lara-one Lara One

Skinner ameaça Scully. Mulder toma noção da realidade e resolve continuar sua luta sozinho. Envolvido numa investigação, Mulder pode encontrar a verdade e salvar sua parceira. Mas ela aceitará sua ajuda? Ou será tarde demais? Agora é que Mulder realmente descobre se tem ou não amigos...


Fanfiction Série/ Doramas/Opéras de savon Interdit aux moins de 18 ans.

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S03#04 - VISÕES

INTRODUÇÃO AO EPISÓDIO:

Fade in.

Capitólio - Washington D.C. – 5:16 P.M.

Um senador sai, acompanhado da comitiva de seguranças e imprensa. O senador é bastante jovem para o cargo, entre uns 40 e 45 anos.

REPÓRTER 1: - O que vai fazer a respeito desse escândalo?

SENADOR: - Entraremos em reunião no senado para apurar as informações. Seja quem estiver por trás disso, o governo americano tomará as devidas providências.

REPÓRTER 2: - Senador, acredita que há um grupo paralelo dentro do governo que comanda as operações do tráfico de armas?

SENADOR: - Acredito que isto não passará desapercebido pelo congresso. A Casa Branca já tem as informações necessárias para o andamento das apurações. Vamos pegar os culpados, senhores. É o que posso dizer no momento.

REPÓRTER 3: - Senador, o senhor não teme algum tipo de reação, já que levou o caso para dentro do Senado?

SENADOR: - Estamos numa democracia. Somos um país livre. É isto o que nos torna americanos. A verdade será revelada, seja qual for. Não podemos nos calar diante dessa denúncia. Os Estados Unidos da América se traduz por duas palavras: verdade e liberdade.

Os repórteres continuam gritando, pedindo informações. O tumulto é enorme.

[Som: Rockwell – Somebody’s Watching Me]

Um senhor assiste tudo, no meio da multidão de pessoas. É um velho, de uns 70 anos, que segura uma bengala. Observa os movimentos como que hipnotizado.

O senador desce as escadas, acenando para as pessoas que o aplaudem.

O velho abre o casaco, retira uma arma. Do meio da multidão, ele dispara três vezes contra o senador.

O tumulto é geral. Corre-corre de pessoas.

Agentes do FBI procuram pelo atirador.

O velho continua parado ali.

Uma mulher ao ver o velho com a arma, começa a gritar.

Os policiais e o FBI se aproximam, algemando o velho.

O senador está caído no chão, ferido e sangrando. Um dos seguranças grita por ajuda. Paramédicos se aproximam.

O velho é algemado pelos agentes do FBI. Um dos agentes o segura pelos braços.

AGENTE: - Vovô, por que fez essa besteira?

MONROE: - ...

AGENTE: - Vovô?

O velho parece que está saindo de um transe. Olha para o senador, olha para os agentes, sem entender nada.

MONROE: - Por que estou aqui? Eu estava na minha sala assistindo o Bill Cosby... Onde estou? Quem é você?

VINHETA DE ABERTURA: SOMEBODY’S WATCHING... YOU!!!!


BLOCO 1:

Arquivos X – 8:03 A.M.

[Som: Black Crowes – Seeing Things]

Mulder, sentado em sua cadeira. Olhar perdido, brincando com uma borrachinha nas mãos. Pega pedacinhos de papel e fazendo a borrachinha como funda, mira na parede, atirando. Skinner entra.

SKINNER: - Onde está a Scully?

MULDER: - Foi embora.

SKINNER: - ... Como assim ‘foi embora’?

Mulder abaixa a cabeça sobre a mesa.

SKINNER: - Mulder...

MULDER: - Me deixa em paz... Sai daqui, não quero que me veja decaindo!

SKINNER: - ... Por que não tira o dia de folga?

MULDER: - Não quero ir pra casa.

SKINNER: - Dormiu aqui?

MULDER: - ...

SKINNER: - Mulder, vá pra casa dormir.

MULDER: - Acha que posso dormir?

SKINNER: - ... Tenho trabalho pra você. Acha que pode?

MULDER: - Claro que posso. Eu preciso fazer alguma coisa ou vou enlouquecer.

SKINNER: - Pegue com a minha secretária. É o caso do senador.

MULDER: - ...

SKINNER: - Viu pela TV?

MULDER: - Não vi TV ontem.

SKINNER: - Tem uma fita gravada na minha mesa. Olhe.

MULDER: - Tá.

Mulder começa a chorar. Seca as lágrimas, inspira fundo.

MULDER: - Ele foi até lá.

SKINNER: - Quem?

MULDER: - Ele... Obrigado.

SKINNER: - Eu não falei com aquele homem, Mulder.

Mulder ergue a cabeça.

MULDER: - Skinner, você teve família?

SKINNER: - Como assim?

MULDER: - Um pai, uma mãe... Irmãos...

SKINNER: - Claro que sim, Mulder. Ainda tenho meus pais e meus irmãos.

MULDER: - Seu pai alguma vez te deu conselhos?

SKINNER: - Sim. Mas o quê...

MULDER: - (SORRI) Deixa pra lá...

SKINNER: - ?

MULDER: - Conselhos, Skinner. Conselhos doem, às vezes vem de onde você nunca espera, mas eu entendi o recado.

SKINNER: - ...

MULDER: - Pelo menos, Skinner, ontem ele me salvou. De mim mesmo. Da minha própria derrota.

Skinner não entende nada. Sai. Mulder dá um sorriso desatinado.


Apartamento de Scully – 9:46 A.M.

Scully abre a porta. Skinner entra.

SCULLY: - Senhor?

Skinner vê as malas na sala.

SKINNER: - Agente Scully, se desertar do FBI vai ter problemas, sabia?

SCULLY: - Não vou desertar. Quero minha demissão.

SKINNER: - (GRITA FURIOSO) Pois eu não vou assinar!

SCULLY: - ...

SKINNER: - (IRADO) Você vai ficar no FBI nem que eu tenha que bater com a sua cabeça no chão até recuperar a memória!

Scully fica assustada. Skinner passa as mãos na cabeça.

SKINNER: - Meu Deus, mulher! O que pensa que está fazendo?

SCULLY: - Eu quero minha vida! Minha vida de volta! Mas agora tenho a certeza de que ela não voltará mais! (CHORA DESESPERADA) Eu quero viver!

Skinner fecha a porta.

SKINNER: - Se quer viver, agente Scully, volte pra aquele porão. Deixe Mulder ajudar você! Nunca discuta com Mulder! Você não sabe nada nessa altura do campeonato! Mulder é o único que pode dar sua vida de volta! Escute o que ele tem pra dizer! Fale com ele! Deixe de ser teimosa, ignorante e burra!

SCULLY: - ...

SKINNER: - Scully, estou sinceramente perdendo minha paciência com você!

SCULLY: - Saia daqui.

SKINNER: - Pois eu vou sair e você vai ir pro Bureau agora! Eu sou o seu chefe e exijo que tenha respeito comigo! Tenho um caso envolvendo uma tentativa de homicídio, minha cabeça está explodindo, o Capitólio quer resolução rápida e você vai me deixar na mão? Estou sem agentes disponíveis! Não tenho tempo pras suas besteiras!

SCULLY: - Eu não vou! Não sou apta pra isso.

Skinner aponta o dedo na cara de Scully.

SKINNER: - (AMEAÇADOR) Tudo bem, Scully. Se não estiver até o meio dia no Bureau, mandarei agentes até aqui. Se desaparecer, eu encontro você. E vou mandar prende-la por insubordinação ao seu superior e deserção da sua função pública. Isso se não conseguir uma ordem do FBI alegando que está louca e precisa ser internada.

SCULLY: - ...

SKINNER: - (AMEAÇADOR) Sabe que posso fazer isso.

Skinner sai, batendo a porta com força. Um dos quadros cai da parede. Scully começa a chorar.


Arquivos X – 11:09 A.M.

[Som: Foo Fighters – Walking After You]

Mulder lê alguns papéis. Scully entra, séria, sisuda. Mulder olha pra ela, surpreso. Scully vira o rosto.

MULDER: - Bom dia!

SCULLY: - ...

MULDER: - ... Mudou de ideia?

SCULLY: - Não te interessa se mudei de ideia ou não.

MULDER: - ... Desculpe. Só quero que saiba que se precisar, estou aqui pra ajudar com o que não souber e...

SCULLY: - Não preciso de ajuda. Posso me virar sozinha.

Mulder levanta-se. Pega o paletó.

MULDER: - Bem... Pode sentar-se, fazer seu trabalho.

SCULLY: - Não tenho nada pra fazer aqui. Por isso me colocaram nesse porão maldito!

MULDER: - Tem sim, Scully.

SCULLY: - Acham que sou um estorvo pra eles porque não me lembro nem como age uma agente do FBI!

Scully derruba lágrimas. Mulder fica com piedade, mas mantém-se afastado dela.

MULDER: - Não, eles te colocaram aqui porque sozinho não posso cuidar disso tudo.

SCULLY: - Não tem nada pra fazer aqui!

Mulder tenta animá-la.

MULDER: - Claro que tem. Eu preciso sair, resolver coisas e não posso ficar sozinho. Scully, preciso que me ajude. Aqueles arquivos estão misturados e eu confesso, mulheres sabem organizar melhor do que homens... São papéis de extrema importância para o Bureau e quero que você cuide deles, porque é uma agente competente... E se quiser, você pode ler tudo que encontrar, talvez se lembre de algum detalhe, pelas coisas que investigamos.

SCULLY: - ...

MULDER: - Vou deixá-la sozinha, vai ficar mais à vontade. Eu... Eu preciso sair pra resolver um caso.

Mulder sai da sala, fechando a porta.

MULDER: - Pra onde eu vou? Minha presença ali é transtornante pra ela... E eu não tenho nada, absolutamente nada pra fazer agora...

Mulder sobe as escadas.


Gabinete do diretor assistente Skinner – 12:11 A.M.

[Som: Rockwell – Somebody’s Watching Me]

Skinner olha pra Mulder. Mulder está abatido, cabisbaixo, brincando com peso de papel nas mãos.

SKINNER: - ... (SUSPIRA)

MULDER: - ...

SKINNER: - ... Vai ficar aí parado na minha sala brincando?

MULDER: - ... (PIDÃO)

SKINNER: - Mulder, o que acha se eu mandá-la pra uma missão?

Mulder ergue a cabeça. Abre um sorriso.

MULDER: - ... Acho que ela sentiria-se mais importante.

SKINNER: - ... Está bem, Mulder. Assistiu a fita com o noticiário?

MULDER: - Sim.

SKINNER: - Então sabe que acertaram dois tiros no Senador Crawford. Ele está em um hospital, sob vigilância do FBI. Acho que a Scully poderia fazer esse serviço. Pelo menos pra puxar uma arma e sair atirando, ela sabe. Coloco vocês na vigilância juntos, e você vai se responsabilizar por ela.

MULDER: - Tá, eu assumo qualquer besteira que ela fizer.

SKINNER: - Mas paralelo à isso, quero que descubra que raios está acontecendo. Como um velho pode atirar num senador e insistir que não se lembra como chegou ali?

MULDER: - Tenho dados sobre isso, Skinner. Vou estudar o caso.

SKINNER: - Preciso trocar o turno dos agentes... Vocês dois vão fazer a segurança do senador. Há 3 grupos de agentes. Revezem.

Mulder levanta-se. Coloca o peso de papel sobre a mesa.

SKINNER: - Não vai dizer que fazer vigilância de político é trabalho chato, pra iniciante?

MULDER: - ... É por uma boa causa.

Mulder sai. Skinner balança a cabeça, rindo.


Arquivos X – 1:31 P.M.

[Som: Foo Fighters – Walking After You]

Mulder, sentado no chão, lendo os papéis que Skinner entregou. Scully, sentada na cadeira de Mulder, lendo relatórios, comendo um sanduíche.

SCULLY: - Esta não é sua mesa?

MULDER: - (DISFARÇANDO) Não, esta mesa é sua. Eu nem fico muito tempo sentado...

SCULLY: - Não tem mesa?

MULDER: - Não, eu já pedi uma pra mim, mas... Não se preocupe. Eu sempre me sento no chão. Gosto de sentar no chão.

Scully continua comendo o sanduíche e lendo o relatório. Mulder lê os papéis.

SCULLY: - (INCRÉDULA) Monstro? Num lago?

Mulder olha pra Scully.

SCULLY: - Eu investigava essas besteiras? ... É isso o que esse departamento faz? Investigar besteiras?

Mulder ergue as sobrancelhas.

MULDER: - Bem, Scully, isso prova que o ceticismo independe do cérebro ou da memória...

SCULLY: - Ahn?

MULDER: - Nada... Bem, o que acha do caso que o Skinner nos deu?

SCULLY: - Não acho interessante, mas pelo menos não é uma bobagem! E eu vou fazer alguma coisa.

MULDER: - Consegue segurar a arma nas mãos?

SCULLY: - (ORGULHOSA) Consigo. Treinei tiro o final de semana todo. Surpreenderia-se com a minha pontaria.

MULDER: - (DEBOCHADO/ SACANA) Scully, mais que ninguém eu sei o quanto você segura bem uma arma. Acredite, você é muito especializada no assunto.

Scully continua lendo os relatórios. Mulder volta a ler o que estava lendo.

SCULLY: - O quê? Alienígenas?

Mulder olha pra Scully, em pânico. Scully vai passando as folhas uma pela outra e lendo os títulos.

SCULLY: - (INDIGNADA) Clones? Vírus mutantes? Vampiros? Espíritos desencarnados? Duendes? Eu não posso acreditar! Pra dizer a verdade, prefiro não lembrar de nada mesmo. Acho que eu era louca e isso tudo aconteceu pra eu tomar juízo!

MULDER: - ... (BOQUIABERTO)

SCULLY: - (SÉRIA) Agora vejo a ligação. Você é um perturbado! Não o culpo. (INCRÉDULA) Olha o que designaram pra você! Por isso é louco desse jeito! Nem sei como ainda não foi pro hospício! Devia processar o FBI por isso, Mulder. Eles são culpados pela sua loucura.

MULDER: - ... Mas... Scully... Eu abri os Arquivos X.

SCULLY: - ...

MULDER: - Você veio para me contestar... Não, não se preocupe, você não é uma pessoa louca. Você é cética, contesta minhas teorias baseada na ciência. Por isso te mandaram pra cá.

SCULLY: - Que alívio! Mas por que me mandaram pra cá se eu era competente e uma pessoa normal das ideias?

MULDER: - ... (RELUTANTE) ... Você aceitou. Disse que estava doida pra trabalhar comigo.

SCULLY: - (INCRÉDULA) Mulder, você mentiu. Eu era louca sim.

Scully sai da sala. Mulder suspira. Volta a ler os papéis.

MULDER: - Impressão minha ou isso é um deja vu?

Mulder levanta-se do chão. Abre o arquivo.

MULDER: - ... Vamos ver, vamos ver... Tem alguma coisa aqui...

Scully entra com um copo de água. Mulder a observa com o rabo dos olhos.

Scully senta-se, cruza as pernas. Mulder olha pras pernas dela. Scully não percebe. Mulder respira fundo e vira o rosto.

SCULLY: - O que está procurando aí?

MULDER: - ... (MURMURA) Depois que você prova a fruta fica viciado... Quando não tinha, não fazia diferença...

SCULLY: - Mulder?

Mulder está de olhos fechados, suando frio.

SCULLY: - Mulder?

MULDER: - Ahn?

SCULLY: - O que houve?

MULDER: - Nada, eu estava... Sonhando acordado. Você não se lembra, mas eu adorava fazer isso.

SCULLY: - Mulder, tem certeza de que não precisa de ajuda psicológica? Afinal, psicólogos também ficam perturbados...

Mulder tira uma pasta do arquivo. Fecha-o. Abre a pasta sobre a mesa.

MULDER: - Scully, sei que você esteve ocupada e... Por isso não deve ter assistido TV... Mas o Senado fez uma reunião de emergência pra apurar uma denúncia do senador Crawford sobre tráfico de armas envolvendo a alta cúpula de Washington.

SCULLY: - Sei. É o homem que devemos proteger.

MULDER: - É. Scully, estava lendo os papéis sobre a apuração do caso e parece que tem alguma coisa errada.

SCULLY: - Como assim?

MULDER: - Um velho. De 70 anos. Ele atirou no senador.

SCULLY: - Velhinhos podem ser perigosos, Mulder.

MULDER: - Não faz sentido, sabe por quê? O velho não lembra de ter feito isso. Lembra-se de estar em sua casa, assistindo TV e depois estava ali, atirando no senador.

SCULLY: - Acha que ele não atirou?

MULDER: - Não. Acho que ele foi forçado a fazer isso. E confesso, Scully. Tenho Arquivos X sobre esse tipo de coisa e não poderia chegar em melhor hora.

SCULLY: - Como assim, Mulder?

MULDER: - Acho que há uma ligação aqui, Scully. Entre esse velho e você.

SCULLY: - O quê?

MULDER: - Scully, eu não acredito que esse velho pegou uma arma e foi até o Capitólio pra matar um senador. E também não acredito que você tenha perdido sua memória. Ela está aí dentro da sua cabeça, mas algo está impedindo que saia.

SCULLY: - Não acredito em você, Mulder! Se estou desse jeito é porque você foi o culpado. E eu vou provar isso.

Scully fecha os olhos. Põe as mãos na cabeça. Mulder olha pra ela, preocupado.

MULDER: - Scully, o que aconteceu?

SCULLY: - Nada...

Scully abre a bolsa e pega um vidro de pílulas. Coloca duas na boca. Bebe água. Mulder fica olhando pra ela. Pega o vidro das pílulas.

MULDER: - Quem deu isso à você?

SCULLY: - A Dra. Otis. Isso alivia a dor.

MULDER: - Tranquilizantes? Anti-depressivos? Scully, pelo amor de Deus, pare de tomar isso!

SCULLY: - É? E acha que vou ficar sentindo essas dores?

Mulder aproxima-se dela. Scully afasta-se com a cadeira, arregalando os olhos, assustada. Mulder suspira.

MULDER: - O que está sentindo, Scully?

SCULLY: - ... Minha cabeça dói. E daí? Como se você se preocupasse comigo!

MULDER: - Dói onde?

SCULLY: - Tudo. Meu cérebro dói.

MULDER: - Ouve vozes?

SCULLY: - Vozes?

Scully levanta-se, irritada.

SCULLY: - Além de tentar me matar, está sugerindo que eu sou louca? Louco é você, agente Mulder! Um louco que deveria estar preso! Realmente, acredito que há uma conspiração aqui! Você faz parte dela, porque eu fui a vítima injustiçada! Você saiu impune de tudo, eu é que fui humilhada! Machismo! Puro machismo!

Scully sai porta à fora. Mulder suspira.

MULDER: - É... Provas de amor... Vai dizer que se eu não amasse você eu estaria aqui aturando isso tudo?


BLOCO 2:

Hospital Trinity – 8:39 P.M.

[Som: Black Crowes – Seeing Things]

Scully sentada num banco, no corredor, lendo uma revista.

Mulder, de pé, observa a porta do quarto do senador. Olha pra Scully, analisando-a.

Scully percebe. Tira os olhos da revista.

SCULLY: - O que foi?

MULDER: - Nada.

SCULLY: - Por que tenho a maldita sensação de que você não pára de olhar pra mim? Está achando que sou alguma maluca, ou que sou um dos seus alienígenas?

MULDER: - Estou achando que deveria conversar sobre o que está passando. Desabafar poderia ajudar.

SCULLY: - Não. Desista. Não vou conversar nada com você!

MULDER: - Scully, eu poderia te ajudar. Mas preciso que se ajude!

SCULLY: - Sei das suas vastas qualidades como psicólogo. Mas, obrigado. Já tenho uma psicóloga.

MULDER: - ...

SCULLY: - E pára de me analisar!

MULDER: - Tá bom, não estou analisando. Estou só olhando pra você, isso não tira pedaço...

SCULLY: - Pára de olhar pra mim, ou vou relatar isso ao senhor Skinner!

MULDER: - (RINDO) ‘Senhor Skinner’? ... É... As coisas mudam... O mundo muda... As pessoas mudam...

SCULLY: - Vai ficar filosofando aí, como um imbecil?

MULDER: - Não. Estou pensando em coisas sérias.

Scully desiste de ler e abaixa a revista.

SCULLY: - Que coisas sérias? Conspirações? Clones?

MULDER: - Não. Que eu adoraria estar num quarto fazendo amor com você, desesperada e apaixonadamente.

Scully levanta-se, atordoada, derrubando a revista e corre pras escadas. Mulder fecha os olhos. Tira o paletó. Caminha de um lado pra outro no corredor, secando o suor do rosto e sacudindo a camisa.

MULDER: - Ah, Deus! Mulder, cala essa maldita boca! Não tá ajudando em nada! ... Acho que vou subir pelas paredes! Anos sem ter, anos sem querer. Agora que tive, não posso deixar de ter!


Prisão Estadual da Virgínia - 7:33 A.M.

O guarda abre a cela. Mulder entra. O guarda tranca a cela novamente. Afasta-se. Mulder olha pro velho que atirou no Senador.

MULDER: - Senhor Monroe?

O velho olha pra Mulder.

MONROE: - Sente-se filho. O que quer?

MULDER: - ... Acho que sabe quem sou e o que quero.

MONROE: - Acha que sou adivinho?

Mulder dá um sorriso.

MULDER: - Está bem. Sou agente federal (MOSTRANDO A CREDENCIAL). E não quero tomar seu tempo.

MONROE: - Filho, tempo é a única coisa que tenho. Pedi uma televisão, mas eles não querem me dar. Fico doido quando chega alguém aqui pra conversar, nem que seja outro policial pra me interrogar e ter de contar toda a história novamente.

MULDER: - Não vou pedir pra que conte tudo novamente. Só quero confirmar. Estava em sua casa e depois estava na frente do Capitólio com uma arma nas mãos. É isso?

MONROE: - Sim. Mas eles dizem que sou velho e que tenho sérios problemas de isquemia cerebral. Que fiz o que fiz e não me lembro porque sou doente e velho.

MULDER: - Acredito que a sua doença seja resultado de alguma habilidade que tem. E não acredito que pensa que vim aqui pra interrogá-lo. Sabe porque estou aqui.

MONROE: - Eu estava assistindo o Cosby... Ah, adoro aquele sujeito! Ele me diverte. Eles estavam comemorando o aniversário de casamento dos pais dele. Iam dar uma viagem pra eles.

MULDER: - Ah, já assisti esse. É muito divertido. Mas não vim aqui pra falar do Cosby.

MONROE: - Não está dizendo que o Cosby me fez apertar um gatilho...

Mulder senta-se. Olha pro velho. O velho vira o rosto.

MONROE: - Não vai me deixar em paz, né?

MULDER: - Não. Sabe que não vou sair daqui antes que me diga a verdade.

MONROE: - ...

MULDER: - Li seus dados e descobri que trabalhou pro governo, nos anos 70... Isso é correto?

MONROE: - Sim.

MULDER: - Senhor Monroe, pode me dizer o que fazia pro governo exatamente?

MONROE: - Eu era do exército.

MULDER: - Senhor Monroe, o nome Scanate significa algo pro senhor?

MONROE: - ...

MULDER: - Eu sei que significa.

MONROE: - ... Não sei do que está falando, rapaz.

MULDER: - Acho que o usaram como bode expiatório e preciso que me ajude. Não acho justo que esteja aqui preso, enquanto poderia estar aproveitando sua vida lá fora.

MONROE: - Tenho pouco tempo de vida, filho. Que diferença isso faz?

MULDER: - Senhor Monroe, acredite, faz muita diferença. Entre terminar numa prisão sendo conhecido como quem atentou contra um senador ou terminar livre como um veterano que lutou pela sua pátria.

MONROE: - ...

MULDER: - (DEBOCHADO) Se eu chegar aos setenta anos, com uma cabeça decente, sem um tumor no cérebro e com cabelos, vou abrir uma champanhe e comemorar.

MONROE: - ... Não brinque com isso. Não pode saber o que o futuro lhe reserva. Eu tenho uma cabeça decente, mas os cabelos...

MULDER: - ... Devo me preocupar com isso?

MONROE: - ... Acho que deveria dizer: Pai, afasta de mim esse cálice. Embora tudo já esteja consumado.

MULDER: - ...

MONROE: - Eu trabalhava no projeto Scanate.

Mulder sorri.

MULDER: - Então confirma a existência do projeto?

MONROE: - Sim. Mas agora eu não sirvo mais pra isso.

MULDER: - Aposto que pode saber o que está escrito no papel que tenho no bolso.

MONROE: - ...

O velho fecha os olhos. Mulder fica curioso, num sorriso. O velho abre os olhos.

MONROE: - Passar na lavanderia pra pegar seu pijama do Scooby? (INCRÉDULO) Quem diabos usa pijama do Scooby Doo com essa idade?

Mulder tira o papel do bolso. Mostra para o velho, num sorriso.

Close no bilhete: Passar na lavanderia e pegar o pijama do Scooby.

O velho abaixa a cabeça.

MONROE: - É, meus netos adoram essas brincadeiras que faço com eles... Tenho saudade dos meus netos.

MULDER: - Acha que o governo poderia usá-lo como assassino?

MONROE: - Agente... Mulder, não é?

Mulder afirma com a cabeça.

MONROE: - Sou paranormal. Fui um espião psíquico. Cheguei a conhecer Pat Price, antes de morrer. Ele começou o projeto. Ainda se chamava Scanate. Quando ele morreu a versão oficial era que o projeto tinha acabado. Mas foi mentira! Haviam laboratórios de paranormalidade em cada canto desse país!

MULDER: - Os americanos estavam preocupados porque os russos, os alemães e até os ingleses já usavam espiões psíquicos. Como o projeto revelou dar certo, houve o patrocínio. Durante a guerra fria a espionagem psíquica se desenvolveu com rapidez. Os russos estavam adiantados, já faziam isso desde 1941.

MONROE: - Exatamente. Até Stalin tinha um conselheiro psíquico, que previu a morte de Hitler e a derrota da Alemanha na Segunda Guerra, numa época em que se pensava que isso era impossível. Mas não sei se poderiam ter me usado pra ser bode expiatório. Com que propósito?

MULDER: - Senhor Monroe, em 1995 o governo encerrou um projeto para desenvolver espiões psíquicos. Agora nega o fato. O senhor sabe a história toda. Não seria uma maneira de calá-lo?

MONROE: - ... O Stanford Research Institute, o SRI, foi deslocado da Califórnia para Washington em 1977. Era sede do Centro de Informação do Exército e tinha aproximadamente 50 oficiais. Procuravam candidatos com um perfil característico. De uma lista de 400 sobraram eu e mais 13. Fui treinado em ‘visão remota’, como eles chamavam. Havia conexão com a CIA, com o FBI, a DIA e o Conselho de Segurança Nacional.

MULDER: - O que faziam exatamente?

MONROE: - Nós conseguíamos usar a nossa paranormalidade pra enxergar campos estratégicos, arsenais russos, cartas, arquivos, cofres... Ajudei a encontrar espiões, desenhando mapas de lugares que eu nem conhecia! Uma vez desenhei um mapa que mais tarde soube que era uma região do Oriente Médio! E eu nem conheço o Irã! Localizava números de telefone, material radioativo, bases secretas... Colaborei na análise de planos, conceitos e idéias dos russos conhecidas pelo exército americano apenas mentalmente. (SORRI) Eu era bom. Tinha uma média de 85% de acertos.

Mulder fica empolgado. O velho continua falando. Também entusiasmado.

MONROE: - Filho, acreditaria que depois da Apolo 14, até a NASA ficou interessada nesse tipo de comunicação? Reduzia custos e podia ser bem mais rápida. Hoje vejo meus netos na Internet... Besteira! Eu sei das coisas antes deles.

MULDER: - Ficou por muito tempo nisso?

MONROE: - Bastante, até meados da década de 80. Em 77 o projeto mudou o nome para Grillflame. Então fomos enviados pra um novo centro de espionagem psíquica, em Maryland, chamado Fort Meade. Em 83, eles mudaram o nome pra Projeto Centerlane, que depois se tornaria Projeto Sunstreak, Stargate... Se lá que nomes usam agora. Até o Reagan nos usou pra saber quem deveria ser nomeado para os cargos no gabinete da presidência. Nós ajudamos o Bush a localizar mísseis iraquianos. Ora, fiquei sabendo que até o Clinton e a Hillary se comunicavam com Eleanor Roosevelt e Gandhi através da mediunidade.

MULDER: - Fantástico!

MONROE: - O Pentágono garantiria as verbas. Não estavam interessados em explicar o fenômeno. Queriam apenas que nós o praticássemos. Estava dando certo. Túneis secretos nas Coreias... Agora sabem até sobre os campos de treinamento de terroristas do Hezbollah! Fort Meade foi fechado em 85 mas eu garanto que eles só trocaram o nome e o endereço de novo.

MULDER: - ...

MONROE: - E o FBI sabe também. Acha que deixam você num porão por que estão preocupados com a verdade? Eles te dão corda, porque se não dessem, você já estaria fazendo alarde por aí. Melhor manter o inimigo por perto, assim sabe-se o que ele está fazendo.

MULDER: - Senhor Monroe, estaria disposto a contar sua história diante de um tribunal?

MONROE: - ... Tenho alguma coisa a perder?

MULDER: - Sabe que implantam chips de memória em assassinos programados pela CIA. Sei que pode me confirmar isso.

MONROE: - Sim. Eles implantam chips que, ativados à distância, faziam pessoas comuns se tornarem assassinos... Onde quer chegar com isso?

MULDER: - E se implantaram um chip em você?

MONROE: - ...

MULDER: - Sabe que implantaram. Eu sei que sabe.

MONROE: - ... Tudo bem, agente Mulder. Mas quem acreditaria em mim?

Mulder levanta-se.

MULDER: - Vai fazer alguns exames, senhor Monroe. Vamos mostrar que tem um chip alojado em seu cérebro.

MONROE: - ...

Mulder aproxima-se da cela. Chama o guarda com um assobio. Olha pro velho.

MULDER: - Esses chips poderiam fazer uma pessoa perder a memória por muito tempo?

MONROE: - Não, eles tem efeito rápido... Mas quem duvida da tecnologia?


Arquivos X – 9:21 A.M.

[Som: Rockwell – Somebody’s Watching Me]

Mulder entra. Scully está sentada, lendo relatórios. Mulder vai até o arquivo. Puxa uma pasta.

MULDER: - Quero que leia isso.

SCULLY: - E o que é ‘isso’?

MULDER: - Leia e depois me comente.

SCULLY: - Tem alguma coisa a ver com o caso?

MULDER: - Tem. Por quê?

SCULLY: - Porque se fosse a ver comigo, eu não iria ler.

Mulder põe a pasta sobre a mesa.

MULDER: - (INVOCADO) Por que não leria?

SCULLY: - Porque não acredito que suas bobagens possam me ajudar.

Mulder caminha até a porta.

SCULLY: - Mulder.

Mulder vira-se pra Scully.

SCULLY: - (RECEOSA) ... Eu quero perguntar uma coisa, que está me deixando intrigada.

MULDER: - O que é?

SCULLY: - ... Nós já dormimos juntos?

MULDER: - Por que isso é relevante? Sabe que dois agentes não podem se envolver emocionalmente e...

SCULLY: - Não falo de envolvimento... Já dormimos juntos?

MULDER: - (DEBOCHADO) Não. Nós nunca ‘dormimos’. Pode acreditar.

SCULLY: - Então por que minhas roupas estão em seu apartamento? Por que disse aquelas coisas?

MULDER: - Eu estava bêbado e aquelas roupas não são suas.

SCULLY: - De quem são?

MULDER: - Da minha ex-mulher.

SCULLY: - E aquele pijama que eu tenho um igual?

MULDER: - Ganhamos de presente do dono de uma confecção enquanto investigávamos um caso.

SCULLY: - ...

MULDER: - Por que perguntou isso? Como sabe das roupas femininas que tenho no meu armário?

SCULLY: - ...

MULDER: - Talvez eu tenha fetiche, goste de usar roupas femininas.

SCULLY: - Acho que são pequenas demais pra você.

MULDER: - ...

SCULLY: - Tá, desculpe. Eu não sei de onde tirei a idéia de que...

MULDER: - (ATIRANDO) Talvez por que a idéia te atrai?

SCULLY: - Não, pra dizer a verdade, não sei o que uma mulher pode ver em você.

MULDER: - (PÂNICO) ...

SCULLY: - Tá, você é bonitinho, mas tem um nariz muito grande e é louco.

MULDER: - ...

SCULLY: - Bom, de boca fechada...

Mulder aproxima-se de Scully. Ela se afasta. Mulder recua.

MULDER: - (IRRITADO) Vou te dar um único aviso, Scully: Não desafie minha masculinidade ou eu vou te mostrar o quanto o meu ‘nariz’ é grande.

Mulder sai, batendo a porta.

SCULLY: - (IRRITADA) Sujeito insuportável!


BLOCO 3:

Gabinete do diretor Assistente – 10:47 P.M.

Skinner toma um café, de pé ao lado da janela. Mulder anda de um lado pra outro.

SKINNER: - Isso explicaria. Tem uma pilha de casos investigados, advogados empolgados e vítimas que querem justiça. Não é novidade para o FBI.

MULDER: - Então concorda com a minha teoria?

SKINNER: - Vamos obter um mandado e levar o senhor Monroe pra fazer exames... A CIA tem conhecimento disso, Mulder, mas... Sabe como funcionam as coisas. Não podemos atacar a CIA. Como não podemos atacar o exército.

MULDER: - Mas o exército deve estar envolvido...

SKINNER: - Mulder, o que podemos fazer é mostrar a inocência do velho. Se o FBI descobrir o envolvimento do exército, o caso encerra pra nós e vai pra inquérito militar.

MULDER: - ... Skinner, preciso de um favor de amigo.

SKINNER: - Algum problema?

MULDER: - Acho que isso tem ligação com a Scully... Acredito que implantaram um chip na cabeça dela. O que fez com que suas lembranças fossem bloqueadas. Não foram apagadas, tá tudo lá ainda, mas estão sendo bloqueadas por eles.

SKINNER: - Quer que a obrigue a fazer exames?

MULDER: - Quero. Não posso pedir isso à Dra. Otis. Não confio nela. Vai dizer que estou maluco e se duvidar, me interna de novo.

SKINNER: - Mulder, acho que nunca te disse, mas tenho pavor de psicólogos, sabia? Você é o primeiro e único com quem consigo conversar por mais de 5 minutos. Psicólogos têm tendência em analisar as pessoas e as classificar dentro de padrões comportamentais. Fiz muita terapia depois que voltei do Vietnã, mas nunca me ajudou em nada.

MULDER: - Sua mente é quem pode te ajudar, Skinner. As respostas todas estão aí dentro. Os psicólogos só ajudam você a procurar.

SKINNER: - Eu mesmo procuro, Mulder. Não vou perder tempo falando sobre meus problemas na frente de alguém que fica sentado, olhando pro nada. Acredito até que nem estejam escutando. Devem estar pensando nos seus próprios problemas, como o pagamento do aluguel, ir à lavanderia...

Mulder sorri.

SKINNER: - Vou requisitar exames sob pretexto de avaliação do progresso mental dela e aptidão profissional.

MULDER: - Se eu pedir, ela não vai fazer.

SKINNER: - ... Como está indo?

MULDER: - ... Você passa mais de 10 anos da sua vida sem ninguém, se vacinado contra sentimentos porque sempre termina se machucando. De repente, o coração ganha a batalha. Depois, assim como veio, vai embora. Você sabe do que estou falando.

SKINNER: - Sei, Mulder. Entendo você perfeitamente. Até abrir a geladeira representa encontrar uma parte dela ali... Quando me divorciei, via pedaços da minha esposa por todo o lugar... Algumas vezes, ainda vejo.

MULDER: - ... Skinner, por que não tenta de novo?

SKINNER: - Não. Não quero mais me envolver. Eu acreditei que poderia ter uma mulher, filhos, uma vida normal. No entanto, estou envelhecendo sozinho... Eu queria ter um filho. Sempre quis ter filhos.

MULDER: - (DEBOCHADO) ... Talvez tenha e não saiba.

Skinner abaixa a cabeça e ri.

SKINNER: - Tá, Mulder, vamos voltar ao trabalho.

Mulder caminha até a porta. Pára. Olha pra Skinner.

MULDER: - Você tem alguma irmã solteira e disponível?

SKINNER: - Saia daqui, Mulder! Deixe minha irmã em paz, ela é casada!

Mulder sai rindo.


Hospital Trinity – 9:57 P.M.

[Som: Foo Fighters – Walking After You]

Scully está de pé, com os braços cruzados, encostada na parede. Mulder aproxima-se.

MULDER: - Desculpe o atraso. Estava investigando sobre chips.

SCULLY: - Aqui está tudo normal. O senador saiu, foi fazer exames, agora está no quarto.

Mulder senta-se.

MULDER: - Quer um refrigerante?

SCULLY: - Não.

MULDER: - Sente-se, Scully. Não precisa ficar de pé feito um robô.

Scully senta-se.

SCULLY: - Isso é chato. Já li, já tomei café, já andei de um lado pro outro...

MULDER: - Por falar em robôs, vou te contar uma piada. Um caipira texano, que nunca tinha viajado de avião, chegou no aeroporto. Então se deparou com um robô.

SCULLY: - Um robô?

MULDER: - É. Um robô. Havia um cartaz que dizia: Robô inteligente. Aí o caipira se aproximou e o robô falou: George McGuire, 44 anos, casado, passageiro do voo 732 da United.

Scully ri.

MULDER: - O caipira ficou fascinado. Como o robô poderia conhecê-lo? Então foi tentar sacanear o robô. Foi pro banheiro, raspou a barba e voltou. Ficou na frente do robô, que disse: George McGuire, 44 anos, casado, passageiro do voo 732 da United. Aí o caipira ficou pasmo: Como o desgraçado me reconheceu? E voltou pro banheiro, indignado.

Scully ri.

MULDER: - O caipira colocou uma peruca, batom, um vestido, se produziu todo e voltou pra frente do robô. O robô olhou pra ele e falou: George McGuire, 44 anos, casado, que por causa dessa viadagem toda perdeu o voo 732 da United.

Scully ri. Mulder olha pra ela.

MULDER: - É uma boa maneira de passar o tempo.

SCULLY: - Conta outra.

MULDER: - Ah, conta você.

SCULLY: - Não lembro de nenhuma. Eu contava piadas boas?

MULDER: - Você não costumava contar piadas, mas quando tirava pra ser sarcástica, conseguia me superar.

Scully sorri.

SCULLY: - ... O Senhor Skinner quer que eu faça outra tomografia... Tenho medo de estar pior do que estava.

MULDER: - Não, você tem melhorado.

SCULLY: - Não tente me animar. Eu sei que estou regredindo, Mulder.

MULDER: - ...

SCULLY: - Ontem comi apenas frutas. Não lembrava como se cozinhava.

MULDER: - Está começando a perder sua memória motora?

SCULLY: - O que é isso?

MULDER: - (SUSPIRA) Deixa pra lá, Scully. Eu aposto que vai conseguir melhorar.

Scully fecha os olhos. Recosta-se no banco.

MULDER: - Tá com sono?

SCULLY: - Humhum.

MULDER: - Dorme. Eu faço o primeiro turno.


11:43 P.M.

Mulder, escorado na parede, de pé, observa Scully dormindo. Um homem entra no corredor. Ao ver Mulder, dá meia volta. Mulder desconfia.

MULDER: - Scully.

SCULLY: - (SONOLENTA) Ahn?

MULDER: - Fica vigiando.

Mulder puxa a arma e sai atrás do cara. Scully puxa a arma e fica na porta, olhando pra todos os lados.

Corta para o fundo do corredor. O Canceroso aproxima-se, ao lado de um homem vestido de negro. Scully o observa. O Canceroso pára na frente dela.

SCULLY: - Quem é você?

CANCEROSO: - ... Está mal mesmo, Dana.

Scully aponta a arma.

SCULLY: - (NERVOSA) Quem é você?

CANCEROSO: - Pode baixar isso. Não se lembra de mim?

SCULLY: - Não sei quem é.

CANCEROSO: - (CÍNICO) Sou seu pai, Dana.

SCULLY: - Meu pai?

CANCEROSO: - Filha, como pode se esquecer de mim?

SCULLY: - ... (ELA GUARDA A ARMA, CONFUSA)

CANCEROSO: - Sou amigo do senador. Por que acha que ganhou essa missão? Recomendei minha filha a ele. Ninguém mais apto e capaz do que ela.

Scully abraça-se nele.

SCULLY: - Papai, por que não foi me visitar com a mamãe?

CANCEROSO: - Estava com alguns compromissos importantes. Sou senador também, se não se lembra... Aconteceu alguma coisa?

Scully afasta-se.

SCULLY: - Eu não sei. Meu parceiro saiu correndo e...

CANCEROSO: - Vamos tomar um café, Dana.

SCULLY: - Mas pai, não posso deixar o senador sozinho.

CANCEROSO: - Tranquilize-se Dana. Meu segurança ficará com ele.

SCULLY: - (NERVOSA) É seguro?

CANCEROSO: - Confie em mim.

Scully sorri. Sai de braços dados com o Canceroso. O homem verifica o corredor. Abre a porta do quarto e a fecha. Instantes depois, sai guardando a arma com silenciador dentro do paletó.


12:39 A.M.

Mulder com as mãos no rosto. Skinner olha pra ele.

SKINNER: - (FURIOSO) Isso foi irresponsabilidade! E não vai cair em você, vai cair em mim! Eu sou o responsável por ela estar nesse caso. Eu coloquei meu pescoço em jogo.

Tumulto de enfermeiras. Agentes impedem a imprensa de se aproximar. Skinner suspira, abaixando a cabeça.

SKINNER: - Mulder, tem menos de 1 minuto pra achar uma justificativa, ou nós três estaremos numa encrenca séria.

MULDER: - ... A culpa foi minha, Skinner. Não raciocinei. Era uma cilada. Vou assumir a responsabilidade.

SKINNER: - Mulder, isso não importa. Não vai demorar muito e o diretor entrará naquele corredor e vai sobrar pra qualquer um que usar uma credencial do FBI.

MULDER: - ... (NERVOSO) Eu devia ter dado ouvidos ao desgraçado! Ele me avisou!

SKINNER: - Do que está falando?

MULDER: - (REVOLTADO) Conselhos... Ele tava me dando a dica pra ficar de olhos abertos mas o tonto emocional aqui não conseguiu ver a verdade!

Mulder esmurra a parede, furioso. Skinner anda de um lado pra outro. Scully está num canto, abatida. O diretor entra no corredor, com uma cara de poucos amigos, passando pela imprensa, com vários agentes ao lado.

DIRETOR: - (FURIOSO) Diretor assistente, quero agora a cabeça do imbecil que deixou isso acontecer!!!

Skinner fica mais nervoso.

SCULLY: - Fui eu, senhor.

Mulder olha pra Scully, incrédulo.

DIRETOR: - Essa não é a agente que está com problemas psicológicos? Como deixa uma agente sair a campo num estado desses, senhor Skinner?

SKINNER: - É que...

Scully aproxima-se.

SCULLY: - Ele não sabia que eu estaria aqui, senhor. Nem o agente Mulder. Eu vim por conta própria e menti ao Mulder que estava no caso.

Mulder e Skinner olham surpresos pra Scully. O diretor olha pra Mulder, com censura.

DIRETOR: - Por que não verificou isso? Agente, sabe os nossos procedimentos!

MULDER: - Me desculpe, senhor, mas ela é minha parceira. Por que mentiria pra mim?

DIRETOR: - Como vou justificar isso no Senado? Como vou justificar à família? E a imprensa? E a opinião pública? O FBI ajuda a matar senador que tentava revelar escândalo no governo? Acho que será a manchete do jornal de amanhã.

O clima fica tenso. O diretor olha pros três.

DIRETOR: - Quero um relatório disso. Agora que a droga está feita, eu vou ter de achar um culpado. E não será eu, com certeza.

SCULLY: - Eu sou a culpada, senhor. Pode me afastar do FBI. Sou uma louca que não tem competência alguma.

DIRETOR: - Agente...

SCULLY: - Scully.

DIRETOR: - Agente Scully, pode acreditar que de louca você não tem nada. Louco são esses dois que pensam que vou acreditar que você fez isso tudo sozinha.

SCULLY: - Senhor, é verdade. Não estou apta pra função e peço que me puna da maneira que for necessária.

Mulder fecha os olhos.

MULDER (OFF): - Eu vou dizer que fui o culpado.

Mulder abre a boca.

CANCEROSO (OFF): - Vai entregar tudo por causa dela?

Mulder desiste de falar, perturbado.

DIRETOR: - Agente Scully, está fora do FBI. Pegue sua demissão amanhã cedo. E saiba que manteremos vigilância constante. Sua vida fora daqui implica que tenha conhecimentos sobre o Bureau. E isso não nos agrada lá fora.

Mulder arregala os olhos, perplexo. O diretor afasta-se. A imprensa começa a fazer perguntas, mas o diretor não responde nada.


Apartamento de Scully – 3:11 A.M.

Mulder olha pra Scully que arruma a mala.

MULDER: - Scully, isso não implica que tenha de sair de Washington e...

SCULLY: - Mulder, eu estou decidida.

Mulder tem um acesso de raiva. Derruba a estante ao chão. Scully fica catatônica, assustada. Mulder olha pra Scully, ameaçador.

MULDER: - (GRITA) Pois saiba que você se aproveitou da situação! Pensei que estava vendo a Scully que eu conhecia, ali, me defendendo. Mas não... Não era a Scully! Era você! Você aproveitando a chance pra cair fora do FBI! Pra fugir de mim!!!

SCULLY: - Não foi essa a intenção. Eu assumi minha culpa. Eu fui culpada. Não era justo que você ou o senhor Skinner sofressem as conseqüências. Eu não deveria ter saído com o meu pai e...

MULDER: - (GRITA) Ele não é seu pai! Ele é o nosso maior inimigo! Ele te deixou nesse estado e jogou a culpa toda em cima de mim! Ele queria nos afastar, Scully, porque nós dois juntos funcionamos como morangos e chantili!

SCULLY: - Mas...

MULDER: - (GRITA) Ele não é seu pai! Seu pai está morto!

Scully olha pra Mulder e derruba lágrimas. Mulder percebe a besteira que falou.

MULDER: - Ah, Scully, me desculpe... Eu... Eu estou nervoso, não deveria ter falado dessa maneira e...

SCULLY: - ... Eu tenho que ir embora! Eu preciso ir embora!

O celular de Mulder toca. Ele atende.

MULDER: - Mulder.

SKINNER (OFF): - Mulder, o senhor Monroe está morto.

Mulder fecha os olhos.

SKINNER (OFF): - Os exames foram queimados. Tudo desapareceu sem deixar vestígios.

MULDER: - ...

SKINNER (OFF): - A situação está assim: Monroe apareceu enforcado na cela. A versão oficial é de que se suicidou.

MULDER: - (FURIOSO) Malditos desgraçados!

SKINNER (OFF): - A imprensa recebeu uma nota oficial do FBI e da CIA, dizendo que terroristas mataram o senador pra não terem seus nomes divulgados. Uma lista apareceu na última hora no gabinete do senador, contendo nomes com 3 ou 4 consoantes seguidas.

MULDER: - (INCRÉDULO) Colocaram a culpa nos árabes?

SKINNER (OFF): - A segurança do FBI foi burlada por dois terroristas que disfarçados de médicos, mataram os agentes que estavam na vigilância.

MULDER: - Skinner, é mentira demais! Como essa gente pode ficar impune? Meu Deus! Quando aparece alguém que quer mostrar a verdade, eles o matam! E o povo ainda acredita!

SKINNER (OFF): - Isso não isenta a culpa da Scully.

MULDER: - E no hospital? Alguém vai desmentir!

SKINNER (OFF): - Não houve testemunhas, Mulder. Era uma ala de acesso restrito.

Mulder desliga. Olha pra Scully.

MULDER: - (INDIGNADO) Pode fazer um favor pra mim? Só um favor? Acho que não vai te custar nada. Vá até o hospital e faça uma tomografia da sua cabeça.

SCULLY: - (TEIMANDO) Por que eu faria?

Mulder tem um acesso de raiva e agarra Scully pelos braços, a sacudindo.

MULDER: - Por que se não fizer, eu te mato.

Scully fica assustada. Procura a arma com os olhos. Mulder a puxa porta à fora. Encosta a arma nela.

MULDER: - Vamos agora pro hospital. E se piar, Scully, eu atiro. Sabe que eu faria isso.

SCULLY: - ... Eu tinha razão... Você não é o que dizem... Você tentou me matar.

MULDER: - E vou matar se não se comportar. Minha paciência acabou!

4:55 A.M.

Mulder sentado no corredor do hospital. Margaret aproxima-se. Mulder levanta-se.

MARGARET: - Como ela está?

MULDER: - Me desculpe, Meg. Mas tive de trazê-la à força... Os exames foram feitos e... (CHORA) Não há nada na cabeça dela! Nada!

Margaret o abraça, também em lágrimas.

MARGARET: - Fox...

MULDER: - (INCONSOLADO) Meg, eu estava errado esse tempo todo! Como eu pude errar tanto! Que profissional eu sou que não detecto uma amnésia quando todo mundo, até os leigos sabem disso!

MARGARET: - Fox, você tentou...

MULDER: - Meg, leve-a pra casa.

Mulder sai desatinado do hospital. Margaret começa a chorar.


BLOCO 4:

Três semanas depois...

Arquivos X – 5:18 P.M.

[Som: Black Crowes – Seeing Things]

Mulder está ao telefone.

MULDER: - (IRRITADO) Mas eu preciso dessa autópsia pra ontem! ... Estou com a investigação parada por causa de vocês!

Mulder desliga o telefone. Abaixa a cabeça.

MULDER: - ... (TENTA SORRIR) Tudo voltou a ser como era. Aqui estou, sozinho, sem ajuda, dependendo daqueles caras lá em cima... Ah, Scully! Começo a pensar que o Fumacinha colocou você aqui não pra me contestar, mas pra facilitar o meu trabalho... (RI) Besteira! Que intenção ele tem que a verdade apareça?

Mulder levanta-se. Pega o paletó.

MULDER: - Bem, Mulder. Há alguns anos atrás, você fazia esse ritual. Pegava o paletó, trancava sua alcova... Ia até o bar, tomava alguma coisa, comprava um lanche e ia pro seu apartamento dar comida pros peixes e ver fitas pornôs. Acostume-se com isso de novo. Vai chegar o dia que vai ter de encarar a verdade... Mas enquanto não chega, vamos pra casa da Meg, ver como nossa garotinha está.

Mulder abre a porta.


Apartamento de Mulder – 8:13 P.M.

Mulder deitado no sofá, em lágrimas. Assistindo TV. Ao lado dele, uma garrafa já vazia. Mulder levanta-se. Caminha até o quarto. Olha pra tudo.

MULDER: - Quem precisa de quarto?

Mulder começa a quebrar tudo, numa acesso de raiva e desespero.


9:21 P.M.

Mulder abre a porta. Frohike olha pra ele.

FROHIKE: - Sabia que tem amigos?

MULDER: - É? E onde estão?

FROHIKE: - Do outro lado da linha telefônica. Basta ligar e chamar. Eles ainda não são paranormais.

Frohike olha pro quarto.

FROHIKE: - O que aconteceu?

MULDER: - Nada.

Mulder tranca o quarto. Entra no banheiro. Joga a chave na privada. Dá a descarga. Frohike olha pra Mulder que está desatinado.

MULDER: - Não preciso de quarto. Nunca precisei.

FROHIKE: - Ótimo. Agora vai fazer dele um depósito de lixo novamente? Ah, não, você jogou a chave fora... Pegou as roupas pelo menos?

MULDER: - Estão penduradas naquele cabide.

FROHIKE: - Ah, legal. Todas?

MULDER: - Não. Tenho algumas no armário da cozinha novamente.

FROHIKE: - Interessante. Sem quarto...

Mulder vai pra sala. Frohike atrás dele.

FROHIKE: - Quer comer alguma coisa?

MULDER: - Não.

FROHIKE: - Quer sair pra beber?

MULDER: - Não.

FROHIKE: - Estou saindo com uma garota. Ela tem uma amiga.

MULDER: - Não.

FROHIKE: - Recusando sexo, Mulder?

MULDER: - Nunca recuso sexo.

FROHIKE: - Acabou de recusar.

Mulder joga-se no sofá.

FROHIKE: - Tem um bate papo interessante num chat.

MULDER: - Não.

FROHIKE: - Acharam os Ets de Roswell.

MULDER: - Não.

Frohike suspira. Senta-se ao lado de Mulder e abre a boca para dizer algo.

MULDER: - (IRRITADO) E não me venha com conselhos!

FROHIKE: - Só ia dizer que a sua garrafa tá com defeito. Está furada.

Mulder levanta-se. Vai pra cozinha. Volta com dois copos e uma garrafa de uísque. Serve os copos. Frohike o observa.

FROHIKE: - Onde ela está?

MULDER: - ... Com a mãe dela.

FROHIKE: - ... Como ela está?

MULDER: - (TRISTE) Está bem. (COMEÇA A CHORAR) Está numa cama, não come, não fala e o médico disse que ela não tem chances de sobreviver. Hoje à tarde, perdeu os sentidos.

Mulder debruça-se sobre as pernas e chora como um desesperado. Frohike fecha os olhos.

MULDER: - (CHORANDO) Por quê? Aquele maldito desgraçado! Eu vou matar ele! Eu disse que se tocasse nela eu o mataria! ... Por quê? Por quê?

FROHIKE: - Mulder... Tem coisas que nunca se diz pra um amigo, às vezes por falta de oportunidade...

MULDER: - ... (CHORANDO)

FROHIKE: - Acredito em você, Mulder. Sempre o respeitei, porque acredito em você. Sua paranoia não é à toa. Eu sei que está certo, Scully não pode estar com amnésia.

MULDER: - (CULPADO) Eu errei, Frohike!

FROHIKE: - Não. Penso que um psicólogo como você, com a inteligência que tem, não erraria tão feio. Tem alguma coisa acontecendo, Mulder, mas acho que seu desespero não o deixa ver.

MULDER: - (CHORANDO) Vai embora, Frohike! Não quero que me veja nesse estado.

FROHIKE: - Mulder, amigos são pra esse estado, não só pra jogar boliche e contar piadas.

Mulder chora convulsivamente.

FROHIKE: - Não é vergonha chorar, Mulder. Pessoas com sentimentos choram. Pessoas humanas sofrem, choram, se desesperam, cometem besteiras, amam e sofrem por amor. Os insensíveis não.

MULDER: - ... (CHORANDO)

FROHIKE: - E afinal as mulheres nem sabem o quanto nós homens choramos.

MULDER: - (CHORANDO DESESPERADO) Eu a amo, Frohike! Sabe que costumo não me abrir a respeito de mim mesmo, mas... eu amo a Scully! Minha vida nesse mês têm sido um suplício... Eu preciso dela do meu lado... Estou desmoronando...

FROHIKE: - E ela precisa de você.

MULDER: - (CHORANDO) Eu vou todo o dia lá, mas hoje não dá! Eu não vou conseguir vê-la daquele jeito!

FROHIKE: - Mulder... Se quiser vou com você. Sei que quer estar perto dela. Independente do estado em que ela se encontre.

Mulder levanta-se. Pega uma jaqueta e veste. Pega as chaves do carro.

MULDER: - (CHORANDO) Frohike, dirige pra mim. Não quero fazer besteira, estou bêbado.


Residência de Margaret Scully – 10:44 P.M.

Margaret abre a porta do quarto. Mulder entra. Margaret fecha a porta, deixando-o sozinho com Scully.

[Som: Foo Fighters – Walking After You]

Mulder aproxima-se da cama. As lágrimas vão caindo. Ele olha ternamente pra parceira. Scully está dormindo. Está pálida de fraqueza. Mulder pega a mão dela e segura entre as suas mãos.

MULDER: - Scully... Na vida e na morte. Na saúde e na doença...

Mulder ajoelha-se ao lado da cama, segurando a mão de Scully. Afaga-lhe os cabelos.

MULDER: - (CHORANDO) Tão linda... Já lhe disse isso?

Mulder a admira, olhando pra Scully ternamente.

MULDER: - Sabe aquele caso que te contei ontem? As coisas não estão indo bem. Atrasaram a autópsia novamente, dizendo que eles têm outras prioridades... (SORRI) A minha médica nunca tinha outras prioridades... (SUSPIRA) A minha médica... Quantas vezes você me curou, cuidou de mim e... Eu não fiz isso. Quando chegou a hora de eu ser o seu médico, dei um diagnóstico falho...

Mulder debruça-se sobre Scully, chorando.

Corta pra sala. Margaret e Frohike conversam. Olham pras escadas. Mulder desce as escadas com Scully nos braços. Olhos inchados de chorar. Meg olha pra ele, assustada.

MULDER: - Vou levá-la pra casa.

MARGARET: - Mas Fox...

MULDER: - Não, Meg. Ela iria querer morrer na cama dela, do meu lado. Eu sei disso, eu conheço a minha Scully.

MARGARET: - ...

MULDER: - Já liguei pro FBI e mandei irem pra longe. Eu tenho outras prioridades, Meg... Frohike, abre a porta.

Meg derruba lágrimas.

MULDER: - Meg, há anos atrás eu não privaria você de cuidar da sua filha. Mas hoje, Meg, ela é minha mulher. Eu espero que entenda isso.

Frohike abre a porta. Meg chora. Mulder sai com Scully nos braços.


Apartamento de Scully – 2:19 A.M.

Mulder sai do quarto. Frohike olha pra ele. Mulder sorri abatido.

MULDER: - Vai, meu amigo. Obrigado pelo que fez por mim, mas... vá descansar.

Frohike abre a porta.

FROHIKE: - Tem meu telefone.

MULDER: - Tá.

Frohike sai. Mulder fecha a porta. Volta pro quarto. Deita-se na cama, ao lado de Scully.

MULDER: - Pelo menos está em casa. Sei que gosta disso.

Mulder coloca a mão debaixo do nariz dela.

MULDER: - ... Tá, ainda consegue respirar... Tenho de ficar atento... O cérebro pode afetar essa função...

Mulder olha pra Scully. Toma-a nos braços e a abraça. Afaga-lhe os cabelos.

MULDER: - Amo você. Se for, me espera. Eu prometo que vou logo. Basta você parar de respirar e eu vou atrás de você.

Mulder continua afagando-a, ternamente.

MULDER: - Eu não vou matar aquele desgraçado. Não vou ter tempo pra isso. Prefiro ficar com você... Ah, esqueci de te dizer que a Samantha voltou... Pra dizer a verdade, você nem acreditaria. Os caras que a levaram, se deram mal. Apareceu um time armado e acabou com a festa deles... Você sabe que a Samantha tá de caso com o mafioso. O cara tem vigilância constante em cima dela... Parece que a polícia de Nova Iorque está assustada com o repentino ataque da máfia contra um prédio de seguros na Rua 46 Este... É, Scully. A máfia contra a máfia. A Samantha tá bem cuidada.

Mulder abraça-a com mais força contra seu peito. Começa a chorar.


Uma semana depois...

4:13 P.M.

No quarto de Scully, Mulder conversa com Skinner. Mulder está estranho.

SKINNER: - (ABATIDO) Mulder, tem certeza...

MULDER: - Tenho. Ela quer ficar aqui.

SKINNER: - Estendi sua licença por mais duas semanas... Mulder, me ligue se precisar.

Skinner sai do quarto.

[Som: Foo Fighters – Walking After You]

Corta pra Scully deitada na cama, ligada a aparelhos de oxigênio. Mulder senta-se na cama, abatido.

MULDER: - (CULPADO) Se eu tivesse ido atrás de você, nada disso teria acontecido... Mas eu nunca fico do teu lado, eu sempre quero correr atrás da verdade. Atrás da justiça. Mas dessa vez, Scully, eu vou ficar. A verdade está aqui, morrendo. Essa é a minha verdade. A maior de todas as verdades. E não há justiça nesse mundo que apague o que fizeram com você.

Mulder escuta a porta batendo-se. Percebe que Skinner foi embora. Mulder levanta-se. Pega a arma. Verifica o cartucho. Coloca sobre a cama. Senta-se.

MULDER: - (SORRI) Romeu e Julieta... E eu que achava essa história banal e boba... (TRISTE) A gente muda, Scully. A vida ensina aos tapas e pontapés... A vida mostra que muitas vezes você está errado. Eu errei. Achei que você não estava com amnésia, que haviam implantado um chip no seu pescoço e... (SORRI) Desculpe. Um chip na sua cabeça... Já estou confundindo os chi...

Mulder pára. Levanta-se, num desatino e sai desesperado do quarto. Pega o telefone. Disca.

MULDER: - Hospital de Oak Ridge? Preciso falar com o Dr. Caulfield ou a enfermeira Natália. Aqui é o agente Mulder do FBI e isto é uma prioridade!


5:38 P.M.

Mulder abre a porta. Os pistoleiros entram.

MULDER: - (DESESPERADO) Eu sou um imbecil! Mandei fazerem tomografias do cérebro dela! Não percebi que não era o cérebro! Preciso que me ajudem. E nunca precisei tanto de vocês.

Mulder vai pro quarto. Eles o seguem. Scully está de bruços na cama.

FROHIKE: - Mulder o que houve?

MULDER: - Não posso removê-la daqui pra um hospital.

FROHIKE: - Mulder...

MULDER: - Há dois chips no pescoço dela!

BYERS: - Dois?

MULDER: - E vamos ter que tirar um.

Langly arregala os olhos.

LANGLY: - Mulder... Isso é como aquela história de cortar o fio azul ou o vermelho? Você sabe qual o fio que aciona a bomba?

Mulder abre uma gaveta. Tira a maleta médica de Scully. Pega um bisturi.

MULDER: - Pelo menos podem esterilizar isso?

Frohike pega o bisturi e sai do quarto. Langly olha pra Mulder.

LANGLY: - Desde quando sabe fazer cirurgias ambulatoriais?

MULDER: - Não sei. Mas tive de abrir cérebros na faculdade. Não deve ser difícil.

LANGLY: - (PÂNICO) Pelo amor de Deus! Você está mexendo no pescoço dela! O chip está alojado na medula espinhal ...

MULDER: - Cale a boca, eu sei onde isso fica! Tive aulas na faculdade, já a vi fazendo isso... Não me deixem mais nervoso!

Byers está apavorado.

BYERS: - Mulder o que posso fazer por você?

MULDER: - Já vai me ajudar. Espere um pouco.

LANGLY: - (PÂNICO) E a anestesia? Não vai dar uma anestesia?

MULDER: - Acha que ela tá sentindo alguma coisa se não consegue nem respirar?

LANGLY: - Se acordar vai sentir...

MULDER: - Espero que sinta dor. Porque daí saberei que está viva.

Frohike entra com o bisturi. Mulder coloca as luvas.

MULDER: - Estômagos fracos podem sair daqui. Byers, você fica.

BYERS: - Mas eu sou o estômago mais fraco!!!!

Mulder senta-se na cama. Limpa o pescoço de Scully com álcool. Nervoso.

MULDER: - Scully, eu não tenho sua pontaria, não sou médico, sou apenas um psicólogo louco... Me perdoa. Se ficar cicatriz, eu pago a plástica depois.

6:01 P.M.

Close do rosto de Byers, Frohike, Langly e Mulder, olhando pro pescoço de Scully.

FROHIKE: - Acho que é o da direita.

BYERS: - Não é. Se me lembro bem é o da esquerda. Eu vi essa coisa no microscópio.

MULDER: - (DESESPERADO) Pelo amor de Deus se decidam!

BYERS: - ... O da esquerda... é o da esquerda.

Mulder aproxima a pinça do pescoço de Scully, abrindo o corte com as mãos ensanguentadas.

LANGLY: - Não! O da direita.

BYERS: - Não, é o da esquerda!

FROHIKE: - Acho que é o da esquerda.

MULDER: - (PÂNICO) Pelo amor de Deus, eu não estou desarmando uma bomba! Qual deles eu tiro?

BYERS: - O da esquerda, Mulder.

MULDER: - Tem certeza? Se eu tirar o chip errado não vamos ter tempo pra descobrir.

Byers aproxima-se com uma lente de aumento.

BYERS: - São parecidos, Mulder, mas não são iguais. Acredite, eu me lembro. É o da esquerda. Há um código diferente e eu não me engano.

MULDER: - Byers, se ela morrer você vai com ela.

BYERS: - Vai Mulder, é o da esquerda.

Mulder coloca a pinça no pescoço de Scully. Retira o chip. Frohike segura um guardanapo de papel. Mulder põe o chip ensanguentado sobre o papel.

FROHIKE: - Como vai fechar isso?

MULDER: - (PÂNICO) Eu sei abrir. Fechar nem imagino como!

Eles ficam em silêncio. Olham pra Scully, apreensivos. Mulder já está derrubando lágrimas.

LANGLY: - Mulder, acho que era o da direita.

MULDER: - E agora? Será que vou conseguir pôr isso no lugar em que estava?

Os três se olham. Scully move a cabeça. Mulder olha pra Scully, assustado.

MULDER: - Scully... Scully, fala comigo, por favor!

Scully começa a tossir e aspira fortemente, como se estivesse sentindo falta de ar.

LANGLY: - Eu disse, era o outro.

FROHIKE: - Cala a boca!

SCULLY: - Ai!...

Mulder sobe na cama e fica olhando pra Scully, apreensivo.

[Som: Foo Fighters – Walking After You]

Scully abre os olhos. Tenta se localizar. Olha pra Mulder com o bisturi e as luvas ensanguentadas.

SCULLY: - (AINDA FRACA) Mulder... Não era essa a minha ideia de ... Brincar de médico.

Mulder começa a chorar, a rir, tudo ao mesmo tempo.

LANGLY: - Vou chamar uma ambulância.

Langly vai pra sala, desatinado. Scully tenta se virar, mas não consegue.

MULDER: - Scully, fica relaxada, tá legal. A ajuda já tá vindo.

SCULLY: - ...

MULDER: - Sabe quem sou eu?

SCULLY: - Sei. Um louco!

Mulder olha pra Scully, assustado.

SCULLY: - Mulder, o que fez com o meu pescoço? E por que estou aqui nessa cama? E o que faz com o meu bisturi? Mulder, juro que vou te esganar, seu monstro, asqueroso e insensível!

MULDER: - ... (SORRI)

SCULLY: - Vai ter que me dar explicações racionais e científicas pra isso! E o que esses três doentes mentais fazem aqui com você? Mulder, não sei o que está acontecendo, mas eu juro que vou atirar em você quando sair daqui.

FROHIKE: - (DEBOCHADO) Mulder... Aproveite que a ambulância não chegou e coloca o chip de volta. Se quiser, tenho um chip desenvolvido pela Organização de Defesa dos Direitos do Homem... Você pode programá-la do jeito que quiser... Não tem erro. Lava sua roupa, faz sua comida, sexo o dia todo sem reclamar e ainda lhe chama de ‘meu senhor’.

SCULLY: - ... Frohike... você está... na minha lista negra.

Frohike olha pra Mulder. Os dois riem.

Fade out.

X


22/05/2000

4 Août 2019 20:41:48 0 Rapport Incorporer 1
La fin

A propos de l’auteur

Lara One As fanfics da One são escritas em forma de roteiro adaptado, em episódios e dispostas por temporadas, como uma série de verdade. Uma alternativa shipper à mitologia da série de televisão Arquivo X. https://www.facebook.com/laraone1

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