum, isso sim arrepia.

MULDER: - Eu sei que você adora ficar arrepiada...

SCULLY: - Fez o que eu pedi?

MULDER: - O que você pediu?

Ela vira-se pra ele.

SCULLY: - Mulder... Eu não pedi pra você ir ao supermercado, já que foi o sortudo por aqui a não trabalhar no sábado?

MULDER: - Puxa, esqueci.

SCULLY: - Ah, Mulder! Devia ter deixado o Cookie te morder. Aposto que ele pressentiu que ia ficar sem ração por sua culpa!

Ela abre a geladeira. Ele a abraça por trás, esfregando o rosto no pescoço dela.

SCULLY: - O que foi?

MULDER: - Saudade.

SCULLY: - Hum...

Ele desce as mãos pelo corpo dela, erguendo sua saia.

SCULLY: - Mulder, não.

Ela pega uma caixa de leite e se afasta dele. Ele olha pra ela.

MULDER: - Por que não?

SCULLY: - Estou me sentindo enjoada hoje. Não me sinto bem. Pra completar passei o dia todo sem comer, estou com azia.

Ela serve um copo de leite. Ele a abraça de novo.

SCULLY: - (RALHANDO) Mulder!

Scully se afasta.

SCULLY: - O que há com você?

MULDER: - Comigo? (RI) O que haveria de errado comigo? Você é que tá agindo estranhamente. Perdeu o tesão por mim?

SCULLY: - Mulder, hoje não, não insista. Puxa, a gente havia combinado que nos respeitaríamos quanto a isto.

MULDER: - ... E eu onde fico nessa?

SCULLY: - Não estou me sentindo bem mesmo. Não é nada com você. Acho que vou tomar um banho.

Ela passa por ele, beijando-lhe o rosto. Ele a agarra, colocando a língua na boca de Scully, a puxando pra um beijo. Ela se afasta. Fica chateada com ele. Vai pro banheiro. Mulder a acompanha com os olhos. Cookie começa a arranhar a porta, implorando pra entrar.

SCULLY: - (GRITA) Mulder, deixa o Cookie entrar!

Mulder olha maquiavélico pra porta da varanda.

MULDER: - (GRITA) Você faz um sanduíche pra mim?

SCULLY: - (GRITA) Faço!

Mulder continua olhando pra porta da varanda. Dá um sorriso debochado. Sai da cozinha.


FBI – Sala de interrogatórios – 2:38 A.M.

Skinner põe as mãos na cintura e olha pro agente loiro à sua frente.

SKINNER: - O que há por aqui?

HILDER: - Fugiu da polícia. Fomos acionados e o pegamos tentando sair do país.

Skinner olha pra Kepler, que está sentado no chão, no canto da sala, algemado, com as mãos contra o rosto.

SKINNER: - Qual a acusação?

HILDER: - Estupro e homicídio. O canalha estuprava a mulher e por fim, acabou matando-a.

SKINNER: - Vou colocar o Mulder no caso. Ele lida bem com psicóticos.

HILDER: - Não, já chamamos uma psicóloga, deixe o Estranho fora disso, (RI) não há ET's nessa história... Kepler diz que não se lembra de ter cometido o crime. O interrogamos por várias vezes e ele não se contradiz. Disse que a última coisa que se lembra foi de ter acordado pela manhã, levado o café pra esposa e atendido a porta pro entregador do jornal. Só isso.

Skinner pega a ficha de Kepler e passa os olhos rapidamente.

HILDER: - O detalhe absurdo é que isso aconteceu no mês passado. Mostramos a data de hoje pra ele e ficou em silêncio, como que em estado de choque.

SKINNER: - Acha que ele bateu a cabeça e ficou com alguma espécie de amnésia?

HILDER: - Acho que é um safado mentiroso muito convincente. Estou esperando os resultados dos exames.

SKINNER: - (LENDO A FICHA) Por que um médico faria isso? Ele é um médico renomado no campo da ginecologia.

HILDER: - Não sei, diretor. Mas se visse o corpo da senhora Kepler... Qualquer um percebe muito bem o quanto Kepler é um expert em ginecologia. Pela maneira como retalhou os genitais dela.

O agente afasta-se. Skinner olha para Kepler. Larga a ficha sobre a mesa. Aproxima-se do médico.

SKINNER: - Dr. Alvin Kepler?

Kepler olha pra ele, em desespero.

KEPLER: - (CHORANDO) Eu não fiz isso. Eu não lembro de ter feito isso. Eu jamais a mataria, eu amava a minha mulher... (CHORANDO) Eu a amava...

SKINNER: - Como explica que as digitais encontradas no bisturi eram suas? E nas manchas de sangue impressas no espelho da tomada no banheiro?

KEPLER: - Eu não sei!

SKINNER: - Como explica a sórdida situação em que se encontrava seu quarto, com sua esposa retalhada sobre a cama? Portas e janelas trancadas? Sinto, Dr. Kepler, mas terá de contar a verdade. Não há nada por aqui a seu favor. O FBI gostaria de ajuda-lo, mas diante de tantas provas incriminatórias não há como. Quer realmente nos dizer o que aconteceu?

KEPLER: - (CHORANDO) Eu não sei! Eu não matei minha mulher, eu não me lembro!

SKINNER: - Vai alegar insanidade temporária no tribunal?

KEPLER: - Acha que se eu quisesse matar minha mulher não teria limpado os vestígios?

Skinner o analisa com os olhos. O médico derruba lágrimas.

KEPLER: - Acha que jogaria minha carreira fora? Eu lutei tanto pra chegar onde estou, acha que se eu fizesse algo assim não sumiria com o corpo sem deixar suspeitas? Eu tenho muito a perder!

Skinner respira fundo. Pega o celular e disca.

SKINNER: - ... Mulder? Acho que tenho um caso bem interessante pra você aqui. Preciso também de uma médica legista de confiança. Acho que é um Arquivo X.


BLOCO 2:

Apartamento de Mulder - 2:59 A.M.

Mulder desliga o celular. Scully sai da cozinha. Cookie ao lado dela.

SCULLY: - O que foi?

MULDER: - Problemas. Querem você em Quântico. E eu no FBI.

Scully fecha os olhos. Suspira, cansada.

SCULLY: - Tudo em nome do dever... Mulder, seu sanduíche está pronto. Vou colocar uma roupa e voltar pra Virgínia. (SORRI) Mas prometo não parar na frente daquela casa tão cara!

Scully olha pra mesa de centro. Vê uma corrente igual a sua.

SCULLY: - (TRISTE) Mulder, por que tirou isso da carteira?

MULDER: - Ahn?

SCULLY: - Você me pediu pra ficar com a corrente do nosso filho porque era a coisa mais importante pra você... Pra lembrar-se dele... Por que a deixou jogada aí?

MULDER: - Certas lembranças é melhor serem apagadas.

Scully entristece, sem entender a atitude dele. Mulder não esboça reação alguma. Scully entra no quarto. Mulder olha pra Cookie. Cookie rosna. Mulder entra na cozinha. Pega o sanduíche e começa a estraçalhá-lo, derrubando no chão, olhando malignamente para o cachorro. Cookie olha pra ele rosnando. Mulder limpa as mãos. Olha pra Cookie.

MULDER: - Vamos ver quem é ameaça pra quem aqui dentro.

Cookie late ferozmente.

MULDER: - (GRITA) Scully!!!!!!!!!!!!!!!!!!

Scully entra na cozinha rapidamente. Olha pro chão.

SCULLY: - O que...

MULDER: - Cachorro desgraçado! Olha a bagunça que esse bicho fez! Estraçalhou meu sanduíche!

Scully olha pra Cookie, incrédula.

SCULLY: - Cookie, o que está acontecendo com você? Por que fez isso? Não é da sua índole fazer esse tipo de coisa!

MULDER: - Scully, acho melhor se livrar desse bicho. Ele está ficando louco. Ou neurótico. Sabe que cães costumam sofrer de depressão. Ele está doente e vai acabar machucando alguém. Ele me atacou. Imagina se morde alguma criança aqui do prédio?

Scully olha pra Mulder, entristecida.

SCULLY: - Mulder, está pedindo pra me livrar do meu cachorrinho?

MULDER: - (IRRITADO) Eu não quero mais esse cachorro aqui! Olha o que ele fez!

SCULLY: - E-eu faço outro sanduíche pra você...

MULDER: - (IRRITADO) Perdi a fome! Vira-lata desgraçado! Olha aqui, Scully, você escolhe: ou eu, ou o cachorro! Já passou dos limites!

Scully olha pra Cookie. Agacha-se. Cookie vai até ela, choramingando. Ela o afaga.

SCULLY: - Filhinho, o que deu em você? Por que está sendo um mau menino, hein?

MULDER: - (FURIOSO) Quero esse bicho fora daqui, Scully!

SCULLY: - Mas Mulder...

MULDER: - (GRITA) Fora!

SCULLY: - Mulder, por favor, não faz isso comigo, eu amo o meu cachorrinho. Ele é a minha companhia, ele me ajudou a superar minha perda, me trouxe tanta alegria, ele é o meu filho... Você me deu ele de presente...

MULDER: - Se eu pegar esse cachorro aqui de novo, eu mesmo me livro dele. Não duvide disso, Scully.

Cookie começa a rosnar. Scully o segura pela coleira. Mulder sai furioso da cozinha.

SCULLY: - Cookie...

Ela beija o cachorro, com os olhos cheios de lágrimas.

SCULLY: - Mamãe vai deixar você num lugar bem especial até papai se acalmar, está bem?

Ela se abraça no cachorro, derrubando lágrimas.


FBI - 3:26 A.M.

Mulder entra na sala de interrogatórios. Skinner olha pra ele.

MULDER: - (EM TOM SECO) Scully foi pra Quântico.

Skinner entrega a ficha do médico.

SKINNER: - Dr. Alvin Kepler. Renomado ginecologista. Alega não se lembrar de ter matado a esposa. A última coisa que se lembra foi do dia 15 do mês passado.

MULDER: - ...

Skinner sai. Mulder o acompanha com os olhos. Puxa uma cadeira e senta-se de frente pra Kepler. Kepler olha pra ele. Parece não reconhecê-lo.

KEPLER: - Eu não fiz isso!

MULDER: - (DEBOCHADO) Mysterium iniquitatis?

Kepler olha pra ele sem compreender. Mulder começa a rir. Kepler arregala os olhos. Mulder olha pra ele, debochadamente, com os olhos parados exalando ódio.

MULDER: - Dane-se!

KEPLER: - ...

MULDER: - (RI) Você é meu!

Mulder levanta-se. Sai da sala. Passa por Skinner.

SKINNER: - Mulder?

Mulder olha pra Skinner.

MULDER: - Ele é culpado. Confessou o crime. Disse que vão achar seu jaleco enterrado no fundo do quintal. É a prova que falta. O bolso está rasgado, a esposa rasgou tentando se defender. Quando baterem com as fibras encontradas debaixo das unhas da vítima, não vão mais duvidar. Está mentindo pra se safar de uma prisão perpétua. Esse cara merece é uma execução!

Mulder dá as costas e vai embora. Skinner faz uma fisionomia de frustração.


Apartamento de Mulder – 8:22 A.M.

Scully sai do elevador. Ao aproximar-se da porta fica tonta e arrepiada. Ela olha pro elevador. Curva-se pra frente colocando as mãos na barriga.

SCULLY: - (NERVOSA) Meu Deus, o que está acontecendo???

A porta abre-se e Mulder olha pra ela, num sorriso.

MULDER: - Ei, já voltou?

Ela sente um frio na espinha como se algo a envolvesse por inteira. Vira-se pra ele, assustada.

MULDER: - Ia embora?

SCULLY: - Não, eu... Mulder, acho que tenho de ir ao médico. Há algo de errado comigo. Estou com sensações estranhas.

MULDER: - Entra aí, vou te fazer um chá.

SCULLY: - ...

MULDER: - Café, suco?

SCULLY: - ???

MULDER: - Entra aí.

Ela entra, olhando pra ele, com desconfiança. Ele tranca a porta.

SCULLY: - Mulder.

MULDER: - O que é?

SCULLY: - Qual o nome da minha mãe?

MULDER: - (RI) Como assim?

SCULLY: - (GRITA) O nome da minha mãe!!!!!!

MULDER: - Meg. Margaret.

SCULLY: - Meu distintivo?

MULDER: - Scully, o que está acontecendo com voc...

SCULLY: - Meu distintivo!

MULDER: - Eu não sei! Não lembro nunca do número do seu distintivo.

SCULLY: - ... Mulder, temos um segredo e quero que me conte. Agora, no meu ouvido!

Ele aproxima-se dela. Começa a beija-la. Ela se afasta. Puxa a arma. Mulder olha pra ela.

SCULLY: - Você não é o Mulder! É um deles!

MULDER: - Scully, você tá louca?

SCULLY: - Me diga o nosso segredo!

MULDER: - Qual deles?

SCULLY: - ...

MULDER: - Temos tantos.

SCULLY: - ...

Ela abaixa a arma. Abraça-se nele.

SCULLY: - Mulder, me desculpe. (SORRI) Eu estou me sentindo estranha. Tudo isso está me deixando nervosa, sei lá...

Ele afaga os cabelos dela.

MULDER: - Tudo bem, Scully. Tudo bem. E o cachorro? Livrou-se dele?

SCULLY: - ... Sim, mas eu ainda não entendo por que o Cookie está agindo desse jeito. Ele parece que tem medo de você, raiva de você, sei lá.

MULDER: - Esqueça desse bicho infernal. O que encontrou na senhora Kepler?

SCULLY: - Acredita que esqueceram de verificar sob as unhas? Não há nada que inocente aquele homem, Mulder. Haviam fibras de tecido. Skinner me ligou e informou que encontraram o jaleco. As fibras são do jaleco de Kepler, que estava enterrado no quintal. Mulder, ele afirma que não confessou nada pra você, acredita?

MULDER: - É um cara dura, Scully. Ele acha que a palavra dele vale mais do que a minha? Cretino arrogante. Não passa de um mero mortal estúpido.

Mulder vai pra cozinha. Scully olha pra ele o questionando com os olhos.

SCULLY: - Mulder, observei a ficha médica da senhora Kepler. Um fato me intrigou. Ela havia feito um aborto há poucos dias. Será que o marido sabia? Quem sabe não a matou por isso?

MULDER: - Talvez ele não quisesse que ela abortasse. Talvez quisesse o filho, mas a vadia estava com medo do que ia parir.

Scully olha pra Mulder, com um ar de desconfiança.


Hotel para animais - 8:31 A.M.

A veterinária aproxima-se com a tigela de ração. Abre a porta de grades da enorme gaiola. Cookie ergue a cabeça e olha pra ela, acenando o pequeno toquinho de rabo.

EMMA: - Olá, Cookie! Está com fome?

Ele levanta-se vindo em direção a ela, fazendo festa. Ela derruba a ração no chão.

EMMA: - Eu sou descuidada, né?

Enquanto Emma tenta limpar a bagunça, Cookie sai correndo.

EMMA: - Ei! Cachorrinho, volte aqui!!!!!

Ela sai atrás de Cookie, mas não consegue pegá-lo. Ele vai se esquivando dela, enquanto corre, até pular pela janela aberta.


Apartamento de Mulder - 8:57 AM

Scully entra no box. Liga o chuveiro. Deixa a água correr pelo rosto, deslizando suas mãos pela face. Pressente algo e vira-se rapidamente. Mulder olha pra ela.

SCULLY: - Oh, Mulder! Você me assustou!

MULDER: - (SORRI)

SCULLY: - Que brincadeira boba!

Ele continua olhando pra ela fixamente.

SCULLY: - O que foi?

MULDER: - ...

SCULLY: - Mulder?

MULDER: - Quero você.

SCULLY: - Mulder, por favor eu já disse que não estou me sentindo bem...

Ele continua a olha-la seriamente. Scully sente sua pele arrepiar-se. Olha pra Mulder. Mulder aproxima-se dela, sem piscar os olhos, olhar parado.

SCULLY: - (MEDO) Mulder...

Scully dá um grito de dor e dobra o corpo pra frente, abraçando a barriga.

MULDER: - O que houve?

SCULLY: - (DESESPERADA) Há algo de errado comigo!

Ele ri. Ela ergue o corpo olhando assustada pra ele.

SCULLY: - Mulder, não, eu estou...

Ele a empurra contra a parede, violentamente. Ela fica sem reação alguma, assustada, olhos arregalados. Ele aproxima seus lábios do ouvido dela.

MULDER: - (SUSSURRA) Qui conceptus est de spiritus malo.

Scully olha pra ele, tentando empurra-lo, mas ele é maior e mais forte. A prensa contra a parede, erguendo-a. Com uma das mãos, tapa-lhe a boca.

[Fade in]


[Som: Era – Enae Volare Mezzo]

[Fade out]

O zelador aproxima-se do apartamento acompanhado de Cookie. Bate na porta.

ZELADOR: - Agente Mulder!!!

Nenhuma resposta. Cookie começa a latir, arranhando a porta, desesperado. O zelador retira as chaves do bolso.

ZELADOR: - É, acho que você fugiu. Calma, rapaz... Já vai entrar em casa...

O zelador abre a porta. Cookie entra rapidamente. O zelador fecha a porta e sai.

Corta para o banheiro.

Scully tenta fugir de Mulder mas ele tenta estupra-la. Ela não consegue soltar-se dele e nem gritar, tenta desesperadamente retirar a mão dele de sua boca.

Cookie pula pra dentro do box e agarra a perna de Mulder. Mulder larga Scully, ela quase cai ao chão. Mulder chuta o cachorro, que está fora de si, completamente agressivo. Scully sai do box, mas Mulder a segura pelo braço. Ela grita em desespero. Cookie continua defendendo Scully, que consegue se soltar. Mulder chuta o cachorro novamente. Cookie começa a ganir e se esconde atrás de Scully. Scully olha com fúria pra Mulder.

SCULLY: - Sai daqui.

MULDER: - Scully...

SCULLY: - (GRITA) Sai daqui!!!!!!!

Ele sai do banheiro. Scully tranca a porta.


9:16 A.M.

Mulder está deitado na cama, olhando para o teto. Scully sai do banheiro, vestida num roupão de banho, olhos inchados de chorar. Cookie ao lado dela. Scully olha pra Mulder.

SCULLY: - (INCRÉDULA/ MAGOADA) Por que fez isso?

MULDER: - ...

SCULLY: - (CHORANDO) Mulder, você sabe o que fez? Sabe a gravidade do que fez?

MULDER: - ...

SCULLY: - (GRITA COM RAIVA) Mulder, está me ouvindo?

Ele desvia o olhar do teto lentamente, olhando pra ela com indiferença. Ela derruba lágrimas, está em choque.

MULDER: - Ah, para com isso. Você é minha mulher.

SCULLY: - (INCRÉDULA/ MAGOADA) Mulder, eu não sei o que está havendo com você! Por que está tão agressivo?

MULDER: - Você gosta de violência, sua cadela safada.

Scully olha pra ele. Olha pra arma sobre a cômoda.

SCULLY: - Você não é o Mulder.

MULDER: - Acho que ficou louca, igualzinha ao seu cachorro.

Scully corre pra pegar a arma, mas Mulder é mais rápido.

MULDER: - Oh-oh... Pra quê você quer isso? Hein?

SCULLY: - ... (MEDO)

Ela recua, assustada, sem desviar os olhos dele.

MULDER: - Vem cá, vem.

SCULLY: - (GRITA) Sai de perto de mim!

Cookie começa a latir.

MULDER: - Se você for boazinha não vamos ter problemas. Puxa vida, Scully, eu sou seu marido. O que deu em você?

SCULLY: - ...

MULDER: - Hein?

SCULLY: - ...

Cookie começa a rosnar. Mulder alterna o olhar entre o cachorro e Scully. Receoso.

MULDER: - Vamos dormir.

SCULLY: - ... E-eu tenho trabalho pra fazer.

MULDER: - Mas já é domingo!

SCULLY: - É, e-eu sei, mas se não aprontar até segunda teremos problemas no trabalho.

MULDER: - Se alguém brigar com você, deixe comigo que eu resolvo. Vem, vem pra cama.

Ele aproxima-se, ela fica estática. Mulder a abraça. Ela não demonstra nenhuma reação. Cookie o observa, rosnando.

MULDER: - Eu amo você. Hum? Por que está fugindo de mim?

SCULLY: - N-não estou fugindo de você.

MULDER: - Vem dormir, você está cansada.

SCULLY: - E-eu já vou. Deite-se que eu vou fazer um chá pra nós dois.

Scully vai pra cozinha, as pernas trêmulas de medo. Mulder olha pra Cookie.

MULDER: - Ei, podíamos ser amigos, não é mesmo???

Cookie continua rosnando. Mulder pega a bola de basquete e começa a brincar.

MULDER: - Ei, que jogar??? Vem...

Mulder atira a bola pra dentro do banheiro. Cookie vai pegá-la. Mulder tranca a porta.


Corta para Scully. Ela coloca a chaleira no fogo, enquanto escuta os latidos desesperados do cachorrinho. Procura pelos armários e acha um pote de pílulas pra dormir. Ela coloca a metade da quantidade do pote dentro de uma caneca.

SCULLY (OFF): - Você não é o Mulder... Você não é o Mulder.

MULDER: - O que pensa que está fazendo, sua vaca?

Scully vira-se pra ele, arregalando os olhos. Mulder avança nela, a derrubando por cima da mesa, metendo tapas na cara dela. Ela se defende com os braços.

MULDER: - Que coisa mais feia, tentando dopar seu marido... Quer me matar?

SCULLY: - (CHORANDO) Não!!!

MULDER: - Isso foi muito feio.

Ela se desvencilha dele. Ele a agarra, jogando-a contra a parede. Ela apoia-se com as mãos, evitando bater contra a parede. A fisionomia dela muda pra pavor quando volta seu olhar para Mulder.

Close em Mulder, os olhos vermelhos, a retina como se fosse um olho de gato. Ele sorri cínico, enquanto caminha na direção dela, lentamente.

Scully vai se afastando, apalpando a base do balcão, tentando localizar a gaveta de talheres sem desviar os olhos dele.

MULDER: - Scully, você é uma menina muito má...

Scully abre a gaveta num gesto rápido, puxando o facão. Aponta pra ele.

SCULLY: - (GRITA) Não se aproxime! Não me toque!

MULDER: - (SÉRIO) Agora você me deixou bravo.

Scully dá um pulo quando percebe que as quatro chamas do fogão acendem-se sozinhas e os eletrodomésticos começam a funcionar. Scully olha pra Mulder, com medo. Mulder solta uma risada gutural. A porta da cozinha fecha-se sozinha numa batida. Scully deixa a faca cair no chão. Põe as mãos no pescoço, mas uma força a empurra contra a parede. Ela observa seu crucifixo arrebentar-se e o segura antes de cair ao chão. Mulder olha pra ela, debochado. Abre a boca pra falar, e a voz não é a sua, mas uma voz grotesca.

MULDER: - Tudo poderia ir bem se você não relutasse.

SCULLY: - ... Q-quem é você?

MULDER: - Você sabe meus nomes mas tem medo de pronunciá-los. Eu sou uma legião e levarei vocês comigo.

Ela põe a mão sobre os lábios. Fecha os olhos, rezando baixinho, segurando com força a corrente em sua mão.

MULDER: - Seu deus não vai ouvi-la. Você blasfemou contra ele dizendo coisas sujas, jogando no lixo sua fé por causa da carne. Por causa de um homem. (RI) Ou por causa de dois? (DEBOCHADO) Sua pecadora da carne, amante da luxúria. Não foi você quem amaldiçoou seu deus quando lhe roubaram o filho? Pois bem, eu estou aqui, você nos chamou.

Scully vai se aproximando da porta, enquanto ele tenta se aproximar dela. Scully abre a porta e corre para o quarto, tentando trancar-se, mas Mulder empurra a porta, arremessando ela sobre a cama. Fecha a porta, batendo-a com fúria.

O cachorro parece histérico, latindo, arranhando a porta do banheiro pra sair.

Mulder olha pra Scully, faiscando o mal pelos olhos.

MULDER: - Quero um filho seu. Depois eu vou embora.

SCULLY: - (HORRORIZADA) Oh meu Deus!

Mulder avança nela. Ela crava as unhas no rosto dele. Ele se afasta, colocando as mãos no rosto, que começa a sangrar. Ela olha pra arma de Mulder no coldre sobre a poltrona. Corre até o coldre.

[Som: Era – Enae Volare Mezzo]

Scully puxa a arma, enquanto abre a porta do quarto. Mira-a nervosamente. Cabelos desgrenhados. Blusa semi-aberta. Ela treme de medo, mas se mantém firme. Os nervos à flor da pele.

SCULLY: - (GRITA/ NERVOSA) Para trás! Não se aproxime ou eu atiro!!!!!!

Ela consegue sair correndo, abrindo a porta do apartamento. Fecha-a. Nervosamente procura a chave nos bolsos, mas percebe que o agressor gira a maçaneta. Scully desiste. Corre até o elevador. O pavor estampado nos olhos. Ela aperta o botão do elevador insistentemente. Olha pra cima e percebe que falta apenas um andar para o elevador chegar. Mas vira-se pra trás e vê que não dará tempo. Ele caminha em sua direção.

Scully corre e empurra a porta que dá acesso às escadas. Desce em desespero. O suor lhe escorre da testa e ela consegue atingir o pavimento do estacionamento. Corre, enquanto retira as chaves do bolso. Aproxima-se do carro. Mãos trêmulas, ela mal consegue segurar a chave. Ergue o rosto na direção das escadas e o medo aumenta. Ela não tem muito tempo e não consegue abrir a porta de nervosismo. Alterna o olhar assustado entre a chave e a direção das escadas. Pulsação acelerada, suor e medo.

Scully consegue abrir a porta, entra rapidamente, trancando-a. Coloca a chave na ignição, não consegue parar de tremer. Olha para a janela do carro e percebe a mão que se projeta contra o vidro, estilhaçando-o. Scully encolhe-se, soltando um grito de pavor. Mulder apenas lhe dá um sorriso cínico, olhos brilhando de fúria. Rosto arranhado, correndo sangue. Mulder a agarra pelos cabelos, a mão ensanguentada pelos cacos de vidro, puxando a cabeça dela pra fora do carro, violentamente. Ela chora, desesperada, aos gritos.

SCULLY: - (SUPLICA) Não!! Não me mata, por favor!!!!!! (CHORA)


BLOCO 3:

Mulder, de camisa aberta, puxa Scully pelos cabelos pra dentro do apartamento. Scully está com os cabelos revirados, hematomas pelo rosto e marcas de quem foi espancada. Ela grita. Ele mete um tapa nela.

MULDER: - Cala a boca!

SCULLY: - (CHORANDO)

Mulder fecha a porta e a empurra contra a parede. Passa a mão no rosto dela. Ela vira o rosto.

MULDER: - Você é mais bonita do que aquela vaca do Kepler. O erro dela foi ter cometido um aborto. Poderia ter passado a vida toda achando que o filho era do seu marido... Agora... Agora eu preciso de outro corpo. Aquele não me serve mais.

Scully entende. Fecha os olhos, mordendo os lábios. Mulder a ergue contra a parede. Começa a abrir o robe que ela veste. Ela chora em soluços, imóvel.

MULDER: - Fica quietinha, vai ser melhor pra você.

SCULLY: - (CHORANDO) Eu não tenho o que você quer! Vá embora, deixe o Mulder em paz! Eu não posso dar o que você quer! Eu sou estéril!

[Som: Era – Enae Volare Mezzo]

Mulder encosta seu corpo contra o dela. Mas afasta-se, num grito de dor, colocando as mãos sobre a barriga.

MULDER: - (GRITA) Não!!!!!!!!!!!!!!!!

Scully olha pra ele. Mulder cai no chão. Começa a se revirar pelo tapete.

MULDER: - (AOS GRITOS) Me deixe em paz! Me deixe em paz!!!!!!!!!

SCULLY: - Mulder????

Num desespero, Mulder tenta alcançar seu paletó sobre o sofá, tentando tirar as algemas. Mas não consegue. Seu corpo se arrasta pelo chão, como se uma força invisível o puxasse. Mulder grita. Scully entra em pânico, sem saber o que fazer. Os objetos da sala começam a levitar e serem jogados contra a parede. Scully põe os braços na frente do rosto, aos gritos.

Mulder tenta se agarrar ao chão, mas não consegue. Seu corpo é impelido contra a parede, imóvel. Algo o segura contra a parede, suspenso no ar. Mulder reage e é arremessado com violência contra a escrivaninha, caindo no chão. O computador, o som e a televisão se ligam sozinhos.

Scully continua catatônica, sem conseguir se mover. Desvia a atenção para o computador ligado. O programa de proteção de tela surge, com palavras soltas que formam a frase: 'você me enganou, cadela. Vou levar vocês'.

Scully, num ímpeto tenta ir até Mulder, mas é empurrada por uma força, dando com as costas contra a parede.

Mulder grita de dor. Aos poucos, a pele do abdômen dele começa a ser erguer como se alguma coisa caminhasse por dentro dele. Um rosto surge, como se gritasse, querendo sair de dentro dele, erguendo sua pele.

MULDER: - (GRITA DESESPERADO) Scully sai daqui!!!!!!

Mulder começa a rir. Percebe-se a mudança na cor de seus olhos. Mulder luta, mas não consegue vencer o inimigo dentro dele. Seu olhar fica parado, enquanto ele simula um sorriso de maldade pura. Ele dirige o olhar para Scully. Scully sai porta à fora, desesperada.


11:21 A.M.

As pessoas saem da igreja, cochichando entre si e distribuindo olhares pra ruiva suja de sangue, vestida num robe, que derruba lágrimas segurando uma corrente partida com um crucifixo nas mãos, sentada no último banco.

PE. McCUE: - (PREOCUPADO) Dana?

Ela ergue os olhos.

SCULLY: - (CHORANDO) Padre McCue...

Ela se abraça ao padre. Ele a abraça.

PE. McCUE: - Dana, o que aconteceu com você?

SCULLY: - Preciso de ajuda!

PE. McCUE: - Venha, vamos conversar lá dentro.

SCULLY: - Mas eu acho que Deus não vai me ajudar, eu fui injusta com Ele. Eu duvidei Dele, Padre McCue... (NERVOSA) Eu fiz coisas que me arrependo, eu não segui os mandamentos, a última vez (CHORA) que estive aqui eu blasfemei contra Ele diante do senhor, questionando...

PE. McCUE: - Dana, Deus nunca fica bravo com seus filhos. Ele os perdoa. E duvidar é da natureza humana...

SCULLY: - E-eu... Padre, eu preciso de um exorcista.

PE. McCUE: -???

SCULLY: - Mulder... Mulder está possuído pelo demônio.

PE. McCUE: - Dana, possessões demoníacas são relatos medievais. Isto não existe mais, a Igreja não...

SCULLY: - Padre, por favor. Só o senhor pode me ajudar.

PE. McCUE: - Dana, mesmo que quisesse, eu não sou exorcista. Tem certeza do que me falou? Quer que eu chame a polícia? Mulder fez isso com você?

SCULLY: - Mulder está possuído!

PE. McCUE: - Vamos conversar lá dentro.

O Padre a ajuda a caminhar.


8:34 A.M.

O padre McCue serve um copo de água e entrega pra Scully. Ela segura com as mãos trêmulas.

PADRE McCUE: - Dana, quer me explicar de onde tirou a ideia de que seu namorado esteja possuído pelo demônio?

SCULLY: - Padre, precisa acreditar em mim! Ele tentou me matar!

PADRE McCUE: - Dana, mas isto...

SCULLY: - Não é ele, padre! Não é o Mulder! Eu sinto isto dentro de mim, não posso lhe explicar! Coisas estranhas estão acontecendo!

PADRE McCUE: - Que coisas estranhas?

SCULLY: - (NERVOSA/ ATROPELANDO AS PALAVRAS) Os eletrodomésticos... Eles funcionam sozinhos, as portas se fecham sozinhas, o fogão... Até mesmo o cachorro! Ele pressentiu tudo! Mulder olha com um olhar esquisito, há maldade dentro dele, Mulder nunca fez algo dessa natureza! Eu vi coisas se movendo, e-eu não posso explicar...

PADRE McCUE: - Dana, você me parece cansada, a imaginação prega peças...

SCULLY: - Padre, o senhor sempre foi meu amigo, amigo da minha família. Acredita ou não em mim?

PADRE McCUE: - Acredito que algo de errado está acontecendo com você e Mulder, afinal vocês perderam um filho, isso afeta a relação de um casal e...

SCULLY: - (CHORANDO) Eu sabia que não me daria ouvidos...

PADRE McCUE: - Dana, não é isto. Acontece que possessões demoníacas são fatos raríssimos. E se este é o caso, precisa ser avaliado perante autoridades competentes da igreja. Muitas coisas que são atribuídas ao demônio são apenas problemas de ordem psicológica.

SCULLY: - Padre McCue, eu sei o que eu vi. Se visse, o senhor entenderia. Pode sentir sua pele arrepiando-se quando se aproxima do apartamento dele. Mulder corre perigo, ele não tem fé!

PADRE McCUE: - ...

SCULLY: - Precisa me ajudar! (CHORA) Eu não sei a quem mais recorrer! Só peço que venha comigo e olhe pelo senhor mesmo.


FBI - Gabinete do Diretor-Assistente – 2:11 P.M.

O agente Hilder entra. Skinner toma um café.

HILDER: - Trabalhando no domingo, senhor?

SKINNER: - Tenho um dado interessante sobre o caso Kepler. Há algo que não se encaixa por aqui. E estou realmente intrigado.

HILDER: - ...

SKINNER: - Conversei com o entregador de jornal, Ken Ashley. Sabe o que descobri?

HILDER: - Não, senhor.

SKINNER: - Que ele teve o mesmo problema de amnésia que Kepler. Não se recorda de como foi parar na porta do médico naquela manhã. Ele tem uma brecha de tempo de 2 semanas. (SARCÁSTICO) Será que estamos lidando com uma síndrome de amnésia?

HILDER: -...

SKINNER: - A esposa de Ashley disse que por essas duas semanas não reconheceu o marido. Ela afirma que ele estava violento, tentou matar as crianças e a estuprava, dizendo que precisava ter um filho com ela. A mulher diz que Ashley estava possuído pelo demônio.

HILDER: - (SORRI) O senhor não acredita nisso, acredita?

Skinner olha seriamente pra Hilder. Hilder engole o sorriso.

SKINNER: - Ficaria surpreso com o que já vi, agente Hilder. Está fora do caso. É um Arquivo X. Não é sua jurisdição.


Apartamento de Mulder – 3:19 P.M.

Scully abre a porta do apartamento. Entra. Segura a arma nas mãos trêmulas. Olha pela sala, não vê movimento. Vai para o quarto, empurrando a porta lentamente. Vê Mulder deitado na cama, dormindo. Todo machucado, como se tivesse se auto-mutilado. Scully pega um pano e amarra-o na cama. Vai até o banheiro. Volta com uma seringa. Olha pra ele.

SCULLY: - Me perdoa, Mulder... Mas é melhor pra você.

Ela aplica algo no braço dele. Mulder abre os olhos.

MULDER: - V'nefesh chaim tihiyeh b'guf shel adama!

Ela se afasta, em pânico. Mulder fecha os olhos.


4:12 P.M.

Scully abre a porta. Skinner entra. Ao ver o estado dela, assusta-se.

SKINNER: - O que houve com você?

SCULLY: - ... Nada.

SKINNER: - Eu... Tá certo.

SCULLY: - ???

SKINNER: - Tenho um caso pra vocês, que realmente pode esperar até amanhã. Mas eu vim até aqui pra conversar com alguém, porque estou ficando depressivo, passei o final de semana trabalhando pra me esquecer dos problemas e confesso que pensei em vir até aqui nem que fosse pra incomodar vocês.

Scully olha pra ele ternamente, derrubando lágrimas. Fecha a porta.

SCULLY: - Por que sempre aparece quando preciso de ajuda?

Skinner fecha os olhos, pressentindo o pior.

SKINNER: - Mulder... Ele... O estado dele piorou, é isso?

SCULLY: - ... E-eu nem sei como dizer isso, vai soar loucura, mas eu...

Skinner olha pra ela.

SCULLY: - Mulder... Mulder está possuído pelo demônio.

Skinner abaixa a cabeça.

SKINNER: - O que houve com você?

SCULLY: - Eu... Eu prefiro não falar.

SKINNER: - Foi ele? Bateu em você?

SCULLY: - ... Não era ele. Era outra coisa dentro dele. Mais forte do que Mulder.

SKINNER: - Onde ele está?

SCULLY: - No quarto... Eu... Eu tive de sedá-lo.

Scully começa a chorar. Skinner olha pra ela, com aquela velha ternura de pai protetor. Abraça-a.

SKINNER: - Eu ficarei aqui com você.


5:11 P.M.

Skinner, sentado à mesa, bebe um gole de café, enquanto olha pra Scully. Scully, cotovelos apoiados na mesa, olha pro nada.

SKINNER: - Scully, eu mesmo ando com medo do Mulder. Não sei se a doença afetou as faculdades mentais dele a ponto de passar a se comportar como um alienígena diante de um exemplar da espécie humana. Parece que Mulder me esconde alguma coisa.

SCULLY: - Eu... Eu não sei mais o que fazer! Recorri a um padre, mas tudo o que ouvi foram explicações psicológicas!

SKINNER: - Estou com um Arquivo X sobre isso.

SCULLY: - ?

SKINNER: - Kepler. Verifiquei com a família do jornaleiro e o mesmo tipo de comportamento se apresentou: ambos espancavam a mulher, maltratavam a família e... Alegavam querer um filho.

Scully põe as mãos sobre os lábios.

SCULLY: - Senhor, e se esse espírito maligno trocasse de corpo através do contato?

SKINNER: - Mas Kepler estava em seu estado normal quando Mulder o interrogou.

SCULLY: - E Mulder já estava estranho quando falou com Kepler.

SKINNER: - Deve haver algum elo de ligação aí. Kepler era médico chefe da ginecologia do Hospital Trinity. Fez algum exame, algum tratamento... Qualquer coisa que pudesse fazer Mulder ter algum contato anterior com Kepler?

Scully põe as mãos no rosto, relutante. Skinner olha pra ela.

SCULLY: - Eu... Eu...

Scully suspira. Olha pra Skinner. Toma coragem.

SCULLY: - ... Há alguns meses atrás tentei fazer um tratamento para engravidar.

SKINNER: - (SEM DISFARÇAR UM SORRISO) Tratamento?

SCULLY: - ... Uma técnica de criação de óvulos artificiais.

SKINNER: - Como assim?

SCULLY: - A partir de uma célula diploide de uma mulher sem óvulos e do citoplasma da célula de uma doadora, pode-se criar um óvulo. Teoricamente, qualquer mulher poderá ter filhos. O núcleo da célula doadora é retirado, preservando-se apenas o citoplasma. Depois são injetadas as células somáticas da paciente no citoplasma da doadora. Esse núcleo diploide passa por uma separação ficando apenas 23 pares de cromossomos, ou seja, um óvulo perfeito. Na verdade não é uma técnica oficial, se me entende. Me ofereci como cobaia pra algo que só foi feito com animais até agora.

SKINNER: - (TRISTE) ...

SCULLY: - A fertilização deve ser in vitro.

SKINNER: - Algum progresso?

SCULLY: - ... (SUSPIRA) Não prossegui. Sei que pode ser loucura, ou talvez a chance de ter um filho, mas... As coisas não foram muito boas nos testes com Mulder. Ele é que foi o problema. Sofreu muita exposição à radiação e o tratamento que estava fazendo não surtiu muitos efeitos. Então resolvi desistir, pra não magoá-lo ainda mais. Quero um filho. Eu quero. Mas um filho dele.

Skinner segura a mão dela. Ela suspira.

SCULLY: - Mas não foi com Kepler, se é o que quer saber. Porém minha ficha de exames deve ter ficado por lá. Só que sou estéril, não há volta! Não posso criar óvulos do nada, entendeu? Retiraram todos! Pensei em radiação, mas isto me traria câncer e poderia afetar a criança.

SKINNER: - ... De todos, você foi a que perdeu mais nessa história toda.

SCULLY: - ...

SKINNER: - E o que Mulder faria lá com Kepler? Nenhuma ideia?

SCULLY: - Não.

Skinner levanta-se.

SKINNER: - Vou até o hospital. Preciso descobrir alguma coisa. Se estivermos certos, precisamos expulsar isso definitivamente, antes que algo pior aconteça e ele escolha outro casal pra arruinar.

Skinner coloca o paletó.

SKINNER: - Vai ficar bem?

SCULLY: - Vou.

SKINNER: - Algeme-o na cama. Eu volto logo.

SCULLY: - ... Obrigada.

SKINNER: - Não me agradeça. Pelo menos mantenho minha mente ocupada com coisas úteis. Sou eu quem está se tornando um 'Estranho' ultimamente. Atolado no trabalho, varando as noites de um lado pro outro, conversando com mulheres na internet e olhando desconfiado pros céus.

Scully dá um sorriso amável.


7:21 P.M.

Scully lê algo no computador.

SCULLY (OFF): - Diabo é a tradução grega de Satã. Significa, como o original hebraico, o Inimigo, o Caluniador, o Sedutor. A palavra daimonion designa no mundo antigo, conforme a crença popular, deuses ou semideuses que, com seu poder sobre-humano imprevisível e não raramente pernicioso e ameaçador, influem no destino dos homens.

Scully suspira.

SCULLY (OFF): - Quando houve a primeira batalha nos céus, Deus expurgou o Anjo Lúcifer e o atirou contra a Terra, incumbindo Miguel de protegê-la... Lúcifer e outros anjos seguidores de sua revolta, partiram para receptar almas que até então não tinham lugar no universo, assim aumentando seus exércitos contra Deus e os seus anjos, chefes de exércitos, como Gabriel. A intenção de Lúcifer era frustrar os planos divinos, ele achava-se um renegado, assim como as almas dos homens que não tinham um lugar para si. Após o nascimento de Jesus, os homens foram elevados em alma e receberam a promessa de um paraíso...

O telefone toca. Scully dá um sobressalto. Atende.

[Som: Bad Religion – Victory]

Scully afasta o telefone do ouvido por causa da música pesada e alta. Aproxima-o de novo.

SCULLY: - Alô???

FROHIKE: - Scully, é o Frohike... Espera um pouco.

O som diminui e escuta-se Frohike ralhando com Langly. Scully sorri.

FROHIKE: - Scully, Skinner me ligou. Fique calma, vamos ajudar você, ok?

SCULLY: - Obrigada Frohike.

FROHIKE: - Não agradeça. Amigos são pra isso.

Frohike desliga. Scully desliga também e suspira mais aliviada. Volta a se concentrar na leitura.


[Som: Era – Enae Volare Mezzo]

Batidas na porta. Scully sai do computador. Abre a porta. O Padre McCue olha pra ela. Ela sorri, com a esperança brilhando nos olhos.

PE. McCUE: - Dana, estou preocupado. Posso entrar?

SCULLY: - Por favor...

O padre entra, Scully fecha a porta.

PE. McCUE: - Vou falar com Mulder. Nada que uma conversa não ajude. Sei que ele deve me detestar porque tem outras crenças, mas mesmo assim eu decidi que deveria tentar conversar com ele pelo menos.

SCULLY: - ...

PE. McCUE: - Vocês precisam se acertar. Sei que casais brigam muito, mas culpar o demônio por atitudes violentas não é o certo. A culpa está dentro de nós. Nós somos demônios. Carregamos a maldade dentro de nós mesmos.

SCULLY: - ... (SUSPIRA/ DESCONSOLADA)

PE. McCUE: - Onde ele está?

SCULLY: - ... (DESANIMADA) No quarto. Está deitado.

PE. McCUE: - Não é caso para exorcismo, Dana. Tenho certeza disto.

Scully abre a porta do quarto, já sem esperanças. O padre McCue entra. A cama está vazia.

PE. McCUE: - Onde ele está?

SCULLY: - ???

Scully entra no quarto. Olha pra cama.

SCULLY: - Ele estava... Aqui, eu o sedei e...

Mulder começa a rir. O padre McCue e Scully olham pra cima. Mulder, deitado com as costas contra o teto, braços cruzados, olha pra eles debochadamente.

MULDER: - Trouxe o seu amante de batina pra festa, vaca? Por que não confessa pra ele as coisas feias que você anda fazendo, sua cadela mentirosa? Tem vergonha de falar? Menina má, você é muito má. Mentirosa, safada, orgulhosa, sem fé... Destruidora de lares, famílias...

Scully derruba lágrimas. O padre faz o sinal da cruz, olhando catatônico pra Mulder.

MULDER: - O que foi, padre? Nunca me viu antes? Fala mal de mim pra tanta gente, pelas minhas costas, em suas missas... E agora que tem a chance de me encarar, fica com medo? Vejo a enorme fé que você tem, seu canastrão mentiroso e hipócrita. Que depois da missa adora tomar uns drinques com belas prostitutas adolescentes... Quanto pecado pra quem se diz representante de deus. (RI DEBOCHADO)

PE. McCUE: - (HORRORIZADO) Quem é você?

MULDER: - ... Eu sou aquele em todas as línguas.

PE. McCUE: - ... (FAZENDO O SINAL DA CRUZ)

MULDER: - Amy, Baal, Cambions, Demoriel, Eurynomous, Flereous, Geryon, Haborym, Incubus, Jezebeth, Kasdeya, Leviatã, Mantus, Naburus, O'Yama, Pytho, Rakshasa, Satanchia, Tezcatlipoca, Ukobach, Valafar, Xaphan, Yaotzin, Zabulon...

O padre continua catatônico, olhando pra Mulder. Mulder ri alto, blasfemando contra eles. Dizendo palavrões. Scully puxa o padre pra fora do quarto. Tranca a porta com a chave. Mulder continua rindo. O padre treme dos pés à cabeça.

SCULLY: - Padre McCue?

PE. McCUE: - ...

SCULLY: - Eu vou lhe fazer um chá.

PE. McCUE: - (FORA DE SI) Eu... eu nunca havia visto isso em toda a minha vida de padre.

SCULLY: - ...

PE. McCUE: - Eu... (NERVOSO) Dana, vou falar com um perito sobre o assunto. Não posso ajudar você. Eu... Eu não posso enfrentar aquilo que está lá dentro.

Scully abaixa a cabeça.

PE. McCUE: - Reze, Dana. Reze. Apenas reze. Não dê ouvidos, ele vai caluniá-la, ele vai dizer coisas pra magoá-la, mas não se deixe abater. Ele não é o Mulder.

SCULLY: - ...

PE. McCUE: - Persista na sua crença. Ele conhece seus medos e seus defeitos e vai usar isto contra você. Vai blasfemar, mentir, tudo pra arrasar sua alma e deixa-la enfraquecida.

SCULLY: - ...

PE. McCUE: - Voltarei, Dana... Vou trazer ajuda.

O padre caminha apressado até a porta.


BLOCO 4:

9:13 P.M.

No sofá, Scully treme nervosa, rezando baixinho, com o terço nas mãos. A corrente em seu pescoço. Skinner entra e tira o casaco. Olha pra Scully .

SKINNER: - Desculpe... Uma das enfermeiras reconheceu a foto de Mulder. Diz que ele foi até o hospital porque Kepler o havia chamado.

SCULLY: - Então a transferência aconteceu ali. Mas eu... Eu ainda não entendo! Eu sou estéril e o objetivo dele é...

SKINNER: - Ela também pediu desculpas, mas trocou sem querer sua ficha com a de outra mulher.

Mulder grita.

MULDER: - Ei, cadela! Me tira daqui! Não pode me manter algemado nessa cama! Você me enganou, mas agora eu sei a verdade! Posso contá-la ao seu amante careca aí?

Scully fecha os olhos. Skinner abaixa a cabeça.

SCULLY: - Senhor, vá embora. Sei que não vai conseguir suportar isto, eu mesma não suporto tanta mentira e calúnia.

MULDER: - (GRITA) Ela está prenha, essa vaca mentirosa!

Scully segura as lágrimas. Coloca as mãos nas orelhas. Skinner olha pra ela com piedade.

MULDER: - (GRITA) Cadela desgraçada, eu vou infernizar a sua vida!

Scully respira fundo. Olha pra Skinner.

SCULLY: - Vá, senhor. Ele só está tentando me atingir, me ferir, tentar fazer com que eu fique magoada e com ódio.

SKINNER: - Não, eu ficarei aqui com você. Não vou deixa-la sozinha com essa coisa.

MULDER: - (GRITA) Sua vadia! Confessa pra ele que você está apaixonada por ele!

SCULLY: - ... Mas há um Mulder ali dentro. E é só isso o que me preocupa.

SKINNER: - Scully, Frohike conseguiu alguém. Ou você prefere esperar o padre?

SCULLY: - Senhor, eu só quero o Mulder de volta. Só isso. E eu sei que a igreja precisa investigar, comprovar o fato, para depois tomar uma decisão... Isto levará meses e eu não posso esperar! Mulder corre perigo, aquela coisa está destruindo ele!

MULDER: - (GRITA) Você é uma prostituta barata!!!!!! Você sonha com ele todas as noites, admita sua cadela ordinária!

SKINNER: - ... Scully, você está cansada. Durma um pouco. Eu faço o primeiro turno.

SCULLY: - Se ele sair de lá, me promete que não vai atirar?

SKINNER: - Scully, eu nunca atiraria no Mulder. Mesmo que algo de errado estivesse acontecendo com ele.

Scully sorri. Deita-se no sofá. Skinner a cobre com uma manta. Senta-se na poltrona.


10:01 P.M.

Skinner abre a porta. Frohike entra.

FROHIKE: - Descobri o endereço... Agora você vai cair sentado.

Skinner coloca o indicador sobre os lábios, pedindo silêncio. Frohike entra e vê Scully dormindo no sofá, abraçada em Cookie. Os dois falam aos sussurros.

SKINNER: - Está abatida e cansada. O que conseguiu?

FROHIKE: - Achei um velho índio. O cara é bom. Mas temos um problema. Ele mora na Califórnia.

SKINNER: - (INCRÉDULO) O quê?

FROHIKE: - No deserto Mojave.

SKINNER: - Não tinham alguém mais perto?

FROHIKE: - Os bons estão longe. O índio é quente, acredite.

SKINNER: - Como vamos atravessar o país com o Mulder desse jeito?

FROHIKE: - Isso é com você, Chefão. Eu não sou diretor-assistente do FBI e nem tenho acesso a jatinhos.

SKINNER: - Não está me pedindo pra roubar um jatinho do FBI!

FROHIKE: - Quem falou em roubar? Você é o diretor-assistente.

SKINNER: - Não posso requisitar um avião e um piloto sem autorização do diretor e um monte de justificativas plausíveis pra isto! Burocracia!

FROHIKE: - ... Chefão...

SKINNER: - Alguém já lhe disse que o meu título é muito bonito mas se equivale a um vereador de nada?

FROHIKE: -Bem, se quiser Langly e eu podemos roubar um jatinho no aeroporto...

SKINNER: - Não! Não arranjem mais encrencas! E se pagarmos o índio pra vir até aqui?

FROHIKE: - Sugeri isso, mas ele não vem. Disse que tem medo de avião.

Skinner suspira.

FROHIKE: - E isso tudo envolve um ritual. Ele precisa do deserto pra fazer. Diz que assim pode expulsar o espírito ruim. E disse que precisa de um objeto de Mulder, que tenha muito valor sentimental pra ele... Olha, Chefão, acredito mais em índios do que padres. Eles já estavam aqui antes da Igreja Católica.

SKINNER: - Acho que vou começar a fumar... Não tenho mais nervos pra tanta coisa maluca além da minha compreensão.

FROHIKE: - E como ela está?

SKINNER: - Desanimada.

FROHIKE: - E agora?

SKINNER: - ... Me deixe pensar.

FROHIKE: - ... Tem café nessa casa?

Frohike vai pra cozinha. Skinner olha pra porta do quarto. O silêncio lhe é estranho. Skinner aproxima-se. Gira a maçaneta. Empurra levemente a porta. Um vento estranho puxa a porta pra dentro a abrindo rapidamente, tentando sugar Skinner para dentro. Skinner reluta, consegue fechar a porta. Encosta-se na parede, ofegante, assustado. Fecha os olhos.

SKINNER: - (MURMURA) Deus!

Frohike aproxima-se dele com uma caneca de café. Skinner olha pra ele.

SKINNER: - Vamos acordar Scully. Mas preciso que você vá comigo. Você e ela o controlam. Vamos amarra-lo, sedá-lo, sei lá.

FROHIKE: - O que decidiu?

SKINNER: - Tomar um jato emprestado.

FROHIKE: - E o piloto? Onde vai arranjar um piloto em plena noite de domingo?

Skinner olha pra ele.

FROHIKE: - Ah não Chefão... Você é fuzileiro naval... Eu confio mais em você sentado numa cadeira atrás de uma mesa.

SKINNER: - Tive minhas horas de voo...

FROHIKE: - O Mulder... Só ele pra me meter nessas encrencas e de graça! Aviso: não tenho seguro de vida!


3:28 A.M.

Skinner parado ao lado do carro. Olha para o deserto. Para a lua. Scully ao lado dele. Olhos perdidos na fogueira acesa.

Corta pra Mulder, deitado no chão. Amordaçado, algemado, pernas amarradas, se revirando pela areia. Frohike sai de uma tenda indígena e aproxima-se deles.

FROHIKE: - Tudo pronto.

Skinner olha pra ele.

SKINNER: - Acho que foi uma péssima ideia. Devíamos ter achado um padre e feito um exorcismo no apartamento dele mesmo.

FROHIKE: - Scully já deu uma dose cavalar de anestesia e ele não se rende!

SCULLY: - Não posso mais anestesiá-lo. Uma dose maior iria mata-lo!

Corta para a porta da tenda. Câmera subindo lentamente pelo corpo do índio, em roupas indígenas tradicionais de couro de búfalo, colares no pescoço. Cabelos longos e brancos. Uma faixa ao redor da cabeça e brincos de penas coloridas.

ÍNDIO: - Não vai se render. Espírito ruim está frustrado. Não conseguiu levar o que queria.

Skinner, Frohike e Scully olham pra ele, curiosos.

ÍNDIO: - Se expulsasse espírito ruim em sua casa, ele conheceria local. Voltaria. Não ser ideia boa.

O índio vai entrando na tenda.

ÍNDIO: - Traga ele pra cá.

Skinner e Frohike começam a puxar Mulder, que se debate violentamente, tentando evitar entrar na tenda. Scully olha pra ele, em desespero. Vira o rosto, não querendo acreditar.

Eles saem da tenda, deixando Mulder lá dentro. O índio vem pra fora.

ÍNDIO: - Saiam daqui. Ele vai sair e conhecer espírito de vocês. Não ser bom.

Skinner e Frohike se entreolham assustados. O índio olha para Scully.

ÍNDIO: - Ela fica.

Eles se entreolham.

ÍNDIO: - Espírito mal ter medo dela. Provoca pra que ela desista e fuja.

Scully começa a ficar nervosa. Skinner olha pra ela. Ela afirma positivamente com a cabeça. Skinner e Frohike entram no carro. O índio vira-se pra Scully.

ÍNDIO: - Não tenha medo. Ele quer isso. Mas ele tem medo de você.

SCULLY: - ...

ÍNDIO: - Você tem laço dentro. Laço forte. Ele teme esse laço. É tão forte quanto ele.

Scully sorri cansada.


3:49 A.M.

Mulder amarrado em estacas, com braços e pernas abertos. Scully, sentada dentro da barraca, observa o índio fazer no chão uma espécie de mosaico com terra colorida e pedras ao redor de Mulder. Mulder debate-se, tentando se soltar. O índio termina. Olha pra Scully.

ÍNDIO: - Qual seu nome?

SCULLY: - Dana. Dana Scully.

ÍNDIO: - Vem Dana Scully.

Scully levanta-se, ainda receosa. Os dois saem da tenda. O índio aproxima-se da fogueira. Senta-se no chão, sobre as pernas. Olha para o fogo. Scully fica olhando pra ele, sem entender nada. O índio pega o longo cachimbo e o acende. Começa a fumar.

SCULLY: - O que posso fazer pra ajudar?

ÍNDIO: - Me entregar objeto dele. Objeto que ele guarda com amor. Algo que importa mais do que tudo pra ele.

Scully retira do bolso a correntinha que era do filho. Entrega para o índio.

SCULLY: - O que mais posso fazer?

ÍNDIO: - Sentar e ver a lua.

SCULLY: - (INCRÉDULA) Ahn? Eu não vim aqui pra ver a lua! Meu marido está lá dentro, com aquela coisa e você quer ver a lua, sentado aí nesse chão?

O índio olha pra ela.

ÍNDIO: - Feche sua boca. Deixe que o que está dentro de você fale por seus poros como fala sempre. É mais sábio.

Ela fica quieta, olhando atravessado para o índio. Senta-se no chão. O índio fecha os olhos. Começa a cantarolar. Scully o observa. Ele estende a mão lhe entregando o cachimbo. Ela acena negativamente com a cabeça.

SCULLY: - Não, eu não fumo.

ÍNDIO: - Não fazer mal. Nós fumamos juntos para uma bênção.

SCULLY: - ....

ÍNDIO: - Você faz isto, o espírito vem. Espírito de Dana Scully.

Scully pega o cachimbo. Traga. Sacode a cabeça, como se sofresse uma vertigem. Mexe os lábios sentindo o gosto. A fumaça ondula no ar silencioso.

ÍNDIO: - Deixe espírito de Dana Scully sair. Espírito de Dana Scully libera espírito de laço.

Scully fecha os olhos, entorpecida.

ÍNDIO: - Concentre nos elementos terra, ar, fogo e água e no espírito. Ele ser a conexão e harmonia entre todas as coisas: animal, planta e mineral, passado, presente e futuro... Não poder entrar lá sem estar preparada. Espírito mal ser forte. Mas seu espírito de laço ser mais forte. Ser amor.

Scully abre os olhos. Olha para o céu. O vento começa a soprar um pouco mais forte, vindo do oeste, da direção das montanhas. Os arbustos de creosoto se agitam, enquanto o vento emite uma melodia como um lamento doloroso. As nuvens parecem pires, transparecendo na madrugada, com as estrelas ao fundo.

ÍNDIO: - Olhar para o fogo e ver espírito que está dentro de Dana.

O índio começa a cantarolar, enquanto agita um chocalho nas mãos. Ela fecha os olhos, envolvida pela fumaça, pelo vento e pelo som bucólico da canção cantada pelo índio. Começa a ficar tonta, põe as mãos no estômago.

ÍNDIO: - O niahu de Ninaa' na... O niahu de Ninaa' na ... Ah Ho Mitakuye Oyasin ...

Scully olha para o fogo.

ÍNDIO: - O taa de Bi' sai de ha'nai de wu... O naa de Hi' na de thi' niwu' huna... Ninaa' niahu' na ... Ninaa' niahu' na...

Scully parece hipnotizada olhando pra dentro do fogo e para as figuras grotescas que as chamas formam. O índio, de olhos fechados ainda canta, fazendo a invocação.

ÍNDIO: - Bi' taa' wu ha'nai sai... Hi' naa' thi na' niwu' huna...

Scully ergue os olhos, entorpecida. O corpo balançando de um lado pra outro, como se ela estivesse sendo embalada por mãos invisíveis. Vê a águia que pousa sobre a tenda do índio, ao mesmo tempo em que Mulder grita lá dentro.

O índio abre os olhos e percebe que Scully está em transe. Levanta-se. Estende a mão pra ela.

ÍNDIO: - Respeitar você, espírito puro e sábio com perfume de rosas. Eu querer ajudar a livrar homem de espírito mal. Mas sentir que você é mais forte para isso.

O índio leva Scully pra dentro da barraca.


5:12 A.M.

[Som: Gethsemane – Patrick Willians – instrumental]

O índio, sentado no chão, controla a pequena fogueira, cercada de pedras, dentro da tenda. Coloca alguns gravetos. Joga um pó que toma conta do ar em forma de fumaça. Vira-se para Mulder e continua a preencher mais o mosaico com terra colorida. Scully sentada ao lado de Mulder, olhos fechados, em transe. Mulder murmura palavras obscenas.

MULDER: - (RINDO DEBOCHADO) Vou levar vocês comigo... Todos vocês... Seus vermes imundos...

ÍNDIO: - O taa de Bi' sai de ha'nai de wu... O naa de Hi' na de thi' niwu' huna... Ninaa' niahu' na ... Ninaa' niahu' na...

MULDER: - Você não vai me tirar daqui velho! Eu vou levar ele comigo. Eu vou ferrar com ele!

Mulder começa a ter convulsões. O índio olha pra ele. Pega um pedaço de pano e molha numa bacia. Coloca na testa de Mulder. O nariz dele começa a sangrar, enquanto ele se revira no chão, tentando se soltar. Feridas começam a brotar em sua pele.

MULDER: - (GRITA) Vou ferrar com ele!!! Vou levar vocês! Todos vocês pro inferno!

ÍNDIO: - O naa de Hi' na de thi' niwu' huna... Ninaa' niahu' na ...

MULDER: - (GRITA) Essa vaca mentirosa vai comigo... Eu vou ferrar com ela!

Scully abre os olhos. Mas um olhar diferente. Olha para Mulder.

MULDER: - (RINDO) Não tenho medo de você!!!!!! Você é uma cadela! Uma cadela vadia!!!!

Scully desvia o olhar, olhando pro corpo de Mulder. Abre sua camisa. Ele reluta.

MULDER: - (GRITA) Me larga sua vaca! Eu vou ferrar com ele! E vou te levar comigo, sua prostituta do inferno! Sua degenerada! Sabemos quem é você, sua desgraçada! Não vai viver! Não vai!!!

Scully fecha os olhos e impõe as mãos sobre Mulder.

SCULLY: - In finem pro adsumptione matutina salmus David... Deus meus respice me... quare e dereliquisti longe a salute mea verba delictorum meorum...

O índio olha pra ela, impressionado.

SCULLY: - Deus meus clamabo per diem et non exaudies et nocte et non ad insipientiam mihi tu autem in sancto habitas Laus Israhel... in te speraverunt patres nostri speraverunt et liberasti eos ... ad te clamaverunt et salvi facti sunt in te speraverunt et non sunt confusi...

Mulder começa a gritar. Fica violento. O índio segura o pano contra a testa dele. Mulder revira a cabeça de um lado para outro, suor escorrendo. O índio olha pra Scully. Ela está numa fisionomia de tranquilidade, impondo as mãos sobre o peito de Mulder.

MULDER: - (GRITA) Vaca!!!!! Vaca maldita!!!!!!!!

SCULLY: - Ego autem sum vermis et non homo obprobrium hominum et abiectio plebis... omnes videntes me deriserunt me locuti sunt labiis moverunt caput... speravit in Domino eripiat eum salvum faciat eum quoniam vult eum... quoniam tu es qui extraxisti me de ventre spes mea ab uberibus matris meae...

Mulder se contorce em gritos. A pele dele começa a ficar enrugada como se algo o rasgasse de dentro pra fora.

MULDER: - (GRITA) Nãooooooooooooo!!!!!!!!!!!!!!

SCULLY: - In te proiectus sum ex utero de ventre matris meae Deus... meus es tu... ne discesseris a me quoniam tribulatio proxima est quoniam non est qui adiuvet... circumdederunt me vituli multi tauri pingues obsederunt me... aperuerunt super me os suum sicut leo rapiens et rugiens...

Close do peito de Mulder. Scully não o toca, mas abaixo da projeção das mãos dela, sobre o peito dele vê-se marcas avermelhadas.

SCULLY: - Sicut aqua effusus sum et dispersa sunt universa ossa mea... factum est cor meum tamquam cera liquescens in medio ventris mei... aruit tamquam testa virtus mea et lingua mea adhesit faucibus meis et in limum mortis deduxisti me... quoniam circumdederunt me canes multi concilium malignantium obsedit me manus meas et pedes meos...

Mulder grita de dor. O suor escorre pelo corpo. O índio molha a toalha novamente na água e coloca sobre a cabeça de Mulder. Ele arde em febre.


7:39 A.M.

Mulder ainda luta tentando se soltar. O corpo enfraquecido, mas a força dentro dele é mais forte do que ele. O índio joga mais pó dentro da fogueira. Scully continua na mesma posição impondo as mãos sobre ele, incansável, em transe.

SCULLY: - Alleluia laudate Dominum in sanctis eius laudate eum in firmamento virtutis eius... laudate eum in virtutibus eius laudate eum secundum multitudinem magnitudinis eius... omnis spiritus laudet Dominum.

Mulder vai perdendo as forças. O corpo transpira muito. O coração bate descompassadamente. Olha pra Scully. Ri, cansado.

MULDER: - (SORRISO DE MALDADE) Nós voltaremos em breve e levaremos conosco o que me expurgou daqui, vaca. (OFEGANTE) Me aguarde! Eu vou te levar!!!

SCULLY: - Quia inclinavit aurem suam mihi et in diebus meis invocabo te... circumdederunt me dolores mortis pericula inferni invenerunt me tribulationem et dolorem inveni et nomen Domini invocavi o Domine libera animam meam misericors Dominus et iustus et Deus noster miseretur... custodiens parvulos Dominus humiliatus sum et liberavit me convertere anima mea in requiem tuam quia Dominus...

Mulder solta um grito. Parece que vai morrer, mal respira. Scully olha para o índio. O índio afirma com a cabeça. Gira o corpo para trás e entrega a corrente com o crucifixo que Scully lhe dera. Scully toma a correntinha na mão e pende sobre Mulder. Coloca sobre o peito dele. Mulder solta um grito. Desmaia.

No mesmo instante uma poeira levanta lá fora e sons de urros animais ecoam pelo deserto.

A águia sobre a tenda alça seu voo em direção às montanhas.

Corta para Scully. Ela olha pra Mulder e desmaia, caindo ao lado dele. O índio sorri. Mulder parece dormir profundamente. O índio sai da barraca. Olha para o céu azul, que parece calmo. As cores que o sol projeta contra as montanhas.

ÍNDIO: - Até breve, Espírito bom, sábio e com perfume de rosas vermelhas.


Apartamento de Mulder – 7:21 P.M.

Scully deitada na cama olha para o teto. Mulder, deitado ao lado dela, faz carinhos em Cookie que está ao lado dele.

MULDER: - O que aconteceu? Não vai me contar mesmo?

SCULLY: - Não sei.

MULDER: - Me lembro de um sábado. E hoje é quinta feira.

SCULLY: - Me lembro de um domingo.

MULDER: - ... O que fazíamos na Califórnia, no deserto Mojave?

SCULLY: - Não quero falar nisso agora.

MULDER: - ... Por que você está machucada?

SCULLY: - Também não quero falar sobre isso.

MULDER: - Há alguma coisa sobre a qual quer falar?

SCULLY: - ... O Salmo 21.

MULDER: - Ahn?

SCULLY: - Não sei porque estou com o salmo 21 na cabeça.

MULDER: - E o que é o salmo 21?

SCULLY: - Gratidão pela vitória.

MULDER: - ... E o que eu faço com essa corrente do nosso filho no pescoço?

SCULLY: - ...

MULDER: - Pode ao menos me dizer quem era o índio?

SCULLY: - Um homem de bem.

Ele olha pra ela desconfiado, num sorriso.

MULDER: - Scully, por que tenho a sensação de que você é adepta ao xamanismo?

Ela olha pra ele, séria.

SCULLY: - Durma Mulder. Não me pergunte mais nada hoje. Não tenho as respostas ainda.

Ela apaga a luz. Os dois se abraçam um ao outro.


X


05/02/2001

15 Août 2019 08:26:39 0 Rapport Incorporer 1
La fin

A propos de l’auteur

Lara One As fanfics da One são escritas em forma de roteiro adaptado, em episódios e dispostas por temporadas, como uma série de verdade. Uma alternativa shipper à mitologia da série de televisão Arquivo X. https://www.facebook.com/laraone1

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