S04#02 - DELIVER ME Suivre l’histoire

lara-one Lara One

Mulder tem pesadelos toda a noite, Scully reflete sobre as mudanças pessoais que teve. E o olhar cada vez fala mais alto do que a voz. Quais as conseqüências disto? Mulder enfrenta a pior crise que já passou. Scully também. Agora o sentimento deles está em cheque: Era amor ou apenas uma ilusão? Pode Scully salvar Mulder de si mesmo? Até que ponto vai a loucura dele e a falta de esperança?


Fanfiction Série/ Doramas/Opéras de savon Interdit aux moins de 18 ans.

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S04#02 - DELIVER ME

INTRODUÇÃO AO EPISÓDIO:

Mulder entra em seu apartamento. Tira o casaco. Fisionomia tensa, cansada. Atira o casaco no cabide. Senta-se no sofá. Abaixa a cabeça, triste. Olha pro álbum de fotos sobre a mesa de centro. Levanta-se. Abre uma das gavetas da escrivaninha. Retira o maço de cigarros que ganhou do Canceroso. Vai pra cozinha.

[tempo] Volta tossindo, com o cigarro aceso entre os dedos. Atravessa a sala, fumando, afrouxando a gravata. Vai para o banheiro. Cabisbaixo, com o cigarro na boca, ele desabotoa a camisa.

Mulder olha-se no espelho, enquanto mantém o cigarro na boca. Por um momento ele vê no espelho o reflexo do Canceroso em si mesmo. Mulder grita com medo, quebrando o espelho com a mão.

Fade out.


7:29 P.M.

Scully entra. Cabelos soltos por sobre os ombros. Num tailleur impecável. O apartamento está na penumbra.

SCULLY: - Mulder?

Nenhuma resposta. Scully acende as luzes. Caminha até a sala, desconfiada. Olha assustada.

Geral da sala. Bagunça de objetos quebrados. Scully entra na sala, olhando para o chão, atenta. Há um álbum de fotografias rasgado e fotos espalhadas pela sala. Fotos de Samantha, de Teena, de Bill, de Mulder quando criança. Até do Canceroso ao lado de Bill. A estante atirada no chão. Aquário quebrado.

Scully agacha-se. Pega um dos peixes. Suspira. Deixa-o no chão, está morto. Scully levanta-se.

SCULLY: - Mulder?

Scully está com uma fisionomia de preocupação. Vai até o quarto.

Geral do quarto vazio. Coisas quebradas também. Scully começa a ficar mais nervosa.

Scully aproxima-se da porta do banheiro. Fica parada, olhando para a porta de entrada. Pensativa. Olha para o chão. Ergue um dos pés, olhando para a água suja de sangue que sai por baixo da porta do banheiro. Scully entra em desespero. Tenta abrir a porta do banheiro. Está trancada. Scully bate.

SCULLY: - (GRITA) Mulder?

Nenhuma resposta.

SCULLY: - (DESESPERADA) Mulder!!!

Scully dá com os ombros na porta, mas não consegue arrombá-la. Tenta aos chutes. Nada. O desespero é tão grande que a força vem por natureza. Ela toma impulso e dá com os ombros na porta, fazendo a porta abrir-se.

Close do chão do banheiro e da água vermelha que cai da banheira, escorrendo para o piso. Scully arregala os olhos ao ver Mulder desacordado na banheira, com os pulsos cortados. Há uma navalha atirada no chão.

VINHETA DE ABERTURA


BLOCO 1:

Hospital Geral – 9:11 P.M.

Os Pistoleiros entram no hospital. Caminham pelo corredor, um ao lado do outro, parecendo mesmo um trio de pistoleiros do velho oeste. Scully está sentada. Os três param na frente dela.

FROHIKE: - O que esse idiota fez?

Scully olha pra eles.

SCULLY: - A experiência na medicina me diz que pessoas que querem se matar não cortam os pulsos. Quando fazem isto, estão apenas pedindo ajuda. Querem chamar a atenção.

LANGLY: - Onde ele está? Está acordado?

SCULLY: - Está nesse quarto. Sim, está acordado. (DESESPERADA) Eu não sei mais o que fazer! Nunca vi Mulder num desespero tão grande a ponto de cortar os pulsos!

FROHIKE: - (IRRITADO) Vou dizer pra ele como pode fazer pra chamar a atenção.

BYERS: - Frohike...

Frohike entra furioso no quarto. Mulder, com os pulsos enfaixados, sentado na cama. Olha contrariado para Frohike. Vira o rosto. Frohike aproxima-se da cama, numa fisionomia indignada nunca vista antes.

FROHIKE: - Sabe que uma melancia nesse pescoço chamaria muita atenção? Ah, desculpe. O seu nariz já faz isso.

Mulder olha com o rabo dos olhos pra ele. Irritado também.

MULDER: - Pelo menos não tenho nome de ração pra cachorro.

FROHIKE: - (DEBOCHADO) Hê, hê, hê... Vou fingir que achei graça nesse trocadilho.

Mulder continua sério, irritado.

FROHIKE: - Quer aparecer? Quer atenção? Eu vou te encher essa cara de soco e daí você vai chamar a atenção todo esfolado!

MULDER: - ... (LANÇA UM OLHAR DE CONTRARIEDADE)

FROHIKE: - Por que não mete um tiro na cabeça de uma vez?

Byers, Scully e Langly entram no quarto. Frohike olha pra Mulder. Mulder desvia o olhar.

FROHIKE: - Vou te ensinar: coloque a arma na boca. As chances de morrer são de 70 %. Se der errado, pode ser que vire um vegetal pro resto da vida. Mas quem se importa?

MULDER: - (GRITA) Cala a boca!

FROHIKE: - (GRITA MAIS ALTO) Cala a boca você! Quer fugir? Acha que morrer resolve alguma coisa, seu egoísta covarde!

Scully olha incrédula pra Frohike. Mulder abaixa a cabeça e começa a chorar.

MULDER: - Por que não me esquecem? Me deixem! Eu quero morrer, é problema meu! Será que nem da minha vida eu sou dono?

Scully fica nervosa. Aproxima-se da cama. Frohike a empurra.

FROHIKE: - Não, Scully. Você não utiliza os métodos corretos. Chega de carinho. Vou te mostrar como lidar com um covarde suicida como esse.

Frohike puxa o travesseiro de Mulder e enfia na cara dele. Começa a apertar.

FROHIKE: - Morre, Mulder, morre! Eu te ajudo.

Scully arregala os olhos e tenta segurar Frohike. Langly segura Scully e começa a rir. Byers fica apavorado. Frohike segura o travesseiro com força, Mulder começa a bater os braços e a pedir socorro. Frohike tira o travesseiro.

FROHIKE: - Desistiu? Ou agora vai se enforcar pela cintura pra não sentir a agonia de morrer asfixiado?

Frohike atira o travesseiro no chão. Scully está catatônica.

FROHIKE: - Eu vou sair daqui ou vou acabar fazendo o que ele quer: matando-o! E da próxima vez, Mulder, vê se não fica vivo. Vai se arrepender disso. Eu garanto.

Frohike sai enfurecido do quarto.


Um dia depois...

Apartamento de Scully – 2:34 A.M.

Mulder acorda-se num susto. Senta-se na cama, ofegante. Escorre suor por seu rosto. A barba por fazer. Scully acorda-se. Acende o abajur. Ajeita os cabelos longos pra trás das orelhas.

SCULLY: - Mulder, o que foi?

MULDER: - ... Outro pesadelo, Scully.

SCULLY: - De novo?

MULDER: - ... Não. Esse foi diferente.

Scully se abraça nele.

SCULLY: - Quer contar?

MULDER: - Não. Nunca se deve contar pesadelos ou eles acontecem.

SCULLY: - Superstição, Mulder.

MULDER: - ... Era uma mulher queimando numa fogueira, acho que por causa da inquisição... Eu a chamava de filha. Não pude salvá-la...

SCULLY: - ...

Mulder deita-se. Põe as mãos no rosto.

MULDER: - Desculpe. O inconsciente reage.

Scully abraça-se nele.

SCULLY: - Tenta dormir. Vou deixar a luz acesa.

MULDER: - Tá.

Scully fecha os olhos. Mulder não consegue dormir. Liga a TV.


3:21 A.M.

Scully acorda-se. Escuta um choro. Levanta-se e senta-se na cama. Mulder está sentado na cama, chorando. Scully olha pra TV. É um programa sobre bebês. Scully pega o controle remoto e desliga a TV. Aproxima-se de Mulder e o abraça. Ele deita a cabeça no braço dela e chora convulsivamente. Scully segura as lágrimas e afaga os cabelos dele.

MULDER: - Por quê? Por que isso tinha que acontecer?

SCULLY: - ...

MULDER: - Eu quero o meu filho, Scully!!!

Scully fecha os olhos. O abraça com força.

MULDER: - Eu só quero o meu filho...


Arquivos X – 8:24 A.M.

Mulder olhando pro jornal aberto sobre sua mesa. Scully, sentada em sua cadeira, bebe um copo de café. O telefone toca. Scully olha pra Mulder. Ele realmente não está lendo, está viajando. Scully estende a mão e pega o telefone da mesa dele, ele nem percebe. Ela atende o telefone, olhando pra Mulder.

SCULLY: - Agente Scully....... Sim, senhor.

Scully desliga. Olha pra Mulder.

SCULLY: - Mulder?

MULDER: - ...

SCULLY: - Mulder?

MULDER: - Ahn?

SCULLY: - Skinner nos chamou.

MULDER: - Ele esteve aqui?

SCULLY: - ... O que está lendo?

MULDER: - Ah, eu... É a seção policial.

Mulder levanta-se. Caminha até a porta. Scully levanta-se, olhando para o jornal aberto sobre a mesa, na seção de esportes. Suspira. Sai da sala com Mulder.


Estrada Interestadual – Virgínia – 10:11 P.M.

Scully dirige. Mulder olha pela janela. Cabelos revirados. Gravata torta, paletó com a gola virada, barba ainda por fazer...

SCULLY: - ... Richie San Martin. Filho de mãe americana e pai mexicano. Idade: 28 anos. Afirma que é um profeta enviado por Deus. Não faz curas, mas indica medicamentos de procedência duvidosa.

MULDER: - ...

SCULLY: - Mulder, está me ouvindo?

MULDER: - Tem alienígenas nessa história?

SCULLY: - Não.

MULDER: - Então não deveríamos investigar. Não nos levará ao nosso filho.

SCULLY: - Não foi você quem disse que tudo é a mesma coisa?

MULDER: - Eu disse isso?

Scully olha assustada pra ele.

SCULLY: - Mulder, sabe onde estamos?

MULDER: - Ahn?

Scully pára o carro no acostamento. Desliga o motor. Vira-se pra ele.

SCULLY: - Não está em condições de trabalhar e ainda teima comigo! Mulder, deveria estar em casa, descansando, porque está tendo sérios problemas pra se localizar no tempo e no espaço, e sérios impulsos suicidas!

MULDER: - Eu estou bem.

SCULLY: - Percebe-se, Mulder. Sabe quanto é 2 mais 2?

MULDER: - Quatro.

SCULLY: - E o quadrado de 69?

MULDER: - 28.561.

SCULLY: - Não.

Mulder começa a calcular. Fisionomia de raciocínio.

SCULLY: - O quadrado de 69, Mulder, é uma tremenda confusão.

Ele olha pra ela. Ela ri. Ele sorri pra ela.

MULDER: - Desculpe. Ando meio desligado.

SCULLY: - Melhor se ligar, Mulder. Ou vamos ter problemas. Tenta relaxar, tá?

MULDER: - Vou tentar.

SCULLY: - Vamos falar com o rapaz. Investigaremos juntos, como nos velhos tempos, levaremos nosso relatório e iremos pra minha casa. Te preparo um banho bem gostoso e faço um mousse pra você. E vou te dar um trato, você precisa fazer essa barba, Mulder! Parece um desleixado!

MULDER: - Tá.

SCULLY: - Que tal uma piadinha pra passar o tempo?

MULDER: - ...

SCULLY: - Hum, pensei que ia fazer piadas sobre meus cabelos compridos.

MULDER: - (OLHA PRA ELA, ERGUENDO AS SOBRANCELHAS, ADMIRADO) Desde quando está de cabelos compridos?

SCULLY: - Mulder, acho que isso tá ficando sério.

MULDER: - (SORRI) Gostei dos cabelos compridos.

SCULLY: - Vai, conta uma piada.

MULDER: - Não tenho inspiração pra piadas, Scully. Me desculpe.

Ele fica cabisbaixo. Ela tira uma das mãos do volante e segura a mão dele.


Residência dos San Martin – 11:36 A.M.

Scully desce do carro. Mulder também. Scully segura Mulder pelo braço.

SCULLY: - Espera aí.

Scully ajeita o paletó dele, a gravata e os cabelos.

SCULLY: - Pronto. Agora está mais decente.

Os dois caminham até a casa de madeira, envelhecida. Entram na varanda. Mulder observa a ferradura sobre a porta.

MULDER: - ... (DIVAGANDO) Minha tia Ann Victory tem uma dessas. Nunca significou sorte, pelo menos pra mim. Um dia, quando estava na casa dela, essa coisa caiu na minha cabeça. Três pontos.

SCULLY: - Sabia que tinha uma cabeça dura, Mulder, mas não sabia que tinha uma tia Ann.

MULDER: - Ah, ela é muito legal. Não a vejo desde que era garoto.

Scully bate na porta.

SCULLY: - Onde ela mora?

MULDER: - Na Philadelphia. Gostava dela. Sempre fazia torta de maçã pra mim. Só não gostava quando agarrava minhas bochechas e dizia: coisinha fofa da titia.

Scully sorri. Um velhinho abre a porta.

VELHO: - Pois não?

Mulder tenta achar o distintivo pelos bolsos, numa lerdeza só. Scully puxa o seu.

SCULLY: - Agentes Scully e Mulder, FBI.

Mulder continua procurando o distintivo. O velho olha pra ele, intrigado. Scully sorri e cutuca Mulder. Ele pára de procurar e olha pra ela.

SCULLY: - Podemos falar com Richie? É pai dele?

VELHO: - Não, sou o avô. Entrem.

Scully entra. Mulder fica olhando pra ferradura. Scully o puxa pelo braço pra dentro da casa. É uma casa simples, móveis velhos, nenhuma decoração.

VELHO: - Por favor, não reparem. É um lar modesto, mas temos bastante amor.

Scully olha pro velhinho e sorri.

VELHO: - Sentem-se.

Scully senta-se. Mulder fica olhando pela sala. Mexendo em objetos velhos e antigos, fascinado. O velho olha pra ele.

VELHO: - O que há com ele?

SCULLY: - Parafusos soltos.

VELHO: - Ah!

SCULLY: - Posso falar com Richie?

VELHO: - Ah, me desculpe! Já tinha esquecido! Vou chamá-lo.

O velhinho vai subir as escadas, mas volta. Scully olha pra ele, erguendo as sobrancelhas. O velhinho começa a rir.

VELHO: - Desculpe, parafusos soltos também. A idade é terrível!

Scully sorri amável. O velhinho sobe as escadas. Scully olha pra Mulder. Ele continua mexendo em tudo.

SCULLY: - Mulder!

Ele vira-se pra ela.

SCULLY: - Deixa de ser criança mexeriqueira e sente-se aqui!

MULDER: - ... É que fazia um bom tempo que eu não via um ferro de passar movido a carvão.

SCULLY: - Senta aqui e larga esse ferro. Ou vou dar com ele em sua cabeça até seus parafusos se encaixarem!

Mulder larga o ferro. Senta-se ao lado dela.

MULDER: - Por que tá furiosa comigo?

SCULLY: - Não estou furiosa com você. Estou furiosa com outra pessoa, que te deixou nesse estado. Queria esganá-lo!

Richie desce as escadas. Scully olha pra ele. É um rapaz muito bonito. Usa um medalhão no pescoço e roupas bem simples. Senta-se no sofá.

RICHIE: - Posso ajudar vocês?

SCULLY: - Richie, estamos aqui pra conversar. Somos do FBI. Sou a agente Scully e este é meu parceiro, o agente Mulder.

RICHIE: - Ah, eu entendo. Posso ser uma fraude, não é?

SCULLY: - Não estamos dizendo isso...

RICHIE: - (SORRINDO) Tudo bem, agente Scully. Faça seu dever, eu faço o meu.

Mulder está cabisbaixo, olhando para o chão. Richie olha pra ele. Olha pros pulsos enfaixados.

SCULLY: - As pessoas afirmam que você tem poderes curativos.

RICHIE: - Não, agente Scully. Eu não curo ninguém. Eu só digo o que elas devem tomar.

SCULLY: - Receita medicamentos sem ter um diploma médico?

RICHIE: - Não. Eu indico ervas.

SCULLY: - E sabe as conseqüências do uso indiscriminado de certos tipos de ervas?

RICHIE: - Não é uso indiscriminado. Há um tipo de erva para cada problema.

SCULLY: - Se eu vier até você com dor nos rins, o que me receitaria?

RICHIE: - Sei o que está tentando fazer, agente Scully. Eu não sou nenhum doutor em medicina alternativa e muito menos um pesquisador da flora. Indico chás, infusões, xaropes, todos provindos da natureza, nenhum deles têm componentes químicos. Sei que certos tipos de plantas têm dosagens limitadas.

SCULLY: - Onde aprendeu a manipular ervas?

RICHIE: - Com meu avô. Isso é tradição de família.

SCULLY: - E quanto cobra por cada remédio que faz?

RICHIE: - (SORRI) Cobrar? Como posso cobrar algo que vem da natureza? Que é dado gratuitamente por Deus aos homens?

SCULLY: - Tenho dados de que pratica benzeduras.

RICHIE: - Pratico.

SCULLY: - Crê realmente que alguém possa se curar por isso?

RICHIE: - Você não crê? Se estivesse morrendo, não faria qualquer coisa pra se salvar?

SCULLY: - ...

RICHIE: - A fé é o que cura, agente Scully. Não os meus chás ou benzeduras. Se você não acreditar neles, não vai obter a cura. A doença nunca é física, sempre é espiritual, e acho que sabe bem disso. (OLHA PRA MULDER) Nós atraímos as doenças pra nós mesmos. Quando nos entregamos.

SCULLY: - ...

RICHIE: - Seu parceiro está doente.

Scully olha pra Richie.

RICHIE: - Ele não tem fé. O mal que tem é que não possui fé. Perdeu a fé em tudo. Isso vai derrubá-lo aos poucos e percebe que já está acontecendo. Tanto que está aqui e não está. Estamos falando dele e ele nem percebeu ainda.

Scully olha pra Mulder. Mulder está olhando para os objetos da sala, desligado da realidade. Scully levanta-se.

SCULLY: - Agradeço nossa conversa. Gostaria de ver seu trabalho.

RICHIE: - Será bem vinda. Amanhã à tardinha, muitas pessoas se reúnem na minha porta. Elas vêm para buscar os remédios.

SCULLY: - Quem os prepara?

RICHIE: - Eu mesmo.

SCULLY: - ...

RICHIE: - Se quiser algo pras cólicas que sente, eu posso preparar.

Scully olha incrédula pra ele.

SCULLY: - Como sabe disso?

RICHIE: - Pela coloração de seu rosto.

SCULLY: - Mulder, vamos embora.

RICHIE: - Sei o motivo pelo qual veio aqui.

SCULLY: - Sim. O FBI me enviou para investigá-lo...

RICHIE: - Correto. Este foi o pretexto que utilizou para chegar até mim. O motivo verdadeiro é este.

Richie aponta para Mulder.

RICHIE: - Já que ele não tem fé, a sua fé o fará por ele, agente Scully.

Scully fica nervosa. Mulder levanta-se. Scully o puxa pelo braço.

SCULLY: - Vem, Mulder, vamos embora.

Richie abre a porta. Mulder sai. Richie olha para Scully.

RICHIE: - Água benta. Provoca sono tranquilo e livrará os pesadelos dele.

Scully sai. Richie observa-a. Fecha a porta.


BLOCO 2:

Apartamento de Scully - 7:17 P.M.

Scully entra no banheiro. Mulder está se olhando no espelho, parado, distante. Scully aproxima-se.

SCULLY: - Poderia pelo menos fazer a gentileza de me ajudar, não?

Ele sorri. A coloca sentada sobre o balcão da pia. Scully enche as mãos de espuma de barbear e passa no rosto dele.

SCULLY: - Vou te deixar em ordem, Mulder. E bem longe de objetos cortantes.

Mulder abaixa cabeça.

MULDER: - Desculpe. Eu... Eu nem sei porque fiz aquilo... Fiquei cego de ódio que não raciocinava mais.

SCULLY: - Não faz mais, tá?

Eles olham-se nos olhos.

SCULLY: - Promete?

MULDER: - Prometo.

SCULLY: - Agora fica quieto ou eu vou acabar machucando você.

MULDER: - ...

SCULLY: - Seu aniversário está chegando... O que vamos fazer pra comemorar? Pensei em passarmos um final de semana juntos.

MULDER: - Hum hum.

SCULLY: - Eu e você. Bem doidinhos, cantando Elvis Presley... Hum, acho que não vou cortar meu cabelo. Vou prendê-lo, comprar uma roupa dos anos 60 e dançar rock’n roll com você.

MULDER: - ... Posso usar uma jaqueta de couro e gel no cabelo?

SCULLY: - Pode...


7:33 P.M.

SCULLY: - Hum, pronto. Está com cara de Mulder de novo.

Ele sorri. Ela dá um beijo demorado na bochecha dele.

SCULLY: - Agora vá pra banheira, tem um banho de sais bem cheiroso e relaxante te esperando. E vou deixar a porta aberta. Não confio em você.

Ele sorri. Ela desce da pia.

SCULLY: - Vai.

MULDER: - ...

Scully olha pra ele. Ele continua parado. Ela sai do banheiro. Fecha os olhos. Percebe que ele encosta a porta. O telefone toca. Scully vai pra sala.

SCULLY: - Alô?... Mãe? Que bom que me ligou! Eu... Mãe, estou com problemas... O Mulder... Mãe, eu não sei mais o que fazer pra ajudá-lo! ... Diferente? Completamente diferente!... Mãe, ele tem até vergonha de tirar a roupa na minha frente! Está traumatizado com as coisas que fizeram com ele, percebo que pouco se importa com seu corpo, parece que tem nojo de si mesmo, ele se entregou de vez! Fica me dizendo que é uma cobaia, que não é deste mundo, tem pesadelos todas as noites, não se alimenta direito... Tentou suicidar-se... Nem no trabalho. Deduções óbvias ele não percebe. Sim, eu estou segurando as burradas dele no FBI. Claro que faço isso escondido... Sim. Eu falei com um psicólogo e ele me disse que as atitudes de Mulder são uma autopunição inconsciente... E eu nem tive coragem de falar sobre o resultados dos exames... Não, na semana que vem ele vai fazer um eletroencefalograma... Eu? Não, fui ao médico, mas ele disse que eu não posso estar sentindo essas dores porque eu não tenho indícios de quem teve um filho! (SUSPIRA) Ele me disse que são psicológicas! ... Mãe, não entenderia o problema. É complexo demais pra cabeça de qualquer um... Eu vou desligar. Não posso deixá-lo sozinho. Te ligo mais tarde... É, mãe. (NERVOSA) Eu preciso contar isso a ele. E vai ser hoje... Não posso ocultar a verdade de Mulder. Por pior que ela seja...


11:57 P.M.

Scully, sentada no sofá, olha pra Mulder. Mulder caminha até a janela. Abre o vidro. Abaixa a cabeça e chora. Scully fecha os olhos. Sabe bem o que ele está sentindo.

Mulder ergue a cabeça. Enxuga as lágrimas. Vira-se pra ela.

MULDER: - (SORRI) Obrigado.

SCULLY: - ...

MULDER: - (CHORANDO) Obrigado por me dizer a verdade. Posso entender o quanto foi difícil pra você me falar essas coisas. E agradeço pela sinceridade, por não ocultar nada.

SCULLY: - ... (TRISTE)

MULDER: - Chips? (RI/ NERVOSO) Pra quê tantos chips? Querem monitorar cada órgão do meu corpo?

SCULLY: - ...

MULDER: - ... Quer dizer que talvez eu possa ter filhos... (SEGURA AS LÁGRIMAS) Pra quê? Eles já devem tê-los tido por mim! Devo ter mais filhos que qualquer cara no mundo. Com mães que eu não escolhi! Crianças que nunca saberão quem é seu pai e muito menos da maneira como foram criadas! Filhos que jamais conhecerei. E sabe Deus se serão humanos ou mutações genéticas... (REVOLTADO) As minhas Emilys, Scully. As minhas Emilys...

Mulder sai da sala e vai pro quarto. Bate a porta. Scully abaixa a cabeça. Escuta os gritos dele. Fecha os olhos. Chora.


1:24 A.M.

Os dois deitados, afastados um do outro. Olhando para o teto. Silêncio.

MULDER: - ...

SCULLY: - ...

MULDER: - ...

Scully levanta-se e sai do quarto. Mulder continua distante. Scully volta com um copo de água. Pega um comprimido da cômoda e toma.

MULDER: - O que foi?

SCULLY: - Nada.

MULDER: - Está com dor?

SCULLY: - Tenho sentido dores horríveis, Mulder. O ginecologista disse que são psicológicas. Que não há nada de anormal comigo, afinal, sou uma mulher que ‘nunca teve filhos’.

MULDER: - ...

Ela deita-se. Silêncio. Vira-se de bruços, olhando pra ele.

MULDER: - ... Scully, o que você ainda faz comigo?

SCULLY: - ...

MULDER: - Não. Amor é besteira. É sentimento pra otários.

SCULLY: - Sou uma otária, Mulder.

Mulder aproxima-se dela e ajeita o edredom sobre Scully. Coloca seu braço por cima do corpo dela. Ela se aconchega nele, ainda de bruços. Ficam se olhando.

MULDER: - Entendi.

SCULLY: - ...

MULDER: - Está comigo porque temos algo em comum. Somos dois otários.

SCULLY: - ... (SORRI)

MULDER: - Dói muito?

SCULLY: - Tô quentinha agora. Dói menos.

MULDER: - ... Desculpe. Eu fiz isso com você...

SCULLY: - Eles fizeram isso comigo, não você.

Mulder beija-a no rosto. Ela fecha os olhos. Mulder ajeita os cabelos dela pra trás da orelha. Ela abre os olhos. Olham-se nos olhos, como se conversassem pelo olhar.

SCULLY: - ...

MULDER: - ...

SCULLY: - ...

MULDER: - ...

SCULLY: - Não, Mulder. Isto não tem nada a ver com você. É decisão minha.

MULDER: - Acho que decidiu isso por minha causa.

SCULLY: - Não. Você não teve nada a ver com isso.

MULDER: - ...

SCULLY: - ...

MULDER: - ...

SCULLY: - Não, Mulder, você não ficou estéril. Só vai ter mais dificuldades pra ter um filho.

MULDER: - ...

SCULLY: - Não. Porque eu não quero mais ter filhos. Eu é que não quero agora. Se a vida me tirou este direito, eu nunca deveria ter me lamentado.

MULDER: - O castigo foi meu. Eu nunca quis.

SCULLY: - ... (REVOLTADA) Mulder, não se culpe. Os culpados estão dormindo tranquilos. Nós, as vítimas, estamos aqui, com insônia. A vida é esta.

MULDER: - ...

SCULLY: - ...

MULDER: - ...

SCULLY: - Não, Mulder.

MULDER: - (SORRI) Pode mesmo saber o que eu estou pensando?

SCULLY: - Você vai me dizer que tem dúvidas sobre nosso relacionamento.

MULDER: - Scully, é que eu queria ver você feliz.

SCULLY: - Eu sou feliz.

MULDER: - Comigo? Eu sou um insensível, um idiota, um obcecado. Você tem razão. E ainda por cima, sou uma cobaia. Scully, eu não vou mais ser o mesmo homem que eu era. Eu não posso te dar filhos, eu estou ficando insano, mais do que já era, estou estragando suas noites...

SCULLY: - Você aceitou restos, Mulder. Aceitou os meus restos, aceitou a cobaia aqui, mesmo sabendo que ela não poderia nunca te dar um filho. Por que eu não aceitaria você?

MULDER: - Porque eu...

SCULLY: - Você é estranho, sempre foi. Estranho e diferente. Agora sabe que isso também é físico e não somente psicológico. E pra mim não faz diferença. Mulder é diferente e eu amo o Mulder.

Eles continuam se olhando nos olhos. Ela sorri, mais calma.

MULDER: - ...

SCULLY: - Sério?

MULDER: - Sério.

SCULLY: - Hum... Amo você também, Mulder.

Scully fecha os olhos, aconchegando-se mais nele. Ele a abraça, ternamente.

MULDER: - Vamos sobreviver, Scully. Nós vamos sobreviver... Nunca passamos por uma situação como esta. Nós dois caímos. Sei que não vai ser fácil, mas me avisa quando eu ficar insuportável. Eu saio e tomo um ar.


2:21 A.M.

Scully acorda-se com os gritos de Mulder. Senta-se na cama e olha pra ele. Mulder, dormindo, grita, revirando a cabeça de um lado para outro.

MULDER: - Não, não façam isso! Eu não quero ir! Me deixem, isso dói!!!

Scully o sacode, acordando-o.

SCULLY: - Mulder...

Ele acorda-se num sobressalto, todo molhado de suor. Assustado. Scully olha assustada pra ele. Mulder começa a chorar. Scully o abraça.

SCULLY: - Vai passar, Mulder... Ainda é cedo pra você esquecer.

MULDER: - (CHORANDO) Não vai passar. Toda a noite é isso, eu sonho que estão me levando... Fazendo aquelas coisas comigo...

Scully o embala, afagando seus cabelos.

MULDER: - (CHORANDO) Me desculpe... Acordei você de novo...

SCULLY: - Estou aqui, Mulder. Vamos superar juntos.

Ela o ajuda a deitar-se. Ele fica de olhos abertos, derrubando lágrimas. Scully o abraça com força. Ele se agarra nela, com medo. Ela afaga os cabelos dele.

SCULLY: - Dorme, Mulder. Acabou. Eles nunca mais voltarão.


3:31 A.M.

Scully acorda-se. Mulder está acordado, os olhos pesados, mas com medo de dormir. Scully levanta-se.

MULDER: - Onde vai?

SCULLY: - Vou buscar um copo de água. Quer?

MULDER: - Quero.

Scully vai pra sala. Abre uma porta do armário. Retira uma garrafa plástica. Na embalagem está escrito ‘água benta’. Vai até a cozinha. Pega um copo. Serve-o com a água que retirou da garrafa. Esconde a garrafa. Leva pro quarto. Entrega pra Mulder.

SCULLY: - Bebe isso, Mulder. Vai sentir-se melhor.

Mulder bebe a água. Scully deita-se. O observa. Mulder ajeita o travesseiro e fecha os olhos. Dorme rapidamente. Scully sorri.

SCULLY: - ... Mulder, na minha opinião o que você tem chama-se encosto. Existe alguma presença ruim que está te empurrando pra baixo. Mas você não me escuta, acha que religião é coisa pra otário. Se tivesse fé, Mulder, iria sair dessa. Acredito naquele rapaz. Acho que Richie possui mesmo um dom. Ele é o que chamamos profeta. As pessoas vêem de todos os lugares para ouvir palavras sábias e obterem curas. Se você acreditasse, Mulder, tenho certeza de que se ajudaria.


6:30 A.M.

O despertador toca. Scully acorda-se. Desliga o despertador. Senta-se na cama. Passa as mãos nos cabelos. Mulder dorme. Scully olha pra ele. Deita-se. Abraça-se nele, colocando a perna por sobre seu corpo. Observa-o dormindo. Encosta a cabeça no ombro dele, afaga seu peito. Mulder vira-se de costas pra ela, dormindo, mas a evitando. Ela o deseja e não consegue mais se conter. O abraça, beijando seu ombro e lhe fazendo carícias. Mulder acorda-se. Vira-se e olha pra ela.

MULDER: - Não, Scully.

SCULLY: - ...

Ele senta-se na cama. Põe as mãos no rosto. Ela percebe a besteira que fez.

MULDER: - Eu não consigo.

SCULLY: - ... Mulder...

MULDER: - Sabe que eu te desejo. Mas eu não posso tocar em você. Me desculpe, mas eu não posso.

SCULLY: - ...

MULDER: - Eu... Eu tenho medo!

SCULLY: - Mulder...

Mulder levanta-se, desatinado. Abre a janela e olha pra fora. Scully senta-se sobre a cama. Suspira.

SCULLY: - ...

MULDER: - Eu sou o culpado por isto. E não posso me perdoar pelo que fiz a você.

SCULLY: - Mulder...

MULDER: - ... (CULPADO) Olha o que eu causei a você!

SCULLY: - Você não fez nada, Mulder. Sabe como aquilo aconteceu.

MULDER: - (PARANOICO) E se eles tentarem de novo, de outra maneira? Se você ficar grávida e tirarem nosso filho como já fizeram? Sabe se não querem fazer isso de novo?

SCULLY: - ... Mulder, podemos tomar precauções, se isso te deixa mais calmo.

Mulder olha pra ela. Olhos cheios de lágrimas.

MULDER: - Não entende? Eu não posso, Scully! Eu fui o culpado por você ter um filho que não precisava ter. Olha o que eu fiz com você!

Mulder pega suas roupas, atordoado. Scully olha pra ele.

SCULLY: - Onde vai?

MULDER: - Scully, vou embora. Me esqueça. Por favor, me esqueça.

SCULLY: - ...

MULDER: - Ache um homem que possa ser legal pra você, que seja normal, sem traumas, pesadelos e neuroses. Eu... Eu não posso dar a vida que você merece. Se eu ficar com você, será isto sempre e eu não quero te fazer sofrer! Scully, eu estou enlouquecendo e vou te deixar louca! Eu tenho medo de ficar perto de você! Tenho medo de que aquilo tudo aconteça de novo, a minha cabeça dói eu... Eu acho que não posso mais viver assim!

Scully levanta-se. Tira as roupas das mãos dele. O faz sentar-se na cama. Ajoelha-se na frente dele e olha em seus olhos, segurando o rosto dele entre as mãos.

SCULLY: - Superar juntos. Não se esqueça.

Mulder olha triste pra ela.

SCULLY: - Nunca prometemos um ao outro que seria fácil. Na verdade, há mais obstáculos do que imaginávamos. Mas o nosso amor é mais forte.

MULDER: - Scully, você não entende. Não entende a culpa que carrego por existir. Não entende que te amo tanto que prefiro te ver com outro, porque eu não sou o que você merece. Eu só te trago desgraça, eu sou estúpido com você, eu sou cego, egoísta...

SCULLY: - (SORRI) E eu te amo, estúpido, cego e egoísta.

MULDER: - Scully... Por que ficar sofrendo com alguém se você pode ter uma vida feliz?

SCULLY: - Mulder, você me ama?

MULDER: - Claro que te amo.

SCULLY: - Então, imagine-se no meu lugar. Você sabe o que estou falando. Você passou meses sofrendo ao meu lado, sem poder me dizer o que estava se armando. Agora me responde: por que não me deixou e foi ser feliz? Hein? Se tivesse feito isso, hoje não estaria desse jeito. Você fez porque me ama. Eu faço isso porque te amo também.

Mulder sorri. Abraça-a.

SCULLY: - Mulder, amar não é só rir e viver feliz. Agora é que estamos à prova. É nessas horas que a gente descobre o quanto pode amar uma pessoa.

MULDER: - Descobri o quanto você me ama. Só muito amor pra ficar do lado de um cara neurótico e traumatizado como eu.

SCULLY: - Pois eu descobri o quanto você me amava quando vi as coisas que fez pra me proteger.

MULDER: - ...

SCULLY: - Mulder, temos uma vida pela frente. Esta é uma fase e vai passar. Como as outras passaram.

Ela beija-o na testa. Levanta-se. Puxa o edredom.

SCULLY: - Vem, volta pra cama. Ainda precisa descansar.

Ele deita-se. Ela o cobre. Deita-se ao lado dele e o abraça. Ele se enfia embaixo do edredom e aninha a cabeça entre os seios dela. Fecha os olhos. Scully afaga seus cabelos.

SCULLY: - Dorme, Mulder. Não é justo que estejamos aqui sofrendo, enquanto eles comemoram. Eu sou sua força e você é minha coragem. Juntos nós vamos conseguir a vitória que queremos.

MULDER: - ... Scully, precisamos ir trabalhar.

SCULLY: - Não precisamos não. Dorme. Eu vou ficar aqui com você. Ordens médicas. Dane-se o FBI!

Ele sorri. Ainda de olhos fechados.

MULDER: - Eu te amo, baixinha.

SCULLY: - Eu te amo também, grandão.


BLOCO 3:

Apartamento de Mulder – 1:33 P.M.

Scully abre a porta, segurando um espanador de pó, usando um avental. Fica vermelha de vergonha. Mulder sorri, com as mãos nas costas. Ela olha pra ele.

SCULLY: - (ENCABULADA) Mulder, eu... Me desculpe invadir seu apartamento assim, mas... Eu dei uma ajeitadinha por aqui... E comprei peixinhos coloridos. Deveria ter comprado piranhas, pra você nunca mais tocar naquele aquário.

Ele fica sério. Embaraçado.

SCULLY: - (PREOCUPADA) O que foi? ... Não gostou da minha atitude? ... E-eu sei que invadi seu espaço e...

MULDER: - (NERVOSO) Eu... Há algum tempo atrás você me disse que se nunca tivéssemos um filho, você se contentaria com... Tenho um presente pra você. Não substitui nosso filho. Nunca substituiria. Mas vai fazer você relaxar um pouco.

Mulder entra, segurando uma caixa de papel nas costas. Scully fica curiosa. Ele coloca a caixa sobre a mesa de centro.

SCULLY: - Mulder, o que é isso?

MULDER: - (SORRI) Pra você. Um presentinho. Se não quiser, posso devolver.

Ela curiosa, tenta espiar pra dentro da caixa. Mulder põe-se na frente dela.

SCULLY: - Mulder!

MULDER: - Deixa de ser curiosa.

SCULLY: - Mulder!!!

Mulder abre a caixa. Tira um cachorrinho cocker, marronzinho, ainda filhotinho. Scully brilha os olhos e como uma criança feliz e surpresa, arranca-o dos braços de Mulder, segurando o cachorrinho com firmeza em seus braços.

MULDER: - É seu.

SCULLY: - (FAZENDO BEIÇO DE QUEM VAI CHORAR)... Ô, Mulder...

MULDER: - (DEBOCHADO) Ih, não vai chorar! E vai me prometer que ensinará ele a dormir na sala, fora da nossa cama. E se eu encontrar pulgas pelo sofá, vai ter confusão. E o mantenha longe de crocodilos assassinos.

SCULLY: - Hum, que lindinho... É menininho! Qual o nome dele?

MULDER: - Não tem nome. Você escolhe.

SCULLY: - Ele tem cara de...

MULDER: - Ah, por favor, nada de nomes impossíveis de se soletrar!

SCULLY: - ... Que tal Cookie? Ele é um cocker, agora vai ser o Cookie!!!

MULDER: - Até que enfim arranjou um nome de cachorro pra colocar num cachorro.

SCULLY: - Ai, eu vou levá-lo pra casa, comprar comidinha pra ele, roupinhas...

MULDER: - Deus! Tenho a nítida sensação de que eu serei o cachorro da casa.

Scully coloca o cachorrinho contra o peito. Ele começa a lamber seu rosto.

SCULLY: - Hum, coisinha fofa da mamãe...

MULDER: - Se ele me chamar de pai, tá ferrado. Eu o afogo no aquário.

SCULLY: - Mulder, ele é lindinho! Como pode falar assim de um bichinho tão engraçadinho?

MULDER: - Um conselho: Mantenha as orelhas dele limpas ou não vai suportar o cheiro do ‘bichinho engraçadinho’.

Scully embala o cachorrinho. Mulder olha pra ela, ternamente.

MULDER: - Na verdade eu ia te dar um Pittbull. Mas achei que era uma ideia horrível! Você já tem um que mora em San Diego e o chama por irmão. Pensei em comprar um Fila, mas fiquei imaginando que ele poderia se zangar e eu teria de tirá-la de dentro da garganta dele todas as vezes que isso acontecesse...

SCULLY: - (RINDO) Mulder!!!

MULDER: - Então... Vi esse daí. Olhou pra mim, olhei pra ele, abanou o toquinho de rabo que tem e... Sabe quando um bichinho olha pra você e diz com os olhos: me leva com você? ... Até eu me apaixonei.

SCULLY: - Ele tem carinha de pidão mesmo.

MULDER: - Mas vai tirar essa fisionomia da cara rapidinho. Não quero concorrência.

SCULLY: - Mulder, eu te amo! Essa foi uma das coisas mais gentis que você já fez...

Ela abraça-se nele, derrubando algumas lágrimas de felicidade. Beija-o no rosto.


Residência dos San Martin - 3:42 P.M.

Scully desce do carro. Caminha até a casa. Bate à porta. O velhinho a atende.

VELHO: - Olá, agente Scully.

SCULLY: - (SORRI) Olá... Preciso falar com Richie.

VELHO: - Entre.

Scully entra. O velhinho fecha a porta.

VELHO: - Seu parceiro ainda está doente?

SCULLY: - Não sei mais o que fazer. Ele está se acabando e eu junto com ele.

Richie entra na sala. Segura um vidro na mão. Entrega para Scully.

RICHIE: - Isto é pra você. Faça uma infusão e beba frio antes de deitar, durante uma semana. (SORRI) Antes que me questione, isto é apenas um extrato de folhas de amoreira.

Ela sorri, pegando o vidro.

RICHIE: - Qual sua fé, agente Scully?

SCULLY: - Minha religião? Sou católica.

RICHIE: - Sua fé pode salvar seu parceiro. Porque é sua fé. E o que vem de você ele aceitará com amor.

SCULLY: - ...

RICHIE: - Entende o que eu digo?

Ela sorri.

SCULLY: - Obrigado, Richie.

RICHIE: - ... Não vai mais investigar minhas atividades?

SCULLY: - Não vim pra fazer isso. Você mesmo disse. E fé não pode ser provada. Ou se tem, ou não se tem.

Richie sorri. Scully caminha até a porta. O velho abre a porta pra ela.


6:27 P.M.

Scully dirige o carro, séria. Mulder olha pra ela.

MULDER: - Pra onde está me levando?

SCULLY: - Pra algum lugar.

MULDER: - ...

SCULLY: - ‘Método Frohike de persuasão.’

MULDER: - ...

SCULLY: - Onde você possa encontrar ajuda.

MULDER: - (IRRITADO) Ajuda? Eu não quero ir para um consultório ouvir ladainha de psicólogo!!!!

SCULLY: - Não vou te levar ao psicólogo. Eu prometi que não faria isso.

MULDER: - Mentirosa! Eu disse que não queria ir, eu não preciso de psicólogo, eu sou um!!!

Ela olha pra ele.

SCULLY: - Realmente, Mulder, você faz jus a sua profissão.

Scully pára o carro. Mulder olha pela janela. Incrédulo.

MULDER: - (PÂNICO) O que foi? Diz que o pneu furou, diz.

SCULLY: - Ficamos aqui.

MULDER: - (RI) Tá fazendo piada comigo, né?

SCULLY: - (SÉRIA) Desce, Mulder.

MULDER: - Scully, mas isso é uma maldita igreja!

SCULLY: - Desce do carro. Se não quer ir à igreja, vamos pra um centro espírita, uma terreira de umbanda, uma igreja pentecostal, um templo budista, mas em algum lugar desses você vai entrar.

Scully desce. Mulder desce. Ela o puxa pela mão, entrando na Igreja.

MULDER: - Eu não acredito! Não quero ser exorcizado, falar com padres... Eu sou judeu!

SCULLY: - Não, você não é nada. Você é um cético! O pior cético que eu já conheci.

MULDER: - Eu???

SCULLY: - Sim, você. Agora fecha o bico. Estamos numa igreja. E na casa de Deus há lugar pra todos, inclusive judeus céticos como você.

Mulder fica incrédulo. Scully o puxa até a frente do altar. Faz o sinal da cruz e ajoelha-se. Mulder fica olhando pra ela, balançando a cabeça. Scully levanta-se. Olha para o relógio.

SCULLY: - São seis e meia. Às sete e meia eu volto.

MULDER: - (PÂNICO) Como assim?

SCULLY: - Vai ficar aí sentado, Mulder, e conversando com Deus. Existem coisas que você só pode falar com Ele. E existem respostas que só Ele pode te dar. Porque Deus nunca mente. Acredito que você esteja precisando conversar sobre coisas que te perturbam. Desabafa, põe pra fora, Mulder. Tem horas que nem a sua amiga aqui pode dar as respostas que você precisa.

MULDER: - Eu tenho mais pra fazer do que ficar sentado aqui conversando com Deus! Nossas opiniões são divergentes!

SCULLY: - Uma hora.

MULDER: - Mas...

SCULLY: - Uma hora.

MULDER: - Se tiver missa eu te mato!

SCULLY: - Não tem missa hoje.

MULDER: - Scully, eu não sei conversar com Deus!

SCULLY: - Aprenda.

Scully dá as costas e vai saindo. Mulder a acompanha com os olhos. Olha pro altar. Olha pra porta. Senta-se num banco. Olha pra trás e não vê Scully. Levanta-se.

MULDER: - Eu não vou ficar aqui!

Mulder caminha até a porta. Pára. Fecha os olhos. Desiste.


BLOCO 4:

6:46 P.M.

Mulder zanzando pela igreja. Observa os vitrais da crucificação, um por um.

MULDER: - Não vou apostar como isso deve ter doído...

Mulder continua caminhando. Vê um anexo à igreja.

MULDER: - Hum, capela? Capelas são coisas artísticas. Sempre tem obras de artes...

Mulder entra na capela. Há alguns bancos e um altar. Há velas acesas e uma luz tênue que penetra pelos vitrais. Sobre o altar, uma imagem de Cristo, com o manto caído pelos braços, os braços estendidos, mostrando as chagas em suas mãos, em seu peito e a coroa de espinhos que sangra sua testa. Os olhos da imagem emitem felicidade, compaixão, perdão, paz e esperança, apesar da representação da dor em seu corpo. Sob os pés de Cristo, uma cobra, representando sua vitória contra o inimigo.

Mulder senta-se. Há vários folders sobre o banco. Mulder pega um deles.

MULDER: - (SORRI) As bem-aventuranças... Sempre foi minha passagem preferida... Lembro que eu lia muito isso quando era criança, adolescente... Sempre que me sentia só e triste... Me sentia melhor, sabe? Nem sei porquê, mas me trazia forças pra sobreviver, acreditar na esperança... (SUSPIRA) Depois a gente cresce, perde a fé nas pessoas, no mundo... O coração endurece... Se percebe a maldade a cada dia mais, as pessoas se aproximam de você com segundas intenções... Sempre prontas a puxarem seu tapete, a falar de você pelas costas, te traírem...

Mulder guarda o folder no bolso. Coloca os cotovelos sobre as pernas e apoia a cabeça nas mãos, distribuindo olhares pelo altar.

MULDER: - ... Você sabe do que estou falando. Sabe o que é ser traído, entregue aos lobos, sofrer e se questionar do porquê disso tudo. Não pensou em desistir? Em ter uma vida comum como todos os homens? ... Não, vidas comuns não são para sujeitos como você ou eu. Somos perseverantes e teimosos e acreditamos que podemos salvar o mundo. Transformá-lo num lugar decente.

Mulder suspira. Nem percebe que está conversando com Deus.

MULDER: - Seu pai também atirou você no mundo. Te entregou pra eles. Sem dizer como você deveria sobreviver... Quando você descobriu a verdade, como reagiu ao saber que era filho de Deus, que era diferente, que tinha uma missão? ... Deve ter caído também. A responsabilidade assusta...

Mulder olha pra um quadro com a Virgem Maria segurando Cristo morto em seus braços.

MULDER: - Ela sofreu também. Já sabia o destino do filho e que não poderia mudá-lo... Não há dor pior no mundo do que a dor de perder um filho. Eu agora sei o que é isso e posso respeitar. Me questiono se a Scully não segura a barra por aceitar isso também. Eu tenho medo de aceitar, embora acredite que meu filho tenha uma missão que nem eu e nem Scully poderemos intervir... Sabe, eu... Eu tenho medo de tentar superar isso. Tenho medo de que se desistir de buscá-lo, possa estar sendo negligente com ele. Mas ao mesmo tempo eu sei que nunca vou encontrá-lo, que não pode ser assim... Tá, eu sei que posso me dar ao direito de sofrer e de buscá-lo, desde que eu não me acabe com isso...

Mulder olha pra imagem de Cristo.

MULDER: - As chagas nunca cicatrizam. Eu... (COMEÇA A DERRUBAR LÁGRIMAS) Eu tenho medo das coisas que estou sentindo... É, eu sei... Me culpo por sentir o que sinto. Parece que devo algo a ele, mesmo sabendo que é um cão miserável... Não poderia falar isso pra ninguém. Iam jogar pedras em mim... Dizer que estou louco... Mas sabe, quando eu senti o calor dele me segurando em seus braços, naquele beco, me salvando da morte... Eu... (CHORA) eu tive vontade de abraçá-lo contra meu peito e chamá-lo de meu pai... Quando eu vi a verdade de tudo, eu pude perdoá-lo. E quando o perdoei, pensei em tudo que aconteceu e fiquei com vergonha desse perdão. Mas não posso evitá-lo, ele brota puro de dentro da minha alma.

Mulder abaixa a cabeça.

MULDER: - (CHORANDO) De dentro do meu coração... E-eu... Eu nunca poderia olhar pra ele e dizer: seu asqueroso, mentiroso, doentio, você matou tanta gente, você me destruiu, destruiu todos que eu amava, tirou meu filho de mim, mesmo que fosse por uma boa intenção, você não tinha esse direito... Mas mesmo assim... Você é meu pai e eu amo você... Eu bem queria abraçá-lo e dizer que te perdoo, que eu te amo... Queria te salvar, pai. Eu queria...

Corta para a entrada da capela. Scully, parada, com as mãos sobre os lábios, derrubando lágrimas. Ela se afasta. Encosta-se na parede, chorando calada.

Corta para Mulder. Ele seca as lágrimas. Sorri.

MULDER: - O que estou fazendo? Conversando com você?

Mulder levanta-se. Aproxima-se do altar.

MULDER: - Obrigado por me escutar. Tem coisas que a gente tem vergonha de admitir até na frente do espelho, com medo de ouvir uma crítica... É, eu sei. Perdoar... Isso não é culpa. Tanto eu, a Scully, meu pai... Todos somos vítimas... A podridão vem há milênios e subjuga a quem precisa...

Mulder dá as costas. Pára. Volta-se para a imagem.

MULDER: - ... Me desculpa se sou um cara sem fé. Não prometo que voltarei aqui tão cedo. Mas eu voltarei... Só peço um favor pra você: Cuida do meu filho. Que nunca lhe falte nada, nem amor, nem carinho, nem uma família que faça por ele o que talvez eu não pudesse fazer.

Mulder abaixa a cabeça.

MULDER: - Não tem nada a me dizer?... Nenhuma resposta? ... Não, é claro que não.

Mulder sai da capela. Scully está na porta da igreja, de costas, olhando para a rua. Mulder passa na frente do altar. Da sacristia sai um frei gordo, daqueles capuchinhos, com barba, careca apenas no topo da cabeça, um capuz caído por sobre as costas, usando sandálias. Segura um livro grosso nas mãos, intitulado: A Lista de Schindler - Implicações futuras do neonazismo no mundo.

PADRE: - Ah, desculpe! Não sabia que havia alguém aqui.

Mulder olha pro livro que o padre segura. O padre percebe.

PADRE: - Muito interessante, estou terminando de lê-lo. (COCHICHA) Mas não comente isso por aí ou terei de visitar o Papa pessoalmente. E não será pra tomar café.

MULDER: - (RINDO) E sobre o quê o livro fala?

PADRE: - São profecias de um místico oriental. Diz que o mundo está fadado a repetir o que Hitler fez com os judeus na Alemanha, matando todos que não sejam da nova raça. Os pobres serão os primeiros, com certeza. Haverá um grande período de tribulação e peste. Mas que nascerá uma criança, talvez um menino, talvez uma menina, que será a esperança do mundo. Será um novo Schindler, um grande profeta, que salvará seu povo da dizimação. Mesmo pertencendo à nova raça, ela vai mostrar com amor que todos os povos devem se unir porque todos somos iguais perante Deus. Claro que vão persegui-la. Mas algumas pessoas têm seus destinos traçados. Lembre-se: O bem é tão forte que usa o mal a seu favor.

MULDER: - Interessante. E o que mais fala sobre essa criança?

PADRE: - Diz que ela trocará riquezas por vidas. Que guiará o povo e mostrará o caminho. Será uma grande governante e que mesmo assim, não haverá diferença entre ela ou um mendigo. Tem o poder em suas mãos herdado de sua linhagem poderosa... (COCHICHA/ OLHANDO PRA TODOS OS LADOS) E não espalhe, por aí, mas parece que será descendente de judeus.

Mulder sorri. Abaixa a cabeça.

PADRE: - Quer se confessar?

MULDER: - (SORRI) Já me confessei, padre.

PADRE: - E encontrou o perdão que procurava?

MULDER: - Encontrei a esperança. E perdoei a mim mesmo. E ao meu inimigo.

O padre sorri. Tira uma medalha do bolso.

PADRE: - Isto é pra você. Pode ser a lembrança do perdão e da esperança que encontrou.

Mulder pega a medalha. O padre afasta-se. Mulder olha pra medalha em sua mão. Há um desenho de Moisés com os braços abertos, abrindo as águas do mar vermelho e guiando o povo para a terra prometida. Mulder fecha os olhos. Sorri. Olha pro altar, pra estátua de Jesus crucificado.

MULDER: - Obrigado pela resposta.

Mulder caminha até a porta, guardando a medalha no bolso. Pára ao lado de Scully. Ela seca as lágrimas. Mulder coloca o braço sobre ela.

MULDER: - Então, vai ou não fazer o meu mousse de maracujá? Ou eu vou ter de voltar lá pra dentro e rezar por isso?

Ela sorri. Os dois saem abraçados um no outro.


Apartamento de Mulder – 9:26 P.M.

Scully parada na porta. Mulder atende, vestido com um avental.

MULDER: - Como vai o Cookie?

SCULLY: - Em fase de adaptação.

MULDER: - Chegou bem na hora. O jantar está pronto, quentinho, a mesa arrumada... Entregou o relatório do caso?

SCULLY: - Entreguei.

Ela entra séria. Os dois vão pra cozinha. Ela olha pra mesa decorada e arregala os olhos.

SCULLY: - (INCRÉDULA) Velas?

MULDER: - ...

SCULLY: - (INCRÉDULA) Rosas?

MULDER: - ...

SCULLY: - (INCRÉDULA) Taças? Mulder, você colocou taças na mesa?

Ele olha pra ela, encabulado. Scully sorri.

SCULLY: - Hum, tão bonitinho! Ele cozinhou pra mim!

Mulder abaixa a cabeça.

MULDER: - (MEIGO) Só estou tentando te agradar um pouquinho, te fazer feliz... Me redimir das coisas que tenho feito, dos problemas que estou causando...

SCULLY: - Mulder, esqueça disso tudo... Hum, e o que fez?

MULDER: - As batatas que você gosta, filé grelhado...

Mulder puxa a cadeira. Ela senta-se. Ele tira o avental. Senta-se de frente pra ela. Abre o vinho. Scully fica séria de novo. Tensa. Mulder serve o vinho.

MULDER: - Experimente.

Ela bebe um gole e sorri.

MULDER: - Sou uma inutilidade, não sei escolher vinhos... Coloquei os talheres certos? Puxa, esqueci dos guardanapos...

SCULLY: - (SÉRIA) Mulder...

MULDER: - ...

SCULLY: - Mulder, pensei mil vezes antes de vir até aqui.

MULDER: - Não gostou do jantar?

SCULLY: - Não é isso.

MULDER: - ...

SCULLY: - Mulder, eu...

MULDER: - ... (COM UM PRESSENTIMENTO QUE O DEIXA SEM RESPIRAR)

SCULLY: - Eu preciso falar algo pra você e não sei como vai reagir.

Mulder fecha os olhos angustiado.

MULDER: - Fala, Scully. Fala de uma vez só, um só golpe certeiro. Eu sabia que era demais pra você. Nenhuma mulher em sã consciência aguentaria viver numa situação dessas... E-eu...

SCULLY: - ... Foi uma péssima ideia ter vindo aqui...

MULDER: - Fala, Scully. Eu suporto.

SCULLY: - ... Não sei, Mulder. Eu não quero que olhe pra mim e faça uma cena terrível.

MULDER: - (ANGUSTIADO, IMAGINANDO O FINAL DE TUDO ENTRE ELES)

SCULLY: - Não sei como vai interpretar. Me desculpe, eu jurei à você que isto não era importante, que concordava com você, mas... Mulder, eu me sinto só. A cada dia que passa, eu me sinto mais só.

MULDER: - ... (TRISTE)

SCULLY: - Sei que trabalhamos juntos, que ficamos juntos, mas... Mulder, isso... Não me basta mais.

MULDER: - ???

SCULLY: - Eu sempre fui uma pessoa de dizer as coisas sem rodeios, mas, dessa vez, eu confesso: tenho medo da sua reação, porque você nunca quis algo como isso e...

Mulder coloca os cotovelos sobre a mesa e apoia a cabeça nas mãos. Olha pra ela, arregalando os olhos, pedindo resposta. Scully está nervosa. Ele mais calmo.

SCULLY: - O combinado entre a gente era cada um no seu espaço, mas... Mulder, eu... Eu quero viver com você.

Mulder continua olhando pra ela. Ela abaixa a cabeça, com medo.

SCULLY: - Pronto. Eu disse.

MULDER: - ...

SCULLY: - (NERVOSA, FALANDO PELOS COTOVELOS) Tem o direito de resposta, Mulder. Eu vou entender. Sei que quer seu espaço...

MULDER: - Scully...

SCULLY: - Sei que você prefere essa distância...

MULDER: - Scully...

Ela olha pra ele. Mulder lhe sorri.

MULDER: - Scully, há muitas maneiras de se ter espaço. E elas podem ser dentro do mesmo espaço físico.

SCULLY: - ... (SORRI ENCABULADA)

MULDER: - Eu vou pra lá ou você vem pra cá? Ah, que pergunta a minha! Você mora numa zona nobre, num apartamento bonito, não vai querer viver num pulgueiro...

SCULLY: - Eu quero.

MULDER: - ???

SCULLY: - Eu quero... (FAZ BEIÇO PRA CHORAR) Tudo o que eu mais quero é viver nesse pulgueiro, com farelos pelo sofá e fitas pornôs pelos cantos. Contanto que eu tenha você do meu lado, todo o dia, toda a hora...

Mulder levanta-se. Ajoelha-se ao lado dela. Ela se abraça nele.

MULDER: - (SÉRIO) Pensa, tá? Posso pegar minhas coisas e ir morar com você. Não me importo.

Mulder a beija no rosto. Ela continua grudada nele. Ele nela.

SCULLY: - Não, eu venho pra cá.

MULDER: - Scully, vou me desfazer dos meus móveis e você traz os seus.

SCULLY: - Não, eu quero deixar tudo lá. Quero vir apenas com a minha roupa.

Mulder olha pra ela.

MULDER: - (TENTANDO RELAXÁ-LA) E aquelas ‘coisinhas básicas’?

SCULLY: - (SORRI)

MULDER: - Quer ajuda pra encaixotar suas coisas?

SCULLY: - Não... Pra dizer a verdade, elas já estão encaixotadas.

Mulder olha pra ela, fisionomia de quem diz ‘espertinha’...

SCULLY: - (SORRINDO) Ops...

MULDER: - E se eu não topasse?

SCULLY: - ... Colocaria tudo de volta no lugar.

Os dois trocam um beijo terno e suave. Abraçam-se.

MULDER: - Vem, Scully. Preenche o espaço vazio da minha vida.

SCULLY: - ... Mulder, eu só não tenho onde colocar minhas folhagens...

MULDER: - Se não me engano, tem um espaço lá fora. Não lembro se é uma varanda, uma lavanderia... Há 10 anos não abro aquela porta que existe atrás da geladeira...

Ela sorri.


10:57 P.M.

Mulder sentado na cama, com a calça do pijama, recostado no travesseiro, lendo um livro. Scully sai do banheiro, abotoando os botões superiores do casaco do pijama dele, que está vestindo. Senta-se na cama, ao lado dele, esticando as pernas.

SCULLY: - O que está lendo?

MULDER: - Comprei hoje. Dica de um padre. Meio parecido com o Frei Tuck...

SCULLY: - ...

Scully está séria. Fica distante. Mulder tira os olhos do livro e olha pra ela. Ela não percebe.

MULDER: - Scully, tem alguma coisa tem incomodando?

SCULLY: - ...

MULDER: - Quer falar sobre isto?

SCULLY: - ...

MULDER: - Vem aqui, vem.

Mulder larga o livro na cômoda. Scully senta-se entre as pernas dele e recosta a cabeça em seu ombro. Mulder a envolve nos braços. Coloca o cabelo dela pra trás da orelha, olhando ternamente pra ela. Sua perna por sobre a dela.

MULDER: - Mudou sua decisão? Saiba que...

SCULLY: - Não, Mulder. Estou pensando em tudo o que aconteceu. Não parece que começamos a mesma coisa?

MULDER: - Como assim?

SCULLY: - Alguma vez você já sentiu que algo finalizou? Que deveria começar tudo novamente?

MULDER: - Uma nova etapa? Sente isso?

SCULLY: - Sinto. Sinto que devo perdoar e tentar juntar meus cacos. Que devo enterrar o passado, mesmo sabendo que os fantasmas voltarão em algum momento.

MULDER: - Quer começar tudo de novo?

SCULLY: - Já comecei, Mulder. Acho que começamos.

MULDER: - No trabalho, você quer dizer.

Ela olha pra ele. Ele brinca com os dedos dela entre os seus.

MULDER: - Começamos no trabalho, mas quanto a nós dois... eu sei que tenho sido difícil. Que deixei você de lado, que fiquei cego por uma busca...

SCULLY: - ...

MULDER: - Sei que amo nosso filho, mas não vou deixar que isto vire uma obsessão cega... Que estrague nossa vida. Eu aprendi que se correr muito atrás, eu nunca conseguirei nada. Porque nada depende de mim, de você... A vida já me mostrou isso. Vou tentar acreditar no destino. Os sinais nos foram dados, pra que lutar contra o que não podemos compreender? E talvez, ele esteja melhor assim, mais seguro. E talvez, em breve, tudo se acalmará e ele voltará pra nós. Afinal, se aquele sujeito matou por mim, imagina o que ele não faria pelo meu filho?

SCULLY: - ... Acho que ele cumpre seu papel Mulder. Que ele faz as coisas más para que você não as faça. Pra que você permaneça imaculado em sua justiça.

MULDER: - ...

SCULLY: - ...

MULDER: - Hoje eu encontrei o que precisava. A paz que eu queria ter. E estou me sentindo muito leve. A tua fé me salvou, amiga. Novamente, você me salva. Quando eu achava que nunca mais me salvaria. Acho que o mínimo que posso fazer é tomar você nos meus braços, partir do zero e te amar a cada dia mais. Começar de novo. Não no trabalho, mas na nossa vida.

Ela fecha os olhos. Ele afaga seu braço, com toques suaves de seus dedos.

MULDER: - Começar de novo, Scully. Quantas vezes a gente tem essa oportunidade?

SCULLY: - Começar certo, Mulder.

Mulder coloca a mão no rosto dela. Scully abre os olhos. Ele aproxima seus lábios dos dela. Trocam um beijo longo e suave. Mulder desliza sua mão pelo peito dela, abrindo os botões do pijama delicadamente e bem devagar. Eles afastam os lábios. Mulder termina de abrir os botões e acaricia o corpo dela suavemente com a ponta dos dedos. Ela fecha os olhos.

SCULLY: - ... Gosto disso.

MULDER: - (SORRI) ...

SCULLY: - ... Gosto da forma como você me trata. Como desperta em mim coisas que eu nunca havia sentido. Com ninguém.

Ele continua a acariciá-la. Ela vai relaxando mais o corpo.

MULDER: - É a maneira que tenho de te adorar. Isto é uma devoção.

SCULLY: - ... Você faz isso com tanto carinho...

MULDER: - Porque eu tenho carinho por você. Porque eu não sou um desses homens que você conheceu. Eu te quero há muito tempo, Scully. Eu esperei anos pra lhe dizer isso. E quando disse, ainda assim respeitei as tuas dúvidas... E tive medo. Mas eu nunca imaginaria que você viria até aqui naquela noite, pra colocar o gato e o peixe pra rua...

SCULLY: - (SORRI)

MULDER: - Tive medo de que não viesse. Vi a sua culpa, as coisas que tentou fazer pra me deixar mais calmo. Vi medo, desejo e amor em seus olhos... O telefone que tocou...

Ela abre os olhos, corada.

SCULLY: - Mulder, não me lembra disso. Que vergonha!

MULDER: - (SORRI) Só nunca disse uma coisa.

SCULLY: - (NERVOSA) Que coisa? Mulder, eu te disse naquela noite que não queria que pensasse que eu era uma mulher que fazia essas coisas no primeiro encontro e... o que você não disse?

MULDER: - (SORRI) Que eu percebi que você não era mulher de ‘fazer aquelas coisas num primeiro encontro’...

Ela encosta o rosto no peito dele, dando uma risada de menina pega no flagra.

MULDER: - Nem no primeiro e nem em nenhum.

SCULLY: - (CORADA)

MULDER: - (SORRI)

SCULLY: - ...

MULDER: - Quando te dei aquele presente, talvez tenha sido por um bom motivo. Ele ainda está lá, Scully. Um dia nós vamos superar.

SCULLY: - ...

Ele continua a acariciando. Ela de olhos fechados, completamente relaxada, envolvida no momento.

MULDER: - Desde a primeira vez, eu sabia que isso sempre seria mágico. Seria terno. E eu gosto de magia e de ternura.

SCULLY: - ...

MULDER: - Gosto de ficar te acariciando, sem pressa alguma... De tornar isto algo mais que prazer físico. Mas prazer espiritual.

SCULLY: - ... (SUSPIRA DE FELICIDADE, ENVOLTA EM MAGIA)

MULDER: - Começaremos uma vida nova. Afinal, estamos morando juntos... Quer recomeçar como se isto fosse a primeira vez?... Embora isto sempre será como a primeira vez... Porque a magia continua.

Ela abre os olhos. Ele segura o queixo dela e a aproxima delicadamente de seus lábios.

MULDER: - Eu te amo, Scully. E se tenho você, significa que eu não sou uma pessoa má, porque ter seu amor, é dádiva divina.

Os dois trocam um longo e suave beijo, enquanto ele a deita na cama e deixa seu corpo cair sobre o dela.

Fade out.


5:23 A.M.

Mulder, em pé, vestido, observa Scully dormindo na cama, nua, entre os lençóis. Mulder pega a mala do chão. Olha pra ela.

MULDER: - Não poderia entender, Scully. Mas eu preciso fazer isto.

Mulder sai do apartamento, fechando a porta silenciosamente.


Rua 46 Este – Nova Iorque - 10:23 P.M.

Os homens do sindicato saem. Krycek e o Canceroso discutem. Krycek puxa a arma.

KRYCEK: - Acabou pra você. Sua farsa terminou, desgraçado. Você roubou a criança!

CANCEROSO: - ...

KRYCEK: - Você tem vacina. Pois eu a quero.

CANCEROSO: - E o que faria com ela?

KRYCEK: - O que faria é problema meu.

CANCEROSO: - Você é muito petulante, Alex Krycek. Muito petulante mesmo.

KRYCEK: - Vou encontrar essa criança e Deus tenha piedade dela.

O Canceroso acende um cigarro. Tira uma ampola do bolso e entrega.

CANCEROSO: - Aqui está a vacina. Já estamos fabricando.

KRYCEK: - Ótimo. Por que esta é pra mim.

CANCEROSO: - Quer salvar sua pele, não é mesmo?

KRYCEK: - Acabou, meu caro. Acabou pra você. Mas não para os seus. Porque eu ainda vou achar o seu maldito neto. Não vou correr o risco de ficar sem uma matriz.

Krycek aponta a arma para o Canceroso. O Canceroso fecha os olhos. A porta abre-se num supetão. Os dois viram-se. Mulder entra com a arma em punho.

MULDER: - (GRITA) Afaste-se, Krycek. Isso é assunto de família!

Krycek olha pra Mulder, incrédulo. O Canceroso também. Nervoso, traga o cigarro.

CANCEROSO: - Já apontou isso pra mim tantas vezes que nem posso contar. Acha que atiraria?

Mulder, sem titubear, dispara duas vezes, atingindo o Canceroso no peito. O Canceroso olha assustado pra ele e cai no chão. O peito sangrando. Krycek arregala os olhos, incrédulo. Mulder olha pro Canceroso.

MULDER: - Isto é pela minha mulher e pelo meu filho. Acabou a brincadeira, desgraçado.

O Canceroso fecha os olhos. Mulder agacha-se. Toma o pulso dele. Levanta-se. Numa fisionomia fria, olha pra Krycek.

MULDER: - Está morto.

KRYCEK: - ... (INCRÉDULO)

MULDER: - Saia daqui. Em 10 minutos terá agentes do FBI revirando esse lugar.

KRYCEK: - Por que fez isso?

MULDER: - Meu problema agora não é com você. Acertaremos algumas pendências depois. Agora cai fora. Antes que eu mude de ideia.

Krycek sai rapidamente da sala, guardando a arma. Mulder caminha até a porta e a tranca. Olha pro chão.

MULDER: - ... Tem uma ambulância parada há uma quadra daqui. Vou deixar você onde me pediu. Nunca mais apareça na minha frente. Se eu vir sua cara nojenta de novo, eu juro que da próxima vez, as balas serão de verdade.

O Canceroso levanta-se. Ajeita a roupa, suja de sangue artificial.

MULDER: - Estamos quites.

CANCEROSO: - Se tivesse ficado do meu lado antes, teria poupado muitas desgraças.

MULDER: - Seu método de justiça não é o meu. Não sou você. Agora saia daqui, antes que eu me arrependa do que fiz.

CANCEROSO: - ...

MULDER: - Skinner tem um relatório sobre sua morte pronto na mesa dele. E não me mande notícia.

CANCEROSO: - ...

O Canceroso vai saindo.

MULDER: - Espere aí.

O Canceroso vira-se pra ele. Mulder tira o maço de cigarros do bolso e atira pra ele. O Canceroso o pega no ar.

MULDER: - Vai precisar disso.

O Canceroso olha pra ele. Sai pela porta dos fundos. Mulder abaixa a cabeça. Dá um sorriso cansado. Mas aliviado.


X


04/09/2000

6 Août 2019 19:15:46 0 Rapport Incorporer 1
La fin

A propos de l’auteur

Lara One As fanfics da One são escritas em forma de roteiro adaptado, em episódios e dispostas por temporadas, como uma série de verdade. Uma alternativa shipper à mitologia da série de televisão Arquivo X. https://www.facebook.com/laraone1

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