S04#06 - OBSESSION – PARTE I Suivre l’histoire

lara-one Lara One

Scully enfrenta um dos seus maiores pesadelos. Sofre ameaças de morte e tem sua vida completamente arruinada por forças mágicas e desconhecidas. Por que alguém jogaria um ‘macumbão’ sobre a nossa heroína? Por desejar algo que só ela tem?


Fanfiction Série/ Doramas/Opéras de savon Interdit aux moins de 18 ans.

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S04#06 - OBSESSION – PARTE I

‘... And when your fears subside and shadows still remain, I know that you can love me when there’s no one left to blame. So never mind the darkness, we still can find a way. Cause nothin lasts forever... even cold november rain...’

(November Rain, Guns N' Roses)


INTRODUÇÃO AO EPISÓDIO:

East Brodway – New York – 12:23 P.M.

[Som: November Rain - Guns N' Roses]

Chuva fina.

Carros de polícia estacionados na rua. Populares parados, com guarda-chuvas, em frente ao velho prédio em ruínas, com paredes pichadas. Todos observam atentos ao movimento de policiais.

Mulder e outro agente saem do prédio com um sujeito algemado. Mais homens do FBI por ali. Mulder coloca o homem dentro da viatura.

Ao fundo, entre os populares, Martha observa Mulder. Retira fotos dele, com a câmera profissional que sustenta no pescoço.

[Martha é uma mulher de uns 27 anos, alta, morena, cabelos longos. Usa um vestido estampado azul escuro e curto, uma jaqueta de camurça, botas pretas e brincos de argolas. Carrega no pescoço uma segurança de religião afro. No dedo, um anel de Exu.]

O carro da polícia parte. Mulder conversa algo com o outro agente, e este afirma com a cabeça. Mulder caminha até seu carro. Martha o acompanha com os olhos. Retira mais fotos. Num impacto, ela pára de fotografá-lo. O admira com o olhar, cada gesto, cada movimento.

Câmera lenta, subjetiva, simulando o olhar de Martha, acompanhando Mulder, como se o tempo parasse nele. Ele atravessa a rua, com as mãos nos bolsos da larga calça social preta. Pára ao lado do carro, retira as chaves do bolso. Abre a porta. Olha para cima. Fecha os olhos, como se adorasse sentir a chuva em seu rosto. A chuva fina cai por cima dele, que já está com a camisa um pouco molhada.

Martha ergue a câmera e o fotografa. Mulder nem percebe. Entra no carro. Parte.

Corta para Martha. Ela ajeita a bolsa sobre o ombro e acena para um táxi.

VINHETA DE ABERTURA


BLOCO 1:

Hotel Manhattan – 01:37 A.M.

Mulder entra no hotel.

Corta para a rua. Martha desce do táxi. Atravessa a rua, apressada, na chuva. Entra no hotel. Vê Mulder na recepção. Esconde-se atrás de uma folhagem.

Câmera lenta. Martha observa Mulder pegando a chave do quarto, falando alguma coisa e retribuindo um sorriso simpático para a moça da recepção. Caminha até o elevador.

Mulder entra no elevador. Quando a porta se fecha, Martha aproxima-se da recepção. A recepcionista vem atendê-la.

RECEPCIONISTA: - Posso ajudá-la?

Martha olha pro elevador. Olha pra recepcionista.

MARTHA: - Estou procurando um agente do FBI hospedado nesse hotel. Ele pediu que eu viesse falar com ele. Sou testemunha de um assassinato.

RECEPCIONISTA: - ... Bem, o agente Fox Mulder acaba de subir.

MARTHA: - Fox Mulder?

RECEPCIONISTA: - É esse o agente que procura?

MARTHA: - Sim. Pode me dizer o número do quarto?

RECEPCIONISTA: - Quer que eu avise que está aqui?

MARTHA: - Não, não precisa. Ele me espera.

RECEPCIONISTA: - Quarto 809.

MARTHA: - Obrigada.

Martha caminha até o elevador. Aperta o botão.

Corte.

Martha desce do elevador e aproxima-se da porta. Close no número 809. Martha encosta o rosto na porta. Fecha os olhos. Desliza as mãos pela porta, como se afagasse um corpo, com desejo. Abre os olhos. Afasta-se. Volta para o elevador.


1:59 A.M.

Mulder, sentado na cama, fala ao telefone.

MULDER: - Não... (SORRI) ... Precisam da minha ajuda, temos mais um membro da quadrilha pra pegar... Também tô com saudades. Acha que é fácil ficar longe de você por uma semana?

Mulder atira-se na cama, falando ao telefone. Fecha os olhos.

MULDER: - ... Eu sei, Scully... (SORRI) ... Sério? E o que fez? ... Faz assim, Scully: tem um Arquivo X, em nome da família Jerkins. Ali você vai obter informações que podem te ajudar... Não, eu já vi isso acontecer antes... Não, você tem que ir direto o ponto da questão: Wicca... Sei... Muito bem, Scully, você está começando a entender tudo de bruxaria! (SORRI) ... Tá, me liga se precisar de apoio... O que eu vou fazer agora? Hum... Tomar um banho bem relaxante e cair na cama... Eu? Estou deitado... E você?

Corta para Scully. Ela está no apartamento de Mulder, na cozinha, sentada à mesa, com o telefone apoiado entre o ombro e a orelha. Segura com as mãos algumas cartas. Várias long necks de cerveja. Frohike está pensativo em seu jogo. Langly compra uma carta do baralho. Atira na mesa. Byers e Scully observam.

SCULLY: - Nada de interessante, Mulder...

Corta pra Mulder.

MULDER: - Sabe que eu queria estar aí, fazendo ‘nada de interessante com você’... Preciso desligar, Scully. Tô cansado... Tá, eu ligo... Também amo você.

Mulder desliga. Senta-se na cama. Puxa a carteira do bolso das calças. Abre-a. Close da carteira. Há uma foto de Scully, sorrindo, com a cabeça inclinada para o lado. Mulder retira a foto da carteira, deita-se na cama, observando a foto dela. Fecha os olhos, num sorriso e aperta a foto contra o coração.


3:21 A.M.

Martha, numa encruzilhada deserta. Atrás dela um rastro de pipocas. Ela ajeita a oferenda numa bandeja, composta de charutos, bebida, pipocas e a cabeça de uma cabra. Acende velas ao redor. Levanta-se. Fecha os olhos. Entoa algo cantado numa língua afro.

Corta para as sombras que se aproximam por trás dela, vindas pelo chão.


Star Gate Club – 8:21 P.M.

Mulder e vários homens do FBI entram na boate. Mulder aproxima-se do barman.

MULDER: - Gary Freman.

BARMAN: - Quem quer?

Mulder mostra o distintivo na cara do sujeito.

MULDER: - Quer fazer companhia pra ele, numa cela, cheia de caras grandes e fortes que te apelidarão de ‘Mariazinha Porta dos Fundos’?

BARMAN: - ... é o sujeito do fundo, jogando sinuca. O de jaqueta de couro.

Mulder guarda o distintivo. Olha pra mesa de sinuca. Sinaliza com a cabeça para os colegas. Os cinco aproximam-se da mesa.

Corta para a entrada da boate. Martha entra, procurando Mulder com os olhos.

Câmera lenta, subjetiva. Martha observa Mulder empurrar Gary por sobre a mesa e algemá-lo.

Close (simulando os pontos do olhar dela): as mãos grandes e fortes de Mulder. Para a arma que ele segura, enquanto algema o sujeito. Suas costas, seus braços.

Os agentes do FBI levam Gary. Mulder sai com eles. Passa por Martha. Martha olha pra ele. Fecha os olhos, aspirando seu perfume, inebriada.


Hotel Manhattan – 10:19 P.M.

Mulder, sentado ao balcão do bar, desliga o celular. O agente ao lado dele sorri.

AGENTE: - Esposas...

MULDER: - (SORRI) Ficam preocupadas.

AGENTE: - Valeu sua ajuda, Mulder. Estávamos atrás dessa quadrilha há um ano. Não queríamos correr o risco de pegar os caras certos na hora errada.

Mulder bebe um uísque. Corta para a mesa ao fundo. Martha o observa.

MULDER: - Foi bom trabalhar com vocês também. O pessoal de New York é menos sério do que em Washington...

AGENTE: - Quartel general, olhos por todos os cantos... Sorrisos apagados, piadas censuradas... E depois, como ser sério em Nova Iorque?

Os dois sorriem. O agente levanta-se. Olha pro relógio.

AGENTE: - Esposa.

Mulder sorri. O agente sai do bar. Mulder vira-se pro balcão. Observa o copo. Pensamento longe.

MARTHA: - Oi.

Mulder ergue a cabeça, olhando para a morena escultural que o observa, num vestido solto e curto, argolas nas orelhas, botas, jaqueta de couro.

MARTHA: - Posso me sentar aqui?

MULDER: - Claro.

Mulder termina o uísque. Deixa o dinheiro sobre o balcão. Vai se levantar. Martha o segura pela mão.

MARTHA: - Pensei que poderia sentar e ficar acompanhada.

MULDER: - (SORRI) Me desculpe, estou com pressa.

MARTHA: - Todos nessa cidade vivem com pressa. E você não me parece ser daqui.

MULDER: - Não, na verdade estou a negócios.

MARTHA: - Policial?

MULDER: - Como sabe?

Ela aponta pra arma no coldre, que aparece por debaixo do paletó. Ele sorri.

MARTHA: - Posso te pagar uma bebida?

MULDER: - Acho que não.

MARTHA: - Só uma. Depois pode ir embora com a sua pressa.

MULDER: - Eu pago então. O que você quer?

MARTHA: - Bloody Mary.

MULDER: - Nunca entendi como alguém pode gostar de Bloody Mary.

Mulder sinaliza pro garçom. Este vai preparar a bebida.

MARTHA: - As pessoas em geral, têm uma atração mórbida pelo vermelho. Sabe por quê? Vermelho é sangue. Sangue é poder, é vida, é carne.

MULDER: - Como significa morte.

MARTHA: - Você pode prender uma pessoa pelo seu sangue. Pode até mesmo prender o seu espírito.

MULDER: - Você é bem entendida no assunto.

MARTHA: - (SORRI) Fiz alguns cursos esotéricos e alternativos...

MULDER: - Se eu ouço apenas rock, clássico será uma música alternativa pra mim. Depende em qual significado o alternativo se enquadraria pra você.

MARTHA: - No alternativo às pessoas normais.

MULDER: - Ninguém é normal nessa cidade.

MARTHA: - Mas todos se enquadram em categorias.

MULDER: - E você?

MARTHA: - Em nenhuma delas.

O garçom serve as bebidas.

MULDER: - Estamos aqui filosofando e eu nem sei seu nome.

MARTHA: - Martha.

MULDER: - Apenas Martha?

MARTHA: - Apenas Martha.

MULDER: - Mulder. Fox Mulder.

Ela sorri. Os dois se cumprimentam.

MARTHA: - Acho que nos daremos bem, Mulder. Ou prefere que te chame de Fox?

MULDER: - Não, prefiro Mulder.

MARTHA: - Nada é à toa na vida, não acha? Seu nome é Fox, o meu é Martha. Ambos somos dois mamíferos carnívoros com a pele bastante apreciada.

MULDER: - ... (SORRI) Então, Martha, em que você trabalha?

MARTHA: - Com ‘seguros’. Viajo muito, mas quase sempre acabo por aqui. Tenho bons clientes em Nova Iorque.


11:12 P.M.

Mulder aproxima-se do elevador. Martha ao lado dele. Os dois entram.

MULDER: - Está hospedada aqui também?

MARTHA: - Sim.

Mulder aperta o número 9. Ela olha pra mão dele e vê a aliança. Isso lhe soa como um desafio.

MULDER: - E o seu andar?

MARTHA: - (SÉRIA/ MAGOADA) Nove. Pelo jeito somos vizinhos... Volta quando pra Washington?

MULDER: - Essa manhã. E você?

MARTHA: - Não pretendo voltar logo. Nem sei se volto mais. Acho que não tenho mais pra onde voltar.

MULDER: - ... Algum problema?

MARTHA: - Perdi meu marido há duas semanas. Quero mais é ficar longe de tudo que possa me fazer lembrar dele.

MULDER: - (CHATEADO POR ELA) Sinto muito.

MARTHA: - Eu ainda não consegui superar isso.

MULDER: - Deve ser bem difícil.

MARTHA: - Às vezes penso que é impossível.

A porta abre-se. Os dois descem. Aproximam-se das portas, uma ao lado da outra. Mulder tira as chaves.

MULDER: - É, realmente somos vizinhos.

Ela retribui um sorriso. Aproxima-se dele, retirando as chaves do bolso.

MARTHA: - Obrigado.

MULDER: - Por quê?

MARTHA: - Por... por me fazer sentir bem.

Ela abaixa a cabeça e começa a chorar. Mulder olha pra ela.

MULDER: - (PREOCUPADO) Martha?

Ela abraça-se nele, chorando. Mulder fica triste. Reluta em tocá-la, mas acaba abraçando-a. Ela chora. Seca as lágrimas e afasta-se dele.

MARTHA: - Me desculpe...

MULDER: - ...

MARTHA: - É que... eu me sinto muito mal mesmo.

MULDER: - Procura se acalmar. Não adianta você ficar chorando. Sei que isto deve ser difícil, mas precisa tentar se erguer.

MARTHA: - Às vezes penso em me matar.

MULDER: - Não, não diga uma besteira dessas. Tome um calmante, deite-se. Uma boa noite de sono vai te fazer ver a vida com outros olhos.

MARTHA: - Eu não quero mais ver a vida com outros olhos. Eu perdi pra vida. Eu perdi tudo o que tinha, quando Lee morreu.

Mulder olha compadecido pra ela.

MULDER: - Eu posso entender sua dor e respeitá-la, Martha. Mas a vida me ensinou que a gente tem que resistir, nem que seja pra incomodar a própria vida.

MARTHA: - ... (RESPIRA FUNDO)

MULDER: - Sente-se melhor?

MARTHA: - ... Sim.

Mulder abre a porta do quarto dela.

MULDER: - Entra. Precisa dormir um pouco.

Martha olha pra ele.

MARTHA: - Obrigada, Mulder. Você é um cavalheiro. E eu pensava que cavalheiros não mais existissem. Obrigado. Espero que faça uma boa viagem.

MULDER: - Espero que seja feliz também.

Mulder vai pra seu quarto.

Martha fecha a porta. A fisionomia de mulher meiga e sofredora rapidamente se transforma em uma mulher passional e com ódio nos olhos. Ela pega o telefone.

MARTHA: - ... Informações? Eu preciso do telefone e endereço de Fox Mulder, em Washington... Sim, aguardo.

Ela olha com ódio nos olhos. Começa a despir-se enquanto aguarda.


Corta para o quarto de Mulder. Mulder entra no box, liga o chuveiro. Deixa a água escorrer pelo rosto. Passa as mãos nos cabelos. O telefone toca.

MULDER: - Impressionante... é como aguardar a vaga e um outro meter o carro antes. Como alguém bocejar e você acabar bocejando. Como pegar um sinal fechado e todos os outros estarem fechados também... Isso é regra. Lei de Murphy.

Mulder puxa a toalha e sai enrolado. Atende ao telefone.

MULDER: - Alô? ... Quem?... Sim, é ele... Mas... Eu tenho um voo marcado pras nove da manhã... Eu preciso estar em Washington! ... Como assim novas pistas? O caso já foi resolvido, senhorita Niles... Tá certo, diga pra ele que eu estarei aí.

Mulder desliga. Volta pro banheiro.

MULDER: - Impressionante mesmo. Isto é outra Lei de Murphy: Se tudo pode dar errado, com certeza vai dar errado.


Corta para o quarto de Martha. Ela desliga o telefone. Sorri. Tira do bolso do casaco uma credencial. Abre-a. Vê a foto de Mulder. Observa-a, deslizando o dedo por sobre a assinatura. Passa a língua na foto.

MARTHA: - Você é meu. Fox Willian Mulder.


Corta para o quarto de Mulder. Mulder deita-se na cama. Pega o telefone e coloca-o sobre a barriga. Disca.

MULDER: - ... (DEBOCHADO) Oi, você não me conhece, mas estou no apartamento em frente e vejo você despir-se todos os dias. Mas só posso segurar o binóculo com uma das mãos. A outra fica muito ocupada... (SORRI) ... Não, Scully, estou com um problema. Querem que eu fique mais um dia. Parece que o caso não foi encerrado... Tá, eu sei, eu também odiei isso... Com quem está falando? ... O quê? Eu não acredito que esse vira-lata fez isso! Scully, por favor, mantenha esse bicho bem longe das minhas coisas! Já é a segunda bola de basquete que esse cretino fura! ... Como assim ele tá esquentando a cama? ... Tá, Scully, quando eu voltar, vou dormir no tapete e você pode dar a minha cama pra ele...


Corta pro quarto de Martha.

Close. Martha olha-se no espelho do banheiro. Ergue a mão, mostrando que segura um estilete. Empurra a lâmina pra cima com o polegar.


Corta pro quarto de Mulder. Ele ainda ao telefone.

MULDER: - ... Então resolveu o caso? Bem, menos trabalho pra mim... O Skinner disse isso? Que cara de pau esse sujeito! Tio Skinner anda muito estranho, você não acha?


Corta para o quarto de Martha. Close do rosto dela no espelho do banheiro. Joga água com as mãos por sobre os peitos.

Close da barriga nua. Escorrem gotas de sangue misturadas com a água.

Close do peito. Ela escreveu com o estilete sobre os seios o nome de Mulder. Desliza as mãos por sobre os seios fechando os olhos, acariciando-se.


BLOCO 2:

8:34 A.M.

Mulder sai do quarto. Entra no elevador. Martha o espia pela porta. Quando Mulder sai, ela aproxima-se da porta do quarto dele. Arromba a fechadura e entra, fechando a porta.

Geral do quarto. Martha vai até o banheiro. Pega a escova de cabelos dele. Retira alguns fios. Volta para o quarto. Começa a revirar as gavetas.


10:46 A.M.

Mulder desce do elevador, indignado. Abre a porta do quarto. Martha sai do quarto dela, segurando a bolsa.

MARTHA: - Oi!

MULDER: - Ah, oi!

MARTHA: - Perdeu o voo?

MULDER: - Algum engraçadinho me aplicou uma piada. Mas deixa isso pra lá. Vou voltar hoje à tarde.

MARTHA: - Quem faria isso?

MULDER: - Eu sei lá. Mas esses caras do FBI são todos uns debochados.

MARTHA: - Não quer almoçar comigo?

MULDER: - Pode ser.

MARTHA: - Te encontro no restaurante do hotel. Pode ser às 12:30?

MULDER: - Sem problemas.

Martha aproxima-se do elevador. Mulder entra no quarto. Ela olha pra porta do quarto dele. Sorri. Entra no elevador.


FBI – WASHINGTON D.C. -Arquivos X – 11:39 A.M.

Skinner entra na sala, segurando Scully. Ela se apoia nele, trocando as pernas.

SKINNER: - Tem certeza de que não quer ir embora?

SCULLY: - Não, senhor.

Skinner ajuda Scully a sentar-se. Ela põe a mão na testa.

SKINNER: - O que está sentindo?

SCULLY: - Tonturas... Minha pele parece estar pegando fogo.

SKINNER: - Você vai pra casa, Scully. Está com febre alta. Já deveria estar na cama.

SCULLY: - Não, eu tenho trabalho e...

SKINNER: - Venha, vou te levar pra casa.

SCULLY: - Eu não entendo... Estava tão bem ontem, agora isso, assim, de repente... Deve ser um resfriado...

Skinner a ajuda a levantar-se. O telefone toca. Scully segura-se na cadeira. Skinner atende.

SKINNER: - Alô? ... Não, Mulder não está. Quem deseja? ... (SORRI) Sim, eu a conheço. É parceira dele... O nome completo dela? É Dana Katherine Scully... Um momento, ela está aqui.

Skinner entrega o telefone pra Scully. Scully o interroga com o olhar.

SKINNER: - Polícia de Fort Knox.

SCULLY: - ???

Scully atende.

SCULLY: - Alô? ...

Scully desliga.

SCULLY: - Caiu a ligação.


Apartamento de Martha – NY – 11:47 A.M.

Ambiente na penumbra. Apenas a silhueta de Martha e a luz de uma vela, sobre um altar (congal) repleto de imagens de Orixás e Exús. Oferendas com doces e comidas. Bebidas servidas em taças.

Fotos pela parede ao fundo, mas não se identifica por causa da iluminação.

Martha segura a foto de Scully por sobre uma vela. Recita uma prece em afro. A foto chamusca. Martha retira-a. Escreve o nome completo de Scully atrás da foto e a coloca dentro de um vidro. Tampa-o. Lacra-o com fita adesiva. Coloca-o aos pés de uma imagem de Exú. Fecha os olhos. Coloca as mãos sobre o vidro.

MARTHA: - Sergulath, Exu Caveira, Agente Mágico Universal e todos os Agentes Mágicos. Abafem a vida de Dana Katherine Scully, até definhar. Que perca tudo o que tem e nunca mais consiga se reerguer de novo. Em troca darei um ebó generoso na noite de segunda-feira.

Martha caminha até a bolsa. Retira uma camisa dobrada, que roubou de Mulder. Desdobra a camisa com cuidado, pegando os fios de cabelos dele que estão ali.

MARTHA: - Vou prender você. Nunca mais conseguirá sair do meu lado, porque eu te amo. Você se apaixonará também, com a força dos Agentes Mágicos. E desprezará qualquer um que me queira mal. Ficará cego e obcecado por mim.

Ela começa a queimar os fios de cabelo dele na chama da vela. Apaga a vela, assoprando-a. Sorri. Abre as cortinas. O quarto se ilumina.

Close da parede de fotos: Toda a parede repleta de fotos de Mulder.


Hotel Manhattan – 12:19 P.M.

No restaurante, Mulder está sentado. Martha aproxima-se num sorriso. Ele levanta-se e puxa a cadeira pra ela.

MARTHA: - Desculpe. Quase me atrasei.

MULDER: - Está adiantada.

Ele senta-se. Fisionomia distante.

MULDER: - Algum problema?

MARTHA: - Lidar com seguros é algo problemático por natureza.

MULDER: - Vende seguros?

MARTHA: - Digamos que eu sou a dona da empresa. Na verdade também faço venda de ‘seguros’...

MULDER: - E trabalha com que tipo de seguros?

MARTHA: - Seguros de vida. De bens. Contra terceiros. O que precisar. Precisa de algum seguro em especial?

MULDER: - No momento não. Me sinto bem seguro.

MARTHA: - Segurança é uma coisa que não se deve deixar de lado.

Mulder a observa, intrigado.

MULDER: - Percebo que usa um colar.

MARTHA: - ...

MULDER: - Isto é uma segurança, não é mesmo?

MARTHA: - Ganhei de presente de um amigo.

MULDER: - ... É de uma religião afro, pouco difundida por aqui, chamada Umbanda.

MARTHA: - Você entende do assunto, não?

MULDER: - Gosto dessas coisas místicas.

MARTHA: - Temos muito em comum, Mulder.

MULDER: - Pelas cores dessa segurança, eu diria que é do Bará. Ou seja, confusão.

MARTHA: - Você conhece o assunto muito bem.

MULDER: - (SORRI) Na verdade não. Não se encontram muitos livros sobre o assunto por aqui. Kardecismo já é difícil. Imagina Umbanda! Faz parte da nossa cultura segregacionista, menosprezar outras raças, portanto, religiões espíritas que defendem que o americano de hoje pode ser um africano amanhã, ou foi um latino ontem, não é algo que soa bem aos ouvidos americanos. Precisei procurar pela rede e pagar um tradutor brasileiro, que acabou me enviando uma dúzia de fitinhas coloridas com uma inscrição ‘Senhor do Bonfim’... Não sei pra que servem, nem o que essa frase significa. Mas guardei.

MARTHA: - (SORRI) ... é, vejo que está meio por fora do assunto. Isto é o nome de um santo milagroso. As fitinhas são pra fazer um pedido à ele e amarrar no pulso.

MULDER: - Tá vendo? Como eu ia adivinhar?

MARTHA: - (SORRI) ...

MULDER: - Mas acho fascinante o poder de persuasão desse tipo de crença.

MARTHA: - Todas as crenças são persuasivas.

Mulder observa o anel na mão dela.

MULDER: - Vi seu anel. O que significa?

MARTHA: - É um amuleto de boa sorte.

MULDER: - Acho ele meio perigoso. Não se machuca com ele?

MARTHA: - Não.

MULDER: - Pelo que entendo, a Umbanda é uma religião espírita, que trabalha tanto para o bem quanto para o mal. Depende o espírito que você invoca. A palavra Umbanda significa: luz divina. Um, representa Deus, infinito, força do bem, positivo. Banda significa divisão, lado oposto, força do mal, negativo. Segundo a Gênesis original em língua Palli, primeira língua falada no Oriente Médio, Índia, Egito e África, Deus criou Adima e Eva, entregando-lhes uma parte da Terra chamada Éden. Proibiu-os de verificar o existia fora de suas fronteiras, dizendo que aquilo pertencia aos Exus. Exu significa povo. Adima vem do Palli, que foi compilado para Adão, porque no hebraico a pronuncia do i aberto é muito difícil. Quando o homem conheceu o bem e o mal, ele foi expulso do Éden.

MARTHA: - Muito bem, de teorias você entende. E a prática?

MULDER: - Confesso que se tivesse oportunidade de assistir um ritual eu iria com certeza. Só tenho medo de baixar um santo em mim...

MARTHA: - Não é assim pra baixar um santo em você. Precisa ter conhecimento da religião, ser iniciado nela e em seus preceitos. Você sendo médium, não pode deixar o espírito ir chegando sem sua permissão. Ou vira bagunça. Eu não lido com Exús. Ou demônios, se preferir. Só lido com Orixás. Também não faço trabalhos para o mal. Se preciso invocar um Exú, eu só o invoco para o bem. Exús servem aos dois lados.

MULDER: - Mas ao contrário dos Orixás, eles sempre querem um pagamento alto. Orixás são espíritos de luz. Exús são espíritos das trevas. Geralmente eles têm inteligência e conhecimento superior. É como enganam as pessoas que os invocam. Pratica Umbanda mesmo? Ou cruza alguma linha entre o Candomblé e a Quimbanda?

MARTHA: - Mulder, está tentando me enganar? Você entende muito bem do assunto.

MULDER: - Na Umbanda pura, tanto os pretos velhos quanto os caboclos ou índios, trabalham dentro de uma irmandade. Na Umbanda mistificada, há a mistura de Candomblé, magia, com a Quimbanda, ou magia negra. Geralmente a imagem da Umbanda se deturpa por causa de seguidores que acabam distorcendo os preceitos básicos da religião.

MARTHA: - Sou umbandista pura. Não umbandista mágica. Na Quimbanda, os Exús são invocados para trabalhos de Magia Negra. Acho isso funesto, uma vez que a inconsciência dos homens é sempre voltada a procurar apenas o prejuízo do seu semelhante, com finalidade de desmancharem casamentos, aproximarem amantes, derrubarem o que as pessoas conquistaram com seu esforço, através da inveja...

MULDER: - Acredita mesmo que se pode derrubar alguém com um punhado de balas, uma galinha morta e uma garrafa de bebida alcoólica?

MARTHA: - Não acredita? São espíritos presos aos prazeres terrenos.

MULDER: - Eu sei lá... Respeito o que não conheço. Mas sou um pouco cético com isso.

MARTHA: - Então não acredita? Continue não acreditando. É melhor pra você, acredite.

MULDER: - (SORRI) Ainda não tive oportunidade de me deparar com isso ao longo da minha carreira... Acho uma religião muito interessante, primitiva. Embora me pareça que não cabe mais na atual época em que vivemos.

MARTHA: - Não diria isso se fosse você. Por ser uma religião primitiva, deve-se respeitar o que desconhecemos. O último homem que disse isso, acabou numa terreira, encostou uma Pomba Gira nele, começou a falar manso e nem queira saber...

MULDER: - (RINDO/ DEBOCHADO) Nem quero mesmo... Acho que o serviço daqui é meio demorado... Estou odiando esse hotel, sabia?

MARTHA: - Por quê?

MULDER: - Acredita que deixei uma foto sobre a cômoda e sumiu? Acho que a camareira colocou no lixo por engano. Pra ajudar, ainda perdi a minha credencial.

MARTHA: - Essas coisas acontecem. Você não me parece bem hoje.

MULDER: - Pra falar a verdade, me sinto enjoado.

MARTHA: - Não deveria viajar num estado desses.

Ela ergue-se, colocando a mão em sua testa.

MARTHA: - Está com febre. Melhor deixar pra ir amanhã.

MULDER: - Tenho coisas a fazer, não posso ficar preso aqui.

MARTHA: - Vai querer chegar em casa e levar uma bronca da sua mulher? Aposto que você não gostaria de vê-la preocupada com sua saúde.

MULDER: - (CURIOSO) Como sabe que sou casado?

Ela olha pra ele incrédula. Ele olha pra mão e vê a aliança. Sorri.

MULDER: - Esquece. Não é magia. Isso é prova física e incontestável.

MARTHA: - (SORRI) Devem ser felizes... Aposto que você é louco por ela. Seu olhar diz isso.

MULDER: - É. Algumas vezes na vida você consegue ser pego.

MARTHA: - Com certeza, Mulder... Com certeza...


1:16 P.M.

Mulder abre a porta do quarto. Martha o observa.

MULDER: - (TONTO) Que coisa estranha, eu estava tão bem...

Ela entra. Mulder senta-se na cama.

MULDER: - Eu tenho que voltar pra Washington...

MARTHA: - Descansa um pouco. Que horas é seu voo?

MULDER: - Às 4.

MARTHA: - Eu chamo você às 4. Agora descansa.

Ela o ajuda a se deitar. Propositalmente, deixa seu anel raspar na pele dele. A mão de Mulder começa a sangrar.

MARTHA: - Ai, Deus, me desculpe!

Ela corre para o banheiro e pega uma toalha de rosto. Passa na mão dele.

MARTHA: - Ainda bem que não foi um corte profundo.

MULDER: - (TENTANDO SER GENTIL) Não se preocupe com isso. Não vou morrer.

MARTHA: - Ai, como sou atrapalhada. Me desculpe.

Ela sai, fechando a porta. Leva a toalha junto. Escora-se na parede do corredor e olha pra pequena mancha de sangue na toalha.

MARTHA: - Agora definitivamente seu sangue me pertence.


5:01 P.M.

Mulder acorda-se ouvindo o celular. Olha pro relógio.

MULDER: - Droga!

Mulder senta-se na cama. Atende o telefone.

MULDER: - Mulder... Perdi o voo das 4, Scully. Ferrei no sono... (SORRI) Não, é mentira. Estou tentando conseguir uma desculpa pra passar mais um dia com a minha amante... Sério? Mas foi ao médico? ... Puxa, isso é o que chamo de sintonia. Pra dizer a verdade me senti mal também. Fui dormir e perdi o avião... é, aproveita e fica descansando. Deixa aquele porão um pouquinho... Não sei, vou ligar pro aeroporto e tentar conseguir um voo pra hoje à noite... Tá, eu te ligo. Amo você, Scully. Acho que estou doente de saudades... Se duvidar vou alugar um carro e voltar correndo...

Batidas na porta. Mulder abre a porta. Martha olha pra ele. Mulder dá as costas e se aproxima da janela.

MULDER: - Eu ligo pra você, tá certo? Se não puder voltar hoje de avião, eu pego um carro. Mas que volto hoje eu volto.

Martha o observa com ciúme doentio. Cerra os punhos com ódio.

MULDER: - Também te amo. Descansa, tá?

Mulder desliga. Olha pra Martha. Ela dá um sorriso, disfarçando.

MULDER: - Me desculpe. Minha esposa não está muito bem de saúde.

MARTHA: - Algo grave?

MULDER: - Não sabe. Foi repentino...

MARTHA: - Eu é que peço desculpas. Acabei dormindo também.

MULDER: - Não se preocupe. Como você disse, essas coisas acontecem.

MARTHA: - Vai voltar?

MULDER: - Vou arrumar as malas. Se não conseguir um avião, vou alugar um carro.

MARTHA: - ... Bom, acho que vou deixar você arrumar suas coisas.

Mulder pega a mala. Ela sai, cabisbaixa.


BLOCO 3:

5:37 P.M.

Mulder ajeita a gravata. Coloca o paletó. Pega a mala.

Som de barulhos vindos do quarto de Martha.

Mulder larga a mala no chão. Abre a porta. Caminha até a porta do quarto dela. Bate.

MULDER: - Martha?

Silêncio. Mulder bate mais forte.

MULDER: - Martha, você está bem?

Silêncio. Mulder arromba a porta. Entra desesperado, procurando-a pelo quarto. Tudo quebrado. Mulder entra no banheiro. Ela está mergulhada por completo, de roupa, dentro da banheira. Mulder arregala os olhos e a puxa pra fora.

MULDER: - Martha, que diabos está fazendo?

Ela começa a chorar. Abraça-se nele.

MARTHA: - (CHORANDO) Eu quero morrer! Eu não posso mais viver sem ele!

Mulder fecha os olhos. A abraça. Ela chora convulsivamente, se agarrando mais nele.

MULDER: - Vai passar, Martha. Vai passar...

Ela continua chorando, encostando o nariz no ombro dele, como se o abraçasse com vontade de nunca mais soltá-lo. Afasta o rosto. Dá um sorriso triste.

MARTHA: - Acho que fiz você perder o avião de novo.

MULDER: - (SORRI) Acho que não é pra voltar hoje. Talvez você esteja me protegendo de um desastre aéreo.

MARTHA: - Molhei sua roupa. Me desculpe.

Ela afasta-se dele. Mulder olha pra ela, compadecido.

MULDER: - Martha, não faz isso. Eu posso te dizer com toda a sinceridade que não vale a pena. Eu já tentei me matar, e confesso que senti vergonha do que fiz. O que adiantaria?

MARTHA: - (OLHA PRA ELE APAIXONADA) Você mal me conhece, como pode se importar comigo?

MULDER: - Eu me importo com as pessoas, Martha. Eu quero que as pessoas sejam felizes.

MARTHA: - Você é um altruísta. Desde que o vi pela primeira vez eu sabia que era um altruísta. Que você se compadece com os outros. Você tem um bom coração, Mulder.

MULDER: - Você também. Agora respira fundo. Tenta deixar tudo pra trás, ok? Quer comer alguma coisa? Quem sabe a gente toma um sorvete, eu te conto umas piadas e você abre um sorriso?

Ela sorri.

MULDER: - Ótimo. Vou trocar de roupa, tá? Não faz besteira que eu já volto.

Mulder sai, fechando a porta. Ela olha pra porta.

MARTHA: - (SUSPIRA) Só há um modo de ter alguém como você, Mulder. Pelo coração. E se não for como mulher, será como amiga. E uma coisa leva à outra.

Martha pega algumas rosas vermelhas de um vaso. Leva-as pro banheiro e fecha a porta.


8:17 P.M.

Mulder e Martha descem do elevador. Ela sorrindo.

MULDER: - Viu? Imagina se vale a pena se matar? E se no céu não tiver sorvete?

MARTHA: - (SORRI) Acho que me convenceu.

Ela abre a porta do quarto. Ele fica do lado de fora.

MULDER: - Me promete que vai procurar um psicólogo. Vai ver, se sentirá melhor.

MARTHA: - ... (INDIGNADA) Está me chamando de louca?

MULDER: - Não tem nada a ver com loucura. Psicólogos ajudam você a superar crises.

Mulder afasta-se. Ela o segura.

MARTHA: - Se importa de ficar mais um pouco conversando comigo?

MULDER: - Eu... Eu preciso ir mesmo, Martha.

MARTHA: - ... Você é um bom homem, Mulder. Obrigado por se importar comigo.

MULDER: - Eu me importo com qualquer pessoa, Martha.

Ela olha pra ele.

MARTHA: - Não quer entrar?

MULDER: - (EMBARAÇADO) Não. Preciso pegar o avião.

MARTHA: - Poderia passar a noite comigo.

MULDER: - (NERVOSO) Martha, acho melhor não... Não misture as coisas. Eu estou sendo apenas seu amigo.

MARTHA: - Eu não quero que pense coisas ruins de mim, é que você me faz sentir bem.

MULDER: - Martha, não é nada com você, ok? Sou eu. Eu amo a minha mulher e isso não seria uma atitude justa com ela.

MARTHA: - Posso entender, Mulder. Mas...

MULDER: - Não, Martha. Eu não posso.

Ela enche os olhos de lágrimas.

MARTHA: - Sabia que não é difícil se apaixonar por você?

Ele abaixa a cabeça. Sentindo-se constrangido.

MARTHA: - Você é tão humano. Tão meigo. Você é sensual por natureza. É o tipo da pessoa que se destaca no meio de toda uma multidão... Mulder, você é a pessoa mais sensível que eu já conheci.

Mulder, chateado, volta pra seu quarto. Ela o acompanha com os olhos.

MARTHA: - Mulder!

Ele vira-se.

MARTHA: - Me desculpe.

MULDER: - ... Tudo bem. (SORRI) Essas coisas acontecem.

Ela se aproxima.

MARTHA: - Eu preciso te falar.

MULDER: - ...

MARTHA: - É que... (SEGURA AS LÁGRIMAS) Você se parece com meu falecido marido.

Mulder olha pra ela, apiedado.

MARTHA: - Me perdoa, se eu não fui sincera. Mas olhar pra você me faz parecer que... ele está vivo.

MULDER: - Sinto, Martha.

Ela abaixa a cabeça. Puxa a porta do quarto, fechando-a e caminha até o elevador. Mulder a acompanha com os olhos.

MULDER: - Onde vai?

Ela seca algumas lágrimas. Olha pra ele.

MARTHA: - Preciso de uma bebida. (SORRI ENTRE LÁGRIMAS) ... Uma boa bebida. Mas não se preocupe. Não vou me encorporar.

Ela entra no elevador. Mulder vai pro quarto.


9:13 P.M.

Marta sentada ao balcão do bar. Um copo cheio à sua frente, que ela não tocou ainda. Ela olha pra prateleira de garrafas, que é espelhada. Percebe Mulder entrar no bar. Abaixa a cabeça e sorri.

MARTHA: - ... Se pensasse menos nos outros, levaria menos na cabeça. Você é previsível...

Ela bebe meio copo de uísque, rapidamente. Mulder senta-se a seu lado.

MULDER: - Acho que já bebeu demais.

MARTHA: - Por que se preocupa comigo?

MULDER: - Porque você precisa de ajuda.

MARTHA: - Me deixa em paz. Não ia voltar pra Washington?

MULDER: - Martha, por favor. Tem algum parente ou amigo pra quem eu possa ligar? Não posso ir embora sabendo que você está confusa e pode fazer besteira. Me desculpe, eu sou assim. Me preocupo com todo mundo.

Ela olha dentro dos olhos dele, como se quisesse passar sua falsa tristeza.

MARTHA: - Eu sou só.

Mulder sente uma punhalada no coração.

MARTHA: - Eu tinha uma irmã. Mas ela se foi. Foi e levou tudo o que eu tinha.

MULDER: - ...

MARTHA: - Eu tinha amigos. Mas eles me achavam louca.

MULDER: - ...

MARTHA: - Sai daqui, Mulder. Por que quando eu começar a falar nas coisas que vi e que acredito, você vai me chamar de louca também.

MULDER: - ...

MARTHA: - Mas eu posso te mostrar a maldita radiografia da minha cabeça onde aparece alojado no meu cérebro um implante de metal. Mas você... Você nunca acreditaria em extraterrestres. Eu sou louca, Mulder. Saia daqui.

Mulder abaixa a cabeça. Ela atacou o seu ponto fraco.

MULDER: - Martha, eu sei como se sente. Ver você falando assim, me traz lembranças de quem eu era há alguns anos atrás. Provavelmente, se uma pessoa não tivesse mudado a minha vida, eu estaria aqui hoje, enchendo a minha cara, contando histórias da abdução da minha irmã e sendo o motivo das piadas do bar... Ou estaria morto pelas minhas próprias mãos.

Ele começa a ficar depressivo de ver a depressão dela. Faz sinal para o garçom. O garçom traz um copo de uísque.

MULDER: - Se não vai parar eu vou começar. Mas não exagera... (TRISTE/ SENTINDO NA PRÓPRIA PELE) Eles te machucaram muito?

Ela deixa a bolsa cair, fingindo ficar nervosa com a pergunta. Mulder abaixa-se para pegar. Ela coloca alguma coisa dentro do copo dele rapidamente.


3:34 A.M.

Música ambiental. Acústico em piano e voz, de November Rain (Guns N' Roses).

Não escuta-se os personagens. Mulder, com o cotovelo escorado no balcão olha pra ela. Parece enfeitiçado. Ela continua falando. Mulder fala algo, derrubando lágrimas. Ela olha pra ele, numa fisionomia de quem entende, tentando ser amiga. Mulder vira-se pro balcão e apoia o rosto nas mãos. Martha afaga seu ombro, falando algo. Mulder acena negativamente com a cabeça, sem tirar as mãos do rosto. Ela retira um colar de Umbanda da bolsa, nas cores azul e branco. Mulder tira as mãos do rosto. Ela coloca o colar nele e diz alguma coisa. Mulder fala outra. Ela segura na mão dele, como se quisesse dar-lhe forças. Mulder sorri. Ela sorri também. Ela fala, ele escuta. Ela cala-se. Ele fala algo. Ela abaixa cabeça. Ergue-a, olhando nos olhos dele, derrubando lágrimas.

Mulder olha pra ela. Eles ficam se olhando por momentos. Mulder aproxima seus lábios dos dela. Ela fecha os olhos. Mulder a beija, devorando seus lábios. Envolve os braços na cintura dela. Ela envolve as mãos nos cabelos dele, sentindo os lábios dele percorrerem seu pescoço, subindo, procurando por sua boca. Trocam outro beijo intenso e cheio de desejo. Mulder afasta-se. Levanta-se. Estende a mão pra ela. Ela entende. Segura na mão dele. Levanta-se. Os dois saem abraçados do bar.


3:47 A.M.

Apenas a luz de um painel eletrônico da rua, ilumina o quarto de Martha. A chuva cai lá fora. Mulder e Martha beijam-se, devorando os lábios um do outro. Ela tira a camisa dele. O colar de contas contrasta com seu peito nu. Martha desliza as mãos pelo colar e pelo peito dele, dando-lhe beijos suaves. Mulder envolve as mãos no pescoço dela, por entre os longos cabelos negros. Ela fecha os olhos. Mulder beija-lhe o pescoço, com desejo incontido. Abraça Martha, a empurrando para cama. Os dois trocam carícias, enquanto ele ergue o vestido dela, afagando sua perna. Ela desliza as mãos pelos cabelos dele, fechando os olhos, sentindo o corpo dele sobre o seu. Ele está completamente enfeitiçado.

MULDER: - (MURMURA)... eu quero você... eu te amo.

Martha sorri. Os dois trocam um beijo de língua. Mulder desliza seus lábios e suas mãos pelo corpo dela. Então olha pra sua mão. Vê a aliança que ganhou de Scully. Mulder parece sair do transe em que estava. Afasta-se dela. Ela ergue-se, apoiando-se nos cotovelos.

MARTHA: - O que foi?

Mulder senta-se na cama. Põe as mãos no rosto. Parece confuso, sem saber onde está e o que faz.

MULDER: - (ATORDOADO) Meu Deus! O que estou fazendo?

Ela acende o abajur.

MARTHA: - Mulder?

MULDER: - (OLHOS CHEIOS DE LÁGRIMAS/ COM RAIVA DE SI MESMO) O que eu estou fazendo? Deus, o que eu fiz?

Ele levanta-se. Pega a camisa, o paletó e sai apressado. Ela tenta segurá-lo.

MARTHA: - Mulder, não há culpa alguma aqui.

Mulder sai, desesperado e culpado, porta à fora. Ela fica enfurecida.

MARTHA: - Vadia desgraçada! Se eu não posso tê-lo, você não vai ter também!

Ela cerra os punhos, num olhar de ódio.

Close da gravata de Mulder que ele esqueceu na cadeira.

Close da pasta de Martha sobre a mesa. Há algumas folhas impressas saindo para fora, revelando algumas palavras como: @gov, Fox, Arquivos X, dossiê de agentes.


7:49 A.M.

Marta levanta-se. Veste um robe. Olha pra porta. Há uma envelope. Ela o pega. Abre-o. Retira o colar que dera para Mulder e um bilhete. Lê em voz alta.

MARTHA: - Me desculpe por ter ido embora sem te avisar. Não me entenda mal, eu não te amo, eu amo outra pessoa. Foi bom conhecer você. Espero que consiga superar seus desafios. Te desejo muita paz. Mas entenda que tudo foi um erro. Mulder.

Ela olha com raiva pro bilhete. Coloca-o no envelope novamente. Atira-o na cama. Lança um olhar de possessão. Segura o colar com ódio, apertando-o a ponto de fazê-lo partir-se e as contas azuis e brancas espalharem-se pelo chão.

MARTHA: - Eu sei onde você mora, quem você é e você já está marcado por mim. Tenho seu sangue, Mulder. Você é meu. Eu juro por todos os infernos que você não vai me escapar.


Dois dias depois...

Apartamento de Mulder – 11:18 P.M.

Mulder deitado, olhar fixo no teto. Scully deita-se.

SCULLY: - Eu não entendo, Mulder. De uma hora pra outra. Bati o carro, o seguro não cobriu. Deixei o carro na oficina e peguei o Porsche. Levei uma bronca do Skinner, por um erro que eu jamais cometeria, mas cometi. Quase perco o emprego.

MULDER: - ...

SCULLY: - Pra ajudar, a Receita Federal não encontrou a minha declaração de imposto. Mamãe simplesmente ficou zangada comigo e me encheu de desaforos. Ontem fui verificar meu apartamento. Encontrei uma carta pedindo que eu comparecesse ao banco, parece que houve erros na hipoteca. Hoje de manhã, quase atropelo um velhinho. Credo, o azar se encostou em mim. E ainda por cima, estou com essa maldita dor que me incomoda e o médico nem sabe o que pode ser.

MULDER: - ...

SCULLY: - Mulder? Algum problema?

MULDER: - Não.

SCULLY: - Certeza?

MULDER: - Sim.

Ela cobre-se. Ele continua olhando para o teto. Ela se aconchega nele. Afaga-lhe o peito.

SCULLY: - Até agora ainda não me disse como foi tudo em Nova Iorque.

MULDER: - Nada de importante que eu queira lembrar.

Ela recosta-se nele e fecha os olhos.

SCULLY: - Mulder, você tá tão estranho.

MULDER: - Eu sou estranho.

SCULLY: - ...

Scully beija-lhe o ombro. Desliza sua mão pelo corpo dele, pra baixo do edredom. Mulder levanta-se.

SCULLY: - O que foi?

MULDER: - (CULPADO) Nada.

Ele sai do quarto. Ela fica intrigada.

SCULLY: - Mulder? Mulder, o que eu fiz de errado?

Silêncio.

Ela levanta-se. Vai pra sala. Ele está sentado, cabisbaixo. Scully olha pra ele, preocupada.

SCULLY: - Mulder, aconteceu alguma coisa que não quer me contar?

MULDER: - Senta aí.

Ela olha pra ele, cerrando as sobrancelhas, já fazendo um beiço de quem espera alguma desgraça. Senta-se na mesa de centro, de frente pra ele. Mulder põe as mãos no rosto. Não olha pra ela.

MULDER: - Eu ... Eu não posso olhar mais pra você depois do que eu fiz.

Ela faz uma cara de pânico. Engole seco. Ele tira as mãos do rosto e abaixa a cabeça.

MULDER: - (NERVOSO) Eu... eu sei que vai doer, que você vai atirar tudo em mim, que pode ir embora e me deixar, mas prometemos que sempre seríamos sinceros um com o outro. Por mais doloroso que fosse. Mesmo que significasse a nossa separação.

SCULLY: - (FECHA OS OLHOS)

MULDER: - Eu traí você.

Scully, de olhos fechados, morde os lábios. Respira fundo.

MULDER: - Eu... eu me deixei levar por uma mulher que mal conhecia.

Ele levanta-se, nervoso. Não tem coragem de olhar pra ela.

MULDER: - Eu não te mereço, Scully. Eu fui um completo canalha.

Ele abre os olhos. Tenta se recuperar do choque.

MULDER: - A culpa é minha. Completamente minha.

SCULLY: - ... Mulder... Vamos agir como adultos, ok?

MULDER: - ...

SCULLY: - (TOMA CORAGEM) Foi uma aventura? ... Ou sente alguma coisa por ela?

MULDER: - (NERVOSO/ CONFUSO) Foi um momento de cegueira. Parecia que não era eu. Que estava fora de mim...

SCULLY: - (TRISTE) Sente algo por ela? Faria novamente?

MULDER: - Não.

Scully levanta-se. Olha pela janela. Cruza os braços. Ele encosta o braço na parede e abaixa a cabeça. A culpa não o deixa encará-la. Os dois de costas um para o outro. Scully olha para o vazio, os olhos cheios de lágrimas. Descruza os braços. Vira-se pra ele.

SCULLY: - Mulder.

MULDER: - ...

SCULLY: - Vamos dormir. Temos trabalho amanhã cedo.

Ela vai para o quarto. Deita-se na cama. Fica olhando pro nada. Parece que levou um golpe. Ele entra no quarto. Pega o travesseiro e um cobertor.

SCULLY: - Onde vai?

MULDER: - Pro sofá.

SCULLY: - Eu disse que não o queria na cama?

MULDER: - Não, mas eu sei onde é o meu lugar.

SCULLY: - Mulder...

Ele pára. Vira-se pra ela. Ela está nervosa.

SCULLY: - Foi bom?

MULDER: - O quê?

SCULLY: - (INDIGNADA) Como assim ‘o quê’? Ela foi melhor do que eu?

MULDER: - Não transamos.

Ele vai pra sala, cabisbaixo. Ela senta-se na cama, incrédula. Sorri. Levanta-se e vai correndo pra sala.

SCULLY: - Ô Mulder! Como assim ‘não transamos’? Você não me traiu?

Ele atira o travesseiro no sofá.

MULDER: - (SÉRIO) Eu a beijei, quase fiz essa besteira, mas alguma coisa me fez ver a idiotice que eu ia fazer. Algo me fez acordar do meu transe.

Ela ri. Ele olha pra ela.

MULDER: - (SÉRIO) Do que está rindo?

SCULLY: - Mulder, o que é traição pra você?

MULDER: - ...

SCULLY: - Um beijo? Mãos bobas? Tá, tudo bem, isto pode ser traição mas não leve aos extremos!

Ele deita-se no sofá. Cobre-se com o cobertor.

MULDER: - Pra mim isto foi traição. Esse tipo de intimidade eu jurei só ter com você. E não cumpri. Eu beijei uma estranha, eu a desejei. E eu quase iria aos extremos se não tivesse me dado conta do que estava fazendo.

Scully abaixa a cabeça num sorriso. Olha pra ele.

SCULLY: - Tudo bem, Mulder. Mas que isso não se repita. Se quer dormir no sofá, durma. Mas durma com os anjos. Eu te perdoo.

Ele senta-se no sofá. Olha pra ela, incrédulo.

MULDER: - Como pode me perdoar?

SCULLY: - Mulder, pra quê tanta tempestade num copo de água?

MULDER: - (SORRI ALIVIADO) Não vai me deixar? (SEGURANDO AS LÁGRIMAS COMO CRIANÇA) Você me perdoa mesmo?

SCULLY: - Não. Se não ir pra aquela cama eu não te perdoo. Além de ‘me trair’ vai me deixar com frio a noite toda?

Ele sorri. Levanta-se.

MULDER: - Me perdoa mesmo?

SCULLY: - (DEBOCHADA) Escovou os dentes? Tirou o gosto da vadia?

Ele abaixa a cabeça, envergonhado. Ela ergue a cabeça dele, segurando-lhe o queixo. Os dois olham-se nos olhos. Ela o beija.

SCULLY: - Mulder, nosso amor é maior do que isto. Acho que se tivesse dormido com ela, eu... eu ainda assim te perdoaria... Sinistro? Sim. Mas é coração demais, alma demais, doença demais, que chega a cegar meu orgulho próprio.

MULDER: - Scully, eu sou feliz com você. Sabe que te amo de uma maneira tão forte, como nunca havia amado antes. Você me deu uma vida. Me fez ser alguém. Aceitou o desafio.... Nós temos uma vida juntos, anos juntos, nos conquistando, de todas as maneiras. Você é o meu mundo, Scully. Você é a minha mulher, a minha amiga, a minha parceira e confesso, algumas vezes, quando puxa as minhas orelhas, você é também a minha mãe.

Ela sorri.

MULDER: - Eu não tenho motivos pra fazer algo assim. Você me conhece, sabe que eu não entrego toda uma vida por causa de prazer. Isso eu tenho com você. E tenho mais do que isto. Eu só tô dizendo que nem sei porquê fiz aquilo. Ela veio com um papo de que éramos iguais, tão parecida comigo... Parecia que me conhecia por dentro... sabia coisas a meu respeito...

SCULLY: - Mulder, escute a sua amiga agora e esqueça da sua mulher: Não confie nas mulheres. Não sabe as coisas que são capazes de fazer para ter um homem. E pouco importa se ele tem família, se ele é casado. A obsessão causa cegueira. E se confunde com amor.

MULDER: - ...

SCULLY: - (CULPADA) Acredite, Mulder. Eu posso te dizer isso. Sabe que posso porque eu também já fui culpada. Já te falei das coisas que fiz, e que hoje me envergonho de ter feito. Portanto, se algum dia acontecer comigo, eu não tenho moral alguma pra criticar. Por isso o meu ciúme doentio. Eu sei o que fiz. E tenho medo de que o façam comigo. Porque quem não deve, não teme, Mulder. Você não deve nada, por isso não tem medo de me perder. Se eu tenho medo de te perder, é porque tenho contas a acertar com a vida. E morro de medo de que ela me cobre por isso.

MULDER: - ... Acho que aquela mulher era meio bruxa.

SCULLY: - Não duvido, Mulder. Agora vamos dormir.

Ele sorri, aliviado. Os dois vão pro quarto, abraçados.


BLOCO 4:

7:38 A.M.

Scully, num robe, ajeita a gravata de Mulder. Ele toma um café, apressado.

SCULLY: - Prontinho.

MULDER: - Tem certeza de que vai ficar bem?

SCULLY: - Vou.

MULDER: - Eu ligarei pra saber como você está.

SCULLY: - Vou ao médico. Avise o Skinner.

MULDER: - Scully, estou começando a ficar preocupado. Isso não é reação do que fizeram com você?

SCULLY: - Não. Estou bem, deve ser apenas um resfriado. Agora, vai, está atrasado.

Ela pega a caneca da mão dele. Os dois trocam um beijo. Ele vai pra sala, pega as chaves do carro. Vira-se pra ela.

MULDER: - (PREOCUPADO) Tem certeza mesmo?

SCULLY: - (SORRI) Já disse, Mulder. Estou bem.

Ele sai. Ela o acompanha com os olhos brilhando de paixão. A porta fecha-se. Ela sorri ternamente.

SCULLY: - Mulder... O que eu fiz pra ter você? ‘Eu te traí, Scully’... (SORRI) Ai, Mulder... Essa vai pro meu diário. Um dia vou contar aos nossos filhos... Você ganhou o Oscar com essa...


10:37 A.M.

Batidas na porta. Scully está deitada na cama. Cookie ao lado dela. Scully levanta-se. Veste o robe. Caminha até a porta. Abre. O porteiro olha pra ela.

PORTEIRO: - Desculpe, senhorita... Mas... Bem, tenho a visto muito por aqui com o agente Mulder e concluo que o Porsche vermelho na garagem é seu.

SCULLY: - Sim, algum problema? Tirei a vaga de alguém?

PORTEIRO: - Não, bem... Não sei como aconteceu, senhorita, mas... Acabo de vir da garagem e seu carro está quebrado.

SCULLY: - (DESESPERADA) O meu Porsche? Quebrado?

Corta para Scully na garagem do prédio. Fecha os olhos. Close do carro dela. Vidros quebrados, pneus e bancos rasgados, lataria amassada e arranhada. Scully entra em desespero.

Corta para Martha que a observa com ódio, escondida atrás de um pilar.


Arquivos X - 10:47 A.M.

Mulder atende o telefone.

MULDER: - Arquivos X... Scully? ... Scully, por que está chorando? Como assim o ‘Cookie sumiu’? .... Carro? Scully, eu tô indo pra aí, ok? Fica calma.

Mulder desliga. Pega o paletó e sai apressado.


Apartamento de Mulder – 11:13 A.M.

Mulder e Scully entram. Ela se atira no sofá chorando. Mulder olha pra ela apiedado. Senta-se ao lado dela e a abraça.

MULDER: - Nós vamos achá-lo, Scully.

SCULLY: - (CHORANDO) Já procuramos por tudo! Ele não tem o hábito de sair assim, sem eu estar junto. Sabe que o Cookie é medroso. E eu deixei a porta trancada, não entendo...

Mulder beija-lhe a testa.

SCULLY: - (CHORANDO) Pobrezinho do meu bebezinho! Ele deve estar por aí, perdido, confuso...

Ela mostra que se apegou ao cachorro como se fosse o filho que perdeu. Mulder fica mais nervoso ainda.

MULDER: - Impossível um cachorro sumir assim. Alguém deve tê-lo encontrado e está procurando o dono. Ele tem identificação, Scully.

SCULLY: - E o meu carro? Mulder, aquele carro tem um significado todo especial pra mim. Foi um presente pra encontrar você, de uma pessoa de coração tão grande...

MULDER: - Eu vou pegar o safado que fez isso. Eu te juro. Bem que eu disse pra irmos morar no seu prédio, parece que o porteiro de lá bebe menos que o daqui.

Ela sorri entre lágrimas. Ele tenta aliviar o clima.

MULDER: - Eu não disse que deveria ter ido pra lá? Viu o que dá morar num pulgueiro? Vizinhança barra pesada...

SCULLY: - (CHORANDO) Fica comigo, Mulder. Eu não me sinto bem.

MULDER: - Eu fico com você. Você é mais importante do que aquela droga de porão.

Ela deita a cabeça no colo dele. Ele afaga seus cabelos com ternura. Ela fecha os olhos.

Corta para rua. Martha observa o prédio. Segura Cookie pela coleira.

MARTHA: - (ÓDIO) Vem bichinho. Sua sorte depende de eu saber quem é seu dono. Se for ela, vai virar sabão.

Ela sai, arrastando o cachorro, com raiva.


Um dia depois...

2:37 P.M.

Scully sai do quarto, num robe, arrastando-se de dor. Com a mão sobre a barriga. Olheiras enormes. Pálida. O telefone toca. Ela atende, com a voz cansada.

SCULLY: - Alô? ... Alô? ... Alô?

Scully desliga. Arrasta-se até a cozinha. Volta com uma xícara. Caminha até o quarto. Fecha a porta.

A porta do apartamento abre-se lentamente. Martha entra sem fazer barulho. Observa o apartamento. Olha pra foto dos dois na estante. Ela pega o porta retratos e o coloca dentro da bolsa. Vê a bolsa de Scully. Caminha lentamente pela sala em direção à cozinha.


Arquivos X – 4:12 P.M.

Mulder digita algo no computador, apressado. O telefone toca. Ele atende.

MULDER: - Mulder... Quando?

Ele levanta-se da cadeira, assustado. Desliga o telefone. Sai às pressas, deixando tudo.


Hospital Geral – 4:48 P.M.

Mulder entra no quarto, apressado. Scully está na cama. Mulder aproxima-se, nervoso.

MULDER: - Scully, pelo amor de Deus, você está bem?

SCULLY: - (COMEÇA A CHORAR) Estou.

Mulder a abraça. Faz carinhos nela.

MULDER: - Como se esqueceu do gás ligado?

SCULLY: - (CONFUSA/ CHORANDO) Eu juro que não esqueci! Mas acho que estou tão cansada e doente que já nem sei mais o que faço. Eu não sei o que tenho, eu me sinto pra baixo, eu quero morrer!

MULDER: - Não diz uma bobagem dessas. Você podia ter explodido junto com tudo! Podia ter morrido asfixiada! E eu não quero ficar viúvo não. Quer me deixar sozinho é, sua covarde?

SCULLY: - ... Sorte que seu vizinho sentiu o cheiro. Eu já estava desmaiada na cama... Ai, Mulder, eu não sei de mais nada. É só desgraça na minha vida... Eu tô doente, meu cachorrinho sumiu, meu carro foi depredado... eu nem consigo mais raciocinar direito... eu só tenho vontade de chorar e dormir.

MULDER: - Scully, isso não está me soando bem aos ouvidos, sabia? Tem alguma coisa errada por aqui. E eu vou descobrir. Me parece que isso tudo não é uma coincidência.


5:17 P.M.

Mulder sai do hospital. Skinner vem chegando com um buquê de rosas.

SKINNER: - (PREOCUPADO) Como ela está?

MULDER: - Skinner, tem alguma coisa suspeita por aqui. (ENCIUMADO) Isso inclui você trazendo rosas enquanto que eu nem lembrei disso.

SKINNER: - Não acha que ‘eles’ tem alguma coisa a ver com isso. Acha?

MULDER: - Não. Eles não abduzem cachorros.

SKINNER: - Não falo de Ets. Falo daquela gente que conspira...

MULDER: - Também não abduzem cachorros e nem depredam Porsches. Tem alguém querendo se vingar da Scully por alguma coisa.

SKINNER: - Mas quem faria isso? De você até entendo, mas dela?

MULDER: - Vou tentar encarar isso como um elogio.

SKINNER: - A Scully é uma pessoa que todos adoram.

MULDER: - Também vou tentar encarar isso como um elogio. Skinner, fica aqui com ela até o Frohike chegar. Eu vou revirar aquele carro em busca de impressões digitais.

SKINNER: - Tá.

MULDER: - (DEBOCHADO) E outra coisa. Pode dar essas rosas pra ela. Mas mantenha sua lanterna bem longe da Scully. Ou vamos resolver isso aqui fora, na porrada.

Skinner sorri. Balança a cabeça. Entra no hospital. Mulder caminha até seu carro.

MARTHA: - Oi!

Mulder vira-se. Sorri.

MULDER: - (SURPRESO) Martha? O que faz em Washington?

MARTHA: - Seguros. E o que faz num hospital?

MULDER: - Minha esposa quase morreu.

MARTHA: - Oh, céus. Sinto muito. Ela está bem?

MULDER: - Está se recuperando.

MARTHA: - Alguma novidade boa?

MULDER: - Na verdade não. Até meu cachorro sumiu.

MARTHA: - Eu... eu quero pedir desculpas por aquela noite.

MULDER: - Esqueça isso. Eu também quero esquecer.

Mulder entra no carro.

MULDER: - Procurou o psicólogo?

MARTHA: - Procurei. Me sinto bem melhor.

Ele sorri. Acena pra ela e sai. Martha fica séria. Olha-o com obsessão.

MARTHA: - Da próxima, aquela cadela cretina não escapa. Vou ter você, por bem ou por mal. E nada como consolar um viúvo desesperado... Quando temos tanto em comum...


Apartamento de Mulder – 8:37 P.M.

Mulder, agachado na frente do fogão, assopra o pó branco que cobre a parte dos acendedores. Vê as digitais.

MULDER: - Ora, ora... Se não for o seu dedinho, Scully, ou o meu, acho que temos o dedo de alguém por aqui...

Mulder levanta-se. Afrouxa a gravata. Vai pra sala. Scully, está dormindo no sofá. Ele a olha ternamente. A cobre com a manta. Vai para o banheiro. Lava o rosto. Pega a toalha. Sai do banheiro secando o rosto. Pára. Olha pra poltrona do quarto. Vê a gravata que esquecera no quarto de Martha. Mulder aproxima-se. Pega a gravata na mão. Fica intrigado.


12:37 A.M.

Mulder acorda-se e atende o telefone apressado. Scully dorme, agarrada nele.

MULDER: - Mulder... Tô ouvindo... Checaram as informações? Tá, quero o nome do dono das digitais... (FECHA OS OLHOS)... Tá. Obrigado, Chuck. Você é um bom garoto, te dou um osso depois... Não, pra dizer a verdade, eu já desconfiava...

Mulder desliga. Levanta-se sem fazer barulho. Vai pra sala. Pega a carteira do paletó e tira um cartão. Pega o telefone. Disca.

MULDER: - ... (FALANDO BAIXO) Martha? Sou eu, Mulder... Preciso conversar com você... Hotel Meridian... Te encontro aí... (CÍNICO) Claro, por que mais eu iria até aí? Eu quero fazer com você o que não tivemos a chance de fazer naquela noite... Ora, Martha... Não, ela ainda está no hospital... Claro que me sinto só... Chego aí em 20 minutos.

Mulder desliga o telefone. Pega o paletó e a arma. Sai, fechando a porta.

Corta para porta do quarto. Scully, parada ali, olhos cheios de lágrimas, incrédula, confusa. Ela desliza o corpo até o chão, chorando convulsivamente.

SCULLY: - Não! (CHORANDO) Eu posso perder tudo na vida, mas não você... Mulder...


Hotel Meridian – 1:17 A.M.

Martha abre a porta do quarto, vestida num robe curto, com um sorriso. Mulder entra. A segura pelos pulsos, encostando-a na parede.

MULDER: - O que pensa que está fazendo sua vaca?

Ela muda a fisionomia.

MULDER: - Eu sei que tentou matar a Scully, destruiu o carro dela e pegou o cachorro.

MARTHA: - Não fiz nada com ele. Afinal é seu.

Mulder a solta. Está furioso.

MULDER: - Você é doida? Por que está fazendo tudo isso?

MARTHA: - (ÓDIO) Porque eu te quero, você é meu!

Mulder fica apavorado. Martha revela sua verdadeira personalidade psicótica.

MULDER: - Só vou te dar um aviso. Cai fora. Se aparecer de novo, eu mando te prender, ouviu?

MARTHA: - Acha que pode se desfazer de mim depois de tudo o que tivemos?

MULDER: - Martha, nós não tivemos nada!

MARTHA: - Como não?

MULDER: - Você é uma mentirosa patológica, não é? Mente tanto que acredita na própria mentira!

MARTHA: - Eu te amo!

Ela começa a chorar. Se joga no chão. Personalidade completamente instável.

MARTHA: - (CHORANDO) Eu te amo... não grita comigo... eu te amo...

Mulder fica nervoso.

MULDER: - Martha, por favor, pára com isso.

MARTHA: - (CHORANDO) Eu te amo... Eu só quero o teu carinho, a tua atenção... mas você me nega isso por causa daquela vadia!

MULDER: - Martha, eu não te amo! Eu tentei ser amigo, não entende a diferença?

MARTHA: - (CHORANDO)

MULDER: - Eu senti o que você estava passando, eu só queria dizer que você tinha alguém pra desabafar suas angústias... Eu sei o quanto é triste ser só e louco, perdido num mundo caótico onde ninguém tem tempo pra ouvir os outros...

Ela ergue a cabeça, rindo. Mulder fica sério. Ela parece possuída.

MARTHA: - (RINDO) Angústias? Que angústias?

MULDER: - O seu marido...

Ela dá uma gargalhada. Está fora de si. Mulder fica incrédulo.

MARTHA: - Marido? Eu nunca fui casada. Eu enganei você. Queria sua piedade pra que se aproximasse de mim. Você tem um coração puro, não vê maldade em nada... Sabia que acreditaria.

MULDER: - (PERPLEXO) ...

MARTHA: - Ou acredita também que eu ia me matar? Aquilo foi pra segurar você perto de mim.

MULDER: - ... A falsa chamada do escritório do FBI... (RAIVA) Você armou tudo, não foi mesmo?

MARTHA: - (RINDO/ HUMILHANDO-O/ DEBOCHADA) E você caiu como um otário, agente especial Fox Mulder, que teve sua irmã abduzida por Ets, que tem o apelido de Estranho, nascido em 13/10/63, psicólogo formado em Oxford, que trepa às escondidas com sua parceira, perito em comportamento... (RI DEBOCHADA) Deu pra perceber que entende de comportamento humano... Não sabe distinguir a verdade diante do seu nariz...

Mulder fecha os olhos. Percebe que foi usado.

MULDER: - Sua abdução foi uma mentira.

MARTHA: - Eu precisava te conquistar não?

MULDER: - Por quê? Por que me escolheu?

MARTHA: - Quer saber mesmo?

Ela levanta-se do chão. Olha desaforada pra ele.

MARTHA: - Porque estava passando na rua e vi aquele movimento todo. De repente você saiu do prédio. A coisa mais linda, gostosa e tentadora que eu já conheci... Foi amor à primeira vista. Bati os olhos em você e jurei que o queria.

MULDER: - (INCRÉDULO) Você é louca... Completamente louca.

MARTHA: - Louca por você. (PASSA A LÍNGUA NOS LÁBIOS)

Ela abre o robe. Está nua. Mulder vê seu nome escrito no peito dela. Vira o rosto.

MULDER: - Deus, você é totalmente perturbada!

MARTHA: - Olha pra isso, eu sou sua, tenho seu nome aqui e você é meu. Tenho seu sangue.

Mulder olha pra ela. Amarra o robe dela e a empurra contra a parede, tomado de ódio.

MULDER: - (GRITA) Sua vaca desgraçada! Você fez alguma coisa contra a Scully?

Ela ri debochada. Mulder a sacode pelos braços.

MULDER: - (GRITA) O que fez pra ela?

MARTHA: - (RINDO) Nada.

MULDER: - (GRITA) Fala, sua vadia miserável!

MARTHA: - Vai, me chama de vadia. Eu sou a sua vadia.

MULDER: - (GRITA) Fala desgraçada, ou eu perco a minha compostura.

MARTHA: - Vai bater numa mulher, machão?

MULDER: - (RAIVA) Você não é uma mulher. Você é uma doente que devia estar trancada num sanatório!

MARTHA: - Eu mandei meu Exu cuidar dela. E ela vai definhar aos poucos, perder tudo, até perder a vida.

Mulder afasta-se dela. Olha-a incrédulo.

MARTHA: - E você? (RI) Eu te amo, meu amor. Jamais feriria você... Vai babar nos meus pés como um cão. Eu te prendi a mim.

MULDER: - Não, Martha. Porque eu não acredito em religiões. Você pegou a Scully porque ela tem um Deus e acredita num Diabo. Está vulnerável. Eu não. O meu Deus é diferente do seu.

MARTHA: - (RAIVA) Vou fazer um trabalho numa encruzilhada, pra você deixar dela. Você vai vir pra mim, Mulder. Nem que eu tenha que chamar a minha Pomba Gira. Você não vai resistir. Vai cair de quatro aos meus pés. Acredite, não brinque com o desconhecido. Pode sair muito machucado.

MULDER: - Faça o que quiser, Martha. Mas amor não se compra, nem se obtém por magia. Amor se conquista. E leva muito tempo. Não de um dia pra outro. E tem mais, Martha. Grave isso na sua cabeça: Eu te odeio.

Mulder sai. Ela começa a quebrar o quarto com ódio.

Corta para o lado de fora do hotel. Mulder sai apressado, entrando no carro.

Corta para o outro lado da rua. Scully, dentro de seu carro, o observa, derrubando lágrimas.


TO BE CONTINUED...


15/10/2000

6 Août 2019 23:19:13 0 Rapport Incorporer 1
La fin

A propos de l’auteur

Lara One As fanfics da One são escritas em forma de roteiro adaptado, em episódios e dispostas por temporadas, como uma série de verdade. Uma alternativa shipper à mitologia da série de televisão Arquivo X. https://www.facebook.com/laraone1

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